domingo, 4 de junho de 2017

Boletim agrícola, junho de 2017


Cabras
Esta cabrada é a do Luís Prata filho.  
A novidade em relação à minha última notícia sobre rebanhos de cabras é que este já aproveita o leite, em termos comerciais. 
De 3 em 3 dias, vem um camião-cisterna da serra da Estrela (Seia ou Gouveia?),
 buscar o leite deste e de outros rebanhos de cabras da zona.


Javalis
São coisa que não falta por aqui. Andam escondidos, mas adivinham-se pelos estragos. 
Esta era uma cerejeira enxertada que daria os primeiro frutos no próximo ano. 
Mesmo sem frutos... mas eles são brutos!



Cerejas
Este ano o tempo foi melhor e o frio do início da primavera apenas impediu uma minoria de dar frutos: algumas cerejeiras e ameixeiras.
É novamente um bom ano para as peras, mas no ano passado os javalis patiram-me as pereiras todas, à procura dos frutos ainda verdes. O resto irá este ano.
Há amendoeiras carregadas!


Pesticidas
Não mos vendem, nem tenho tempo para tirar um curso de 30 horas; por outro lado, já sei o suficiente para não os querer usar.
Tenho andado a testar este pesticida biológico. Experimentei nas tânjaras, no outono, e agora nas cerejas. 
Está aprovado. Não mata tudo, mas também eu escapo!
Cada frasco custa perto de 5 euros. Os outros custam isso ou menos, mas dão para muito mais. Em resumo: já gastei cerca de 20 euros nas cerejas e dos outros teria gasto 5 euros.
Mas vale a pena, nem que custasse o dobro...

Entretanto, devido aos pesticidas e aos adubos químicos, a água da rede de Castelo Branco está condenada. 
A margem esquerda da Ocreza e da barragem de Santa Águeda, entre o Louriçal e a Lardosa, está a ser aproveitada intensamente e com sucesso, para a plantação de pomar de regadio. 
E os peixes começaram a morrer na albufeira. Os homens morrerão mais lentamente, sem se saber porquê.
Se o mesmo acontecer do nosso lado, entre a Oles e a Póvoa, então é o fim.
Criou-se uma plataforma de defesa da barragem, com várias organizações, entre as quais o GEGA. 
A nossa junta de freguesia também está envolvida indiretamente, pois é autoridade na parte de cima da barragem, margem direita.
Aguardemos, mas os organismos do Estado não estão a fazer nada e se calhar pouco podem fazer. 
A lei só condiciona a atividade humana nos terrenos situados dentro dos 500 metros contados a partir da água. Mas até aí a lei tem sido violada, impunenmente. 
(Ver artigos do Costa Alves, no jonal Reconquista).
Estou pessimista. Depois da ameaça constante da Central Nuclear de Almaraz, com mais de duas centenas de acidentes por ano, só nos faltava esta!


José Teodoro Prata

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Acusação: judaísmo

Nome: Joana Henriques

Estatuto social: cristã-nova 

Idade: 17 anos 

Crime/Acusação: judaísmo 

Naturalidade: São Vicente da Beira, bispado da Guarda 

Morada: São Vicente da Beira, bispado da Guarda 

Pai: Antão Vaz Ribeiro, sapateiro 

Mãe: Isabel Ferreira 

Estado civil: solteira 

Data da apresentação: 02/11/1707 

Sentença: auto-da-fé de 06/11/1707. Confisco de bens, abjuração em forma, cárcere a arbítrio, penitências espirituais.


Jaime Gama

domingo, 28 de maio de 2017

Romaria à Senhora da Orada


Prometia ser um rico dia de chuva, mas só caíram uns barrufos, durante a noite.
Na curva da estrada, os feirantes.


Os bombos que ouvia enquanto me aproximava da capela.


Na fonte, as filas do costume, para refrescar o corpo e o espírito.


A procissão já terminara. Havia mais dois cestos como este.


O GEGA animou a festa com uma exposição de fotografias de romarias passadas, 
algumas há uns bons anos.


A Senhora, linda como sempre!

