Foto tirada da página do facebook da Nelita Rodrigues. Fotografada no Café da Tomázia, propriedade dos pais da Nelita.
Quem são eles?
José Teodoro Prata
Enxidros era a antiga designação do espaço baldio da encosta da Gardunha acima da vila de São Vicente da Beira. A viver aqui ou lá longe, todos continuamos presos a este chão pelo cordão umbilical. Dos Enxidros é um espaço de divulgação das coisas da nossa freguesia. Visitem-nos e enviem a vossa colaboração para teodoroprata@gmail.com
Foto tirada da página do facebook da Nelita Rodrigues. Fotografada no Café da Tomázia, propriedade dos pais da Nelita.
Quem são eles?
José Teodoro Prata
António Lopes Pires Nunes solicitou a Joaquim Batista a
publicação, no Facebook, deste texto e fotos alusivas à Comemoração dos 1700
anos do Martírio de S. Vicente, ocorrida em S. Vicente da Beira (concelho de
Castelo Branco)
«Em 23 de Janeiro do 2005, ocorreram em S. Vicente da Beira
as Comemorações dos 1700 anos do Martírio de S. Vicente.
Da “Pequena Lisboa” chegou-me um convite para elaborar um
pequeno livro evocativo, que aceitei muito honrado. Naturalmente coube-me a sua
apresentação marcada para um domingo na Igreja Matriz, durante a Missa.
Não esperava uma apresentação tão solene. Chamado que fui ao
púlpito pelo saudoso Revº. Padre Branco, tive que improvisar a palestra pois o
local exigia mais do que eu levava preparado. Como se sabe S. Vicente foi
pregado numa cruz em aspa (em forma de X), também conhecida por Cruz de S.
André, onde foi atado, enquanto era raspado com uma gadanha.
Passada a surpresa e como levava escritas as palavras do
carrasco “(…). Que é que dizes Vicente. Onde é que imaginavas ver o teu corpo
já digno de dó (…)” e a resposta de Vicente, já movido pela força divina “… foi
isto que eu sempre escolhi e desejei, acima de todas as ambições”. Eis que já
me encaminho para o alto, e, superior às ambições deste mundo, desprezo os teus
próprios princípios”.
Com estas palavras na mão e com o que sabia da morte de
Cristo, foi-me fácil, passada a surpresa improvisar. Devo tê-lo feito bem pois
o Padre Branco, paramentado, chegou-se ao microfone e disse: “ Hoje a homília
está feita pelo Ten. Coronel Pires Nunes”.
Não sei se isto é canónico, se é usual e se há mais gente que
já fez uma homília na Santa Missa, mas a verdade é que o facto marcou-me.
Segundo a lenda o corpo do Santo, encontrado no Cabo S.
Vicente, foi levado para Lisboa numa barca com dois corvos, um na popa e outro
na proa, depositado na desaparecida Igreja de Santa Justa e fez de S. Vicente o
Padroeiro da cidade. De acordo com o cronista Duarte Galvão, em 25 ou 26 de
Setembro de 1173, ocorreu a transladação para a Sé de Lisboa, onde se encontra.
Nesse dia estavam em Lisboa acidentalmente os habitantes de
uma nascente povoação da Beira que a ofereceram ao Rei Conquistador, no âmbito
da Reconquista. Este, sensibilizado deu o nome a essa povoação de S. Vicente e
entregou-lhe parte do corpo do Santo.
Assim, nasce S. Vicente da Beira, com as mesmas armas de
Lisboa – a barca e os corvos -, razão do vicentino Hipólito Raposo a denominar
de “ Pequena Lisboa”.»
Na sequência dos comentários à publicação anterior, a Libânia pediu-me a publicação deste vídeo:
https://youtu.be/mTXRXddDuvY?si=5b8C2RIsY8Dv5A13
José Teodoro Prata
Da esquerda para a direita: todo Nacional / Concelho CB / Freguesia São Vicente. Dia 8 de fevereiro há mais.
António Seguro: 31,11 / 38,49 / 36,93
André Ventura: 23,52 / 25,18 / 26,14
Cotrim de Figueiredo: 16,00 / 12,81 / 5,49
Gouveia e Melo: 12,32 / 11,77 / 15,53
Marques Mendes: 11,30 / 7,69 / 12,50
José Teodoro Prata
Foto tirada da página facebook de Maria de Lurdes Hortas. A foto data do ano em que a mãe completou 60 anos. O marido foi o Hortas da farmácia da Rua do Beco.
