UMA PASSAGEM DE ANO NO SÉCULO PASSADO
Maria de Lourdes Hortas
Enquanto as lembranças do Natal da infância permanecem bem
acesas na minha memória, as do Ano Novo escondem-se, quase insignificantes. A
meia-noite era tarde demais para meninas ficarem acordadas e justamente nessa
hora o Ano Velho se despedia, partindo, sabe-se lá para onde, e logo chegava o
outro, bem novinho, e na minha imaginação de menina podia ver o velhinho curvo
subindo a serra, resfolegando, e o ano bebezinho envolto em cueiros despencando
do céu...
Na verdade, só me lembro da última passagem de ano da minha
família na casa da rua do Convento.
Foi a de 1949 para 1950.
Naquela noite de 31 de dezembro, a seguir ao jantar, minha
avó e as meninas que trabalhavam lá em casa começaram um grande rebuliço para
os lados da cozinha, azáfama e barulheira, a tirar as tampas das panelas e
levá-las todas para uma pequena mesa da sala de estar, ritual aparentemente
inexplicável, mas que depois se veio a saber para o que seria...
Houve a seguir um arrastar de cadeiras, na mesma salinha,
todas a postos para subirmos nelas, dizia a organizadora, que era Vovó
Guilhermina, sempre ela, comandando as festas. Eu não tirava os olhos do
relógio, que caminhava em passinhos de tartaruga. Ansiosa, alguma coisa se
mexia na minha barriga, acho que fome: - Vovó posso comer um bolo? Espera,
querida, deixa vir o ano novo e então comemos... posso jurar que, na mesa
recém-posta, havia bolo de azeite, cavacas e biscoitos e talvez uma bandeja de
filhoses do Natal, além de tacinhas com figos secos e nozes, uma garrafa de
vinho do Porto, as chávenas, depois viria o chá, mas o bendito relógio não
avançava, passos de preguiça, onze e meia, sem pressa, onze e trinta e cinco,
sonolento, pé-ante-pé, dez para a meia-noite...
Frio... A braseira já esmorecendo...alguém a atiçava. Tinham
que estar bem vivas as brasas para o ano novinho se aquecer... e eu já me
encostava no colo do meu pai, cochilando, enquanto Maninha desabava na grande
cadeira de braços... isso sou eu que estou inventando, para matar o tempo e
para trazer para aqui aquela cadeira tão linda, tenho uma foto de menina
sentada nela, a cadeira que vovô Mateus fez...
Então despertei!
E agora sim, vai chegando a meia-noite minha gente, clamava
Vovó, rápido, todos a postos, menos de cinco minutos...descoberto o mistério
das tampas das panelas, cada um pegava duas, subia na sua cadeira e à
meia-noite em ponto todos bateriam com força, para enxotar o ano velho... Subia-se
para as cadeiras para o ano velho passar debaixo, arrastado, ou de gatas, não
sei...
Mas então Vovó Guilhermina viu que uma das cadeiras estava
vazia. Era a do Vovô Mateus! Ó homem de Deus, onde é que tu te meteste? Onde
foste, criatura? Alguém falou que o viu entrar na casa de banho...
O quê?
Todos riam e gritavam:
- Vovô! Vovô!.
- Senhor Mateus!
- Meu pai!
- Meu sogro!
- Ó homem, onde te meteste?
Mas ele saiu a tempo, serelépido: Psiu! Tenham calma, falta
um minuto!
E logo agarrou os últimos testos, assim se chamam as tampas
das panelas em Portugal, e todos começaram na grande barulheira, pandemónio na
verdade, para enxotar o ano velho e acordar o novo, trás, trás, trás, trás...
E assim entrou 1950. Para todos nós um ano de grandes
mudanças.
(in AS CASAS DO DESTINO, memórias. A publicar, em breve)
Notas:
Texto retirado da página do facebook da autora.
Para os mais jovens, informo que Maria de Lourdes Hortas é uma poetisa brasileira, nascida em São Vicente da Beria, filha do dono da farmácia da época, então situada na Rua do Beco, à direita de quem desce. A família habitava na rua do Convento, na casa em frente à do João Craveiro, onde durante perto de dois séculos viveu a família Pereira. A pequena Lourdes tinha 10 anos quando emigrou para o Brasil, com a família.
José Teodoro Prata




