Ermida de Santiago, junto à Partida
Quando
eu era criança e bebia a luz das estrelas, apontava à minha mãe uma mancha
luminosa que atravessava o céu, feita de estrelas sem fim, e ela respondia que
Deus colocara ali aquelas estrelas todas, para guiar os peregrinos a Santiago
de Compostela. Eu ficava a vê-los a caminhar, no escuro, de rosto ao céu, para
não se perderem.
O
meu amigo Carlos Matos tem vivido essa experiência, nos últimos anos, e diz-me
que é mais correto falar de rotas do que de caminhos de Santiago. Ele considera
que os caminheiros passavam por certa região, mas nem todos seguiam
rigorosamente os mesmos caminhos, dependendo das povoações, das estalagens e
das albergarias que ia havendo e que variaram ao longo dos tempos.
As
peregrinações a lugares santos tornaram-se muito frequentes na Idade Média e
terão tido o seu ponto alto, nos séculos XV e XVI, épocas em que o clima
melhorou, a população cresceu, as cidades se animaram e o comércio renasceu.
Nesta
região, passavam os peregrinos, vindos do sul, e tinham de vencer o obstáculo
da Gardunha. Penso que serão desse período a ponte sobre a Ocreza, entre
Castelo Branco e Cafede, chamada de Santiago, a capela de Santiago, à entrada
de Cafede, e a ermida de São Tiago, junto à Partida. O percurso era por Castelo
Branco, Cafede, Freixial do Campo (onde ainda havia uma estalagem, no século
XVIII), Mourelo, Partida, Paradanta, Castelejo… A travessia da Gardunha, no
Alto da Paradanta, é a mais fácil de toda a serra, pouco mais de 600 metros.
Em
São Vicente da Beira, havia uma albergaria (do Espírito Santo), já no século
XIV, e nos séculos XVII e XVIII existiam duas, a da Misericórdia e a do
convento das religiosas franciscanas. Também existia uma estalagem. Creio que,
nestes séculos, algum do movimento de peregrinos se terá deslocado para o
percurso de Cafede, Tinalhas, São Vicente da Beira e Souto da Casa. Embora o
Alto da Portela se situe a cerca de 850 metros de altitude, apenas a subida da
Senhora da Orada à Portela apresenta alguma dificuldade, com a recompensa do conforto
espiritual e material na ermida da Orada, que nesse tempo tinha um ermitão
permanente, exceto no tempo das Guerras da Restauração (1640-1668). O alpendre
abrigava quem quisesse pernoitar.
O
caminho por Castelo Branco, Alcains, Lardosa, Soalheira, Castelo Novo e
Alcongosta é o menos provável dos três, por ser muito mais difícil de fazer.
Mesmo que existissem estalagens e/ou albergarias, e haveria pelo menos em
Castelo Novo, sede de concelho, a subia à serra é ali particularmente violenta,
atingindo esta passagem mais de 1000 metros de altura, com subida muitíssimo
acentuada, no anfiteatro rochoso de Castelo Novo. Mas isso não significa, em
absoluto, que este percurso não fosse utilizado e a verdade é que a Câmara
Municipal do Fundão já o sinalizou, recentemente, a partir da Lardosa.
O GEGA tem um mapa da rede de estradas do século XIX, bastante diferente da atual rede de estradas abertas, macdamizadas e mais tarde alcatroadas, nos finais do século XIX e no século XX.
Esta é uma cópia grosseira (e muito alterada) de parte deste mapa, a da região entre Castelo Branco e a serra da Gardunha.
Os três caminhos referidos no texto estão assinalados a cores. Penso existir um erro, meu (ao fazer a cópia) ou do mapa original, pois é Alcongosta que fica do outro lado de Castelo Novo e não o Souto da Casa.
No mês de julho passado, passou por São Vicente da Beira um grupo excursionista vindo de Lisboa, pela mão da associação Aldeias Históricas de Portugal.
Coube-me mostrar-lhes a Vila e, junto a este pórtico do antigo convento das religiosas franciscanas, chamaram-me imediatamente a atenção para a vieira de Santiago, por cima do brasão franciscano, concluindo que estavam num caminho de Santiago.
José Teodoro Prata
Um comentário:
Longe dos grandes centros urbanos e da poluição, S. Vicente sempre teve o privilégio de ter um céu limpíssimo que deixa os amantes da natureza de papo para o ar. No ano passado tive a sorte de ir ao cimo da Gardunha por volta das onze da noite e achei um céu lindíssimo e uma paisagem maravilhosa.
Continuo a achar, eu que nunca fui bom a História, que perto do Zé Teodoro estamos sempre a aprender e principalmente para mim a aprender a história da nossa terra.Bem hajas Zé.
E.H.
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