quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Perdão

A idade dos avós João e Dorotheia era avançada, já pelos noventas, o corpo estava cansado, as pernas não ajudavam e a memória estava gasta. Viviam os dois na Oriana, numa casa à beira da estrada na sua propriedade agrícola que se estendia até ao ribeiro, terra fértil na agricultura e abundantes árvores de fruto, que em tempos idos de muito trabalho davam uma boa ajuda no sustento da numerosa família.

Aos fins de semana, o ponto de encontro de toda a família era na casa dos avós, onde os primos se juntavam, brincavam e percorriam toda a propriedade subindo às arvores de fruto e surripiando uma fruta aqui outra acolá, muitas vezes com a avó no seu encalço que os tentava retrair; entretanto todos em casa, a avó subia ao forro por uma escadaria larga de madeira, onde existiam arcas enormes de madeira, em que eram guardados os cereais, o azeite e a fruta que era estendida para durar se fosse possível todo o inverno e que emanava um cheiro delicioso por toda a casa. A avó apanhava a fruta para a abada do avental e voltava para junto dos netos que se regalavam com aquele miminho. (blogue Dos Enxidros – Ao Domingo)

Com o passar dos anos, a avó já vivia no mundo do passado, esquecida do presente, mas continuava fisicamente ao lado do companheiro, este também já muito cansado no corpo, mas resistindo. Valiam-lhes as filhas e noras que os iam acompanhando diariamente como podiam, até que tiveram que os amparar também durante a noite. Uma das filhas, minha mãe - também com muitas filhas a quem delegava tarefas que pudessem realizar – andava adoentada e pediu para eu ir lá dormir com a minha irmã mais nova a seguir a mim, para fazer companhia aos avós e a chamasse caso lhes acontecesse alguma coisa. Dormíamos numa cama de ferro encostada à janela, na sala cujos quartos dos avós eram contíguos a esta. Uma noite, acordo com um barulho e luz na cozinha e sento-me em pânico, pois a porta da sala estava fechada - só podia ser alguém que tivesse entrado em casa – e então oiço um arrastar de pés a dirigirem-se para a sala e a luz a entrar pelas frestas da porta e o meu coração acelerou: a porta da sala abre-se e quem entra? O meu avô, de candeeiro na mão. Mandei vir com ele porque não me chamou, que precisou de ir à cozinha e não me quis incomodar, lá voltámos todos para a cama.

Passou um tempo e um dia vi o avô no quarto muito afogueado, virava e revirava tudo à procura de alguma coisa, perguntei o que se passava, que não encontrava a carteira, eu disse que não sabia, não a tinha visto e ele muito enervado respondeu que eu devia saber muito bem onde ela estava. Fiquei pensativa, voltei a casa e contei à mãe, que ficou muito ofendida e disse: hoje não vais lá dormir. E essa noite ficaram sozinhos, imagino a preocupação da minha mãe, mas filha é filha.

No dia seguinte, pela madrugada, mal tinha nascido o dia e eu ainda na cama, no quarto ao cimo das escadas, da cabeceira via a rua, ouço vozes e aparece à entrada da porta o meu avô que subiu as escadas com dificuldade – o caminho tinha sido longo, desde a Oriana, atravessar a vila e subir a ingreme quelha até à Tapada agarrado à bengala - em direção ao meu quarto; entrou emocionado, debruçou-se sobre mim e beijou-me no rosto, virou costas e retomou o caminho de regresso: Naquele tempo era difícil mostrar os afetos e ele era um homem duro, mas honesto.

Maria Albertina Prata Teodoro

Um comentário:

José Teodoro Prata disse...

Não me lembro dessa história, mas recordo bem a preocupação da nossa mãe, por uma filha tão nova ter de a substituir numa trarefa que eventualmente poderia tornar-se complicada. Deste conta do recado e ainda ganhaste dois amigos!