quinta-feira, 2 de julho de 2026

Um Cireneu de chocolate

Na festa da Cereja deste ano, em Alcongosta, foi lançado um chocolate chamado Cireneu. O jornal do Fundão deu a notícia que abaixo se mostra, apresentando o marginal como o Robin dos Bosques da Gardunha.

Na 7.ª sessão do projeto Conta-me histórias, em São Vicente, o José Barroso contou-nos as histórias do ti Albino Moreira sobre o Cireneu, que assolou a serra durante anos, até ser morto pela GNR, em 1925. «Um dia o Cireneu aproximou-se da Vila e encontrou no caminho uma menina que ia levar o jantar ao pai (nesse tempo chamava-se jantar ao almoço atual). O bandido comeu metade da merenda, mas em troca ofereceu um brinco de ouro à menina. De outra vez, o ti António da Totina ia à serra apanhar juta para a mulher fazer vassouras, seiras para os lagares, tapetes…. Encontrou-se com o Cireneu, com quem partilhou o tabaco. Em paga, ele levou-o à gruta onde estava alapado. Havia fartura de tudo o que era bom!»

José Teodoro Prata

terça-feira, 30 de junho de 2026

Parque solar na Gardunha

 Castelo Branco: Promotor recusa convite para ir à Assembleia Municipal explicar projeto solar

Por: Diário Digital Castelo Branco, 29 de junho

O promotor de um projeto para a instalação de um parque solar na Serra da Gardunha, ao qual a Câmara de Castelo Branco se opõe, recusou o convite para estar presente na Assembleia Municipal para explicar o projeto.

O presidente da Câmara de Castelo Branco informou hoje a Assembleia Municipal sobre um projeto para a instalação de um parque solar na Serra da Gardunha, ao qual se opôs devido à sua localização.

No início do período de antes da Ordem do Dia, o presidente da Assembleia Municipal de Castelo Branco, informou os deputados municipais que tinha recebido um pedido de audiência por parte do promotor deste projeto e pediu que fosse acrescentado um ponto ao período da Ordem do Dia para informar os deputados sobre o assunto em causa, sendo que não se tratava de qualquer ação para deliberação.

Valter Lemos explicou ainda que reuniu no dia 26 de junho, com o grupo investidor (Eurowind), com o presidente da Câmara de Castelo Branco, Leopoldo Rodrigues e com a presidente da Junta de Freguesia de Louriçal do Campo, Gorete Serra.

“Trata-se exclusivamente de um ponto para esclarecer dúvidas e informar os deputados municipais”, vincou.

Após votação, os deputados aprovaram, por maioria (apenas houve um voto contra), que fosse acrescentado este ponto à Ordem do Dia, pelo que o presidente da Câmara de Castelo Branco informou a Assembleia Municipal sobre as intenções do promotor para este projeto.

Leopoldo Rodrigues deixou bem claro que na primeira reunião que teve com o grupo investidor foi-lhe dito, “de uma forma genérica” que pretendiam investir em Castelo Branco na instalação de um parque híbrido (solar e eólico), mas “sem falar na sua localização”.

“Na altura expliquei que me opunha à instalação deste projeto caso este ocupasse áreas protegidas, solos agrícolas ou zonas onde tivesse forte impacto na paisagem”.

Segundo o autarca, passado algum tempo foi abordado por um consultor que trabalha para o grupo investidor, no sentido de arrendar cerca de sete hectares de terreno propriedade do município, precisamente, na Serra da Gardunha.

“Foi só nessa altura que me apercebi que o projeto coincidia com a Serra da Gardunha. Comunicámos que a nossa posição se mantinha e que achávamos que a localização não era a mais adequada e propusemos que procurassem outras alternativas. Não somos contra investimento ou energias alternativas”, sublinhou.

O presidente da Câmara realçou ainda que na última reunião realizada no dia 26 de junho, o investidor manteve-se praticamente intransigente.

“Houve um convite feito à empresa para estar hoje presente na Assembleia Municipal para explicar o projeto. Ficaram de ponderar e recusaram a sua presença”, sustentou.

Vários deputados municipais abordaram o assunto, mas queixaram-se da falta de informação sobre o mesmo, considerando que se trata de um assunto bastante sério.

Leopoldo Rodrigues voltou a realçar que para o executivo “a Gardunha é um santuário que importa preservar” e perante as queixas dos deputados sobre a falta de informação sobre o projeto, disse que se trata de um processo evolutivo.

Voltou a sublinhar que por se tratar de um assunto de extrema importância decidiu informar a Assembleia Municipal e, inclusivamente, disponibilizou-se para que seja marcada uma reunião extraordinária, caso assim o entendam os deputados municipais, somente para discutir este assunto.

“Não vejo nada contra isso e se o entenderem podemos voltar a convidar a empresa a estar presente”, disse.

Este assunto já tinha sido abordado, numa sessão pública do executivo, onde Leopoldo Rodrigues informou os vereadores deste projeto para instalar um parque eólico e solar nas proximidades da Serra da Gardunha, no concelho de Castelo Branco, cujo investimento ronda os 1,2 mil milhões de euros.

O caso ficou agora à espera da reflexão dos deputados municipais para uma posterior tomada de posição sobre o assunto.

José Teodoro Prata

domingo, 28 de junho de 2026

Por favor, preocupem-se!

