segunda-feira, 29 de junho de 2015

A Feira Medieval


 







 Ana Isabel Jerónimo

sexta-feira, 26 de junho de 2015

O linguarejar dos nossos avós


O nevoeiro cobria intensamente toda a vila, não estava capaz de se fazer fosse o que fosse, o fumo saia pelo telhado (telha vã).
Encostado à parede no lado direito da lareira um banco corrido, (era o banco do avô e do pai).
Os filhos ocupavam o resto do lar. A mãe quase não tinha tempo de se sentar, os afazeres domésticos estavam em primeiro lugar. A boxa era grande, boa lenha.
Fetxa a porta que vem frio. Mal mandado, metes a minha alma no inferno.
Ó mãe, ca grande garrôcha.
Mata-a. Onde é que tu vais ó homem.
Vou buscar um molho de chamiços.
Com um tempo destes! Só se está bem ao lume, está tudo encaramelado.
Vou botar a vianda ao bacorinho. Bebe o café, estás um melias.
A rebera leva tanta áugua, vai de mar a monte, já cobre as passadoras, a inverna tem sido grande, as terras estão encharcadas, as oliveiras de varredouro, se assim continua o tempo, apodrece a azeitona.
...Ontem caiu uma grande borrega na barroca, tenho que dizer ao capa burros que a vá levantar assim que o tempo melhorar.
Parece que estão a bater à porta, vai ver quem é.
É o Tota; entra ó Tonho, senta-te, queres comer alguma coisa?
O senhor Manel da Silva disse se podes ir à escola tirar umas chincas, chove lá como na rua.
Com um tempo destes não posso andar em cima do telhado.
Maria, vai buscar azete ao pote, onde rai se meteu... já foi pá  boa vai ela...
Onde é que andaste, com um tempo destes sua correona, toda a manhã a aboiar, a correr o ganau é para o que tens porte.
Ó mãe, deixe lá, estou cá com uma feneda.
Não sejas trogalha, és uma correona, metes a minha alma no inferno.
Ó mãe...
Cala-te, levas uma spapada. Vai ao scorero, traz uma chouriça que a havemos de assar, abre o arcaz e tira um queijo.
...Onde é que andaste?
Estive à porta da taberna do senhor João Côxo, a ver os homens a jogar ao noxo.
Não te quero lá; ó Maria, passou agora por mim o tonho dias racha, levava uma recheca.
Conchega o lume, que se apaga; a chouriça já está assada, quem é que quer a ourela!
Ontem alguns cachopos foram à marova, o dono viu, levaram uma incorredela.
Não têm nada que mexer no que não lhes pertence.

