Um dia, no Ribeiro Dom Bento, vi desaparecer um inseto do tamanho e forma do zangão (não o macho da abelha), mas todo preto, por uma fisga entre duas placas metálicas.
Dos Enxidros
Enxidros era a antiga designação do espaço baldio da encosta da Gardunha acima da vila de São Vicente da Beira. A viver aqui ou lá longe, todos continuamos presos a este chão pelo cordão umbilical. Dos Enxidros é um espaço de divulgação das coisas da nossa freguesia. Visitem-nos e enviem a vossa colaboração para teodoroprata@gmail.com
terça-feira, 2 de junho de 2026
Ninho de zangão
sábado, 30 de maio de 2026
A flor da esteva
Era no tempo da inocência, em que as histórias ouvidas ao serão preenchiam o nosso imaginário e nos resolviam o conflito com a realidade.
Uma das que mais me maravilhava, contada por alturas da Páscoa, (início da primavera) era sobre a flor da esteva.
Resumidamente, era mais ou menos assim:
O caminho por onde Jesus subiu ao Calvário era todo rodeado de estevas com flores brancas. Mas quando Jesus passava, os espinhos que lhe cravaram na cabeça eram tão fundos que faziam com que o sangue que lhe jorrava da cabeça salpicasse tudo o que estava à roda e fosse também cair sobre as flores das estevas. Ao ver o filho em tal sofrimento, Nossa Senhora chorava tantas lágrimas de sangue, que caíram também sobre algumas flores.
Isto justifica que encontremos estevas cujas flores tenham apenas cinco pétalas com manchas de sangue (aquelas em que caiu o sangue de Jesus) e outras que tenham seis (as que apanharam também as lágrimas de Nossa Senhora).
Do cheiro das estevas, só a linguagem da memória, feita poesia:
«Lembro-me do cheiro dos lagares, das queijeiras, do forno, da forja – eram cheiros que entravam pelas narinas como tantos outros, mas só esses se infiltravam no sangue e aí ficavam, depositados em sucessivas camadas, para sempre, como ficou o aroma das estevas e do feno.»
(Eugénio de Andrade)
MLFerreira
(O escritor Rentes de Carvalho, natural de uma aldeia próximo de Torre de Moncorvo, mas a viver na Holanda, escreveu num dos seus livros que levada um ramo de estevas para pendurar na sua cozinha lá da longínqua Amsterdão.)
José Teodoro Prata
segunda-feira, 25 de maio de 2026
Fim do Ciclo Pascal
A festa da
Páscoa ou da Aleluia terminou ontem, dia de Pentecostes, em que se celebra a
descida do Espírito Santo sobre os apóstolos e a consequente criação da Igreja
Cristã.
Ontem
tiveram lugar as últimas romarias que integram o ciclo Pascal: Senhora da Póvoa
(Vale da Senhora da Póvoa), São Lourenço (Palvarinho) e Senhora da Orada (São
Vicente da Beira). Antes, realizaram-se as festas da Senhora dos Altos Céus (Lousa),
Senhora do Almortão (Idanha-a-Nova), Senhora da Mércoles (Castelo Branco),
Santa Bárbara (Casal da Fraga – SVB; no passado entre o Sobral do Campo e São
Vicente), São Tiago (Partida – SVB)…
Na década de
70 do século passado, em São Vicente da Beira, era nas datas das romarias referidas
que o sr.º Vigário visitava todas as casas, dando as Boas Festas.
Nota: A foto
mostra a estrada romana que ainda hoje existe junto à ermida da Senhora da
Orada, no interior da serra da Gardunha.
José Teodoro Prata
sexta-feira, 22 de maio de 2026
Como se chama?
Quem amanhã for à romaria da Senhora da Orada pelo caminho que vem do Caldeira para as Quintas, vai avistá-la na zona entre o pinheiro manso e o cruzamento do Cabeço do Pisco. Nalguns locais é mesmo a única presença viva, no meio de caules calcinados que ficaram do fogo do ano passado.
Não sei o seu nome, mas tem tanto frágil como de delicadeza e beleza.
José Teodoro Prata
Nota: Chama-se coruba-brava, segundo informação da Sara Varanda postada no facebook.
quarta-feira, 20 de maio de 2026
Giesta-do-monte
Quem no domingo for à romaria da Senhora da Orada, a pé, pelo caminho que vai do Cimo de Vila para as Quintas, ainda pode ver a giesta-do-monte (Polygala microphylla) florida, ali entre o Pinheiro e o Carvalhal Redondo, à direita de quem sobe.
