«A água é negra. O fundo é de lascas de xisto, lascas que não magoam os pés, pedrinhas que não chegam a ser areia grossa. A película brilhante que separa o escuro do claro faz-nos pensar em óleo espesso, mas o som é bem mais líquido e fresco, mais limpo.
A superfície
estremece ligeiramente com o movimento dos alfaiates: ao leve pousar das suas
patas, um pequeno círculo, uma bolha que não chega a ser bolha, forma-se à
volta de cada uma, e então deixamos de perceber. Porque às patas e aos seus
reflexos juntam-se os pequenos círculos e seus reflexos e a imagem
confunde-nos: não percebemos que animal é este, onde começa e acaba o seu
corpo, quantas patas tem afinal. Para nos hipnotizar ainda mais, há esse modo
extraterrestre de se deslocar, de um modo para o qual é difícil encontrar
palavras, pois, na verdade, um alfaiate não caminha, não salta, não desliza,
não voa, não nada, avança. Tem qualquer coisa de aranha, e não admira que este
movimento aranhiço sobre o fundo tão escuro do Poço Escuro cause repulsa a alguns
veraneantes menos habituados (…).
Os alfaiates
estão sossegados mas, quando mergulhamos, tudo se quebra: a água, os reflexos,
a paz dos alfaiates, o silêncio, o calor. A água é leve e fria, tão diferente
da água salgada onde também mergulhamos nas férias. É uma água sem sabor, sem
peso, sem mais nada, uma água-água, e talvez seja do frio, da escuridão ou
desta leveza, mas até parece que conseguimos atravessá-la mais depressa. Chegar
à superfície é ter a sensação de que renascemos.»
Isabel
Minhós Martins
Revista
Mamute, n.º 1, segunda série, 2025 (pp. 73 e 74)
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