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sexta-feira, 20 de abril de 2012

O nosso falar: pringuero, bacalhoeiro...

Eu aqui poupadinho, a economizar na lista de palavras que vou relembrando e estes amigos, na última publicação, gastaram-me logo uma catervada delas.
O Zé Barroso recordou-nos o Tchalim, defendido pelo irmão, que punha a cabanir a criançada mal educada. E ainda a Caruca que lhes chamava pangalunos.
O Chico Barroso disse que o Ernesto Hipólito era um grande pringuero e o Ernesto chamou-lhe bacalhoeiro.
Assim, a gastar a artilharia toda duma vez, como querem aguentar este blogue por muitos anos?

Ri à gargalhada quando o Chico me recordou a palavra pringuero (preguiçoso). Bacalhoeiro existe, mas é um barco de pesca do bacalhau, um negociante de bacalhau ou um grande apreciador do fiel amigo. O nosso bacalhoeiro é uma pessoa que conta tudo, mesmo o que é suposto ser segredo!

Mas o Chico tem razão! Eu, tal como ele, passámos pouco tempo na Vila, divididos entre o Seminário e as encostas da Gardunha. Depois partimos. Por isso, há muitas vivências da nossa comunidade que nos passaram ao lado. Ora o Zé Barroso e o Ernesto Hupólito, e muitos outros, estiveram quase sempre no coração da Vila, entre a Praça do Ernesto e a Fonte do Zé.
Um abraço para os três.

Catervada vem de caterva: uma multidão, um grande número. O sentido é o mesmo, só alongámos a palavra.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

O nosso falar: cabanir, pangaluno…

José Barroso

A propósito do Tchalim… a Caruca e o Muda’torre
Também eu não recordo o verdadeiro nome dele, do Tchalim (a).
Nem o nome do irmão que, com deficiência física nos pés, era um artista com as mãos, como sapateiro.
Lembro-me, sim, que este defendia o outro, o Tchalim, energicamente, contra a estupidez da canalha, que eram muitos de nós. Sim, tínhamos muitas vezes, nas nossas brincadeiras, tanto de bom e inocente como de desprezível!! Éramos muito duros com o pobre do Tchalim. As crianças, diz-se, são cruéis. Talvez porque dizem a verdade como a vêem e sentem…
E quando o Tchalim aparecia, com o seu andar trôpego de espasmos involuntários, os seus esgares, de olhar vazio, inexpressivo e a babar-se, parecia-nos algo de demoníaco. Todos nós temos um lado nobre, mas também um lado pérfido; ou, como diria o Rui Veloso, “a nossa face negra (e) nem eu, nem tu, fugimos à regra”. É preciso controlar este lado mau. Mas…eis, pois, muitas vezes, quando a desgraça bate à porta de alguém, vem ao de cima a nossa faceta hedionda: “Se Deus o marcou, algum defeito lhe achou”.
Em vez de sermos afáveis, procurando compreender o mal e a dor dos outros, como no caso do Tchalim, acirrávamo-nos ainda mais e atirávamos, sem dó:

- Tchalim, tchalota, abre o cu e fetcha (b) a porta!!

Mas se o irmão ouvia, vinha a terreiro defendê-lo:

- Andem cá que vos coço, corja de malandros!! Ponham-se daqui a cabanir (c) !!!

Fugíamos a sete pés! Não que o pobre do homem, com as suas dificuldades de locomoção, pudesse fosse o que fosse contra nós, que éramos ágeis no correr, mas porque (sempre) se tratava de um adulto e, sobretudo, porque estávamos cientes do mal que fazíamos.

E isto não se passava só com o Tchalim. O mesmo sucedia com outras pessoas, normalmente, as mais desprezadas ou porque tinham uma qualquer mazela ou porque eram de uma pobreza extrema. Era (e é) a comunidade de iguais, impassível, a excluir os estanhos, aqueles com os quais não se identifica, atitude que, parecendo insignificante, tantos dramas tem custado à humanidade. Por isso, quase inevitavelmente, tinha que acontecer também com a Caruca (d) (a quem também chamávamos A Que Fuma) e com o Muda’torre.

