«Pergunto
à minha mãe e às minhas tias se pobreza era a palavra certa para descrever a
vida da aldeia quando eram crianças. Quase tudo aquilo de que se lembram melhor
– ou que decidiram guardar na memória – tem a ver com uma ideia de comunidade e
entreajuda. Só que eu insisto na pergunta: mas como é que viviam?
Sementes, fermento, fogo.
Tudo se partilhava e trocava, não havia desperdício.
O fogo passava de casa em
casa através de uma pinha: A vizinha já tem lume?
Caso fossem poucas, as
sementes pediam-se de porta em porta: Maria, tens aí um todo-nadinha de
sementes de nabo para acrescentar a este todo-nadinha que trago aqui? uma
vizinha perguntou à minha avó.
Existiam várias categorias
de pouco, várias formas de nada. Era possível haver um pouco menos do que
pouco, um pouco menos do que nada.
O fermento passava de mão em
mão, de masseira em masseira.
Da roupa de adulto fazia-se
roupa de criança.
Das partes mais gastas do
fundo das camisas costuravam-se as roupas dos bebés, para que fossem mais
macias.
Dos trapos que sobravam
teciam-se tapetes e mantas, para o frio, para amparar as azeitonas, para secar
o milho.
Antes de serem lavados, os
lençóis de cima passavam a lençóis de baixo, para poupar lavagens.
(…)
Trocavam-se cereais por
loiças, azeite por ferramentas, tarefas por tarefas.
Partilhava-se a sorte quando
chegava o azar (…). Vizinhos iam ao fundo das arcas buscar o que restava do
milho para fazer farinha e papas; vizinhos chegavam com taças de sangue de
porco para compensar a perda. [de alguém a quem se entornara o alguidar de
sangue da matança do porco]
O meu milho é o teu milho,
o meu sangue é o vosso
sangue.
Por bondade ou para noutra
ocasião
o teu milho seja o meu
milho,
o teu sangue o nosso
sangue.»
Isabel Minhós Martins
Revista Mamute, n.º 1, segunda série, 2025 (pp. 75 e 76)
