domingo, 23 de julho de 2017

O lobisomem da Partida

Bem a avisaram que não casasse com ele, que havia ali coisa do diabo. Mas, já diziam os antigos, o amor é cego e ela não acreditava numa palavra do que ouvia. Onde lhe punham defeitos, ela só via qualidades: bom rapaz, trabalhador, não faltava ao respeito a ninguém. Ainda por cima bem parecido e com alguma coisa de seu. E casaram.

Apesar de não lhe terem agoirado nada de bom, era feliz e achava-se uma mulher com sorte. Cumpridor de todos os deveres conjugais assumidos no dia do casamento, o homem estimava-a, enchia-lhe a casa de tudo quanto era bom que trazia da horta e depressa a encheu também de filhos. Que mais podia ela querer?

Às vezes ainda se ria das más-línguas que lhe quiseram estragar o namoro e, mesmo já depois de casada, continuavam a encher-lhe a cabeça com patranhas: que era ele, transformado em lobo, que atacava os homens e animais que apareciam mordidos ou mortos em certos dias da semana; ou então, feito cavalo, andava por lá à solta em noites de lua cheia, atormentando quem se demorava nas hortas ou tinha que madrugar. Mas ela não dava ouvidos a ninguém, que havia muita gente assim, sem escrúpulos, capaz de dar cabo duma casa por tudo e por nada. Tudo invejas!

Nem mesmo quando ele se lhe escapava da cama, julgando-a a dormir, e voltava de madrugada, tão cansado que ela lhe ouvia o bater do coração, desconfiava de nada. Ficava numa inquietação, mas encontrava sempre uma explicação para aquelas saídas noturnas: ou era a presa que tinha que ser despejada; alguma vaca que estaria para parir ou uma encomenda de lenha de última hora. Confiava nele e não fazia perguntas. Já lhe bondava a lida da casa e os filhos, sempre tão asseados que era um regalo olhar para eles.

Uma vez, era inverno, e até parece que tinha parido a galega no forno da Barroca. Não que nos outros dias a forneira tivesse uma hora de descanso, que naquele tempo as casas estavam cheias de filhos e às vezes um tabuleiro de pão por semana não chegava para acalmar a fome a tanta boca. Mas naquele dia foi uma coisa por demais. De tal maneira que a vez dela ficou para tão tarde que já era noite alta quando o pão lhe saiu do forno e pôde voltar para casa. O que vale é que a lua estava tão grande que alumiava como se fosse dia.

Começou a subir a rua, com o tabuleiro à cabeça, e nisto ouviu um barulho que até parecia um tremor de terra; primeiro ao longe, depois cada vez mais perto, até que sentiu que estava mesmo encostadinho a ela. Só teve tempo de se atirar para a valeta para não ser levada à frente do que quer que aquilo fosse. Viu então que era um cavalo enorme que abrandou junto a ela, lhe abocanhou um bocado do xaile e continuou a galopar rua fora.

Um pouco mais acima era a casa de um dos cunhados, irmão do homem. Também deve ter ouvido o galope do cavalo e, mais que sabia ele do que se tratava, saiu da cama a correr e galgou as escadas até à loja das vacas que era mesmo por baixo da casa. Pegou no agulhão e espetou com ele no lombo do cavalo que se transformou logo ali no homem que era.

Quando a mulher chegou a casa, toda a tremer, encontrou o homem sentado ao cimo das escadas, a arfar, e ainda a tirar restos das franjas do xaile da boca. Nem quis crer no que os olhos dela estavam a ver, mas foi aí que o homem lhe confessou o mal que o atormentava desde novo e que tinha sido a ferroada do agulhão que o tinha feito perder a perneta.

M. L. Ferreira

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Comunidade

Um dia, o Pe. Jerónimo confidenciou-me que tem uma enorme admiração pelos autarcas, de qualquer partido. Todos se entregam à comunidade que os elegeu, sacrificando as suas vidas a troco de nada, pois o subsídio que recebem muitas vezes nem dá para as despesas.
Estou de acordo com ele e por isso ando há que tempos para tratar o tema de hoje.
A “feira medieval” que marcou o fim do mandato da anterior equipa da Junta de Freguesia foi uma excelente festa (não gosto de feiras medievais, mas adoro as reconstituições históricas, tão ao gosto dos nórdicos), mas teve aspetos deploráveis. Houve momentos em que o jovem casal que dramatizou a animação quase caiu em desespero, tal era o alheamento de tanta gente, para não dizer recusa ostensiva em colaborar. Acho que pouquíssimas pessoas se aperceberam disto, mas vim de lá envergonhado e por isso enviei uma mensagem ao jovem casal a pedir desculpas.
Rei morto, rei posto. Ainda não havia rei posto, mas o antigo rei pouco mais tempo estaria no poder. Depois, não sei como se fez a transição do poder velho para o novo, mas desconfio que sem grandes proximidades.
Já me esquecera daquele episódio, mas infelizmente recordei-o neste janeiro, aquando da passagem do testemunho na Misericórdia, entre a antiga mesa e a eleita. Não estive presente, mas senti que os velhos não apareceram, porque já não era nada com eles, e os novos não terão sentido a sua falta.
Sei que os processos eleitorais têm a sua dinâmica própria, às vezes necessariamente injusta para algumas pessoas. Mas penso que, à parte disso, devemos valorizar tanto os que saem como os que entram e o momento da passagem do testemunho devia ser de grande confraternização e partilhas.
É uma questão de civismo. Vai sendo tempo de sermos uma comunidade madura!

Notas:
- Genericamente, as outras terras não são melhores que nós, temos algumas próximas bem piores, mas com os defeitos dos outros posso eu bem!
- Durante séculos, até há poucas dezenas de anos, os nossos poderes estiveram sempre nas mãos de uma pequena elite, marginalizando completamente a esmagadora maioria da população, que aliás estava demasiado ocupada com a sobrevivência, com o pão de cada dia. Por isso temos andado a aprender, é natural. Mas talvez seja chegado o tempo de dar o passo seguinte!
- Querem um exemplo de são convívio? No início do verão passado, um grupo de vicentinos promoveu uma ação de protesto contra a não limpeza das valetas da nossa estrada. Num domingo de manhã, juntaram-se e foram limpar eles as valetas. Quem me contou, disse-me que era um grupo de pessoas que queria concorrer à Junta de Freguesia contra a atual equipa. Estavam no seu direito e louvo a iniciativa.
Mais tarde, soube que o José Duarte (Zé Pasteleiro) ofereceu o almoço a todos, na Senhora da Orada. Embora possamos considerar este ato como um enorme furo político (ele é membro da atual junta), tenho a certeza de que nele esta fraternidade foi genuína.

