Éramos mais de trinta, ontem agraciados com dois grupos forasteiros. Quase duas horas de conversa em torno das lendas da nossa Gardunha. Conversa e convívio, que já estávamos com saudades destes encontros.
A Libânia
contou as duas versões da lenda da Gardunha, a do Hipólito Raposo e a recolhida
pelo Albano de Matos. E deste investigador recordou o Francisco a lenda da
Senhora da Serra, que teve a sua capela na gruta da Penha.
Mas há
outras espiritualidades lá pelos altos de Castelo Novo. O Adelino falou de
naves ovais silenciosas, luzes azuis e brancas, seres com dois metros de
altura, uma entrada na gruta para uma cavidade luminosa dentro da serra, a
queda de uma nave logo abafada pela PIDE/DGS. O José Manuel viu um desses
discos a vir da serra no sentido de Castelo Branco, a Maria da Luz subia a Oles
numa noite escura e de repente tudo se iluminou, a Fátima tantas vezes viu da
Santa Bárbara luzes fortes na encosta mesmo em frente. Não, o pisca-pisca nos
Aldeões, que nos anos 60 levou o sr. Vigário e todo o povo em procissão até lá,
para benzer o lugar e rezar pela alma do defunto bispo, foi mesmo fraude,
contaram depois os brincalhões.
O Joaquim
explicou como foi construída a estrada calcetada da Senhora da Orada para a
Portela: foi o diabo, numa noite apenas, a troco da alma do homem que se tinha
comprometido a fazê-la. No último instante arrependeu-se, valendo-lhe a bondade
de Nossa Senhora, que mandou o galo anunciar a aurora e assim o diabo perdeu a
aposta (lenda recolhida no Vale D`Urso, pelo Bog do Katano, mas igualmente
conhecida em São Vicente). Na versão recolhida por Luís Antunes (http://bogasdebaixo.blogspot.pt/2009/12/encostas-da-gardunha.html) o diabo foram os romanos, que
impedidos de subir a Gardunha e passar para o outro lado, pelos hostes de
Viriato, construíram a estrada pela calada da noite, mas da Portela não
passaram. Prova disso: na vertente norte não há estradas calcetadas.
O José
Barroso relembrou-nos depois as histórias do ti Albino Moreira lhe contou
sobre o Cireneu, que assolou a serra durante anos, até ser morto pela GNR, em
1925. Um dia o Cireneu aproximou-se da Vila e encontrou no caminho uma menina
que ia levar o jantar ao pai (nesse tempo chamava-se jantar ao almoço atual). O
bandido comeu metade da merenda, mas em troca ofereceu um brinco de ouro à
menina. De outra vez, o ti António da Totina ia à serra apanhar juta para a
mulher fazer vassouras, seiras para os lagares, tapetes…. Encontrou-se com o
Cireneu, com quem partilhou o tabaco. Em paga, ele levou-o à gruta onde estava
alapado. Havia fartura de tudo o que era bom!
O José
Manuel partilhou connosco um episódio da nossa História. O Rolão Preto,
comparsa do Hipólito Raposo no Integralismo Lusitano e por isso ambos
opositores de Salazar, frequentemente tinha de fugir de Lisboa e refugiar-se no
seu solar da Soalheira. Mas não ficava à espera que o viessem prender. Vestia
roupa do pastor do seu gado e dormia debaixo de uma pedra enorme, que tinha uma
reentrância por baixo.
