sábado, 18 de novembro de 2017

Roque Lino, 1938-2017

 
Foto dos fundadores do Partido Socialista, em 1973, na Alemanha. 
O Roque Lino está imediatamente à direita de Maria Barroso.

Partido colocou a sua bandeira a meia haste e expressou "profundo pesar pela morte do seu fundador e militante 32"
O PS decidiu colocar esta quinta-feira a sua bandeira a meia haste pela morte de um dos seus fundadores, Roque Lino, de 79 anos, antigo secretário de Estado para a Comunicação Social no segundo Governo de Mário Soares.
Em comunicado, a direção do PS expressou "profundo pesar pela morte do seu fundador e militante 32, José Maria Roque Lino", antigo deputado, advogado de profissão e destacado opositor ao regime do Estado Novo.
Como forma de honrar a memória de Roque Lino, a direção do PS "deu instruções para a colocação bandeira do PS a meia haste nas suas sedes".
"Participante na reunião fundadora do partido, em 1973, na Alemanha, Roque Lino constituiu-se ao longo da sua vida numa referência do PS, tendo evidenciado sempre no exercício das mais diversas funções o seu apego aos valores do socialismo democrático e do humanismo", salienta-se no comunicado.
A morte de Roque Lino, para a direção deste partido, constitui "uma perda para o PS, para os socialistas e para todos os democratas".
"Neste momento de perda, partilhamos com todos os camaradas a nossa mais sentida dor, transmitindo à sua família a solidariedade do Partido e dos socialistas portugueses. A vida de José Maria Roque Lino constitui mais um poderoso testemunho do contributo dos socialistas para a construção do Portugal democrático e de uma sociedade mais justa", acrescenta-se no mesmo comunicado.
Diário de Notícias 

Jaime da Gama

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Véspera do São Martinho

No tempo dos meus Avós e Pais era tradição na véspera de São Martinho ir tocar chocalhos à porta dos Senhores mais abastados da Vila, para que eles dessem um copo do seu vinho novo.
Poucos eram os que acediam ao toque dos chocalhos e aos pedidos dos Vicentinos mais novos, que não tinham outras opções senão ir saciar a sede à Fonte Velha ou, se tivessem alguns tostões no bolso, irem beber o copo de vinho a uma das tabernas existentes na Vila.

Anos mais tarde…
Eu, criança e jovem e os meus Pais, mantínhamos a tradição de ir tocar os chocalhos.
À noite depois do jantar, íamos tocar o chocalho à porta dos familiares mais próximos.
Éramos recebidos com enorme alegria e convidados a entrar para provarmos o vinho novo acabadinho de sair do pipo, a doce jeropiga, as castanhas cozidas ou assadas, as passas de figo, o pão e os bolos caseiros, o queijo fresco e a chouriça assada na brasa.
O serão era passado à lareira, contando histórias de outros tempos e “viveres” do dia-a-dia.
Aos poucos o sono ia chegando e era enorme o meu esforço para manter os olhos abertos e regressar a casa pelo meu próprio pé.
Regressávamos já noite alta, com o ar fresco da Gardunha a tocar-nos o rosto e a promessa: o próximo serão familiar seria nas Janeiras.
E voltávamos e visitávamo-nos, sempre.
Mas os anos passaram e a vida com as suas leis mais duras e os seus percursos mais dolorosos fez com que partissem os familiares de tantos momentos felizes.

Hoje é véspera de São Martinho e não sei se algum Vicentino mantém a tradição de ir tocar os chocalhos.
Por mim, estou em silêncio no meu cantinho e volto atrás no tempo…
Guardo em mim o som do toque do meu chocalho e no coração as memórias e as saudades do tempo que não volta atrás.
Tempo de criança, tempo de alegria, de convívio e de partilha.
Tempo…
Tempo que foi e é meu.


Luzita
10/Novembro/2012

terça-feira, 14 de novembro de 2017

PR 10

Éramos 25, um quarteirão. Uma boa conta, à maneira antiga. Mais seríamos, mas a missa acabara meia hora antes e não se articularam as coisas. No final, as castanhas e a jeropiga do São Martinho!
O percurso, em volta da barragem, está marcado entre o Alto da Fábrica e o paredão da Barragem do Pisco, seguindo a margem esquerda. Mas falta a manutenção e sobretudo concluir o percurso, que não está homologado, mas será  o PR 10, segundo me informaram.
É uma boa hipótese de percurso, circular, fácil, curto/médio (cerca de 6 quilómetros, a olho) com partida e chegada à Praça, pelas duas margens da barragem e da ribeira, até à Fonte da Pipa.
O único senão, e é mesmo o único, pois trata-se de um percurso muito bom, é a estrada de alcatrão até ao Alto da Fábrica. O António Craveiro, que conhece tudo e já terá palmilhado cada metro num raio de 5 quilómetros em torno de São Vicente, disse-me que antigamente passava-se do fundo do ribeiro da Oriana para o Casal do Pisco. Isso sim, seria ouro sobre azul: por um lado, pelo caminho da Oriana, pelo outro, pelo Pelome.
Há floresta, água, fauna abundante e muito variada, terrenos agrícolas, residências e até turismo de habitação (Lugar do Ainda). Sendo circular, dá para começar e terminar na nossa Praça, do Paredão da Barragem do Pisco ou do Lugar do Ainda.
Notas:
1. A garça-real desta vez não se deixou ver, mas a Libânia confirmou que as há até na charca do Casal Pousão!
2. As margens da barragem têm muito lixo, ali deixado por quem a visita. Precisam de ser limpas e que se coloquem letreiros e caixotes do lixo na zona do paredão.






José Teodoro Prata

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Conversas fiadas

Nasci em 1937 e tenho muita coisa que contar, que a minha vida já foi muito grande.
Éramos nove irmãos, mas morreu um, ainda em pequeno, e ficámos só oito. Criámo-nos todos aqui nesta casinha. Agora já está muito aumentada, mas naquele tempo era só uma sala tão pequena que mal lá cabia uma mesa e umas poucas de cadeiras, para quando vinha alguém de fora; a cozinha, também um cochicho, e os quartos eram só dois; mas cabíamos cá todos. Os meus pais dormiam num dos quartos, três das cachopas dormiam no outro, as outras duas dormíamos numa enxerga, no forro, e os três rapazes dormiam todos juntos, no palheiro ou ali por debaixo das escadas que vão para a loja. Mas vivíamos todos muito felizes. Sem mimos que, com tanto filho para criar, não havia tempo para essas coisas; mas nunca nos faltou a educação nem que comer, graças a Deus.

