quarta-feira, 8 de julho de 2026

Entre cá e lá

         Chamo-me Isabel, tenho 87 anos e nasci em São Vicente. Naquele tempo família do meu pai era das mais ricas cá na terra, tudo à custa de muito trabalho e privações, que, da fartura que colhiam, pouco sobrava para algum mimo ou luxo para os filhos; só pensavam em aferrolhar, sempre com o sentido de acrescentar mais um bocado de terra ou uma cabeça de gado ao muito que já tinham. Os pais da minha mãe eram da Partida; pessoas com menos posses, mas alegres e amigos de se divertir. Pelo Santiago e no Entrudo era uma festa! A minha mãe herdou isso deles e eu depois saí a ela. O que eu gostava de cantar e dançar quando era cachopa nova! Mas a minha vida deu tantas voltas que, a pouco e pouco, fui perdendo a alegria que tinha:

No ano em que nasci foi quando começou a guerra; era um tempo de muita fome por todo o lado. Havia umas senhas de racionamento, e ainda me lembro de, com seis anos, vir da Partida a São Vicente buscar o bocadinho de mercearia a que tínhamos direito à loja do Manuel da Silva. Vinha descalça, e sempre deserta por chegar ao pé duma figueira que havia perto dos Pereiros, e colher dois ou três figos para matar a fome. Também me lembro de, nesse tempo, andarem na Partida umas pessoas, que diziam que eram franceses fugidos da guerra. Durante o dia andavam por lá, e as pessoas iam-lhes dando qualquer coisa para comer; à noite dormiam nuns palheiros e currais já fora da povoação.

Era ainda muito pequena quando os meus pais, por coisas lá deles, se separaram. Eu e o meu irmão ainda ficámos uns tempos com a minha mãe, mas como ela vivia com mais dificuldades o tribunal entregou-me à guarda do pai. Eu não gostava de viver com ele e, mal ele se descuidava, fugia-lhe para casa da minha mãe. Mas a maior parte das vezes, mal chegava à Partida, já o tinha à minha espera para me levar de volta para Almaceda, onde ele estava como feitor duma grande casa. Vivi assim alguns anos, com muita coisa que contar pelo meio, até que um dia o cabo de ordens foi dizer em tribunal que ele me batia, e entregaram-me à minha avó. Com estas voltas todas nem pude ir à escola, como muitas garotas da minha idade já iam, e mal sei escrever.

Estive pouco tempo com a minha avó porque me arranjaram uma casa para servir em Castelo Branco. Era uma garota, mas trabalhava que nem uma mulher feita. Ainda lá fiquei uns dois anos. Depois vim para São Vicente, para a casa do António Prata, mas ao fim dum ano adoeci e quando melhorei fui para a Covilhã, para casa duma filha do Zé Neves. Também lá estive uns dois anos e foi aí que aprendi muita coisa, mas não me deixou saudades quando abalei de lá. A patroa era uma mulher fria, sem coração. Éramos três criadas, todas a trabalhar que nem umas escravas; e os filhos também eram ruins para nós, mas ela, mesmo que os visse a tratarem-nos mal, era incapaz de lhes dizer alguma coisa. Quando lhe disse que me vinha embora meteu-se na cama durante uma semana, a fingir-se doente, mas eu não voltei atrás, apesar do senhor Doutor me ter vindo pedir desculpa. Quando voltei para a terra e ainda estive uns tempos em casa da Dona Natividade Lino. Gostava muito de lá estar e só saí quando foi para me casar. Tinha vinte anos e ainda precisei de autorização do meu pai.

Nesse tempo o meu marido já era um grande resineiro, com carta e tudo, mas trabalhava por conta doutro. Passado um ano de nos termos casado deram-lhe pinhal para tratar por conta própria, e eu comecei a trabalhar com ele. Havia muito pinheiro naquela altura. Desde o Valcovo até Tinalhas era tudo nosso, e quando o meu irmão foi para França, ainda ficámos com o que ele o trazia, em São Fiel.

