quarta-feira, 8 de julho de 2026

Entre cá e lá

         Chamo-me Isabel, tenho 87 anos e nasci em São Vicente. Naquele tempo família do meu pai era das mais ricas cá na terra, tudo à custa de muito trabalho e privações, que, da fartura que colhiam, pouco sobrava para algum mimo ou luxo para os filhos; só pensavam em aferrolhar, sempre com o sentido de acrescentar mais um bocado de terra ou uma cabeça de gado ao muito que já tinham. Os pais da minha mãe eram da Partida; pessoas com menos posses, mas alegres e amigos de se divertir. Pelo Santiago e no Entrudo era uma festa! A minha mãe herdou isso deles e eu depois saí a ela. O que eu gostava de cantar e dançar quando era cachopa nova! Mas a minha vida deu tantas voltas que, a pouco e pouco, fui perdendo a alegria que tinha:

No ano em que nasci foi quando começou a guerra; era um tempo de muita fome por todo o lado. Havia umas senhas de racionamento, e ainda me lembro de, com seis anos, vir da Partida a São Vicente buscar o bocadinho de mercearia a que tínhamos direito à loja do Manuel da Silva. Vinha descalça, e sempre deserta por chegar ao pé duma figueira que havia perto dos Pereiros, e colher dois ou três figos para matar a fome. Também me lembro de, nesse tempo, andarem na Partida umas pessoas, que diziam que eram franceses fugidos da guerra. Durante o dia andavam por lá, e as pessoas iam-lhes dando qualquer coisa para comer; à noite dormiam nuns palheiros e currais já fora da povoação.

Era ainda muito pequena quando os meus pais, por coisas lá deles, se separaram. Eu e o meu irmão ainda ficámos uns tempos com a minha mãe, mas como ela vivia com mais dificuldades o tribunal entregou-me à guarda do pai. Eu não gostava de viver com ele e, mal ele se descuidava, fugia-lhe para casa da minha mãe. Mas a maior parte das vezes, mal chegava à Partida, já o tinha à minha espera para me levar de volta para Almaceda, onde ele estava como feitor duma grande casa. Vivi assim alguns anos, com muita coisa que contar pelo meio, até que um dia o cabo de ordens foi dizer em tribunal que ele me batia, e entregaram-me à minha avó. Com estas voltas todas nem pude ir à escola, como muitas garotas da minha idade já iam, e mal sei escrever.

Estive pouco tempo com a minha avó porque me arranjaram uma casa para servir em Castelo Branco. Era uma garota, mas trabalhava que nem uma mulher feita. Ainda lá fiquei uns dois anos. Depois vim para São Vicente, para a casa do António Prata, mas ao fim dum ano adoeci e quando melhorei fui para a Covilhã, para casa duma filha do Zé Neves. Também lá estive uns dois anos e foi aí que aprendi muita coisa, mas não me deixou saudades quando abalei de lá. A patroa era uma mulher fria, sem coração. Éramos três criadas, todas a trabalhar que nem umas escravas; e os filhos também eram ruins para nós, mas ela, mesmo que os visse a tratarem-nos mal, era incapaz de lhes dizer alguma coisa. Quando lhe disse que me vinha embora meteu-se na cama durante uma semana, a fingir-se doente, mas eu não voltei atrás, apesar do senhor Doutor me ter vindo pedir desculpa. Quando voltei para a terra e ainda estive uns tempos em casa da Dona Natividade Lino. Gostava muito de lá estar e só saí quando foi para me casar. Tinha vinte anos e ainda precisei de autorização do meu pai.

Nesse tempo o meu marido já era um grande resineiro, com carta e tudo, mas trabalhava por conta doutro. Passado um ano de nos termos casado deram-lhe pinhal para tratar por conta própria, e eu comecei a trabalhar com ele. Havia muito pinheiro naquela altura. Desde o Valcovo até Tinalhas era tudo nosso, e quando o meu irmão foi para França, ainda ficámos com o que ele o trazia, em São Fiel.

