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quarta-feira, 6 de junho de 2018

Santiago, padroeiro


 
Painel de azulejos na associação Pequeno Lugar, Partida

Não sei desde quando nem porquê, mas o povo da Partida, visionário, há muito que parece ter arranjado solução para a falta de vocações sacerdotais, pelo menos para a realização da procissão da festa do Santiago.
Este ano estive lá, e, mal acabou a missa, o Padre José Manuel saiu da capela já desparamentado. Achei estranho e perguntei a uma pessoa que estava ali ao meu lado se não havia procissão.
- Então não havia de haver? É a coisa mais linda da festa!
- Mas o Padre já está cá fora, despido…
- E a gente tem lá precisão do padre para a procissão?!
Nisto, começam a ouvir-se os bombos e as caixas no largo da festa; o povo junta-se e, em procissão, dirigem-se todos para a capela,
a cantar:

Ó Filipe, Santiago,
Que estais lá no cabecinho,
Vinde cá mais para baixo
P’ra serdes nosso vizinho.

Seguem-se depois outras quadras implicando cada uma das terras que fazem parte da comissão de festas:

Ó Filipe Santiago,
Quem vos varreu a capela,
Foram as moças do Mourelo
Com raminhos de marcela.

O Filipe Santiago,
Quem vos varrei o terreiro,
Foram as moças da Partida
Com raminhos de loureiro.

Segundo contam, esta foi uma forma de terminarem com as rivalidades entre os povos da Partida, Vale de Figueira, Mourelo e Violeiro que antigamente acabavam com muitas cabeças partidas no fim da festa.
A lembrá-lo, estão ainda as mocas que os mais velhos fazem questão de erguer bem alto

As voltas que dão á capela são tantas como as povoações envolvidas, normalmente quatro.
 
Na última volta os tocadores ajoelham-se à frente da capela a pedir saúde para todo o ano

No final juntam-se novamente no largo e toda a gente dança ao ritmo do toque dos bombos.
 
M. L. Ferreira

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

As nossas tradições de Natal


Fogueira de Natal, noite de Natal de 2015


Presépio da Menina Isaura, recriado pelo GEGA, Natal de 2014


Fazer as filhós, numa véspera de Natal da década de 70 
(a julgar pelas idades das raparigas da foto)


Presépio da Igreja Matriz de São Vicente da Beira, Natal de 2015


Concerto de Natal da Filarmónica Vicentina, Natal de 2015


Fogueira de Natal, noite de Natal de 2014


Auto de Natal do Rancho Folclórico Vicentino, Natal de 2016


Iluminação de Natal do Eusébio, na sua casa da rua das Laranjeiras, Natal de 2015


Presépio do Pequeno Lugar, Partida, Natal de 2014

José Teodoro Prata

domingo, 23 de julho de 2017

O lobisomem da Partida

Bem a avisaram que não casasse com ele, que havia ali coisa do diabo. Mas, já diziam os antigos, o amor é cego e ela não acreditava numa palavra do que ouvia. Onde lhe punham defeitos, ela só via qualidades: bom rapaz, trabalhador, não faltava ao respeito a ninguém. Ainda por cima bem parecido e com alguma coisa de seu. E casaram.

Apesar de não lhe terem agoirado nada de bom, era feliz e achava-se uma mulher com sorte. Cumpridor de todos os deveres conjugais assumidos no dia do casamento, o homem estimava-a, enchia-lhe a casa de tudo quanto era bom que trazia da horta e depressa a encheu também de filhos. Que mais podia ela querer?

Às vezes ainda se ria das más-línguas que lhe quiseram estragar o namoro e, mesmo já depois de casada, continuavam a encher-lhe a cabeça com patranhas: que era ele, transformado em lobo, que atacava os homens e animais que apareciam mordidos ou mortos em certos dias da semana; ou então, feito cavalo, andava por lá à solta em noites de lua cheia, atormentando quem se demorava nas hortas ou tinha que madrugar. Mas ela não dava ouvidos a ninguém, que havia muita gente assim, sem escrúpulos, capaz de dar cabo duma casa por tudo e por nada. Tudo invejas!

Nem mesmo quando ele se lhe escapava da cama, julgando-a a dormir, e voltava de madrugada, tão cansado que ela lhe ouvia o bater do coração, desconfiava de nada. Ficava numa inquietação, mas encontrava sempre uma explicação para aquelas saídas noturnas: ou era a presa que tinha que ser despejada; alguma vaca que estaria para parir ou uma encomenda de lenha de última hora. Confiava nele e não fazia perguntas. Já lhe bondava a lida da casa e os filhos, sempre tão asseados que era um regalo olhar para eles.