 

O MAPA NEGRO

O governo divulgou esta semana o mapa das Zonas de Aceleração das Energias Renováveis (ZAER). Este documento é um passaporte para a indústria da mal designada energia verde, ocupar 7% do território nacional. Este projeto é particularmente lesivo para o distrito de Castelo Branco onde se prevê a ocupação de uma área que se aproxima dos 100 mil hectares. Três concelhos da zona do Pinhal (Sertã, Proença-a-Nova e Oleiros) são os mais afetados uma vez que o plano prevê uma ocupação do seus territórios superior a 35%. O impacto de tudo isto é aterrador, visualmente vamos ter uma paisagem pintada de negro e ambientalmente é uma catástrofe uma vez que a destruição de cerca de 100 mil hectares de vegetação (só no distrito de Castelo Branco) implica a morte de um enorme número de aves e animais selvagens contribuindo desta forma para o aceleramento das alterações climáticas. Segundo os especialistas a destruição de tamanha área natural vai provocar um aumento da temperatura, o escoamento rápido da água das chuvas provocando um aumento das cheias e não permitindo o abastecimento dos aquíferos subterrâneos, a diminuição da percentagem de oxigénio e consequentemente da qualidade do ar, a esterilização dos solos por longos anos e uma acumulação enorme de sucata provocada pelo fim de vida dos equipamentos utilizados. A concretizar-se, este é um dos planos mais negros que Portugal alguma vez teve e perante isto impõem-se as perguntas: é necessário? Portugal precisa mesmo disto? A resposta é: não. Segundo foi divulgado em setembro do ano passado pela Goldenergy citando dados do Eurostat, Portugal já produz pelo sistema renovável mais de 86% da energia que consome, no entanto, o consumo de energia em Portugal e no mundo desenvolvido está a aumentar assustadoramente por causa dos Data centers, Inteligência Artificial, etc. e o nosso país está na mira das grandes multinacionais do setor energético para ser sacrificado em prol dos chorudos lucros que esta indústria vai gerar. A “receita” é velha, consta em todos os “manuais” das “empresas abutres” só lamento que o nosso governo lhe dê cobertura pondo desta forma a cabeça do seu povo no cepo. E perante isto, que titulo atribuir a este governo e em particular à Ministra do Ambiente?


José Teodoro Prata

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Clara linda linda Clara

 https://youtu.be/d91X9-Mlrug?si=-ZBkGiaUL0k6Iz94

Em 1962, Fernando Lopes Graça e Michel Giacometti estavam a fazer recolhas de canções populares pelo país. Foi na povoação de Alferce, na serra de Monchique, que descobriram a balada “Ó Laurinda, Linda, Linda”, sobre uma mulher adúltera que quase era apanhada em flagrante pelo marido quando este voltava de viagem. Registaram o tema na voz de Mariana Vitorino.

Quase duas décadas depois, em 1981, o cantor Vitorino gravava “Laurinda” para o seu álbum Romances. Tornou-se, com o passar do tempo, numa das canções mais emblemáticas do seu repertório. 

Entretanto, José Augusto Alves (poeta popular vicentino de quem publicámos, no verão passado, parte da sua poesia no livro Poesia Simples) registou por escrito a versão que ele conhecia, provavelmente desconhecendo a informação que apresentei acima. Estas histórias em verso passavam de boca em boca e quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto. Por isso cada região contará uma versão desta história.

Clara linda linda Clara

Clara linda como o Sol;

Deixa-me dormir contigo

Na ponta do teu lençol.

 

Na ponta do meu lençol

Hoje sim amanhã não;

Meu marido não está cá

Foi à feira d´Assunção.

 

Onze horas meia noite

Marido à porta bateu;

Clara linda linda Clara

Clara linda não falou.

 

Clara linda está doente

Ou lá tem outros amores;

Ando à procura das chaves

Para abrir os corredores.

 

De quem é aquele chapéu

Que além está dependurado;

É para ti meu marido

Por minhas mãos acabado.

 

De quem é aquele capote

Que tem barra de galão;

É para ti meu marido

Acabado por minha mão.

 

De quem é aquele cavalo

Na minha loja guinchou;

É para ti meu marido

Foi teu pai co cá mandou.

 

De quem é aquele suspiro

No meu quarto suspirou;

Clara linda linda Clara

Caiu no chão e desmaiou.

 

Vai chamar as tuas irmãs

Para se despedirem de ti;

Que não vão fazer aos outros

O que tu me fizeste a mim.

 

Sete irmãs que nós somos

Todas filhas dum doutor;

Eu por ser a mais novinha

Caí no maior terror.


José Teodoro Prata

domingo, 21 de junho de 2026

O Zé Manel emigrante

 Comentário do Zé Manel ao último (anterior) texto aqui publicado e no Facebook:

«Pois é...

Não sei se o Jorge trabalhou na estrada na Paradanta, mas eu nunca lá trabalhei

Trabalhei sim, um verão numa estrada perto de Oleiros 'éramos uma "caterva" deles da vila quase tudo malta nova.

Voltando à minha ida a salto para a França "lembrei-me do Raul Solnado, a história da sua ida à guerra"

Aproximava-se o tempo de ir à inspeção, o tempo de ir parar a África, matar os "terroristas" ou eles matarem-me a mim.

Nunca fui a favor destas guerras que o Salazar nos obrigava a fazer

Diziam os mandões

Angola é nossa...

Eu respondia baixinho; uma gaita, a minha parte vendo-a por uma caixa de fósforos

Certa vez disse ao meu pai que queria ir para a França...

O passador levava cinco contos, escrevi uma carta ao meu tio António, deu ordem à sua sogra a senhora Maria do Carmo Marcelino para me entregar os cinco contitos

O meu pai falou com o António Luis "bigodes da Partida" certo dia eu e o Jorge cada um com seu cesto colocámos a mala de cartão dentro cobrimo-la com uma manta da azeitona e ai vamos nós estrada fora a caminho da Oles

Para onde ides!

Vamos para a Oles do senhor Eduardo Cardoso colher azeitona

Tão bem vestidos!...

O meu pai andava na cruz da Oles, passado um bom bocado chega o "bigodes da Partida"

No Fundão meteu nos umas três ou quatro sandes na mão...

Em Vilar Formoso saímos com o carro em andamento. Frentes de Onor era logo ali. Depois, bem depois sozinhos tivemos que nos desenrascar...

Um ano e meio mais-tarde resolvi regressar para fazer a tropa

O meu chefe senhor Jean Marie

Não queiras ir; a França é a França e teve que entregar a Argélia

Portugal não aguenta três guerras ...

A saudade...

