Dos Enxidros
Enxidros era a antiga designação do espaço baldio da encosta da Gardunha acima da vila de São Vicente da Beira. A viver aqui ou lá longe, todos continuamos presos a este chão pelo cordão umbilical. Dos Enxidros é um espaço de divulgação das coisas da nossa freguesia. Visitem-nos e enviem a vossa colaboração para teodoroprata@gmail.com
domingo, 28 de junho de 2026
quarta-feira, 24 de junho de 2026
Clara linda linda Clara
https://youtu.be/d91X9-Mlrug?si=-ZBkGiaUL0k6Iz94
Em
1962, Fernando
Lopes Graça e Michel
Giacometti estavam a fazer recolhas de canções populares pelo
país. Foi na povoação de Alferce, na serra de Monchique, que descobriram a
balada “Ó Laurinda, Linda, Linda”, sobre uma mulher adúltera que quase era
apanhada em flagrante pelo marido quando este voltava de viagem. Registaram o
tema na voz de Mariana Vitorino.
Quase duas
décadas depois, em 1981, o cantor Vitorino gravava “Laurinda” para o seu
álbum Romances.
Tornou-se, com o passar do tempo, numa das canções mais emblemáticas do seu
repertório.
Entretanto, José Augusto Alves (poeta popular vicentino de quem publicámos, no verão passado, parte da sua poesia no livro Poesia Simples) registou por escrito a versão que ele conhecia, provavelmente desconhecendo a informação que apresentei acima. Estas histórias em verso passavam de boca em boca e quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto. Por isso cada região contará uma versão desta história.
Clara linda linda Clara
Clara linda como o Sol;
Deixa-me dormir contigo
Na ponta do teu lençol.
Na ponta do meu lençol
Hoje sim amanhã não;
Meu marido não está cá
Foi à feira d´Assunção.
Onze horas meia noite
Marido à porta bateu;
Clara linda linda Clara
Clara linda não falou.
Clara linda está doente
Ou lá tem outros amores;
Ando à procura das chaves
Para abrir os corredores.
De quem é aquele chapéu
Que além está dependurado;
É para ti meu marido
Por minhas mãos acabado.
De quem é aquele capote
Que tem barra de galão;
É para ti meu marido
Acabado por minha mão.
De quem é aquele cavalo
Na minha loja guinchou;
É para ti meu marido
Foi teu pai co cá mandou.
De quem é aquele suspiro
No meu quarto suspirou;
Clara linda linda Clara
Caiu no chão e desmaiou.
Vai chamar as tuas irmãs
Para se despedirem de ti;
Que não vão fazer aos outros
O que tu me fizeste a mim.
Sete irmãs que nós somos
Todas filhas dum doutor;
Eu por ser a mais novinha
Caí no maior terror.
José Teodoro Prata
domingo, 21 de junho de 2026
O Zé Manel emigrante
Comentário do Zé Manel ao último (anterior) texto aqui publicado e no Facebook:
«Pois é...
Não sei se o
Jorge trabalhou na estrada na Paradanta, mas eu nunca lá trabalhei
Trabalhei
sim, um verão numa estrada perto de Oleiros 'éramos uma "caterva"
deles da vila quase tudo malta nova.
Voltando à
minha ida a salto para a França "lembrei-me do Raul Solnado, a história da
sua ida à guerra"
Aproximava-se
o tempo de ir à inspeção, o tempo de ir parar a África, matar os
"terroristas" ou eles matarem-me a mim.
Nunca fui a
favor destas guerras que o Salazar nos obrigava a fazer
Diziam os
mandões
Angola é
nossa...
Eu respondia
baixinho; uma gaita, a minha parte vendo-a por uma caixa de fósforos
Certa vez
disse ao meu pai que queria ir para a França...