Quanto à primeira, não faço, hoje, mais uma vez, a mínima ideia do seu nome. Só sei que era uma mulherzinha muito pobre de aspecto andrajoso e que, segundo penso, vivia quase só da esmola alheia ou de pequenos expedientes. Mas, nós, a canalha, com a sua insensibilidade e crueza, inquietávamo-la e chamávamos-lhe nomes ofensivos:

- Caruca!! Que fuma!! Caruca!!

Ela alçava o braço, fingia que apanhava uma pedrita para nos atirar e ripostava:

- Pangalunos (e)!! Caruca é a vossa mãe!! Pangalunos!!

Fugíamos ao menor gesto dela, para depois voltarmos a investir.

- Caruca!! Olha os 50 escudos!!

Foi assim a história dos 50 escudos:
Um dia soou pela vila que ela se teria apoderado indevidamente de dinheiro alheio, uma nota de 50 escudos. Talvez em casa de alguém que, incauto, lhe franqueou as portas. 50 escudos, à época, era dinheiro!!!
Tanto quanto me lembro, a Caruca terá ido ao Posto da Guarda (GNR) e lá teriam tentado que confessasse o furto, procedendo os guardas a uma pequena revista. Mas, ela, com o fito de esconder a nota, tê-la-á metido no ânus, muito bem dobradinha!!
Nunca vim a saber se o episódio do furto terá tido algum fundamento de verdade. O que, para o caso, também não interessa.

No que toca ao Muda’torre (Mudo da Torre), também nunca soube o seu verdadeiro nome. Porém, como indica o epíteto, era um homenzinho mudo, residente na Torre (Louriçal do Campo), que aparecia na vila a pedir esmola. O que, naturalmente, acontecia, com mais frequência, em épocas festivas ou aos domingos.

Um de nós (dos mais velhos) acenava-lhe com uma moeda de 5 tostões, escrevia num papel umas garatujas sem significado, fazia-lhe sinal e dizia, apontando o papel:

- Lê;

E ele, que era analfabeto e, coitado, não tinha voz, lia:

- Guaguum, guaguum, guaguum;
- Guaguum, guaguum, guaguum;

Expondo-se, humilhando-se e exibindo a sua miséria, para gáudio geral… E lá levava os 5 tostões da esmola…

Mas às vezes acabava-se-lhe a paciência ou - travessura das travessuras - negavam-se-lhe os prometidos 5 tostões e, de tanto o chatearmos, corria atrás de nós, brandindo o varapau que sempre o acompanhava, emitindo os seus sons guturais, impossíveis de entender:

- Guaguum, guaguum!!! Em tom de ameaça, como que a querer dizer qualquer coisa que sabíamos ser algo, para nós, desagradável, mas que não podíamos decifrar.

- Guaguum, guaguum!!!, com o varapau no ar!!! E fugíamos em debandada para, em seguida, voltarmos à carga!

Tenho imensas saudades de ti, Tchalim, de ti, Caruca e de ti, Muda’torre !! Oh ! Se tenho!!!

(Escrevo com ortografia anterior ao actual Acordo).


Notas:
(a) Tchalim: Julgo que o termo procura interpretar o tremelicar constante daquele homem, por causa da sua doença, uma disfunção neuro-motora.
(b) Fetcha: fecha; do verbo fechar.
(c) Pôr-se a cabanir: pôr-se a andar; afastar-se de certo local; não encontrei sinónimo nos dicionários.
(d) Caruca: tenho a noção que esta palavra é o mesmo que “velha”, “caduca”; mas não a encontrei nos dicionários on line com este significado;
(e) Pangaluno: trata-se de um termo ainda hoje usado que, localmente, significará qualquer coisa como “valdevinos” ou “vagabundo”; não encontrei sinónimo nos dicionários portugueses.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Boas Festas


Boas Festas, no Salvador, concelho de Penamacor, em meados do século passado.