Vim em Agosto, no dia 19 de Outubro meteram-me uma G3 na mão ...

E pronto.»

José Teodoro Prata

sábado, 20 de junho de 2026

Conta-me histórias da emigração

 

O Jorge foi com o Zé Manel para a França. Ainda não tinham feito a tropa, por isso tiveram de ir assalto. Andavam os dois a trabalhar na estrada, perto da Paradanta, e apareceu lá um senhor com ordens dos pais para os trazer para casa. Chegaram, já tinham as malas feitas, só tiveram de se lavar e mudar de roupa.  O senhor, da Partida, que costumava passar gente, levou-os de carro até Vilar Formoso e disse-lhes que apanhassem o comboio em Fuentes de Onor, do outro lado da fronteira. Eles lá foram e entraram no comboio, mas logo apareceram os carabineiros a correr, pareciam andar à procura de alguém. Eles fizeram-se desentendidos e colocaram-se à janela, a fingir descontração. Foram até Irun, na fronteira com a França, saíram do comboio e seguiram aquela gente toda para um túnel. Que levantassem o braço com o passaporte na mão, gritava alguém. O Zé Manel levada um livrito e levantou-o. O Jorge não tinha nada para mostrar, mas deixou-se ir no meio da multidão e lá passaram. Foram para Clermont-Ferrand e arranjaram trabalho na fábrica da Michelin. Mas passado um ano receberam cartas dos pais pedindo-lhes que regressassem, pois, se não viessem fazer a tropa, não poderiam vir a Portugal ver a família, durante 45 anos. Lá vieram, fizeram a tropa, o Jorge foi à guerra colonial e depois voltou para a França, onde ficou toda a vida ativa.

A ida da Isabel para a França foi uma ilusão e um erro. A família vivia bem com o negócio da resina, mas alguém os convenceu que na França é que era. Foram, passaram dificuldades e só não voltaram porque o bom que tinham deixado já não estava à espera deles. Os filhos foram nascendo, o marido adaptou-se, porque era um otimista, mas ela nunca gostou, e agora também não, já sem o Chico e olhada como estrangeira cá e lá.

A Lurdes emigrou para a Alemanha, com o marido. Trabalhavam na mesma fábrica, em turnos diferentes. Ela gostava do trabalho e até era elogiada pelas suas capacidades. Tinham uma vida boa, mas o Joaquim nunca gostou. Acabaram por regressar a Portugal ainda com os filhos menores.

A emigração da Fátima foi de luxo, em tempos de bidonvilles, mas nunca gostou, de tal modo que só durou quatro meses. O marido trabalhara nas Oficinas Gerais de Material Aeronáutico, em Alverca, mas foi para Paris aprender mais, na prática e na teoria, pois estudava na Sorbonne. Ele ganhava muito dinheiro, por isso vivam num hotel, mas ela não parava de rezingar. Desesperado, o Francisco levou-a a Champigny-sur-mer, o maior bairro de lata de França, onde viviam cerca de 15 mil pessoas, 10 mil das quais emigrantes portugueses. Foi no inverno, as ruas eram autênticos lamaçais, assim como o chão das barracas de madeira e chapas. Um horror, mas nem assim conseguiu saborear o luxo do hotel. Certo dia, perto da meia-noite, apanhou um comboio em sentido contrário ao seu destino. No final da viagem, viu-se numa estação terminal, rapidamente deserta, em nenhures. Pediu ajuda e passado muito tempo lá voltou à estação inicial, onde apanhou um táxi. Ao chegar ao hotel, às duas da manhã, disse ao marido que no dia seguinte a levasse ao comboio para Portugal. E assim foi. O marido ainda voltou a Paris por um curto período de tempo, mas depois regressou definitivamente. Teve uma vida muito mais difícil do que se tivesse ficado, mas nunca se arrependeu.

O Zé Manel não pode estar presente e escreveu um comentário no facebook, com memórias ligeiramente diferentes. Publico-o amanhã.
José Teodoro Prata

terça-feira, 16 de junho de 2026

Papa-figos

 
Hoje, voou sobre mim um casal de papa-figos, felizes da vida, pareciam flechas!
Estava a passar junto às hortas do Zé Manel da Esperança e da sua irmã São.
Se os virem por aí, digam-lhes que tenho no Ribeiro Dom Bento uma figueira de São João com figos quase a amadurecer.

José Teodoro Prata

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Conta-me histórias da guerra colonial


Voltámos à Biblioteca Hipólito Raposo, para mais um Conta-me histórias, desta vez sobre a guerra colonial.

O livro Poesia Simples, de José Augusto Alves, conta a história do Tó, soldado paraquedista que foi voluntário para a Guiné e sofreu um ataque. Veio para o hospital militar, em Lisboa, com múltiplas queimaduras e só chegou à terra na sexta-feira santa do ano seguinte, quando desciam o Cristo da cruz, no Calvário. «Foi um enorme guerreiro / Também andou pelos matos; / Tantos soldados solteiros / Que da guerra andavam fartos.» Um dia, num jantar de antigos combatentes, disse ao ex-comandante militar da Guiné, também presente: «Quando morrer, eu fico a substituí-lo!» Ambos se chamavam António e aos dois faltava um olho.

O Rui esteve num ponto crítico da Guiné, próximo da outra Guiné que fora francesa e já estava independente. O sítio era tão perigoso que até foi para lá mandado, como castigo, um soldado que matara um sargento noutra região. Era motorista e teve de ir para a guerra, porque vários motoristas madeirenses foram despedir-se à ilha e apanharam o avião para os Estados Unidos. Ouvia o Amílcar Cabral, às 7 da tarde, desde Conacri. Quando partiu, não percebia nada de política, mas era impossível não concordar com Cabral que defendia um governo misto de portugueses e africanos. Na altura do seu assassinato, houve uma companhia que foi massacrada e os sobreviventes dispersaram. A um deles, o João, também vicentino, encontrou-o muito mal, todo amarelo, com hepatite. Levou-o para o quartel e tratou dele. Depois pediu ao comandante e “adotaram-no”. O Rui foi protegido pela mãe de Jesus, pois escapou ileso de um ataque no dia 13 de maio. Mas houve na guerra tantos mortos por se relaxarem as regras de segurança!

