domingo, 21 de junho de 2026

O Zé Manel emigrante

 Comentário do Zé Manel ao último (anterior) texto aqui publicado e no Facebook:

«Pois é...

Não sei se o Jorge trabalhou na estrada na Paradanta, mas eu nunca lá trabalhei

Trabalhei sim, um verão numa estrada perto de Oleiros 'éramos uma "caterva" deles da vila quase tudo malta nova.

Voltando à minha ida a salto para a França "lembrei-me do Raul Solnado, a história da sua ida à guerra"

Aproximava-se o tempo de ir à inspeção, o tempo de ir parar a África, matar os "terroristas" ou eles matarem-me a mim.

Nunca fui a favor destas guerras que o Salazar nos obrigava a fazer

Diziam os mandões

Angola é nossa...

Eu respondia baixinho; uma gaita, a minha parte vendo-a por uma caixa de fósforos

Certa vez disse ao meu pai que queria ir para a França...

O passador levava cinco contos, escrevi uma carta ao meu tio António, deu ordem à sua sogra a senhora Maria do Carmo Marcelino para me entregar os cinco contitos

O meu pai falou com o António Luis "bigodes da Partida" certo dia eu e o Jorge cada um com seu cesto colocámos a mala de cartão dentro cobrimo-la com uma manta da azeitona e ai vamos nós estrada fora a caminho da Oles

Para onde ides!

Vamos para a Oles do senhor Eduardo Cardoso colher azeitona

Tão bem vestidos!...

O meu pai andava na cruz da Oles, passado um bom bocado chega o "bigodes da Partida"

No Fundão meteu nos umas três ou quatro sandes na mão...

Em Vilar Formoso saímos com o carro em andamento. Frentes de Onor era logo ali. Depois, bem depois sozinhos tivemos que nos desenrascar...

Um ano e meio mais-tarde resolvi regressar para fazer a tropa

O meu chefe senhor Jean Marie

Não queiras ir; a França é a França e teve que entregar a Argélia

Portugal não aguenta três guerras ...

A saudade...

Vim em Agosto, no dia 19 de Outubro meteram-me uma G3 na mão ...

E pronto.»

José Teodoro Prata

sábado, 20 de junho de 2026

Conta-me histórias da emigração

 

O Jorge foi com o Zé Manel para a França. Ainda não tinham feito a tropa, por isso tiveram de ir assalto. Andavam os dois a trabalhar na estrada, perto da Paradanta, e apareceu lá um senhor com ordens dos pais para os trazer para casa. Chegaram, já tinham as malas feitas, só tiveram de se lavar e mudar de roupa.  O senhor, da Partida, que costumava passar gente, levou-os de carro até Vilar Formoso e disse-lhes que apanhassem o comboio em Fuentes de Onor, do outro lado da fronteira. Eles lá foram e entraram no comboio, mas logo apareceram os carabineiros a correr, pareciam andar à procura de alguém. Eles fizeram-se desentendidos e colocaram-se à janela, a fingir descontração. Foram até Irun, na fronteira com a França, saíram do comboio e seguiram aquela gente toda para um túnel. Que levantassem o braço com o passaporte na mão, gritava alguém. O Zé Manel levada um livrito e levantou-o. O Jorge não tinha nada para mostrar, mas deixou-se ir no meio da multidão e lá passaram. Foram para Clermont-Ferrand e arranjaram trabalho na fábrica da Michelin. Mas passado um ano receberam cartas dos pais pedindo-lhes que regressassem, pois, se não viessem fazer a tropa, não poderiam vir a Portugal ver a família, durante 45 anos. Lá vieram, fizeram a tropa, o Jorge foi à guerra colonial e depois voltou para a França, onde ficou toda a vida ativa.

A ida da Isabel para a França foi uma ilusão e um erro. A família vivia bem com o negócio da resina, mas alguém os convenceu que na França é que era. Foram, passaram dificuldades e só não voltaram porque o bom que tinham deixado já não estava à espera deles. Os filhos foram nascendo, o marido adaptou-se, porque era um otimista, mas ela nunca gostou, e agora também não, já sem o Chico e olhada como estrangeira cá e lá.