Andava-se de casa em casa, o Vigário, o sacristão e o rapaz da campainha, com o Senhor, mais os amigos, os vizinhos e a criançada da zona. Havia uma mesa repleta de amêndoas, doces e tremoços. Ao centro, as flores da Primavera. E vinho, raramente aceite, para matar a sede ao senhor Vigário, e umas moedas ou uma nota, como paga do serviço.
Antes, horas e horas a alindar a casa. Uma vez por ano, cada família abria-se à comunidade e ninguém queria fazer má figura.
As Boas Festas eram domingo, na Vila, segunda-feira, no Caldeira e na Tapada, domingo de Santa Bárbara, no Casal da Fraga, e domingo da Senhora da Orada, nas Quintas. Elas eram a festa da partilha, o único momento em que o Senhor visitava as pessoas, na sua casa, “obrigadas” que estavam a deslocar-se todo o ano a casa d´Ele.
O desaparecimento das Boas Festas foi um sinal dos tempos, nos anos 70: a pouca higiene no beijar da cruz; frequentes rivalidades entre párocos e comunidades, nessa época; concentração de milhares de pessoas em cidades, onde por vezes os vizinhos nem se conhece; a maioria das pessoas terem deixado de ser católicos praticantes e proliferarem minorias de outras igrejas ou de nenhuma.
Mas, elas não terem sido retomadas pela Igreja, mesmo que reformuladas, é para mim um dos grandes mistérios da nossa Igreja Católica. Fala-se, por tudo e por nada, com muita razão, em policiamento de proximidade. Há programas que levam as autoridades policiais, assistenciais e de saúde a casa dos idosos mais isolados. Mas os pastores da Igreja prescindem, voluntariamente, de um dos momentos mais nobres de proximidade com o seu rebanho.

Notas breves:
Há meses, os padres redentoristas de Castelo Branco anunciaram, pela comunicação social, que ofereciam, diariamente, um certo número de refeições aos mais necessitados. Semanas depois, vieram protestar, nos jornais, pois nem uma pessoa aparecera para pedir ajuda. Extraordinário! Isto fez-me lembrar uma igreja da zona da Amadora, junto a uma zona residencial de emigrantes africanos, onde já fui por duas vezes e nunca vi uma única pessoa de raça negra.
Há dias, fiz uma curta visita à ti Maria dos Anjos e ela disse-me que o senhor Vigário lá estivera momentos antes. Mas uma andorinha não faz a Primavera, nem esta é uma crónica sobre a Igreja de S. Vicente da Beira. No entanto, são estas novas formas de pastoral que fazem falta à Igreja Católica!
Se acharem que não tenho nada com isso, dou-vos toda a razão. Mas estava aqui sentado ao computador, sem nada para fazer, e lembrei-me que hoje era o dia de dar as Boas Festas, na casa da minha infância. Nostalgias!

quinta-feira, 5 de abril de 2012

De volta aos anos 40

FESTAS

E havia as festas…
Ainda posso lembrar a sensação de leveza
quando trocava vestidos de Inverno pelos da Primavera
e meias de lã pelas de renda
a brisa do fim de março me arrepiando as pernas.

Era um tempo como este
rosas e pássaros, começo de Primavera
roxos e lutos de semana Santa
matracas e lanternas
visitações, casas caiadas
amêndoas coloridas
compadres, comadres, folares, pães de ló
procissões, aleluia, vinho cor de rubi.

Mas as grandes festas aconteciam no fim do Verão:
Setembro, feira na praça, tendas
pevides negras rebrilhando ao sol
no coração rubro das melancias abertas
louça de barro vidrado
pássaros de madeira martelando assas
cavalos, ouro cintilante no veludo negro
de ourives cigano.

Além da presença das cegonhas
maravilha branca
pesado vôo
hóspedes no campanário da igreja matriz.
Maiores e mais brancas do que as suas asas
somente as dos anjos da aldeia
na procissão, eu e a minha irmã entre eles
suadas, desmantelados anjos, caminhando ao compasso da banda
sobre as pedras da rua, atapetada de ramagens.

Atordoada pelos foguetes
derrubava minhas asas
escondendo-me, de cócoras
entre as pernas dos adultos, túnica arregaçada
mãos protegendo os ouvidos
pelas frestas dos olhos mal fechados
vendo fugir as canas sibilantes
assustando rebanhos no céu.