O Jorge já fora para França, mas regressou a pedido dos pais, pois, se não viesse fazer a tropa, não poderia vir visitar a família. Ele passou melhor, também na Guiné, pois o seu quartel só sofreu um ataque. Filho do barbeiro da terra, cortava o cabelo aos outros soldados, nas horas vagas.

O Cassiano esteve na retaguarda, desde os 16 anos, como funcionário do hospital militar, em Lisboa, onde chegavam os feridos e os mortos. Depois do 25 de Abril foi para Luanda, como militar, a receber e inventariar os equipamentos médico-cirúrgicos trazidos pelas unidades que regressavam do mato, com destino à metrópole.

Tantos traumas!


José Teodoro Prata

 

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Conta-me histórias, 8

 Nesta oitava sessão, iremos relembrar histórias antigas contadas de boca em boca, pelos nossos antepassados, e antigos emigrantes e ex-combatentes da guerra colonial partilharão alguns episódios das suas vidas.

José Teodoro Prata

terça-feira, 2 de junho de 2026

Ninho de zangão

Um dia, no Ribeiro Dom Bento, vi desaparecer um inseto do tamanho e forma do zangão (não o macho da abelha), mas todo preto, por uma fisga entre duas placas metálicas.

Duas semanas depois, precisei de mover as placas e deparei-me com o ninho que a foto mostra.
Na altura, pensei que a parte amarela eram ovos ali colocados para se alimentarem as lagartas que fossem nascendo dos ovos postos pelo tal inseto (são já visíveis algumas).
Dias depois voltei ao sítio, preocupado com as consequências da minha intrusão. Já havia dezenas de lagartas e concluí que a parte amarela é pólen ali acumulado pela mãe zangão, para alimentar os filhos (as lagartas da abelha tambérm se alimentam de pólen).


José Teodoro Prata

sábado, 30 de maio de 2026

A flor da esteva

 Era no tempo da inocência, em que as histórias ouvidas ao serão preenchiam o nosso imaginário e nos resolviam o conflito com a realidade. 

Uma das que mais me maravilhava, contada por alturas da Páscoa, (início da primavera) era sobre a flor da esteva. 

 Resumidamente, era mais ou menos assim:

O caminho por onde Jesus subiu ao Calvário era todo rodeado de estevas com flores brancas. Mas quando Jesus passava, os espinhos que lhe cravaram na cabeça eram tão fundos que faziam com que o sangue que lhe jorrava da cabeça salpicasse tudo o que estava à roda e fosse também cair sobre as flores das estevas. Ao ver o filho em tal sofrimento, Nossa Senhora chorava tantas lágrimas de sangue, que caíram também sobre algumas flores. 

Isto justifica que encontremos estevas cujas flores tenham apenas cinco pétalas com manchas de sangue (aquelas em que caiu o sangue de Jesus) e outras que tenham seis (as que apanharam também as lágrimas de Nossa Senhora). 

Do cheiro das estevas, só a linguagem da memória, feita poesia:

«Lembro-me do cheiro dos lagares, das queijeiras, do forno, da forja – eram cheiros que entravam pelas narinas como tantos outros, mas só esses se infiltravam no sangue e aí ficavam, depositados em sucessivas camadas, para sempre, como ficou o aroma das estevas e do feno.»

(Eugénio de Andrade)

MLFerreira

(O escritor Rentes de Carvalho, natural de uma aldeia próximo de Torre de Moncorvo, mas a viver na Holanda, escreveu num dos seus livros que levada um ramo de estevas para pendurar na sua cozinha lá da longínqua Amsterdão.)

José Teodoro Prata

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Fim do Ciclo Pascal

 

A festa da Páscoa ou da Aleluia terminou ontem, dia de Pentecostes, em que se celebra a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos e a consequente criação da Igreja Cristã.

Ontem tiveram lugar as últimas romarias que integram o ciclo Pascal: Senhora da Póvoa (Vale da Senhora da Póvoa), São Lourenço (Palvarinho) e Senhora da Orada (São Vicente da Beira). Antes, realizaram-se as festas da Senhora dos Altos Céus (Lousa), Senhora do Almortão (Idanha-a-Nova), Senhora da Mércoles (Castelo Branco), Santa Bárbara (Casal da Fraga – SVB; no passado entre o Sobral do Campo e São Vicente), São Tiago (Partida – SVB)…

Na década de 70 do século passado, em São Vicente da Beira, era nas datas das romarias referidas que o sr.º Vigário visitava todas as casas, dando as Boas Festas.

Nota: A foto mostra a estrada romana que ainda hoje existe junto à ermida da Senhora da Orada, no interior da serra da Gardunha.

José Teodoro Prata

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Como se chama?

 

Quem amanhã for à romaria da Senhora da Orada pelo caminho que vem do Caldeira para as Quintas, vai avistá-la na zona entre o pinheiro manso e o cruzamento do Cabeço do Pisco. Nalguns locais é mesmo a única presença viva, no meio de caules calcinados que ficaram do fogo do ano passado.
Não sei o seu nome, mas tem tanto frágil como de delicadeza e beleza.

José Teodoro Prata

Nota: Chama-se coruba-brava, segundo informação da Sara Varanda postada no facebook.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Giesta-do-monte

 

Quem no domingo for à romaria da Senhora da Orada, a pé, pelo caminho que vai do Cimo de Vila para as Quintas, ainda pode ver a giesta-do-monte (Polygala microphylla) florida, ali entre o Pinheiro e o Carvalhal Redondo, à direita de quem sobe.

A floração prolonga-se por tanto tempo que a flor de roxo escuro começa a ficar lilás claro. Floresce sempre por alturas da Páscoa, pelo que a minha mãe, que não sabia o nome dela, chamava-lhe Páscoas. A foto foi tirada pela minha irmã São, este ano.

