domingo, 17 de maio de 2026

Enxabarda 5

«Pergunto à minha mãe e às minhas tias se pobreza era a palavra certa para descrever a vida da aldeia quando eram crianças. Quase tudo aquilo de que se lembram melhor – ou que decidiram guardar na memória – tem a ver com uma ideia de comunidade e entreajuda. Só que eu insisto na pergunta: mas como é que viviam?

Sementes, fermento, fogo. Tudo se partilhava e trocava, não havia desperdício.

O fogo passava de casa em casa através de uma pinha: A vizinha já tem lume?

Caso fossem poucas, as sementes pediam-se de porta em porta: Maria, tens aí um todo-nadinha de sementes de nabo para acrescentar a este todo-nadinha que trago aqui? uma vizinha perguntou à minha avó.

Existiam várias categorias de pouco, várias formas de nada. Era possível haver um pouco menos do que pouco, um pouco menos do que nada.

O fermento passava de mão em mão, de masseira em masseira.

Da roupa de adulto fazia-se roupa de criança.

Das partes mais gastas do fundo das camisas costuravam-se as roupas dos bebés, para que fossem mais macias.

Dos trapos que sobravam teciam-se tapetes e mantas, para o frio, para amparar as azeitonas, para secar o milho.

Antes de serem lavados, os lençóis de cima passavam a lençóis de baixo, para poupar lavagens.

(…)

Trocavam-se cereais por loiças, azeite por ferramentas, tarefas por tarefas.

Partilhava-se a sorte quando chegava o azar (…). Vizinhos iam ao fundo das arcas buscar o que restava do milho para fazer farinha e papas; vizinhos chegavam com taças de sangue de porco para compensar a perda. [de alguém a quem se entornara o alguidar de sangue da matança do porco]

O meu milho é o teu milho,

o meu sangue é o vosso sangue.

Por bondade ou para noutra ocasião

o teu milho seja o meu milho,

o teu sangue o nosso sangue.»


Isabel Minhós Martins

Revista Mamute, n.º 1, segunda série, 2025 (pp. 75 e 76)

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