Na festa da Cereja deste ano, em Alcongosta, foi lançado um chocolate chamado Cireneu. O jornal do Fundão deu a notícia que abaixo se mostra, apresentando o marginal como o Robin dos Bosques da Gardunha.
Enxidros era a antiga designação do espaço baldio da encosta da Gardunha acima da vila de São Vicente da Beira. A viver aqui ou lá longe, todos continuamos presos a este chão pelo cordão umbilical. Dos Enxidros é um espaço de divulgação das coisas da nossa freguesia. Visitem-nos e enviem a vossa colaboração para teodoroprata@gmail.com
quinta-feira, 2 de julho de 2026
Um Cireneu de chocolate
terça-feira, 30 de junho de 2026
Parque solar na Gardunha
Castelo Branco: Promotor recusa convite para ir à Assembleia Municipal explicar projeto solar
Por: Diário Digital Castelo Branco, 29 de junho
O promotor de um projeto para a instalação de um parque solar na Serra da Gardunha, ao qual a Câmara de Castelo Branco se opõe, recusou o convite para estar presente na Assembleia Municipal para explicar o projeto.
O presidente da Câmara de Castelo Branco informou hoje a Assembleia Municipal sobre um projeto para a instalação de um parque solar na Serra da Gardunha, ao qual se opôs devido à sua localização.
No início do período de antes da Ordem do Dia, o presidente da Assembleia Municipal de Castelo Branco, informou os deputados municipais que tinha recebido um pedido de audiência por parte do promotor deste projeto e pediu que fosse acrescentado um ponto ao período da Ordem do Dia para informar os deputados sobre o assunto em causa, sendo que não se tratava de qualquer ação para deliberação.
Valter Lemos explicou ainda que reuniu no dia 26 de junho, com o grupo investidor (Eurowind), com o presidente da Câmara de Castelo Branco, Leopoldo Rodrigues e com a presidente da Junta de Freguesia de Louriçal do Campo, Gorete Serra.
“Trata-se exclusivamente de um ponto para esclarecer dúvidas e informar os deputados municipais”, vincou.
Após votação, os deputados aprovaram, por maioria (apenas houve um voto contra), que fosse acrescentado este ponto à Ordem do Dia, pelo que o presidente da Câmara de Castelo Branco informou a Assembleia Municipal sobre as intenções do promotor para este projeto.
Leopoldo Rodrigues deixou bem claro que na primeira reunião que teve com o grupo investidor foi-lhe dito, “de uma forma genérica” que pretendiam investir em Castelo Branco na instalação de um parque híbrido (solar e eólico), mas “sem falar na sua localização”.
“Na altura expliquei que me opunha à instalação deste projeto caso este ocupasse áreas protegidas, solos agrícolas ou zonas onde tivesse forte impacto na paisagem”.
Segundo o autarca, passado algum tempo foi abordado por um consultor que trabalha para o grupo investidor, no sentido de arrendar cerca de sete hectares de terreno propriedade do município, precisamente, na Serra da Gardunha.
“Foi só nessa altura que me apercebi que o projeto coincidia com a Serra da Gardunha. Comunicámos que a nossa posição se mantinha e que achávamos que a localização não era a mais adequada e propusemos que procurassem outras alternativas. Não somos contra investimento ou energias alternativas”, sublinhou.
O presidente da Câmara realçou ainda que na última reunião realizada no dia 26 de junho, o investidor manteve-se praticamente intransigente.
“Houve um convite feito à empresa para estar hoje presente na Assembleia Municipal para explicar o projeto. Ficaram de ponderar e recusaram a sua presença”, sustentou.
Vários deputados municipais abordaram o assunto, mas queixaram-se da falta de informação sobre o mesmo, considerando que se trata de um assunto bastante sério.
Leopoldo Rodrigues voltou a realçar que para o executivo “a Gardunha é um santuário que importa preservar” e perante as queixas dos deputados sobre a falta de informação sobre o projeto, disse que se trata de um processo evolutivo.
Voltou a sublinhar que por se tratar de um assunto de extrema importância decidiu informar a Assembleia Municipal e, inclusivamente, disponibilizou-se para que seja marcada uma reunião extraordinária, caso assim o entendam os deputados municipais, somente para discutir este assunto.
“Não vejo nada contra isso e se o entenderem podemos voltar a convidar a empresa a estar presente”, disse.
Este assunto já tinha sido abordado, numa sessão pública do executivo, onde Leopoldo Rodrigues informou os vereadores deste projeto para instalar um parque eólico e solar nas proximidades da Serra da Gardunha, no concelho de Castelo Branco, cujo investimento ronda os 1,2 mil milhões de euros.
O caso ficou agora à espera da reflexão dos deputados municipais para uma posterior tomada de posição sobre o assunto.
José Teodoro Prata
domingo, 28 de junho de 2026
Por favor, preocupem-se!