A Lurdes emigrou para a Alemanha, com o marido. Trabalhavam na mesma fábrica, em turnos diferentes. Ela gostava do trabalho e até era elogiada pelas suas capacidades. Tinham uma vida boa, mas o Joaquim nunca gostou. Acabaram por regressar a Portugal ainda com os filhos menores.

A emigração da Fátima foi de luxo, em tempos de bidonvilles, mas nunca gostou, de tal modo que só durou quatro meses. O marido trabalhara nas Oficinas Gerais de Material Aeronáutico, em Alverca, mas foi para Paris aprender mais, na prática e na teoria, pois estudava na Sorbonne. Ele ganhava muito dinheiro, por isso vivam num hotel, mas ela não parava de rezingar. Desesperado, o Francisco levou-a a Champigny-sur-mer, o maior bairro de lata de França, onde viviam cerca de 15 mil pessoas, 10 mil das quais emigrantes portugueses. Foi no inverno, as ruas eram autênticos lamaçais, assim como o chão das barracas de madeira e chapas. Um horror, mas nem assim conseguiu saborear o luxo do hotel. Certo dia, perto da meia-noite, apanhou um comboio em sentido contrário ao seu destino. No final da viagem, viu-se numa estação terminal, rapidamente deserta, em nenhures. Pediu ajuda e passado muito tempo lá voltou à estação inicial, onde apanhou um táxi. Ao chegar ao hotel, às duas da manhã, disse ao marido que no dia seguinte a levasse ao comboio para Portugal. E assim foi. O marido ainda voltou a Paris por um curto período de tempo, mas depois regressou definitivamente. Teve uma vida muito mais difícil do que se tivesse ficado, mas nunca se arrependeu.

O Zé Manel não pode estar presente e escreveu um comentário no facebook, com memórias ligeiramente diferentes. Publico-o amanhã.
José Teodoro Prata

terça-feira, 16 de junho de 2026

Papa-figos

 
Hoje, voou sobre mim um casal de papa-figos, felizes da vida, pareciam flechas!
Estava a passar junto às hortas do Zé Manel da Esperança e da sua irmã São.
Se os virem por aí, digam-lhes que tenho no Ribeiro Dom Bento uma figueira de São João com figos quase a amadurecer.

José Teodoro Prata

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Conta-me histórias da guerra colonial


Voltámos à Biblioteca Hipólito Raposo, para mais um Conta-me histórias, desta vez sobre a guerra colonial.

O livro Poesia Simples, de José Augusto Alves, conta a história do Tó, soldado paraquedista que foi voluntário para a Guiné e sofreu um ataque. Veio para o hospital militar, em Lisboa, com múltiplas queimaduras e só chegou à terra na sexta-feira santa do ano seguinte, quando desciam o Cristo da cruz, no Calvário. «Foi um enorme guerreiro / Também andou pelos matos; / Tantos soldados solteiros / Que da guerra andavam fartos.» Um dia, num jantar de antigos combatentes, disse ao ex-comandante militar da Guiné, também presente: «Quando morrer, eu fico a substituí-lo!» Ambos se chamavam António e aos dois faltava um olho.

O Rui esteve num ponto crítico da Guiné, próximo da outra Guiné que fora francesa e já estava independente. O sítio era tão perigoso que até foi para lá mandado, como castigo, um soldado que matara um sargento noutra região. Era motorista e teve de ir para a guerra, porque vários motoristas madeirenses foram despedir-se à ilha e apanharam o avião para os Estados Unidos. Ouvia o Amílcar Cabral, às 7 da tarde, desde Conacri. Quando partiu, não percebia nada de política, mas era impossível não concordar com Cabral que defendia um governo misto de portugueses e africanos. Na altura do seu assassinato, houve uma companhia que foi massacrada e os sobreviventes dispersaram. A um deles, o João, também vicentino, encontrou-o muito mal, todo amarelo, com hepatite. Levou-o para o quartel e tratou dele. Depois pediu ao comandante e “adotaram-no”. O Rui foi protegido pela mãe de Jesus, pois escapou ileso de um ataque no dia 13 de maio. Mas houve na guerra tantos mortos por se relaxarem as regras de segurança!