Há alguns anos, trouxe a planta à Escola Agrária de Castelo Branco. Informaram-me do nome e que a planta abunda sobretudo no centro litoral, sempre virada ao mar, como este lugar onde a podemos admirar todos os anos.

Trata-se de uma planta rasteira e as hastes floridas raramente ultrapassam um palmo de altura. É muito resistente, pois naquele local já sobreviveu a três fogos, recentemente (1986, 1917 e 2025).

José Teodoro Prata

terça-feira, 19 de maio de 2026

Enxabarda 6 (último)

 Na rua, cruzamo-nos com alguém que não nos conhece. A pergunta surge imediatamente, sempre a mesma:

Sois filhas de quem?

Os nomes das nossas mães levam ao nome da nossa avó, ao nome dos nossos tios e, quase sempre, aos nomes dos nossos bisavós.

Ainda somos primos.

Ou então:

A tua avó ajudou-me muito.

As tuas tias ainda se devem lembrar.

Antigamente éramos vizinhos.

E segue-se uma história de superação, solidariedade, entreajuda, morte, qualquer coisa que não é para brincar, como relatos de meninos que não tinham o que comer e que só se salvaram por terem sido amamentados por vizinhas.

Éramos família.

Somos família.

Queremos-vos como queremos aos nossos.

A pergunta sois filha de quem? não é, pois, uma pergunta qualquer. Liga-nos diretamente a quem passa. E quem passa sabe haver maneira de nos ligarmos todos.

Isabel Minhós Martins

Revista Mamute, n.º 1, segunda série, 2025 (pp. 75 e 76)


José Teodoro Prata

domingo, 17 de maio de 2026

Enxabarda 5

«Pergunto à minha mãe e às minhas tias se pobreza era a palavra certa para descrever a vida da aldeia quando eram crianças. Quase tudo aquilo de que se lembram melhor – ou que decidiram guardar na memória – tem a ver com uma ideia de comunidade e entreajuda. Só que eu insisto na pergunta: mas como é que viviam?

Sementes, fermento, fogo. Tudo se partilhava e trocava, não havia desperdício.

O fogo passava de casa em casa através de uma pinha: A vizinha já tem lume?

Caso fossem poucas, as sementes pediam-se de porta em porta: Maria, tens aí um todo-nadinha de sementes de nabo para acrescentar a este todo-nadinha que trago aqui? uma vizinha perguntou à minha avó.

Existiam várias categorias de pouco, várias formas de nada. Era possível haver um pouco menos do que pouco, um pouco menos do que nada.

O fermento passava de mão em mão, de masseira em masseira.

Da roupa de adulto fazia-se roupa de criança.

Das partes mais gastas do fundo das camisas costuravam-se as roupas dos bebés, para que fossem mais macias.

Dos trapos que sobravam teciam-se tapetes e mantas, para o frio, para amparar as azeitonas, para secar o milho.

Antes de serem lavados, os lençóis de cima passavam a lençóis de baixo, para poupar lavagens.

(…)

Trocavam-se cereais por loiças, azeite por ferramentas, tarefas por tarefas.

Partilhava-se a sorte quando chegava o azar (…). Vizinhos iam ao fundo das arcas buscar o que restava do milho para fazer farinha e papas; vizinhos chegavam com taças de sangue de porco para compensar a perda. [de alguém a quem se entornara o alguidar de sangue da matança do porco]

O meu milho é o teu milho,

o meu sangue é o vosso sangue.

Por bondade ou para noutra ocasião

o teu milho seja o meu milho,

o teu sangue o nosso sangue.»


Isabel Minhós Martins

Revista Mamute, n.º 1, segunda série, 2025 (pp. 75 e 76)

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Enxabarda 4

 «A água é negra. O fundo é de lascas de xisto, lascas que não magoam os pés, pedrinhas que não chegam a ser areia grossa. A película brilhante que separa o escuro do claro faz-nos pensar em óleo espesso, mas o som é bem mais líquido e fresco, mais limpo.

A superfície estremece ligeiramente com o movimento dos alfaiates: ao leve pousar das suas patas, um pequeno círculo, uma bolha que não chega a ser bolha, forma-se à volta de cada uma, e então deixamos de perceber. Porque às patas e aos seus reflexos juntam-se os pequenos círculos e seus reflexos e a imagem confunde-nos: não percebemos que animal é este, onde começa e acaba o seu corpo, quantas patas tem afinal. Para nos hipnotizar ainda mais, há esse modo extraterrestre de se deslocar, de um modo para o qual é difícil encontrar palavras, pois, na verdade, um alfaiate não caminha, não salta, não desliza, não voa, não nada, avança. Tem qualquer coisa de aranha, e não admira que este movimento aranhiço sobre o fundo tão escuro do Poço Escuro cause repulsa a alguns veraneantes menos habituados (…).

Os alfaiates estão sossegados mas, quando mergulhamos, tudo se quebra: a água, os reflexos, a paz dos alfaiates, o silêncio, o calor. A água é leve e fria, tão diferente da água salgada onde também mergulhamos nas férias. É uma água sem sabor, sem peso, sem mais nada, uma água-água, e talvez seja do frio, da escuridão ou desta leveza, mas até parece que conseguimos atravessá-la mais depressa. Chegar à superfície é ter a sensação de que renascemos.»

Isabel Minhós Martins

Revista Mamute, n.º 1, segunda série, 2025 (pp. 73 e 74)

terça-feira, 12 de maio de 2026

Enxabarda 3

«Como a chave estava sempre na porta, primos e vizinhos entravam pela casa adentro sem aviso e, se isso acontecia por volta do meio-dia, viam-nos passar ainda despenteadas, de pijama. Tantas horas de sono eram consideradas ali um costume exótico, um capricho que os outros tinham dificuldade em compreender. O sono era um tempo roubado as horas de trabalho à fresca, um desperdício (…).

