quinta-feira, 19 de março de 2026

Milho-Rei

Gosto de broa. Tanto que, em tempos, achava estranho o desabafo de quem, como os nossos pais e muitas gerações de avós, não teve outro pão em criança: «Quero cá agora broa! Enchi a barriga dela em novo, que era o pão que havia, broa e centeio, que trigo só nas Festas.» Achava estranho porque me lembrava dela ainda a fumegar, aberta pelas mãos da minha avó, logo à saída do forno, regada com um fio de azeite. E era um regalo, nos dias em que passava a Ti Palmira, o Maiaca ou o Pinura, uma fatia de broa com uma sardinha assada a pingar por cima, comida nas escadas da Casa do Casal, entrada de tanta gente…

Não vão longe os tempos em que, fins de abril, princípios de maio, todos os lameiros à roda da Ribeira estavam prontos para a sementeira do milho. Era trabalho para toda a família e, se fosse preciso, podia sempre contar-se com a mão de algum vizinho. Depois da semente na terra, estando a Lua a favor, passado pouco tempo era um mar de verde por esses lameiros acima.

Durante meses não havia descanso: ora a arrelentar, a sachar, a mondar ou a regar. Durante o verão a água da ribeira era dividida por quem tinha direito a ela, seguindo tradições que vinham de longe, mas respeitadas como se fossem leis escritas. Havia quem tivesse que regar pela noite dentro, à luz da Lua ou de lanterna na mão (em tempos idos, o avistamento destas luzes alimentou o imaginário popular, que acreditava tratar-se de almas penadas a vaguear pelo mundo). Lá para finais de setembro o milho estava pronto a ser colhido. Nos anos bons, cada grão deitado à terra dava umas três maçarocas. Não haveria fome à mesa nem na manjedoura.

Naquele tempo, entre o Rabaçal, o Balcaria, a Senhora da Orada, o Ribeiro Dom Bento e as Quintas viviam para cima de dez famílias, algumas com muitos filhos. Quase toda a gente tinha terras suas, e quem não tinha arrendava-as ou tratava-as ao terço, como a Ti Maria Etelvina ou o Ti Luís Teodoro, terceiros do António Neto.

Era uma vida difícil e de muito trabalho para todos, desde cedo. As crianças vinham a pé para a escola, às vezes descalças e mal agasalhadas. O Chico Insa ainda fala duma manhã de aguaceiro em que nem a saca dobrada a fazer de carapuça lhe valeu, e, já todo numa sopa, abrigou-se num palheiro à espera que estiasse; depois, por mais que corresse, não se livrou de cinco reguadas em cada mão, tantas quantas os minutos que chegou atrasado à escola. À tarde, ficavam-lhe nos olhos os colegas que se demoravam na Praça a jogar às caricas e a deitar o pião, mas ele tinha sempre pressa em voltar a casa, onde as cabras, com fome, já o chamavam há muito. Os deveres fazia-os à noite, quando o sono e a luz mortiça do candeeiro já lhe baralhavam as letras e os números dentro da cabeça, o que lhe valia mais umas reguadas e a raposa no fim do ano.  

Os mais velhos trabalhavam de sol a sol o ano inteiro. Domingos, só para a obrigação da missa; quando muito, dois dedos de conversa à roda do andamento das sementeiras ou dos rebanhos, o tempo de beber um copo com os amigos. Só se perdia algum dia para ir ao mercado ou à feira do Fundão, onde se aviava o que era preciso e vendia o que houvesse. Com tanto trabalho, não sobrava tempo para grandes folguedos, mas em qualquer oportunidade que aparecesse tirava-se a barriga de misérias. Era assim por altura das descamisas, como lembra a Carmo:

«Antigamente as pessoas eram mais dadas e ajudavam-se umas às outras naquilo que podiam. Na altura de colher o milho, era só dizer:

 - Ó Ti Matias (é só um exemplo), amanhã vamos colher o milho, apareçam para a descamisa.

