domingo, 28 de maio de 2017

Romaria à Senhora da Orada


Prometia ser um rico dia de chuva, mas só caíram uns barrufos, durante a noite.
Na curva da estrada, os feirantes.


Os bombos que ouvia enquanto me aproximava da capela.


Na fonte, as filas do costume, para refrescar o corpo e o espírito.


A procissão já terminara. Havia mais dois cestos como este.


O GEGA animou a festa com uma exposição de fotografias de romarias passadas, 
algumas há uns bons anos.


A Senhora, linda como sempre!

José Teodoro Prata

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Ex votos

Todos nós somos de uma maneira ou outra, religiosos. Mais não seja crermos na ciência humana. Os partidários do agnosticismo não crêem naquilo que não vêm, o intangível. Apesar de aparentemente não acreditarem na existência de um Ser criador de todas as coisas, crêem na ciência. São Tomé só acreditou quando viu o Mestre.
         Ao contrário dos agnósticos, os ateus não seguem qualquer religião; para eles, Deus não existe, em contrapartida, há os que acreditam numa divindade.
Católicos, muçulmanos, judeus, adoram um Deus único. “Latria”. Há povos que aceitam vários deuses.
Os católicos muitas vezes “negoceiam” com a divindade oferecendo contrapartidas pela graça recebida; podem ser velas, dinheiro, ex votos…
Quem numa hora difícil nunca pronunciou a palavra Deus? Valha-me Deus, Deus nos valha, Deus nos acuda…
A igreja da Misericórdia, dedicada ao Senhor Santo Cristo, guarda umas largas dezenas de ex votos, formas de agradecimento por graças alcançadas. Nela figuram dois belos quadros: um oferecido pelo visconde de Tinalhas e o outro pela família Robles Monteiro.
A maioria representa órgãos do corpo humano feitos em cera: braços, pernas, corações… Cada figuração representa a cura daquele órgão figurado.
Também se encontram figurações humanas completas, representam crianças que foram curadas dos seus males. A criança manifesta a dor através do choro, mas não consegue dizer qual o órgão afectado, então os progenitores oferecem à divindade uma figura humana.
Seja na igreja do Senhor Santo Cristo ou no santuário da Senhora da Orada, todos os objectos ex votos estão dependurados nos locais mais nobres do templo.
Na igreja da Misericórdia existe um divisa militar oferta de alguém que foi para a guerra e voltou são e salvo. Também se exibe um grande cirio.
Esta fé em algo que nos transcende já acontecia nos santuários da antiga Grécia. Os nossos reis, em alturas de aflição, agradeciam a Deus, através da construção de grandes monumentos: Real Convento de Mafra, Mosteiro da Batalha… No nosso tempo, ainda há muitos crentes que continuam a oferecer à divindade da sua devoção peças votivas.
Em Santuários como Fátima, Aires, Senhora da Póvoa, existem expostos em lugar apropriado peças de roupa, fotografias, ourivesaria e todo o género de recordações.
         Nos grandes ou pequenos santuários, como da Senhora da Orada, em dias de romaria, os crentes exibem velas acesas como agradecimento. Não se perpetuam no tempo. Enquanto dura a cerimónia, a súplica, o pedido ou o agradecimento pela graça recebida, as velas alumiam, é a forma de pagamento pela graça que a divindade concedeu.
Tudo isto está enraizado nos cultos de raiz popular.    
O Homem, ser finito, pelas suas fragilidades e dores, é limitado. Por isso tem necessidade de recorrer à acção benevolente dos santos, eles são os mediadores entre Deus e o Homem. Estas situações acontecem quase sempre quando a esperança na ciência se esgotou, voltando-se a pessoa para o além, para conseguir o milagre, por intercessão do santo a que se recorre.
A principal razão da existência dos ex votos é a gratidão pela graça concedida, mas para isso o pedido tem que ser acompanhado de muita fé. Porque a fé, nas obras se vê.

J.M.S





M. L. Ferreira

domingo, 21 de maio de 2017

Béjar

Na passada quinta-feira, fui de visita de estudo a Espanha. A manhã foi passada em Moraleja, num intercâmbio escolar, e depois rumámos a Salamanca. Logo a seguir a Plasencia, surgiu-me aquela que eu conhecia apenas dos registos paroquiais: Béjar. Ao contar a história da vinda dos antepassados do Robles Monteiro para a Covilhã, esqueci-me de fotografar, mas esta é a paisagem vista da autoestrada.



O percurso aqui marcado passa na fronteira de Marvão (Galegos), mas nós (SVB) atravessaríamos nas Termas de Monfortinho e dali diretos a Plasencia. É perto.
Béjar é uma cidade de montanha. Ainda havia neve, não tanta como na foto. A abundância de água e de gado ovino fizeram surgir uma forte indústria de lanifícios, daí a contratação do João António Robles (roble é carvalho, em castelhano) para vir ensinar os operários portugueses, no tempo do Marquês de Pombal.
O meu colega, professor de Espanhol, contou-me que ali se situa a praça de touros mais antiga de Espanha, ainda de planta retangular. A meia encosta, existe uma aldeia de montanha com uma arquitetura tradicional, muito bonita (vê-se da autoestrada). Anualmente, realiza-se em Béjar um importante festival de blues.


Este registo refere o batismo de Josefa, nascida a 28.10.1812, filha de Bernardo Ribeiro Robles, da Covilhã, e Antónia Raimunda Ribeira, de São Vicente da Beira, neta paterna de João António Robles e Belchior Gomes, naturais de Béjar, Espanha, e neta materna de José Custódio Ribeiro, de SVB, e Maria Hipólita Cassiana, de Zalamea, Espanha.
Acima referi que este Robles e a sua esposa eram os antepassados do Robles Monteiro. Mas sê-lo-ão também de pessoas ainda a viver em São Vicente.