O MAPA NEGRO
O governo divulgou esta semana o mapa das Zonas de Aceleração das Energias Renováveis (ZAER). Este documento é um passaporte para a indústria da mal designada energia verde, ocupar 7% do território nacional. Este projeto é particularmente lesivo para o distrito de Castelo Branco onde se prevê a ocupação de uma área que se aproxima dos 100 mil hectares. Três concelhos da zona do Pinhal (Sertã, Proença-a-Nova e Oleiros) são os mais afetados uma vez que o plano prevê uma ocupação do seus territórios superior a 35%. O impacto de tudo isto é aterrador, visualmente vamos ter uma paisagem pintada de negro e ambientalmente é uma catástrofe uma vez que a destruição de cerca de 100 mil hectares de vegetação (só no distrito de Castelo Branco) implica a morte de um enorme número de aves e animais selvagens contribuindo desta forma para o aceleramento das alterações climáticas. Segundo os especialistas a destruição de tamanha área natural vai provocar um aumento da temperatura, o escoamento rápido da água das chuvas provocando um aumento das cheias e não permitindo o abastecimento dos aquíferos subterrâneos, a diminuição da percentagem de oxigénio e consequentemente da qualidade do ar, a esterilização dos solos por longos anos e uma acumulação enorme de sucata provocada pelo fim de vida dos equipamentos utilizados. A concretizar-se, este é um dos planos mais negros que Portugal alguma vez teve e perante isto impõem-se as perguntas: é necessário? Portugal precisa mesmo disto? A resposta é: não. Segundo foi divulgado em setembro do ano passado pela Goldenergy citando dados do Eurostat, Portugal já produz pelo sistema renovável mais de 86% da energia que consome, no entanto, o consumo de energia em Portugal e no mundo desenvolvido está a aumentar assustadoramente por causa dos Data centers, Inteligência Artificial, etc. e o nosso país está na mira das grandes multinacionais do setor energético para ser sacrificado em prol dos chorudos lucros que esta indústria vai gerar. A “receita” é velha, consta em todos os “manuais” das “empresas abutres” só lamento que o nosso governo lhe dê cobertura pondo desta forma a cabeça do seu povo no cepo. E perante isto, que titulo atribuir a este governo e em particular à Ministra do Ambiente?
quarta-feira, 24 de junho de 2026
Clara linda linda Clara
https://youtu.be/d91X9-Mlrug?si=-ZBkGiaUL0k6Iz94
Em
1962, Fernando
Lopes Graça e Michel
Giacometti estavam a fazer recolhas de canções populares pelo
país. Foi na povoação de Alferce, na serra de Monchique, que descobriram a
balada “Ó Laurinda, Linda, Linda”, sobre uma mulher adúltera que quase era
apanhada em flagrante pelo marido quando este voltava de viagem. Registaram o
tema na voz de Mariana Vitorino.
Quase duas
décadas depois, em 1981, o cantor Vitorino gravava “Laurinda” para o seu
álbum Romances.
Tornou-se, com o passar do tempo, numa das canções mais emblemáticas do seu
repertório.
Entretanto, José Augusto Alves (poeta popular vicentino de quem publicámos, no verão passado, parte da sua poesia no livro Poesia Simples) registou por escrito a versão que ele conhecia, provavelmente desconhecendo a informação que apresentei acima. Estas histórias em verso passavam de boca em boca e quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto. Por isso cada região contará uma versão desta história.
Clara linda linda Clara
Clara linda como o Sol;
Deixa-me dormir contigo
Na ponta do teu lençol.
Na ponta do meu lençol
Hoje sim amanhã não;
Meu marido não está cá
Foi à feira d´Assunção.
Onze horas meia noite
Marido à porta bateu;
Clara linda linda Clara
Clara linda não falou.
Clara linda está doente
Ou lá tem outros amores;
Ando à procura das chaves
Para abrir os corredores.
De quem é aquele chapéu
Que além está dependurado;
É para ti meu marido
Por minhas mãos acabado.
De quem é aquele capote
Que tem barra de galão;
É para ti meu marido
Acabado por minha mão.
De quem é aquele cavalo
Na minha loja guinchou;
É para ti meu marido
Foi teu pai co cá mandou.
De quem é aquele suspiro
No meu quarto suspirou;
Clara linda linda Clara
Caiu no chão e desmaiou.
Vai chamar as tuas irmãs
Para se despedirem de ti;
Que não vão fazer aos outros
O que tu me fizeste a mim.
Sete irmãs que nós somos
Todas filhas dum doutor;
Eu por ser a mais novinha
Caí no maior terror.
José Teodoro Prata
domingo, 21 de junho de 2026
O Zé Manel emigrante
Comentário do Zé Manel ao último (anterior) texto aqui publicado e no Facebook:
«Pois é...
Não sei se o
Jorge trabalhou na estrada na Paradanta, mas eu nunca lá trabalhei
Trabalhei
sim, um verão numa estrada perto de Oleiros 'éramos uma "caterva"
deles da vila quase tudo malta nova.
Voltando à
minha ida a salto para a França "lembrei-me do Raul Solnado, a história da
sua ida à guerra"
Aproximava-se
o tempo de ir à inspeção, o tempo de ir parar a África, matar os
"terroristas" ou eles matarem-me a mim.
Nunca fui a
favor destas guerras que o Salazar nos obrigava a fazer
Diziam os
mandões
Angola é
nossa...
Eu respondia
baixinho; uma gaita, a minha parte vendo-a por uma caixa de fósforos
Certa vez
disse ao meu pai que queria ir para a França...
O passador
levava cinco contos, escrevi uma carta ao meu tio António, deu ordem à sua
sogra a senhora Maria do Carmo Marcelino para me entregar os cinco contitos
O meu pai
falou com o António Luis "bigodes da Partida" certo dia eu e o Jorge
cada um com seu cesto colocámos a mala de cartão dentro cobrimo-la com uma
manta da azeitona e ai vamos nós estrada fora a caminho da Oles
Para onde
ides!
