quinta-feira, 14 de maio de 2026

Enxabarda 4

 «A água é negra. O fundo é de lascas de xisto, lascas que não magoam os pés, pedrinhas que não chegam a ser areia grossa. A película brilhante que separa o escuro do claro faz-nos pensar em óleo espesso, mas o som é bem mais líquido e fresco, mais limpo.

A superfície estremece ligeiramente com o movimento dos alfaiates: ao leve pousar das suas patas, um pequeno círculo, uma bolha que não chega a ser bolha, forma-se à volta de cada uma, e então deixamos de perceber. Porque às patas e aos seus reflexos juntam-se os pequenos círculos e seus reflexos e a imagem confunde-nos: não percebemos que animal é este, onde começa e acaba o seu corpo, quantas patas tem afinal. Para nos hipnotizar ainda mais, há esse modo extraterrestre de se deslocar, de um modo para o qual é difícil encontrar palavras, pois, na verdade, um alfaiate não caminha, não salta, não desliza, não voa, não nada, avança. Tem qualquer coisa de aranha, e não admira que este movimento aranhiço sobre o fundo tão escuro do Poço Escuro cause repulsa a alguns veraneantes menos habituados (…).

Os alfaiates estão sossegados mas, quando mergulhamos, tudo se quebra: a água, os reflexos, a paz dos alfaiates, o silêncio, o calor. A água é leve e fria, tão diferente da água salgada onde também mergulhamos nas férias. É uma água sem sabor, sem peso, sem mais nada, uma água-água, e talvez seja do frio, da escuridão ou desta leveza, mas até parece que conseguimos atravessá-la mais depressa. Chegar à superfície é ter a sensação de que renascemos.»

Isabel Minhós Martins

Revista Mamute, n.º 1, segunda série, 2025 (pp. 73 e 74)

terça-feira, 12 de maio de 2026

Enxabarda 3

«Como a chave estava sempre na porta, primos e vizinhos entravam pela casa adentro sem aviso e, se isso acontecia por volta do meio-dia, viam-nos passar ainda despenteadas, de pijama. Tantas horas de sono eram consideradas ali um costume exótico, um capricho que os outros tinham dificuldade em compreender. O sono era um tempo roubado as horas de trabalho à fresca, um desperdício (…).

(…) Havia esse pormenor de a chave estar na porta todo o dia. A primeira pessoa a acordar, normalmente a minha avó, colocava-a na fechadura do lado de fora; a última a deitar-se fazia o inverso. A chave só era retirada quando íamos à cidade mais próxima ou quando, por exemplo, decidíamos ir passar o dia à serra. Penso que não o fazíamos com medo de que a casa fosse assaltada, mas mais como um aviso, um sinal que dizia a quem passava: se a chave não está na porta é porque não está ninguém em casa. A bem dizer, a chave era sempre colocada debaixo do tapete da entrada, portanto, se fosse necessário, era possível entrar.

A casa da minha avó fica no largo da igreja e as pessoas entravam muito: antes da missa, depois da missa, a caminho das hortas ou quando iam aviar-se à loja que ficava mesmo em frente à nossa porta.»

Isabel Minhós Martins

Revista Mamute, n.º 1, segunda série, 2025 (pp. 69 e 70)

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Gladíolos silvestres

 

Serra da Gardunha, Ribeiro Dom Bento, São Vicente da Beira

José Teodoro Prata

domingo, 10 de maio de 2026

Enxabarda 2

 «A minha avó nasceu no início de setembro de 1910, um mês antes da Implantação da República. Durante a sua infância, a gripe espanhola correu o país e chegou à sua aldeia. Conta-se que adoeceu e sobreviveu. Também sobreviveu a cinco partos sem qualquer assistência, ou melhor, seis, porque teve gémeas, um acontecimento que surpreendeu toda a gente. Quando a parteira se apercebeu da existência de outro bebé, pediu a um homem que fosse de bicicleta até à vila mais próxima para trazer um médico porque a situação da parturiente era grave. É bem provável que nesse dia (e nos que se seguiram) a minha avó tenha visto a morte aos pés da cama, como havia de lhe acontecer muitos anos mais tarde, quando já muito velha e doente, me disse: ela hoje andou por aí a rondar.