José Teodoro Prata

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Aos domingos

O domingo era o dia do descanso das lides do campo e da confraternização com a família. Era sobretudo religioso: ir à missa era um compromisso a que ninguém se atrevia a faltar. Envergava-se o melhor fato. As mulheres cobriam a cabeça com um véu arrendado. A igreja enchia-se: os homens ao fundo, no coro e nos camarins, as mulheres nos bancos e à frente as crianças, nos primeiros bancos e nos degraus de madeira dos altares, sob o olhar vigilante das catequistas, a Menina Amélia, a Menina Graça a tia Estela Passaraça e a Menina Maria de Jesus. As meninas ficavam todas juntas, com os seus vestidinhos engomados e com o lencinho de assoar bordado, preso na mão. A missa demorava, algumas pessoas adormeciam, no abandono do corpo enfim repousado e aconchegado pelo calor e pelo já longo sermão, previamente elaborado, do pároco.
À saída da missa todas as pessoas se concentravam em redor da igreja, agrupando-se para cumprimentar os familiares e para por a conversa em dia. Lembro-me de ser muito pequena e olhar em redor e ver um mar de saias compridas e já não saber qual era a da minha mãe. Cumprimentavam-se os familiares, reviam-se tios e tias, avós e netos, recebiam-se carinhos e palavras calorosas. Os homens dirigiam-se para a taberna, com os filhos ainda rapazitos a reboque e confraternizavam, acompanhados de um copito de vinho, onde por vezes se perdiam, até tarde.
No muro da praça, alguns agricultores vendiam fruta da época. A mãe comprava-nos um dióspiro ou uma romã a cada um que sabiam a pouco e nos ajudava à subida da quelha, no regresso a casa. E no tempo das melancias, era com cada uma, enormes, vermelhinhas e suculentas. Estas, era o pai que as comprava e carregava ao ombro, quelha acima.
Da parte da tarde, por vezes, íamos visitar os avós maternos à Oriana. Fazenda enorme soalheira e fértil situada na parte sul da vila. A casa ficava situada mesmo junto à estrada nova, pelas traseiras e a frente virada para sul, com uma varanda corrida de madeiras cruzadas em losangos, entrelaçadas por trepadeiras, cravos e cravinas bem cheirosas. As flores preenchiam também parte dos muros que dividiam os leirões e que em certas alturas do ano se enchiam de cores.
Juntávamo-nos aos tios e tias, que ficavam a conversar, enquanto os miúdos se entretinham nas brincadeiras. Às tantas, o avô João Prata pedia à avó para ir ao forro buscar fruta para dar aos netos. A avó Doroteia subia os degraus largos de madeira da escadaria que levava ao forro. Lá em cima no soalho, estendiam-se as maçãs sobre a palha que assim se conservavam nos meses de inverno. Encostadas à parede, arcas enormes de madeira onde eram guardados os cereais. Ao lado, as bilhas de zinco com o azeite. Então a avó descia a escada com uma abada de fruta e distribuía pelos pequenos. Mas estes, rebeldes e ainda insatisfeitos, corriam pelos leirões abaixo que se estendiam desde a casa até ao ribeiro, férteis, salpicados de cores, transformados em pomares onde as laranjeiras, carregadinhas de laranjas, abundavam.
No lameiro, altos arbustos em flor, como o noveleiro, carapeteiro e roseiras, ladeavam a represa que ligava o ribeiro ao tanque a transbordar de água límpida, para a rega. Era ali também que as mulheres da casa lavavam a roupa, por vezes na companhia de amigas mais próximas, tempo também aproveitado para conviverem e trocarem confidências.
Os pequenos assaltavam as laranjeiras e tiravam a barriga de misérias e iam atirando algumas aos mais pequenos, que ficavam em baixo, à espera. A avó Doroteia perseguia-os, gritava com eles e punha-os em fuga.
A avó era uma mulher que vivia no seu mundo silencioso, habituada ao trabalho e à obediência ao marido. O avô era um homem inteligente e trabalhador, mas firme no carácter. Deu o seu melhor aos filhos, trabalho e também a educação possível para a época e permitiu-lhes crescer trabalhando no amanho das terras, que eram o sustento da família, ou aprendendo um ofício.
Noutros domingos íamos visitar os avós paternos, no Casal da Fraga: o avô Francisco e a avó Maria do Rosário. Eram pessoas humildes e com um enorme coração. Havia sempre uma fatia de pão com queijo fresco para os netinhos.
Em cada família das tias do Casal e na nossa, havia um domingo por ano que era o dia da matação. Toda a família se juntava: logo de manhã, os homens chegavam para matar e pendurar o porco, mais tarde chegavam as mulheres que, após um farto almoço com toda a família, iam lavar as tripas ao ribeiro, cortar as carnes, temperá-las e tratar dos enchidos. Após uns dias era ver o fumeiro junto ao tecto da cozinha por cima da lareira, com as morcelas, as chouriças, os chouriços e as farinheiras, que emanavam um cheirinho de fazer crescer água na boca.
Também havia o domingo de Páscoa, da Ressurreição. As famílias limpavam cuidadosamente as casas e enfeitavam-nas com flores. O padre Branco com as suas vestes brancas levava a água benta. O Sacristão, o sr. António Maria, com a sua batina vermelha, levava a Cruz de Cristo, toda enfeitada com flores. Os donos da casa mais os familiares próximos faziam um círculo à volta da sala e era-lhes dado o Cristo a beijar. A casa era abençoada pelo Padre, com a água benta. Os pequenos corriam de casa em casa a beijar Nosso Senhor e iam comendo e enchendo os bolsos com os doces e tremoços, que cobriam as mesas.
E no domingo da Senhora da Orada? Era uma alegria. Na véspera tratava-se da merenda, onde não faltava o frango frito e os ovos verdes. Na manhã de domingo, todas as veredas, caminhos e estradas, desde São Vicente e povoações dos arredores, se enchiam de peregrinos, carregados com as cestas do almoço, na mão ou à cabeça, cantarolando, em direcção à ermida. Ao aproximarem-se, já se ouvia o padre e os fiéis a rezarem o terço. Toda a zona envolvente se enchia de barraquinhas, onde se vendiam guloseimas e brinquedos para regalo da pequenada. As mães não podiam deixar de comprar aos pequenos a Nossa Senhora de Açúcar, que era pendurada ao pescoço por uma fita e depois comida no regresso a casa. As pessoas enchiam o terreiro da capela, para ouvir a missa, sob a sombra das grandes amoreiras, no chão, um tapete de flores branquinhas. A seguir à procissão, as famílias procuravam-se e juntavam-se para almoçar: estendia-se uma manta de trapos no chão, à sombra de pinheiros ou amieiros, no meio de mato florido ou relva, o barulho da água a cantarolar no ribeiro e dos passarinhos a cantar. Por cima estendia-se a toalha, onde se colocava a merenda. As famílias sentavam-se em redor, comia-se com vontade e convivia-se.
Quando já era mais crescida, nos domingos à tarde e com a difícil e conseguida permissão dos pais e com a promessa de regressar antes de se fazer noite, ia sair com as minhas amigas. As conversas aconteciam na Praça, na Fonte Velha e por vezes no café da beira da estrada, onde bebíamos uma coca-cola, uma Pepsi ou uma Seven-Up, acompanhada com um prato de amendoins. Quantos namoros começaram assim!
Dávamos passeios na estrada nova, por vezes com alguns rapazes no encalço, uns metros atrás. Mandavam olhares comprometedores e piropos. Havia risos entre os grupos, por vezes trocistas. Nas árvores da estrada eram gravados nomes, corações, juras de amor.
Sentávamo-nos na Praça e jogávamos ao anel e ao lenço, com os rapazes. Era o ponto de partida para uma aproximação entre rapazes e raparigas.
À tardinha quase ao por do sol com o tempo bom, havia baile na Praça, no cantinho, ao pé do café da tia Janja. O César montava a aparelhagem que ligava ao café e punha o funil na árvore do canto da Praça que se enchia com músicas e alegria.
As raparigas sentavam-se de um lado e os rapazes do outro, dançávamos Rock and Roll em grupo, slows e corridinhos. Quando a música era para dançar a dois, os rapazes faziam sinal à rapariga ao longe, ou iam busca-la, se se sentissem seguros. Dançáva-se ao som dos ABBA e outras músicas então em voga. Era então o tempo do despertar de novas emoções, de incendiar as paixões, dos encontros e desencontros.
Quando estava muito frio e chuva, o baile fazia-se num salão ao pé da capela de São Sebastião. Este era também utilizado para teatro e projecção de filmes, o cinema ambulante. As bancadas eram feitas com tábuas de madeira corridas, o filme era projectado num grande papel branco ou um pano a cobrir o palco. Lembro-me do filme que me impressionou e vi naquela sala: O Tubarão. Uma delícia e uma saudade enorme daqueles domingos.