Vamos para a
Oles do senhor Eduardo Cardoso colher azeitona
Tão bem
vestidos!...
O meu pai
andava na cruz da Oles, passado um bom bocado chega o "bigodes da
Partida"
No Fundão
meteu nos umas três ou quatro sandes na mão...
Em Vilar
Formoso saímos com o carro em andamento. Frentes de Onor era logo ali. Depois,
bem depois sozinhos tivemos que nos desenrascar...
Um ano e
meio mais-tarde resolvi regressar para fazer a tropa
O meu chefe
senhor Jean Marie
Não queiras
ir; a França é a França e teve que entregar a Argélia
Portugal não
aguenta três guerras ...
A saudade...
Vim em
Agosto, no dia 19 de Outubro meteram-me uma G3 na mão ...
E pronto.»
sábado, 20 de junho de 2026
Conta-me histórias da emigração
O Jorge foi
com o Zé Manel para a França. Ainda não tinham feito a tropa, por isso tiveram
de ir assalto. Andavam os dois a trabalhar na estrada, perto da Paradanta, e
apareceu lá um senhor com ordens dos pais para os trazer para casa. Chegaram,
já tinham as malas feitas, só tiveram de se lavar e mudar de roupa. O senhor, da Partida, que costumava passar
gente, levou-os de carro até Vilar Formoso e disse-lhes que apanhassem o
comboio em Fuentes de Onor, do outro lado da fronteira. Eles lá foram e
entraram no comboio, mas logo apareceram os carabineiros a correr, pareciam
andar à procura de alguém. Eles fizeram-se desentendidos e colocaram-se à
janela, a fingir descontração. Foram até Irun, na fronteira com a França,
saíram do comboio e seguiram aquela gente toda para um túnel. Que levantassem o
braço com o passaporte na mão, gritava alguém. O Zé Manel levada um livrito e
levantou-o. O Jorge não tinha nada para mostrar, mas deixou-se ir no meio da
multidão e lá passaram. Foram para Clermont-Ferrand e arranjaram trabalho na
fábrica da Michelin. Mas passado um ano receberam cartas dos pais pedindo-lhes
que regressassem, pois, se não viessem fazer a tropa, não poderiam vir a
Portugal ver a família, durante 45 anos. Lá vieram, fizeram a tropa, o Jorge
foi à guerra colonial e depois voltou para a França, onde ficou toda a vida
ativa.
A ida da
Isabel para a França foi uma ilusão e um erro. A família vivia bem com o
negócio da resina, mas alguém os convenceu que na França é que era. Foram,
passaram dificuldades e só não voltaram porque o bom que tinham deixado já não
estava à espera deles. Os filhos foram nascendo, o marido adaptou-se, porque
era um otimista, mas ela nunca gostou, e agora também não, já sem o Chico e
olhada como estrangeira cá e lá.
A Lurdes
emigrou para a Alemanha, com o marido. Trabalhavam na mesma fábrica, em turnos
diferentes. Ela gostava do trabalho e até era elogiada pelas suas capacidades.
Tinham uma vida boa, mas o Joaquim nunca gostou. Acabaram por regressar a
Portugal ainda com os filhos menores.
A emigração
da Fátima foi de luxo, em tempos de bidonvilles, mas nunca gostou, de tal modo
que só durou quatro meses. O marido trabalhara nas Oficinas Gerais de Material
Aeronáutico, em Alverca, mas foi para Paris aprender mais, na prática e na
teoria, pois estudava na Sorbonne. Ele ganhava muito dinheiro, por isso vivam
num hotel, mas ela não parava de rezingar. Desesperado, o Francisco levou-a a
Champigny-sur-mer, o maior bairro de lata de França, onde viviam cerca de 15
mil pessoas, 10 mil das quais emigrantes portugueses. Foi no inverno, as ruas
eram autênticos lamaçais, assim como o chão das barracas de madeira e chapas.
Um horror, mas nem assim conseguiu saborear o luxo do hotel. Certo dia, perto
da meia-noite, apanhou um comboio em sentido contrário ao seu destino. No final
da viagem, viu-se numa estação terminal, rapidamente deserta, em nenhures.
Pediu ajuda e passado muito tempo lá voltou à estação inicial, onde apanhou um
táxi. Ao chegar ao hotel, às duas da manhã, disse ao marido que no dia seguinte
a levasse ao comboio para Portugal. E assim foi. O marido ainda voltou a Paris
por um curto período de tempo, mas depois regressou definitivamente. Teve uma
vida muito mais difícil do que se tivesse ficado, mas nunca se arrependeu.
terça-feira, 16 de junho de 2026
Papa-figos
segunda-feira, 15 de junho de 2026
Conta-me histórias da guerra colonial
Voltámos
à Biblioteca Hipólito Raposo, para mais um Conta-me histórias, desta vez sobre
a guerra colonial.
O livro Poesia Simples, de
José Augusto Alves, conta a história do Tó, soldado paraquedista que foi
voluntário para a Guiné e sofreu um ataque. Veio para o hospital militar, em
Lisboa, com múltiplas queimaduras e só chegou à terra na sexta-feira santa do
ano seguinte, quando desciam o Cristo da cruz, no Calvário. «Foi um enorme
guerreiro / Também andou pelos matos; / Tantos soldados solteiros / Que da
guerra andavam fartos.» Um dia, num jantar de antigos combatentes, disse ao ex-comandante
militar da Guiné, também presente: «Quando morrer, eu fico a substituí-lo!»
Ambos se chamavam António e aos dois faltava um olho.