O meu pai era muito bom homem e o melhor pai do mundo. Nunca nos tocou, mas o que ele dizia era uma escritura. E era muito trabalhador, mas tinha que andar quase sempre por fora, que aqui ninguém se governava. Até ainda chegou a ir para a Espanha e lá para cima, para o norte. Andou nas minas da Panasqueira uns poucos de anos e também foi serrador. E quando não tinha noutro lado ia ao quinto e à azeitona. Alguns anos até era ele o manageiro.   

A minha mãe também era muito boa, mas como era ela que tinha que nos aturar, às vezes perdia a paciência e chegava-nos a roupa ao pêlo. Era fiadeira e tecedeira, que naquele tempo pelas nossas terras toda a gente cultivava linho, fiava e tecia. Só na nossa casa havia três teares, e foi com ela que eu e as minhas irmãs aprendemos tudo o que sabemos. Ela fazia primeiro e depois nós fazíamos como ela.

Eu andei na escola e ainda fiz até à 3ª. classe. Entrei com 7 anos e aos dez estava pronta; nunca fiquei mal. Naquele tempo era uma sala cheia de cachopos e cachopas, todos juntos. Tínhamos cá uma professora muito boa e que ensinava muito bem. Era de Castelo Branco e ficou cá pra cima de 30 anos; ninguém teve nunca nada a apontar-lhe. Batia pouco, que nós também lhe tínhamos muito respeito, mas havia alguns que eram turrões e aí ela às vezes tinha que lhes dar umas reguadas valentes. Eu não era mais que os outros, mas era humilde e aprendia muito bem. Do que mais gostava era dos problemas, chamávamos-lhe nós exercícios, e ainda hoje os faço como ela os ensinava, de cabeça.

E também brincávamos e cantávamos muito. Na quaresma não, que não se podia cantar, nem dançar, nem fazer rodas; mas jogávamos ao paspelho e fazíamos bolas com retalhos de pano e jogávamos à parede. Os rapazes jogavam ao pião, à bilharda, ou faziam alcatruzes com paus de salgueiro para ver quem acertava mais longe. Divertia-se a gente como podia.

Quando acabei a escola tive um grande desgosto porque o que eu queria era começar logo como tecedeira. Mas éramos seis raparigas lá em casa, e como era às mais velhas que pertencia estarem nos teares, e eu era das mais novas, tive que ir para lavadeira e para o campo. Mas sempre que podia punha-me a olhar como é que elas faziam e fui aprendendo só de ver.

Depois, quando chegou o tempo da azeitona, fui logo para uma campanha do Vaz Preto. Era uma casa muito grande, das maiores aqui à roda, sempre com muitos trabalhadores todo o ano. Era tão rico e deu tudo em nada. Nesse tempo ganhava-se a sete e quinhentos por dia, mas depois passaram a pagar ao quilo. Quanto mais se colhia mais se ganhava. Ainda lá fiz 25 fragatas.

Quando se acabava a azeitona íamos logo para os terços e para os quintos, ali para a Idanha, e trabalhávamos tanto como um homem. Éramos umas quarenta, entre raparigas novas e mulheres feitas. Era muito difícil porque de inverno era muito frio e às vezes a chuva era tanta que não trazíamos um fio enxuto em cima do corpo; e no verão era tanto o calor que até atabafávamos. Mas também nos divertíamos muito e andávamos sempre a cantar, que até parece que o cantar ajudava a gente. Já o meu avô dizia que «gente que canta não está com a preguiça e seu mal espanta…»

E era lá que a gente aprendia muitas das coisas da vida que as nossas mães não nos ensinavam em casa. As mais novas aprendíamos com as mais velhas porque dormíamos todas juntas e, quando era à noite, fazíamos de conta que estávamos a dormir, e elas punham-se a falar dos namoros e doutras coisa, e nós a ouvir tudo sem elas darem por isso.
Algumas arranjavam por lá namoros, mas o mais das vezes não iam avante. Até cantávamos assim:

Os amores da azeitona
São como os da cotovia,
Acabada a azeitona,
Fica-te com Deus, Maria.

Também sucedeu algumas virem de lá de barriga; depois tinham que casar à pressa ou eram apontadas por todos. É assim; o mundo sempre foi igual e há de continuar a ser. As pessoas é que se esquecem…

Quando era pelo Santiago era uma alegria, e mesmo quem andava por lá nunca faltava. Era uma festa muito linda. Cada terra trazia o seu ranchinho com um homem a tocar concertina, e as mulheres atrás, a cantar. Ia tudo a pé por esse caminho afora. Quando lá chegávamos dávamos a volta à capela, sempre a cantar, a ver quem ganhava. Os do Vale da Figueira ganhavam quase sempre porque vinham os do Açor, que éramos quase todos de família, e ajudavam-nos no rancho. Depois da missa vínhamos para casa e comia-se a carne e os doces que já tinham sido preparados de véspera ou de manhã cedo; as famílias todas juntas. Era muito lindo!

O pior era quando se lá armavam aquelas grandes bulhas, que era quase todos os anos, e alguns vinham de lá com as cabeças partidas, todos a escorrer sangue. Não é que os rapazes daquele tempo fossem piores que os de agora, mas dantes parece que juntavam as teimas que havia pelo ano adiante e eram todas distinguidas à pancada pelo Santiago. Rapaziada nova, com o sangue a ferver na guelra…

Quando as minhas irmãs mais velhas se casaram e abalaram para as casas delas, já eu pude ter um tear só para mim. Tecia tudo: linho, algodão, orelos, e a bordar e fiar, não havia quem me ganhasse. Trabalhávamos para as terras todas aqui à roda. Às vezes íamos entregar o trabalho ao Casal da Serra ou ao Louriçal com algumas vinte mantas à cabeça. Por isso é que eu tenho tanto mal nas minhas costas. Outras vezes íamos de burro, com uma carga tão grande que mal se lhe viam as patas. Ganhava-se bem, mas também nos saía do corpo. Havia alturas em que o trabalho era tanto que estava todo o dia ao tear, e à noite enchia canelas, sentada ao lume, para não perder tempo ao outro dia.

