segunda-feira, 15 de junho de 2026

Conta-me histórias da guerra colonial


Voltámos à Biblioteca Hipólito Raposo, para mais um Conta-me histórias, desta vez sobre a guerra colonial.

O livro Poesia Simples, de José Augusto Alves, conta a história do Tó, soldado paraquedista que foi voluntário para a Guiné e sofreu um ataque. Veio para o hospital militar, em Lisboa, com múltiplas queimaduras e só chegou à terra na sexta-feira santa do ano seguinte, quando desciam o Cristo da cruz, no Calvário. «Foi um enorme guerreiro / Também andou pelos matos; / Tantos soldados solteiros / Que da guerra andavam fartos.» Um dia, num jantar de antigos combatentes, disse ao ex-comandante militar da Guiné, também presente: «Quando morrer, eu fico a substituí-lo!» Ambos se chamavam António e aos dois faltava um olho.

O Rui esteve num ponto crítico da Guiné, próximo da outra Guiné que fora francesa e já estava independente. O sítio era tão perigoso que até foi para lá mandado, como castigo, um soldado que matara um sargento noutra região. Era motorista e teve de ir para a guerra, porque vários motoristas madeirenses foram despedir-se à ilha e apanharam o avião para os Estados Unidos. Ouvia o Amílcar Cabral, às 7 da tarde, desde Conacri. Quando partiu, não percebia nada de política, mas era impossível não concordar com Cabral que defendia um governo misto de portugueses e africanos. Na altura do seu assassinato, houve uma companhia que foi massacrada e os sobreviventes dispersaram. A um deles, o João, também vicentino, encontrou-o muito mal, todo amarelo, com hepatite. Levou-o para o quartel e tratou dele. Depois pediu ao comandante e “adotaram-no”. O Rui foi protegido pela mãe de Jesus, pois escapou ileso de um ataque no dia 13 de maio. Mas houve na guerra tantos mortos por se relaxarem as regras de segurança!

O Jorge já fora para França, mas regressou a pedido dos pais, pois, se não viesse fazer a tropa, não poderia vir visitar a família. Ele passou melhor, também na Guiné, pois o seu quartel só sofreu um ataque. Filho do barbeiro da terra, cortava o cabelo aos outros soldados, nas horas vagas.

O Cassiano esteve na retaguarda, desde os 16 anos, como funcionário do hospital militar, em Lisboa, onde chegavam os feridos e os mortos. Depois do 25 de Abril foi para Luanda, como militar, a receber e inventariar os equipamentos médico-cirúrgicos trazidos pelas unidades que regressavam do mato, com destino à metrópole.

Tantos traumas!


José Teodoro Prata

 

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Conta-me histórias, 8

 Nesta oitava sessão, iremos relembrar histórias antigas contadas de boca em boca, pelos nossos antepassados, e antigos emigrantes e ex-combatentes da guerra colonial partilharão alguns episódios das suas vidas.

José Teodoro Prata

terça-feira, 2 de junho de 2026

Ninho de zangão

Um dia, no Ribeiro Dom Bento, vi desaparecer um inseto do tamanho e forma do zangão (não o macho da abelha), mas todo preto, por uma fisga entre duas placas metálicas.

Duas semanas depois, precisei de mover as placas e deparei-me com o ninho que a foto mostra.
Na altura, pensei que a parte amarela eram ovos ali colocados para se alimentarem as lagartas que fossem nascendo dos ovos postos pelo tal inseto (são já visíveis algumas).
Dias depois voltei ao sítio, preocupado com as consequências da minha intrusão. Já havia dezenas de lagartas e concluí que a parte amarela é pólen ali acumulado pela mãe zangão, para alimentar os filhos (as lagartas da abelha tambérm se alimentam de pólen).


José Teodoro Prata

sábado, 30 de maio de 2026

A flor da esteva

 Era no tempo da inocência, em que as histórias ouvidas ao serão preenchiam o nosso imaginário e nos resolviam o conflito com a realidade. 

Uma das que mais me maravilhava, contada por alturas da Páscoa, (início da primavera) era sobre a flor da esteva. 