O Rui esteve num ponto
crítico da Guiné, próximo da outra Guiné que fora francesa e já estava
independente. O sítio era tão perigoso que até foi para lá mandado, como
castigo, um soldado que matara um sargento noutra região. Era motorista e teve
de ir para a guerra, porque vários motoristas madeirenses foram despedir-se à
ilha e apanharam o avião para os Estados Unidos. Ouvia o Amílcar Cabral, às 7
da tarde, desde Conacri. Quando partiu, não percebia nada de política, mas era
impossível não concordar com Cabral que defendia um governo misto de
portugueses e africanos. Na altura do seu assassinato, houve uma companhia que
foi massacrada e os sobreviventes dispersaram. A um deles, o João, também
vicentino, encontrou-o muito mal, todo amarelo, com hepatite. Levou-o para o
quartel e tratou dele. Depois pediu ao comandante e “adotaram-no”. O Rui
foi protegido pela mãe de Jesus, pois escapou ileso de um ataque no dia 13 de
maio. Mas houve na guerra tantos mortos por se relaxarem as regras de
segurança!
O Jorge já fora para França,
mas regressou a pedido dos pais, pois, se não viesse fazer a tropa, não poderia
vir visitar a família. Ele passou melhor, também na Guiné, pois o seu quartel
só sofreu um ataque. Filho do barbeiro da terra, cortava o cabelo aos outros
soldados, nas horas vagas.
O Cassiano esteve na
retaguarda, desde os 16 anos, como funcionário do hospital militar, em Lisboa,
onde chegavam os feridos e os mortos. Depois do 25 de Abril foi para Luanda,
como militar, a receber e inventariar os equipamentos médico-cirúrgicos trazidos
pelas unidades que regressavam do mato, com destino à metrópole.
Tantos traumas!
José Teodoro Prata
segunda-feira, 8 de junho de 2026
Conta-me histórias, 8
Nesta oitava sessão, iremos relembrar histórias antigas contadas de boca em boca, pelos nossos antepassados, e antigos emigrantes e ex-combatentes da guerra colonial partilharão alguns episódios das suas vidas.
terça-feira, 2 de junho de 2026
Ninho de zangão
Um dia, no Ribeiro Dom Bento, vi desaparecer um inseto do tamanho e forma do zangão (não o macho da abelha), mas todo preto, por uma fisga entre duas placas metálicas.
sábado, 30 de maio de 2026
A flor da esteva
Era no tempo da inocência, em que as histórias ouvidas ao serão preenchiam o nosso imaginário e nos resolviam o conflito com a realidade.
Uma das que mais me maravilhava, contada por alturas da Páscoa, (início da primavera) era sobre a flor da esteva.
Resumidamente, era mais ou menos assim:
O caminho por onde Jesus subiu ao Calvário era todo rodeado de estevas com flores brancas. Mas quando Jesus passava, os espinhos que lhe cravaram na cabeça eram tão fundos que faziam com que o sangue que lhe jorrava da cabeça salpicasse tudo o que estava à roda e fosse também cair sobre as flores das estevas. Ao ver o filho em tal sofrimento, Nossa Senhora chorava tantas lágrimas de sangue, que caíram também sobre algumas flores.
Isto justifica que encontremos estevas cujas flores tenham apenas cinco pétalas com manchas de sangue (aquelas em que caiu o sangue de Jesus) e outras que tenham seis (as que apanharam também as lágrimas de Nossa Senhora).
Do cheiro das estevas, só a linguagem da memória, feita poesia:
«Lembro-me do cheiro dos lagares, das queijeiras, do forno, da forja – eram cheiros que entravam pelas narinas como tantos outros, mas só esses se infiltravam no sangue e aí ficavam, depositados em sucessivas camadas, para sempre, como ficou o aroma das estevas e do feno.»
(Eugénio de Andrade)
MLFerreira
(O escritor Rentes de Carvalho, natural de uma aldeia próximo de Torre de Moncorvo, mas a viver na Holanda, escreveu num dos seus livros que levada um ramo de estevas para pendurar na sua cozinha lá da longínqua Amsterdão.)
José Teodoro Prata
segunda-feira, 25 de maio de 2026
Fim do Ciclo Pascal
A festa da
Páscoa ou da Aleluia terminou ontem, dia de Pentecostes, em que se celebra a
descida do Espírito Santo sobre os apóstolos e a consequente criação da Igreja
Cristã.
Ontem
tiveram lugar as últimas romarias que integram o ciclo Pascal: Senhora da Póvoa
(Vale da Senhora da Póvoa), São Lourenço (Palvarinho) e Senhora da Orada (São
Vicente da Beira). Antes, realizaram-se as festas da Senhora dos Altos Céus (Lousa),
Senhora do Almortão (Idanha-a-Nova), Senhora da Mércoles (Castelo Branco),
Santa Bárbara (Casal da Fraga – SVB; no passado entre o Sobral do Campo e São
Vicente), São Tiago (Partida – SVB)…
Na década de
70 do século passado, em São Vicente da Beira, era nas datas das romarias referidas
que o sr.º Vigário visitava todas as casas, dando as Boas Festas.
Nota: A foto
mostra a estrada romana que ainda hoje existe junto à ermida da Senhora da
Orada, no interior da serra da Gardunha.
José Teodoro Prata
sexta-feira, 22 de maio de 2026
Como se chama?