Naquele tempo havia poucas ocasiões para divertimentos, e as descamisas eram oportunidades que ninguém queria perder, principalmente os rapazes e as raparigas em idade de arranjar namoro. Quando se sabia duma, passava-se logo a palavra, e vinha até gente da Vila e do Casal da Fraga. 

No fim da ceia as pessoas iam aparecendo, as que tinham sido convidadas e outras só por terem ouvido dizer. À medida que chegavam, sentavam-se numa roda à volta do monte de milho colhido durante o dia. Não havia lugares marcados, mas toda a gente fazia por se sentar ao pé de alguém por quem tinha alguma preferência, muitas vezes amores escondidos. Arranjaram-se muitos casamentos assim.

Os serões eram sempre animados: os mais pequenos entretidos nas brincadeiras do costume, só interrompidas para ouvir as histórias de bruxas e almas penadas que o Ti João Candeias contava; as piadas e anedotas dos mais atrevidos punham toda a gente à gargalhada, e quando alguém começava:


As desfolhadas da aldeia

São cheias de vida e cor,

 

toda a gente ia atrás:

 

Até à luz da candeia

Se inspiram versos de amor.

 

Ai desfolhadas, lindas desfolhadas

Onde as raparigas vão todas lavadas,

Saem de casa, preparam-se bem,

Porque os seus amores lá irão também.

 

Ou então esta:

Ó malmequer mentiroso,

Quem te ensinou a mentir?

Tu dizes que me quer bem,

Quem de mim anda a fugir.

 

Desfolhei o malmequer

Num lindo jardim de Santarém,

Malmequer, bem me quer,

Muito longe está quem me quer bem.

 

Malmequer não é constante,

Malmequer muito varia,

Vinte folhas dizem morte,

Treze dizem alegria.

 

E a seguir vinham outras: “Milho verde”, “No cimo daquela serra”, “Água leva o regadinho”… Mas as mãos não paravam, entre a pressa de acabar o trabalho para começar a festa, e a cata de uma maçaroca vermelha.

Quando se ouvia gritar: «Milho-rei! Milho-rei!» calava-se tudo a ver quem tinha sido o felizardo ou a felizarda. Quem quer que fosse, levantava-se e corria a roda a dar um abraço a toda a gente. Para os mais novos era uma libertação, que podiam abraçar-se às claras, sem a censura daqueles tempos. Desconfiava-se mesmo que alguns rapazes já levavam de casa uma maçaroca vermelha, só para poderem abraçar as raparigas.

No fim do trabalho, os donos ofereciam qualquer coisa para comer e beber, quase sempre pão com queijo, passas, maçãs, aguardente para os homens e jeropiga para as mulheres. Na descamisa do Ti António Remualdo também havia sempre esquecidos, especialidade da Ti Maria da Luz.

Acabado o trabalho fazia-se um bailarico, quase sempre ao toque do realejo. Naquele tempo havia muitos rapazes que sabiam dançar e tocar bem, mas o Joaquim Feijão, o João Borrego e o Manel Primo, que vinha do Casal da Serra, eram dos melhores e estavam lá sempre caídos.

O meu pai é que, mal começava o baile, punha-se logo: «Ó meninos, dois palmos, dois palmos!» e levantava as mãos espalmadas, unidas pelos polegares. O que vale é que havia sempre alguém a acudir por nós: «Ó Ti Jaquim, deixe lá a rapaziada divertir-se, que não se apega mal nenhum! Quando era novo não gostava também de dançar com a Ti Emília?».

Por esta altura, com a barriga cheia e vencidos pelo sono e pelo cansaço das brincadeiras, os mais pequenos deitavam-se pelo chão e dormiam como justos. Contam que um dia, no fim de uma descamisa no Rabaçal, uma filha da Bernardina Pescão Seco, por mais que a chamassem, não dava sinais de vida. Já andava toda a gente à procura, pensando o pior, que naquele tempo ainda apareciam lobos por ali. A mãe, já sem grande esperança de encontrar a filha, deitava as mãos à cabeça: «Ai, minha rica filha! E logo hoje, que lhe pus o meu lenço de merino…». Quando deram com ela, ainda estremunhada debaixo de um molho de folhelhos, foi um alívio. Ainda hoje há quem conte esta história…

Mal o bailarico acabava, já a passar da meia-noite, regressava toda a gente a casa. Os mais pequenos, a lembrarem-se das histórias, agarrados às saias das mães; os mais velhos, com o corpo a pedir cama, mas já a contar os dias para a próxima descamisa, quer fosse a do Ti Matias, a do João Serra, a do António Passaraço, ou a doutro vizinho qualquer. Naquele tempo nenhuma nos escapava.»

