quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Enxotar o ano velho!

 UMA PASSAGEM DE ANO NO SÉCULO PASSADO

Maria de Lourdes Hortas

Enquanto as lembranças do Natal da infância permanecem bem acesas na minha memória, as do Ano Novo escondem-se, quase insignificantes. A meia-noite era tarde demais para meninas ficarem acordadas e justamente nessa hora o Ano Velho se despedia, partindo, sabe-se lá para onde, e logo chegava o outro, bem novinho, e na minha imaginação de menina podia ver o velhinho curvo subindo a serra, resfolegando, e o ano bebezinho envolto em cueiros despencando do céu...

Na verdade, só me lembro da última passagem de ano da minha família na casa da rua do Convento.

Foi a de 1949 para 1950.

Naquela noite de 31 de dezembro, a seguir ao jantar, minha avó e as meninas que trabalhavam lá em casa começaram um grande rebuliço para os lados da cozinha, azáfama e barulheira, a tirar as tampas das panelas e levá-las todas para uma pequena mesa da sala de estar, ritual aparentemente inexplicável, mas que depois se veio a saber para o que seria...

Houve a seguir um arrastar de cadeiras, na mesma salinha, todas a postos para subirmos nelas, dizia a organizadora, que era Vovó Guilhermina, sempre ela, comandando as festas. Eu não tirava os olhos do relógio, que caminhava em passinhos de tartaruga. Ansiosa, alguma coisa se mexia na minha barriga, acho que fome: - Vovó posso comer um bolo? Espera, querida, deixa vir o ano novo e então comemos... posso jurar que, na mesa recém-posta, havia bolo de azeite, cavacas e biscoitos e talvez uma bandeja de filhoses do Natal, além de tacinhas com figos secos e nozes, uma garrafa de vinho do Porto, as chávenas, depois viria o chá, mas o bendito relógio não avançava, passos de preguiça, onze e meia, sem pressa, onze e trinta e cinco, sonolento, pé-ante-pé, dez para a meia-noite...

Frio... A braseira já esmorecendo...alguém a atiçava. Tinham que estar bem vivas as brasas para o ano novinho se aquecer... e eu já me encostava no colo do meu pai, cochilando, enquanto Maninha desabava na grande cadeira de braços... isso sou eu que estou inventando, para matar o tempo e para trazer para aqui aquela cadeira tão linda, tenho uma foto de menina sentada nela, a cadeira que vovô Mateus fez...

Então despertei!

E agora sim, vai chegando a meia-noite minha gente, clamava Vovó, rápido, todos a postos, menos de cinco minutos...descoberto o mistério das tampas das panelas, cada um pegava duas, subia na sua cadeira e à meia-noite em ponto todos bateriam com força, para enxotar o ano velho... Subia-se para as cadeiras para o ano velho passar debaixo, arrastado, ou de gatas, não sei...

Mas então Vovó Guilhermina viu que uma das cadeiras estava vazia. Era a do Vovô Mateus! Ó homem de Deus, onde é que tu te meteste? Onde foste, criatura? Alguém falou que o viu entrar na casa de banho...

O quê?

Todos riam e gritavam:

- Vovô! Vovô!.

- Senhor Mateus!

- Meu pai!

- Meu sogro!

- Ó homem, onde te meteste?

Mas ele saiu a tempo, serelépido: Psiu! Tenham calma, falta um minuto!

E logo agarrou os últimos testos, assim se chamam as tampas das panelas em Portugal, e todos começaram na grande barulheira, pandemónio na verdade, para enxotar o ano velho e acordar o novo, trás, trás, trás, trás...

E assim entrou 1950. Para todos nós um ano de grandes mudanças.

(in AS CASAS DO DESTINO, memórias. A publicar, em breve)

Notas:

Texto retirado da página do facebook da autora.

Para os mais jovens, informo que Maria de Lourdes Hortas é uma poetisa brasileira, nascida em São Vicente da Beria, filha do dono da farmácia da época, então situada na Rua do Beco, à direita de quem desce. A família habitava na rua do Convento, na casa em frente à do João Craveiro, onde durante perto de dois séculos viveu a família Pereira. A pequena Lourdes tinha 10 anos quando emigrou para o Brasil, com a família.

José Teodoro Prata

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Relação Câmara - Juntas de freguesia


Parece-me que a Câmara respondeu corretamente ao abandono da atitude de guerrilha constante, por parte do Sempre. Bem precisamos que as coisas melhorem!

José Teodoro Prata

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Requalificação da sede da Associação de Caça e Pesca ‘O Pisco’


A Câmara Municipal de Castelo Branco procedeu à realização de obras de reabilitação numa parte do edifício da antiga Escola Primária de São Vicente da Beira - atualmente utilizada pela Associação de Caça e Pesca ‘O Pisco’ - com o objetivo de melhorar as condições de conforto, funcionalidade e segurança do espaço.
A empreitada, que rondou os 41.600€ (quarenta e um mil e seiscentos euros), incidiu, essencialmente, na reabilitação da zona do alpendre e na substituição da caixilharia existente.
As soluções implementadas foram equacionadas com o intuito de melhorar as condições de utilização do edifício, criando uma área mais resguardada e contribuindo para a valorização e preservação deste equipamento comunitário.

No âmbito da intervenção, procedeu-se ao fecho dos vãos na zona do alpendre, com recurso a nova caixilharia, bem como à construção de uma cobertura que permite a circulação de pessoas entre edifícios.

Para a concretização da obra, foi necessária a construção de paredes em alvenaria de tijolo, com acabamento em reboco areado fino e pintura na cor branca, tendo sido criados novos vãos de porta e de janela.