J.M.S

terça-feira, 23 de junho de 2015

A Feira


Ana Isabel Jerónimo

sábado, 20 de junho de 2015

Misericórdia



Ficava que tempos à varanda da sua casa, com o corpo colado ao gradeamento de ferro, a olhar os que subiam e desciam a rua, a toda a hora.
Não se esquecia das horas, porque elas badalavam-lhes aos ouvidos ao ritmo certeiro do relógio da torre da igreja. Mas era como se se esquecesse. Queria era que o tempo passasse, farto daquela casa, daquela rua, da sua terra.
Os pais tinham partido cedo e ele nunca chegara a casar. Por isso vivia sozinho na casa herdada e as fazendas fora-as passando a patacos, para a bucha de cada dia, mais roupas novas e umas botas, uma vez por ano.
A Câmara bem o ameaçava por via das contribuições da casa, atrasadas há que tempos, mas tomara ele umas moedas para encher a barriga com coisa que se visse. Já mal se lembrava do que era o mimo de uma febrinha de borrego, nas Festas de Verão. Valia-lhe alguma alma caridosa que lhe levava umas filhós ou uns docitos, no Natal e pela Páscoa.
Nunca gostara dos trabalhos do campo ou dos outros para que o pai o desafiava. Depois de ele fechar os olhos, ainda a mãe o ralou por uns tempos, mas também ela se foi e ficou sem ninguém que o chateasse. Vendidas as terras, já só lhe restava aquele teto que o abrigava do frio e da chuva, mas onde passava fome de cão. Por isso estava farto daquela casa deserta e daquele povo avarento.
Um dia de manhã, vestiu-se, fez a dejejua com o que havia, desceu as escadas, rodou a chave na fechadura da porta da rua e guardou-a no bolso. Depois desceu a rua, mais a outra rua, molhou a boca na fonte e não parou, sempre em frente, de cabeça baixa, macambúzio, como quem está de mal com o mundo.
Ficou por fora largo tempo, comendo o que lhe davam e dormindo onde calhava. Às vezes conseguia trato melhorado, porque fazia das tripas coração e por breves momentos arregaçava as mangas e era trabalhador. Noutras encontrava qualquer alma cristã que não media um homem pelo produto do seu trabalho.
Em certo tempo, a volta que deu levou-o às terras vizinhas de São Vicente, nem ele soube porquê. E deu por si a matar a sede na fonte e depois a subir as ruas e a rodar novamente a chave na fechadura da porta da sua casa. Subiu as escadas, abriu as portadas das janelas e da varanda, mas só encontrou a solidão que deixara ao partir. Atirou-se para cima da cama e deixou-se adormecer.
Acordou com pancadas na porta, já o sol entrava pela varanda. Espreitou lá de cima e inquietou-se com o chamamento da autoridade. Desceu as escadas e abriu a porta. Deram-lhe voz de prisão e só teve tempo de dar a volta à chave. Desceu as ruas que subira horas antes e depois seguiu para a praça, sempre atrás do oficial de justiça, escoltado por dois homens. Subiu o balcão da Câmara e na sala do tribunal o juiz mandou-o encarcerar, pelas contribuições em falta. Aparvalhado, arengou que não tinha posses, mas o juiz fez ouvidos de mercador e mandou-o entregar ao carcereiro.
Levaram-no para o balcão, mas entrou logo por outra porta. Depois abriram um alçapão e mandaram-no descer por uma escada como as da azeitona. Já no fundo, fecharam o alçapão e ficou no escuro, até que os olhos se foram habituando à pouca luz que escoava por uma fisga da parede. Ficou longo tempo de pé, depois acocorou-se a um canto, até que as pernas o obrigaram a sentar-se no chão térreo e frio.
Esqueceram-se dele naquela enxovia imunda. O único momento de vida era quando, em cada dia, se abria o alçapão e lhe gritavam para vir buscar a gamela. Depois, voltava a desesperança.
Um dia mandaram-no subir. O carcereiro ajudou-o a lavar-se e deu-lhe um jeito nas roupas. Depois levaram-no para o tribunal. Ouviu o que diziam dele: muitas dívidas, tantas que o valor da sua casa não chegava para as pagar. Que voltasse para a prisão, mas agora na praça, à vista do povo, para exemplo de todos.
Mas atiraram-no de novo para a enxovia. Afinal não era na praça, pensou, onde teria melhor ar, mais distrações. Mas, dias depois, o seu desejo realizou-se. Vieram buscá-lo e desceu as escadas do balcão. Virou à esquerda e estugou o passado, quase paralisado, com o que viu em frente à porta da sacristia da Misericórdia. Os guardas empurraram-no pelas costas, depois agarraram-no pelos braços, mas ele resistia, chorava, gritava. De nada valeu. Abriram a porta da gaiola de varas e atiraram-no para dentro. Depois fecharam-na com uma corrente, a cadeado.
Deixou-se ficar prostrado no pó do terreiro. Os transeuntes olhavam-no com olhar triste e temeroso, mas não paravam. Ele continuava estendido no chão, meio inconsciente, em estado de choque. Passaram horas, dias e noites e ele só recebia a visita do carcereiro, uma vez por dia, para lhe levar um caldo aguado com um naco de centeio. Depois alguns populares começaram a aproximar-se da gaiola, numa mistura de curiosidade e solidariedade. E uma mulher aparecia às vezes, escondida no xaile e no escuro da noite, a levar-lhe qualquer coisita para comer.
E assim se passou do tempo quente para o tempo frio. As chuvadas de outubro encharcavam-no e por vezes ficava repassado toda a noite, a tremer de frio. A tosse era cada vez mais funda, mas as autoridades passavam indiferentes aos seus pedidos de misericórdia. Começou a tremer mesmo quando estava enxuto e não fazia frio. Ficava tempos infinitos estendido no chão, às vezes em lama, sem saber muito bem se a sonhar ou acordado. E desesperançado, deixou-se acabar, sem um ai.

José Teodoro Prata


Nota:
Um dia, o João Paulino deu-me a ler a fotocópia de uma página de jornal,  com a história de um caso judicial passado em São Vicente da Beira, nos finais do século XIX. O autor era alguém da família Neto.
Contava o caso de um  homem condenado em tribunal, por dívidas ao Estado, a ficar preso na Praça, numa gaiola de paus, para exemplo dos demais.
A segunda metade do século XIX foi a da implementação do liberalismo em Portugal, o qual, embora defensor da liberdade e da igualdade, nem sempre cumpriu a fraternidade, submisso ao seu senhor mais poderoso: o dinheiro.  
Estava em construção a sociedade atual.
Tentei por vários meios conhecer mais a fundo esta história: procurei-a no jornal Reconquista, mandei recado a um antigo aluno descendente dos Neto e  tentei consultar o processo judicial, no Arquivo Distrital de Castelo Branco.  
Tudo em vão. O Arquivo Distrital não tem uma listagem sumariada dos processos judiciais e por isso só podem ser consultados por quem saiba exatamente ao que vai: nomes, datas, locais...
Mas a história nunca me saiu da cabeça e tentei agora reconstituí-la.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Benzedeiras, curandeiras e defumadoras