Dizem que as folhas de dente-de-leão são comestíveis, mas
nunca provei. Aliás, há uma infinidade de plantas comestíveis que não comemos.
Um dia, vi um programa na TV em que a guia disse aos participantes, ao entrarem
num campo verde: Cuidado, estão a pisar o supermercado!
Quando era criança, por este tempo e por toda a primavera, a
minha mãe mandava-me com uma cesta e uma faca procurar dentes-de-leão para dar
ao porco. Acabei de ver na net um saco de folhas secas de dente-de-leão, de
200g, para infusão, à venda por 10,06 euros!
Mas voltando às plantas comestíveis que não consumimos. Cerca
de 1970, o meu pai, emigrado em França, a trabalhar numa oficina de pedra numa
região campestre dos arredores de Limoges, chegou com a novidade de se poder
comer meruje. Ora disso tínhamos nós muito, no ribeiro e nos lameiros das
Lajes. Comemos nesse inverno (nesse tempo, os emigrantes vinham a casa no
inverno), mas não vingou. Também foi ele que nos deu a conhecer o alho-porro
e o hábito se o comer, em vários pratos.
José Teodoro Prata
UMA PASSAGEM DE ANO NO SÉCULO PASSADO
Maria de Lourdes Hortas
Enquanto as lembranças do Natal da infância permanecem bem
acesas na minha memória, as do Ano Novo escondem-se, quase insignificantes. A
meia-noite era tarde demais para meninas ficarem acordadas e justamente nessa
hora o Ano Velho se despedia, partindo, sabe-se lá para onde, e logo chegava o
outro, bem novinho, e na minha imaginação de menina podia ver o velhinho curvo
subindo a serra, resfolegando, e o ano bebezinho envolto em cueiros despencando
do céu...
Na verdade, só me lembro da última passagem de ano da minha
família na casa da rua do Convento.
Foi a de 1949 para 1950.
Naquela noite de 31 de dezembro, a seguir ao jantar, minha
avó e as meninas que trabalhavam lá em casa começaram um grande rebuliço para
os lados da cozinha, azáfama e barulheira, a tirar as tampas das panelas e
levá-las todas para uma pequena mesa da sala de estar, ritual aparentemente
inexplicável, mas que depois se veio a saber para o que seria...
Houve a seguir um arrastar de cadeiras, na mesma salinha,
todas a postos para subirmos nelas, dizia a organizadora, que era Vovó
Guilhermina, sempre ela, comandando as festas. Eu não tirava os olhos do
relógio, que caminhava em passinhos de tartaruga. Ansiosa, alguma coisa se
mexia na minha barriga, acho que fome: - Vovó posso comer um bolo? Espera,
querida, deixa vir o ano novo e então comemos... posso jurar que, na mesa
recém-posta, havia bolo de azeite, cavacas e biscoitos e talvez uma bandeja de
filhoses do Natal, além de tacinhas com figos secos e nozes, uma garrafa de
vinho do Porto, as chávenas, depois viria o chá, mas o bendito relógio não
avançava, passos de preguiça, onze e meia, sem pressa, onze e trinta e cinco,
sonolento, pé-ante-pé, dez para a meia-noite...
Frio... A braseira já esmorecendo...alguém a atiçava. Tinham
que estar bem vivas as brasas para o ano novinho se aquecer... e eu já me
encostava no colo do meu pai, cochilando, enquanto Maninha desabava na grande
cadeira de braços... isso sou eu que estou inventando, para matar o tempo e
para trazer para aqui aquela cadeira tão linda, tenho uma foto de menina
sentada nela, a cadeira que vovô Mateus fez...
Então despertei!
E agora sim, vai chegando a meia-noite minha gente, clamava
Vovó, rápido, todos a postos, menos de cinco minutos...descoberto o mistério
das tampas das panelas, cada um pegava duas, subia na sua cadeira e à
meia-noite em ponto todos bateriam com força, para enxotar o ano velho... Subia-se
para as cadeiras para o ano velho passar debaixo, arrastado, ou de gatas, não
sei...
Mas então Vovó Guilhermina viu que uma das cadeiras estava
vazia. Era a do Vovô Mateus! Ó homem de Deus, onde é que tu te meteste? Onde
foste, criatura? Alguém falou que o viu entrar na casa de banho...
O quê?
Todos riam e gritavam:
- Vovô! Vovô!.
- Senhor Mateus!
- Meu pai!
- Meu sogro!
- Ó homem, onde te meteste?
Mas ele saiu a tempo, serelépido: Psiu! Tenham calma, falta
um minuto!