Quem amanhã for à romaria da Senhora da Orada pelo caminho que vem do Caldeira para as Quintas, vai avistá-la na zona entre o pinheiro manso e o cruzamento do Cabeço do Pisco. Nalguns locais é mesmo a única presença viva, no meio de caules calcinados que ficaram do fogo do ano passado.
Não sei o seu nome, mas tem tanto frágil como de delicadeza e beleza.
José Teodoro Prata
Nota: Chama-se coruba-brava, segundo informação da Sara Varanda postada no facebook.
quarta-feira, 20 de maio de 2026
Giesta-do-monte
Quem no domingo for à romaria da Senhora da Orada, a pé, pelo caminho que vai do Cimo de Vila para as Quintas, ainda pode ver a giesta-do-monte (Polygala microphylla) florida, ali entre o Pinheiro e o Carvalhal Redondo, à direita de quem sobe.
A floração
prolonga-se por tanto tempo que a flor de roxo escuro começa a ficar lilás
claro. Floresce sempre por alturas da Páscoa, pelo que a minha mãe, que não
sabia o nome dela, chamava-lhe Páscoas. A foto foi tirada pela minha irmã São, este ano.
Há alguns
anos, trouxe a planta à Escola Agrária de Castelo Branco. Informaram-me do nome
e que a planta abunda sobretudo no centro litoral, sempre virada ao mar, como
este lugar onde a podemos admirar todos os anos.
Trata-se de uma planta
rasteira e as hastes floridas raramente ultrapassam um palmo de altura. É muito resistente,
pois naquele local já sobreviveu a três fogos, recentemente (1986, 1917 e 2025).
José Teodoro Prata
terça-feira, 19 de maio de 2026
Enxabarda 6 (último)
Na rua, cruzamo-nos com alguém que não nos conhece. A pergunta surge imediatamente, sempre a mesma:
Sois
filhas de quem?
Os nomes das
nossas mães levam ao nome da nossa avó, ao nome dos nossos tios e, quase
sempre, aos nomes dos nossos bisavós.
Ainda somos
primos.
Ou então:
A tua avó
ajudou-me muito.
As tuas
tias ainda se devem lembrar.
Antigamente
éramos vizinhos.
E segue-se
uma história de superação, solidariedade, entreajuda, morte, qualquer coisa que
não é para brincar, como relatos de meninos que não tinham o que comer e que só
se salvaram por terem sido amamentados por vizinhas.
Éramos
família.
Somos
família.
Queremos-vos
como queremos aos nossos.
A pergunta sois
filha de quem? não é, pois, uma pergunta qualquer. Liga-nos diretamente a
quem passa. E quem passa sabe haver maneira de nos ligarmos todos.
Isabel
Minhós Martins
Revista
Mamute, n.º 1, segunda série, 2025 (pp. 75 e 76)
José Teodoro Prata
domingo, 17 de maio de 2026
Enxabarda 5
«Pergunto
à minha mãe e às minhas tias se pobreza era a palavra certa para descrever a
vida da aldeia quando eram crianças. Quase tudo aquilo de que se lembram melhor
– ou que decidiram guardar na memória – tem a ver com uma ideia de comunidade e
entreajuda. Só que eu insisto na pergunta: mas como é que viviam?
Sementes, fermento, fogo.
Tudo se partilhava e trocava, não havia desperdício.
O fogo passava de casa em
casa através de uma pinha: A vizinha já tem lume?
Caso fossem poucas, as
sementes pediam-se de porta em porta: Maria, tens aí um todo-nadinha de
sementes de nabo para acrescentar a este todo-nadinha que trago aqui? uma
vizinha perguntou à minha avó.
Existiam várias categorias
de pouco, várias formas de nada. Era possível haver um pouco menos do que
pouco, um pouco menos do que nada.
O fermento passava de mão em
mão, de masseira em masseira.
Da roupa de adulto fazia-se
roupa de criança.
Das partes mais gastas do
fundo das camisas costuravam-se as roupas dos bebés, para que fossem mais
macias.
Dos trapos que sobravam
teciam-se tapetes e mantas, para o frio, para amparar as azeitonas, para secar
o milho.
Antes de serem lavados, os
lençóis de cima passavam a lençóis de baixo, para poupar lavagens.
(…)
Trocavam-se cereais por
loiças, azeite por ferramentas, tarefas por tarefas.
Partilhava-se a sorte quando
chegava o azar (…). Vizinhos iam ao fundo das arcas buscar o que restava do
milho para fazer farinha e papas; vizinhos chegavam com taças de sangue de
porco para compensar a perda. [de alguém a quem se entornara o alguidar de
sangue da matança do porco]
O meu milho é o teu milho,
o meu sangue é o vosso
sangue.
Por bondade ou para noutra
ocasião
o teu milho seja o meu
milho,
o teu sangue o nosso
sangue.»
Isabel Minhós Martins
Revista Mamute, n.º 1, segunda série, 2025 (pp. 75 e 76)
quinta-feira, 14 de maio de 2026
Enxabarda 4
«A água é negra. O fundo é de lascas de xisto, lascas que não magoam os pés, pedrinhas que não chegam a ser areia grossa. A película brilhante que separa o escuro do claro faz-nos pensar em óleo espesso, mas o som é bem mais líquido e fresco, mais limpo.