Uma vez, era inverno, e até parece que tinha parido a galega no forno da Barroca. Não que nos outros dias a forneira tivesse uma hora de descanso, que naquele tempo as casas estavam cheias de filhos e às vezes um tabuleiro de pão por semana não chegava para acalmar a fome a tanta boca. Mas naquele dia foi uma coisa por demais. De tal maneira que a vez dela ficou para tão tarde que já era noite alta quando o pão lhe saiu do forno e pôde voltar para casa. O que vale é que a lua estava tão grande que alumiava como se fosse dia.

Começou a subir a rua, com o tabuleiro à cabeça, e nisto ouviu um barulho que até parecia um tremor de terra; primeiro ao longe, depois cada vez mais perto, até que sentiu que estava mesmo encostadinho a ela. Só teve tempo de se atirar para a valeta para não ser levada à frente do que quer que aquilo fosse. Viu então que era um cavalo enorme que abrandou junto a ela, lhe abocanhou um bocado do xaile e continuou a galopar rua fora.

Um pouco mais acima era a casa de um dos cunhados, irmão do homem. Também deve ter ouvido o galope do cavalo e, mais que sabia ele do que se tratava, saiu da cama a correr e galgou as escadas até à loja das vacas que era mesmo por baixo da casa. Pegou no agulhão e espetou com ele no lombo do cavalo que se transformou logo ali no homem que era.

Quando a mulher chegou a casa, toda a tremer, encontrou o homem sentado ao cimo das escadas, a arfar, e ainda a tirar restos das franjas do xaile da boca. Nem quis crer no que os olhos dela estavam a ver, mas foi aí que o homem lhe confessou o mal que o atormentava desde novo e que tinha sido a ferroada do agulhão que o tinha feito perder a perneta.

M. L. Ferreira

sexta-feira, 30 de junho de 2017

O apelido Paradanta


Prometi ao Joaquim Bispo pagar-lhe o texto poético sobre as mulheres da Paradanta com informações sobre este casal, embora ele não seja de lá (ver o comentário que ele postou no seu texto).

Os assuntos que vou focar, a propósito do registo de nascimento acima apresentado, não são novos, mas vale a pena voltar a eles:

- Ainda hoje existe o apelido familiar Paradanta, em pessoas da Partida. O avô do Manuel, o bebé deste registo, chamava-se Manuel Rodrigues Paradanta e era natural da Paradanta (por isso ganhou este apelido).
- O pai do batizado, Luís Rodrigues, era das Rochas de Cima. No século XIX (este batismo é de 23.05.1824) inúmeros jovens da freguesia de São Vicente casaram com jovens da freguesia de Alamaceda, sobretudo das povoações vizinhas (Mourelo, Partida, Vale de Figueira e Violeiro / Rochas de Cima, Ingarnal, Almaceda, Rochas de Baixo e Martim Branco). Nos séculos anteriores, isso não era tão frequente.
- O avô paterno do bebé Manuel era incógnito. Teve sorte o pai Luís, não ter sido abandonado para a roda, como então era costume. Parabéns à sua mãe Joaquina Rodrigues! Os filhos naturais (nascidos fora do casamento) eram muito menos frequentes do que os filhos expostos.
- Os avós maternos vivam na Partida (a avó Josefa Freire era de lá), mas a filha Joaquina Freire e o genro Luís Rodrigues vivam no Vale de Figueira. Existia e existirá ainda uma relação muito estreita entre as gentes da Partida e do Vale de Figueira (como entre São Vicente e o Casal da Fraga).
- Normalmente, as testemunhas dos batismos (não os padrinhos) eram o sacristão e o padre tesoureiro da Igreja: Joaquim Marques e Francisco José de Oliveira. Reparem na forma de assinar o nome: o mais recente, como o do padre, e o tradicional, com o nome próprio, seguido do sinal + e depois o apelido (Joaquim + Marques)

