segunda-feira, 2 de março de 2026

Conta-me histórias: as lendas da Gardunha

Éramos mais de trinta, ontem agraciados com dois grupos forasteiros. Quase duas horas de conversa em torno das lendas da nossa Gardunha. Conversa e convívio, que já estávamos com saudades destes encontros.

A Libânia contou as duas versões da lenda da Gardunha, a do Hipólito Raposo e a recolhida pelo Albano de Matos. E deste investigador recordou o Francisco a lenda da Senhora da Serra, que teve a sua capela na gruta da Penha.

Mas há outras espiritualidades lá pelos altos de Castelo Novo. O Adelino falou de naves ovais silenciosas, luzes azuis e brancas, seres com dois metros de altura, uma entrada na gruta para uma cavidade luminosa dentro da serra, a queda de uma nave logo abafada pela PIDE/DGS. O José Manuel viu um desses discos a vir da serra no sentido de Castelo Branco, a Maria da Luz subia a Oles numa noite escura e de repente tudo se iluminou, a Fátima tantas vezes viu da Santa Bárbara luzes fortes na encosta mesmo em frente. Não, o pisca-pisca nos Aldeões, que nos anos 60 levou o sr. Vigário e todo o povo em procissão até lá, para benzer o lugar e rezar pela alma do defunto bispo, foi mesmo fraude, contaram depois os brincalhões.

O Joaquim explicou como foi construída a estrada calcetada da Senhora da Orada para a Portela: foi o diabo, numa noite apenas, a troco da alma do homem que se tinha comprometido a fazê-la. No último instante arrependeu-se, valendo-lhe a bondade de Nossa Senhora, que mandou o galo anunciar a aurora e assim o diabo perdeu a aposta (lenda recolhida no Vale D`Urso, pelo Bog do Katano, mas igualmente conhecida em São Vicente). Na versão recolhida por Luís Antunes (http://bogasdebaixo.blogspot.pt/2009/12/encostas-da-gardunha.html) o diabo foram os romanos, que impedidos de subir a Gardunha e passar para o outro lado, pelos hostes de Viriato, construíram a estrada pela calada da noite, mas da Portela não passaram. Prova disso: na vertente norte não há estradas calcetadas.

O José Barroso relembrou-nos depois as histórias do ti Albino Moreira lhe contou sobre o Cireneu, que assolou a serra durante anos, até ser morto pela GNR, em 1925. Um dia o Cireneu aproximou-se da Vila e encontrou no caminho uma menina que ia levar o jantar ao pai (nesse tempo chamava-se jantar ao almoço atual). O bandido comeu metade da merenda, mas em troca ofereceu um brinco de ouro à menina. De outra vez, o ti António da Totina ia à serra apanhar juta para a mulher fazer vassouras, seiras para os lagares, tapetes…. Encontrou-se com o Cireneu, com quem partilhou o tabaco. Em paga, ele levou-o à gruta onde estava alapado. Havia fartura de tudo o que era bom!

O José Manuel partilhou connosco um episódio da nossa História. O Rolão Preto, comparsa do Hipólito Raposo no Integralismo Lusitano e por isso ambos opositores de Salazar, frequentemente tinha de fugir de Lisboa e refugiar-se no seu solar da Soalheira. Mas não ficava à espera que o viessem prender. Vestia roupa do pastor do seu gado e dormia debaixo de uma pedra enorme, que tinha uma reentrância por baixo.

Maria da Luz recordou ainda a batalha da Oles, já abordada por nós noutras ocasiões, assim como a lenda da Senhora da Orada (Conta-me histórias, 5); o Francisco desafiou-nos a uma caminhada até à Penha e o José Manuel defendeu antes a ida anual ao Castelo Velho, a celebrar a vitória da Oles e a fundação de São Vicente, porque NÃO HÁ TERRA COM UMA PRAÇA TÃO LINDA COMO SÃO VICENTE!, arrematou ele.

José Teodoro Prata

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Conta-me histórias, 7

AS LENDAS DA GARDUNHA

A 7.ª sessão do Conta-me histórias é já no próximo domingo, em São Vicente da Beria, Biblioteca Hipólito Raposo.
Vamos falar das origens da nossa identidade, apoiados nas investigações de Albano Mendes de Matos, de Hipólito Raposo, do autor do Blog do Katano e na tradição oral que foi passando de boca em boca ao longo destes muitos anos.
Contamos com todos!
José Teodoro Prata

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Campainhas

 

Campainhas silvestres, Ribeiro Dom Bento, serra da Gardunha

José Teodoro Prata

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Mãezona

 

Já se sabe que as cocós são chocadeiras naturais, pois dispensam eletricidade e outras mordomias. Em cada três meses, tiram uma ninhada de pintos, quatro por ano: num mês põem ovos, no outro chocam e no último tratam das crias; depois retomam o ciclo.

