«Como a chave estava sempre na porta, primos e vizinhos
entravam pela casa adentro sem aviso e, se isso acontecia por volta do
meio-dia, viam-nos passar ainda despenteadas, de pijama. Tantas horas de sono
eram consideradas ali um costume exótico, um capricho que os outros tinham
dificuldade em compreender. O sono era um tempo roubado as horas de trabalho à
fresca, um desperdício (…).
(…) Havia esse pormenor de a chave estar na porta todo o dia.
A primeira pessoa a acordar, normalmente a minha avó, colocava-a na fechadura
do lado de fora; a última a deitar-se fazia o inverso. A chave só era retirada
quando íamos à cidade mais próxima ou quando, por exemplo, decidíamos ir passar
o dia à serra. Penso que não o fazíamos com medo de que a casa fosse assaltada,
mas mais como um aviso, um sinal que dizia a quem passava: se a chave não está
na porta é porque não está ninguém em casa. A bem dizer, a chave era sempre
colocada debaixo do tapete da entrada, portanto, se fosse necessário, era
possível entrar.
A casa da minha avó fica no largo da igreja e as pessoas
entravam muito: antes da missa, depois da missa, a caminho das hortas ou quando
iam aviar-se à loja que ficava mesmo em frente à nossa porta.»
Isabel Minhós Martins
Revista Mamute, n.º 1, segunda série, 2025 (pp. 69 e 70)
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