 Resumidamente, era mais ou menos assim:

O caminho por onde Jesus subiu ao Calvário era todo rodeado de estevas com flores brancas. Mas quando Jesus passava, os espinhos que lhe cravaram na cabeça eram tão fundos que faziam com que o sangue que lhe jorrava da cabeça salpicasse tudo o que estava à roda e fosse também cair sobre as flores das estevas. Ao ver o filho em tal sofrimento, Nossa Senhora chorava tantas lágrimas de sangue, que caíram também sobre algumas flores. 

Isto justifica que encontremos estevas cujas flores tenham apenas cinco pétalas com manchas de sangue (aquelas em que caiu o sangue de Jesus) e outras que tenham seis (as que apanharam também as lágrimas de Nossa Senhora). 

Do cheiro das estevas, só a linguagem da memória, feita poesia:

«Lembro-me do cheiro dos lagares, das queijeiras, do forno, da forja – eram cheiros que entravam pelas narinas como tantos outros, mas só esses se infiltravam no sangue e aí ficavam, depositados em sucessivas camadas, para sempre, como ficou o aroma das estevas e do feno.»

(Eugénio de Andrade)

MLFerreira

(O escritor Rentes de Carvalho, natural de uma aldeia próximo de Torre de Moncorvo, mas a viver na Holanda, escreveu num dos seus livros que levada um ramo de estevas para pendurar na sua cozinha lá da longínqua Amsterdão.)

José Teodoro Prata

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Fim do Ciclo Pascal

 

A festa da Páscoa ou da Aleluia terminou ontem, dia de Pentecostes, em que se celebra a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos e a consequente criação da Igreja Cristã.

Ontem tiveram lugar as últimas romarias que integram o ciclo Pascal: Senhora da Póvoa (Vale da Senhora da Póvoa), São Lourenço (Palvarinho) e Senhora da Orada (São Vicente da Beira). Antes, realizaram-se as festas da Senhora dos Altos Céus (Lousa), Senhora do Almortão (Idanha-a-Nova), Senhora da Mércoles (Castelo Branco), Santa Bárbara (Casal da Fraga – SVB; no passado entre o Sobral do Campo e São Vicente), São Tiago (Partida – SVB)…

Na década de 70 do século passado, em São Vicente da Beira, era nas datas das romarias referidas que o sr.º Vigário visitava todas as casas, dando as Boas Festas.

Nota: A foto mostra a estrada romana que ainda hoje existe junto à ermida da Senhora da Orada, no interior da serra da Gardunha.

José Teodoro Prata

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Como se chama?

 

Quem amanhã for à romaria da Senhora da Orada pelo caminho que vem do Caldeira para as Quintas, vai avistá-la na zona entre o pinheiro manso e o cruzamento do Cabeço do Pisco. Nalguns locais é mesmo a única presença viva, no meio de caules calcinados que ficaram do fogo do ano passado.
Não sei o seu nome, mas tem tanto frágil como de delicadeza e beleza.

José Teodoro Prata

Nota: Chama-se coruba-brava, segundo informação da Sara Varanda postada no facebook.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Giesta-do-monte

 

Quem no domingo for à romaria da Senhora da Orada, a pé, pelo caminho que vai do Cimo de Vila para as Quintas, ainda pode ver a giesta-do-monte (Polygala microphylla) florida, ali entre o Pinheiro e o Carvalhal Redondo, à direita de quem sobe.

A floração prolonga-se por tanto tempo que a flor de roxo escuro começa a ficar lilás claro. Floresce sempre por alturas da Páscoa, pelo que a minha mãe, que não sabia o nome dela, chamava-lhe Páscoas. A foto foi tirada pela minha irmã São, este ano.

Há alguns anos, trouxe a planta à Escola Agrária de Castelo Branco. Informaram-me do nome e que a planta abunda sobretudo no centro litoral, sempre virada ao mar, como este lugar onde a podemos admirar todos os anos.

Trata-se de uma planta rasteira e as hastes floridas raramente ultrapassam um palmo de altura. É muito resistente, pois naquele local já sobreviveu a três fogos, recentemente (1986, 1917 e 2025).

José Teodoro Prata