Era um trabalho sujo, mas gostávamos daquela vida. Trazíamos quase sempre seis homens a trabalhar connosco; ainda me lembro do Zé Café, do Zé da Ti Eulália, do Manel Ar, do Tó Relojoeiro, do Zé Libério... e também trazíamos algumas mulheres, umas mais novas, outras já casadas: a Maria Orlanda, as filhas da senhora Leonor, a Luzia e a senhora Patrocínia. Eram quase todas aqui do Casal, que as da Vila, naquele tempo, não trabalhavam na resina. Cada homem tinha um certo número de pinheiros por conta dele. Começavam em abril a fazer a picação, punham as bicas e a loiça e deitavam um ácido na ferida, que era o que fazia sair a resina; as mulheres, de sete em sete dias, passavam a despejar as tigelas, primeiro para uns caldeiros e depois para os barris que estavam espalhados pelo pinhal, consoante o número de pinheiros. Depois os barris eram recolhidos por um ganhão e metidos numa camioneta que os levava para a fábrica da resina de Castelo Branco.

Nunca tivemos problemas com o pessoal. Eu dava-me com todos, principalmente com as raparigas mais novas, que considerava como se fossem minhas filhas ou minhas irmãs. Trabalhávamos muito mas também nos sabíamos divertir. Não faltávamos a uma excursão à Senhora das Preces, e quando era pelas Festas ou aos domingos, se sabíamos que havia baile na Vila íamos todas a dançar para a Praça. Também tínhamos um rancho aqui do Casal. Éramos nós que fazíamos os versos, ensaiávamos as danças, e fazíamos os fatos e os arcos, tudo com a ajuda do povo, sempre pronto a ajudar, fosse no que fosse. E nunca ficámos atrás dos da Vila. Tínhamos muito orgulho no nosso Casal:

 

O Casal da Fraga é tão grande

Tem oitenta moradores

Quase não se veem as casas

Está no meio das flores.

 

Ó que lindos arredores

Tem o Casal da Fraga

Dum lado tem o São José

Do outro a Santa “Barba”.

 

O meu marido era um grande resineiro. Uma vez até vieram aí uns homens a bater-nos à porta, a perguntar por ele. Queriam levá-lo para a França, para chefe de uma equipa, lá para os lados de Bordéus. Ofereciam-lhe bom dinheiro, casa com tudo, e que eu também ia, mas nem precisava de trabalhar. Mas nós não aceitámos. Tanto ele como eu dissemos logo que nunca abandonaríamos a nossa terra por nada deste mundo.

Nessa altura vivíamos bem, éramos considerados e recebíamos bom dinheiro quando era ao fim da época da resina, em novembro, e depois ainda íamos para a azeitona. Foram dez anos muito felizes. Por isso ainda hoje acho que devíamos estar doidos quando resolvemos deixar tudo e ir na conversa do João Simão, que veio de férias em agosto, e nos moeu o juízo para irmos para o pé dele: que a França era uma terra muito linda, com muito trabalho, a peia certa ao fim do mês, muitas regalias que cá não havia; só coisas boas...

O meu homem não queria ir, mas lá se resolveu, e fomos a Castelo Branco tratar dos bilhetes de identidade. Deixámos o trabalho da resina, mesmo sem receber o que nos deviam, arranjámos um passador e abalámos todos a salto: a minha mãe, o meu filho, o meu homem e eu, grávida de seis meses.

Foi uma viajem que nunca me há de esquecer. Quem era para ser o nosso passador era o Bigodes da Partida, mas teve um problema qualquer e quem acabou por nos levar foi um homem que nós não conhecíamos de lado nenhum, arranjado pelo Cagarola. Abalámos aqui do Casal na camioneta da carreira no dia oito de setembro de 1969, uma segunda-feira. O tal homem disse-nos que descêssemos no Freixial, mas a minha mãe que seguisse até Castelo Branco. Nós assim fizemos. Passado um bocado apareceu o tal homem, meteu-nos num carro, fomos buscar a minha mãe que estava à nossa espera ao pé da Sé, e levou-nos para o Fundão. Aí fomos para uma pensão onde já havia outras pessoas, todas para o mesmo. O combinado era que seguíamos viagem durante a noite, mas acabámos por dormir lá, os quatro na mesma cama, e nem podíamos sair para comprar alguma coisa para comer, com medo de ser apanhados.