(Maria de Lourdes Hortas, Cantochão de Todavia, Gega, 2005, São Vicente da Beira)



Anjinhos atrás do Santo António, na Procissão dos Terceiros, 2011

Que sorte termos alguém que tão bem passou para os versos as nossas tradições! Neste ano sem festividades quaresmais e pascais, o poema ganha um sabor especial.
Cegonhas? Já tinham deixado de vir nos meus anos 60 e ainda não voltaram no atual repovoamento.
E o vinho cor de rubi... Numa Páscoa, o meu pai levou-me com os outros homens, eu menino, a uma adega particular, na rua Dona Úrsula. Cor e sabor carregados e leves, a um tempo, os daquele néctar. À saída, o meu pai comentou: "Bom vinho, era como carne!"

sexta-feira, 30 de março de 2012

FORAL MANUELINO: Vicentinos na Expansão

A obra "A BEIRA BAIXA NA EXPANSÃO ULTRAMARINA" dá a conhecer alguns vicentinos que participaram na expansão portuguesa dos séculos XV e XVI, a época do foral manuelino. Os autores são dois investigadores, ambos naturais da Orca.
(Joaquim Candeias Silva e Manuel da Silva Castelo Branco, A BEIRA BAIXA NA EXPANSÃO ULTRAMARINA, Edição da Câmara Municipal de Belmonte, 1999)

Lopo Martins
Era natural de S. Vicente da Beira e participou em importantes expedições militares, na primeira metade do século XV: Ceuta, 1415; Canárias, 1424…
Foi acusado de adultério, em São Vicente da Beira, por um marido enganado chamado João Anes Boiro (Boeiro?). Condenado a degredo para Ceuta, por dois anos, cumpriu a pena em Marvão, como homiziado, pelos seus bons serviços prestados ao reino.

Duarte de Azevedo
Natural de S. Vicente da Beira, era filho de Lopo de Azevedo, fidalgo da Casa Real que, proveniente da quinta de Azevedo na Terra da Feira, passou a viver na dita vila, onde casou com D. Joana, “senhora de grande qualidade”.
Partiu para a Índia em finais do reinado de D. Manuel I. Em 1528, participou na tomada de Baçaim com o Capitão Martim Afonso de Mulo Jusarte, a quem acompanhou depois ao reino de Bengala. Ali voltou de novo no ano de 1533, com a armada de que ia por capitão-mor o mesmo Martim Afonso, a fim de estabelecer comércio e negociar a libertação de um mercador mouro chamado Coje Xabadim. Fundeadas as naus no porto de Chetigão, foi o nosso Duarte de Azevedo, presumivelmente bom conhecedor da língua nativa, enviado com 10 homens por embaixador de Bengala, levando-lhe presentes que valeriam mais de 3.000 pardaus. Foram apanhados por fogo cruzado, entre lutas rivais, e acabaram presos, só sendo libertados em 1538.
Duarte de Azevedo regressou então ao reino. Passou depois ao Norte de África e esteve no cerco de Safim, servindo aí muito bem, pelo que era “merecedor de honra e mercê”. Voltou à sua terra natal e depois fixou-se em Évora, já casado e com geração.

D. Álvaro da Costa
Natural de S. Vicente da Beira, era filho de Martim Rodrigues de Lemos e Isabel Gonçalves da Costa. Segundo alguns, a sua mãe era parente do cardeal D. Jorge da Costa (de Alpedrinha) e por ele se tornou escudeiro-fidalgo da Casa Real. Depois foi guarda-roupa e camareiro-mor de D. Manuel, recebendo dele muitas mercês: conselheiro de Estado e o tratamento de Dom para si e seus descendentes; o hábito da Ordem de Cristo, com 20.000 réis de tença e os honrosos cargos de armeiro e armeiro-mor que já exercitava, em 1515.
Foi embaixador do rei a Espanha e a Roma. Teve a comenda de S. Vicente da Beira da Ordem de Cristo, foi vedor da Casa da rainha D. Leonor e primeiro provedor da Misericórdia de Lisboa.


Vista geral da ermida da Senhora da Orada.


Pia de água benta de estilo manuelino, com o brasão dos Costa, na ermida da Senhora da Orada.


Pormenor do cruzeiro manuelino, com o brazão dos Costa, na entrada do adro da Senhora da Orada.
É possível que a atual capela da Senhora da Orada seja uma reconstrução do século XVI, promovida por D. Álvaro da Costa, pelo seu filho ou pelo neto, que se seguem. Quem a mandou reconstruir deixou a sua assinatura: o brazão de família Costa.