E logo agarrou os últimos testos, assim se chamam as tampas
das panelas em Portugal, e todos começaram na grande barulheira, pandemónio na
verdade, para enxotar o ano velho e acordar o novo, trás, trás, trás, trás...
E assim entrou 1950. Para todos nós um ano de grandes
mudanças.
(in AS CASAS DO DESTINO, memórias. A publicar, em breve)
Notas:
Texto retirado da página do facebook da autora.
Para os mais jovens, informo que Maria de Lourdes Hortas é uma poetisa brasileira, nascida em São Vicente da Beria, filha do dono da farmácia da época, então situada na Rua do Beco, à direita de quem desce. A família habitava na rua do Convento, na casa em frente à do João Craveiro, onde durante perto de dois séculos viveu a família Pereira. A pequena Lourdes tinha 10 anos quando emigrou para o Brasil, com a família.
José Teodoro Prata
Parece-me que a Câmara respondeu corretamente ao abandono da atitude de guerrilha constante, por parte do Sempre. Bem precisamos que as coisas melhorem!
José Teodoro Prata
A Câmara Municipal de Castelo
Branco procedeu à realização de obras de reabilitação numa parte do edifício da antiga
Escola Primária de São Vicente da Beira - atualmente utilizada pela Associação
de Caça e Pesca ‘O Pisco’ - com o objetivo de melhorar as condições de
conforto, funcionalidade e segurança do espaço.
A empreitada, que rondou os 41.600€ (quarenta e um mil e seiscentos euros),
incidiu, essencialmente, na reabilitação da zona do alpendre e na substituição
da caixilharia existente.
As soluções implementadas foram equacionadas com o intuito de melhorar as
condições de utilização do edifício, criando uma área mais resguardada e
contribuindo para a valorização e preservação deste equipamento comunitário.
No âmbito da intervenção, procedeu-se ao fecho dos vãos na zona do alpendre, com recurso a nova caixilharia, bem como à construção de uma cobertura que permite a circulação de pessoas entre edifícios.
Para a concretização da obra, foi necessária a construção de paredes em
alvenaria de tijolo, com acabamento em reboco areado fino e pintura na cor
branca, tendo sido criados novos vãos de porta e de janela.
Foi
igualmente executada uma estrutura de suporte para a colocação da cobertura,
revestida com telha idêntica à existente, permitindo o encerramento do espaço e
garantindo maior comodidade para os utentes da Associação.
No
que respeita à eficiência e conforto térmico, procedeu-se à substituição da
caixilharia antiga por uma mais recente, resultando num ganho significativo ao
nível do isolamento e do bem-estar no interior do edifício.
Complementarmente,
foram realizados trabalhos de pintura em vários elementos que necessitavam de
pequenas reparações, tanto no interior como no exterior do imóvel.
Declaração prévia: não pertenço a nenhum
grupo e ignoro se me costumam encaixar nalgum!
Esta obra da Câmara mereceu comentários
positivos no Facebook, a par das seguintes críticas:
- Os almoços da Associação podiam ser
realizados na Casa do Povo.
- Só se reabilitou o lado da Caça,
continuando o da Pesca muito degradado, precisamente onde se fazem análises,
que funciona como sede dos Bombeiros e ali decorrem algumas aulas da Universidade
Sénior.
- A Biblioteca Hipólito Raposo é gelada
no inverno e infiltra-se água pelas janelas.
- O ginásio e o parque infantil da Escola
Primária estão degradados.
Estive de “férias” das redes sociais,
mas, embora longe, de vez em quando refletia sobre a nossa realidade local.
Regressado, achei logo que esta polémica encaixa nas minhas reflexões, como uma
luva.
Infelizmente, penso que voltarei ao
assunto no futuro, mas agora só quero deixar o seguinte comentário: A nossa
freguesia anda um pouco à deriva, sem rei nem roque, como diz o provérbio. Cada
um puxa para seu lado, sem haver um planeamento de conjunto, que encontre
consensos e defina prioridades. A culpa é só nossa, dos vicentinos. Se não nos
entendemos, como queremos que os de fora nos entendam?
Nota: Não sou assim tão pessimista como o parágrafo acima pode fazer crer: nas outras terras é igual. Mas acho que estamos a passar um pouco das marcas...
José Teodoro Prata
Há poucos dias que nos deixou e já sentimos saudades dessa grande gargalhada!