Tina Teodoro

domingo, 14 de maio de 2017

O Espírito Santo

Publiquei, a 3 de abril de 2011, um artigo intitulado Os franciscanos em São Vicente. Recupero a parte inicial:

«A presença franciscana remonta, na nossa terra, possivelmente, ao século XV ou XVI. Quase todos os templos da Vila são desses finais dos tempos medievais e inícios da Idade Moderna, exceto a Igreja Matriz (erigida na época da fundação da povoação) e a Orada (é muito mais antiga que a Matriz, mas a atual capela também foi construída naquele período).
Nesses fins da Idade Média, São Vicente terá alcançou o seu máximo desenvolvimento económico e social. Houve então riqueza para levantar templos, palácios e equipamentos públicos, como a Câmara Municipal e o Pelourinho.
A capela de São Francisco não foge a esta regra. O grande arco de volta perfeita, no seu interior, com a aresta cortada, é, na nossa Beira, tipicamente quinhentista. Esteve, até há poucos anos, pintado de azul.
Mas o templo não foi, desde o início, de devoção a São Francisco, mas sim a Santo António, ele próprio franciscano e contemporâneo do fundador da Ordem Franciscana, com quem ainda se encontrou, na Itália que depois o adotou como seu e onde se tornou um dos santos maiores da Cristandade.
Foi, pois, a capela dedicada a Santo António, até 1744. Nesse ano, veio a São Vicente um grupo de frades franciscanos pregar uma missão. E sementeira foi de tal modo fecunda que, nos anos seguintes, a capela deixou de pertencer apenas a Santo António para a ser, sobretudo, dedicada a São Francisco. Nela teve sede, logo de seguida, a Irmandade da Ordem Terceira…»


São Francisco recebendo a bula da criação da Ordem Terceira das mãos do Papa Inocêncio III. 
Procissão dos Terceiros, 2010 ou 2011.

Ando a ler o livro FRANCISCO, Desafios à Igreja e ao Mundo, do Pe. Anselmo Borges, e ontem encontrei algo que diz diretamente respeito a São Vicente da Beira. Cito uma parte do capítulo “As «sopas» do Espírito Santo”, páginas 242 e 243:

            A propósito das festas do Divino Espírito Santo, nos Açores, escreveu o Pe. Anselmo Borges:
            «Se formos à procura da origem destas festas, encontramos um monge célebre do século XII, Joaquim de Fiore, que deu o joaquinismo. Segundo ele, a História do mundo está dividida em três idades: a Idade do Pai ou da Lei, que é a idade da servidão e do medo; a Idade do Filho, que é a idade da submissão filial; a Idade do Espírito Santo, na qual se ia entrar, e que é a idade do Amor, da Liberdade e da Fraternidade.
[Segue-se um parágrafo em que se refere o eterno conflito no seio da Igreja entre o lado institucional e hierárquico e o lado espiritual e fraternal; a esta nova mensagem revolucionária tinham aderido os franciscanos espirituais, desgostosos com os papas que abafavam o Espírito. Os franciscanos espirituais viriam a abrir um convento na serra da Arrábida.]
            Em 1282, D. Dinis casa com D. Isabel de Aragão, a futura Rainha Santa. (…) Toda a família da nova rainha de Portugal era partidária dos frades espirituais e a própria rainha possuía um conceito franciscano de vida: simplicidade, despego dos bens terrenos, amor aos pobres e fracos. Santa Isabel protegia os franciscanos, e foi por seu intermédio que entrou um culto especial ao Espírito Santo. Fundaram-se confrarias do Espírito Santo, irmandades de socorro mútuo, e instauraram-se as Festas do Império do Espírito Santo, nas quais se celebrava o Pentecostes, comemorando a descida do Espírito santo sobre os Apóstolos.

            Ora São Vicente da Beira, embora nos últimos séculos não tenha nenhum culto ao Espírito Santo, teve-o na Idade Média, precisamente na sequência da difusão do joaquinismo em Portugal, pelos franciscanos protegidos da Rainha Santa. É que, em 1362, menos de 100 anos após a chegada de Isabel de Aragão a Portugal, existia na Vila a albergaria do Espírito Santo, certamente gerida por uma confraria do Espírito Santo. Pensa-se que foi esta irmandade que deu origem à nossa irmandade da Misericórdia, na sequência de nova dinâmica fraternal criada por uma outra rainha, D. Leonor, nos finais do século XV. Os fins eram os mesmos e talvez até a albergaria da Misericórdia, situada no início da Rua da Misericórdia, fosse a mesma antes chamada do Espírito Santo.

José Teodoro Prata

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Tempo de milagres

Os autores têm tentado, ao longo dos séculos, explicar o nosso mundo, quer material e físico, quer espiritual. A matéria, de certa forma, impõe-se-nos aos sentidos. O que não acontece com o mundo espiritual. Pese embora tudo não seja assim tão simples, vamos supor que é! E, assim, nada espanta que seja mais fácil explicar o primeiro que o segundo. Acreditar no mundo espiritual é mesmo, para muitos, uma impossibilidade. E essa é a maior razão, por que, talvez, metade da humanidade se diz descrente, ateia ou agnóstica. Mas vejamos: o que dizemos nós acerca do Amor, da Justiça, da Paixão ou da Beleza?! A nossa vida está carregada dessas vivências, desses sentimentos! E todos eles fazem parte do nosso mundo afetivo, emocional, irracional, numa palavra, espiritual. À nossa razão, mesmo com a sua dura lâmina e finíssimo corte, é vedado penetrar na Alma.