José Teodoro Prata

Nada se perde...


José Teodoro Prata

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Comentários novos

Há novidades em "O primeiro Moreira?".

José Teodoro Prata

A nossa vida

(…) Sendo assim, vou continuar com os meus escritos para ir enchendo papel, o papel só tem valor se tiver palavras, frases, desenhos, rabiscos…se não tiver nada, não passa de uma folha em branco ou de outra cor. Não é sobre este assunto que quero escrevinhar algumas palavras.
Vamos a isto.
  A vida de um ser humano tem uma duração limitadíssima, o máximo cem anos mais dez, menos dez. A maior parte das pessoas quando ultrapassam os noventa têm uma saúde muito frágil, estão limitadíssimos, os reflexos já não são o que eram, passam as horas à espera…
  É a regra, embora haja pessoas com uma memória invejável, ainda se movimentam razoavelmente bem; não é a regra.
  A qualidade de vida não acompanhou a longevidade, os lares são um bom exemplo daquilo que estou a dizer. As funcionárias de manhã levantam os velhinhos, muitos deles são transportados em cadeiras de rodas, entram na sala, sentam-nos no sofá e ali ficam até à hora do pequeno-almoço.
  Voltam novamente para o sofá até ao lanche e assim sucessivamente. Findo o jantar, cama.
  Quem se movimenta ainda se levanta e dá uma volta pelo corredor, quem não se mexe…
  Coitados deles, tanto lutaram, de repente ficam incapacitados, à merce dos semelhantes.
  O destino tem destas coisas, longevidade igual a limitação. As pessoas acomodam-se, não têm outro remédio, os filhos trabalham, vivem longe.
  Precisam de muito carinho, muita atenção e amor. Quantos há que foram “despejados” nos lares pelos familiares e nunca mais lhes ligam, não querem saber deles, esqueceram-se depressa dos trabalhos, das canseiras, dos sacrifícios que passaram para os criarem.
  Um dia terão a recompensa, alguém lhes fará o mesmo.
   A vida é feita de bons e maus momentos, é uma labuta diária e constante; impostos, obrigações, problemas de toda a ordem, de vez em quando surge um dia de alegria, de festa
  O nascimento de um filho, o baptizado, a licenciatura, uma promoção no trabalho, um aumentozito… coisa pouca em oposição aos maus momentos.
  Invejas, doenças, incompreensões, ódios, compromissos assumidos… A vida é uma chatice, mesmo assim, julgo que a maioria gosta de cá andar. De vez em quando há alguém…põe fim à vida, porquê? Só ele sabia. Um desgosto, uma dívida que não conseguiu controlar… Quem termina bruscamente com a existência lá terá as suas razões, não o podemos condenar, que tenha uma vida mais favorável na outra…
  Se houver alguém que consiga adivinhar através de sinais o pensamento da pessoa com pensamentos suicidas que o acompanhe e o demova a fazer tão tresloucado ato.
  Tudo se remedeia desde que haja compreensão entre os homens.
  Uma casa centenária, velhinha, pode ser reconstruida e durar outro tanto tempo, mas também pode ser destruída num instante e nunca mais ninguém a torna a ver.
  Com o suicida acontece a mesma coisa, se alguém o amparar, salva-se, se ninguém lhe deitar a mão, num instante termina…
  Todos sabemos que a vida são dois dias, é tão frágil a vida; vela acesa exposta numa corrente de ar, uma aragem... A vida começa num choro, tal como a fogueira começa por fumegar, depois vem o brasido, para finalmente terminar em cinza.
  Olhem: a vida, quanto mais estica, mais curta fica
  Fiquem bem!


J.M.S

domingo, 16 de julho de 2017

Luís e José



Nota: Ambos os poemas são de Luís de Camões.

José Teodoro Prata

sábado, 15 de julho de 2017

Balcaria


Olival com rega gota a gota, no Balcaria. 
Atrás da casa e na área que se vê acima da estrada já há medronheiros.
Ao fundo, na raiz da serra, a casa do ermitão, da Orada.

Os nossos mais velhos sempre disseram Balcaria.
O Zé Barroso escreve Vale de Caria, como seria originariamente.
Mas eu volto ao Balcaria, até porque nos documentos dos séculos XVIII e XIX aprendi que a nossa região é nortenha, neste aspeto (trocava o v pelo b em inúmeras palavras).

José Teodoro Prata

Nota: O texto foi alterado após o comentário do Zé Barroso.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

O primeiro Moreira?


O  Inácio (Ignacio), batizado a 30 de dezembro de 1824, era filho de José Moreira, da Aldeia das Dez, 
e Rosa Luísa, de São Vicente da Beira.
O avô paterno também se chamava José Moreira e era igualmente da Aldeia das Dez, Oliveira do Hospital.
É possível que os muitos Moreira de SVB sejam descendentes deste José Moreira da Aldeia das Dez.