Era muito trabalhoso, mas as horas mais felizes que eu tinha era quando me punha ao tear. Nunca fui grande cantadeira, mas ao tear ninguém me calava. Até parecia que as próprias cantigas me avultavam o trabalho.


Tecedeira briosa
Está no tear e não tece,
Ou ela anda de amores
Ou o tear lhe aborrece.

Namorei uma tecedeira
Pelo buraco do pano,
Ela, trac, trac, trac,
Não me dava o desengano.

Se o meu amor hoje morresse
Que penas eram as minhas,
Deitava-me a afogar
Para o caco das galinhas.

Meninas da nossa terra
São muitas, parecem poucas,
São como as folhas da rosa,
Encobrem-se umas às outras.

Nunca me casei. Não porque não tivesse tido quem me quisesse, mas não calhou. Às vezes diziam-me que uma mulher sozinha não era ninguém, e que um homem sempre era um amparo, mas nunca tive inclinação pr’aí. Também nunca me arrependi, que os meus irmãos e os meus sobrinhos foram sempre meus amigos e estimaram-me sempre muito. E eu também os ajudo, quando posso. Já se sabe, uma mão lava a outra…

Tive uma vida grande. Com muito trabalho, mas a fazer aquilo de que mais gostava. E a minha maior pena, agora que já não posso, é a mocidade já não querer saber destas coisa antigas para nada.

Nota: A indústria da fiação e tecelagem foram, durante muito tempo, uma das mais importantes desta região. De acordo com a pesquisa do José Teodoro, apresentada no livro «O Concelho de S. Vicente da Beira nos finais do Antigo Regime», em 1790 havia 177 cardadores e fiadeiras em S. Vicente, só por conta das fábricas da Covilhã. Haveria muitas mais a trabalharem por conta própria, para consumo familiar.
Numa consulta aos Registos Paroquiais do início do século XX, verifiquei que a maior parte das mães e madrinhas das crianças batizadas tinham a profissão de fiadeira/tecedeira. Não eram referidas as profissões das avós, pelo que não estaremos muito enganados se dissermos que não haveria muitas casas em que não existisse pelo menos uma roca e um tear.
Outros tempos e outras vidas, que nos ajudam a compreender o valor das coisas, e a perceber porque é que se deixava em testamento uma camisa ou um lençol, às vezes já usados. 

M. L. Ferreira

domingo, 5 de novembro de 2017

Reflorestar


Várias associações e autarquias das vertentes norte e sul da Gardunha têm reunido no sentido de encontrar respostas para a recente destruição da vegetação na nossa serra. De São Vicente da Beira, participam o movimento Todos Juntos, o GEGA e a Junta de Freguesia. As crianças e adolescentes das várias escolas também vão ser envolvidos nas ações a desenvolver.
A aposta imediata é a recolha de sementes de árvores autótenes, no sentido de promover a reflorestação das áreas queimadas. Vai proceder-se ao levantamento dos terrenos públicos, onde se possam plantar as novas árvores.
Embora altamente meritória, a iniciativa levanta-me algumas reservas: acho as medidas curtas para tamanha destruição ciclicamente repetida; idênticas iniciativas já foram promovidas no passado, sem resultados à vista; só nos espaços públicos? então mas os espaços ardidos não são quase todos privados?; a maioria das áreas públicas que conheço situam-se nos altos da serra, onde a vegetação não vinga, basta olhar in loco e basta verificar os resultados de anteriores plantações nesses locais.
A reflorestação, tal como a prevenção, ou aposta na implementação de medidas, começando pela sensibilização,  junto dos privados ou está condenada ao fracasso.

José Teodoro Prata

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Pirocumulonimbo


O fenómeno que pode estar na origem dos fogos de 15 de outubro

            Tem um nome difícil de pronunciar, é raro, mas poderá ter-se registado por duas vezes este ano em Portugal
            Os incêndios mortais de Pedrógão Grande, a 17 de junho, e da zona centro, a 15 de outubro, poderão estar relacionados com um fenómeno raro, com um nome difícil de pronunciar: pirocumulonimbo. Dois elementos da Comissão Técnica Independente que investigaram os fogos do início do verão que mataram 64 pessoas acreditam que foi isso que aconteceu, segundo contaram à TSF.
            "Pirocumulonimbo é uma tempestade criada por um incêndio", diz Paulo Fernandes, doutorado em Ciências Florestais e Ambientais da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD). De entre as imagens que viu e os relatos que ouviu acerca dos incêndios, destaca a nuvem do incêndio, que descreve como "muito desenvolvida, muito alta, que a determinada altura começou a produzir relâmpagos e trovões". "Esse é um dos sinais do pirocumulonimbo", conclui.
            Este fenómeno já havia sido descrito pela Comissão Técnica Independente relativamente ao incêndio de Pedrógão. "É uma nuvem de fumo que sobe muito alto, a 10 quilómetros, 12. Quando essa nuvem sobe tão alto, além da condensação, forma-se gelo e é o atrito entre os cristais de gelo que pode provocar raios, provocados pelo próprio incêndios, e que por vezes dão origem a novas ignições", descreve o Paulo Fernandes, para quem a existência de um pirocumulonimbo "explicaria, pelo menos em parte, a devastação a que se assistiu nestes dois grandes incêndios do interior". De acordo com o que o investigador afirmou à TSF, "um incêndio florestal típico não causa aquela destruição", sendo necessário para isso acontecer "vento forte, com projeções a grande distância de materiais incandescentes".
            Carlos Fonseca, outro elemento da Comissão Técnica Independente, diz à mesma rádio que aquilo que viu foi "um incêndio de uma dimensão, de uma violência, de uma rapidez como nunca tinha assistido". O investigador, que também andou no terreno a combater as chamas junto da sua propriedade, recorda as "labaredas com mais de 30 metros, com fumos de múltiplas cores", um cenário com "toda uma dinâmica atmosférica estranha".