Tem isto a ver com uma pergunta que se julga oportuna e atual: que fenómeno, afinal, se terá passado em Fátima? Ou nada se terá passado, a não ser uma espetacular manifestação popular, sedenta de um unguento para a suas feridas corporais e espirituais? Não podemos negar as experiências pessoais destes casos, se relatadas por pessoas idóneas e de boa fé, tomando-as como fantasias. A questão é saber como podem tais fenómenos ser entendidos pela generalidade da população, se só os que os vivenciaram os puderam conhecer? Percebe-se por que os três pequenos pastores de Fátima, pediram à visão, a qual diziam ser Nossa Senhora (Mãe Terrena do Jesus histórico), que fizesse um milagre que seria o sinal para que todos acreditassem no que eles próprios vivenciaram.

Esse terá sido o chamado milagre do sol, a 17 de outubro de 1917. Já lá iremos. Mas sobre Fátima há explicações para todos os gostos! Uns dizem que foram extraterrestres. Entre teólogos e padres católicos, uns dizem que foram aparições, outros, visões. O padre Mário de Oliveira (católico dissidente), nega o caso de Fátima. Frei Bento Domingues parece que também tem dúvidas quanto à narrativa das chamadas aparições. O atual bispo de Leiria-Fátima, compara a visão dos videntes com o Crucificado. Isto é, quem morre fisicamente não pode mais aparecer aos nossos olhos com a sua dimensão material. Outros se pronunciaram. De entre todos, Ratzinger, iminente teólogo, atual papa emérito, Bento XVI. O antropólogo Moisés Espírito Santo entende que Fátima é uma manifestação do Islão (com base na ocupação do território português pelos Mouros). Fátima é a filha do Profeta Maomé, sendo, por isso, um topónimo árabe, etc., etc. Um ponto, porém, parece impor-se como convergência de muitos dos autores e estudiosos do fenómeno. Dizem que algo se passou em Fátima, especialmente, naquele dia 13 de outubro de 1917! O único milagre relacionado com o sol é descrito no Antigo Testamento, quando se diz que Deus parou aquele astro para dar tempo a que Josué pudesse desbaratar o inimigo de Israel, com quem travava uma batalha, tarefa que não poderia levar a cabo, caso entretanto anoitecesse! Trata-se, certamente, de mais uma descrição simbólica de que está pejada a Bíblia!

Como crente, ressalvo a ideia de que a Deus nada é impossível. Uma premissa irredutível! Mas como curioso destes acontecimentos e ser racional, admito que será lícito assentar no seguinte: não é admissível que o sol físico, o astro sol, se tenha deslocado um centímetro que fosse do seu lugar! Porque isso seria uma hecatombe universal com consequências inimagináveis para a vida do sistema solar e, particularmente, da Terra! Por outro lado, se se tratasse de um fenómeno dessa magnitude, tal teria que ser visto em cerca de metade da Terra. Quer dizer, em todos os locais onde, àquela hora, o sol fosse visível, caso não houvesse nuvens! Atenta, obviamente, a hora e o fuso horário de Portugal. Com efeito, sabendo nós que Terra é redonda, ela está permanentemente iluminada de um lado, onde é dia, enquanto no outro é noite.

Ora, parece que não existe notícia de qualquer registo em observatórios astronómicos por esse mundo fora, relativamente aos acontecimentos desse dia em Portugal. Se assim for, o caso leva-nos, forçosamente, à conclusão (como dizem algumas fontes) que o fenómeno terá tido lugar no céu de Fátima apenas a cerca de 500 metros de altura (numa avaliação grosseira), a calcular a partir do local mais distante do epicentro onde terá sido observado (e de que há notícia), que foi a casa do poeta Afonso Lopes Vieira, situada a cerca de 40 Km de Fátima, que disse tê-lo testemunhado.

Alucinação coletiva da multidão, como a Psicologia procura explicar? Esta tese não colhe juntos dos estudiosos (ou pelo menos da maioria), porquanto o acontecimento foi visto por muitos: crentes, descrentes, ateus ou agnósticos. E se os nossos olhos só veem o que querem ver, só os crentes estariam imbuídos de uma predisposição interior para aceitar o fenómeno como uma ilusão. Como explicar que uns tenham visto e outros não? Dois exemplos para ilustrar: algumas fontes dizem que o poeta e ensaísta português, António Sérgio, estava lá acompanhar a esposa e nada viu. Mas há outra testemunha ocular que atesta o contrário. Trata-se de um professor de Ciência Naturais da Universidade de Coimbra que nunca tinha visto um fenómeno como o que presenciou. E não conseguia explicar o que tinha acontecido, com o sol a rodar e a mudar de cor.
        
E aconteceram todas aquelas coisas descritas como maravilhosas por milhares de testemunhas. Coisas sobejamente conhecidas em Portugal e em todo o mundo! Em face do que a Igreja Católica acabou por aceitar tudo como manifestação sobrenatural e divina, oficializando o culto mariano de Fátima. O que foi, definitivamente, confirmado com a vinda, pela primeira vez, de um papa a Fátima, Paulo VI, em 1967 (por ocasião do 50.º aniversário das aparições). Já vimos que, sobre estas coisas, cada um diz o que sente ou o que lhe parece, com mais ou menos informação.  

Já foi publicado neste blogue o seguinte texto: «E, quando já não imaginava que via alguma coisa mais impressionante do que essa rumorosa mas pacífica multidão animada pela mesma obcessiva ideia e movida pelo mesmo poderoso anceio, que vi eu ainda de verdadeiramente estranho na charneca de Fátima? A chuva, á hora prenunciada deixar de cair; a densa massa de nuvens romper-se e o astro rei - disco de prata fosca - em pleno zenith aparecer e começar dançando n'um bailado violento e convulso, que grande numero de pessoas imaginava ser uma dança serpentina, tão belas e rutilantes côres revestiu sucessivamente a superfície solar…
Milagre, como gritava o povo; fenomeno natural, como dizem sábios? Não curo agora de sabel-o, mas apenas de te afirmar o que vi...O resto é com a Ciência e com a Egreja...» AVELINO DE ALMEIDA 
(in Jornal “O Século”, de 17/10/1917). A grafia é da época).

Perante um testemunho tão claro evidente, creio que não foi tanto a história dos três meninos, nem foram os textos da Lúcia, embora em coerência com os acontecimentos históricos posteriores, que lograram levar tanta gente a acreditar em Fátima! Também não foi a revelação do terceiro segredo, no ano 2000, que ficou muito aquém das expectativas. E que se baseia apenas numa interpretação peculiar daqueles textos pelo papa João Paulo II. O que, verdadeiramente, pôde levar a acreditar que algo de extraordinário se passou em Fátima, em 1917, foi este texto desse desconhecido e obscuro jornalista d’ “O Século”, Avelino de Almeida, publicado naquele jornal alguns dias depois do sucedido. Um insuspeito antigo seminarista do seminário de Santarém, ateu e anticlericalista.