José Teodoro Prata

terça-feira, 4 de abril de 2017

O tesouro da Partida

Há muitos anos vivia na Partida uma família a que chamavam “As Mari’ Joanas”. Eram duas irmãs solteiras que viviam com o pai, e já naquele tempo eram consideradas das pessoas mais abastadas da terra.
Um dia, já rente à noite, bateram-lhes à porta. Estranharam a hora, mas foram assomar à janela e viram dois homens, cada um com sua mula pela mão, que disseram ser almocreves. Pediram que lhes dessem alguma coisa que cear e os deixassem dormir por uma noite, que vinham com fome e cansados do muito caminho que tinham andado. E que não tivessem medo, que tinham com que pagar o comer e a dormida.
Fazendo justiça à fama da hospitalidade das gentes da terra, as duas irmãs prepararam logo ali num instante uma bela sopa de couves temperada com um bom naco de presunto. Os viajantes comeram-na tão sôfregos e calados que até parecia que não comiam há uma semana. Entretanto foram fazer as camas com os melhores lençóis de linho que havia na casa.
Depois de comerem, os viajantes levantaram-se da mesa e disseram que queriam fazer contas. O dono da casa bem disse que não senhor, que as contas se faziam de manhã, e que ficassem mais um pouco para dois dedos de conversa e a reza do terço. Disseram que não, que tinham que abalar de manhã cedo, antes do nascer do Sol, mas antes agradeciam muito que lhes indicassem para que lados era um sítio, ali nas redondezas, que dava pelo nome de Porto, e qual era o melhor caminho para lá chegarem.
O dono da casa achou estranha a pressa dos dois homens em abalar, mas desconfiou ainda mais da curiosidade deles em saberem onde era o tal lugar. Não pregou olho em toda a noite, a pensar no caso e à escuta de qualquer barulho, não fossem eles abalar sem ele dar conta. Já agora não queria perder a partida de tão estranhos hóspedes e ver se tirava a limpo as intenções que os trazia a vaguear por aquelas bandas.
Ainda o dia vinha longe, sentiu o ranger das tábuas. Deviam ser eles a levantarem-se, e ficou à escuta. Mal ouviu a porta da rua a ranger, pôs-se a pé e foi espreitar. Viu-os a descer a rua, cada um montado na sua mula. Nem se preocupou de estar em camisa de dormir e barrete na cabeça; enfiou só as botas nos pés e foi atrás deles. Quando chegaram lá ao sítio, viu-os parar e pôs-se à espreita, um pouco mais longe, a ver o que é que eles faziam. Nem queria acreditar quando os viu a encherem umas sacas e a carregarem uma das mulas com elas. Aproximou-se mais e viu que eram moedas de ouro o que estavam a ensacar. Assim que o viram, os dois homens voltaram-se para ele, zangados:
            - Se não tivéssemos comido ontem à sua mesa e dormido nos seus lençóis, era hoje aqui o fim da sua vida. Mas, assim sendo, nós já cá levamos o nosso quinhão; ainda aí fica esse pote, acabe vossemecê de o rapar.
O homem não perdeu tempo e, tão depressa quanto pôde, apanhou as moedas que restavam no fundo do pote e encheu o barrete com elas. Correu depois para casa o mais depressa que as pernas deixaram, não fosse alguém dar por ele, e foi contar às filhas o sucedido.
Se já eram abastadas, as Mari’Joanas ficaram ainda mais ricas. Quando morreram, como eram solteiras e nem sobrinhos tinham, quem herdou tudo foram os primos Fernandes. Vem desses tempos a fama, e só eles sabem se o proveito, de serem das famílias mais ricas da terra.


M. L. Ferreira

segunda-feira, 27 de março de 2017

Profissão: serrador

Numa vista de olhos recente pelos registos de batismo dos anos vinte e trinta do século passado constatei que muitos dos pais das crianças batizadas tinham a profissão de serrador. Eram muitos, principalmente no Mourelo, Pereiros, Partida, Violeiro e Vale de Figueira.
Achei interessante esta informação porque, entre outras coisas, nos dá conta da importância da floresta na economia da nossa terra e de como a madeira, talvez a par da pedra e do barro, foi um dos materiais de construção mais importantes de outros tempos.
Nesta ruína que encontrei há dias no Fundão, mas que podia ser por cá, podemos ver bem a quantidade de madeira que era necessária para construir uma casa, e como ela era imprescindível em todas as fases da sua construção: telhado, paredes, chão, portas, janelas, varandas…

   
Não sei se é por serem só materiais da terra e dizerem tanto do trabalho árduo dos nossos antepassados, mas ao olhar para estas ruínas sinto a mesma emoção de quando aprecio a obra de um grande artista.

M. L. Ferreira

domingo, 6 de novembro de 2016

Ontem, na Partida

Como sempre, fomos bem recebidos no Pequeno Lugar, uma casa que está cada vez mais bonita.
E foi um serão bem passado. Com muitas histórias, conversas, gente bem disposta...


