Serra da Gardunha, Ribeiro Dom Bento, São Vicente da Beira
José Teodoro Prata
Enxidros era a antiga designação do espaço baldio da encosta da Gardunha acima da vila de São Vicente da Beira. A viver aqui ou lá longe, todos continuamos presos a este chão pelo cordão umbilical. Dos Enxidros é um espaço de divulgação das coisas da nossa freguesia. Visitem-nos e enviem a vossa colaboração para teodoroprata@gmail.com
«A minha avó nasceu no início de setembro de 1910, um mês antes da Implantação da República. Durante a sua infância, a gripe espanhola correu o país e chegou à sua aldeia. Conta-se que adoeceu e sobreviveu. Também sobreviveu a cinco partos sem qualquer assistência, ou melhor, seis, porque teve gémeas, um acontecimento que surpreendeu toda a gente. Quando a parteira se apercebeu da existência de outro bebé, pediu a um homem que fosse de bicicleta até à vila mais próxima para trazer um médico porque a situação da parturiente era grave. É bem provável que nesse dia (e nos que se seguiram) a minha avó tenha visto a morte aos pés da cama, como havia de lhe acontecer muitos anos mais tarde, quando já muito velha e doente, me disse: ela hoje andou por aí a rondar.
Pergunto-me se a casa em que viviam nessa altura teria
escadas. E, se sim, como faria ela para descer ao piso térreo a saber das
outras crianças. Pergunto-me também quem lhe terá trazido água, pão, uma canja.
Quanto tempo terá vivido assim? Porque não permaneceu deitada até recuperar as
forças? O que seria tão urgente que a obrigava a deslocar-se entre divisões?
Pergunto-me também se a minha mãe e os meus tios a terão visto e em que
circunstâncias. Porque o certo é que a história chegou até mim mais de sessenta
anos depois de ter acontecido: uma mulher de gatas, uma mãe de gatas, a minha
avó de gatas.»
Isabel
Minhós Martins
Revista
Mamute, n.º 1, segunda série, 2025 (pp. 68 e 69)
José Teodoro Prata
A Enxabarda situa-se bem no coração da Gardunha. Pertence à freguesia do Castelejo e localiza-se no caminho para os cumes da serra.
Na sequência da minha publicação "O nosso falar: cambalhões", o José Miguel Teodoro deu uma achega para ajudar a esclarecer o assunto.
Consultou o velhinho Morais (1950), que o informou de que camalhões e cambalhões são sinónimos. É importante esta informação, pois ficamos a saber que outras regiões do país usam a mesma palavra que nós, não é uma especificidade nossa.
José Teodoro Prata
Ontem, ao passar no cruzamento do Cabeço do Pisco, não digo a hora, porque parece mal, saiu de um pinheiro uma ave enorme. Bateu as asas durante bastante tempo e depois planou até desaparecer no horizonte. Seria uma ave de rapina, mas de uma espécie de grande porte. Fiquei contente e lembrei-me do bando de corvos que por ali andavam antes das infestantes tomarem conta da nossa serra.
Hoje, na Antena 1, o José Candeias referiu o corvo Vicente numa aldeia da Beira Baixa. Para quem não saiba, nos últimos anos da década de 70, o Café "Cagarola" tinha um corvo chamado Vicente que dizia umas palavras.
José Teodoro Prata
Fiz a publicação abaixo apresentada no facebook, a qual motivou uma reflexão sobre a correção da palavra que consta do título, referida em comentário pelo nosso conterrâneo José Nicolau ("Essa cava era chamada cavar cambalhão, ainda cavei assim, deixar a terra direita é cava rasa.")
A Berta Ramalhinho disse que era camalhões (mais tarde o Albano Mendes de Matos informou que na Região Saloia também se diz camalhões). Eu fui consultar a net e de facto é camalhões, vindo do castelhano caballón, palavra que significa cume em português. Eu penso que ao José Nicolau saiu aquilo que se diz e eu digo na nossa terra: cambalhões. De caballón e porque não de cambalhota?, movimento que damos à terra para a virar, muitas vezes até para soterrar a erva da parte superior. Tal como arresário (soalheiro), enxidros (baldios), também usamos cambalhões, de caballlón. São inúmeras as palavras de origem castelhana que nós usamos nesta região fronteiriça!