Escrevo-lhe
porque sei que acreditava ir para um lugar melhor do que este em que nos
deixou. Já desconfiava dessa fé desde que demos a volta pelas terras do antigo
concelho de São Vicente: sempre que entrava numa igreja, ajoelhava-se junto ao
altar e orava. E disse-mo no penúltimo encontro anual em que participei, no
Tortosendo. O Zé Augusto relembrou-o agora, na missa que celebrou em sua
homenagem. Não a minha história, mas uma outra, uma conversa que teve com o
Ernesto Hipólito, quando em maio se veio despedir da nossa Orada:
- Se este
sítio é tão bonito, imagina como será o céu!
A propósito,
o Zé Augusto fez uma prática muito bonita na sua missa. Terá sentido orgulho ao
ouvi-lo!
Mas voltando
ao princípio. Escrevo-lhe porque sinto o peso da responsabilidade de lhe ter
faltado com um pedido que nos fez, a mim e outros que o acompanharam da Igreja
para a Casa do Povo, na festa da sua boda de ouro sacerdotal. Ao toque das
concertinas minhotas do António Madeira e pela concertina beirã do Costinha,
confessou-nos que o som da concertina era a música da sua meninice e que queria
ser acompanhado por concertinas, quando morresse.
- Eu espero
o tempo que for preciso para reunir os tocadores!
Como o Mário
de Sá-Carneiro?:
Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!
Mas o que
iam pensar de nós, os seus amigos e os seus familiares? Mesmo sabendo que
acreditava ir para um lugar melhor, eu nem tive coragem de partilhar o seu
desejo. Desculpe-me esta cobardia. E depois havia toda a logística, toda a
burocracia…
Deixou-nos
numa época terrível, em que a sua alegria, a sua cidadania e o seu humanismo
tanta falta fazem ao mundo. Mas deixou-nos o seu exemplo, assim saibamos nós
honrar a sua memória! E já que acredita, vá-nos dando umas dicas, quando achar
necessário, pelas formas que melhor entender. Até um dia!
José Teodoro Prata
Pe. José Hipólito Jerónimo, 07.12.1937-19.12.2025
Cerimónia fúnebre, na Igreja de São Vicente da Beira, às 15 horas de amanhã, dia 20 de dezembro.
Quando era miúdo, fui com o meu pai ao lagar do Major. Trabalhava lá o tio Joaquim Pique, que logo foi ao cabaz da merenda e cortou uma fatia de pão de uma regueifa que lá tinha. Torrou-a nas brasas da lareira, mergulhou-a num bidon cheio de azeite e entregou-ma. Lambuzei-me por dentro e por fora. É das melhores recordações da mimha infância.
O meu pai tinha um ritual que nunca falhava: logo que o azeite novo entrasse em casa, mandava torrar pão e sentávamo-nos à mesa a comê-lo regado com azeite. Era a prova.
Hoje repeti o ritual e fiquei consolado!
José Teodoro PrataJosé Teodoro Prata
No passado era o nosso local principal de comércio. Ainda hoje alguns chegam a tirar o dia para irem ao mercado do Fundão!
A foto é de Raquel Soeiro de Brito, uma geógrafa que completa hoje 100 anos e ainda não se sente velha!
José Teodoro PrataJosé Teodoro Prata
Há dias, publiquei o seguinrte texto a acompanhar este cartaz:
A acústica da Casa do Povo é péssima e por isso não serve para eventos musicais. No ano passado, aquando do espetáculo do orfeão de Castelo Branco, um dos cantores manifestava-me o seu desagrado pela qualidade do som da sua atuação, atribuindo-a erradamente à aparelhagem sonora.
Penso que nessa altura me disseram que o espetáculo não fora na Igreja Matriz, porque a comissão fabriqueira pedia 600 euros pela sua utilização (não tenho a certeza se foi para esse espetáculo ou se para outro anterior, talvez o do Concerto de Natal de 2023 ou 2024).
Entendamo-nos: a única coisa que está aqui em causa é a quantidade de dinheiro. Penso que nos devemos habituar a pagar as despesas dos atos que praticamos, mas 600 euros eram muito mais do dobro do que se precisava para pagar a uma mulher de limpeza e a eletricidade gasta (num mês, pela Igreja).
É bom recordar que as obras que se têm realizado na Igreja Matriz têm sido pagas com o dinheiro dos nossos impostos, via órgãos autárquicos, pois as contribuições da comunidade de católicos praticantes, os utentes da Igreja, serão manifestamente reduzidas para as despesas quotidianas. Por isso, em parte compreendo a exigência da comissão fabriqueira.
Terá de se encontrar um equilíbrio entre as necesidades da Igreja e as da nossa Comunidade! Continuar neste limbo é negativo para todos.