(…) Havia esse pormenor de a chave estar na porta todo o dia. A primeira pessoa a acordar, normalmente a minha avó, colocava-a na fechadura do lado de fora; a última a deitar-se fazia o inverso. A chave só era retirada quando íamos à cidade mais próxima ou quando, por exemplo, decidíamos ir passar o dia à serra. Penso que não o fazíamos com medo de que a casa fosse assaltada, mas mais como um aviso, um sinal que dizia a quem passava: se a chave não está na porta é porque não está ninguém em casa. A bem dizer, a chave era sempre colocada debaixo do tapete da entrada, portanto, se fosse necessário, era possível entrar.

A casa da minha avó fica no largo da igreja e as pessoas entravam muito: antes da missa, depois da missa, a caminho das hortas ou quando iam aviar-se à loja que ficava mesmo em frente à nossa porta.»

Isabel Minhós Martins

Revista Mamute, n.º 1, segunda série, 2025 (pp. 69 e 70)

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Gladíolos silvestres

 

Serra da Gardunha, Ribeiro Dom Bento, São Vicente da Beira

José Teodoro Prata

domingo, 10 de maio de 2026

Enxabarda 2

 «A minha avó nasceu no início de setembro de 1910, um mês antes da Implantação da República. Durante a sua infância, a gripe espanhola correu o país e chegou à sua aldeia. Conta-se que adoeceu e sobreviveu. Também sobreviveu a cinco partos sem qualquer assistência, ou melhor, seis, porque teve gémeas, um acontecimento que surpreendeu toda a gente. Quando a parteira se apercebeu da existência de outro bebé, pediu a um homem que fosse de bicicleta até à vila mais próxima para trazer um médico porque a situação da parturiente era grave. É bem provável que nesse dia (e nos que se seguiram) a minha avó tenha visto a morte aos pés da cama, como havia de lhe acontecer muitos anos mais tarde, quando já muito velha e doente, me disse: ela hoje andou por aí a rondar.

Pergunto-me se a casa em que viviam nessa altura teria escadas. E, se sim, como faria ela para descer ao piso térreo a saber das outras crianças. Pergunto-me também quem lhe terá trazido água, pão, uma canja. Quanto tempo terá vivido assim? Porque não permaneceu deitada até recuperar as forças? O que seria tão urgente que a obrigava a deslocar-se entre divisões? Pergunto-me também se a minha mãe e os meus tios a terão visto e em que circunstâncias. Porque o certo é que a história chegou até mim mais de sessenta anos depois de ter acontecido: uma mulher de gatas, uma mãe de gatas, a minha avó de gatas.»

Isabel Minhós Martins

Revista Mamute, n.º 1, segunda série, 2025 (pp. 68 e 69)


José Teodoro Prata

 

sábado, 9 de maio de 2026

Enxabarda 1

 A Enxabarda situa-se bem no coração da Gardunha. Pertence à freguesia do Castelejo e localiza-se no caminho para os cumes da serra.

Nunca lá fui, mas tenho por ela algum interesse e até nostalgia. A minha tetravó Bárbara Leitão, casada com Teodoro Matias dos Santos, descendia de um jovem vindo das terras de Viseu, que casou no Vale de Figueiras e cujo filho foi depois casar à Enxabarda e os seus descendentes foram passando a terra alheia até um ramo se fixar no Casal da Fraga.
Pela Enxabarda passava a Estrada Nova, entre a Foz do Giraldo e o Castelejo, um troço da estrada que ligava Abrantes a Almeida, durante as Invasões Francesas. Deu nome a uma emboscada do exército luso-britânico e dos populares da serra, que constituiu um dos piores pesadelos que os invasores sofreram em Portugal.
É da Enxabarda o Pe. Jorge Fernandes, com quem tive pouca ligação no Verbo Divino, mas adorava as suas crónicas no Contacto SVD, dos anos em que viveu em Roma e ali dirigiu uma residência religiosa. São da Enxabarda dois irmãos carpinteiros que fazem bons trabalhos em madeira nas casas das povoações da serra.
E é da Enxabarda a Isabel Minhós Martins, mais certamente os seus pais, cujos escritos encontrei na revista Mamute, n.º 1, segunda série, publicada pela Livros Zigurate (Lisboa, MMXXV). É uma “Revista de Não Ficção-Literária”, “Para não deixar morrer as nossas histórias”, projeto com o qual me identifico totalmente.
A autora conta histórias das férias da sua infância na Enxabarda, traçando um retrato fiel do que foram as nossas terras até um passado muito recente. Vou publicar alguns trechos, na sequência desta introdução. Este é o Enxabarda 1 e os textos serão identificados por Enxabarda 2, 3, 4…

José Teodoro Prata

terça-feira, 28 de abril de 2026

Mais cambalhões

 Na sequência da minha publicação "O nosso falar: cambalhões", o José Miguel Teodoro deu uma achega para ajudar a esclarecer o assunto. 

Consultou o velhinho Morais (1950), que o informou de que camalhões e cambalhões são sinónimos. É importante esta informação, pois ficamos a saber que outras regiões do país usam a mesma palavra que nós, não é uma especificidade nossa.

José Teodoro Prata

sábado, 25 de abril de 2026

Passarada

Ontem, ao passar no cruzamento do Cabeço do Pisco, não digo a hora, porque parece mal, saiu de um pinheiro uma ave enorme. Bateu as asas durante bastante tempo e depois planou até desaparecer no horizonte. Seria uma ave de rapina, mas de uma espécie de grande porte. Fiquei contente e lembrei-me do bando de corvos que por ali andavam antes das infestantes tomarem conta da nossa serra.

Hoje, na Antena 1, o José Candeias referiu o corvo Vicente numa aldeia da Beira Baixa. Para quem não saiba, nos últimos anos da década de 70, o Café "Cagarola" tinha um corvo chamado Vicente que dizia umas palavras.