A superfície
estremece ligeiramente com o movimento dos alfaiates: ao leve pousar das suas
patas, um pequeno círculo, uma bolha que não chega a ser bolha, forma-se à
volta de cada uma, e então deixamos de perceber. Porque às patas e aos seus
reflexos juntam-se os pequenos círculos e seus reflexos e a imagem
confunde-nos: não percebemos que animal é este, onde começa e acaba o seu
corpo, quantas patas tem afinal. Para nos hipnotizar ainda mais, há esse modo
extraterrestre de se deslocar, de um modo para o qual é difícil encontrar
palavras, pois, na verdade, um alfaiate não caminha, não salta, não desliza,
não voa, não nada, avança. Tem qualquer coisa de aranha, e não admira que este
movimento aranhiço sobre o fundo tão escuro do Poço Escuro cause repulsa a alguns
veraneantes menos habituados (…).
Os alfaiates
estão sossegados mas, quando mergulhamos, tudo se quebra: a água, os reflexos,
a paz dos alfaiates, o silêncio, o calor. A água é leve e fria, tão diferente
da água salgada onde também mergulhamos nas férias. É uma água sem sabor, sem
peso, sem mais nada, uma água-água, e talvez seja do frio, da escuridão ou
desta leveza, mas até parece que conseguimos atravessá-la mais depressa. Chegar
à superfície é ter a sensação de que renascemos.»
Isabel
Minhós Martins
Revista
Mamute, n.º 1, segunda série, 2025 (pp. 73 e 74)
terça-feira, 12 de maio de 2026
Enxabarda 3
«Como a chave estava sempre na porta, primos e vizinhos
entravam pela casa adentro sem aviso e, se isso acontecia por volta do
meio-dia, viam-nos passar ainda despenteadas, de pijama. Tantas horas de sono
eram consideradas ali um costume exótico, um capricho que os outros tinham
dificuldade em compreender. O sono era um tempo roubado as horas de trabalho à
fresca, um desperdício (…).
(…) Havia esse pormenor de a chave estar na porta todo o dia.
A primeira pessoa a acordar, normalmente a minha avó, colocava-a na fechadura
do lado de fora; a última a deitar-se fazia o inverso. A chave só era retirada
quando íamos à cidade mais próxima ou quando, por exemplo, decidíamos ir passar
o dia à serra. Penso que não o fazíamos com medo de que a casa fosse assaltada,
mas mais como um aviso, um sinal que dizia a quem passava: se a chave não está
na porta é porque não está ninguém em casa. A bem dizer, a chave era sempre
colocada debaixo do tapete da entrada, portanto, se fosse necessário, era
possível entrar.
A casa da minha avó fica no largo da igreja e as pessoas
entravam muito: antes da missa, depois da missa, a caminho das hortas ou quando
iam aviar-se à loja que ficava mesmo em frente à nossa porta.»
Isabel Minhós Martins
Revista Mamute, n.º 1, segunda série, 2025 (pp. 69 e 70)
segunda-feira, 11 de maio de 2026
domingo, 10 de maio de 2026
Enxabarda 2
«A minha avó nasceu no início de setembro de 1910, um mês antes da Implantação da República. Durante a sua infância, a gripe espanhola correu o país e chegou à sua aldeia. Conta-se que adoeceu e sobreviveu. Também sobreviveu a cinco partos sem qualquer assistência, ou melhor, seis, porque teve gémeas, um acontecimento que surpreendeu toda a gente. Quando a parteira se apercebeu da existência de outro bebé, pediu a um homem que fosse de bicicleta até à vila mais próxima para trazer um médico porque a situação da parturiente era grave. É bem provável que nesse dia (e nos que se seguiram) a minha avó tenha visto a morte aos pés da cama, como havia de lhe acontecer muitos anos mais tarde, quando já muito velha e doente, me disse: ela hoje andou por aí a rondar.
Pergunto-me se a casa em que viviam nessa altura teria
escadas. E, se sim, como faria ela para descer ao piso térreo a saber das
outras crianças. Pergunto-me também quem lhe terá trazido água, pão, uma canja.
Quanto tempo terá vivido assim? Porque não permaneceu deitada até recuperar as
forças? O que seria tão urgente que a obrigava a deslocar-se entre divisões?
Pergunto-me também se a minha mãe e os meus tios a terão visto e em que
circunstâncias. Porque o certo é que a história chegou até mim mais de sessenta
anos depois de ter acontecido: uma mulher de gatas, uma mãe de gatas, a minha
avó de gatas.»
Isabel
Minhós Martins
Revista
Mamute, n.º 1, segunda série, 2025 (pp. 68 e 69)
José Teodoro Prata
sábado, 9 de maio de 2026
Enxabarda 1
A Enxabarda situa-se bem no coração da Gardunha. Pertence à freguesia do Castelejo e localiza-se no caminho para os cumes da serra.
terça-feira, 28 de abril de 2026
Mais cambalhões
Na sequência da minha publicação "O nosso falar: cambalhões", o José Miguel Teodoro deu uma achega para ajudar a esclarecer o assunto.
Consultou o velhinho Morais (1950), que o informou de que camalhões e cambalhões são sinónimos. É importante esta informação, pois ficamos a saber que outras regiões do país usam a mesma palavra que nós, não é uma especificidade nossa.
José Teodoro Prata
sábado, 25 de abril de 2026
Passarada
Ontem, ao passar no cruzamento do Cabeço do Pisco, não digo a hora, porque parece mal, saiu de um pinheiro uma ave enorme. Bateu as asas durante bastante tempo e depois planou até desaparecer no horizonte. Seria uma ave de rapina, mas de uma espécie de grande porte. Fiquei contente e lembrei-me do bando de corvos que por ali andavam antes das infestantes tomarem conta da nossa serra.