Hoje encontrei o Pe. José Manuel, que me deu os seguintes esclarecimentos:
Já conhecia este boato de a Igreja exigir dinheiro à banda pelo concerto de Natal, até com valores diferentes.
A verdade é que a Igreja não exigiu dinheiro nenhum à banda. O que o Pe. José Manuel disse ao Daniel foi que qualquer banda precisa de uma licença da diocese para participar em atos religiosos ou atuar nos templos religiosos, licença que custa 30 euros.
A Igreja paga à banda 150 euros por cada participação em procissões. No último concerto da banda na Igreja, a banda não pagou nada, mas a igreja ficou muito suja de lenços de papel e garrafas de água no chão, limpeza que a Igreja teve de fazer por sua conta.
Nota pessoal: Que raio de história! Entendam-se, por favor!
José Teodoro Prata
Deparei-me com este ninho no Ribeiro Dom Bento, na passada quinta-feira. Pouco antes, passara lá quase rente. Não sei há quanto tempo lá está. Foram hoje matar as vespas, mas disseram ao meu cunhado Cassiano que este é um ninho secundário e o principal estará perto. Estou lixado. Tenho de o procurar.
José Teodoro Prata
Nunca tive medo de ninguém, muito menos daquela mulher que via passar às vezes, rua abaixo, com a bacia da roupa ou o molho de caruma à cabeça. Bem me dizia a minha mãe que me metesse para dentro por causa do mau-olhado, muito menos que lhe comesse alguma coisa das mãos dela, que podia morrer. Mas eu não fazia caso.
Um dia de manhã, ia eu para a escola,
e estava ela a apular água com um cântaro na Fonte da Mesarela (ainda
hoje lá está essa fonte).
- Bom dia, Ti Mari do Cu!
Fiquei orgulhosa porque era isto que
os meus pais me ensinavam: dar a salvação a toda a gente.
Nisto vejo-a vir atrás de mim com um pau na mão:
- Anda cá, minha lareta, que já te digo quem é a Mari do Cu.
Não percebi bem aquela reação, mas corri
tanto que só parei na ribeira.
À tarde, quando cheguei a casa, contei
à minha mãe o que me tinha acontecido; ela ainda disse que era bem feita,
porque se lhe tivesse dado ouvidos, nada disso acontecia.
Nunca mais!
Doutra vez o meu pai foi com ela e com
o homem à feira do Fundão. Cada um lá fez o que tinha a fazer e, já no fim, ela
não terá achado bem algum negócio que o homem fez e zangou-se. Desapareceu do
pé de nós mal o diabo esfrega um olho. Ainda andámos por ali a ver se a víamos,
mas nada. E metemos também ao caminho, que se fazia tarde.
Então não é que quando chegámos ao Casal
(da Fraga) ela já cá estava há que tempos?! Diz o homem que até já tinha
acomodado a criação e posto a panela ao lume para cozer as couves para a ceia.
Ninguém queria crer: só mesmo coisa do
diabo com quem andaria feita, de certezinha!
Doutra vez, uns anos mais tarde, vinha
eu da escola e, para encurtar caminho, subi pela vereda que vai da sobreira até
quase ao cimo da rua de Santa Bárbara. Naquele tempo havia ali umas casas de
pedra baixinhas, com balcão: por baixo a loja, onde os animais dormiam; por
cima um espaço onde as pessoas viviam o pouco tempo que passavam em casa,
principalmente durante o verão.
Um dia ouço uns gemidos aflitos vindos
de dentro de uma das casas. Subi as escadas do balcão e, a um canto, vi uma
pessoa muito velha, deitada no chão, em cima duma enxerga, tapada com pouco
mais que farrapos. Tentei ajeitar-lhe a roupa, mas, nuns restos de pudor, a mulher
agarrou-a o mais que pôde, mas consegui ver que, vestido, nem uma combinação.
Passei por lá várias vezes para lhe fazer
um bocadinho de companhia e levar qualquer coisa que ele pudesse comer: uma
laranja ou o pão com queijo flamengo que nos davam na cantina. O que pudesse
dar-lhe algum consolo. Mas um dia tive um desgosto: quando lá cheguei, a “cama”
estava vazia.
Só passados alguns dias contei em casa
o que se tinha passado. A minha família levou as mãos à cabeça, imaginando o
que me poderia ter acontecido. É que a velha era a Ti Mari do Cu, a bruxa tão
temida, por toda a gente.
Por estas e por outras é que nunca
acreditei nestas coisas!
MLFerreira