Festa da castanha, Aldeia das Dez, 2011

Uma aldeia risonha e encantadora, sobranceira ao rio Alvôco. Toda ela parece um demorado miradouro, com vista privilegiada para as serras envolventes. 
(http://aldeiasdoxisto.pt/aldeia/aldeia-das-dez)

A lenda da Aldeia das Dez tem origem na Reconquista da península Ibérica e está ligada ao actual nome da aldeia. Segundo a lenda, durante a Reconquista cristã dez mulheres terão encontrado um tesouro numa caverna situada na encosta do Monte do Colcurinho. De acordo com a tradição oral e alguns documentos que sobreviveram, esse tesouro possuía um valor que ultrapassa o material. Estas mulheres ter-se-ão apercebido da sua importância e, num pacto que persiste até hoje, terão separado entre elas as peças que o compunham e passando-as de geração em geração, mantendo até hoje por desvendar o segredo que encerram. Quanto ao tesouro, crê-se que dele façam parte moedas Antonini com inscrições cifradas, sendo que uma destas encontrar-se-á cravada na moldura de um quadro que narra esta lenda. Deste quadro pouco mais se sabe, além de ter ressurgido em meados do século XX num antiquário de Oliveira do Hospital, para novamente desaparecer. Terá sido pintado por uma das descendentes das dez mulheres e crê-se que retratando a lenda poderá oferecer uma chave para o seu segredo.
(https://pt.wikipedia.org/wiki/Aldeia_das_Dez)

José Teodoro Prata

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Vila-poema

VILA DA MEIA SERRA 

Vagas verde-escuras dos pinheirais,
Mar ameno de agulhas fremente,
Levantado pela aragem da Gardunha,
Meu olhar de menino,
Desfazendo-se a poente,
Onde, ao cair do dia,
O sol de ouro metálico se punha.

Vale das encostas da serra,
Em que fraldejam casas,
Assentes no granito rijo e puro,
Casario a estender-se pela terra,    
Telhados vermelhos,
Paredes brancas de cal e pedra alva,
Mescladas de sombras do xisto escuro.

Do ventre da guardiã granítica,
Nasceste quase na raia de Espanha, 
Montes por onde lutou o bravo lusitano,
Do primeiro e do segundo reis, vila mítica,     
Que os ares gelados da estremenha,
Fustigam, danados, no inverno,
Como nos agrediu o soberbo castelhano.

Os olivais também ondeiam pelas hortas,
Revirando as folhas no gris dos dias de novembro,
Em maio exibes o imenso amarelo das giestas,
Em janeiro, o branco da neve e o negro das azeitonas,
No verão, as cerejas rubras,
E os cachos de uvas roxas em setembro,
Como bandeirinhas na praça pelas festas.

Vila robusta, feita de pedra, até à alma,
A ribeira rega-te, no verão, os lameirais viçosos,
Enquanto no verde dos cômoros do caminho,
Esvoaçam folhas, ao de leve, em tarde calma,
Como o melro roça a asa nos olmos frondosos,
Onde, furtivo, vai dar de comer aos filhos,
No aconchego do arbusto em que fez o ninho.

Terra de séculos, dos tempos idos da história,
De muitíssimas gentes e grandes eventos de outrora,
Mas também de desgraças e de concelhos perdidos.    
Destes, quero esquecer-me e guardar, somente, na memória,
Os júbilos e contentamentos antigos, as festas e romarias,
Porque as coisas vis e a má fortuna, essas, lancei-as fora,
Como se tiram da lembrança os maus instantes e se deixam esquecidos. 

Joaquim Benedito

sábado, 8 de julho de 2017

D. Sancho I

Os sinos do mosteiro de Santa Cruz dobram, dentro do templo encontra-se uma urna que contém o cadáver do rei Sancho I de Portugal, colocada em cima de uma essa ricamente ornada, ladeada por seis tocheiros, três de cada lado.
  Frades agostinianos com seus hábitos negros cantam em cantochão salmos fúnebres, imploram ao Senhor o perdão dos seus pecados e receba sua alma na morada eterna do Céu
  O largo fronteiro ao mosteiro está apinhado de gente que reza e chora a morte do bom rei. Sofria de uma doença terrível que grassava em Portugal e em toda a Europa, a lepra.
  Não poupava ninguém, pobre ou rico.
  D. Sancho I morreu desse terrível mal, a igreja considerava castigo de Deus.
  Findas as exéquias fúnebres, o cadáver foi colocada num mausoléu, perto do túmulo de seu pai D. Afonso Henriques.
  Tinha 56 anos quando naquele dia 26 de Março do ano 1211 entregou a alma ao Criador.
  A vida quotidiana decorria com normalidade em Sanctus Vincencii; os servos trabalhavam para os senhores, donos das melhores terras, alguns tinham que fazer corveio, que consistia em trabalhar gratuitamente um ou dois dias da semana para o senhor dono da terra, os que moravam nas Vinhas, na Fonte da Portela, eram livres de qualquer encargo perante o senhor feudal, dai haver alguns renitentes…
  Alguns dias após a morte do rei, um arauto entrou em Sanctus Vincencci, contactou os Homens Bons, estes, imediatamente mandaram tocar o sino da igreja.
  Mensageiro anunciou a todos os moradores o trágico desfecho.
O povo chorou amargamente a morte de D. Sancho, prior rezou ofícios divinos pela alma de sua majestade.
  Rei morto, rei posto; D. Afonso II seu filho, sucedeu-lhe no trono.
  D. Sancho nasceu no dia 11 de Novembro do ano 1154, ”dia de São Martinho”; por esse motivo deram-lhe o nome Martinho.  
  Henrique, seu irmão, “morreu criança”; por morte deste, o herdeiro da coroa passou a ser Martinho. Os nobres achavam que este nome não era o mais apropriado, passou a chamar-se Sancho Afonso.
  Casou D. Sancho I com Dª Dulce de Aragão no ano 1174 de quem teve dez filhos: D. Afonso; D. Pedro; D. Fernando; D. Henrique; D. Raimundo; D.ª Berengária, que foi rainha da Dinamarca; D.ª Branca e as beatas Teresa; Mafalda e Sancha.
 Para além dos filhos legítimos D. Sancho teve alguns filhos naturais: D. Martim Sanches e D.ª Urraca Sanches; filhos de D.ª Maria Aires de Fornelos.
  De D.ª Maria Pais Ribeira teve seis filhos: D. Rodrigo; D. Gil; D. Nuno; D. Maior; D.ª Constança; D.ª Teresa.