Abalámos do Fundão só ao fim da manhã do outro dia, num carro que nos levou até um sítio que já devia ser perto da fronteira. Depois ainda nos fartámos de andar a pé por um caminho ruim, sempre a subir, cheios de calor, até chegarmos a um sítio que nos disseram que já era Espanha. Aí estava uma camioneta à nossa espera, já quase cheia de gente que tinha vindo de outras terras. Éramos para atravessar a Espanha durante a noite, mas, a meio do caminho, o autocarro teve um problema e fomos obrigados a dormir num sítio ermo, cada um deitado para seu lado, até arranjarem a avaria.

Ao outro dia, quando chegámos perto da fronteira da França, tivemos que descer outra vez da camioneta, atravessar a pé, e do lado de lá é que apanhámos um comboio que nos levou até Paris. Quando chegámos a Paris, eu já não me tinha em pé; tive que me deitar no chão até à chegada do comboio que nos levou até perto do destino.

O passador nunca nos abandonou, é verdade. Também não tinha outro remédio porque já sabia que só quando chegássemos à direção que levávamos num papel é que recebia o que tinha sido acordado: dezasseis contos, que tínhamos deixado ao Miguel Leitão, com ordem de só os entregar quando lhe déssemos ordem. Chegámos ao fim de quatro dias, 12 de setembro, já tão arrependida de ter saído de Portugal, que se não fosse tão longe e não estivesse no estado em que estava, tinha voltado para trás.

E as facilidades que nos tinham prometido estavam bem longe daquilo que encontrámos. A casa que o João Simão nos tinha arranjado era pouco mais que uma barraca, com uns colchões e mais umas coisitas que devia ter apanhada na poubella, mas o pior foram os problemas em arranjar os papéis para podermos começar a trabalhar. Só ao fim de quatro meses, a 12 de janeiro, é que o meu marido pôde entrar ao trabalho. O pouco dinheiro que levávamos acabou-se depressa e passámos muitas dificuldades. Nunca me hei de esquecer de um dia, perto do Natal, o meu filho ver lá um garoto a comer uma tangera, chegar ao pé de mim e dizer-me que também gostava tanto de comer uma. Ele que sempre tinha tido tudo o que queria, e naquele dia nem uma tangera lhe podia dar…

Entretanto, no dia 23 de dezembro nasceu a minha filha, em casa, ajudada só pela minha mãe, e sem nada de jeito para a agasalhar. Eu que tanto tinha desejado aquela menina e dizia para mim que havia de a criar como uma princesa. O que eu chorei de a ver assim tão pequenina e desprotegida!

Finalmente, quando começámos a trabalhar os dois, a vida melhorou. Era uma fábrica de móveis muito grande, com mais de dois mil trabalhadores, franceses, portugueses e marroquinos, onde havia sempre que fazer. Mas tivemos que trabalhar no duro e fazer muitos sacrifícios para podermos endireitar a vida, criar três filhos, e arranjar cá uma casinha, que era o sonho de todos os emigrantes. Depois da retraite ainda gozámos um bocadinho, mas já não foi a mesma coisa de como quando éramos novos.

Agora, que a minha mãe lá morreu, o meu marido também já lá está, e os meus filhos e netos têm as vidas deles, já não volto de todo para cá. Ainda gosto de vir à minha terra, mas às vezes acho que em Portugal já não me olham como portuguesa, como na França nunca me viram como francesa. É como se, entre cá e lá, já não fosse ninguém.

Já lá vão tantos anos e nunca me hei de esquecer das palavras que o meu irmão me disse um dia: «Irmã, sei que estás a pensar ir para França; podes ir, que não me vais tirar o trabalho a mim nem a ninguém, mas a felicidade que aqui tens podes crer que não a vais encontrar por lá…». Palavras tão certas!