O passador
levava cinco contos, escrevi uma carta ao meu tio António, deu ordem à sua
sogra a senhora Maria do Carmo Marcelino para me entregar os cinco contitos
O meu pai
falou com o António Luis "bigodes da Partida" certo dia eu e o Jorge
cada um com seu cesto colocámos a mala de cartão dentro cobrimo-la com uma
manta da azeitona e ai vamos nós estrada fora a caminho da Oles
Para onde
ides!
Vamos para a
Oles do senhor Eduardo Cardoso colher azeitona
Tão bem
vestidos!...
O meu pai
andava na cruz da Oles, passado um bom bocado chega o "bigodes da
Partida"
No Fundão
meteu nos umas três ou quatro sandes na mão...
Em Vilar
Formoso saímos com o carro em andamento. Frentes de Onor era logo ali. Depois,
bem depois sozinhos tivemos que nos desenrascar...
Um ano e
meio mais-tarde resolvi regressar para fazer a tropa
O meu chefe
senhor Jean Marie
Não queiras
ir; a França é a França e teve que entregar a Argélia
Portugal não
aguenta três guerras ...
A saudade...
Vim em
Agosto, no dia 19 de Outubro meteram-me uma G3 na mão ...
E pronto.»
sábado, 20 de junho de 2026
Conta-me histórias da emigração
O Jorge foi
com o Zé Manel para a França. Ainda não tinham feito a tropa, por isso tiveram
de ir assalto. Andavam os dois a trabalhar na estrada, perto da Paradanta, e
apareceu lá um senhor com ordens dos pais para os trazer para casa. Chegaram,
já tinham as malas feitas, só tiveram de se lavar e mudar de roupa. O senhor, da Partida, que costumava passar
gente, levou-os de carro até Vilar Formoso e disse-lhes que apanhassem o
comboio em Fuentes de Onor, do outro lado da fronteira. Eles lá foram e
entraram no comboio, mas logo apareceram os carabineiros a correr, pareciam
andar à procura de alguém. Eles fizeram-se desentendidos e colocaram-se à
janela, a fingir descontração. Foram até Irun, na fronteira com a França,
saíram do comboio e seguiram aquela gente toda para um túnel. Que levantassem o
braço com o passaporte na mão, gritava alguém. O Zé Manel levada um livrito e
levantou-o. O Jorge não tinha nada para mostrar, mas deixou-se ir no meio da
multidão e lá passaram. Foram para Clermont-Ferrand e arranjaram trabalho na
fábrica da Michelin. Mas passado um ano receberam cartas dos pais pedindo-lhes
que regressassem, pois, se não viessem fazer a tropa, não poderiam vir a
Portugal ver a família, durante 45 anos. Lá vieram, fizeram a tropa, o Jorge
foi à guerra colonial e depois voltou para a França, onde ficou toda a vida
ativa.
A ida da
Isabel para a França foi uma ilusão e um erro. A família vivia bem com o
negócio da resina, mas alguém os convenceu que na França é que era. Foram,
passaram dificuldades e só não voltaram porque o bom que tinham deixado já não
estava à espera deles. Os filhos foram nascendo, o marido adaptou-se, porque
era um otimista, mas ela nunca gostou, e agora também não, já sem o Chico e
olhada como estrangeira cá e lá.
A Lurdes
emigrou para a Alemanha, com o marido. Trabalhavam na mesma fábrica, em turnos
diferentes. Ela gostava do trabalho e até era elogiada pelas suas capacidades.
Tinham uma vida boa, mas o Joaquim nunca gostou. Acabaram por regressar a
Portugal ainda com os filhos menores.
A emigração
da Fátima foi de luxo, em tempos de bidonvilles, mas nunca gostou, de tal modo
que só durou quatro meses. O marido trabalhara nas Oficinas Gerais de Material
Aeronáutico, em Alverca, mas foi para Paris aprender mais, na prática e na
teoria, pois estudava na Sorbonne. Ele ganhava muito dinheiro, por isso vivam
num hotel, mas ela não parava de rezingar. Desesperado, o Francisco levou-a a
Champigny-sur-mer, o maior bairro de lata de França, onde viviam cerca de 15
mil pessoas, 10 mil das quais emigrantes portugueses. Foi no inverno, as ruas
eram autênticos lamaçais, assim como o chão das barracas de madeira e chapas.
