quarta-feira, 20 de maio de 2026

Giesta-do-monte

 

Quem no domingo for à romaria da Senhora da Orada, a pé, pelo caminho que vai do Cimo de Vila para as Quintas, ainda pode ver a giesta-do-monte (Polygala microphylla) florida, ali entre o Pinheiro e o Carvalhal Redondo, à direita de quem sobe.

A floração prolonga-se por tanto tempo que a flor de roxo escuro começa a ficar lilás claro. Floresce sempre por alturas da Páscoa, pelo que a minha mãe, que não sabia o nome dela, chamava-lhe Páscoas. A foto foi tirada pela minha irmã São, este ano.

Há alguns anos, trouxe a planta à Escola Agrária de Castelo Branco. Informaram-me do nome e que a planta abunda sobretudo no centro litoral, sempre virada ao mar, como este lugar onde a podemos admirar todos os anos.

Trata-se de uma planta rasteira e as hastes floridas raramente ultrapassam um palmo de altura. É muito resistente, pois naquele local já sobreviveu a três fogos, recentemente (1986, 1917 e 2025).

José Teodoro Prata

terça-feira, 19 de maio de 2026

Enxabarda 6 (último)

 Na rua, cruzamo-nos com alguém que não nos conhece. A pergunta surge imediatamente, sempre a mesma:

Sois filhas de quem?

Os nomes das nossas mães levam ao nome da nossa avó, ao nome dos nossos tios e, quase sempre, aos nomes dos nossos bisavós.

Ainda somos primos.

Ou então:

A tua avó ajudou-me muito.

As tuas tias ainda se devem lembrar.

Antigamente éramos vizinhos.

E segue-se uma história de superação, solidariedade, entreajuda, morte, qualquer coisa que não é para brincar, como relatos de meninos que não tinham o que comer e que só se salvaram por terem sido amamentados por vizinhas.

Éramos família.

Somos família.

Queremos-vos como queremos aos nossos.

A pergunta sois filha de quem? não é, pois, uma pergunta qualquer. Liga-nos diretamente a quem passa. E quem passa sabe haver maneira de nos ligarmos todos.

Isabel Minhós Martins

Revista Mamute, n.º 1, segunda série, 2025 (pp. 75 e 76)


José Teodoro Prata

domingo, 17 de maio de 2026

Enxabarda 5

«Pergunto à minha mãe e às minhas tias se pobreza era a palavra certa para descrever a vida da aldeia quando eram crianças. Quase tudo aquilo de que se lembram melhor – ou que decidiram guardar na memória – tem a ver com uma ideia de comunidade e entreajuda. Só que eu insisto na pergunta: mas como é que viviam?

Sementes, fermento, fogo. Tudo se partilhava e trocava, não havia desperdício.

O fogo passava de casa em casa através de uma pinha: A vizinha já tem lume?

Caso fossem poucas, as sementes pediam-se de porta em porta: Maria, tens aí um todo-nadinha de sementes de nabo para acrescentar a este todo-nadinha que trago aqui? uma vizinha perguntou à minha avó.

Existiam várias categorias de pouco, várias formas de nada. Era possível haver um pouco menos do que pouco, um pouco menos do que nada.

O fermento passava de mão em mão, de masseira em masseira.

Da roupa de adulto fazia-se roupa de criança.

Das partes mais gastas do fundo das camisas costuravam-se as roupas dos bebés, para que fossem mais macias.

Dos trapos que sobravam teciam-se tapetes e mantas, para o frio, para amparar as azeitonas, para secar o milho.

Antes de serem lavados, os lençóis de cima passavam a lençóis de baixo, para poupar lavagens.

(…)

Trocavam-se cereais por loiças, azeite por ferramentas, tarefas por tarefas.

Partilhava-se a sorte quando chegava o azar (…). Vizinhos iam ao fundo das arcas buscar o que restava do milho para fazer farinha e papas; vizinhos chegavam com taças de sangue de porco para compensar a perda. [de alguém a quem se entornara o alguidar de sangue da matança do porco]

O meu milho é o teu milho,

o meu sangue é o vosso sangue.

Por bondade ou para noutra ocasião

o teu milho seja o meu milho,

o teu sangue o nosso sangue.»


Isabel Minhós Martins

Revista Mamute, n.º 1, segunda série, 2025 (pp. 75 e 76)

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Enxabarda 4

 «A água é negra. O fundo é de lascas de xisto, lascas que não magoam os pés, pedrinhas que não chegam a ser areia grossa. A película brilhante que separa o escuro do claro faz-nos pensar em óleo espesso, mas o som é bem mais líquido e fresco, mais limpo.