A minha cocó não gosta que lhe mexam após iniciar o choco, por isso descontrolou-se na última criação, culpa minha. Desta vez não lhe mexi: deixei ficar todos os ovos que estavam no ninho e no exterior do galinheiro, onde começara o choco.
Houve noites de temperaturas negativas e a minha esperança foi morrendo. Também o facto de nunca ter visto o galo galar as fêmeas não augurava nada de bom. Os três tigres da divisão do lado desesperam por conquistar o harém!
Afinal foi uma mãezona. Ontem apresentou-me 8 lindos pintos. Safou-se o galo e ela ganhou créditos de chocadeira extraordinária: com temperaturas exteriores negativas, nas noites iniciais, conseguir manter os ovos a uma temperatura constante de 37 graus é obra!

José Teodoro Prata

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Ti Miguel Jerónimo

 

A Jú Jerónimo que me perdoe, mas não resisti a esta foto que ela publicou no facebook. O janota é o pai dela, Miguel Jerónimo, parente materno do meu pai.

Ele morava lá longe, do outro lado da ribeira, mas tinha uma horta na Barroca, que delimitava por cima com o Cabeço do Pisco e é agora da neta Ana.

No tempo bom, ele e a mulher, a ti Laurentina, passavam uma ou duas vezes por semana na Tapada onde nasci e cresci. O ti Miguel mais sereno, a tia Laurentina mais conversadora. Vinham sempre com um burrito, um pequeno rebanho de cabras e um ou dois cães, desses rafeiros de porte mediano.

O ti Miguel trazia normalmente o casaco pendurado num só ombro, o que deveras me intrigava, pois não conhecia ninguém que o usasse assim.

Numa manhã, passou logo cedo para cima, perguntando-nos se tínhamos encontrado um casaco que ele perdera na véspera. Voltou pouco depois com o casaco e o cão. Contou-nos que encontrara o casaco caído no caminho já perto da Barroca e o cão deitado em cima dele. Ele não dera por deixar cair o casaco, mas o cão vira e ficou a guardá-lo até o dono voltar!

Em 2016, publiquei no livro “Dos Enxidros aos Casais” uma história sobre ir ao mato para fazer as camas dos animais. A parte que se segue é dedicada ao Ti Miguel:

«O mato mais abundante era a carqueja, mas magoava os animais, sobretudo no tempo seco, quando está mais áspera. A cama nova da furda era nova por poucos minutos. O porco fossava tudo e abria túneis, na sua função de porco e à procura de abrigo das picadelas das moscas. Saía de lá todo riscado de vermelho.
Por isso íamos à carqueja debaixo dos pinheiros, onde era mais macia e mais alta.

Os pinheiros eram os da senhora Maria José Afonsa. Sabíamos que lá não podíamos cortar, pois, uma vez por ano, em setembro, ela vinha com um carro de bois e pessoal, a buscar mato para o quintal, por detrás da sua casa no Cimo de Vila. Quem lhe guardava o mato era o ti Miguel da ti Laurentina que tinha a horta em frente, do outro lado do barroco. Mas ele morava no Casal do Baraçal e por isso bastava pormo-nos à escuta de sons de cabras ou chamamentos de gente.
Um dia, ele surpreendeu-nos, a mim e aos meus primos. Aproximou-se silencioso, podão na mão e casaco pendurado num só ombro, como o trazia sempre. Dera a volta ao barroco, por cima. Disse-nos o que já sabíamos e ofereceu-nos o seu mato, junto ao Cabeço do Pisco, sempre que precisássemos. Mas deixou-nos levar os molhos, porque era um homem bom.»

Nota: Há um ditado popular africano que diz ser preciso toda uma aldeia para educar uma criança. Este caso que aconteceu na minha infância partilha da mesma sabedoria. O ti Miguel podia ter ralhado connosco. Em vez disso, falou-nos com toda a calma, apenas nos pedindo que não cortássemos o mato ali, mas oferecendo-nos o seu. Se nos tivesse ralhado, teríamos provavelmente continuado ali a cortar mato e começado a ir ao mato dele. Assim, ficámos envergonhados e nunca mais ali voltámos, nem fomos ao dele.

Jjosé Teodoro Prata


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Zona Especial de Conservação (ZEC) da Serra da Gardunha

 

A área da ZEC está delimitada pela linha vermelha. A parte ponteada a lilás é a área protegida já existente. Concluo que todo o vale da ribeira, até à Orada, isto é, a zona agrícola, ficou fora da ZEC. Esta começa onde se inicia a floresta, nas zonas mais altas.

Há muita informação na net sobre a ZEC da Gardunha. 

Ainda não percebi, nem aceito, que a parte a oeste da Paradanta não seja considerada integrante da Gardunha, por um lado, e por outro que não tenha sido integrada na ZEC.

A este, a ZEC termina na extremidade da serra, a este de Vale de Prazeres e do Alcaide.

José Teodoro Prata

Acrescento de 08-02: 

Informa-me a net que a Gardunha tem 20 km de comprimento e, pelas povoações incluídas, termina na Portela da Paradanta. Por isso a ZEC e a anterior Paisagem Protegida Reginal da serra da Gardunha terminam na Paradanta. Penso que é mais um limite político-administrativo do que geográfico. Mas, vencido, embora não convencido, aqui deixo a retificação.

José Teodoro Prata