Foi igualmente executada uma estrutura de suporte para a colocação da cobertura, revestida com telha idêntica à existente, permitindo o encerramento do espaço e garantindo maior comodidade para os utentes da Associação.

No que respeita à eficiência e conforto térmico, procedeu-se à substituição da caixilharia antiga por uma mais recente, resultando num ganho significativo ao nível do isolamento e do bem-estar no interior do edifício.

Complementarmente, foram realizados trabalhos de pintura em vários elementos que necessitavam de pequenas reparações, tanto no interior como no exterior do imóvel.

 

Declaração prévia: não pertenço a nenhum grupo e ignoro se me costumam encaixar nalgum!


Esta obra da Câmara mereceu comentários positivos no Facebook, a par das seguintes críticas:

- Os almoços da Associação podiam ser realizados na Casa do Povo.

- Só se reabilitou o lado da Caça, continuando o da Pesca muito degradado, precisamente onde se fazem análises, que funciona como sede dos Bombeiros e ali decorrem algumas aulas da Universidade Sénior. 

- A Biblioteca Hipólito Raposo é gelada no inverno e infiltra-se água pelas janelas.

- O ginásio e o parque infantil da Escola Primária estão degradados.


Estive de “férias” das redes sociais, mas, embora longe, de vez em quando refletia sobre a nossa realidade local. Regressado, achei logo que esta polémica encaixa nas minhas reflexões, como uma luva.

Infelizmente, penso que voltarei ao assunto no futuro, mas agora só quero deixar o seguinte comentário: A nossa freguesia anda um pouco à deriva, sem rei nem roque, como diz o provérbio. Cada um puxa para seu lado, sem haver um planeamento de conjunto, que encontre consensos e defina prioridades. A culpa é só nossa, dos vicentinos. Se não nos entendemos, como queremos que os de fora nos entendam?

Nota: Não sou assim tão pessimista como o parágrafo acima pode fazer crer: nas outras terras é igual. Mas acho que estamos a passar um pouco das marcas...

 

José Teodoro Prata

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Padre Jerónimo

Há poucos dias que nos deixou e já sentimos saudades dessa grande gargalhada!

Escrevo-lhe porque sei que acreditava ir para um lugar melhor do que este em que nos deixou. Já desconfiava dessa fé desde que demos a volta pelas terras do antigo concelho de São Vicente: sempre que entrava numa igreja, ajoelhava-se junto ao altar e orava. E disse-mo no penúltimo encontro anual em que participei, no Tortosendo. O Zé Augusto relembrou-o agora, na missa que celebrou em sua homenagem. Não a minha história, mas uma outra, uma conversa que teve com o Ernesto Hipólito, quando em maio se veio despedir da nossa Orada:

- Se este sítio é tão bonito, imagina como será o céu!

A propósito, o Zé Augusto fez uma prática muito bonita na sua missa. Terá sentido orgulho ao ouvi-lo!

Mas voltando ao princípio. Escrevo-lhe porque sinto o peso da responsabilidade de lhe ter faltado com um pedido que nos fez, a mim e outros que o acompanharam da Igreja para a Casa do Povo, na festa da sua boda de ouro sacerdotal. Ao toque das concertinas minhotas do António Madeira e pela concertina beirã do Costinha, confessou-nos que o som da concertina era a música da sua meninice e que queria ser acompanhado por concertinas, quando morresse.

- Eu espero o tempo que for preciso para reunir os tocadores!

Como o Mário de Sá-Carneiro?:

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Mas o que iam pensar de nós, os seus amigos e os seus familiares? Mesmo sabendo que acreditava ir para um lugar melhor, eu nem tive coragem de partilhar o seu desejo. Desculpe-me esta cobardia. E depois havia toda a logística, toda a burocracia…

Deixou-nos numa época terrível, em que a sua alegria, a sua cidadania e o seu humanismo tanta falta fazem ao mundo. Mas deixou-nos o seu exemplo, assim saibamos nós honrar a sua memória! E já que acredita, vá-nos dando umas dicas, quando achar necessário, pelas formas que melhor entender. Até um dia!

José Teodoro Prata

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Pe. José Hipólito Jerónimo

 Pe. José Hipólito Jerónimo, 07.12.1937-19.12.2025

Cerimónia fúnebre, na Igreja de São Vicente da Beira, às 15 horas de amanhã, dia 20 de dezembro.

José Teodoro Prata

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Tiborna

 Quando era miúdo, fui com o meu pai ao lagar do Major. Trabalhava lá o tio Joaquim Pique, que logo foi ao cabaz da merenda e cortou uma fatia de pão de uma regueifa que lá tinha. Torrou-a nas brasas da lareira, mergulhou-a num bidon cheio de azeite e entregou-ma. Lambuzei-me por dentro e por fora. É das melhores recordações da mimha infância. 

O meu pai tinha um ritual que nunca falhava: logo que o azeite novo entrasse em casa, mandava torrar pão e sentávamo-nos à mesa a comê-lo regado com azeite. Era a prova.

Hoje repeti o ritual e fiquei consolado!

José Teodoro Prata

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Banda desenhada

 
Na segunda-feira, dia 14, participei no lançamento deste livro de banda desenhada do albicastrense Miguel Fernandes, na Fábrica da Criatividade, geografia por onde o autor andou em criança e onde trabalhou após concluir o mestrado em Ilustração e Animação. O Miguel, OZZY para os amigos, tem raízes em Vila Velha de Ródão e na Partida (São Vicente da Beira). É filho do nosso António Andrade Fernandes, também conhecido por Tó da Partida.

José Teodoro Prata