HÉLIO MADEIRAS, Diário de notícias
https://www.dn.pt/portugal/interior/pirocumulonimbo-o-fenomeno-que-pode-estar-na-origem-dos-fogos-de-15-de-outubro-8883123.html


José Teodoro Prata

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Almas danadas ao santorinho

Na nossa vila, principalmente em noites gélidas, frias, brancas e ventosas invernais, logo que anoitecia as pessoas recolhiam aos seus lares. Depois da ceia, à luz da candeia, com toda a família sentada em redor do braseiro, rezadas as orações, os mais novos escutavam com atenção estórias que os mais velhos contavam. Umas eram comoventes, outras, assim, assim e algumas eram terríficas.
Avô Zé, com as tenazes “conchegava” os chamiços que ardiam; avó Ana encostava o púcaro de barro ao brasido cheio de água da Fonte Velha, quando começava a ferver deitava para dentro uma ou duas colheres de café, era tão bom, tão bom, perfumava toda a casa.
Para assentar, punha dentro do púcaro uma brasa; sabia tão bem!
Avó, lenço negro atado à cabeça, cabelos brancos entrançados, era uma santa mulher. Avô, com seus safões de pele de cabra, barrete enfiado até às orelhas, começava:
Uma vez, era novo, tinha ido à vila, conversa puxa conversa, estava na praça mais uns poucos da minha idade o sino bateu a meia-noite; assustei-me, assustámo-nos todos. Entre a meia-noite e a uma hora era muito perigoso andar na rua, podia aparecer a má hora, uma alma do outro mundo, uma alma penada.
“Quem está aÍ! Se és uma alma do Purgatório diz o que queres; se és o demónio, eu te arrenego em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”.
Pessoas muito altas, gente com pés de cabra, lobisomens. Quem se cruzava com estes seres sinistros corria esbaforido em direcção a casa, queria gritar por socorro e não conseguia. Era uma hora má, aquela.
Olhos bem abertos, atentos e ao mesmo tempo cheios de medo, ouvíamos com atenção, não olhávamos para trás, não aparecesse uma alma penada.
Naquela noite, ia para o Caldeira, estava vento, fazia lua; quando cheguei ao fundo da barreira do Marzelo, rebolava na minha direcção uma grande bola. Corri para São Sebastião cheio de medo, dei a volta pela estrada em direcção às Poldras, subi o Souto do padre Teodoro, o vento ventava com todas as forças; ao outro dia outras bolas rebolavam pela estrada. Sabeis o que era! Sargaços.
Certa vez, um homem vinha do Casal, quando ia a passar junto ao Calvário um vulto muito alto apareceu em cima da parede do cemitério, começou a correr cheio de medo, quanto mais corria, mais a aparição o acompanhava. Morava ao fundo da rua de São Francisco, ao chegar à porta, abre-a, entra, coloca a tranca rapidamente, do lado de fora uma voz cavernosa, forte, gritou:
-Foi o que te valeu!
- Ai home, que se passa contigo? - pergunta a mulher toda atrapalhada.
Este, com o dedo indicador apontou para a porta, sem nada dizer, ficou sem fala.
A esposa abre a porta, olha para a rua, não vê vivalma. O céu estava limpo cheio de estrelas, a noite serena, deitou-se no catre, não falava. No dia seguinte contou à mulher o acontecido.
- Ai home, a minha alma está parva…
- Ó vô; Como são os lobisomens!
- Durante o dia são pessoas como nós, à meia-noite transformam-se em lobos danados, andam uivando por ruas, montes e vales. No dia seguinte aparecem todos arranhados, feridos, por causa do esforço que fizeram. Entregaram a alma ao diabo estes damonhos.
- Credo!
- Olhem; nos cruzamentos e em lugares previamente escolhidos dançam as bruxas encarrapatas juntamente com o mafarrico. Cruz da Oles, Fonte da Portela… são locais onde isso acontece. Era noite cerrada, desci a rua a caminho da nossa casa com os meus pais e irmãos, lanterna acesa, dormi toda a noite com a cabeça debaixo das mantas, não aparecesse a má hora.
Meu avô dizia o seguinte proverbio: “Pelos santos, neve nos campos”. Como mudou o tempo, já não há neve, em contrapartida, ardem as matas.
- Dê-nos um santorinho

J.M.S

São Martinho: passeio e magusto


Ana Patrício e José Teodoro

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Ilustríssimos


A pequena Maria Luciana foi batizada na nossa Vila, a 4 de junho de 1826, tendo como madrinha Nossa Senhora da Conceição. Pais e avós pertenciam à mais fina flor da sociedade portuguesa. Naturais de Coimbra, Lisboa e Reino de França, o pai da Luciana era juiz de fora de São Vicente da Beira, onde dava os primeiros passos de uma carreira pública em que ambicionava atingir o cume, como o pai dele e o sogro: desembargador do Paço, um, e do Senado o outro.