...interessada...

 

... e participativa. Para além das histórias que lemos, algumas das pessoas da assistência ofereceram-nos outras que fazem parte das suas memórias mais antigas.

      
   O coro do nosso rancho ajudou, mais uma vez, a abrilhantar a apresentação.


Para além do convívio e da boa disposição, valeu também a pena porque se venderam mais alguns exemplares do livro. Como sempre generoso, o povo da Partida!

M. L. Ferreira

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Partida - estrutura social


1 – Vestígios de organização comunitária

a)  – Generalidades:

Ao observador menos atento poderia parecer não existirem na população da Partida quaisquer manifestações de comunitarismo, dado não existirem terras comuns, antes se encontrando a propriedade muitíssimo dividida e ser a exploração feita individualmente.
Porém, e como não podia deixar de ser num meio onde cada um depende do seu vizinho para a realização de múltiplas tarefas e suprimento das mais diversas dificuldades, são muitas e variadas as formas como as pessoas aqui se agregam para, em conjunto, realizarem o que a cada um seria impossível. 

– Fornos públicos

Existem os da Barroca, da Barreira, do Cabeço, do Esteval e o do Cordágua.




Fornos do Esteval e da Barreira, na atualidade.

O único verdadeiramente de todo o povo é o da Barroca, que é também o mais antigo. Os restantes já foram construídos pelos moradores das proximidades do local onde se situam, aos quais se restringe geralmente a sua utilização. Não há, no entanto, qualquer registo de propriedade e a posse é meramente costumeira. A utilização por um não-dono é sempre por empréstimo, nunca dando lugar ao pagamento de qualquer aluguer.
Não existe a profissão de forneiro ou forneira. Cada mulher que deseja utilizar um forno começa por colocar nele um sinal (pequena porção de lenha colocada na boca do forno). Se já houver nele outro sinal tem que procurar saber a quem pertence, para saber o dia e a hora que convém à primeira, e se a quantidade de pão de ambas couber numa fornada e a hora de uma convém à outra, combinarem cozer juntas.
Acontece quase sempre juntarem-se duas, três ou mais vizinhas para uma cozedura, por cada uma cozer pequenas quantidades de pão e ser assim necessária menos quantidade de lenha de cada uma para aquecer o forno.
Por meio dos sinais colocados no forno é estabelecido um calendário cujo cumprimento decorre quase sempre na melhor ordem. Se uma vez por outra surgem discussões entre as vizinhas interessadas, são resolvidos sem recurso a qualquer autoridade pública, embora não deixem de ser aproveitadas para cada uma apontar à outra os defeitos que supõe ter.
Terminada a cozedura, cada uma leva o seu pão, não havendo qualquer poia ou maquia, pois como já se disse não há forneiro ou forneira, sendo os fornos utilizados directamente pelos interessados.

b)  – Moinhos, lagares e azenhas

Aqui verifica-se uma propriedade colectiva, mas não pública. Cada lagar, moinho ou azenha tem os seus donos e os vizinhos que deles se quiserem servir terão que pagar uma poia ou maquia.

I – Lagares:

Existem três lagares para fabrico de azeite. O Cimeiro, o Novo ou do Portabeira e o Fundeiro, cada um com duas varas.

        

Parte do engenho da moagem da azeitona do lagar Cimeiro. 
A roda foi reutilizada como escultura no Parque Natural da Ribeirinha

O quinhão base é o oitavo, o que não quer dizer que o número de condóminos seja rigorosamente de oito. Pode um só dono possuir mais do que um oitavo, ou um mesmo oitavo pertencer a mais que um dono. Isto acontece sobretudo por motivo de herança, pois, não raro, vários herdeiros mostram interesse em ficar com uma fracção de um quinhão a herdar. É que todos os lagares têm também azenhas para moagem de cereais que funcionam fora do período de fabrico de azeite e enquanto as ribeiras levam água suficiente para o efeito.
Quanto ao fabrico do azeite, cada ano há um avinhador a quem compete fornecer a primeira módura e contratar os 2 lagareiros, bem como o fornecedor de lenha. Os lagareiros tiram uma poia proporcional ao azeite produzido por cada módura (são dez partes para o dono e uma para o lagar) e vão-na despejando no pote da poia. Desta é tirado um litro por módura para o ganhão que transporta a azeitona para o lagar. Do azeite produzido por cada módura é ainda tirado um litro para o fornecedor de lenha.
Finda a campanha e depois de retirado o azeite para os ganhões e fornecedor da lenha, e entregue aos lagareiros a quantidade de azeite devida pelo serviço, é o azeite vendido pelo avinhador que convoca os outros condóminos para um determinado dia e hora, para fazerem as contas.
As contas são normalmente feitas em casa do avinhador que apresenta as despesas feitas durante o ano, assim como os respectivos rendimentos. É um acto revestido de certa solenidade, findo o qual os sócios bebem uma boa quantidade de vinho. No mesmo acto é a chave entregue ao avinhador do ano seguinte.