MB Ferreira

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Um Cireneu de chocolate

Na festa da Cereja deste ano, em Alcongosta, foi lançado um chocolate chamado Cireneu. O jornal do Fundão deu a notícia que abaixo se mostra, apresentando o marginal como o Robin dos Bosques da Gardunha.

Na 7.ª sessão do projeto Conta-me histórias, em São Vicente, o José Barroso contou-nos as histórias do ti Albino Moreira sobre o Cireneu, que assolou a serra durante anos, até ser morto pela GNR, em 1925. «Um dia o Cireneu aproximou-se da Vila e encontrou no caminho uma menina que ia levar o jantar ao pai (nesse tempo chamava-se jantar ao almoço atual). O bandido comeu metade da merenda, mas em troca ofereceu um brinco de ouro à menina. De outra vez, o ti António da Totina ia à serra apanhar juta para a mulher fazer vassouras, seiras para os lagares, tapetes…. Encontrou-se com o Cireneu, com quem partilhou o tabaco. Em paga, ele levou-o à gruta onde estava alapado. Havia fartura de tudo o que era bom!»

José Teodoro Prata

terça-feira, 30 de junho de 2026

Parque solar na Gardunha

 Castelo Branco: Promotor recusa convite para ir à Assembleia Municipal explicar projeto solar

Por: Diário Digital Castelo Branco, 29 de junho

O promotor de um projeto para a instalação de um parque solar na Serra da Gardunha, ao qual a Câmara de Castelo Branco se opõe, recusou o convite para estar presente na Assembleia Municipal para explicar o projeto.

O presidente da Câmara de Castelo Branco informou hoje a Assembleia Municipal sobre um projeto para a instalação de um parque solar na Serra da Gardunha, ao qual se opôs devido à sua localização.

No início do período de antes da Ordem do Dia, o presidente da Assembleia Municipal de Castelo Branco, informou os deputados municipais que tinha recebido um pedido de audiência por parte do promotor deste projeto e pediu que fosse acrescentado um ponto ao período da Ordem do Dia para informar os deputados sobre o assunto em causa, sendo que não se tratava de qualquer ação para deliberação.

Valter Lemos explicou ainda que reuniu no dia 26 de junho, com o grupo investidor (Eurowind), com o presidente da Câmara de Castelo Branco, Leopoldo Rodrigues e com a presidente da Junta de Freguesia de Louriçal do Campo, Gorete Serra.

“Trata-se exclusivamente de um ponto para esclarecer dúvidas e informar os deputados municipais”, vincou.

Após votação, os deputados aprovaram, por maioria (apenas houve um voto contra), que fosse acrescentado este ponto à Ordem do Dia, pelo que o presidente da Câmara de Castelo Branco informou a Assembleia Municipal sobre as intenções do promotor para este projeto.

Leopoldo Rodrigues deixou bem claro que na primeira reunião que teve com o grupo investidor foi-lhe dito, “de uma forma genérica” que pretendiam investir em Castelo Branco na instalação de um parque híbrido (solar e eólico), mas “sem falar na sua localização”.

“Na altura expliquei que me opunha à instalação deste projeto caso este ocupasse áreas protegidas, solos agrícolas ou zonas onde tivesse forte impacto na paisagem”.

Segundo o autarca, passado algum tempo foi abordado por um consultor que trabalha para o grupo investidor, no sentido de arrendar cerca de sete hectares de terreno propriedade do município, precisamente, na Serra da Gardunha.

“Foi só nessa altura que me apercebi que o projeto coincidia com a Serra da Gardunha. Comunicámos que a nossa posição se mantinha e que achávamos que a localização não era a mais adequada e propusemos que procurassem outras alternativas. Não somos contra investimento ou energias alternativas”, sublinhou.

O presidente da Câmara realçou ainda que na última reunião realizada no dia 26 de junho, o investidor manteve-se praticamente intransigente.