Gosto de broa. Tanto que, em tempos, achava estranho o desabafo de quem, como os nossos pais e muitas gerações de avós, não teve outro pão em criança: «Quero cá agora broa! Enchi a barriga dela em novo, que era o pão que havia, broa e centeio, que trigo só nas Festas.» Achava estranho porque me lembrava dela ainda a fumegar, aberta pelas mãos da minha avó, logo à saída do forno, regada com um fio de azeite. E era um regalo, nos dias em que passava a Ti Palmira, o Maiaca ou o Pinura, uma fatia de broa com uma sardinha assada a pingar por cima, comida nas escadas da Casa do Casal, entrada de tanta gente…
Não
vão longe os tempos em que, fins de abril, princípios de maio, todos os
lameiros à roda da Ribeira estavam prontos para a sementeira do milho. Era
trabalho para toda a família e, se fosse preciso, podia sempre contar-se com a
mão de algum vizinho. Depois da semente na terra, estando a Lua a favor, passado
pouco tempo era um mar de verde por esses lameiros acima.
Durante
meses não havia descanso: ora a arrelentar, a sachar, a mondar ou a regar.
Durante o verão a água da ribeira era dividida por quem tinha direito a ela, seguindo
tradições que vinham de longe, mas respeitadas como se fossem leis escritas. Havia
quem tivesse que regar pela noite dentro, à luz da Lua ou de lanterna na mão (em
tempos idos, o avistamento destas luzes alimentou o imaginário popular, que
acreditava tratar-se de almas penadas a vaguear pelo mundo). Lá para finais de
setembro o milho estava pronto a ser colhido. Nos anos bons, cada grão deitado
à terra dava umas três maçarocas. Não haveria fome à mesa nem na manjedoura.
Naquele
tempo, entre o Rabaçal, o Balcaria, a Senhora da Orada, o Ribeiro Dom Bento e
as Quintas viviam para cima de dez famílias, algumas com muitos filhos. Quase
toda a gente tinha terras suas, e quem não tinha arrendava-as ou tratava-as ao
terço, como a Ti Maria Etelvina ou o Ti Luís Teodoro, terceiros do António
Neto.
Era
uma vida difícil e de muito trabalho para todos, desde cedo. As crianças vinham
a pé para a escola, às vezes descalças e mal agasalhadas. O Chico Insa ainda
fala duma manhã de aguaceiro em que nem a saca dobrada a fazer de carapuça lhe
valeu, e, já todo numa sopa, abrigou-se num palheiro à espera que estiasse;
depois, por mais que corresse, não se livrou de cinco reguadas em cada mão,
tantas quantas os minutos que chegou atrasado à escola. À tarde, ficavam-lhe
nos olhos os colegas que se demoravam na Praça a jogar às caricas e a deitar o
pião, mas ele tinha sempre pressa em voltar a casa, onde as cabras, com fome,
já o chamavam há muito. Os deveres fazia-os à noite, quando o sono e a luz
mortiça do candeeiro já lhe baralhavam as letras e os números dentro da cabeça,
o que lhe valia mais umas reguadas e a raposa no fim do ano.
Os mais velhos trabalhavam de sol a sol o ano inteiro. Domingos, só para a obrigação da missa; quando muito, dois dedos de conversa à roda do andamento das sementeiras ou dos rebanhos, o tempo de beber um copo com os amigos. Só se perdia algum dia para ir ao mercado ou à feira do Fundão, onde se aviava o que era preciso e vendia o que houvesse. Com tanto trabalho, não sobrava tempo para grandes folguedos, mas em qualquer oportunidade que aparecesse tirava-se a barriga de misérias. Era assim por altura das descamisas, como lembra a Carmo:
«Antigamente
as pessoas eram mais dadas e ajudavam-se umas às outras naquilo que podiam. Na
altura de colher o milho, era só dizer:
- Ó Ti Matias (é só um exemplo), amanhã vamos
colher o milho, apareçam para a descamisa.
Naquele
tempo havia poucas ocasiões para divertimentos, e as descamisas eram
oportunidades que ninguém queria perder, principalmente os rapazes e as
raparigas em idade de arranjar namoro. Quando se sabia duma, passava-se logo a
palavra, e vinha até gente da Vila e do Casal da Fraga.