II – Azenhas:

Quanto ás azenhas que funcionam em cada um dos lagares, o seu uso limita-se quase exclusivamente aos respectivos proprietários, moendo cada um o seu próprio cereal e portanto sem que lhes seja retirada qualquer maquia. A utilização por não-donos é excepcional e só pode ser feita na vez de um dos donos. É que se azenha fosse utilizada com fins lucrativos seria considerada uma indústria e teria que pagar a respectiva contribuição.
Não se verifica normalmente uma rígida limitação do tempo de utilização da azenha por cada dono.
Embora, logicamente, o tempo de utilização deva ser proporcional ao quinhão, é dado a cada um o tempo suficiente para moer todo o cereal de que necessita. O critério da proporcionalidade apenas é utilizado em ocasiões de escassez de água ou quando vários donos querem moer ao mesmo tempo.

III – Moinhos:

Existem vários pequenos moinhos de roda exterior horizontal, pertencendo cada um a uma sociedade.


Moinho (azenha?) das Fragoeiras, na Ribeirinha.

A capacidade destes moinhos é bastante menor que a das azenhas dos lagares e, por esse motivo, há maior necessidade de limitar o tempo de utilização do moinho por cada um dos donos, de acordo com a quota parte de cada um. Cada um é moleiro do seu próprio cereal

c)– Extinção de incêndios

À semelhança do que se verifica na maior parte das aldeias portuguesas, também aqui não há qualquer organização de bombeiros voluntários.
Ora, dado que os incêndios ocorrem quer em construções quer em pinhais e que o recurso aos bombeiros voluntários da sede de concelho não é viável, a não ser para incêndios de grandes proporções, o que felizmente se não tem verificado, era natural que se criasse o costume de serem os próprios moradores da povoação a extingui-los, ajudando-se mutuamente. Este costume verifica-se de facto e constitui uma das mais belas manifestações de solidariedade a que é dado assistir.
Logo que se espalha a notícia de um incêndio, a pessoa que primeiro consegue chegar ao sino da capela de S. Sebastião começa a tocá-lo a rebate. Imediatamente toda a população válida se dirige para o local do incêndio, assinalado pelo fumo ou indicado pelo tocador do sino, levando logo cheias de água as vasilhas que tiver à mão. (…) Enquanto as mulheres e as crianças transportam a água, os homens procuram lançá-la sobre as chamas, muitas vezes com risco da própria vida. Cada um faz o máximo que pode e o trabalho só termina depois de o fogo estar completamente extinto.
É necessário salientar aqui que muito raramente alguém deixa de acorrer a ajudar a extinguir um incêndio por motivo de inimizade com o dono do prédio sinistrado. Ao contrário, é frequente as pessoas ajudarem nestas circunstâncias até mesmo os próprios inimigos. Impõe não só a consciência de cada um, mas também o senso comum da população que reprova a falta de colaboração, independentemente das relações existentes entre os interessados. 

e) – Rebanhos de cabras pertencentes a vários donos ou meeiros

(…) a propriedade encontra-se excessivamente fragmentada, sendo poucos os proprietários que trabalham exclusivamente nos seus próprios terrenos e não havendo nenhum que possa dar-se ao luxo de não trabalhar no campo.
A exploração pecuária torna-se difícil e daí o agrupamento de pequenos rebanhos de dois ou mais donos, chamados meeiros, num único rebanho à guarda de um só pastor, o que permite não só uma melhor utilização das pastagens, como também o mais fácil pagamento da soldada do pastor.
O pastor é alimentado às semanas pelos meeiros e é-lhe dada a possibilidade de escolher uma cabra merendeira. O leite desta é utilizado pelo pastor como complemento da merenda levada de casa. A soldada anual consta de uma soma em dinheiro – de 300 a 1000 escudos - e de algumas peças de vestuário e calçado. Um fato e meio, três camisas, três pares de ceroulas, umas botas e um gavão. Por vezes recebe também uma cria (chiba), escolhida pelo pastor entre as de cada ano.