“Houve um convite feito à empresa para estar hoje presente na Assembleia Municipal para explicar o projeto. Ficaram de ponderar e recusaram a sua presença”, sustentou.

Vários deputados municipais abordaram o assunto, mas queixaram-se da falta de informação sobre o mesmo, considerando que se trata de um assunto bastante sério.

Leopoldo Rodrigues voltou a realçar que para o executivo “a Gardunha é um santuário que importa preservar” e perante as queixas dos deputados sobre a falta de informação sobre o projeto, disse que se trata de um processo evolutivo.

Voltou a sublinhar que por se tratar de um assunto de extrema importância decidiu informar a Assembleia Municipal e, inclusivamente, disponibilizou-se para que seja marcada uma reunião extraordinária, caso assim o entendam os deputados municipais, somente para discutir este assunto.

“Não vejo nada contra isso e se o entenderem podemos voltar a convidar a empresa a estar presente”, disse.

Este assunto já tinha sido abordado, numa sessão pública do executivo, onde Leopoldo Rodrigues informou os vereadores deste projeto para instalar um parque eólico e solar nas proximidades da Serra da Gardunha, no concelho de Castelo Branco, cujo investimento ronda os 1,2 mil milhões de euros.

O caso ficou agora à espera da reflexão dos deputados municipais para uma posterior tomada de posição sobre o assunto.

José Teodoro Prata

domingo, 28 de junho de 2026

Por favor, preocupem-se!

 

O MAPA NEGRO

O governo divulgou esta semana o mapa das Zonas de Aceleração das Energias Renováveis (ZAER). Este documento é um passaporte para a indústria da mal designada energia verde, ocupar 7% do território nacional. Este projeto é particularmente lesivo para o distrito de Castelo Branco onde se prevê a ocupação de uma área que se aproxima dos 100 mil hectares. Três concelhos da zona do Pinhal (Sertã, Proença-a-Nova e Oleiros) são os mais afetados uma vez que o plano prevê uma ocupação do seus territórios superior a 35%. O impacto de tudo isto é aterrador, visualmente vamos ter uma paisagem pintada de negro e ambientalmente é uma catástrofe uma vez que a destruição de cerca de 100 mil hectares de vegetação (só no distrito de Castelo Branco) implica a morte de um enorme número de aves e animais selvagens contribuindo desta forma para o aceleramento das alterações climáticas. Segundo os especialistas a destruição de tamanha área natural vai provocar um aumento da temperatura, o escoamento rápido da água das chuvas provocando um aumento das cheias e não permitindo o abastecimento dos aquíferos subterrâneos, a diminuição da percentagem de oxigénio e consequentemente da qualidade do ar, a esterilização dos solos por longos anos e uma acumulação enorme de sucata provocada pelo fim de vida dos equipamentos utilizados. A concretizar-se, este é um dos planos mais negros que Portugal alguma vez teve e perante isto impõem-se as perguntas: é necessário? Portugal precisa mesmo disto? A resposta é: não. Segundo foi divulgado em setembro do ano passado pela Goldenergy citando dados do Eurostat, Portugal já produz pelo sistema renovável mais de 86% da energia que consome, no entanto, o consumo de energia em Portugal e no mundo desenvolvido está a aumentar assustadoramente por causa dos Data centers, Inteligência Artificial, etc. e o nosso país está na mira das grandes multinacionais do setor energético para ser sacrificado em prol dos chorudos lucros que esta indústria vai gerar. A “receita” é velha, consta em todos os “manuais” das “empresas abutres” só lamento que o nosso governo lhe dê cobertura pondo desta forma a cabeça do seu povo no cepo. E perante isto, que titulo atribuir a este governo e em particular à Ministra do Ambiente?


José Teodoro Prata

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Clara linda linda Clara

 https://youtu.be/d91X9-Mlrug?si=-ZBkGiaUL0k6Iz94

Em 1962, Fernando Lopes Graça e Michel Giacometti estavam a fazer recolhas de canções populares pelo país. Foi na povoação de Alferce, na serra de Monchique, que descobriram a balada “Ó Laurinda, Linda, Linda”, sobre uma mulher adúltera que quase era apanhada em flagrante pelo marido quando este voltava de viagem. Registaram o tema na voz de Mariana Vitorino.

