«A minha avó nasceu no início de setembro de 1910, um mês antes da Implantação da República. Durante a sua infância, a gripe espanhola correu o país e chegou à sua aldeia. Conta-se que adoeceu e sobreviveu. Também sobreviveu a cinco partos sem qualquer assistência, ou melhor, seis, porque teve gémeas, um acontecimento que surpreendeu toda a gente. Quando a parteira se apercebeu da existência de outro bebé, pediu a um homem que fosse de bicicleta até à vila mais próxima para trazer um médico porque a situação da parturiente era grave. É bem provável que nesse dia (e nos que se seguiram) a minha avó tenha visto a morte aos pés da cama, como havia de lhe acontecer muitos anos mais tarde, quando já muito velha e doente, me disse: ela hoje andou por aí a rondar.
Pergunto-me se a casa em que viviam nessa altura teria
escadas. E, se sim, como faria ela para descer ao piso térreo a saber das
outras crianças. Pergunto-me também quem lhe terá trazido água, pão, uma canja.
Quanto tempo terá vivido assim? Porque não permaneceu deitada até recuperar as
forças? O que seria tão urgente que a obrigava a deslocar-se entre divisões?
Pergunto-me também se a minha mãe e os meus tios a terão visto e em que
circunstâncias. Porque o certo é que a história chegou até mim mais de sessenta
anos depois de ter acontecido: uma mulher de gatas, uma mãe de gatas, a minha
avó de gatas.»
Isabel
Minhós Martins
Revista
Mamute, n.º 1, segunda série, 2025 (pp. 68 e 69)
José Teodoro Prata
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