D. Duarte da Costa
Filho segundo de D. Álvaro da Costa e de D. Brites de Paiva, sucedeu ao pai no cargo de armeiro-mor do reino. Teve a comenda de São Vicente da Beira, na Ordem de Avis, que renunciaria a favor de seu filho D. Francisco da Costa, em 1560.
D. João III mandou-o por embaixador a Carlos V e, em 1553, designou-o para suceder a Tomé de Sousa, no governo e capitania-mor do Brasil, cargos que desempenharia até 1557.
Partiu de Lisboa a 8.5.1553, levando consigo o Padre José de Anchieta. Voltou à corte, em 1557, onde retomou o cargo de armeiro-mor. Havia, entretanto, casado com D. Maria de Mendonça, da qual houve descendência.

D. Francisco da Costa
Filho segundo de D. Duarte da Costa e de Maria de Mendonça, nasceu em Lisboa, no ano de 1533, e teve o hábito de Avis e a comenda de S. Vicente da Beira, desta Ordem, por cartas de 1558 e 1560.
Ainda jovem, partiu para o Oriente, na armada de D. Afonso de Noronha, em 1550. Participou em lutas no Mar Vermelho e no Golfo Pérsico. Regressou ao reino e, de 1556 a 1559, serviu a frota que defendeu a costa portuguesa dos corsários franceses. D. Sebastião entregou-lhe a capitania de Malaca, para onde partiu em 1568. Regressou a Portugal, em 1575, e o rei nomeou-o capitão-mor e governador do Algarve, com o encargo de abastecer o exército que se deslocava para Alcácer-Quibir. Após o desastre, o Cardeal D. Henrique enviou-o como embaixador a Marrocos, para resgatar o duque de Barcelos e mais 80 fidalgos cativos pelos mouros. Chegou a Mazagão, em 1579. Como não levava dinheiro suficiente, ficou como fiador dos cativos libertados. Foi já D. Filipe I quem lhe mandou o dinheiro suficiente, mas o Xerife Mulei Ahmede exigiu então o pagamento em pérolas. Faleceu antes da libertação, em Marraquexe, no ano de 1591.
Casara com D. Joana Henriques, dama da infanta Isabel. Era poeta.

Jerónimo Corte-Real
Descenderia dos Costa Corte-Real de Alpedrinha. Nasceu nos Açores, em 1530 e faleceu em 1590. Pessoa de grande engenho, guerreiro, poeta, músico e pintor, casou com D. Luísa da Silva, dama da rainha D. Catarina.
D. Sebastião fez-lhe mercê da capitania-mor de uma nau da Índia, em 1571. Teve também a comenda de S. Vicente da Beira na Ordem de Cristo e licença para a arrendar, por alvará de 1561.

Padre Leonardo Nunes
Era filho de Simão Álvares e de Isabel Fernandes e nasceu em S. Vicente da Beira, possivelmente em 1518. Entrou no colégio da Companhia de Jesus, de Coimbra, em 1548, e no ano seguinte partiu para o Brasil, na armada de Tomé de Sousa, fazendo parte de um pequeno grupo de missionários chefiados pelo Padre Manuel da Nóbrega.
Foi enviado para Ilhéus e depois para a capitania de S. Vicente, onde não havia missionários. Exerceu uma intensa e profícua atividade, mostrando-se sempre incansável e zeloso. Dominava a língua nativa.
Criou uma escola para crianças índias e portuguesas, o chamado Colégio dos Meninos de Jesus, inaugurado em 1553. Por isso é considerado fundador da instrução no Estado de S. Paulo.
Enviado a Roma para dar conta da obra da Companhia de Jesus, no Brasil, faleceu num naufrágio ainda à vista de São Vicente, em 1554.

Sebastião Falcão
Era natural de São Vicente da Beira, filho de Fernão Falcão e de Maria Teresa (irmã de Xisto Tavares, cónego da Sé de Lisboa).
Partiu para a Índia, em 1533, incorporado na armada capitaneada por D. Pedro de Castelo Branco.

Irmão Domingos Vaz
Entrou para a Companhia de Jesus em 1588, com 29 anos. Nos finais de 1594, achava-se no Colégio de Cochim (Índia), sendo então coadjutor.