Quase duas décadas depois, em 1981, o cantor Vitorino gravava “Laurinda” para o seu álbum Romances. Tornou-se, com o passar do tempo, numa das canções mais emblemáticas do seu repertório. 

Entretanto, José Augusto Alves (poeta popular vicentino de quem publicámos, no verão passado, parte da sua poesia no livro Poesia Simples) registou por escrito a versão que ele conhecia, provavelmente desconhecendo a informação que apresentei acima. Estas histórias em verso passavam de boca em boca e quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto. Por isso cada região contará uma versão desta história.

Clara linda linda Clara

Clara linda como o Sol;

Deixa-me dormir contigo

Na ponta do teu lençol.

 

Na ponta do meu lençol

Hoje sim amanhã não;

Meu marido não está cá

Foi à feira d´Assunção.

 

Onze horas meia noite

Marido à porta bateu;

Clara linda linda Clara

Clara linda não falou.

 

Clara linda está doente

Ou lá tem outros amores;

Ando à procura das chaves

Para abrir os corredores.

 

De quem é aquele chapéu

Que além está dependurado;

É para ti meu marido

Por minhas mãos acabado.

 

De quem é aquele capote

Que tem barra de galão;

É para ti meu marido

Acabado por minha mão.

 

De quem é aquele cavalo

Na minha loja guinchou;

É para ti meu marido

Foi teu pai co cá mandou.

 

De quem é aquele suspiro

No meu quarto suspirou;

Clara linda linda Clara

Caiu no chão e desmaiou.

 

Vai chamar as tuas irmãs

Para se despedirem de ti;

Que não vão fazer aos outros

O que tu me fizeste a mim.

 

Sete irmãs que nós somos

Todas filhas dum doutor;

Eu por ser a mais novinha

Caí no maior terror.


José Teodoro Prata

domingo, 21 de junho de 2026

O Zé Manel emigrante

 Comentário do Zé Manel ao último (anterior) texto aqui publicado e no Facebook:

«Pois é...

Não sei se o Jorge trabalhou na estrada na Paradanta, mas eu nunca lá trabalhei

Trabalhei sim, um verão numa estrada perto de Oleiros 'éramos uma "caterva" deles da vila quase tudo malta nova.

Voltando à minha ida a salto para a França "lembrei-me do Raul Solnado, a história da sua ida à guerra"

Aproximava-se o tempo de ir à inspeção, o tempo de ir parar a África, matar os "terroristas" ou eles matarem-me a mim.

Nunca fui a favor destas guerras que o Salazar nos obrigava a fazer

Diziam os mandões

Angola é nossa...

Eu respondia baixinho; uma gaita, a minha parte vendo-a por uma caixa de fósforos

Certa vez disse ao meu pai que queria ir para a França...

O passador levava cinco contos, escrevi uma carta ao meu tio António, deu ordem à sua sogra a senhora Maria do Carmo Marcelino para me entregar os cinco contitos

O meu pai falou com o António Luis "bigodes da Partida" certo dia eu e o Jorge cada um com seu cesto colocámos a mala de cartão dentro cobrimo-la com uma manta da azeitona e ai vamos nós estrada fora a caminho da Oles

Para onde ides!

Vamos para a Oles do senhor Eduardo Cardoso colher azeitona

Tão bem vestidos!...

O meu pai andava na cruz da Oles, passado um bom bocado chega o "bigodes da Partida"

No Fundão meteu nos umas três ou quatro sandes na mão...

Em Vilar Formoso saímos com o carro em andamento. Frentes de Onor era logo ali. Depois, bem depois sozinhos tivemos que nos desenrascar...

Um ano e meio mais-tarde resolvi regressar para fazer a tropa

O meu chefe senhor Jean Marie

Não queiras ir; a França é a França e teve que entregar a Argélia

Portugal não aguenta três guerras ...