Na verdade, nunca saberemos o que terá acontecido naqueles dias na Cova da Iria. E ainda menos conheceremos a sua verdadeira natureza. Porém, continuamos a ver passar essa impressionante multidão de peregrinos! Já não são 50 ou 60 mil, mas 1 milhão! Massa de gente, consciente da sua inexorável finitude! Sôfrega de curar as maleitas próprias da sua condição! Pedindo um bálsamo para as dores e um momento de paz! Como há dias dizia um frade anónimo na televisão: “Talvez seja esse o maior milagre de Fátima”!

A fé é isso mesmo. É acreditar. Apesar das dúvidas, que sempre teremos. Porque acreditar, está para além de toda e qualquer compreensão. O tempo é, pois, de milagres!

José Barroso  

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Fátima

A Senhora

Certo dia num lugar isolado
Três inocentes criancinhas
Apascentavam ovelhinhas
Uma olhou para o lado

Olhem para além
Diz a pastorinha
Mais velhinha,
Vamos ver também

Em cima de uma azinheira pousou
Uma Senhora muito brilhante
Com voz doce, sorridente
A aparição falou

Sou a mãe de Jesus
Fala com delicadeza
A sua beleza
É uma torrente de luz

 Docemente a sorrir
A Senhora da claridade
Cheia de bondade
Diz aos pastorinhos vou subir

Quero-vos ver aqui novamente
No próximo mês a esta hora
Adeus, vou-me embora
Com as mãos postas subiu lentamente

Ave Maria mãe de Deus
Rezam ajoelhados
Enquanto olhavam extasiados
A Senhora que subia aos céus

Zé da Villa 

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Mordomias

Éramos amigos desde que me lembro. Não que tivéssemos andado os dois a brincar na Praça, que naquele tempo começávamos a trabalhar logo assim que aprendíamos a andar e a rua eram só para alguns, mas porque às vezes nos encontrávamos por lá, quando íamos com as cabras ou ao mato e fazíamos companhia um ao outro.
Depois ele foi para a escola e já não nos víamos tanto, mas continuámos a dar-nos bem. Depois fui eu que abalei para Castelo Branco, a trabalhar para as obras, e já só nos encontrávamos de raro em raro.
Quando chegou a altura da tropa, eu fiquei por cá e a ele mandaram-no para Angola, e foi aí que perdemos o rasto um do outro.
Um dia estava eu sentado ali na Sé, em Castelo Branco, a fazer horas para a camioneta, e vejo parar um vulto à minha frente, mas nem fiz caso.
            - Então tu já não me conheces, homem?
            - Olha quem é ele! Dá cá um abraço, homem! Estava bem longe de te ver aqui hoje!
            - Há quantos anos é que a gente já não se via!
- Já lá vão uma tormenta deles! E olha que se tu não me falasses já nem te conhecia! Eras assim um lingrinhas como eu e agora estás tão gordo! E todo engravatado, que até pareces um doutor…
            - Mas olha que eu a ti conheci-te bem! Estás na mesma… Olha lá, tu já comeste?
            - Eu não; como quando chegar à terra.
            - Anda mas é daí que hoje comes comigo, que ainda é cedo para a camioneta.
E fomos a uma casa de pasto que havia ali ao pé. Mal nos sentámos, puseram-nos logo à frente uma grande travessa de frango com batatas fritas, um pão inteiro e um jarro cheio de vinho. Quando acabámos de comer, fiquei à espera que trouxessem a conta e até com medo que não tivesse dinheiro que chegasse, mas nada. Ele levantou-se, pegou-me por um braço e saímos porta fora, que já se estava a fazer tarde para a camioneta.
            -Então, não pagamos o comer?
            - Deixa estar, que já está pago.
            Se ele o dizia...
            - E quando cá voltares, procura por mim na Devesa, que eu ando muito por lá, e bebemos umas cervejas. Agora também tenho que ir apanhar a camioneta, que tenho que apresentar serviço.
            - Não me digas que és cobrador…
            - Ná; cobrador não sou, mas ando de cá para lá a ver em que é que param as modas, que andam por aí uns meninos a modos que a mijar fora do testo…
            Ainda nos encontrámos mais umas poucas de vezes. Ou comíamos o frango com batatas fritas ou bebíamos umas cervejas, que eu nem gostava muito daquilo, mas mal a gente entrava num lado qualquer metiam-nos logo uma rodada à frente. E quando ia para pagar, era sempre o mesmo:
 - Mas que vida é a nossa? Come-se e bebe-se e não se paga? Nunca tal se viu.
            - Então, eles querem assim… Não te rales.
          - Ná! Assim não nos entendemos. Lá que tu não pagues, vá que não vá, que se calhar até és amigo deles, agora eu não os conheço de lado nenhum.
Um dia íamos a entrar num café muito fino que lá havia, que até tinha uma porta que andava à roda e tudo. A ele deixaram-no entrar, mas a mim houve logo um que me deitou a mão:
            - Aonde é que você vai? Não sabe que não pode entrar aqui sem gravata!
            Ele olhou para trás e só disse estas palavras:
            - Quem é que disse que não pode? Ele vem comigo e entra onde eu entrar!
E entrei. E serviram-nos como se fossemos uns doutores. Mas doutra vez entrámos num café onde estavam uns poucos à conversa. Assim que nos viram, ó pernas para que vos quero! Só o ouvi murmurar:
            - Ide-vos embora, ide, que eu logo vos cozo…
Até fiquei parvo. Se os homens não tinham feito mal nenhum, porque é que ele estava com aquelas coisas?
Depois eu casei-me e fui para a França, e nunca mais nos vimos. Um dia, passados uns anos, ouvi dizer que tinha morrido, não se sabe bem como. Aí lembrei-me daquelas patuscadas à borla e de ter pensado cá para comigo que tantas mordomias ainda haviam de acabar mal. Antes me tivesse enganado, que ninguém gosta de ver acabar mal um amigo.

M. L. Ferreira 

domingo, 7 de maio de 2017

Ditos de mãe

Ouvi esta canção na rádio há algumas semanas e já a não recordava.
A letra é de um poeta galego do século XIX.


José Teodoro Prata

Mãe

Pequeno Poema

Quando eu nasci, 
ficou tudo como estava. 

Nem homens cortaram veias, 
nem o Sol escureceu, 
nem houve estrelas a mais... 
Somente, 
esquecida das dores, 
a minha Mãe sorriu e agradeceu. 

Quando eu nasci, 
não houve nada de novo 
senão eu. 

As nuvens não se espantaram, 
não enlouqueceu ninguém... 

Pra que o dia fosse enorme, 
bastava 
toda a ternura que olhava 
nos olhos de minha Mãe... 