Era um trabalho sujo, mas gostávamos daquela vida. Trazíamos quase sempre seis homens a trabalhar connosco; ainda me lembro do Zé Café, do Zé da Ti Eulália, do Manel Ar, do Tó Relojoeiro, do Zé Libério... e também trazíamos algumas mulheres, umas mais novas, outras já casadas: a Maria Orlanda, as filhas da senhora Leonor, a Luzia e a senhora Patrocínia. Eram quase todas aqui do Casal, que as da Vila, naquele tempo, não trabalhavam na resina. Cada homem tinha um certo número de pinheiros por conta dele. Começavam em abril a fazer a picação, punham as bicas e a loiça e deitavam um ácido na ferida, que era o que fazia sair a resina; as mulheres, de sete em sete dias, passavam a despejar as tigelas, primeiro para uns caldeiros e depois para os barris que estavam espalhados pelo pinhal, consoante o número de pinheiros. Depois os barris eram recolhidos por um ganhão e metidos numa camioneta que os levava para a fábrica da resina de Castelo Branco.

Nunca tivemos problemas com o pessoal. Eu dava-me com todos, principalmente com as raparigas mais novas, que considerava como se fossem minhas filhas ou minhas irmãs. Trabalhávamos muito mas também nos sabíamos divertir. Não faltávamos a uma excursão à Senhora das Preces, e quando era pelas Festas ou aos domingos, se sabíamos que havia baile na Vila íamos todas a dançar para a Praça. Também tínhamos um rancho aqui do Casal. Éramos nós que fazíamos os versos, ensaiávamos as danças, e fazíamos os fatos e os arcos, tudo com a ajuda do povo, sempre pronto a ajudar, fosse no que fosse. E nunca ficámos atrás dos da Vila. Tínhamos muito orgulho no nosso Casal:

 

O Casal da Fraga é tão grande

Tem oitenta moradores

Quase não se veem as casas

Está no meio das flores.

 

Ó que lindos arredores

Tem o Casal da Fraga

Dum lado tem o São José

Do outro a Santa “Barba”.

 

O meu marido era um grande resineiro. Uma vez até vieram aí uns homens a bater-nos à porta, a perguntar por ele. Queriam levá-lo para a França, para chefe de uma equipa, lá para os lados de Bordéus. Ofereciam-lhe bom dinheiro, casa com tudo, e que eu também ia, mas nem precisava de trabalhar. Mas nós não aceitámos. Tanto ele como eu dissemos logo que nunca abandonaríamos a nossa terra por nada deste mundo.

Nessa altura vivíamos bem, éramos considerados e recebíamos bom dinheiro quando era ao fim da época da resina, em novembro, e depois ainda íamos para a azeitona. Foram dez anos muito felizes. Por isso ainda hoje acho que devíamos estar doidos quando resolvemos deixar tudo e ir na conversa do João Simão, que veio de férias em agosto, e nos moeu o juízo para irmos para o pé dele: que a França era uma terra muito linda, com muito trabalho, a peia certa ao fim do mês, muitas regalias que cá não havia; só coisas boas...

O meu homem não queria ir, mas lá se resolveu, e fomos a Castelo Branco tratar dos bilhetes de identidade. Deixámos o trabalho da resina, mesmo sem receber o que nos deviam, arranjámos um passador e abalámos todos a salto: a minha mãe, o meu filho, o meu homem e eu, grávida de seis meses.

Foi uma viajem que nunca me há de esquecer. Quem era para ser o nosso passador era o Bigodes da Partida, mas teve um problema qualquer e quem acabou por nos levar foi um homem que nós não conhecíamos de lado nenhum, arranjado pelo Cagarola. Abalámos aqui do Casal na camioneta da carreira no dia oito de setembro de 1969, uma segunda-feira. O tal homem disse-nos que descêssemos no Freixial, mas a minha mãe que seguisse até Castelo Branco. Nós assim fizemos. Passado um bocado apareceu o tal homem, meteu-nos num carro, fomos buscar a minha mãe que estava à nossa espera ao pé da Sé, e levou-nos para o Fundão. Aí fomos para uma pensão onde já havia outras pessoas, todas para o mesmo. O combinado era que seguíamos viagem durante a noite, mas acabámos por dormir lá, os quatro na mesma cama, e nem podíamos sair para comprar alguma coisa para comer, com medo de ser apanhados.