Simão de Sousa de Refóios
Foi o primogénito de Jácome de Sousa de Refóios, 9.º senhor do morgado de Santa Eulália, que viveu nas suas casas nobres de S. Vicente da Beira, com a mulher e prima Maria de Refóios.
Sucedeu na casa paterna e foi o 10.º senhor do dito morgado. Acompanhou D. Sebastião a África, onde morreu na batalha de Alcácer-Quibir (1578). Morreu sem geração, pelo que o morgado passou a sua irmã D. Leonor de Sousa. Esta casou com Nuno da Cunha, neto do grande governador do mesmo nome e deles foi 2.º neto João Nunes da Cunha que chegou a vice-rei da Índia e a quem D. Afonso VI concedeu o título de 1.º conde de São Vicente, sem embargo da oposição dos seus moradores.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Os caseiros do Monte do Surdo

O Casal do Monte do Surdo era a propriedade mais valiosa que o Conde de São Vicente possuía na nossa freguesia, recebendo de foro 26$666 réis e 24 arráteis de linho, anualmente. Ocupava todo o vale do ribeirito, afluente da Ribeirinha, que separa o Casal da Fraga do Casal do Baraçal. Penso que a residência dos caseiros era a última casa do vale, junto ao cruzamento da estrada para os Pereiros e Partida.

Em 1768, apenas duas famílias viviam no Casal da Fraga e uma outra neste casal do Monte do Surdo. Eram os caseiros Manoel Leytaõ e Izabel Duarte.
Dois anos depois, é já o seu filho que aparece na documentação, como herdeiro do aforamento: Joze Leytam Paradanta, casado com Maria Pires do Casal da Serra. Como o nome indica, o pai de Joze Leytam Paradanta seria natural da Paradanta e o filho herdou o apelido. Este Joze Leytam costumava ajustar os malhadis da Devesa, para alqueivação de cereais.

O casal teve duas filhas, ambas bem casadas. Maria Pires Leitão casou com João Rodrigues Lourenço Caio, natural da Torre, filho de Francisco Rodrigues Lourenço Caio da Torre e de Maria Jordão de Castelo Branco, mas filha de pai do Louriçal. João Rodrigues Lourenço Caio era sobrinho do cura do Louriçal, em 1776, o Padre Joam Rodrigues Lourenço Cayo.
A outra filha de Joze Leytam e Maria Pires, chamada Francisca Pires, casou com João Ribeiro Garrido, do Sobral do Campo.

João Rodrigues Lourenço Caio veio viver para casa do sogro e dele herdou o aforamento do casal. Foi Capitão da Ordenanças da Vila. Durante a Guerra Peninsular (1807-1812), a sua casa agrícola deu alimentos para os franceses e fez serviços de transporte com o carro de bois para os exércitos francês, português e inglês.
Um filho de João Rodrigues Lourenço Caio e Maria Pires Leitão, também chamado João Rodrigues Lourenço Caio, casou no Sobral do Campo, em 1811, com Helena Maria Duarte, filha de Sotério Duarte e de Josefa Margaridas, ambos do Sobral. Este João Roiz Cayo ainda vivia no Sobral, em 1828 e era lavrador.

O outro filho, António Rodrigues Caio, integrou o Regimento de Milícias, na Guerra Peninsular (1807-1812). Casou, no dia 17 de Junho de 1824, com Francisca Maria, filha de Manuel de Andrade e Maria Josefa, ambos dos Pereiros. No dia 15 de Novembro do mesmo ano de 1824, nasceu-lhes uma filha chamada Maria.
Esta Maria José casou, no Sobral do Campo, em 1844, com Manuel Ramos Preto, filho de António Ramos Preto e de Inês Duarte.

Em 1829, o casal do Monte do Surdo era dirigido por José Roiz Cáyo, certamente filho de Antonio e portanto neto de Joaõ Roiz Lourenço Cayo. Mas dele não encontrámos mais informações.

