A Jú Jerónimo que me
perdoe, mas não resisti a esta foto que ela publicou no facebook. O janota é o pai dela, Miguel Jerónimo, parente
materno do meu pai.
Ele morava
lá longe, do outro lado da ribeira, mas tinha uma horta na Barroca, que
delimitava por cima com o Cabeço do Pisco e é agora da neta Ana.
No tempo bom,
ele e a mulher, a ti Laurentina, passavam uma ou duas vezes por semana na
Tapada onde nasci e cresci. O ti Miguel mais sereno, a tia Laurentina mais
conversadora. Vinham sempre com um burrito, um pequeno rebanho de cabras e um
ou dois cães, desses rafeiros de porte mediano.
O ti Miguel
trazia normalmente o casaco pendurado num só ombro, o que deveras me intrigava,
pois não conhecia ninguém que o usasse assim.
Numa manhã,
passou logo cedo para cima, perguntando-nos se tínhamos encontrado um casaco
que ele perdera na véspera. Voltou pouco depois com o casaco e o cão.
Contou-nos que encontrara o casaco caído no caminho já perto da Barroca e o cão
deitado em cima dele. Ele não dera por deixar cair o casaco, mas o cão vira e
ficou a guardá-lo até o dono voltar!
Em 2016, publiquei no livro “Dos Enxidros aos Casais” uma história sobre ir ao mato para fazer as camas dos animais. A parte que se segue é dedicada ao Ti Miguel:
«O mato mais
abundante era a carqueja, mas magoava os animais, sobretudo no tempo seco,
quando está mais áspera. A cama nova da furda era nova por poucos minutos. O
porco fossava tudo e abria túneis, na sua função de porco e à procura de abrigo
das picadelas das moscas. Saía de lá todo riscado de vermelho.
Por isso íamos à carqueja debaixo dos pinheiros, onde era mais macia e mais
alta.
Os pinheiros
eram os da senhora Maria José Afonsa.
Sabíamos que lá não podíamos cortar, pois, uma vez por ano, em setembro, ela
vinha com um carro de bois e pessoal, a buscar mato para o quintal, por detrás
da sua casa no Cimo de Vila. Quem lhe guardava o mato era o ti Miguel da ti Laurentina que tinha a horta em frente, do outro lado do
barroco. Mas ele morava no Casal do Baraçal e por isso bastava pormo-nos à
escuta de sons de cabras ou chamamentos de gente.
Um dia, ele surpreendeu-nos, a mim e aos meus primos. Aproximou-se silencioso,
podão na mão e casaco pendurado num só ombro, como o trazia sempre. Dera a
volta ao barroco, por cima. Disse-nos o que já sabíamos e ofereceu-nos o seu
mato, junto ao Cabeço do Pisco, sempre que precisássemos. Mas deixou-nos levar
os molhos, porque era um homem bom.»
Nota: Há um
ditado popular africano que diz ser preciso toda uma aldeia para educar uma
criança. Este caso que aconteceu na minha infância partilha da mesma sabedoria.
O ti Miguel podia ter ralhado connosco. Em vez disso, falou-nos com toda a calma,
apenas nos pedindo que não cortássemos o mato ali, mas oferecendo-nos o seu. Se
nos tivesse ralhado, teríamos provavelmente continuado ali a cortar mato e começado
a ir ao mato dele. Assim, ficámos envergonhados e nunca mais ali voltámos, nem
fomos ao dele.
Jjosé Teodoro Prata

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