ML Ferreira

domingo, 15 de março de 2026

O nosso falar (e viver) – sorte, terça, terceiro

A propósito da última sessão do “Conta-me histórias”, fui rever um pouco da História mais antiga de Portugal. Sobre o reinado dos Visigodos, achei interessante este texto, que pode justificar a origem dos nomes sorte, terça e terceiro, que ainda se vão ouvindo nas conversas entre os mais velhos, referindo uma porção de terra, normalmente pequena, que, nas partilhas, cabe a cada um dos herdeiros; ou o modo de pagamento de quem cultiva terrenos alheios, recebendo como paga a terça parte da colheita: 


                                      (História de Portugal de Fortunato de Almeida)

ML Ferreira

segunda-feira, 9 de março de 2026

O miniautocarro do sr.º Manuel da Silva

Com a devida vénia ao Jaime da Gama, a quem roubei a foto, na sua página do facebook. 

Não é mesmo uma beleza?!


Três aspetos a destacar:
O Citroen;
a calçada antiga; 
o candeiro na fonte, em frente ao brasão;
a indumentária da época.
José Teodoro Prata

sexta-feira, 6 de março de 2026

Enxertias

Ontem, passei a manhã a enxertar oliveiras. Sete oliveirinhas já da minha altura, mas que dão uma azeitona muito miúda e quase só caroço. Enxertei-as de galega. Umas vezes de cócoras, outras curvado, cheguei ao almoço bem maçado!

Tão dorido por um trabalho aparentemente leve, lembrei-me de uma história passada com o meu o primo Jaime Nicolau, grande agricultor de fim de semana. Durante o processo de transformar a sua propriedade do Casal da Fraga no brinquinho que está hoje, foi contratando enxertadores para as mais diversas espécies de árvores. Quando chegou às videiras bravas, não conseguiu ninguém para lhe fazer o serviço: cada enxertador era especialista na enxertia de uma dada espécie, mas nenhum de videiras. Teve de ser ele a fazer o serviço e então percebeu a coisa: é duro andar curvado e de joelhos na terra húmida!

Na adolescência, ajudei o meu pai nas enxertias e mais tarde fui experimentando. Sim, isto aprende-se mesmo, fazendo. Umas vezes pegavam e outras não, mas esta minha agricultura é mais para ser vivida, não para viver dela.
Mas no ano passado algo de estranho aconteceu. Enxertei em tempos diferentes e as enxertias dumas alturas pegaram todas e de outras não vingou nenhuma. Pus-me então a pensar numa regra da sabedoria popular que não tenho levado a sério: a influência das fases da Lua na circulação da seiva nas plantas. Lera, entretanto, um artigo científico sobre o assunto e decidi ter juízo. Comprei o Borda D´Água e este ano fiz todas as enxertias de 24 de fevereiro para cá. Nessa data começou o quarto crescente e agora estamos na Lua Cheia. As oliveiras de ontem estavam repletas de seiva, o mesmo acontecera com uma laranjeira, dias antes. Oxalá peguem!


José Teodoro Prata

segunda-feira, 2 de março de 2026

Conta-me histórias: as lendas da Gardunha

Éramos mais de trinta, ontem agraciados com dois grupos forasteiros. Quase duas horas de conversa em torno das lendas da nossa Gardunha. Conversa e convívio, que já estávamos com saudades destes encontros.