Sebastião da Gama, in 'Antologia Poética' 

José Teodoro Prata

sábado, 6 de maio de 2017

Histórias de vida

É raro encontrar-me com alguns dos meus amigos. A vida foi-nos espalhando pelo mundo e só de ralo em ralo nos encontramos.
Tenho um grande amigo a viver na zona da Cova da Beira, mas não o informei das apresentações do livro Dos enxidros aos casais...
Não teve conhecimento da apresentação em São Vicente, mas a de Castelo Branco foi noticiada no Jornal do Fundão e por isso recebi um ralhete, via telefone, logo que ele leu a notícia.
Desenrasquei-me como pude, com a promessa de lhe levar um livro na minha ida já programada à Covilhã.
Quando nos encontrámos, entreguei-lhe o livro e expliquei-lhe o projeto. 
Ele exclamou: Era isto mesmo que eu queria que a minha mãe fizesse.
Semanas depois, informou-me, feliz, que estava (e ainda está) a escrever a história da vida dos seus pais, com base no que a mãe lhe contava (e conta). Já vão em perto de 100 páginas. 
Mas o importante não é o livro como produto final. Ele é apenas o meio para tornar mais felizes os dias de uma senhora de perto de 100 anos, ao relembrar e sentir valorizadas as suas vivências de tantas décadas. 
Por sua vez, o meu amigo redescobre na sua família um mundo de caraterísticas e afetos que afinal não conhecia assim tão bem, ao mesmo tempo que se revela em si, letrinha a letrinha, o escriba que desconhecia.
Se não tivéssemos já tantas razões nobres para justificar a nossa obra, esta chegava e sobrava.

Ilustração do livro realizada pelos alunos do 2.º Ciclo de Alcains e São Vicente da Beira.
A imagem ilustra a história "A pedra da sobreposta", de José Manuel dos Santos.
A pedra da sobreposta situa-se na vertente sul da serra da Gardunha, na freguesia da Soalheira, e será o maior bloco granítico do país.

José Teodoro Prata

terça-feira, 2 de maio de 2017

Viva a República!

Naqueles dias…
Depois da fracassada revolução republicana do Porto de 1891, um grupo de estudantes da universidade de Coimbra, alguns anos mais tarde, organiza uma sociedade secreta. Tinham como objetivo o derrube da monarquia.
Estávamos no fatídico ano de 1895 (extinção do concelho de São Vicente da Beira).
O ultimato inglês gerou uma onda de descontentamento nacional, nascia assim uma férrea vontade de destruir o regime monárquico
Os “conspiradores” reuniam-se em Lisboa nos subterrâneos de uma casa.
Peripécias atrás de … nasceu a Carbonária Lusitana chefiada pelo jornalista José Nunes. Outras apareceram como a Carbonária dos Anarquistas…
À medida que o tempo passava, os frutos maceravam lentamente, a chama da implantação republicana não esmorecia e assim, no dia 1 de Fevereiro do ano 1908, o rei Dom Carlos e sua família atravessavam num landau o Terreiro do Paço, vindos do paço ducal de Vila Viçosa, e aconteceu o regicídio.
Na história da monarquia portuguesa nunca tal tinha acontecido. O monarca é assassinado e o seu filho primogénito Dom Luís Filipe morre também. Dom Manuel escapa, assim como sua mãe rainha Dona Amélia,
Dom Manuel II, sem grande experiência governativa, ainda aguentou o leme dois anos até que, no dia 5 de Outubro de 1910, se dá a queda da realeza em Portugal. O rei é desterrado, é implantada a república
Como relataram dois jornalistas espanhóis, Augusto Vivero e Antonio de la Villa, que acompanharam os revoltosos: “la revoluciôn más hermosa que registra la Historia”.
Industria, comércio, agricultura, nada… Um povo de analfabetos; pobres, muitos; nobres, bastantes. Só muda a primeira letra. Estradas, poucas e abandonadas, os bufos eram aos montões…
Ao contrário de Abril, onde o povo anónimo saiu à rua em massa, no 5 de Outubro, os  entrincheirados na Rotunda não eram muitos, mesmo poucos havia algo que os norteava, a fé em dias melhores.
João Franco era o ministro todo-poderoso do monarca Dom Carlos, o povo detestava o rei. Os aditamentos à casa real… Hoje são licenciaturas atribuídas sabe Deus como.
João Franco, com o parlamento fechado, publica um decreto (30 Agosto 1907) que liquida as dívidas do rei e aumenta-lhe a sua lista civil. Dom Carlos, que um dia chamou piolheira à sua nação, não teve pejo em assinar essa medida, talvez tenha sido a causa principal da sua morte. (Pesquisa: História Contemporânea de Portugal. Amigos do Livro, editores)
Adiante. A república triunfou, o rico lavrador de Alpiarça José Relvas proclama do alto da varanda da câmara municipal lisboeta o triunfo dos republicanos comandados por Machado dos Santos. Dom Manuel II e sua família embarcam na Ericeira rumo ao exílio.
O povo, com rei ou sem rei, amocha carregadinho de impostos. Os talassas, vira casacas, adesivos, passaram para o lado dos vencedores. Ontem como hoje…

Deixemos a História e vamos ao tema que me fez escrever tudo isto.
Naquele tempo, o pobre povo viu acender-se uma luzinha ao fundo do túnel, os conservadores não desarmavam, no mundo rural os caciques seguidores do miguelismo imperavam.
 Nas revoluções há os que ganham e os que não ganham, os simpatizantes e os não simpatizantes da nova ordem.
Silvares era uma aldeia pacata encravada nas faldas da Estrela, terra pobre, atravessada pelo Zêzere, nas suas margens havia bons nateiros onde se criavam milheirais e outros mimos, muitos trabalhavam nas minas, o povo crente enchia a igreja para assistir aos ofícios divinos, o pároco nesse tempo chamava-se José Lopes da Assunção, natural de São Vicente da Beira.
Homem possante, corajoso, alto e forte, amiudadamente frequentava uma taberna onde cavaqueava e bebia um copo ou dois de vinho. Num canto sentado num banco corrido encontrava-se um aldeão simpatizante da causa republicana.
A revolução estava fresca, padre Lopes, monárquico, não comungava os ideais liberais republicanos. Certo dia, entrou na baiuca, aproximou-se do balcão e entabulou conversa com o dono do estabelecimento.
Com um grão na asa, o aldeão grita bem alto:
- “Viva a República”. Padre Lopes voltou-se para ele, fuzilando-o com os olhos e nada mais fez.
No dia seguinte, a história repetiu-se, engoliu em seco e saiu.
Passaram alguns dias; o padre entra novamente na taberna, sentado no banco corrido, o mesmo personagem:
 - “Viva a República”.
O senhor prior aproxima-se, segura-o pelas golas do casaco, levanta-o no ar ergueu-o batendo-lhe com a cabeça “três vezes” nos caibros enegrecidos pelo tempo. Quando o largou, de frente para ele, disse:
            - Diz lá outa vez “Viva a República”.
O aldeão levantou-se meio cambaleante e saiu. Nunca mais o desafiou.
O padre Lopes viveu os últimos anos na vila, a sua casa situa-se na Rua da Cruz. Faleceu no dia 14 de Março do ano 1964, com 79 anos.
O povo de Silvares deslocou-se em peso a São Vicente da Beira, para assistir ao seu funeral, durante alguns anos vinham em romagem visitar sua campa.