Hoje, na Antena 1, o José Candeias referiu o corvo Vicente numa aldeia da Beira Baixa. Para quem não saiba, nos últimos anos da década de 70, o Café "Cagarola" tinha um corvo chamado Vicente que dizia umas palavras.
José Teodoro Prata
sábado, 28 de março de 2026
O nosso falar: cambalhões
Fiz a publicação abaixo apresentada no facebook, a qual motivou uma reflexão sobre a correção da palavra que consta do título, referida em comentário pelo nosso conterrâneo José Nicolau ("Essa cava era chamada cavar cambalhão, ainda cavei assim, deixar a terra direita é cava rasa.")
A Berta Ramalhinho disse que era camalhões (mais tarde o Albano Mendes de Matos informou que na Região Saloia também se diz camalhões). Eu fui consultar a net e de facto é camalhões, vindo do castelhano caballón, palavra que significa cume em português. Eu penso que ao José Nicolau saiu aquilo que se diz e eu digo na nossa terra: cambalhões. De caballón e porque não de cambalhota?, movimento que damos à terra para a virar, muitas vezes até para soterrar a erva da parte superior. Tal como arresário (soalheiro), enxidros (baldios), também usamos cambalhões, de caballlón. São inúmeras as palavras de origem castelhana que nós usamos nesta região fronteiriça!
quinta-feira, 19 de março de 2026
Milho-Rei
Gosto de broa. Tanto que, em tempos, achava estranho o desabafo de quem, como os nossos pais e muitas gerações de avós, não teve outro pão em criança: «Quero cá agora broa! Enchi a barriga dela em novo, que era o pão que havia, broa e centeio, que trigo só nas Festas.» Achava estranho porque me lembrava dela ainda a fumegar, aberta pelas mãos da minha avó, logo à saída do forno, regada com um fio de azeite. E era um regalo, nos dias em que passava a Ti Palmira, o Maiaca ou o Pinura, uma fatia de broa com uma sardinha assada a pingar por cima, comida nas escadas da Casa do Casal, entrada de tanta gente…
Não
vão longe os tempos em que, fins de abril, princípios de maio, todos os
lameiros à roda da Ribeira estavam prontos para a sementeira do milho. Era
trabalho para toda a família e, se fosse preciso, podia sempre contar-se com a
mão de algum vizinho. Depois da semente na terra, estando a Lua a favor, passado
pouco tempo era um mar de verde por esses lameiros acima.
Durante
meses não havia descanso: ora a arrelentar, a sachar, a mondar ou a regar.
Durante o verão a água da ribeira era dividida por quem tinha direito a ela, seguindo
tradições que vinham de longe, mas respeitadas como se fossem leis escritas. Havia
quem tivesse que regar pela noite dentro, à luz da Lua ou de lanterna na mão (em
tempos idos, o avistamento destas luzes alimentou o imaginário popular, que
acreditava tratar-se de almas penadas a vaguear pelo mundo). Lá para finais de
setembro o milho estava pronto a ser colhido. Nos anos bons, cada grão deitado
à terra dava umas três maçarocas. Não haveria fome à mesa nem na manjedoura.
Naquele
tempo, entre o Rabaçal, o Balcaria, a Senhora da Orada, o Ribeiro Dom Bento e
as Quintas viviam para cima de dez famílias, algumas com muitos filhos. Quase
toda a gente tinha terras suas, e quem não tinha arrendava-as ou tratava-as ao
terço, como a Ti Maria Etelvina ou o Ti Luís Teodoro, terceiros do António
Neto.
Era
uma vida difícil e de muito trabalho para todos, desde cedo. As crianças vinham
a pé para a escola, às vezes descalças e mal agasalhadas. O Chico Insa ainda
fala duma manhã de aguaceiro em que nem a saca dobrada a fazer de carapuça lhe
valeu, e, já todo numa sopa, abrigou-se num palheiro à espera que estiasse;
depois, por mais que corresse, não se livrou de cinco reguadas em cada mão,
tantas quantas os minutos que chegou atrasado à escola. À tarde, ficavam-lhe
nos olhos os colegas que se demoravam na Praça a jogar às caricas e a deitar o
pião, mas ele tinha sempre pressa em voltar a casa, onde as cabras, com fome,
já o chamavam há muito. Os deveres fazia-os à noite, quando o sono e a luz
mortiça do candeeiro já lhe baralhavam as letras e os números dentro da cabeça,
o que lhe valia mais umas reguadas e a raposa no fim do ano.
Os mais velhos trabalhavam de sol a sol o ano inteiro. Domingos, só para a obrigação da missa; quando muito, dois dedos de conversa à roda do andamento das sementeiras ou dos rebanhos, o tempo de beber um copo com os amigos. Só se perdia algum dia para ir ao mercado ou à feira do Fundão, onde se aviava o que era preciso e vendia o que houvesse. Com tanto trabalho, não sobrava tempo para grandes folguedos, mas em qualquer oportunidade que aparecesse tirava-se a barriga de misérias. Era assim por altura das descamisas, como lembra a Carmo:
«Antigamente
as pessoas eram mais dadas e ajudavam-se umas às outras naquilo que podiam. Na
altura de colher o milho, era só dizer:
- Ó Ti Matias (é só um exemplo), amanhã vamos
colher o milho, apareçam para a descamisa.