José Teodoro Prata

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Ex votos

Todos nós somos de uma maneira ou outra, religiosos. Mais não seja crermos na ciência humana. Os partidários do agnosticismo não crêem naquilo que não vêm, o intangível. Apesar de aparentemente não acreditarem na existência de um Ser criador de todas as coisas, crêem na ciência. São Tomé só acreditou quando viu o Mestre.
         Ao contrário dos agnósticos, os ateus não seguem qualquer religião; para eles, Deus não existe, em contrapartida, há os que acreditam numa divindade.
Católicos, muçulmanos, judeus, adoram um Deus único. “Latria”. Há povos que aceitam vários deuses.
Os católicos muitas vezes “negoceiam” com a divindade oferecendo contrapartidas pela graça recebida; podem ser velas, dinheiro, ex votos…
Quem numa hora difícil nunca pronunciou a palavra Deus? Valha-me Deus, Deus nos valha, Deus nos acuda…
A igreja da Misericórdia, dedicada ao Senhor Santo Cristo, guarda umas largas dezenas de ex votos, formas de agradecimento por graças alcançadas. Nela figuram dois belos quadros: um oferecido pelo visconde de Tinalhas e o outro pela família Robles Monteiro.
A maioria representa órgãos do corpo humano feitos em cera: braços, pernas, corações… Cada figuração representa a cura daquele órgão figurado.
Também se encontram figurações humanas completas, representam crianças que foram curadas dos seus males. A criança manifesta a dor através do choro, mas não consegue dizer qual o órgão afectado, então os progenitores oferecem à divindade uma figura humana.
Seja na igreja do Senhor Santo Cristo ou no santuário da Senhora da Orada, todos os objectos ex votos estão dependurados nos locais mais nobres do templo.
Na igreja da Misericórdia existe um divisa militar oferta de alguém que foi para a guerra e voltou são e salvo. Também se exibe um grande cirio.
Esta fé em algo que nos transcende já acontecia nos santuários da antiga Grécia. Os nossos reis, em alturas de aflição, agradeciam a Deus, através da construção de grandes monumentos: Real Convento de Mafra, Mosteiro da Batalha… No nosso tempo, ainda há muitos crentes que continuam a oferecer à divindade da sua devoção peças votivas.
Em Santuários como Fátima, Aires, Senhora da Póvoa, existem expostos em lugar apropriado peças de roupa, fotografias, ourivesaria e todo o género de recordações.
         Nos grandes ou pequenos santuários, como da Senhora da Orada, em dias de romaria, os crentes exibem velas acesas como agradecimento. Não se perpetuam no tempo. Enquanto dura a cerimónia, a súplica, o pedido ou o agradecimento pela graça recebida, as velas alumiam, é a forma de pagamento pela graça que a divindade concedeu.
Tudo isto está enraizado nos cultos de raiz popular.    
O Homem, ser finito, pelas suas fragilidades e dores, é limitado. Por isso tem necessidade de recorrer à acção benevolente dos santos, eles são os mediadores entre Deus e o Homem. Estas situações acontecem quase sempre quando a esperança na ciência se esgotou, voltando-se a pessoa para o além, para conseguir o milagre, por intercessão do santo a que se recorre.
A principal razão da existência dos ex votos é a gratidão pela graça concedida, mas para isso o pedido tem que ser acompanhado de muita fé. Porque a fé, nas obras se vê.

J.M.S





M. L. Ferreira

domingo, 21 de maio de 2017

Béjar

Na passada quinta-feira, fui de visita de estudo a Espanha. A manhã foi passada em Moraleja, num intercâmbio escolar, e depois rumámos a Salamanca. Logo a seguir a Plasencia, surgiu-me aquela que eu conhecia apenas dos registos paroquiais: Béjar. Ao contar a história da vinda dos antepassados do Robles Monteiro para a Covilhã, esqueci-me de fotografar, mas esta é a paisagem vista da autoestrada.



O percurso aqui marcado passa na fronteira de Marvão (Galegos), mas nós (SVB) atravessaríamos nas Termas de Monfortinho e dali diretos a Plasencia. É perto.
Béjar é uma cidade de montanha. Ainda havia neve, não tanta como na foto. A abundância de água e de gado ovino fizeram surgir uma forte indústria de lanifícios, daí a contratação do João António Robles (roble é carvalho, em castelhano) para vir ensinar os operários portugueses, no tempo do Marquês de Pombal.
O meu colega, professor de Espanhol, contou-me que ali se situa a praça de touros mais antiga de Espanha, ainda de planta retangular. A meia encosta, existe uma aldeia de montanha com uma arquitetura tradicional, muito bonita (vê-se da autoestrada). Anualmente, realiza-se em Béjar um importante festival de blues.


Este registo refere o batismo de Josefa, nascida a 28.10.1812, filha de Bernardo Ribeiro Robles, da Covilhã, e Antónia Raimunda Ribeira, de São Vicente da Beira, neta paterna de João António Robles e Belchior Gomes, naturais de Béjar, Espanha, e neta materna de José Custódio Ribeiro, de SVB, e Maria Hipólita Cassiana, de Zalamea, Espanha.
Acima referi que este Robles e a sua esposa eram os antepassados do Robles Monteiro. Mas sê-lo-ão também de pessoas ainda a viver em São Vicente.