O mundo do sobrenatural sempre acompanhou o homem. Tudo era mistério: trovões, escuridão, sol... O mundo tinha forças obscuras que eram
respeitadas, temidas.
No Império Romano com a conversão de Constantino ao Cristianismo, o
paganismo foi substituído, mas nunca se conseguiram apagar os
ritos pagãos. A grande maioria da população, nomeadamente europeia, permanecia muito ligada aos deuses antigos.
Alguns desses deuses eram representados com cornos, símbolos da
fertilidade, outras vezes rabos e patas de animais que representavam a caça (Pã...).
À medida que o Catolicismo ia crescendo, os chefes cristãos foram
transformando as festividades pagãs: o nascimento do deus sol deu origem ao natal cristão; a festa de samhaim que recordava os mortos, passou a ser o dia de finados...
Mas muitos sacerdotes dos antigos cultos mantiveram-se fiéis aos seus
deuses e passaram a chamar-se bruxos e bruxas.
No tempo da Inquisição, milhares dessas pessoas foram queimadas vivas
ou enforcadas. Nesses tempos, segundo a Igreja, a bruxaria estava conotada com satanás a adoração a Satanás. Tudo aquilo que acontecia de mal ao homem era resultado  das bruxarias, por isso tinham que ser exterminadas, queimadas.
As bruxas eram más, dançavam em clareiras (Cruz da Oles, Fonte da
Portela, encruzilhadas...) durante a noite. O mafarrico era a personagem central. Eram mulheres jovens, belas, invejadas. Estas práticas foram passando de familiares para familiares (benzedeiras, curandeiras, parteiras...).
A palavra pagão vem do latim pagini ou paganos, que quer dizer terra
ou habitante local, camponês. Eram pessoas que viviam no campo, seres inferiores em relação aos da cidade, Os moradores das cidades viam neles pessoas rudes, fortes, arroteadoras de terras, como sendo gente má. Para os urbanos, esses seres barbudos, com rituais estranhos, esquisitos, tinham contactos com o chifrudo.
A mulher não era digna de pensar, quando pensava, era só no mal.
Velhas que vivessem sozinhas, rodeadas de animais, nomeadamente gatos, eram feiticeiras (os gatos estavam associados às bruxarias).
Sendo assim, essas mulheres velhas, feias, narigudas, mal-encaradas, comiam criancinhas, (as mães quando queriam assustar os filhos diziam:
- Se não te portares bem, se não comeres a sopa toda, vem a bruxa má e leva-te!
A sabedoria pagã era passada oralmente entre pessoas da mesma família
ou entre vizinhos. Há por aí benzedeiras(os), curandeiras(os) e defumadoras(os) com suas rezas e práticas ancestrais que continuam uma tradição com origem na Pré-História.
Uma senhora da vila contou-me o seguinte:
«Era o mês de Setembro, anos sessenta do passado século, segunda-feira,
dia do Senhor Santo Cristo, praça repleta. O arraial animado, no coreto
a banda tocava mais uma marcha ao comando da batuta do mestre Joaquim
dos Santos, a quermesse estava rodeada de gente ávida para comprar uma
garrafa de vinho licoroso (lágrima de Cristo, Porto...).
Um casal divertia-se, junto deles os filhos, em casa, no berço ficou a
cria mais pequenina, (seis mesinhos apenas). Disse a mulher para o marido:
- Vou a nossa casa ver como está a menina, volto já.
Não moravam longe da praça. Meteu a chave na fechadura da porta, mas não abriu, empurrou...
- Foram aqueles malandros que meteram canas de foguetes atrás da porta e não abre. Damonhos!
Meteu a mão numa fisga e lá conseguiu abrir a porta. Ao fundo das escadas, estava a menina deitada. Ficou petrificada. Como foi possível? Só podia ser obra de alguma bruxa!
Ao lado encontrava-se a furda do porco. Se ele abrisse a cravelha com
fazia às vezes...
Como se demorava, foram ver o que se passava. Ficaram todos espantados.»
A bruxa só podia ter entrado pelo buraco da fechadura, disse-me ela
com convicção e certeza. (Essa menina é a senhora que me contou este
episódio que se passou nos meados dos anos sessenta, tinha seis meses).
A avó desta senhora tinha uma porca que andava prenha. Um dado dia, os
porquinhos nasceram. Entretanto, encontrou uma vizinha que tinha fama
de bruxa. Mesmo assim disse-lhe.
- Ó Maria, hás de ir à minha casa ver uns porquinhos tão lindos que lá tenho.
- Não vou...
Ela insistiu e a vizinha foi.
- Tens uns lindos animais!
Os bacorinhos a partir dessa altura começaram a definhar, deixaram de mamar. Sabem qual foi o resultado? Morreram todos.»

J.M.S.