  O campo, nomeadamente as Vinhas, Fonte da Portela, eram lugares onde ainda moravam muitas pessoas; certo dia, ouvem-se gritos aflitivos, vinham do lado da Oles.
  Fujam… vêm aí os sarracenos; matam e queimam tudo por onde passam!
  Pedro Afonso homem possante, valente, imediatamente reúne malados, peões, cavaleiros vilãos…armados de chuços, vão ao encontro dos sarracenos; estes vendo que não conseguiam vencer os habitantes das Vinhas e Fonte da Portela fugiram em direcção à campina dilatada de Vila Franca da Cardosa.
  D. Afonso I já tinha atribuído nome à nova povoação que se encontrava mais acima no sopé da serra, as brenhas, os ursos e outros animais por onde passavam devastavam… eram como o inimigo quando fazia algum fossado.
  Os moradores aos poucos foram deixando o campo, apesar de as terras serem mais fáceis de arrotear, as formigas e a falta de água, obrigava-os a deixarem suas cabanas.
  Os vizinhos, à medida que iam chegando a Sactus Vincencii, eram logo ajudados pelos que já lá moravam, todos juntos levantavam paredes e nascia mais uma casa; as mulheres pariam, o povo rezava na pequena igreja, até que um dia o rei D. Sancho querendo povoar o interior do reino convidou gente da Flandres, da Borgonha… a viverem em Portugal.
  Sanctus Vincencii, já era uma terra importante, o rei sempre preocupado com a governança, defendendo o comércio e fomentando a criação de riqueza atribui forais a muitas terras das beiras.
  Covilhã, 1186; Viseu, 1187; São Vicente 1195; Guarda 1199…
  D. Sancho I não se preocupou somente com a criação de concelhos atribuindo forais, também era meticuloso na administração dos dinheiros públicos, deixou muitos morabitinos nas arcas.
 
  Naquele dia pelas ruas da vila ouviam-se pandeiros, guizos, castanholas; eram dois jograis que anunciavam um folguedo no terreiro, vinham acompanhados por uma amásia e uma soldadeira.
  Saltério, viola de arco e outros instrumentos eram tocados pelos jograis, o povo acorreu em massa, as mulheres dançavam enquanto uma tocava o pandeiro e a outra, castanholas...
  O largo estava todo iluminado com archotes e banhado pela lua cheia; compareceram todos os moradores, que assistiram ao espectáculo com alegria.
     
A do mui bom parecer
mandou lo adufe tanger
louçana, d`amores moir`eu

  A hora ia adiantada, mas ainda houve tempo para ouvirem um jogral declamar uma trova da autoria do rei D. Sancho I; foi um grande protector de trovadores e jograis.
Vamos lá então:
Ai eu, coitada, como vivo em gram cuidado
Por meu amigo, que hei alongado!
Muito me tarda
O meu amigo na Guarda!

Ai eu, coitada, como vivo em gram desejo
Por meu amigo, que tarda e nem vejo!
Muito me tarda!
O meu amigo na Guarda!

  Quando os jograis deram por terminada a função, todos foram para a deita satisfeitos.

  Em nome da Santa e indivisa Trindade, Pai, Filho; Espírito Santo, ámen. Eu, rei Afonso, filho do rei Sancho, juntamente com minha mãe rainha Dulce, e ao mesmo tempo com G. Martins, prior de São Jorge e todo o seu convento e com frei João de Albergaria de Poiares, queremos restaurar e povoar o lugar de São Vicente, damos e concedemos o foro e costumes da cidade de Évora a todos, tanto presentes como futuros que lá quiserem habitar…
 (…) Se alguém quiser rasgar este facto nosso seja amaldiçoado de Deus.
Concedemos a todo o cristão, embora servo, desde que habite durante um ano em São Vicente, seja livre e ingénuo, ele e toda a sua progénie…

  Resumindo: uma vila do tempo da fundação de Portugal, e nunca houve ninguém que tenha atribuído o nome de uma rua, largo ou praça ao rei Sancho I ou erguer-lhe um busto. Nunca é tarde para corrigir…
Fiquem bem!

Notas:
Essa: Estrado onde se coloca o caixão com o cadáver durante as cerimónias fúnebres
Cantochão: Canto da igreja católica, canto gregoriano
Malado: Pessoa sujeita a encargos e serviços dos senhores feudais
Peão: Soldado de Infantaria; plebeu
Jogral: Músico
Amásia: Amante
Soldadeira: Mulher que serve por soldada, criada
Saltério: Instrumento musical de cordas
Louçana: Louçã
Hei alongado: Tenho ausente

Pesquisa:
História de Portugal, Fortunato de Almeida, Promoclube
Fotografia D. Sancho I, História de Portugal, Fortunato de Almeida, Promoclube
História da Literatura Portuguesa Ilustrada, Albino Forjaz de Sampaio, Livrarias Aillaud e Bertrand
Cantiga de amigo, (Ai eu, coitada…) História da Literatura Portuguesa Ilustrada, D. Carolina Michaelis de Vasconcelos

J.M.S

José Barroso

sexta-feira, 7 de julho de 2017

O primeiro Lobo?


O Bonifácio nasceu a 6 de agosto de 1824 e era filho de Francisco Duarte Lobo e Ana Jacinta, 
ambos de S. Vicente da Beira.
O avô paterno chamava-se simplesmente Francisco Duarte.
Será que o pai do Bonifácio foi o primeiro a ter o apelido Lobo, em São Vicente?

José Teodoro Prata

quarta-feira, 5 de julho de 2017

O nosso falar: marmeludo

Fui aos figos, há já umas semanas. Não em São Vicente, porque as figueiras de figos do Algarve que lá tinha (ando a enxertá-las) não dão nada, por via do frio da serra.
Foi nos Cebolais de Cima, terra demasiado quente, mas boa para os figos desta variedade.
Ao chegar às figueiras, a minha mulher deitou logo as mãos a uma pernada e eu avisei-a:
- São marmeludos, não prestam. - eram de uma figueira pindo de mel.
- O que é isso?
- Agora...
A expressão tinha saído à São Vicente, mas eu nem tinha consciência do que dissera e por outro lado os figos da figueira ao lado chamavam-me na urgência da colha.
Depois é que me pus a pensar. Então marmeludos é o mesmo que lampos. São os figos que aparecem semanas ou meses antes da época. Alguns nem prestam, estão inchados, mas nem sabem bem!
A minha mãe também aplicava o termo às pessoas soberbas, com aquele ar zangado que as faz parecer inchadas artificialmente, como os figos fora do tempo.