José Teodoro Prata

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

O nosso património

As comunidades não podem dissociar-se do passado, mas também não podem e não devem parar no tempo. Quero dizer com isto que a vida é como uma moeda, tem duas faces.
O homem maduro, depois de obter a sua reforma. deve aproveitar o tempo que ainda tem de vida para transmitir aos mais novos valores e conhecimentos que foi adquirindo ao longo do tempo. A memória de alguém considerado idoso nunca pode ser igual à memória de uma pessoa jovem. Os neurónios vão-se perdendo, a memorização é diferente, enquanto alguém jovem apreende algo com uma facilidade tremenda, a pessoa idosa muitas vezes vê-se e deseja-se para captar determinadas matérias, nomeadamente disciplinas que requeiram concentração, aprendizagem.
Sendo assim, suponho que cada geração terá muito para oferecer à outra. As gerações mais antigas podem e devem transmitir ensinamentos vividos e experienciados à medida que os anos foram passando. Ensinar aos mais novos saberes que de outra maneira se perderão para sempre, a partir do momento em que se corte o fio ténue que nos une à vida.
Entre a vida e a morte, o espaço que medeia estes dois momentos é tão pequenino, tão curto, basta um esticãozito, o fio parte-se e tudo termina para este mundo.
Sou daqueles que acredita que não morreremos. O corpo, sim; o espírito jamais, pertence ao Criador.
Já estou a entrar por um caminho que não é aquele que quero apanhar hoje; portanto… Adiante.
Idoso ou não; todos temos muito que aprender uns com os outros, mas cada geração tem o seu tempo.
Este pequeno intróito tem a ver com o tema que vou explanar.
Estava eu sentado num dos cais da nossa praça a ouvir o som da aparelhagem cujos altifalantes iam debitando decibéis incomodativos, (música de arreda cão, para mim), quando ao meu lado se sentou uma simpática idosa. Depressa veio à baila o passado.
Tínhamos que falar um tom acima do normal, o barulho ensurdecedor dos altifalantes…
- Olha Zé, uma parte da minha casa ainda está tal e qual como era no tempo do Hipólito Raposo, os sobrados e os tectos em castanho, são daquele tempo…
- Qualquer dia, vou lá, se me deixar, claro.
- Quando quiseres.
José Hipólito Vaz Raposo nasceu no dia 12 de Fevereiro 1885, numa casa situada na rua Velha, nº 47, na vila de São Vicente da Beira; não teve uma vida muito longa pois, no dia 26 Agosto do ano 1953, faleceu em Lisboa; tinha 68 anos.
Era filho de João Hipólito Vaz Raposo e Maria Adelaide Gama. Aos 17 anos entrou para o seminário da Guarda, “influência do seu irmão padre Domingos Vaz Raposo com certeza”.
Na Guarda permaneceu dois anos, 1902/1904; depois entrou no liceu de Castelo Branco e mais tarde partiu para Coimbra, onde se formou em Direito, 1911.
Não me vou alongar mais com a sua biografia, o José Teodoro e outros já a esmiuçaram amiudadamente.
No passado mês de Setembro, desci a rua da Cruz, bati à porta da senhora Maria de Jesus, que amavelmente me convidou a entrar. Ao fundo das escadas encontra-se uma porta que dá acesso a três lojas onde guarda utensílios de lavoura, pipos, tanque para o vinho… Subi, ao cimo das escadas, à esquerda, entro numa sala repleta de recordações da sua família: quadros, fotografias dos antepassados… O que imediatamente me chamou a atenção foi um Menino Jesus de Malines!
A senhora Maria de Jesus falava, explicava e apontava.
- Olha aqui ó Zé, para esta moldura: São José, Menino Jesus e o São Roque; aquele quadro além é a Senhora dos Milagres, tem os milagres em toda a volta”.
- E este Menino Jesus, perguntei.
- Foi-me dado pela minha madrinha e tia Maria de Jesus; era irmã da minha mãe, viveu 40 anos em Lisboa. Olha, tem dá réis e tudo.
A sala está igual ao que era no tempo do senhor João Raposo, o pai de Hipólito Raposo.
- É a sala de jantar, nunca cá comi nenhum jantar ou almoço.
- Quer dizer, que aqui comeu muitas vezes Hipólito Raposo.
- Com certeza.
- Estas portas que dão acesso aos quartos, são as portas originais?
- Isto não tinha portas; as cortinas fui eu que as pus. O sobrado e o tecto são todos de castanho.
Entrei nos quartos.
- Terá sido neste quarto que nasceu Hipólito Raposo, é o maior. - diz a senhora Maria de Jesus.
Fotografei e seguimos.
Antes de sairmos da sala, apontou para as portas de uma janela que dá para a rua.
- Ó Zé, repara nestas portas, ainda entram num buraco que as segura, as da outra janela já são modernas.
Ao entrarmos no corredor disse-me: - Dava acesso à cozinha, a minha tia tapou a porta, antes via-se logo a porta da rua.
- Esta é a cama onde morreu a minha tia Resgate (catequista, zeladora da igreja).
Na parede de outro aposento, um relógio de sala me chamou a atenção: - É muito antigo!
- Se é, se é… já disse ao meu neto para mo por aqui mais baixo para lhe dar corda; tem um defeito, quando começa a dar horas, quando dá uma, temos que contar logo duas, parece que está a tocar ao fogo; bam…bam…
- Daqui para lá era à telha vã, e não era tão larga, tinha uma porta para o quintal que já era velha, foi o meu homem que aumentou isto, não tinha aquele quarto que é o meu. Aqui havia uma porta, repara nos buracos e no rasgo, era para porem a tranca. O meu homem é que a tirou, porque era muito velha, aqui era tudo à telha vã, era aonde a minha avó tinha o tear; era tecedeira, esta sala não era tão larga, era mais estreita. A minha avó chamava-se Josefa.
Entrámos na cozinha, imediatamente a senhora Maria de Jesus apontando para o chão dizendo.
- O lar era aqui no meio, o Zé companhia é que fez além a chaminé, o meu homem alargou para aqui a cozinha. As pedras do lar eram iguais àquelas (ardosias que se encontram na soleira da antiga porta) Olha, aqui está a dita porta que dava acesso ao corredor…
Entrei no seu quarto, um cruxificado e várias imagens em cima da cómoda.
- Uma vez cai agarrei-me à comoda, caíram os santos todos que estão em cima do móvel; este Senhor que está além é muito antigo, ficou-me em cima do colo atravessado, intacto; foi um milagre do Senhor Santo Cristo.
A tarde já ia adiantada, tinha que ir regar as couves. Agradeci à Senhora Maria de Jesus toda a atenção que me dispensou.
Com os seus noventa anos, continua a ter uma memória invejável. Saí mais rico, porque estive no lugar onde nasceu e viveu durante a sua meninice o escritor vicentino doutor José Hipólito Vaz Raposo.

Corredor; ao fundo existiu uma porta que dava acesso à cozinha.
                             

A porta da janela é do tempo do doutor Hipólito Raposo, diz a senhora Maria de Jesus.

        
Um batente entra num buraco na parte superior; estas portas não tinham ferragens.


 Tecto da sala todo em castanho


Cabides


Quarto onde terá nascido Hipólito Raposo.
O sobrado é todo de castanho, diz a senhora Maria de Jesus.

                                                                          
Menino Jesus de Malines 

J.M.S

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Ruralidades


Milho na eira, em frente da casa que foi do sr.º Joaquim Guilherme 
(se as minhas recordações de infância não me enganam).


Tufo enorme de juncos, ao fundo da Oriana, onde começa a barragem do Pisco


Esta garça-real não é a nossa. Essa vê-la-emos no dia 12 de novembro, 
durante o passeio pedestre do São Martinho, em torno da barragem do Pisco.