Notas:
- Roiz é a escrita antiga de Rodrigues.
- Estas informações chegaram-me por duas vias: a documentação da época e a obra Famílias da Beira Baixa, Volumes I, II e III, Lisboa, Edição do autor, 2007, de Manuel Estevam Martinho da Silva (esta sobretudo na parte referente à família Rodrigues Lourenço Caio).

sábado, 24 de março de 2012

O nosso falar: chabaçado

Fui a São vicente e vim de lá chabaçado, cansado que nem uma raposa.
Ambas as expressões significam muito cansado. Na segunda, podemos imaginar uma batida à raposa e ela, perseguida sem descanso, já mal se arrasta de cansaço.
Chabaçado vem de chabaçar ou achabaçar, que significa despedaçar, fazer em cacos. Nós temos outra expressão com este sentido: estar todo partido!, com dores no corpo, provocadas pelo trabalho.
Usamos chabaçado mais no sentido de estar tão cansado que nem se pode com uma gata pelo rabo. Ora uma gata pesa pouco, logo o cansaço terá de ser mesmo muito!

Este ano plantei umas árvores e todas as semanas tenho de as regar ao balde, devido à seca. Cá está uma das razões de vir chabaçado.
O ribeiro já secou há um mês e o charco onde ia buscar a água também secará nos próximos dias. Isto costuma acontecer no início de agosto.
Chuva, nem vê-la. Ainda está prevista para amanhã, mas não me parece...
Valha-nos as cerejeiras em flor!

domingo, 18 de março de 2012

Balanço metereológico

Caiu um carujo, mas só assentou o pó.
A seca continua. No próximo fim de semana, está prevista mais chuva. Esperemos que desta vez nos calhe alguma!

sexta-feira, 16 de março de 2012

FORAL MANUELINO - A colheita régia

O foral manuelino de S. Vicente da Beira (1512) estipulava que «Outrossim se pagará na dita vila um jantar e colheita a que chamam soldo d´água. E por ele pagam em cada um ano mil seiscentos reais repartidos por todos os moradores da dita vila e termo segunda tem a fazenda. Sem nenhuma pessoa ser escuso da dita paga por privilégio nem liberdade que tenha. Posto que seja clérigo, segundo os bens que raiz que tiver.»

Desde o início da nossa nacionalidade que era obrigatório, por parte das populações, o fornecimento de víveres para a mesa das autoridades visitantes. Fosse o rei, o bispo, o senhor da terra ou os oficiais da comarca, todos tinham direito a ser hospedados e alimentados pelos povos. Ao conjunto de alimentos que as populações deviam entregar chamava-se colheita.
A historiadora Iria Gonçalves (Souto da Casa) estudou a colheita devida ao rei D. Afonso III, no século XIII, pelos concelhos de Sarzedas e S. Vicente da Beira.
Eis a nossa colheita régia:

Carnes: 1 vaca, 2 porcos, 5 carneiros e 15 galinhas
Temperos para as carnes: 1 almude (20 litros) de manteiga, alhos, cebolas e 1 almude de vinagre
Ovos: 100
Mel: 1 almude
Sal: 1 almude
Pão: 300
Vinho: 1 moio e 6 almudes (360 litros + 6x20 litros = 480 litros)


A carne dava para alimentar cerca de 340 pessoas e o vinho para 250 pessoas (as damas bebiam pouco). Os reis deslocavam-se acompanhados por um grande séquito!
Se o rei não vinha ao concelho (nunca terá vindo à nossa vila), mandavam-se os animais para o local onde residisse habitualmente. Mais tarde, a colheita régia em géneros foi convertida em dinheiro, devido anualmente ao rei. É a esse imposto que se refere o nosso foral acima citado. Em 1512, andava pelos 1600 réis (1$600 réis).

(Iria Gonçalves, A colheita régia medieval, um padrão alimentar de qualidade (um contributo beirão), Comunicações das I Jornadas de História Regional do Distrito de Castelo Branco, 1994, Castelo Branco)


Janela manuelina ao fundo da Rua Manuel Lopes, na casa n.º 55.
A data inscrita na pedra (MCCLXXI - 1271) é muito anterior à ornamentação manuelina (pouco depois de 1500).