José Teodoro Prata

sábado, 28 de março de 2026

O nosso falar: cambalhões

 Fiz a publicação abaixo apresentada no facebook, a qual motivou uma reflexão sobre a correção da palavra que consta do título, referida em comentário pelo nosso conterrâneo José Nicolau ("Essa cava era chamada cavar cambalhão, ainda cavei assim, deixar a terra direita é cava rasa.") 

A Berta Ramalhinho disse que era camalhões (mais tarde o Albano Mendes de Matos informou que na Região Saloia também se diz camalhões). Eu fui consultar a net e de facto é camalhões, vindo do castelhano caballón, palavra que significa cume em português. Eu penso que ao José Nicolau saiu aquilo que se diz e eu digo na nossa terra: cambalhões. De caballón e porque não de cambalhota?, movimento que damos à terra para a virar, muitas vezes até para soterrar a erva da parte superior. Tal como arresário (soalheiro), enxidros (baldios), também usamos cambalhões, de caballlón. São inúmeras as palavras de origem castelhana que nós usamos nesta região fronteiriça!

OS NOSSOS AVÓS ERAM CIENTISTAS – A OXIGENAÇÃO DA TERRA
Cresci a ver os meus pais e o meu avô Francisco a deixarem a terra em pequenos montes, durante a cava, semanas antes de se fazerem as sementeiras. Aquilo sempre me fez espécie, porque, imediatamente antes da sementeira, os montes eram desfeitos e a terra alisada. Quando comecei eu a preparar as terras, questionei a minha mãe sobre a necessidade de fazer os montes. Ela respondeu-me que era para a terra apanhar ar. Ao cavar, a terra de cima ia para baixo e a de baixo ficava ao ar. Depois, quando os montes se desfaziam, outra terra ficava a apanhar ar. E ao fazer os regos das sementeiras, nova terra ficaria a apanhar ar, ficando por baixo a terra já arejada.
Este mover de terras visa a oxigenação da terra. Ao contacto com o ar, o ferro existente na terra capta o oxigénio e depois, em contacto com as raízes, transmite-o às plantas. Sim, as plantas captam o oxigénio do ar, pelas folhas, e da terra, pelas raízes. Este saber popular chegou-nos pela prática ancestral da agricultura ou é fruto das revoluções agrícola e científica (que em Portugal ocorreram sobretudo no século XIX)? Neste caso, esse saber chegou a alguns agricultores mais esclarecidos, que por sua vez o transmitiram aos camponeses que para eles trabalhavam. Um deles, Francisco Tavares Proença (pai do fundador do Museu), grande político albicastrense do final do século XIX e inícios do século XX, o maior cacique entre a Gardunha e o Tejo (conhecido por soba da rua de São Sebastião, onde ainda existe o seu palacete), era grande produtor de batata e o seu entusiasmo por este novo cultivo terá influenciado a agricultura nesta região.

José Teodoro Prata

quinta-feira, 19 de março de 2026

Milho-Rei

Gosto de broa. Tanto que, em tempos, achava estranho o desabafo de quem, como os nossos pais e muitas gerações de avós, não teve outro pão em criança: «Quero cá agora broa! Enchi a barriga dela em novo, que era o pão que havia, broa e centeio, que trigo só nas Festas.» Achava estranho porque me lembrava dela ainda a fumegar, aberta pelas mãos da minha avó, logo à saída do forno, regada com um fio de azeite. E era um regalo, nos dias em que passava a Ti Palmira, o Maiaca ou o Pinura, uma fatia de broa com uma sardinha assada a pingar por cima, comida nas escadas da Casa do Casal, entrada de tanta gente…

Não vão longe os tempos em que, fins de abril, princípios de maio, todos os lameiros à roda da Ribeira estavam prontos para a sementeira do milho. Era trabalho para toda a família e, se fosse preciso, podia sempre contar-se com a mão de algum vizinho. Depois da semente na terra, estando a Lua a favor, passado pouco tempo era um mar de verde por esses lameiros acima.

Durante meses não havia descanso: ora a arrelentar, a sachar, a mondar ou a regar. Durante o verão a água da ribeira era dividida por quem tinha direito a ela, seguindo tradições que vinham de longe, mas respeitadas como se fossem leis escritas. Havia quem tivesse que regar pela noite dentro, à luz da Lua ou de lanterna na mão (em tempos idos, o avistamento destas luzes alimentou o imaginário popular, que acreditava tratar-se de almas penadas a vaguear pelo mundo). Lá para finais de setembro o milho estava pronto a ser colhido. Nos anos bons, cada grão deitado à terra dava umas três maçarocas. Não haveria fome à mesa nem na manjedoura.

Naquele tempo, entre o Rabaçal, o Balcaria, a Senhora da Orada, o Ribeiro Dom Bento e as Quintas viviam para cima de dez famílias, algumas com muitos filhos. Quase toda a gente tinha terras suas, e quem não tinha arrendava-as ou tratava-as ao terço, como a Ti Maria Etelvina ou o Ti Luís Teodoro, terceiros do António Neto.

Era uma vida difícil e de muito trabalho para todos, desde cedo. As crianças vinham a pé para a escola, às vezes descalças e mal agasalhadas. O Chico Insa ainda fala duma manhã de aguaceiro em que nem a saca dobrada a fazer de carapuça lhe valeu, e, já todo numa sopa, abrigou-se num palheiro à espera que estiasse; depois, por mais que corresse, não se livrou de cinco reguadas em cada mão, tantas quantas os minutos que chegou atrasado à escola. À tarde, ficavam-lhe nos olhos os colegas que se demoravam na Praça a jogar às caricas e a deitar o pião, mas ele tinha sempre pressa em voltar a casa, onde as cabras, com fome, já o chamavam há muito. Os deveres fazia-os à noite, quando o sono e a luz mortiça do candeeiro já lhe baralhavam as letras e os números dentro da cabeça, o que lhe valia mais umas reguadas e a raposa no fim do ano.  