José Teodoro Prata

domingo, 22 de outubro de 2017

A vez da ciência

Perante tanta igorância  e tanto oportunismo face os fogos, vale a pena ouvir a voz da ciência. É uma medida higiénica, para limpar a poeira que anda no ar. Como a chuva desta semana que passou: soube tão bem voltar a respirar ar puro!

Ler em: https://www.dn.pt/portugal/interior/ha-aqui-uma-falha-na-governacao-do-pais-8863573.html

José Teodoro Prata

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Boas práticas

Habitantes juntaram-se para manter terrenos limpos em Vila de Rei

Vítor Fernandes diz que população decidiu agir em vez de esperar pelo Estado.
Cansados de esperar pelo Estado e da aflição anual perante a chegada dos incêndios, os habitantes da aldeia de Monte Novo criaram um grupo para identificar e limpar as terras.
Em Monte Novo, uma pequena aldeia do concelho de Vila de Rei, a ameaça dos incêndios deste verão levou um conjunto de habitantes a agir. "Quando estava tudo a arder em Pedrógão Grande, as pessoas ficaram com medo que chegasse lá e mobilizaram-se todas. Andava tudo a limpar os quintais com medo que o fogo chegasse", recorda Vítor Fernandes. Foi nessa altura que o assistente de parque de estacionamento falou com os vizinhos para que se juntassem e garantissem que os seus terrenos estavam limpos o ano inteiro, de forma a que não andassem aflitos sempre que as chamas espreitam.
"Percebi que eles já tinham falado disso. Marcámos uma reunião, fortalecemos a nossa ideia, andámos com fitas métricas a ver quantos metros era obrigatório limpar à volta dos terrenos. Já temos tudo identificado, agora estamos a espalhar a ideia, a falar com os proprietários das terras em volta da povoação." O que este grupo de dez moradores de Monte Novo, na freguesia da Fundada, pretende é que ou os proprietários limpem os seus terrenos ou que aceitem pagar pelos seus serviços e eles certificam-se que as limpezas cumprem as normas legais.
Caso contrário, "quando houver um incêndio, se for preciso, pegamos numa máquina e limpamos tudo, mesmo sem autorização, porque não podemos é arriscar a segurança das nossas casas", alerta Vítor Fernandes.
Apesar de viver em Lisboa, o mentor desta ideia continua a ir à sua terra natal e mantêm bem presente a necessidade de cuidar dos terrenos para que os incêndios não sejam piores. E já há algum tempo que junta dinheiro - "como um condomínio na cidade" - para tratar da limpeza das terras que mantém. O princípio para a limpeza da aldeia é o mesmo que Vítor e os vizinhos aplicam com as suas terras: "Impusemos que se tivermos alguma despesa a limpar terrenos dos outros, vamos custear isso e juntamos dinheiro para isso. Toda a gente, com um euro por dia limpa o país inteiro", defende.
Começaram pelos terrenos do interior da povoação, que são propriedade dos dinamizadores do grupo, e agora fizeram o levantamento dos terrenos que a envolvem. "Nas terras mais pequenas toda a gente acaba por saber quem é o dono de cada bocadinho e torna-se mais fácil chegar ao contacto com eles". Essa é uma fase que já passou e basta agora terem uma autorização dos proprietários para fazerem a limpeza preventiva a que se propõem.
Estes habitantes de Monte Novo acreditam que a sua iniciativa pode ser um exemplo para que outras zonas do país se mobilizem. "Temos de fazer alguma coisa e não podemos só empurrar para o governo. O problema no momento é de todos."
Vítor fala até com a experiência de quem já tinha lançado o desafio à autarquia de que se criasse um mecanismo que obrigasse a cumprir a lei da limpeza dos terrenos. Na altura, tinha em mente fazer desta atividade um negócio, mas quis garantir que iria haver quem cumprisse a lei e precisasse de serviços como os seus. "A resposta foi de que era difícil fazer cumprir a lei porque as pessoas não gostam de ser pressionadas", lamenta.
Agora aos 60 anos, quer apenas manter um grupo ativo de voluntários e conta com o apoio da autarquia para executar a ideia. O executivo local está disponível para emprestar as máquinas necessárias ao corte das árvores. Com a chegada das chuvas, Vítor e os amigos vão voltar a contactar os donos dos terrenos que precisam de ser limpos para "chegarmos a uma conclusão: ou eles limpam ou avançamos nós".
Diário de Notícias

Esta notíca interessa-me especialmente, quer pelo conteúdo, quer porque vivi 6 anos na Fundada e tive vários alunos do Monte Novo.
Nos comentários que se seguiam ao texto online, muitos escreveram que eles não fizeram mais do que a sua obrigação, pois não compete ao Estado limpar propriedades particulares. É verdade, muitas vezes a culpa que atribuímos ao Estado serve apenas para disfarçar a nossa inatividade. Mas este projeto é muito mais do que isso!!!

José Teodoro Prata

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Obrigado

Nesta semana em que tomam posse os autarcas eleitos nas últimas eleições, não posso deixar de agradecer ao ex-vereador da Cultura da Câmara Municipal de Castelo Branco, Fernando Raposo, pelo excelente trabalho realizado, no concelho em geral e na nossa Vila em particular.
Sei que atuou sempre em nome do presidente da Câmara, mas foi meritória a sua dedicação a uma área que lhe é querida e em que tem larga experiência: a Cultura. Com ele, Castelo Branco teve pela primeira vez uma política cultural com cabeça, tronco e membros.
Ouvi vários elogios de terceiros e, quanto a nós, foi extraordinário o apoio que nos deu nas apresentações do livro Dos enxidros aos casais... e na oferta dos livros à Misericórdia. Também na criação do Museu de Arte Sacra terá tido um papel importante.
O meu obrigado!