Já aqui tratámos o tema dos figos do Algarve, por outros chamados simplesmente Algarves. Estive a ver uns sites e alguns chamam-lhes dauphine e outros lampa preta. Não sei se é a mesma variedade ou se são os figos das fotos que parecem os do Algarve.

Este era marmeludo, mas uma delícia!
Numa figueira lisboa branca ou pingo de mel.

José Teodoro Prata

segunda-feira, 3 de julho de 2017

A Cruz da Oles

No dia 17 de Janeiro de 2015, com o título a “Cruz da Oles”, salvo erro, publiquei o meu segundo escrito no blogue.
Um pouco abaixo do cruzamento da estrada da Cascalheira (tão mal tratada está) e que dá acesso ao Casal da Serra, a estrada da Oles, que liga a vila à vizinha freguesia de Louriçal do Campo, existiu em cima de uma pesserra uma coluna cilíndrica encimada por uma cruz.
Com o corte dos pinheiros no local, terão sido os lenhadores que descobriram a coluna toda escavacada e terão colocado um pedaço na pesserra.
Dei uma volta para ver se descobria a cruz, missão infrutífera.
Para memória futura, aqui deixo fotografias dos pedaços e um troço da estrada.

Cada vez que há um corte, a estrada fica uma lástima.




J. M. S.

sábado, 1 de julho de 2017

O prazo da Paradanta

Rua e casas da Paradanta; foto do Carlos Matos

Em 1836, realizou-se o "Inventário dos Bens e Acções do Extinto Convento das Religiosas Franciscanas", de São Vicente da Beira. A dado passo escreveu-se:


«Um prazo que consta do Casal do Povo da Paradanta, freguesia desta vila de São Vicente da Beira, que parte com a divisa do termo em outro tempo da Covilhã e hoje do Fundão, águas vertentes, e do outro lado com fazenda da antiga religiosa Ângela do Céu e com fazenda de Manuel Antunes do povo dos Boxinos, cujo casal as religiosas do Convento de São Francisco desta vila de São Vicente da Beira aforaram em "fathoerim perpetuo", enquanto o Mundo durar, aos moradores do dito povo da Pradanta, a saber, Brás Leitaõ e sua mulher, a Manuel Mendes e sua mulher, a João Antunes e sua mulher, a Mateus Fernandes e sua mulher, a Iria Francisca viúva e aos mais moradores, pelo foro anual de cinquenta e um alqueires e meio de centeio, meados de trigo, em cada ano, e mais um carneiro vivo e um bode capado, três galinhas e duas dúzias de ovos, tudo pago em dia de Nossa Senhora de Agosto de cada ano, por escritura feita nas Notas do Tabelião Manoel de Andrade Azevedo desta vila, em doze de abril de mil setecentos e vinte e três. Cujo contrato foi avaliado pelos louvados fazendeiros deste inventário, abatido o foro, em trezentos e oitenta e sete mil e seiscentos réis.»

Vocabulário:
aforar - arrendar
águas vertentes - águas que correm encosta abaixo; neste caso, a propriedade ia do vale até ao cume do monte, cume que era o limite do concelho de S. Vicente da Beira com o concelho do Fundão
alqueire - medida de capacidade, neste caso para sólidos, correspondente a 15,48 litros, em S. Vicente da Beira (a medida variava de concelho para concelho).
bode - macho caprino adulto
foro - renda; os moradores da Paradanta pagavam 51,5 alqueires meados de trigo e centeio; considerando que um foro correspondia a um oitavo do que a propriedade podia produzir, o prazo da Paradanta produziria cerca de 400 alqueires, o que correspondia a mais de 6.000 litros de semente.
louvado - testemunha
Nossa Senhora de Agosto - dia 15 de agosto, em que se comemora a Assunção de Nossa Senhora; neste dia é que se pagavam quase todas as rendas, nesta região
prazo - propriedade arrendada
tabelião - notário

José Teodoro Prata

sexta-feira, 30 de junho de 2017

O apelido Paradanta


Prometi ao Joaquim Bispo pagar-lhe o texto poético sobre as mulheres da Paradanta com informações sobre este casal, embora ele não seja de lá (ver o comentário que ele postou no seu texto).

Os assuntos que vou focar, a propósito do registo de nascimento acima apresentado, não são novos, mas vale a pena voltar a eles:

- Ainda hoje existe o apelido familiar Paradanta, em pessoas da Partida. O avô do Manuel, o bebé deste registo, chamava-se Manuel Rodrigues Paradanta e era natural da Paradanta (por isso ganhou este apelido).
- O pai do batizado, Luís Rodrigues, era das Rochas de Cima. No século XIX (este batismo é de 23.05.1824) inúmeros jovens da freguesia de São Vicente casaram com jovens da freguesia de Alamaceda, sobretudo das povoações vizinhas (Mourelo, Partida, Vale de Figueira e Violeiro / Rochas de Cima, Ingarnal, Almaceda, Rochas de Baixo e Martim Branco). Nos séculos anteriores, isso não era tão frequente.
- O avô paterno do bebé Manuel era incógnito. Teve sorte o pai Luís, não ter sido abandonado para a roda, como então era costume. Parabéns à sua mãe Joaquina Rodrigues! Os filhos naturais (nascidos fora do casamento) eram muito menos frequentes do que os filhos expostos.
- Os avós maternos vivam na Partida (a avó Josefa Freire era de lá), mas a filha Joaquina Freire e o genro Luís Rodrigues vivam no Vale de Figueira. Existia e existirá ainda uma relação muito estreita entre as gentes da Partida e do Vale de Figueira (como entre São Vicente e o Casal da Fraga).
- Normalmente, as testemunhas dos batismos (não os padrinhos) eram o sacristão e o padre tesoureiro da Igreja: Joaquim Marques e Francisco José de Oliveira. Reparem na forma de assinar o nome: o mais recente, como o do padre, e o tradicional, com o nome próprio, seguido do sinal + e depois o apelido (Joaquim + Marques)

José Teodoro Prata

segunda-feira, 26 de junho de 2017

As mulheres da Paradanta

Vista geral da Paradanta. Foto de Carlos Matos.