Abalámos do Fundão só ao fim da manhã do outro dia, num carro que nos levou até um sítio que já devia ser perto da fronteira. Depois ainda nos fartámos de andar a pé por um caminho ruim, sempre a subir, cheios de calor, até chegarmos a um sítio que nos disseram que já era Espanha. Aí estava uma camioneta à nossa espera, já quase cheia de gente que tinha vindo de outras terras. Éramos para atravessar a Espanha durante a noite, mas, a meio do caminho, o autocarro teve um problema e fomos obrigados a dormir num sítio ermo, cada um deitado para seu lado, até arranjarem a avaria.

Ao outro dia, quando chegámos perto da fronteira da França, tivemos que descer outra vez da camioneta, atravessar a pé, e do lado de lá é que apanhámos um comboio que nos levou até Paris. Quando chegámos a Paris, eu já não me tinha em pé; tive que me deitar no chão até à chegada do comboio que nos levou até perto do destino.

O passador nunca nos abandonou, é verdade. Também não tinha outro remédio porque já sabia que só quando chegássemos à direção que levávamos num papel é que recebia o que tinha sido acordado: dezasseis contos, que tínhamos deixado ao Miguel Leitão, com ordem de só os entregar quando lhe déssemos ordem. Chegámos ao fim de quatro dias, 12 de setembro, já tão arrependida de ter saído de Portugal, que se não fosse tão longe e não estivesse no estado em que estava, tinha voltado para trás.

E as facilidades que nos tinham prometido estavam bem longe daquilo que encontrámos. A casa que o João Simão nos tinha arranjado era pouco mais que uma barraca, com uns colchões e mais umas coisitas que devia ter apanhada na poubella, mas o pior foram os problemas em arranjar os papéis para podermos começar a trabalhar. Só ao fim de quatro meses, a 12 de janeiro, é que o meu marido pôde entrar ao trabalho. O pouco dinheiro que levávamos acabou-se depressa e passámos muitas dificuldades. Nunca me hei de esquecer de um dia, perto do Natal, o meu filho ver lá um garoto a comer uma tangera, chegar ao pé de mim e dizer-me que também gostava tanto de comer uma. Ele que sempre tinha tido tudo o que queria, e naquele dia nem uma tangera lhe podia dar…

Entretanto, no dia 23 de dezembro nasceu a minha filha, em casa, ajudada só pela minha mãe, e sem nada de jeito para a agasalhar. Eu que tanto tinha desejado aquela menina e dizia para mim que havia de a criar como uma princesa. O que eu chorei de a ver assim tão pequenina e desprotegida!

Finalmente, quando começámos a trabalhar os dois, a vida melhorou. Era uma fábrica de móveis muito grande, com mais de dois mil trabalhadores, franceses, portugueses e marroquinos, onde havia sempre que fazer. Mas tivemos que trabalhar no duro e fazer muitos sacrifícios para podermos endireitar a vida, criar três filhos, e arranjar cá uma casinha, que era o sonho de todos os emigrantes. Depois da retraite ainda gozámos um bocadinho, mas já não foi a mesma coisa de como quando éramos novos.

Agora, que a minha mãe lá morreu, o meu marido também já lá está, e os meus filhos e netos têm as vidas deles, já não volto de todo para cá. Ainda gosto de vir à minha terra, mas às vezes acho que em Portugal já não me olham como portuguesa, como na França nunca me viram como francesa. É como se, entre cá e lá, já não fosse ninguém.

Já lá vão tantos anos e nunca me hei de esquecer das palavras que o meu irmão me disse um dia: «Irmã, sei que estás a pensar ir para França; podes ir, que não me vais tirar o trabalho a mim nem a ninguém, mas a felicidade que aqui tens podes crer que não a vais encontrar por lá…». Palavras tão certas!

MB Ferreira

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