José Teodoro Prata

domingo, 15 de outubro de 2017

Fazer diferente


Saiu o relatório da comissão de "sábios", sobre os incêndios. O ponto 4, que nos diz diretamente respeito, transcrevo-o no final deste texto.
Nele consta a recomendação de diversificar a floresta, com mais castanheiros e carvalhos, mais sobreiros e medronheiros, espaçar as árvores e manter o solo limpo de matos.
Para mim, este último é que é o calcanhar de aquiles. O que fazer aos matos e ramos que se cortam? Todos sabemos que é neles, a par da densidade das árvores, que reside a quase impossiblidade de combater os incêndios.
O Cabeço de Pisco é um bom exemplo desta questão. No ano passado cortaram-se os pinheiros maiores e ficaram os jovens e os eucapiptos; este ano cortaram-se os eucaliptos. A floresta ficou muito rala, quase sem matos, mas com um depósito de caruma de mais de 20 anos e as ramagens de dois cortes em anos consecutivos. Aparentemente, estava bem, de acordo com as melhores práticas recomendadas no relatório. Mas como apagar um incêndio ali?
Informa-me a internet que já existe uma central de compustagem na Chamusca e outra em Vila Nova de Famalicão. Elas são a solução ideal para tratar estes resíduos florestais, mas a área que abrangem será uma gota de água nas nossas necessidades para manter a floresta limpa. Há anos, falou-se numa para Oleiros, mas ficou pelo caminho.
E como limpar a floresta, neste cenário de desertificação humana? Temos falta de gente, mas muitos não querem ouvir falar de imigrantes, como se nós todos não fossemos descendentes de imigrantes. Também seria necessário muito dinheiro para ter uma equipa de sapadores florestais quase em cada freguesia. Mas seriam mais algumas famílias a manterem-se em cada freguesia deste interior despovoado. E o dinheiro? Acho que os milhões gastos quase inutilmente em aviões e helicópteros seriam suficientes. O problema é a fase de transição, em que terá de se manter este gasto quase inútil, ao mesmo tempo que já se pagam aos sapadores.
Com a floresta limpa e ordenada, os incêndios seriam controláveis. No fim de uns anos, teríamos madeiras nobres que tornariam desnecessária a importação.
Nota: Não saiu da minha cabeça esta da limpeza da floresta em vez do uso sistemático de meios aéreos que apenas abrandam o fogo. A opinião é de uma  luso-americana especialista em incêndios que, em entrevista à Visão, defendia o que acima escrevi, dizendo que mais de metade da água lançada pelos aviões evapora com o calor do fogo antes de chegar ao solo.

Faz-me confusão andar na Gardunha, por entre as áreas queimadas. Vamos fazer como de costume e esperar que matos e pinheiros nasçam/rebentem, para daqui a anos arderem de novo? Seria bonito ver a nossa terra com uma moldura de sobreiros, na meia encosta da Gardunha, isto é, nos Enxidros. Dão-se cá tão bem e são tão rentáveis! E nas linhas de água poderia haver carvalhos e castanheiros, como há cem anos, antes de cá chegarem os pinheiros.
E o que vai ser feito para proteger do fogo o que resta da nossa floresta? O São Pedro que trate disso?

«4. Ordenamento e Gestão
  • Deverão criar-se mecanismos que garantam a intervenção num espaço, de largura a definir para cada caso – actualmente está regulamentado em 100 metros – à volta dos aglomerados que assegure pela sua ocupação (pela carga reduzida e descontinuidade do complexo combustível), uma reduzida intensidade do fogo e a protecção das habitações e de outros bens. Devem ser promovidos usos do solo que reduzam a intensidade do fogo e o risco de propagação para edificações e utilizadas espécies de baixa inflamabilidade, com elevado teor de humidade nos períodos secos, ou que promovam o desenvolvimento de complexos vegetais de reduzida combustibilidade. Estas medidas devem privilegiar a minimização das intervenções de manutenção não produtivas, a promoção de actividades humanas de manutenção e as culturas agrícolas de sequeiro ou regadio – anuais ou perenes - desde que os proprietários ou quem a eles se substitua tenha capacidade para a sua gestão e manutenção.
  • Os utilizadores do espaço florestal deverão ser mobilizados para uma intervenção que instale formações arbustivas ou arbóreas com menor combustibilidade e da adopção de práticas que reduzam o risco de incêndios e ajudem a mitigar o problema.
  • Deverá proceder-se a uma reformulação da Autoridade Florestal Nacional nos seus princípios, forma e capacidade de actuação, preocupada com a regulação do sector florestal em geral e focalizada na gestão das áreas sob regime florestal e na prevenção estrutural.
  • As organizações representativas das entidades privadas no sector devem concorrer para apresentar alternativas de utilização e de gestão aos proprietários.
  • Promoção da compartimentação das manchas florestais puras através de 19 plantações novas, ou reconversões, ou ainda adensamentos, com outras espécies arbóreas ou arbustivas de baixa inflamabilidade/combustibilidade ou plantadas em faixas de alta densidade, promovendo um efeito de barreira por quebra da continuidade de combustível ao nível do solo.
  • Reconhece-se que povoamentos puros ou mistos de pinheiro bravo ou eucalipto sem redução efectiva da carga de matos no seu interior conduzem, em situações de secura, a incêndios de grande intensidade com elevada possibilidade de projecções de focos secundários a grandes distâncias. Para estas duas espécies a regra é a da gestão do combustível no sub-bosque. Sem combustível no seu interior estas florestas, em vez de um problema sério, podem fazer parte da solução.
  • As melhores soluções de ordenamento para a mitigação dos incêndios florestais passam pela diversificação da floresta e a utilização de espécies que conduzam a formações menos combustíveis, nomeadamente das folhosas de folha caduca, como os carvalhos, castanheiros ou outras folhosas, por terem um grande teor de humidade. Estas espécies não são propícias a fogos de copas e devem, portanto, ser consideradas em misturas com outras espécies ou em áreas estratégicas para contrariar a fácil propagação dos incêndios. No Pinhal Interior modelos de silvicultura apropriados com Sobreiro e com Medronheiro têm também demonstrado fazer parte integrante de uma solução em que a diversificação da floresta tem de ser um objectivo.
  • Deve dar-se uma redobrada atenção à finalização, a curto prazo, dos novos Programas Regionais de Ordenamento Florestal, os quais podem ser utilizados para que, a partir do conhecimento dos últimos dados do Inventário Florestal Nacional (a aguardar publicação), se revejam as metas inicialmente estabelecidas no sentido de possibilitar que a nível da Região PROF e dos concelhos, sejam cada vez mais incorporadas as questões associadas aos incêndios florestais. As suas propostas deverão ser integradas nos Planos Directores Municipais e ser alvo de maior proximidade e acompanhamento do ordenamento florestal pelas entidades municipais.
  • Criação de programa específico que compense a perda de rendimento por alguns anos para a criação de florestas de carvalhos, castanheiros e outras folhosas. Este programa deverá incentivar os proprietários e gestores florestais a optarem por estas espécies que a médio e longo prazo poderão ser ainda mais rentáveis do que as actuais alternativas e com menor perigo de incêndio para as próprias florestas e para as aldeias existentes nos espaços florestais.»
José Teodoro Prata