Os que bebem para falar, por vezes apanham para se calarem.


J.M.S

O tesouro do Mourelo

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José Teodoro Prata

domingo, 30 de abril de 2017

1.º de Maio


A imagem não tem qualidade, mas, pela foto de Mário Soares a chegar de Paris e pelo subtítulo, 
a notícia será de um dos dias entre 25 de Abril e 1 de Maio.
No 1.º de Maio comemoram-se as lutas pela jornada 8 horas de trabalho, 
iniciadas em Chicago e duramente reprimidas.
Em Portugal, essa conquista só chegou depois do 25 de Abril, assim como o feriado.
Para se ter uma ideia da situação do mundo do trabalho, num país com o catolicismo como religião oficial do Estado, foi necessário chegarem ao poder os "hereges" republicanos (1.º República, 1910-1826), para que os trabalhadores conseguissem o direito ao descanso semanal (ao domingo).
Por isso, o feriado do 1.º de Maio encerrada uma simbologia muito forte!
E por isso não irei às compras amanhã, seria uma falta de respeito pelos trabalhadores que iria encontrar. Já basta a sofreguidão com que as entidades patronais tentam desregular a vida familiar dos seus empregados, não é preciso que eu alinhe.

Depois de Abril, lembro-me que colaborei nas comemorações do 1.º de Maio, em São Vicente: jogo de futebol e convívio entre solteiros e casados.
Essas comemorações mantiveram-se no Clube dutrante anos. 
Nunca lá pus os pés, pois para o meu pai o feriado era a altura ideal (tal com o do 25 de Abril) para fazer as lavras e as sementeiras no Ribeiro de Dom Bento e na Horta de Estêvão.
Nos anos em que estive no Clube, ajudava a organizar as coisas, 
mas depois ficava-me pelos restos (os sons) que chegavam às Quintas.
Naquela altura ficava revoltado, mas agora, sempre que é Abril ou Maio, apetece-me ir para lá.
Foi o que fiz este ano no 25 de Abril, mas amanhã não, vou com amigos a Malpica, lembrar o Zeca Afonso.


Catarina Euifémia foi assassinada numa greve pela jornada das 8 horas.

José Teodoro Prata

sábado, 29 de abril de 2017

Maio, Maduro Maio


Na segunda, dia 1.º de Maio, voltaremos a Malpica do Tejo, para ouvir João Afonso e Francisco Fanhais, na festa anual a José Afonso.
José Teodoro Prata

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Liberdade

As manas viviam em Lisboa, tinham vivido a revolução do 25 de Abril e vinham cheias de ideias revolucionárias. O povo enfim livre, dava liberdade ao pensamento e eufórico, enchia as paredes de frases revolucionárias. Elas tinham vindo às festas do Verão.
Nessa altura, as casas eram caiadas e viviam-se as festas com tudo a que se tinha direito: as cerimónias religiosas, a música todo o dia e os concertos de bandas ou artistas, na praça à noite, as barraquinhas cheias de novidades e a verbena com muito artigo para leiloar, o fogo de artifício, os bombos e a alvorada bem forte, na madrugada no dia do Senhor Santo Cristo.
Durante os dias da festa, havia rancho melhorado: matava-se o borrego ou o cabrito que tinha sido criado para esse fim. As famílias recebiam os entes queridos que viviam fora e confraternizava-se.
Também na Tapada, a casa foi caiada de alto abaixo. Sobrou alguma cal. Então as manas lembraram-se de imitar os revolucionários e toca de começar a escrever na parede de trás da casa, que dava para a quelha e na parte lateral, ainda rebocada a cimento tais como:
“Independência da Tapada D. Úrsula”, “ Viva o 25 de Abril”, “PCP” com a foice e o martelo, “Spínola Traidor” e “Nacionalização dos Figos do Padre Velho” - havia e ainda existe uma figueira que dá figos brancos pingo de mel que estava num terreno que era do Padre Tomás, mesmo a cair para a quelha. Os figos eram sempre comidos por nós e por quem passava. Mas, naquele ano, alguém se lembrou de comprar os figos, para poder ter exclusividade na apanha dos mesmos, o que nos causou um grande constrangimento e revolta.
Quando o nosso pai chegou a casa, ficou abismado e arreliado com o nosso atrevimento. Um homem honrado, assim como a família, a ser comentado pelas bocas dos vizinhos? O que é que as pessoas haviam de pensar de tudo aquilo? Então não esteve com meias medidas. Era preciso apagar tudo ou não haveria festa para ninguém. Ficámos aflitas. Tínhamos de caiar as paredes todas para apagar tudo, mas não havia mais cal. Era sábado à tarde e as lojas já tinham fechado. No domingo, ninguém saiu de casa. Mas na segunda-feira, dia mais rijo das festas, as lojas abriam de manhã. Era preciso ir comprar mais cal e ficou decidido que iria eu. Todo o caminho fui apreensiva. Entrei na loja do sr. Joaquim Boas-Noites e envergonhada pedi a cal, sempre a pensar o que é que o homem havia de achar de andar a caiar num dia santo como aquele.
Mas o sr. Joaquim Boas-Noites, homem solícito e de poucas falas, lá foi buscar a cal sem comentários. Quando cheguei a casa fomos caiar as paredes, mas a cal estava fraca e não ficou um trabalho exemplar, pois ainda se ficou a perceber o que estava escrito por baixo, durante muitos anos e até há bem pouco tempo, agora que a minha irmã já recuperou a casa.

Tina Teodoro

terça-feira, 25 de abril de 2017

25 de ABRIL

No verão de 1974, fui com uns amigos acampar para a serra da Estrela, no final do ano letivo. Nesse tempo fazia-se campismo na Nave de Santo António. Até lá existia uma capela onde se dizia missa nos domingos. Mas além de uns chuveiros e umas torneiras, não havia mais nada. Era campismo selvagem, como agora se diz, mas a Nave ficava cheia de gente, talvez milhares.
À noite, fomos surpreendidos por magotes de gente que percorria o acampamento a cantar esta canção. De facto, ela resumia tantos anos de luta e sacrifícios dos operários da zona da Covilhã! 



Não era esta que eu procurava, mas achei-a e não resisti, é um portento!
Poema e voz de Manuel da Fonseca, cantada por Vitorino.
Atentem bem na letra.
Um hino aos desprezados de todos os tempos!