O Jorge já fora para França, mas regressou a pedido dos pais, pois, se não viesse fazer a tropa, não poderia vir visitar a família. Ele passou melhor, também na Guiné, pois o seu quartel só sofreu um ataque. Filho do barbeiro da terra, cortava o cabelo aos outros soldados, nas horas vagas.

O Cassiano esteve na retaguarda, desde os 16 anos, como funcionário do hospital militar, em Lisboa, onde chegavam os feridos e os mortos. Depois do 25 de Abril foi para Luanda, como militar, a receber e inventariar os equipamentos médico-cirúrgicos trazidos pelas unidades que regressavam do mato, com destino à metrópole.

Tantos traumas!


José Teodoro Prata

 

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Conta-me histórias, 8

 Nesta oitava sessão, iremos relembrar histórias antigas contadas de boca em boca, pelos nossos antepassados, e antigos emigrantes e ex-combatentes da guerra colonial partilharão alguns episódios das suas vidas.

José Teodoro Prata

terça-feira, 2 de junho de 2026

Ninho de zangão

Um dia, no Ribeiro Dom Bento, vi desaparecer um inseto do tamanho e forma do zangão (não o macho da abelha), mas todo preto, por uma fisga entre duas placas metálicas.

Duas semanas depois, precisei de mover as placas e deparei-me com o ninho que a foto mostra.
Na altura, pensei que a parte amarela eram ovos ali colocados para se alimentarem as lagartas que fossem nascendo dos ovos postos pelo tal inseto (são já visíveis algumas).
Dias depois voltei ao sítio, preocupado com as consequências da minha intrusão. Já havia dezenas de lagartas e concluí que a parte amarela é pólen ali acumulado pela mãe zangão, para alimentar os filhos (as lagartas da abelha tambérm se alimentam de pólen).


José Teodoro Prata

sábado, 30 de maio de 2026

A flor da esteva

 Era no tempo da inocência, em que as histórias ouvidas ao serão preenchiam o nosso imaginário e nos resolviam o conflito com a realidade. 

Uma das que mais me maravilhava, contada por alturas da Páscoa, (início da primavera) era sobre a flor da esteva. 

 Resumidamente, era mais ou menos assim:

O caminho por onde Jesus subiu ao Calvário era todo rodeado de estevas com flores brancas. Mas quando Jesus passava, os espinhos que lhe cravaram na cabeça eram tão fundos que faziam com que o sangue que lhe jorrava da cabeça salpicasse tudo o que estava à roda e fosse também cair sobre as flores das estevas. Ao ver o filho em tal sofrimento, Nossa Senhora chorava tantas lágrimas de sangue, que caíram também sobre algumas flores. 

Isto justifica que encontremos estevas cujas flores tenham apenas cinco pétalas com manchas de sangue (aquelas em que caiu o sangue de Jesus) e outras que tenham seis (as que apanharam também as lágrimas de Nossa Senhora). 

Do cheiro das estevas, só a linguagem da memória, feita poesia:

«Lembro-me do cheiro dos lagares, das queijeiras, do forno, da forja – eram cheiros que entravam pelas narinas como tantos outros, mas só esses se infiltravam no sangue e aí ficavam, depositados em sucessivas camadas, para sempre, como ficou o aroma das estevas e do feno.»

(Eugénio de Andrade)

MLFerreira

(O escritor Rentes de Carvalho, natural de uma aldeia próximo de Torre de Moncorvo, mas a viver na Holanda, escreveu num dos seus livros que levada um ramo de estevas para pendurar na sua cozinha lá da longínqua Amsterdão.)

José Teodoro Prata