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Não notícia

Jornal Reconquista, 12.10.2017

Para nós, charnecos de São Vicente, Partida, Padrão..., esta é uma não notícia.
Vai-se falar muito de romarias, de tradições orais, de música e danças tradicionais, mas só de Castelo Branco, Idanha e Penamacor, a julgar pelos painéis de palestrantes.
Quando vim morar para Castelo Branco, perto de 1990, a cultura que aqui contava era a do Campo. A Charneca era como se não existisse e a Serra pouco mais ou menos.
A pouco e pouco,  nós e as restantes freguesias do chamado pinhal conseguimos impor-nos e hoje já contamos alguma coisa.
Esta iniciativa da Fabre Actum (desconheço) é um retrocesso.
Não sei se o José Manuel lá vai aparecer e colocar os pontos nos is. Acho que não (não há pachorra para tudo!) e realmente temos mais que fazer.
Se calhar estou a exagerar, seria um prazer enganar-me!

Nota: Sei que o rancho da Santa Luzia estará presente, mas a sua presença é apenas episódica, sem que a romaria da Santa Luzia entre na reflexão global das nossas tradições.

José Teodoro Prata

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Interior

Naquele tempo…
Há muitos, muitos séculos, existiu um rei (Sancho I), em Portugal  que, quando subiu ao trono, encontrou vastas terras cheias de matagais, despovoadas, nomeadamente no interior, onde o diabo perdeu as botas. Depois de muitas lutas, conjuntamente com seu pai (D. Afonso Henriques), o reino atravessava um tempo bonançoso.
Tinha trinta anos, quando tomou as rédeas do poder, as fronteiras com os reinos cristãos, embora frágeis iam-se consolidando. O problema mantinha-se a sul, onde predominavam os Muçulmanos.
O rei de Portugal soube tirar partido desta acalmia e…
- Não pode ser! - disse um dia ao seu chanceler D. Julião - No meu reino tenho terras incultas que nunca mais acabam; contacte o deão de Silves (que entretanto tinha voltado novamente para domínio Muçulmano), ele que vá à sua querida Flandres e traga gente para os meus reinos!
- Não é mal pensado. - respondeu o chanceler.
O Deão Guilherme partiu para a Flandres onde engajou muitos colonos. Ao chegarem a Portugal, o rei ofereceu-lhes terras para se instalaram.
Adiante.
Trás-os-Montes, Beiras… locais onde as populações eram escassas. Covilhã, 1186; Viseu, 1187; 
São Vicente da Beira 1195… Restaurou, povoou, incentivou portugueses e colonos a morarem nessas terras, dando-lhes regalias através de forais.
Desta maneira conseguiu o rei, aos poucos, que todo o reino se fosse povoando.
Os povos arroteavam, trabalhavam e rezavam.
Um dia, um filho de rei (Infante D. Henrique) isolou-se no extremo sul de Portugal, onde fundou uma escola de marinharia. Começou a enviar marinheiros para que descobrissem novas gentes, aos poucos e poucos os habitantes mais expeditos iam abandonando suas terras, partiam à procura de melhor vida.

Os séculos foram passando, algumas povoações perderam importância, outras aumentaram-na.
Em 1976, no mês de Abril, realizam-se eleições livres em Portugal
Em São Vicente da Beira, estavam inscritos nos cadernos eleitorais 1833 eleitores; na vizinha freguesia de Almaceda, 1291; Louriçal do Campo, os eleitores inscritos totalizavam, 815; Sobral do Campo 532; Ninho do Açor, 381…
Os anos foram passando, os cidadãos, morrendo ou debandando outras paragens; eis que chegamos ao ano 2013.
Eleições autárquicas:

São Vicente da Beira, 1355 eleitores; 2017, 1161 almas com direito a votar.

Nas vizinhas freguesias de:
Almaceda, em 2013, estavam inscritos nos cadernos 804  eleitores; 2017, 657 eleitores

2013, Ninho do Açor/ Sobral do Campo, 841  eleitores; 2017, 738 eleitores

2013, Louriçal do Campo, 644 votantes; 2017, 540 eleitores

Desde 1976 até 2017 a freguesia de São Vicente da Beira perdeu 672 eleitores. Uma média de 16 cidadãos eleitores por ano.

A freguesia de Almaceda perdeu 634 eleitores. Durante estes anos perdeu, por ano, cerca de 15 cidadãos eleitores.

As freguesias Sobral do Campo e Ninho do Açor perderam 175 cidadãos eleitores.
Estas duas freguesias unidas perderam, por ano, uma média de 4 eleitores.

Louriçal do Campo perdeu 275 eleitores. Esta freguesia perdeu uma média de 6 eleitores por ano, durantes estes últimos 41 anos.

Desde 1976 até aos dias de hoje, estas quatro freguesias perderam 1756 almas; muitos cidadãos.
Por este andar, se os governantes não tomarem medidas sérias, todo o interior irá ser uma vasta coutada, terras de ninguém ou de meia dúzia de endinheirados que as transformam em vastíssimos coutos para gaudio de uns poucos.
Em 2013, estavam inscritos nos cadernos eleitorais da cidade de Castelo Branco 31 287 eleitores. Actualmente estão inscritos 30 719 cidadãos.  
Julgo, não será isto que os governantes quererão, para isso têm que ser tomadas medidas positivas, incentivos para que as pessoas regressem às suas origens, pondo fim às portagens, diminuindo a carga fiscal aos que queiram investir nestas paragens; incentivos à maternidade, atribuir regalias sociais para quem queira morar no interior, e por aí fora.
As nossas aldeias e vilas possuem melhor qualidade de vida que a existente nas grandes cidades. Ares e águas puríssimas, boas estradas. Para se fazerem trinta quilómetros numa grande cidade, demora-se uma hora, ou mais; nas nossas terras, meia hora basta. Nada de engarrafamentos, nem dores de cabeça. 
Se não se tomarem medidas sérias e justas, qualquer dia, era uma vez


J. M. S