Naquele tempo, por todo o lado, era uma sangria desatada de gente a abalar para França, quer fossem já homens casados ou ainda rapazes solteiros. Eu tinha dezassete anos e também quis ir.
Com
aquela idade, por causa da guerra, não me deixaram arranjar os papéis, mas não
quis saber. Pedi a um tio meu que me arranjasse uma carta de chamada para a
fábrica da Peugeot onde ele trabalhava e falei a um passador, que até ainda era
meu parente, para me levar. Era um homem que estava farto de passar gente a
salto e quase sempre tinha corrido tudo bem.
Éramos
uns poucos, cada um ia para seu lado, e tudo correu bem até um certo ponto, mas
quando chegámos à fronteira da França o passador desapareceu e nunca mais lhe
pusemos a vista em cima. Não sei se com os outros se passou o mesmo, mas eu,
com pouca experiência da vida, mas cheio de confiança, tinha caído na asneira
de lhe meter na mão os contos de réis que me pediu, ainda antes de abalar.
Quando
nos vimos sozinhos, cada um tratou de se desenrascar como pôde. Eu, sem
dinheiro para o resto da viagem e sem saber para que lado havia de ir, pus-me a
andar pela linha do comboio adiante, até que me vi dentro de um túnel muito escuro,
a que nunca mais se via o fundo. Caminhei muito tempo, às escuras, sem saber
onde iria ter. Passado um bom bocado comecei a ouvir um barulho, cada vez mais
perto, e umas luzes a alumiar cada vez mais; pensei que era o meu fim. Tirei a
mochila que levava às costas, agarrei-a com os dois braços bem apertados à
frente do peito e colei-me à parede do túnel, os olhos fechados com toda a
força, à espera nem sei de quê.
Durante
um bocado nem senti nada, e quando percebi que estava vivo nem queria acreditar
que era eu. Daí a pouco é que comecei a sentir uma coisa a escorrer-me pelo
braço, mas como não me doía nada, nem fiz caso e continuei a andar, com as
pernas ainda a tremer. Quando saí do túnel fazia uma lua como se fosse dia, e
vi que tinha o braço direito a escorrer sangue. Ainda hoje cá tenho a marca,
aqui, no cotovelo.
Era
um sítio ermo e senti-me completamente perdido, sem saber se havia de andar
para a frente ou voltar para trás. Nisto, vejo uma luz lá ao longe. Ainda
pensei se havia de ir ou não pedir ajuda, mas resolvi-me e caminhei até lá. Foi
a minha sorte. Era uma casita pequena (depois soube que era onde morava o
guarda da passagem de nível com a mulher e um filho), bati à porta e, mesmo não
nos entendendo uns aos outros, assim que viram o estado em que estava, perceberam
logo o que se passava. Deram-me alguma coisa de comer e ao fim dum pouco só percebi
eles dizerem “police”: que iam chamar a polícia.
Não
tardou muito, apareceu um carro; era uma 4L cor de café com leite, com dois
polícias lá dentro. Não sei o que disseram entre eles, mas a mim levaram-me para
o hospital duma cidade que, fiquei depois a saber, se chamava Saint-Jean-de-Luz.
Não me levantarem problema nenhum. A única coisa que fizeram foi ficar-me com a
mochila. Tive tanta sorte que no mesmo quarto onde me puseram, estava também internado
um português que trabalhava na construção duma ponte e tinha tido um acidente. Foi
o que me valeu para me fazer entender. Contei-lhe o que me tinha acontecido e,
passado um pouco, parecia que já éramos conhecidos desde há muito tempo. Até os
portugueses, amigos dele, que o iam visitar, se puseram logo à disposição para
o que fosse preciso.
Ao
fim duma semana apareceram outra vez os polícias no hospital. Levaram-me a
mochila com as minhas coisas e disseram-me que estava tudo bem e podia seguir
viagem. Ainda fiquei quase uma semana em casa desse português, e, tanto ele
como a mulher trataram-me como se fosse da família. Entretanto escrevi ao meu
tio a contar o que se tinha passado e a pedir que me mandasse algum dinheiro
para poder chegar até à casa dele. Assim que recebi o dinheiro quis pagar
alguma coisa àquela gente, mas não me quiseram nada. Foram comigo à estação,
ajudaram-me a comprar o bilhete e ficaram à espera até verem o comboio
desaparecer ao longe. Gente boa!
Quando
Cheguei a Paris, era uma gare tão grande, com tantas linhas, que não sabia para
onde me virar. Andei ali perdido mais que tempos até que resolvi pegar no papel
que levava com a direção do meu tio e dirigir-me a um guichet. Tive tanta sorte
que a pessoa que estava a atender era uma mulher, também portuguesa. Fez-me ali
logo um desenho com as indicações todas do comboio que tinha que apanhar, a
hora, a linha, tudo. Foi como se Deus me tivesse ali aparecido.
De
Paris a Sochaux ainda foram umas boas horas, que a França é muito grande,
sempre de noite. Quando cheguei ao destino estava à espera de ver o meu tio,
mas por mais que olhasse não via nenhuma cara conhecida. De repente sinto uma
mão a bater-me nas costas: era uma mulher que me perguntou se era português.
Disse que sim. «E está à procura de quem?» «Dum tio meu que ficou de estar à
minha espera, mas não o vejo.» «Então anda comigo, que o teu tio não pôde vir,
que está a trabalhar. Eu sou a mulher dele. Vamos para casa que deves estar precisado
de comer alguma coisa».
Ainda hoje, quando penso naquela viagem, me vêm as lágrimas aos olhos: pelo muito que passei; sobretudo por ter encontrado gente tão boa por todo o lado.
MLFerreira
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