José Teodoro Prata

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Aos domingos

O domingo era o dia do descanso das lides do campo e da confraternização com a família. Era sobretudo religioso: ir à missa era um compromisso a que ninguém se atrevia a faltar. Envergava-se o melhor fato. As mulheres cobriam a cabeça com um véu arrendado. A igreja enchia-se: os homens ao fundo, no coro e nos camarins, as mulheres nos bancos e à frente as crianças, nos primeiros bancos e nos degraus de madeira dos altares, sob o olhar vigilante das catequistas, a Menina Amélia, a Menina Graça a tia Estela Passaraça e a Menina Maria de Jesus. As meninas ficavam todas juntas, com os seus vestidinhos engomados e com o lencinho de assoar bordado, preso na mão. A missa demorava, algumas pessoas adormeciam, no abandono do corpo enfim repousado e aconchegado pelo calor e pelo já longo sermão, previamente elaborado, do pároco.
À saída da missa todas as pessoas se concentravam em redor da igreja, agrupando-se para cumprimentar os familiares e para por a conversa em dia. Lembro-me de ser muito pequena e olhar em redor e ver um mar de saias compridas e já não saber qual era a da minha mãe. Cumprimentavam-se os familiares, reviam-se tios e tias, avós e netos, recebiam-se carinhos e palavras calorosas. Os homens dirigiam-se para a taberna, com os filhos ainda rapazitos a reboque e confraternizavam, acompanhados de um copito de vinho, onde por vezes se perdiam, até tarde.
No muro da praça, alguns agricultores vendiam fruta da época. A mãe comprava-nos um dióspiro ou uma romã a cada um que sabiam a pouco e nos ajudava à subida da quelha, no regresso a casa. E no tempo das melancias, era com cada uma, enormes, vermelhinhas e suculentas. Estas, era o pai que as comprava e carregava ao ombro, quelha acima.
Da parte da tarde, por vezes, íamos visitar os avós maternos à Oriana. Fazenda enorme soalheira e fértil situada na parte sul da vila. A casa ficava situada mesmo junto à estrada nova, pelas traseiras e a frente virada para sul, com uma varanda corrida de madeiras cruzadas em losangos, entrelaçadas por trepadeiras, cravos e cravinas bem cheirosas. As flores preenchiam também parte dos muros que dividiam os leirões e que em certas alturas do ano se enchiam de cores.
Juntávamo-nos aos tios e tias, que ficavam a conversar, enquanto os miúdos se entretinham nas brincadeiras. Às tantas, o avô João Prata pedia à avó para ir ao forro buscar fruta para dar aos netos. A avó Doroteia subia os degraus largos de madeira da escadaria que levava ao forro. Lá em cima no soalho, estendiam-se as maçãs sobre a palha que assim se conservavam nos meses de inverno. Encostadas à parede, arcas enormes de madeira onde eram guardados os cereais. Ao lado, as bilhas de zinco com o azeite. Então a avó descia a escada com uma abada de fruta e distribuía pelos pequenos. Mas estes, rebeldes e ainda insatisfeitos, corriam pelos leirões abaixo que se estendiam desde a casa até ao ribeiro, férteis, salpicados de cores, transformados em pomares onde as laranjeiras, carregadinhas de laranjas, abundavam.
No lameiro, altos arbustos em flor, como o noveleiro, carapeteiro e roseiras, ladeavam a represa que ligava o ribeiro ao tanque a transbordar de água límpida, para a rega. Era ali também que as mulheres da casa lavavam a roupa, por vezes na companhia de amigas mais próximas, tempo também aproveitado para conviverem e trocarem confidências.
Os pequenos assaltavam as laranjeiras e tiravam a barriga de misérias e iam atirando algumas aos mais pequenos, que ficavam em baixo, à espera. A avó Doroteia perseguia-os, gritava com eles e punha-os em fuga.
A avó era uma mulher que vivia no seu mundo silencioso, habituada ao trabalho e à obediência ao marido. O avô era um homem inteligente e trabalhador, mas firme no carácter. Deu o seu melhor aos filhos, trabalho e também a educação possível para a época e permitiu-lhes crescer trabalhando no amanho das terras, que eram o sustento da família, ou aprendendo um ofício.
Noutros domingos íamos visitar os avós paternos, no Casal da Fraga: o avô Francisco e a avó Maria do Rosário. Eram pessoas humildes e com um enorme coração. Havia sempre uma fatia de pão com queijo fresco para os netinhos.
