Era no tempo da inocência, em que as histórias ouvidas ao serão preenchiam o nosso imaginário e nos resolviam o conflito com a realidade.
Uma das que mais me maravilhava, contada por alturas da Páscoa, (início da primavera) era sobre a flor da esteva.
Resumidamente, era mais ou menos assim:
O caminho por onde Jesus subiu ao Calvário era todo rodeado de estevas com flores brancas. Mas quando Jesus passava, os espinhos que lhe cravaram na cabeça eram tão fundos que faziam com que o sangue que lhe jorrava da cabeça salpicasse tudo o que estava à roda e fosse também cair sobre as flores das estevas. Ao ver o filho em tal sofrimento, Nossa Senhora chorava tantas lágrimas de sangue, que caíram também sobre algumas flores.
Isto justifica que encontremos estevas cujas flores tenham apenas cinco pétalas com manchas de sangue (aquelas em que caiu o sangue de Jesus) e outras que tenham seis (as que apanharam também as lágrimas de Nossa Senhora).
Do cheiro das estevas, só a linguagem da memória, feita poesia:
«Lembro-me do cheiro dos lagares, das queijeiras, do forno, da forja – eram cheiros que entravam pelas narinas como tantos outros, mas só esses se infiltravam no sangue e aí ficavam, depositados em sucessivas camadas, para sempre, como ficou o aroma das estevas e do feno.»
(Eugénio de Andrade)
MLFerreira
(O escritor Rentes de Carvalho, natural de uma aldeia próximo de Torre de Moncorvo, mas a viver na Holanda, escreveu num dos seus livros que levada um ramo de estevas para pendurar na sua cozinha lá da longínqua Amsterdão.)
José Teodoro Prata