No
fim da ceia as pessoas iam aparecendo, as que tinham sido convidadas e outras
só por terem ouvido dizer. À medida que chegavam, sentavam-se numa roda à volta
do monte de milho colhido durante o dia. Não havia lugares marcados, mas toda a
gente fazia por se sentar ao pé de alguém por quem tinha alguma preferência,
muitas vezes amores escondidos. Arranjaram-se muitos casamentos assim.
Os serões eram sempre animados: os mais pequenos entretidos nas brincadeiras do costume, só interrompidas para ouvir as histórias de bruxas e almas penadas que o Ti João Candeias contava; as piadas e anedotas dos mais atrevidos punham toda a gente à gargalhada, e quando alguém começava:
As
desfolhadas da aldeia
São
cheias de vida e cor,
toda
a gente ia atrás:
Até
à luz da candeia
Se
inspiram versos de amor.
Ai
desfolhadas, lindas desfolhadas
Onde
as raparigas vão todas lavadas,
Saem
de casa, preparam-se bem,
Porque
os seus amores lá irão também.
Ou
então esta:
Ó
malmequer mentiroso,
Quem
te ensinou a mentir?
Tu
dizes que me quer bem,
Quem
de mim anda a fugir.
Desfolhei
o malmequer
Num
lindo jardim de Santarém,
Malmequer,
bem me quer,
Muito
longe está quem me quer bem.
Malmequer
não é constante,
Malmequer
muito varia,
Vinte
folhas dizem morte,
Treze
dizem alegria.
E a
seguir vinham outras: “Milho verde”, “No cimo daquela serra”, “Água leva o
regadinho”… Mas as mãos não paravam, entre a pressa de acabar o trabalho para
começar a festa, e a cata de uma maçaroca vermelha.
Quando
se ouvia gritar: «Milho-rei! Milho-rei!» calava-se tudo a ver quem tinha sido o
felizardo ou a felizarda. Quem quer que fosse, levantava-se e corria a roda a dar
um abraço a toda a gente. Para os mais novos era uma libertação, que podiam
abraçar-se às claras, sem a censura daqueles tempos. Desconfiava-se mesmo que
alguns rapazes já levavam de casa uma maçaroca vermelha, só para poderem abraçar
as raparigas.
No
fim do trabalho, os donos ofereciam qualquer coisa para comer e beber, quase sempre
pão com queijo, passas, maçãs, aguardente para os homens e jeropiga para as
mulheres. Na descamisa do Ti António Remualdo também havia sempre esquecidos,
especialidade da Ti Maria da Luz.
Acabado
o trabalho fazia-se um bailarico, quase sempre ao toque do realejo. Naquele
tempo havia muitos rapazes que sabiam dançar e tocar bem, mas o Joaquim Feijão,
o João Borrego e o Manel Primo, que vinha do Casal da Serra, eram dos melhores
e estavam lá sempre caídos.
O
meu pai é que, mal começava o baile, punha-se logo: «Ó meninos, dois palmos,
dois palmos!» e levantava as mãos espalmadas, unidas pelos polegares. O que
vale é que havia sempre alguém a acudir por nós: «Ó Ti Jaquim, deixe lá a
rapaziada divertir-se, que não se apega mal nenhum! Quando era novo não gostava
também de dançar com a Ti Emília?».
Por
esta altura, com a barriga cheia e vencidos pelo sono e pelo cansaço das
brincadeiras, os mais pequenos deitavam-se pelo chão e dormiam como justos.
Contam que um dia, no fim de uma descamisa no Rabaçal, uma filha da Bernardina
Pescão Seco, por mais que a chamassem, não dava sinais de vida. Já andava toda
a gente à procura, pensando o pior, que naquele tempo ainda apareciam lobos por
ali. A mãe, já sem grande esperança de encontrar a filha, deitava as mãos à
cabeça: «Ai, minha rica filha! E logo hoje, que lhe pus o meu lenço de
merino…». Quando deram com ela, ainda estremunhada debaixo de um molho de
folhelhos, foi um alívio. Ainda hoje há quem conte esta história…
Mal o bailarico acabava, já a passar da meia-noite, regressava toda a gente a casa. Os mais pequenos, a lembrarem-se das histórias, agarrados às saias das mães; os mais velhos, com o corpo a pedir cama, mas já a contar os dias para a próxima descamisa, quer fosse a do Ti Matias, a do João Serra, a do António Passaraço, ou a doutro vizinho qualquer. Naquele tempo nenhuma nos escapava.»
ML Ferreira