Um horror, mas nem assim conseguiu saborear o luxo do hotel. Certo dia, perto
da meia-noite, apanhou um comboio em sentido contrário ao seu destino. No final
da viagem, viu-se numa estação terminal, rapidamente deserta, em nenhures.
Pediu ajuda e passado muito tempo lá voltou à estação inicial, onde apanhou um
táxi. Ao chegar ao hotel, às duas da manhã, disse ao marido que no dia seguinte
a levasse ao comboio para Portugal. E assim foi. O marido ainda voltou a Paris
por um curto período de tempo, mas depois regressou definitivamente. Teve uma
vida muito mais difícil do que se tivesse ficado, mas nunca se arrependeu.
terça-feira, 16 de junho de 2026
Papa-figos
segunda-feira, 15 de junho de 2026
Conta-me histórias da guerra colonial
Voltámos
à Biblioteca Hipólito Raposo, para mais um Conta-me histórias, desta vez sobre
a guerra colonial.
O livro Poesia Simples, de
José Augusto Alves, conta a história do Tó, soldado paraquedista que foi
voluntário para a Guiné e sofreu um ataque. Veio para o hospital militar, em
Lisboa, com múltiplas queimaduras e só chegou à terra na sexta-feira santa do
ano seguinte, quando desciam o Cristo da cruz, no Calvário. «Foi um enorme
guerreiro / Também andou pelos matos; / Tantos soldados solteiros / Que da
guerra andavam fartos.» Um dia, num jantar de antigos combatentes, disse ao ex-comandante
militar da Guiné, também presente: «Quando morrer, eu fico a substituí-lo!»
Ambos se chamavam António e aos dois faltava um olho.
O Rui esteve num ponto
crítico da Guiné, próximo da outra Guiné que fora francesa e já estava
independente. O sítio era tão perigoso que até foi para lá mandado, como
castigo, um soldado que matara um sargento noutra região. Era motorista e teve
de ir para a guerra, porque vários motoristas madeirenses foram despedir-se à
ilha e apanharam o avião para os Estados Unidos. Ouvia o Amílcar Cabral, às 7
da tarde, desde Conacri. Quando partiu, não percebia nada de política, mas era
impossível não concordar com Cabral que defendia um governo misto de
portugueses e africanos. Na altura do seu assassinato, houve uma companhia que
foi massacrada e os sobreviventes dispersaram. A um deles, o João, também
vicentino, encontrou-o muito mal, todo amarelo, com hepatite. Levou-o para o
quartel e tratou dele. Depois pediu ao comandante e “adotaram-no”. O Rui
foi protegido pela mãe de Jesus, pois escapou ileso de um ataque no dia 13 de
maio. Mas houve na guerra tantos mortos por se relaxarem as regras de
segurança!
O Jorge já fora para França,
mas regressou a pedido dos pais, pois, se não viesse fazer a tropa, não poderia
vir visitar a família. Ele passou melhor, também na Guiné, pois o seu quartel
só sofreu um ataque. Filho do barbeiro da terra, cortava o cabelo aos outros
soldados, nas horas vagas.
O Cassiano esteve na
retaguarda, desde os 16 anos, como funcionário do hospital militar, em Lisboa,
onde chegavam os feridos e os mortos. Depois do 25 de Abril foi para Luanda,
como militar, a receber e inventariar os equipamentos médico-cirúrgicos trazidos
pelas unidades que regressavam do mato, com destino à metrópole.
Tantos traumas!
José Teodoro Prata
segunda-feira, 8 de junho de 2026
Conta-me histórias, 8
Nesta oitava sessão, iremos relembrar histórias antigas contadas de boca em boca, pelos nossos antepassados, e antigos emigrantes e ex-combatentes da guerra colonial partilharão alguns episódios das suas vidas.