José Teodoro Prata

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Moinho de mão

Penso que no passado lhe chamávamos atafona.
O grão do cereal colocava-se no buraco do centro e os orifícios laterais serviam para encaixar algo em que se pegava para mover, à mão, a mó de cima, chamada galga. A farinha saía pelo buraco lateral, à direita.
O sr. Zé Ar (José Duarte?) contou-me um dia que havia uma atafona (chamou-lhe zangarra) na casa onde morava, na Rua da Costa. Já lá estava quando ele comprou a casa.
No século XVIII, existiam duas atafonas em Tinalhas, uma na Rua do Cabo e outra na Praça. Talvez fossem maiores e por isso movidas por animais.
Esta encontrei-a, no Restaurante O Lagar, no Estreito da Câmara de Lobos, Madeira. Mas nas nossas terras haveria muitas, utilizadas ainda nos inícios do século XX.

José Teodoro Prata

sábado, 22 de abril de 2017

Alcunhas 2

Já lai vai mais de um ano que o Zé Barroso publicou aqui no blogue um artigo com as alcunhas usadas na nossa terra. A lista foi sendo completada por vários colaboradores e, no final, já tinha mais de trezentas.
Uma das perguntas que se colocou na altura foi o que fazer a seguir. Parece que não se chegou a nenhum consenso, mas penso que era interessante escrever-se uma pequena história sobre a origem de cada uma. Algumas são tão óbvias que pouco há a dizer; outras perderam-se no tempo e já ninguém se lembrará da sua origem; mas muitas terão por trás episódios interessantes e engraçados.  
Acho que vale a pena tentarmos. Para já, aqui fica a minha colaboração, incluindo também algumas alcunhas da Partida que acho deliciosas:

O Mil Homens
Quando andava na escola todos me chamavam a Mil Homens. Eu ficava muito envergonhada porque achava que era um nome muito feio.
Só mais tarde é que fiquei a saber a origem daquela alcunha e a partir daí senti sempre um orgulho muito grande nela: O meu avô andou na Guerra e quando regressou foi recebido como um herói; mas vinha tão traumatizado que não conseguia falar noutra coisa que não fosse naquilo que por lá passou. Todas as conversas iam dar ao mesmo: as muitas tropas do seu batalhão; os muitos homens nas trincheiras; os muitos mortos pelo chão. Referia-se sempre a eles utilizando a expressão «Mais de mil homens!» um número que ele, analfabeto, achava ser o maior para definir todas as atrocidades que por lá viu e dificuldades que passou. Por causa disto puseram-lhe o Mil Homens e, a partir daí, toda a família ficou conhecida por essa alcunha, até hoje.

O Quinta Casa
Antigamente também não havia grandes farturas na Partida, mas quase toda a gente tinha um bocadinho de terra para tratar uma horta. E havia por cá até algumas casas ricas, com bons lameiros, olivais, terras de pasto e de pinhal que chegavam para eles, para vender e davam trabalho a muita gente.
Um dia o Ti Manuel Lopes pôs-se a deitar contas ao que cada um tinha e, lá para com os seus botões, ia sentenciando qual era a casa mais rica, e a que vinha a seguir, e por aí fora até chegar à dele que, pelas suas contas, estava em quinto lugar. Começou então a gabar-se, para quem o queria ouvir, que a quinta casa maior da Partida era a dele.
A partir daí todos começaram a chamar-lhe o Quinta Casa.

O Conde Caniço
Também tinha muito de seu, o Ti Domingos Nunes. Entre as várias propriedades que possuía, também era dele o Caniço, uma das melhores terras da Partida. Tinha tanto orgulho naquela propriedade que não se calava: «O meu Caniço é a melhor terra que aí há. Nem o conde!».
Tanta vez repetiu aquilo que começaram a chamar-lhe o Conde Caniço.

O Mata Nosso Senhor
Morava no Casal, o João Teodoro. Um dia deu-lhe a preguiça e atrasou-se para vir para a escola. Com medo de apanhar alguma reguada veio o caminho todo a correr até à Vila. Quando chegou à Praça e viu que já toda a gente tinha entrado, correu tanto que até parecia que vinham atrás dele.
Nesse dia o Ti António Mosca andava a podar as olaias e quando o viu naquela pressa, para brincar com ele, desatou a berrar lá de cima da escada: «Agarrem-no! Agarrem-no que foi ele que matou o Nosso Senhor!».
O cachopinho desatou a correr ainda mais e a partir desse dia toda a gente começou a chamar-lhe o Mata Nosso Senhor.

O Nita
Morreu cedo, a mulher do Ti Francisco Candeias, e quem lhe valeu para o ajudar a criar os três filhos, todos ainda crianças, foi a Ti Rita do Manha, tia dos meninos por parte da mãe.
O João, que era o do meio, não saía da casa da tia que o tratava como a um filho e ele também se afeiçoou muito a ela. Mas, como era ainda pequeno e tinha dificuldade em falar, não conseguia dizer o nome dela e, em vez de Rita, chamava-lhe Nita. Foi daí que começaram a chamar-lhe o João Nita.

O Caneco
Era ainda criança e a mãe já o mandava a levar o jantar ao pai quando andava por dia. Uma vez passou por um homem que viu que ele ia todo derreado com a cesta e disse-lhe assim:
- Ó cachopo, olha que tu endireita-me bem a cesta, que ainda entornas o jantar ao teu pai!
- Não entorno não senhor, que hoje até cá levo um caneco de vinho!
Foi quanto bastou para começarem a chamar-lhe o Emílio Caneco…

M. L. Ferreira

quarta-feira, 19 de abril de 2017

O guião do amor

MORTE MATRIS

Disseram-me que faleceste,
Mãe!
Venho pela estrada, veloz,
Anseio fútil.
Coração a saltar do peito,
Com uma súplica nos lábios,
Prece inútil!
Já estás, inerte, deitada no teu leito
E não proferes qualquer palavra,
Quando tanto precisava,
Nesta minha angustiada hora!
Ao despedir-me de ti, da última vez,
Ainda te vi o sorriso e a luz branca do olhar!
E, decerto, ainda me iludo agora,
Pois pareces tão calma e serena!
Porém, como o rigor dessa quietude
Te roubou a suavidade
Da frágil linha da tua face amena.
Estás tão terrificamente imóvel,
Mãe!
Que te fez a realidade severa da morte,
Que te tornou o traço imperturbável
E o rosto tão estranho e reto?!
Ainda estás aqui comigo e já não te conheço,
Porque não mostras mais o jeito amável
Do antigo afeto.
Como vou eu suportar a vida
Desta punição profunda, perpétua, dura
E o sofrimento que tu me deixas,
Com esta ferida,
Sem o bálsamo da tua ternura?
No entanto,
Sei que me podes ouvir no etéreo ignoto,
Aos viventes não permitido.
Percebo que estás aí,
E, todavia, não sei em que lugar!
Mas pressinto-te!
Espera, dá-me a tua mão,
Ensina-me a andar,
Porque não sei o caminho.
Sim, guia-me pela estrada,
Como a ave ensina os filhos a voar ao sair do ninho.
Sempre o fizeste, como ninguém,
Com abnegação, trabalhos e dor!
Assim! Vês?!
A Morte não pode mais que o Amor,
Mãe!

Joaquim Benedito