As mulheres da Paradanta são o amparo da casa. Como são robustas e determinadas, as deusas primordiais admiram-nas e protegem-nas. A sua aldeia fica encravada entre montes atulhados de pinheiros nas faldas da serra da Gardunha, onde só é possível cultivar estreitas leiras junto ao pontos mais profundos dos vales. Por isso, sempre tiveram de obter complemento económico fora da pequena agricultura de subsistência. Às vezes, em atividades inesperadas e até longe da sua terra. São vistas desde sempre a carregar pesos à cabeça. Em grupo, em rancho. Decididas, caminhando, balançando as ancas cheias. E como os deuses gostam de contemplar o seu caminhar! Talvez por isso as tenham colocado ali, na Paradanta, para lhes fruírem a atividade, em vez da rigidez de antanho.
Na década de 40, era comum vê-las a carregar caldeiros cheios de pedras com volfrâmio. O dinheiro do minério já lhes permitia comprar alguma massa ou arroz na venda da aldeia. Todas se lembravam e queriam afastar os tempos penosos da Guerra Civil de Espanha, com racionamentos e contrabandos. Os homens manejavam as enxadas a esburacar terrenos, e as picaretas a desfazer calhaus, um pouco por todos os montes das redondezas, onde vissem ou suspeitassem encontrar o apetecido minério negro e brilhante. Elas enchiam as vasilhas, punham-nas à cabeça e pelo meio dos pinheiros, dos matos, das pedras, por fim por veredas, carregavam-nas até pontos combinados, onde as mulas podiam chegar. De etapa em etapa, o minério lá acabava por chegar aos Aliados. E aos Nazis. O comércio não tem ideologia. Umas atrás das outras, em filas espontâneas, abanando as ancas, iam e vinham lançando um ou outro canto com temática de igreja, mas reconforto pagão. Por vezes, Atena apiedava-se do esforço brutal das suas amadas paradantenses e, disfarçada como uma delas, ajudava-as, sem que elas percebessem. E afugentava algum condutor de mulas que, fiado no ermo dos pinhais, se preparasse para abusar de alguma delas.
Na década de 50, com a II Guerra acabada, já ninguém queria saber do volfrâmio. As mulheres da Paradanta voltaram à agricultura, ou antes, ao trabalho sazonal nos grandes terrenos planos a sul da serra, por conta de proprietários ou rendeiros. Os homens iam para as grandes ceifas do Alentejo, elas ficavam-se por zonas não tão distantes. Aí por princípios da primavera, ora um ora outro agricultor aparecia na terra depois da missa de domingo e propunha o trabalho. O acordo não tinha nada que negociar: era um terço da produção para todas. Por isso lhes chamavam “terceiras”. Às vezes, já apalavradas de antemão, repetiam o lavrador de um ano para o outro. Constituído o rancho, apresentavam-se ao trabalho depois das ceifas, por meados de julho e mantinham-se até final de setembro. Regavam milhos, melancias e abóboras, colhiam a produção na altura certa, ajudavam a transportá-la para as tulhas ou para a eira, descamisavam as maçarocas, malhavam-nas, limpavam o grão. O trabalho mais demorado era o da apanha do feijão frade. Extensões enormes eram calcorreadas em setembro, feijoeiro a feijoeiro, colhendo as vagens maduras para as cestas e descarregando-as no carro de vacas. Vendo-as em tão grandes penares de labuta campestre, Deméter, disfarçada como uma delas, imiscuía-se frequentemente no rancho, colhendo as vagens agilmente, aliviando a dureza da lida. A mais nova estava encarregue de, ao longo do dia de calor inclemente, ir buscar água a alguma fonte ou mina, numa bilha à cabeça, e dessedentá-las. Também era a aguadeira que ia adiantando os cozinhados de todas, em panelinhas de ferro individuais. Muita solidariedade coletiva, muita comunhão de quase tudo, mas mantinham áreas de reserva individual: a comida, os homens e a religiosidade pessoal. Uma fogueira, uma dúzia de panelinhas em redor, cozendo batatas ou feijão. Com um naco de toucinho cozido ou um pedaço de morcela, estava a ceia feita. Se houvesse lua e trabalho na eira, era possível que Zeus, Dioniso ou outro deus igualmente lúbrico incentivasse os cantares e as danças, disfarçado de ganhão ou pastor. Sileno nunca perdia uma desfolhada. E um beijo por outro não desonra ninguém. Iam à terra no sábado à tardinha e voltavam no domingo à noite. Uma cesta à cabeça, umas atrás das outras. Cantando, galhofando, calando. Como os deuses gostam de ver o balanço das suas ancas!
Na década de 60, os namorados foram combater para África, os maridos foram trabalhar para França. Algumas foram com eles. A salto. Malas à cabeça. As que ficaram na Paradanta amanharam-se como puderam. Rezavam, teciam, cuidavam dos filhos, tratavam de uma horta, iam à lenha. Traziam os molhos à cabeça. Os faunos dos pinhais gostavam de as ver calcorrear veredas. Meneando as ancas. Mesmo com poucos homens na terra, não deixaram morrer a romaria da Senhora da Orada. No quarto domingo de maio, partiam ao princípio da manhã, com o tabuleiro da merenda à cabeça, cantando glórias à Virgem. Oscilando as ancas, aos poucos iam vencendo os vários quilómetros que separavam a aldeia da capela, sempre a subir. Depois da missa, derramavam-se pelas sombras, saboreando a merenda, rodeadas da filharada e de uma ou outra deusa disfarçada de romeira e saudosa de convívio humano. Pagas as promessas, feita a procissão, regressavam à Paradanta, cantando modas menos religiosas que à ida.
Na década de 70, acreditaram na mudança prometida. Ouviram os militares, os políticos, fizeram reivindicações, conseguiram um lavadouro público coberto. Com a chegada do gás e da eletricidade, deixaram de ir à lenha. Os incêndios sucederam-se, nos pinhais atulhados de mato. As fontes tornavam-se frequentemente chafurdos de cinzas. As mulheres da Paradanta punham os cântaros à cabeça e percorriam distâncias até alguma mina que não fora atingida. Por veredas serpenteantes, uma após outra, traziam para casa o líquido mais precioso. Como os deuses apreciam o seu caminhar! Algumas convenceram os maridos a regressar, fizeram reuniões, dançaram. Dioniso não deixava de aparecer, sempre que havia folia. Finalmente, chegou a água canalizada e uma estrada de alcatrão. Algumas famílias compraram carro. Ou motoreta.
Aos poucos, as mulheres da Paradanta, deixaram de calcorrear lonjuras com pesos à cabeça. Os deuses ficaram melancólicos. Alguma graça no mundo se perdera. Chegaram a pensar devolvê-las aonde tinham ido buscá-las. Lá onde, rígidas e pétreas, eram o sustentáculo de arquitraves e platibandas clássicas. E a quem os mortais chamam cariátides. Além disso, estavam a ficar cheiinhas e roliças. Felizmente, Hera, também com um pouco de peso a mais, lançou a moda de andar a pé, para emagrecer, e precisou de companhia. As veredas da Paradanta voltaram a encher-se de mulheres que caminham. Embora sem pesos à cabeça. Mas ainda com o tão admirável meneio de ancas. E os deuses voltaram a ostentar um sorriso deleitado, no rosto divino.
Cariátides, na acrópole de Atenas.