Em cada família das tias do Casal e na nossa, havia um domingo por ano que era o dia da matação. Toda a família se juntava: logo de manhã, os homens chegavam para matar e pendurar o porco, mais tarde chegavam as mulheres que, após um farto almoço com toda a família, iam lavar as tripas ao ribeiro, cortar as carnes, temperá-las e tratar dos enchidos. Após uns dias era ver o fumeiro junto ao tecto da cozinha por cima da lareira, com as morcelas, as chouriças, os chouriços e as farinheiras, que emanavam um cheirinho de fazer crescer água na boca.
Também havia o domingo de Páscoa, da Ressurreição. As famílias limpavam cuidadosamente as casas e enfeitavam-nas com flores. O padre Branco com as suas vestes brancas levava a água benta. O Sacristão, o sr. António Maria, com a sua batina vermelha, levava a Cruz de Cristo, toda enfeitada com flores. Os donos da casa mais os familiares próximos faziam um círculo à volta da sala e era-lhes dado o Cristo a beijar. A casa era abençoada pelo Padre, com a água benta. Os pequenos corriam de casa em casa a beijar Nosso Senhor e iam comendo e enchendo os bolsos com os doces e tremoços, que cobriam as mesas.
E no domingo da Senhora da Orada? Era uma alegria. Na véspera tratava-se da merenda, onde não faltava o frango frito e os ovos verdes. Na manhã de domingo, todas as veredas, caminhos e estradas, desde São Vicente e povoações dos arredores, se enchiam de peregrinos, carregados com as cestas do almoço, na mão ou à cabeça, cantarolando, em direcção à ermida. Ao aproximarem-se, já se ouvia o padre e os fiéis a rezarem o terço. Toda a zona envolvente se enchia de barraquinhas, onde se vendiam guloseimas e brinquedos para regalo da pequenada. As mães não podiam deixar de comprar aos pequenos a Nossa Senhora de Açúcar, que era pendurada ao pescoço por uma fita e depois comida no regresso a casa. As pessoas enchiam o terreiro da capela, para ouvir a missa, sob a sombra das grandes amoreiras, no chão, um tapete de flores branquinhas. A seguir à procissão, as famílias procuravam-se e juntavam-se para almoçar: estendia-se uma manta de trapos no chão, à sombra de pinheiros ou amieiros, no meio de mato florido ou relva, o barulho da água a cantarolar no ribeiro e dos passarinhos a cantar. Por cima estendia-se a toalha, onde se colocava a merenda. As famílias sentavam-se em redor, comia-se com vontade e convivia-se.
Quando já era mais crescida, nos domingos à tarde e com a difícil e conseguida permissão dos pais e com a promessa de regressar antes de se fazer noite, ia sair com as minhas amigas. As conversas aconteciam na Praça, na Fonte Velha e por vezes no café da beira da estrada, onde bebíamos uma coca-cola, uma Pepsi ou uma Seven-Up, acompanhada com um prato de amendoins. Quantos namoros começaram assim!
Dávamos passeios na estrada nova, por vezes com alguns rapazes no encalço, uns metros atrás. Mandavam olhares comprometedores e piropos. Havia risos entre os grupos, por vezes trocistas. Nas árvores da estrada eram gravados nomes, corações, juras de amor.
Sentávamo-nos na Praça e jogávamos ao anel e ao lenço, com os rapazes. Era o ponto de partida para uma aproximação entre rapazes e raparigas.
À tardinha quase ao por do sol com o tempo bom, havia baile na Praça, no cantinho, ao pé do café da tia Janja. O César montava a aparelhagem que ligava ao café e punha o funil na árvore do canto da Praça que se enchia com músicas e alegria.
As raparigas sentavam-se de um lado e os rapazes do outro, dançávamos Rock and Roll em grupo, slows e corridinhos. Quando a música era para dançar a dois, os rapazes faziam sinal à rapariga ao longe, ou iam busca-la, se se sentissem seguros. Dançáva-se ao som dos ABBA e outras músicas então em voga. Era então o tempo do despertar de novas emoções, de incendiar as paixões, dos encontros e desencontros.
Quando estava muito frio e chuva, o baile fazia-se num salão ao pé da capela de São Sebastião. Este era também utilizado para teatro e projecção de filmes, o cinema ambulante. As bancadas eram feitas com tábuas de madeira corridas, o filme era projectado num grande papel branco ou um pano a cobrir o palco. Lembro-me do filme que me impressionou e vi naquela sala: O Tubarão. Uma delícia e uma saudade enorme daqueles domingos.


Tina Teodoro