A floração
prolonga-se por tanto tempo que a flor de roxo escuro começa a ficar lilás
claro. Floresce sempre por alturas da Páscoa, pelo que a minha mãe, que não
sabia o nome dela, chamava-lhe Páscoas. A foto foi tirada pela minha irmã São, este ano.
Há alguns
anos, trouxe a planta à Escola Agrária de Castelo Branco. Informaram-me do nome
e que a planta abunda sobretudo no centro litoral, sempre virada ao mar, como
este lugar onde a podemos admirar todos os anos.
Trata-se de uma planta
rasteira e as hastes floridas raramente ultrapassam um palmo de altura. É muito resistente,
pois naquele local já sobreviveu a três fogos, recentemente (1986, 1917 e 2025).
José Teodoro Prata
terça-feira, 19 de maio de 2026
Enxabarda 6 (último)
Na rua, cruzamo-nos com alguém que não nos conhece. A pergunta surge imediatamente, sempre a mesma:
Sois
filhas de quem?
Os nomes das
nossas mães levam ao nome da nossa avó, ao nome dos nossos tios e, quase
sempre, aos nomes dos nossos bisavós.
Ainda somos
primos.
Ou então:
A tua avó
ajudou-me muito.
As tuas
tias ainda se devem lembrar.
Antigamente
éramos vizinhos.
E segue-se
uma história de superação, solidariedade, entreajuda, morte, qualquer coisa que
não é para brincar, como relatos de meninos que não tinham o que comer e que só
se salvaram por terem sido amamentados por vizinhas.
Éramos
família.
Somos
família.
Queremos-vos
como queremos aos nossos.
A pergunta sois
filha de quem? não é, pois, uma pergunta qualquer. Liga-nos diretamente a
quem passa. E quem passa sabe haver maneira de nos ligarmos todos.
Isabel
Minhós Martins
Revista
Mamute, n.º 1, segunda série, 2025 (pp. 75 e 76)
José Teodoro Prata
domingo, 17 de maio de 2026
Enxabarda 5
«Pergunto
à minha mãe e às minhas tias se pobreza era a palavra certa para descrever a
vida da aldeia quando eram crianças. Quase tudo aquilo de que se lembram melhor
– ou que decidiram guardar na memória – tem a ver com uma ideia de comunidade e
entreajuda. Só que eu insisto na pergunta: mas como é que viviam?
Sementes, fermento, fogo.
Tudo se partilhava e trocava, não havia desperdício.
O fogo passava de casa em
casa através de uma pinha: A vizinha já tem lume?
Caso fossem poucas, as
sementes pediam-se de porta em porta: Maria, tens aí um todo-nadinha de
sementes de nabo para acrescentar a este todo-nadinha que trago aqui? uma
vizinha perguntou à minha avó.
Existiam várias categorias
de pouco, várias formas de nada. Era possível haver um pouco menos do que
pouco, um pouco menos do que nada.
O fermento passava de mão em
mão, de masseira em masseira.
Da roupa de adulto fazia-se
roupa de criança.
Das partes mais gastas do
fundo das camisas costuravam-se as roupas dos bebés, para que fossem mais
macias.
Dos trapos que sobravam
teciam-se tapetes e mantas, para o frio, para amparar as azeitonas, para secar
o milho.
Antes de serem lavados, os
lençóis de cima passavam a lençóis de baixo, para poupar lavagens.
(…)
Trocavam-se cereais por
loiças, azeite por ferramentas, tarefas por tarefas.
Partilhava-se a sorte quando
chegava o azar (…). Vizinhos iam ao fundo das arcas buscar o que restava do
milho para fazer farinha e papas; vizinhos chegavam com taças de sangue de
porco para compensar a perda. [de alguém a quem se entornara o alguidar de
sangue da matança do porco]
O meu milho é o teu milho,
o meu sangue é o vosso
sangue.
Por bondade ou para noutra
ocasião
o teu milho seja o meu
milho,
o teu sangue o nosso
sangue.»
Isabel Minhós Martins
Revista Mamute, n.º 1, segunda série, 2025 (pp. 75 e 76)