Joaquim Bispo

domingo, 25 de junho de 2017

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Incêndios

Quinta rodeada de árvores escapou ao fogo


Propriedade é de uma empresária holandesa que vive em Portugal há dez anos
A Quinta da Fonte, em Figueiró dos Vinhos, "sobreviveu" aos vários incêndios que deflagraram no centro do país desde o sábado passado. As chamas estiveram muito perto da quinta da holandesa Liedewij Schieving, que vive em Portugal há dez anos. Tudo ardeu à volta, menos as árvores plantadas há décadas.
"Aqui ardeu praticamente tudo. Havia muitos eucaliptos que não resistiram às chamas", refere a empresária holandesa. Uma mancha verde destaca-se da paisagem negra envolvente. "A única coisa que não ardeu foram os carvalhos, os castanheiros, oliveiras e sabugueiros", explicou ao JN.
No Facebook, a mulher, de 50 anos, publicou vídeos e fotografias da zona envolvente à propriedade.
Os bombeiros "não estiveram no local" e as árvores que lá estão "há muitas décadas protegeram a quinta e sobreviveram por si", disse Liedewij Schievin.
Diário de Notícas, 23.06.2017

José Teodoro Prata

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Há Feira Medieval



José Teodoro Prata

Santa Águeda: e se se multiplicarem cerejais

Julgo que não achará descabida, ou prematura, esta pergunta. Realmente, se o Estado, através da interpretação da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), entendeu que a lei não proibia a implantação de um cerejal numa albufeira de abastecimento de água a dezenas de milhares de pessoas, por que não equacionar (e temer) uma corrida a este novo faroeste dourado? O que vale para um, vale para todos, sejam quantos forem; presumo que a APA o avaliou, quando assim decidiu. 
            Imagine que a criança da fábula perguntava a quem não quer ver a nudez do rei: “E se estes 17 hectares passarem a ser 34 e 68 e 136 e por aí fora?” A decisão da APA abre esse caminho para o tal faroeste. Isto, não falando na eutrofização já instalada por outras razões e cujas causas terão anos de vigência a montante da albufeira e estão equacionadas por especialistas. 
            No imediato, enfrentamos o cerejal de 17 hectares e o cortejo de poluentes que são carreados para esta nossa albufeira no rio Ocreza. A comprovada utilização do fungicida “Pomarsol” contamina gravemente o meio aquático e, segundo peritos, terá sido a causa de morte de dezenas de peixes na altura das primeiras pulverizações. Ainda na fase inicial, estando as árvores apenas com dois palmos e ocorrendo já problemas desta natureza, imagino o que virá a passar-se quando as cerejeiras forem adultas e tiverem mais corpo com dois, cinco, dez anos...
            Ainda temos água de boa qualidade garantida pela Estação de Tratamento de Água (ETA) mas os poluentes provenientes dos fungicidas, herbicidas e pesticidas, utilizados na exploração do cerejal, e a crescente poluição em fósforo e manganês diminuirão a eficiência da ETA até ao limite de não poder garantir a necessária capacidade de tratamento. Entretanto, haverá aumento substancial dos custos e degradação, tecnicamente previsível, da qualidade da água que abastece as populações que vivem no concelho de Castelo Branco e em parte dos de Idanha-a-Nova e Vila Velha de Ródão. 
            A APA também sabe o que aconteceu durante anos e anos em tantas áreas protegidas e de reserva agrícola e ecológica que foram desqualificadas para uso de interesses especulativos. A APA sabe (e o país também vai sabendo) de rias Formosas, Caparicas, Furadouros, Tejos, Almondas, pastas de papel, fábricas de óleos, Nabões, suiniculturas, um rol infindável gerido e comandado por egoísmos que vegetam em terras e águas más. A APA sabe que muitas atividades trocaram equilíbrio, bem comum e visão de futuro por laborações poluentes que as administrações do Estado foram (e vão) permitindo. A APA sabe muito mais do que nós acerca das dinâmicas dos obscuros interesses que por aí andam. 
            Também sabe e todos sabemos, não só na pele como no mais extenso e fundo corpo de comunidade, o que tivemos de pagar em recursos financeiros e em não-desenvolvimento (e antidesenvolvimento) nestas operações que satisfazem os deleites dos servidores do deus dinheiro.
            Na falta do Estado de que precisamos, e perante o menos (e pior) Estado com que nos vêm castigando, precisávamos, por exemplo, de uma operação de investigação jornalística qualificada que ouvisse especialistas, como ouvimos, em 29 de maio, na Conferência Técnica em Defesa da Albufeira de Santa Águeda/ Marateca. Uma investigação que desvendasse a realidade de muitas suspeições e as relacionasse com a realidade dos dados e dos factos. E que iluminasse as sombras onde vegetam muitos silêncios. 
Costa Alves - mcosta.alves@gmail.com
Reconquista, 14/06/2017
José Teodoro Prata 