A saudade...

Vim em Agosto, no dia 19 de Outubro meteram-me uma G3 na mão ...

E pronto.»

José Teodoro Prata

sábado, 20 de junho de 2026

Conta-me histórias da emigração

 

O Jorge foi com o Zé Manel para a França. Ainda não tinham feito a tropa, por isso tiveram de ir assalto. Andavam os dois a trabalhar na estrada, perto da Paradanta, e apareceu lá um senhor com ordens dos pais para os trazer para casa. Chegaram, já tinham as malas feitas, só tiveram de se lavar e mudar de roupa.  O senhor, da Partida, que costumava passar gente, levou-os de carro até Vilar Formoso e disse-lhes que apanhassem o comboio em Fuentes de Onor, do outro lado da fronteira. Eles lá foram e entraram no comboio, mas logo apareceram os carabineiros a correr, pareciam andar à procura de alguém. Eles fizeram-se desentendidos e colocaram-se à janela, a fingir descontração. Foram até Irun, na fronteira com a França, saíram do comboio e seguiram aquela gente toda para um túnel. Que levantassem o braço com o passaporte na mão, gritava alguém. O Zé Manel levada um livrito e levantou-o. O Jorge não tinha nada para mostrar, mas deixou-se ir no meio da multidão e lá passaram. Foram para Clermont-Ferrand e arranjaram trabalho na fábrica da Michelin. Mas passado um ano receberam cartas dos pais pedindo-lhes que regressassem, pois, se não viessem fazer a tropa, não poderiam vir a Portugal ver a família, durante 45 anos. Lá vieram, fizeram a tropa, o Jorge foi à guerra colonial e depois voltou para a França, onde ficou toda a vida ativa.

A ida da Isabel para a França foi uma ilusão e um erro. A família vivia bem com o negócio da resina, mas alguém os convenceu que na França é que era. Foram, passaram dificuldades e só não voltaram porque o bom que tinham deixado já não estava à espera deles. Os filhos foram nascendo, o marido adaptou-se, porque era um otimista, mas ela nunca gostou, e agora também não, já sem o Chico e olhada como estrangeira cá e lá.

A Lurdes emigrou para a Alemanha, com o marido. Trabalhavam na mesma fábrica, em turnos diferentes. Ela gostava do trabalho e até era elogiada pelas suas capacidades. Tinham uma vida boa, mas o Joaquim nunca gostou. Acabaram por regressar a Portugal ainda com os filhos menores.

A emigração da Fátima foi de luxo, em tempos de bidonvilles, mas nunca gostou, de tal modo que só durou quatro meses. O marido trabalhara nas Oficinas Gerais de Material Aeronáutico, em Alverca, mas foi para Paris aprender mais, na prática e na teoria, pois estudava na Sorbonne. Ele ganhava muito dinheiro, por isso vivam num hotel, mas ela não parava de rezingar. Desesperado, o Francisco levou-a a Champigny-sur-mer, o maior bairro de lata de França, onde viviam cerca de 15 mil pessoas, 10 mil das quais emigrantes portugueses. Foi no inverno, as ruas eram autênticos lamaçais, assim como o chão das barracas de madeira e chapas. Um horror, mas nem assim conseguiu saborear o luxo do hotel. Certo dia, perto da meia-noite, apanhou um comboio em sentido contrário ao seu destino. No final da viagem, viu-se numa estação terminal, rapidamente deserta, em nenhures. Pediu ajuda e passado muito tempo lá voltou à estação inicial, onde apanhou um táxi. Ao chegar ao hotel, às duas da manhã, disse ao marido que no dia seguinte a levasse ao comboio para Portugal. E assim foi. O marido ainda voltou a Paris por um curto período de tempo, mas depois regressou definitivamente. Teve uma vida muito mais difícil do que se tivesse ficado, mas nunca se arrependeu.

O Zé Manel não pode estar presente e escreveu um comentário no facebook, com memórias ligeiramente diferentes. Publico-o amanhã.
José Teodoro Prata