Pergunto-me se a casa em que viviam nessa altura teria escadas. E, se sim, como faria ela para descer ao piso térreo a saber das outras crianças. Pergunto-me também quem lhe terá trazido água, pão, uma canja. Quanto tempo terá vivido assim? Porque não permaneceu deitada até recuperar as forças? O que seria tão urgente que a obrigava a deslocar-se entre divisões? Pergunto-me também se a minha mãe e os meus tios a terão visto e em que circunstâncias. Porque o certo é que a história chegou até mim mais de sessenta anos depois de ter acontecido: uma mulher de gatas, uma mãe de gatas, a minha avó de gatas.»

Isabel Minhós Martins

Revista Mamute, n.º 1, segunda série, 2025 (pp. 68 e 69)


José Teodoro Prata

 

sábado, 9 de maio de 2026

Enxabarda 1

 A Enxabarda situa-se bem no coração da Gardunha. Pertence à freguesia do Castelejo e localiza-se no caminho para os cumes da serra.

Nunca lá fui, mas tenho por ela algum interesse e até nostalgia. A minha tetravó Bárbara Leitão, casada com Teodoro Matias dos Santos, descendia de um jovem vindo das terras de Viseu, que casou no Vale de Figueiras e cujo filho foi depois casar à Enxabarda e os seus descendentes foram passando a terra alheia até um ramo se fixar no Casal da Fraga.
Pela Enxabarda passava a Estrada Nova, entre a Foz do Giraldo e o Castelejo, um troço da estrada que ligava Abrantes a Almeida, durante as Invasões Francesas. Deu nome a uma emboscada do exército luso-britânico e dos populares da serra, que constituiu um dos piores pesadelos que os invasores sofreram em Portugal.
É da Enxabarda o Pe. Jorge Fernandes, com quem tive pouca ligação no Verbo Divino, mas adorava as suas crónicas no Contacto SVD, dos anos em que viveu em Roma e ali dirigiu uma residência religiosa. São da Enxabarda dois irmãos carpinteiros que fazem bons trabalhos em madeira nas casas das povoações da serra.
E é da Enxabarda a Isabel Minhós Martins, mais certamente os seus pais, cujos escritos encontrei na revista Mamute, n.º 1, segunda série, publicada pela Livros Zigurate (Lisboa, MMXXV). É uma “Revista de Não Ficção-Literária”, “Para não deixar morrer as nossas histórias”, projeto com o qual me identifico totalmente.
A autora conta histórias das férias da sua infância na Enxabarda, traçando um retrato fiel do que foram as nossas terras até um passado muito recente. Vou publicar alguns trechos, na sequência desta introdução. Este é o Enxabarda 1 e os textos serão identificados por Enxabarda 2, 3, 4…

José Teodoro Prata

terça-feira, 28 de abril de 2026

Mais cambalhões

 Na sequência da minha publicação "O nosso falar: cambalhões", o José Miguel Teodoro deu uma achega para ajudar a esclarecer o assunto. 

Consultou o velhinho Morais (1950), que o informou de que camalhões e cambalhões são sinónimos. É importante esta informação, pois ficamos a saber que outras regiões do país usam a mesma palavra que nós, não é uma especificidade nossa.

José Teodoro Prata

sábado, 25 de abril de 2026

Passarada

Ontem, ao passar no cruzamento do Cabeço do Pisco, não digo a hora, porque parece mal, saiu de um pinheiro uma ave enorme. Bateu as asas durante bastante tempo e depois planou até desaparecer no horizonte. Seria uma ave de rapina, mas de uma espécie de grande porte. Fiquei contente e lembrei-me do bando de corvos que por ali andavam antes das infestantes tomarem conta da nossa serra.

Hoje, na Antena 1, o José Candeias referiu o corvo Vicente numa aldeia da Beira Baixa. Para quem não saiba, nos últimos anos da década de 70, o Café "Cagarola" tinha um corvo chamado Vicente que dizia umas palavras.

José Teodoro Prata