Os mais velhos trabalhavam de sol a sol o ano inteiro. Domingos, só para a obrigação da missa; quando muito, dois dedos de conversa à roda do andamento das sementeiras ou dos rebanhos, o tempo de beber um copo com os amigos. Só se perdia algum dia para ir ao mercado ou à feira do Fundão, onde se aviava o que era preciso e vendia o que houvesse. Com tanto trabalho, não sobrava tempo para grandes folguedos, mas em qualquer oportunidade que aparecesse tirava-se a barriga de misérias. Era assim por altura das descamisas, como lembra a Carmo:

«Antigamente as pessoas eram mais dadas e ajudavam-se umas às outras naquilo que podiam. Na altura de colher o milho, era só dizer:

 - Ó Ti Matias (é só um exemplo), amanhã vamos colher o milho, apareçam para a descamisa.

Naquele tempo havia poucas ocasiões para divertimentos, e as descamisas eram oportunidades que ninguém queria perder, principalmente os rapazes e as raparigas em idade de arranjar namoro. Quando se sabia duma, passava-se logo a palavra, e vinha até gente da Vila e do Casal da Fraga. 

No fim da ceia as pessoas iam aparecendo, as que tinham sido convidadas e outras só por terem ouvido dizer. À medida que chegavam, sentavam-se numa roda à volta do monte de milho colhido durante o dia. Não havia lugares marcados, mas toda a gente fazia por se sentar ao pé de alguém por quem tinha alguma preferência, muitas vezes amores escondidos. Arranjaram-se muitos casamentos assim.

Os serões eram sempre animados: os mais pequenos entretidos nas brincadeiras do costume, só interrompidas para ouvir as histórias de bruxas e almas penadas que o Ti João Candeias contava; as piadas e anedotas dos mais atrevidos punham toda a gente à gargalhada, e quando alguém começava:


As desfolhadas da aldeia

São cheias de vida e cor,

 

toda a gente ia atrás:

 

Até à luz da candeia

Se inspiram versos de amor.

 

Ai desfolhadas, lindas desfolhadas

Onde as raparigas vão todas lavadas,

Saem de casa, preparam-se bem,

Porque os seus amores lá irão também.

 

Ou então esta:

Ó malmequer mentiroso,

Quem te ensinou a mentir?

Tu dizes que me quer bem,

Quem de mim anda a fugir.

 

Desfolhei o malmequer

Num lindo jardim de Santarém,

Malmequer, bem me quer,

Muito longe está quem me quer bem.

 

Malmequer não é constante,

Malmequer muito varia,

Vinte folhas dizem morte,

Treze dizem alegria.

 

E a seguir vinham outras: “Milho verde”, “No cimo daquela serra”, “Água leva o regadinho”… Mas as mãos não paravam, entre a pressa de acabar o trabalho para começar a festa, e a cata de uma maçaroca vermelha.

Quando se ouvia gritar: «Milho-rei! Milho-rei!» calava-se tudo a ver quem tinha sido o felizardo ou a felizarda. Quem quer que fosse, levantava-se e corria a roda a dar um abraço a toda a gente. Para os mais novos era uma libertação, que podiam abraçar-se às claras, sem a censura daqueles tempos. Desconfiava-se mesmo que alguns rapazes já levavam de casa uma maçaroca vermelha, só para poderem abraçar as raparigas.

No fim do trabalho, os donos ofereciam qualquer coisa para comer e beber, quase sempre pão com queijo, passas, maçãs, aguardente para os homens e jeropiga para as mulheres. Na descamisa do Ti António Remualdo também havia sempre esquecidos, especialidade da Ti Maria da Luz.

Acabado o trabalho fazia-se um bailarico, quase sempre ao toque do realejo. Naquele tempo havia muitos rapazes que sabiam dançar e tocar bem, mas o Joaquim Feijão, o João Borrego e o Manel Primo, que vinha do Casal da Serra, eram dos melhores e estavam lá sempre caídos.

O meu pai é que, mal começava o baile, punha-se logo: «Ó meninos, dois palmos, dois palmos!» e levantava as mãos espalmadas, unidas pelos polegares. O que vale é que havia sempre alguém a acudir por nós: «Ó Ti Jaquim, deixe lá a rapaziada divertir-se, que não se apega mal nenhum! Quando era novo não gostava também de dançar com a Ti Emília?».

Por esta altura, com a barriga cheia e vencidos pelo sono e pelo cansaço das brincadeiras, os mais pequenos deitavam-se pelo chão e dormiam como justos. Contam que um dia, no fim de uma descamisa no Rabaçal, uma filha da Bernardina Pescão Seco, por mais que a chamassem, não dava sinais de vida. Já andava toda a gente à procura, pensando o pior, que naquele tempo ainda apareciam lobos por ali. A mãe, já sem grande esperança de encontrar a filha, deitava as mãos à cabeça: «Ai, minha rica filha! E logo hoje, que lhe pus o meu lenço de merino…». Quando deram com ela, ainda estremunhada debaixo de um molho de folhelhos, foi um alívio. Ainda hoje há quem conte esta história…

Mal o bailarico acabava, já a passar da meia-noite, regressava toda a gente a casa. Os mais pequenos, a lembrarem-se das histórias, agarrados às saias das mães; os mais velhos, com o corpo a pedir cama, mas já a contar os dias para a próxima descamisa, quer fosse a do Ti Matias, a do João Serra, a do António Passaraço, ou a doutro vizinho qualquer. Naquele tempo nenhuma nos escapava.»

ML Ferreira

domingo, 15 de março de 2026

O nosso falar (e viver) – sorte, terça, terceiro

A propósito da última sessão do “Conta-me histórias”, fui rever um pouco da História mais antiga de Portugal. Sobre o reinado dos Visigodos, achei interessante este texto, que pode justificar a origem dos nomes sorte, terça e terceiro, que ainda se vão ouvindo nas conversas entre os mais velhos, referindo uma porção de terra, normalmente pequena, que, nas partilhas, cabe a cada um dos herdeiros; ou o modo de pagamento de quem cultiva terrenos alheios, recebendo como paga a terça parte da colheita: 


                                      (História de Portugal de Fortunato de Almeida)

ML Ferreira