A superfície estremece ligeiramente com o movimento dos alfaiates: ao leve pousar das suas patas, um pequeno círculo, uma bolha que não chega a ser bolha, forma-se à volta de cada uma, e então deixamos de perceber. Porque às patas e aos seus reflexos juntam-se os pequenos círculos e seus reflexos e a imagem confunde-nos: não percebemos que animal é este, onde começa e acaba o seu corpo, quantas patas tem afinal. Para nos hipnotizar ainda mais, há esse modo extraterrestre de se deslocar, de um modo para o qual é difícil encontrar palavras, pois, na verdade, um alfaiate não caminha, não salta, não desliza, não voa, não nada, avança. Tem qualquer coisa de aranha, e não admira que este movimento aranhiço sobre o fundo tão escuro do Poço Escuro cause repulsa a alguns veraneantes menos habituados (…).

Os alfaiates estão sossegados mas, quando mergulhamos, tudo se quebra: a água, os reflexos, a paz dos alfaiates, o silêncio, o calor. A água é leve e fria, tão diferente da água salgada onde também mergulhamos nas férias. É uma água sem sabor, sem peso, sem mais nada, uma água-água, e talvez seja do frio, da escuridão ou desta leveza, mas até parece que conseguimos atravessá-la mais depressa. Chegar à superfície é ter a sensação de que renascemos.»

Isabel Minhós Martins

Revista Mamute, n.º 1, segunda série, 2025 (pp. 73 e 74)

terça-feira, 12 de maio de 2026

Enxabarda 3

«Como a chave estava sempre na porta, primos e vizinhos entravam pela casa adentro sem aviso e, se isso acontecia por volta do meio-dia, viam-nos passar ainda despenteadas, de pijama. Tantas horas de sono eram consideradas ali um costume exótico, um capricho que os outros tinham dificuldade em compreender. O sono era um tempo roubado as horas de trabalho à fresca, um desperdício (…).

(…) Havia esse pormenor de a chave estar na porta todo o dia. A primeira pessoa a acordar, normalmente a minha avó, colocava-a na fechadura do lado de fora; a última a deitar-se fazia o inverso. A chave só era retirada quando íamos à cidade mais próxima ou quando, por exemplo, decidíamos ir passar o dia à serra. Penso que não o fazíamos com medo de que a casa fosse assaltada, mas mais como um aviso, um sinal que dizia a quem passava: se a chave não está na porta é porque não está ninguém em casa. A bem dizer, a chave era sempre colocada debaixo do tapete da entrada, portanto, se fosse necessário, era possível entrar.

A casa da minha avó fica no largo da igreja e as pessoas entravam muito: antes da missa, depois da missa, a caminho das hortas ou quando iam aviar-se à loja que ficava mesmo em frente à nossa porta.»

Isabel Minhós Martins

Revista Mamute, n.º 1, segunda série, 2025 (pp. 69 e 70)

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Gladíolos silvestres

 

Serra da Gardunha, Ribeiro Dom Bento, São Vicente da Beira

José Teodoro Prata

domingo, 10 de maio de 2026

Enxabarda 2

 «A minha avó nasceu no início de setembro de 1910, um mês antes da Implantação da República. Durante a sua infância, a gripe espanhola correu o país e chegou à sua aldeia. Conta-se que adoeceu e sobreviveu. Também sobreviveu a cinco partos sem qualquer assistência, ou melhor, seis, porque teve gémeas, um acontecimento que surpreendeu toda a gente. Quando a parteira se apercebeu da existência de outro bebé, pediu a um homem que fosse de bicicleta até à vila mais próxima para trazer um médico porque a situação da parturiente era grave. É bem provável que nesse dia (e nos que se seguiram) a minha avó tenha visto a morte aos pés da cama, como havia de lhe acontecer muitos anos mais tarde, quando já muito velha e doente, me disse: ela hoje andou por aí a rondar.

Pergunto-me se a casa em que viviam nessa altura teria escadas. E, se sim, como faria ela para descer ao piso térreo a saber das outras crianças. Pergunto-me também quem lhe terá trazido água, pão, uma canja. Quanto tempo terá vivido assim? Porque não permaneceu deitada até recuperar as forças? O que seria tão urgente que a obrigava a deslocar-se entre divisões? Pergunto-me também se a minha mãe e os meus tios a terão visto e em que circunstâncias. Porque o certo é que a história chegou até mim mais de sessenta anos depois de ter acontecido: uma mulher de gatas, uma mãe de gatas, a minha avó de gatas.»

Isabel Minhós Martins

Revista Mamute, n.º 1, segunda série, 2025 (pp. 68 e 69)


José Teodoro Prata