f)– Arranjo dos caminhos pelo Carnaval

Este é um costume que se vai perdendo (….).
Para o arranjo a que nos estamos referindo era mais uma vez o sino da povoação que chamava as pessoas ao trabalho. No dia de Carnaval, logo pela manhã, o cabo de ordens ou alguém por si mandado, dava umas badaladas no sino, após o que vários homens isolados ou em pequenos grupos e munidos das necessárias ferramentas, se dirigiam para os locais onde os caminhos necessitavam de reparação, procurando cada um reparar aqueles que mais directamente lhes interessavam. Este trabalho prolongava-se apenas pela parte da manhã porque a tarde, essa era reservada para os folguedos tradicionais.

         g) – Arranjo de «encanamentos» e «presas» colectivas no princípio do Verão:

         Existem várias regadias interessando simultaneamente maior ou menos número de agricultores, por vezes dezenas.
         Dado o vigoroso acidentado do terreno e o acentuado declive do leito dos ribeiros, todos os anos os encanamentos ou captações de água para as levadas são danificados pelas cheias, pelo que têm que ser reparados ou construídos.
         Interessando estes «encanamentos» a todas as pessoas que beneficiam da respectiva rega, juntam-se as mesmas em dia previamente combinado e vão meter a água à regadia.
        
         h) – Águas públicas (aduas):

         (…)
         Se a água abunda e nem todos os agricultores da regadia estão interessados em regar, a conjugação de interesses não é difícil de conseguir e basta que se vá seguindo na rega a mesma ordem por que os prédios se encontram na regadia.
         Quando a água escasseia o procedimento é diferente, conforme a regadia tem adua ou não.
         Se tem adua, o que quer dizer que há um número de horas de rega para cada prédio, constante da própria matriz, a água é aduada e começa no cimo da regadia a utilização dela por cada proprietário durante as horas que lhe competem.
         Cada interessado vai-se informando onde é que anda a água, procurando tomar conta dela no momento exacto em que passa a pertencer-lhe. Chegada ao fim da regadia, volta novamente ao princípio.
         Nas regadias que não têm adua, o princípio orientador é o da água passar sucessivamente de um proprietário para outro até dar a volta a toda a regadia. Como não há um número de horas estabelecido, cada um procura regar o seu terreno de uma só vez. Assim, frequentemente os direitos de uns são atropelados e os prejudicados são normalmente os situados no fundo da regadia. É fácil aos que estão mais acima abrir os tornadouros e regar, ainda que não seja a sua vez.
As desavenças são aqui mais frequentes, mas não têm passado de simples toca de palavras. Com efeito não há notícia de qualquer questão de regas ter levado a ofensas corporais de qualquer natureza.

i)– Contribuição espontânea para obras de interesse colectivo:

Pode afirmar-se que, dentro das suas possibilidades, os habitantes da Partida se mostram muito generosos sempre que são chamados a colaborar com dinheiro, trabalho ou outros meios para obras de interesse colectivo. A atestar este espírito de cooperação estão a igreja, a casa paroquias, a capela de S. Sebastião, a capela de S. Tiago, os troços de calçada das ruas e alguns pontões de madeira para passagem de peões, tudo construído ou reconstruído sem ajuda oficial.
Porém, também aqui tem sentido o ditado que diz que «Santos da casa não fazem milagres». Embora nunca desmentida, a aludida generosidade mostrou-se no entanto mais claramente quando o Reverendo Padre Manuel de Oliveira Campos, natural do Souto da Casa, aqui exerceu o seu ministério há alguns anos. Homem dinâmico e conhecedor da natureza humana, facilmente obtinha a adesão dos habitantes aos empreendimentos a que metia ombros. Naturalmente generosa e superiormente orientada, contribuiu a população da Partida naquele período com mais de duas centenas de contos e muitos dias de trabalho para várias obras de interesse geral.

Retirado de «PARTIDA -  COMUNIDADE DA ZONA DO PINHAL NA BEIRA BAIXA», de Luís Leitão -  Composto e impresso nas Oficinas Gráficas do Jornal do Fundão, 1991.

Nota. As fotografias são atuais e foram acrescentadas ao texto original.
Para além dos fornos referidos, os autores falam ainda de outro que existe num local ermo, chamado Forno dos Mouros, que poderá provar o período da fundação da Partida.
Falaram-me também de um lagar que existe na ribeira entre a Partida e o Vale de Figueira onde se podem ver ainda vestígios de uma mão moura. Parece é que está comido pelas silvas… 

M. L. Ferreira