Naquele
tempo havia poucas ocasiões para divertimentos, e as descamisas eram
oportunidades que ninguém queria perder, principalmente os rapazes e as
raparigas em idade de arranjar namoro. Quando se sabia duma, passava-se logo a
palavra, e vinha até gente da Vila e do Casal da Fraga.
No
fim da ceia as pessoas iam aparecendo, as que tinham sido convidadas e outras
só por terem ouvido dizer. À medida que chegavam, sentavam-se numa roda à volta
do monte de milho colhido durante o dia. Não havia lugares marcados, mas toda a
gente fazia por se sentar ao pé de alguém por quem tinha alguma preferência,
muitas vezes amores escondidos. Arranjaram-se muitos casamentos assim.
Os serões eram sempre animados: os mais pequenos entretidos nas brincadeiras do costume, só interrompidas para ouvir as histórias de bruxas e almas penadas que o Ti João Candeias contava; as piadas e anedotas dos mais atrevidos punham toda a gente à gargalhada, e quando alguém começava:
As
desfolhadas da aldeia
São
cheias de vida e cor,
toda
a gente ia atrás:
Até
à luz da candeia
Se
inspiram versos de amor.
Ai
desfolhadas, lindas desfolhadas
Onde
as raparigas vão todas lavadas,
Saem
de casa, preparam-se bem,
Porque
os seus amores lá irão também.
Ou
então esta:
Ó
malmequer mentiroso,
Quem
te ensinou a mentir?
Tu
dizes que me quer bem,
Quem
de mim anda a fugir.
Desfolhei
o malmequer
Num
lindo jardim de Santarém,
Malmequer,
bem me quer,
Muito
longe está quem me quer bem.
Malmequer
não é constante,
Malmequer
muito varia,
Vinte
folhas dizem morte,
Treze
dizem alegria.
E a
seguir vinham outras: “Milho verde”, “No cimo daquela serra”, “Água leva o
regadinho”… Mas as mãos não paravam, entre a pressa de acabar o trabalho para
começar a festa, e a cata de uma maçaroca vermelha.
Quando
se ouvia gritar: «Milho-rei! Milho-rei!» calava-se tudo a ver quem tinha sido o
felizardo ou a felizarda. Quem quer que fosse, levantava-se e corria a roda a dar
um abraço a toda a gente. Para os mais novos era uma libertação, que podiam
abraçar-se às claras, sem a censura daqueles tempos. Desconfiava-se mesmo que
alguns rapazes já levavam de casa uma maçaroca vermelha, só para poderem abraçar
as raparigas.
No
fim do trabalho, os donos ofereciam qualquer coisa para comer e beber, quase sempre
pão com queijo, passas, maçãs, aguardente para os homens e jeropiga para as
mulheres. Na descamisa do Ti António Remualdo também havia sempre esquecidos,
especialidade da Ti Maria da Luz.
Acabado
o trabalho fazia-se um bailarico, quase sempre ao toque do realejo. Naquele
tempo havia muitos rapazes que sabiam dançar e tocar bem, mas o Joaquim Feijão,
o João Borrego e o Manel Primo, que vinha do Casal da Serra, eram dos melhores
e estavam lá sempre caídos.
O
meu pai é que, mal começava o baile, punha-se logo: «Ó meninos, dois palmos,
dois palmos!» e levantava as mãos espalmadas, unidas pelos polegares. O que
vale é que havia sempre alguém a acudir por nós: «Ó Ti Jaquim, deixe lá a
rapaziada divertir-se, que não se apega mal nenhum! Quando era novo não gostava
também de dançar com a Ti Emília?».
Por
esta altura, com a barriga cheia e vencidos pelo sono e pelo cansaço das
brincadeiras, os mais pequenos deitavam-se pelo chão e dormiam como justos.
Contam que um dia, no fim de uma descamisa no Rabaçal, uma filha da Bernardina
Pescão Seco, por mais que a chamassem, não dava sinais de vida. Já andava toda
a gente à procura, pensando o pior, que naquele tempo ainda apareciam lobos por
ali. A mãe, já sem grande esperança de encontrar a filha, deitava as mãos à
cabeça: «Ai, minha rica filha! E logo hoje, que lhe pus o meu lenço de
merino…». Quando deram com ela, ainda estremunhada debaixo de um molho de
folhelhos, foi um alívio. Ainda hoje há quem conte esta história…
Mal o bailarico acabava, já a passar da meia-noite, regressava toda a gente a casa. Os mais pequenos, a lembrarem-se das histórias, agarrados às saias das mães; os mais velhos, com o corpo a pedir cama, mas já a contar os dias para a próxima descamisa, quer fosse a do Ti Matias, a do João Serra, a do António Passaraço, ou a doutro vizinho qualquer. Naquele tempo nenhuma nos escapava.»
ML Ferreira
domingo, 15 de março de 2026
O nosso falar (e viver) – sorte, terça, terceiro
A propósito da última sessão do “Conta-me histórias”, fui rever um pouco da História mais antiga de Portugal. Sobre o reinado dos Visigodos, achei interessante este texto, que pode justificar a origem dos nomes sorte, terça e terceiro, que ainda se vão ouvindo nas conversas entre os mais velhos, referindo uma porção de terra, normalmente pequena, que, nas partilhas, cabe a cada um dos herdeiros; ou o modo de pagamento de quem cultiva terrenos alheios, recebendo como paga a terça parte da colheita:
(História de Portugal de Fortunato de Almeida)
ML Ferreira