A Libânia contou as duas versões da lenda da Gardunha, a do Hipólito Raposo e a recolhida pelo Albano de Matos. E deste investigador recordou o Francisco a lenda da Senhora da Serra, que teve a sua capela na gruta da Penha.

Mas há outras espiritualidades lá pelos altos de Castelo Novo. O Adelino falou de naves ovais silenciosas, luzes azuis e brancas, seres com dois metros de altura, uma entrada na gruta para uma cavidade luminosa dentro da serra, a queda de uma nave logo abafada pela PIDE/DGS. O José Manuel viu um desses discos a vir da serra no sentido de Castelo Branco, a Maria da Luz subia a Oles numa noite escura e de repente tudo se iluminou, a Fátima tantas vezes viu da Santa Bárbara luzes fortes na encosta mesmo em frente. Não, o pisca-pisca nos Aldeões, que nos anos 60 levou o sr. Vigário e todo o povo em procissão até lá, para benzer o lugar e rezar pela alma do defunto bispo, foi mesmo fraude, contaram depois os brincalhões.

O Joaquim explicou como foi construída a estrada calcetada da Senhora da Orada para a Portela: foi o diabo, numa noite apenas, a troco da alma do homem que se tinha comprometido a fazê-la. No último instante arrependeu-se, valendo-lhe a bondade de Nossa Senhora, que mandou o galo anunciar a aurora e assim o diabo perdeu a aposta (lenda recolhida no Vale D`Urso, pelo Bog do Katano, mas igualmente conhecida em São Vicente). Na versão recolhida por Luís Antunes (http://bogasdebaixo.blogspot.pt/2009/12/encostas-da-gardunha.html) o diabo foram os romanos, que impedidos de subir a Gardunha e passar para o outro lado, pelos hostes de Viriato, construíram a estrada pela calada da noite, mas da Portela não passaram. Prova disso: na vertente norte não há estradas calcetadas.

O José Barroso relembrou-nos depois as histórias do ti Albino Moreira lhe contou sobre o Cireneu, que assolou a serra durante anos, até ser morto pela GNR, em 1925. Um dia o Cireneu aproximou-se da Vila e encontrou no caminho uma menina que ia levar o jantar ao pai (nesse tempo chamava-se jantar ao almoço atual). O bandido comeu metade da merenda, mas em troca ofereceu um brinco de ouro à menina. De outra vez, o ti António da Totina ia à serra apanhar juta para a mulher fazer vassouras, seiras para os lagares, tapetes…. Encontrou-se com o Cireneu, com quem partilhou o tabaco. Em paga, ele levou-o à gruta onde estava alapado. Havia fartura de tudo o que era bom!

O José Manuel partilhou connosco um episódio da nossa História. O Rolão Preto, comparsa do Hipólito Raposo no Integralismo Lusitano e por isso ambos opositores de Salazar, frequentemente tinha de fugir de Lisboa e refugiar-se no seu solar da Soalheira. Mas não ficava à espera que o viessem prender. Vestia roupa do pastor do seu gado e dormia debaixo de uma pedra enorme, que tinha uma reentrância por baixo.

Maria da Luz recordou ainda a batalha da Oles, já abordada por nós noutras ocasiões, assim como a lenda da Senhora da Orada (Conta-me histórias, 5); o Francisco desafiou-nos a uma caminhada até à Penha e o José Manuel defendeu antes a ida anual ao Castelo Velho, a celebrar a vitória da Oles e a fundação de São Vicente, porque NÃO HÁ TERRA COM UMA PRAÇA TÃO LINDA COMO SÃO VICENTE!, arrematou ele.

José Teodoro Prata

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Conta-me histórias, 7

AS LENDAS DA GARDUNHA

A 7.ª sessão do Conta-me histórias é já no próximo domingo, em São Vicente da Beria, Biblioteca Hipólito Raposo.
Vamos falar das origens da nossa identidade, apoiados nas investigações de Albano Mendes de Matos, de Hipólito Raposo, do autor do Blog do Katano e na tradição oral que foi passando de boca em boca ao longo destes muitos anos.
Contamos com todos!
José Teodoro Prata

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026