Naqueles dias…
Depois da fracassada revolução republicana do Porto de
1891, um grupo de estudantes da universidade de Coimbra, alguns anos mais tarde,
organiza uma sociedade secreta. Tinham como objetivo o derrube da monarquia.
Estávamos no fatídico ano de 1895 (extinção do
concelho de São Vicente da Beira).
O ultimato inglês gerou uma onda de descontentamento
nacional, nascia assim uma férrea vontade de destruir o regime monárquico
Os “conspiradores” reuniam-se em Lisboa nos
subterrâneos de uma casa.
Peripécias
atrás de … nasceu a Carbonária Lusitana chefiada pelo jornalista José Nunes. Outras
apareceram como a Carbonária dos Anarquistas…
À medida que o tempo passava, os frutos maceravam
lentamente, a chama da implantação republicana não esmorecia e assim, no dia 1
de Fevereiro do ano 1908, o rei Dom Carlos e sua família atravessavam num landau
o Terreiro do Paço, vindos do paço ducal de Vila Viçosa, e aconteceu o
regicídio.
Na história da monarquia portuguesa nunca tal tinha
acontecido. O monarca é assassinado e o seu filho primogénito Dom Luís Filipe morre
também. Dom Manuel escapa, assim como sua mãe rainha Dona Amélia,
Dom Manuel II, sem grande experiência governativa,
ainda aguentou o leme dois anos até que, no dia 5 de Outubro de 1910, se dá a
queda da realeza em Portugal. O rei é desterrado, é implantada a república
Como relataram dois jornalistas espanhóis, Augusto
Vivero e Antonio de la Villa, que acompanharam os revoltosos: “la revoluciôn
más hermosa que registra la Historia”.
Industria,
comércio, agricultura, nada… Um povo de analfabetos; pobres, muitos; nobres,
bastantes. Só muda a primeira letra. Estradas, poucas e abandonadas, os bufos
eram aos montões…
Ao contrário de Abril, onde o povo anónimo saiu à rua
em massa, no 5 de Outubro, os entrincheirados
na Rotunda não eram muitos, mesmo poucos havia algo que os norteava, a fé em
dias melhores.
João Franco era o ministro todo-poderoso do monarca
Dom Carlos, o povo detestava o rei. Os aditamentos à casa real… Hoje são
licenciaturas atribuídas sabe Deus como.
João Franco, com o parlamento fechado, publica um
decreto (30 Agosto 1907) que liquida as dívidas do rei e aumenta-lhe a sua
lista civil. Dom Carlos, que um dia chamou piolheira à sua nação, não teve pejo
em assinar essa medida, talvez tenha sido a causa principal da sua morte.
(Pesquisa: História Contemporânea de Portugal. Amigos do Livro, editores)
Adiante. A república triunfou, o rico lavrador de
Alpiarça José Relvas proclama do alto da varanda da câmara municipal lisboeta o
triunfo dos republicanos comandados por Machado dos Santos. Dom Manuel II e sua
família embarcam na Ericeira rumo ao exílio.
O povo, com rei ou sem rei, amocha carregadinho de
impostos. Os talassas, vira casacas, adesivos, passaram para o lado dos
vencedores. Ontem como hoje…
Deixemos a História e vamos ao tema que me fez
escrever tudo isto.
Naquele tempo, o pobre povo viu acender-se uma luzinha
ao fundo do túnel, os conservadores não desarmavam, no mundo rural os caciques seguidores
do miguelismo imperavam.
Nas revoluções
há os que ganham e os que não ganham, os simpatizantes e os não simpatizantes
da nova ordem.
Silvares era uma aldeia pacata encravada nas faldas da
Estrela, terra pobre, atravessada pelo Zêzere, nas suas margens havia bons
nateiros onde se criavam milheirais e outros mimos, muitos trabalhavam nas
minas, o povo crente enchia a igreja para assistir aos ofícios divinos, o
pároco nesse tempo chamava-se José Lopes da Assunção, natural de São Vicente da
Beira.
Homem possante, corajoso, alto e forte, amiudadamente
frequentava uma taberna onde cavaqueava e bebia um copo ou dois de vinho. Num
canto sentado num banco corrido encontrava-se um aldeão simpatizante da causa
republicana.
A revolução estava fresca, padre Lopes, monárquico, não
comungava os ideais liberais republicanos. Certo dia, entrou na baiuca,
aproximou-se do balcão e entabulou conversa com o dono do estabelecimento.
Com um grão na asa, o aldeão grita bem alto:
- “Viva a República”. Padre Lopes voltou-se para ele,
fuzilando-o com os olhos e nada mais fez.
No dia seguinte, a história repetiu-se, engoliu em
seco e saiu.
Passaram alguns dias; o padre entra novamente na
taberna, sentado no banco corrido, o mesmo personagem:
- “Viva a
República”.
O senhor prior aproxima-se, segura-o pelas golas do
casaco, levanta-o no ar ergueu-o batendo-lhe com a cabeça “três vezes” nos
caibros enegrecidos pelo tempo. Quando o largou, de frente para ele, disse:
-
Diz lá outa vez “Viva a República”.
O aldeão levantou-se meio cambaleante e saiu. Nunca
mais o desafiou.
O
padre Lopes viveu os últimos anos na vila, a sua casa situa-se na Rua da Cruz.
Faleceu no dia 14 de Março do ano 1964, com 79 anos.
O povo de Silvares deslocou-se em peso a São Vicente
da Beira, para assistir ao seu funeral, durante alguns anos vinham em romagem
visitar sua campa.
Os
que bebem para falar, por vezes apanham para se calarem.
J.M.S