terça-feira, 12 de maio de 2026

Enxabarda 3

«Como a chave estava sempre na porta, primos e vizinhos entravam pela casa adentro sem aviso e, se isso acontecia por volta do meio-dia, viam-nos passar ainda despenteadas, de pijama. Tantas horas de sono eram consideradas ali um costume exótico, um capricho que os outros tinham dificuldade em compreender. O sono era um tempo roubado as horas de trabalho à fresca, um desperdício (…).

(…) Havia esse pormenor de a chave estar na porta todo o dia. A primeira pessoa a acordar, normalmente a minha avó, colocava-a na fechadura do lado de fora; a última a deitar-se fazia o inverso. A chave só era retirada quando íamos à cidade mais próxima ou quando, por exemplo, decidíamos ir passar o dia à serra. Penso que não o fazíamos com medo de que a casa fosse assaltada, mas mais como um aviso, um sinal que dizia a quem passava: se a chave não está na porta é porque não está ninguém em casa. A bem dizer, a chave era sempre colocada debaixo do tapete da entrada, portanto, se fosse necessário, era possível entrar.

A casa da minha avó fica no largo da igreja e as pessoas entravam muito: antes da missa, depois da missa, a caminho das hortas ou quando iam aviar-se à loja que ficava mesmo em frente à nossa porta.»

Isabel Minhós Martins

Revista Mamute, n.º 1, segunda série, 2025 (pp. 69 e 70)

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