Dos Enxidros
Enxidros era a antiga designação do espaço baldio da encosta da Gardunha acima da vila de São Vicente da Beira. A viver aqui ou lá longe, todos continuamos presos a este chão pelo cordão umbilical. Dos Enxidros é um espaço de divulgação das coisas da nossa freguesia. Visitem-nos e enviem a vossa colaboração para teodoroprata@gmail.com
terça-feira, 16 de junho de 2026
Papa-figos
segunda-feira, 15 de junho de 2026
Conta-me histórias da guerra colonial
Voltámos
à Biblioteca Hipólito Raposo, para mais um Conta-me histórias, desta vez sobre
a guerra colonial.
O livro Poesia Simples, de
José Augusto Alves, conta a história do Tó, soldado paraquedista que foi
voluntário para a Guiné e sofreu um ataque. Veio para o hospital militar, em
Lisboa, com múltiplas queimaduras e só chegou à terra na sexta-feira santa do
ano seguinte, quando desciam o Cristo da cruz, no Calvário. «Foi um enorme
guerreiro / Também andou pelos matos; / Tantos soldados solteiros / Que da
guerra andavam fartos.» Um dia, num jantar de antigos combatentes, disse ao ex-comandante
militar da Guiné, também presente: «Quando morrer, eu fico a substituí-lo!»
Ambos se chamavam António e aos dois faltava um olho.
O Rui esteve num ponto
crítico da Guiné, próximo da outra Guiné que fora francesa e já estava
independente. O sítio era tão perigoso que até foi para lá mandado, como
castigo, um soldado que matara um sargento noutra região. Era motorista e teve
de ir para a guerra, porque vários motoristas madeirenses foram despedir-se à
ilha e apanharam o avião para os Estados Unidos. Ouvia o Amílcar Cabral, às 7
da tarde, desde Conacri. Quando partiu, não percebia nada de política, mas era
impossível não concordar com Cabral que defendia um governo misto de
portugueses e africanos. Na altura do seu assassinato, houve uma companhia que
foi massacrada e os sobreviventes dispersaram. A um deles, o João, também
vicentino, encontrou-o muito mal, todo amarelo, com hepatite. Levou-o para o
quartel e tratou dele. Depois pediu ao comandante e “adotaram-no”. O Rui
foi protegido pela mãe de Jesus, pois escapou ileso de um ataque no dia 13 de
maio. Mas houve na guerra tantos mortos por se relaxarem as regras de
segurança!
O Jorge já fora para França,
mas regressou a pedido dos pais, pois, se não viesse fazer a tropa, não poderia
vir visitar a família. Ele passou melhor, também na Guiné, pois o seu quartel
só sofreu um ataque. Filho do barbeiro da terra, cortava o cabelo aos outros
soldados, nas horas vagas.
O Cassiano esteve na
retaguarda, desde os 16 anos, como funcionário do hospital militar, em Lisboa,
onde chegavam os feridos e os mortos. Depois do 25 de Abril foi para Luanda,
como militar, a receber e inventariar os equipamentos médico-cirúrgicos trazidos
pelas unidades que regressavam do mato, com destino à metrópole.
Tantos traumas!
José Teodoro Prata
segunda-feira, 8 de junho de 2026
Conta-me histórias, 8
Nesta oitava sessão, iremos relembrar histórias antigas contadas de boca em boca, pelos nossos antepassados, e antigos emigrantes e ex-combatentes da guerra colonial partilharão alguns episódios das suas vidas.
terça-feira, 2 de junho de 2026
Ninho de zangão
Um dia, no Ribeiro Dom Bento, vi desaparecer um inseto do tamanho e forma do zangão (não o macho da abelha), mas todo preto, por uma fisga entre duas placas metálicas.
sábado, 30 de maio de 2026
A flor da esteva
Era no tempo da inocência, em que as histórias ouvidas ao serão preenchiam o nosso imaginário e nos resolviam o conflito com a realidade.
Uma das que mais me maravilhava, contada por alturas da Páscoa, (início da primavera) era sobre a flor da esteva.
Resumidamente, era mais ou menos assim:
O caminho por onde Jesus subiu ao Calvário era todo rodeado de estevas com flores brancas. Mas quando Jesus passava, os espinhos que lhe cravaram na cabeça eram tão fundos que faziam com que o sangue que lhe jorrava da cabeça salpicasse tudo o que estava à roda e fosse também cair sobre as flores das estevas. Ao ver o filho em tal sofrimento, Nossa Senhora chorava tantas lágrimas de sangue, que caíram também sobre algumas flores.
Isto justifica que encontremos estevas cujas flores tenham apenas cinco pétalas com manchas de sangue (aquelas em que caiu o sangue de Jesus) e outras que tenham seis (as que apanharam também as lágrimas de Nossa Senhora).
Do cheiro das estevas, só a linguagem da memória, feita poesia:
«Lembro-me do cheiro dos lagares, das queijeiras, do forno, da forja – eram cheiros que entravam pelas narinas como tantos outros, mas só esses se infiltravam no sangue e aí ficavam, depositados em sucessivas camadas, para sempre, como ficou o aroma das estevas e do feno.»
(Eugénio de Andrade)
MLFerreira
(O escritor Rentes de Carvalho, natural de uma aldeia próximo de Torre de Moncorvo, mas a viver na Holanda, escreveu num dos seus livros que levada um ramo de estevas para pendurar na sua cozinha lá da longínqua Amsterdão.)
José Teodoro Prata
segunda-feira, 25 de maio de 2026
Fim do Ciclo Pascal
A festa da
Páscoa ou da Aleluia terminou ontem, dia de Pentecostes, em que se celebra a
descida do Espírito Santo sobre os apóstolos e a consequente criação da Igreja
Cristã.
Ontem
tiveram lugar as últimas romarias que integram o ciclo Pascal: Senhora da Póvoa
(Vale da Senhora da Póvoa), São Lourenço (Palvarinho) e Senhora da Orada (São
Vicente da Beira). Antes, realizaram-se as festas da Senhora dos Altos Céus (Lousa),
Senhora do Almortão (Idanha-a-Nova), Senhora da Mércoles (Castelo Branco),
Santa Bárbara (Casal da Fraga – SVB; no passado entre o Sobral do Campo e São
Vicente), São Tiago (Partida – SVB)…
Na década de
70 do século passado, em São Vicente da Beira, era nas datas das romarias referidas
que o sr.º Vigário visitava todas as casas, dando as Boas Festas.
Nota: A foto
mostra a estrada romana que ainda hoje existe junto à ermida da Senhora da
Orada, no interior da serra da Gardunha.
José Teodoro Prata
sexta-feira, 22 de maio de 2026
Como se chama?
Quem amanhã for à romaria da Senhora da Orada pelo caminho que vem do Caldeira para as Quintas, vai avistá-la na zona entre o pinheiro manso e o cruzamento do Cabeço do Pisco. Nalguns locais é mesmo a única presença viva, no meio de caules calcinados que ficaram do fogo do ano passado.
Não sei o seu nome, mas tem tanto frágil como de delicadeza e beleza.
José Teodoro Prata
Nota: Chama-se coruba-brava, segundo informação da Sara Varanda postada no facebook.