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Fonte de São João

Foi particularmente quente o verão esse ano, durante o pino solar as temperaturas elevadas que se faziam sentir não eram convidativas para que se fizesse fosse o que fosse nos campos.
As ceifas tinham terminado, procedia-se à malhação dos grãos. Por todo o lado ouviam-se os manguais batendo ritmadamente nas eiras, “o calor é bom para a debulha”. À tardinha malhadores esperavam que o ar rarefeito trouxesse alguma brisa para que o trigo ou centeio se pudesse limpar; as praganas e os cachiços que estavam misturados com o grão voavam.  
Alguém, munido com um meio alqueire enchia-o e despejava-o nas sacas; contava a quantidade de medidas que ia deitando, atava-as, estas eram transportadas em carros de bois, burros ou às costas; conforme a quantidade de semente recolhida. Por vezes malhadores dormiam na eira em cima da palha; para a filharada era uma festa estarem deitados a olhar as estrelas ouvindo os ralos, as rãs coaxando nas presas, os cães a ladrar certamente afugentando alguma raposa, quiçá um lobo. Uma restolhada de gente dormindo ao relento.
Depois de um dia abrasador mal se estendiam começavam a ressonar; fadiga, cansaço; a cachopada, com os olhos abertos virados para o horizonte contavam estrelas…
A banda filarmónica vicentina esse ano tinha participado em muitas festas nas redondezas e mais longe; para se deslocarem partiam muito cedo a pé, em carroças… A filarmónica, menina dos olhos dos vicentinos; chegou a atuar em terras de Espanha tal a sua fama.
Naquela manhã os músicos entraram no ensaio que ficava na Rua da Misericórdia, pegaram nos seus instrumentos e foram de abalada a caminho de Castelo Branco. O relógio marcava cinco horas, chegariam à cidade por volta das dez.
Plérias, conversas de escárnio e mal dizer, anedotas…o tempo custava menos a passar. Ao chegarem a Castelo Branco dirigiram-se à estação onde estavam alguns malpiqueiros com suas carroças que os transportariam àquela aldeia raiana. Quando chegaram, mal tiveram tempo de repousar, deram uma arruada pelas ruas da povoação. O povo gostava das marchas tocadas pelos músicos, o arraial muito participativo, animado, todos dançavam ao toque da banda.
Terminado o concerto os músicos ajeitavam-se dormindo em casa dos festeiros, palheiros….
Quando a aurora acordou levantaram-se, prepararam-se, ei-los no largo principal da aldeia tocando a alvorada, foguetes estralejavam no ar enquanto percorriam novamente as ruas, o povo escancarava portas e janelas para ver passar a banda.
A missa de festa é mais demorada que uma missa normal, os músicos cantam e tocam durante a cerimónia, a procissão demorou bastante tempo a dar a volta, muitos crentes compenetrados entoavam cânticos e rezavam, a fome apertava. Findas as cerimónias, cada festeiro levou alguns músicos para suas casas onde almoçaram.
 Um foi parar à casa de uma família numerosa no meio da sala uma mesa rectangular tinha ao meio um grande alguidar que fumegava, não viu pratos na mesa, o chefe da família, a esposa e os filhos sentaram-se em redor… festeiro chamou o nosso músico que se sentou também.
Todos tiravam a comida do alguidar e comiam; músico cheio de fome quando viu aquilo perdeu o apetite
- Não come!
- Não tenho fome.
- Coma que está bom…
Ao lado, numa outra mesa estava um bolo de festa, nosso músico não fez mais nada, agarrou na faca e partiu uma fatia.
- O que é que está a fazer! Pergunta o dono da casa
- A partir uma fatia de bolo, respondeu:
- Ponha aí o bolo… primeiro come-se o que está no alguidar, e só depois …
Músico saiu porta fora vagueando pelas ruas da terra; nisto aparece o João Carvalho bem- disposto, vendo-o com cara tristonha, cabisbaixo, perguntou-lhe
- Há azar? - António Maria com a barriga a dar horas respondeu-lhe:
- Deixa-me cá, logo me havia de calhar uma casa onde todos comiam no mesmo caçoulo, os filhos com o ranho a sair do nariz, não fui capaz… estava um bolo em cima de uma mesita, quando ia partir uma fatia ele tirou-ma da mão…
- Vem comigo, eu levo-te à casa onde comi, gente boa, comida farta.
João Carvalho quando contou o episódio ao festeiro este respondeu:
- Sempre assim foi; sente-se e sirva-se à vontade…
António Maria comeu, bebeu e ficou saciado.

Canto da nossa praça onde existiu a fonte de São João de Brito.

Nota: a imagem está invertida (a casa da varanda é à esquerda), 
mas era esta a fonte de São João de Brito.

Na atualidade, parte da fonte em São Francisco.

O presidente da Junta daquela época chamava-se Manuel da Silva, quando chegava à praça todo ele se orgulhava: câmara, igrejas, casas solarengas… faltava qualquer coisa para o ramalhete ficar completo. Que bem ficava uma fonte naquele canto e não afectava nada a monumentalidade da praça. Contactou os outros elementos da Junta, um deles era o senhor João Prata; um dia rumaram a Castelo Branco, a verba apareceu e a fonte foi edificada.
Durante algumas décadas deu de beber aos moradores e aos viandantes.
A Rua do Beco era estreita a Junta da época pensou e muito bem alargar a artéria, houve necessidade de “roubar” um pouco à praça, a fonte teve que ser desmontada; findas as obras, voltaria para o seu lugar. Azar dos azares; a fonte de São João de Brito nunca mais foi reposta, algumas pedras desapareceram, a parte central trasladaram-na para junto do calvário, onde se encontra.
Faz este ano setenta anos, esquecida sem dar fruto ou seja sem jorrar água, julgo que deve voltar a erguer-se no local original nem que para isso tenha que se abrir uma subscrição pública para que a velha fonte regresse ao lugar que lhe pertence por direito.
Assim sendo; haja quem aja.
São João de Brito nasceu em Lisboa no dia 1 de Março do ano 1647; trezentos anos depois foi canonizado pelo papa Pio XII no dia 22 de Junho do ano 1947
Em sua homenagem nascia na praça uma fonte.
Fiquem bem

J.M.S