quarta-feira, 14 de março de 2012

O nosso falar: capela

Uma capela é um templo religioso cristão, mais pequeno que uma igreja e dedicado a um santo ou a Nossa Senhora, enquanto a igreja é, digamos assim, a casa de Deus e de todos os santos, mesmo quando é dedicada a um deles.
Também usamos capela com o sentido de uma divisão da igreja devotada especialmente a um santo, a Nossa Senhora, ao Espírito Santo, ao Santíssimo Sacramento... Não conheço na nossa freguesia esta situação, mas a igreja de Tinalhas tem uma capela virada a sul, que lhe foi acrescentada depois da construção do edifício principal.
No passado, abundava outro tipo de capela. Era um conjunto de bens (terras, casas, rendas, árvores...) deixados em testamento a uma pessoa, com a missão de usar o rendimento desses bens para mandar dizer missas por alma de quem instituíra a capela ou para uma obra pia.
Também se diz cantar à capela, que significa cantar sem acompanhamento musical. O termo vem da maneira de cantar nas igrejas/capelas, só com a voz, sem instrumentos musicais a acompanhar.
Já conhecia estas capelas, mas há uns tempos a minha mãe surpreendeu-me com mais uma. Foi ver um forno que o meu pai fizera há dezenas de anos e disse-me que estava muito bem feito, pois tinha uma capela alta para conservar o calor. Fiquei a saber que esta capela era a cúpula do forno, que deve ser alta para guardar calor suficiente para cozer o pão e os bolos. Se o forno tiver uma capela baixa, depois de gastar o calor do chão e das paredes, não tem calor de reserva e o pão fica mal cozido.
Tantas capelas, todas derivadas da primeira, um pequeno templo religioso. Esta última tem origem no teto redondo (em cúpula) de algumas capelas antigas.

sexta-feira, 2 de março de 2012

A vila da infância

FLUIDA ESPIRAL

Naquele tempo a aldeia era povoada.
Antigas canções de roda ecoavam na praça:
Quantos peixes há no mar? Eu nunca lá fui ao fundo…
Mais antigos, contudo, eram os cânticos da fonte
segredos de milénios guardados em novelos de eternas águas.
Escondida atrás do coreto, olhos fechados
voltada para as heras das paredes
Muitas vezes perguntei: É hora?
Vozes de outras crianças, trazidas pelo vento, respondiam, dolentes
ainda não, ainda não, ainda não…

Enquanto isso, velhos paravam à sombra das árvores
enrolando cigarros, ritual para melhor desenrolarem histórias
memórias de outros tempos, fluida espiral
fio azulado de fumaça, onde recuperavam o fio do passado.
Carros-de-bois chiavam pelas ruas
burrinhos trotavam, pachorrentos
transportando figuras negras
mulheres sentadas de lado, sob a sombrinha aberta
fizesse chuva ou sol
umas vezes indo, outras regressando dos campos.
E baliam cabras, vigiadas pelo pastor
entre toques de sino – alvorada ou crepúsculo.
Na ribeira, misturava-se o canto das águas viajantes
e o canto das lavadeiras, intervalo de linho e espuma
enquanto os maridos andavam nos montes e nas searas
estrelas que partem, estrelas que retornam
dia vai, dia vem, verões e invernos
flores que nascem e se esfolham.

(Maria de Lourdes Hortas, Cantochão de Todavia, Gega, 2005, São Vicente da Beira)

domingo, 26 de fevereiro de 2012

FORAL MANUELINO - Foral medieval de São Vicente

Comemoramos este ano os 500 anos do foral manuelino de São Vicente da Beira, publicado em Novembro de 1512.
Como o foral manuelino começa por «Visto ho foral dado por el Rey dom afonso filho del Rey dom sancho...», recordemos então o foral de 1195.
Ao longo deste ano, serão aqui publicados vários estudos sobre o concelho de São Vicente, na época do foral manuelino. A notícia "São Vicente, em 1496", de 3 de fevereiro, já se insere neste projeto.



Pia de água benta manuelina, na entrada principal (ao fundo) da Igreja da Misericórdia. A parte inferior é um acrescento tosco.

Eu, rei Afonso, filho do rei Sancho, juntamente com minha mãe, rainha Dulce, e ao mesmo tempo com G. Martins, prior de S. Jorge e todo o seu convento e com Frei João de Albergaria de Poiares, queremos restaurar e povoar o lugar de São Vicente.
Damos e concedemos o foro e costumes da cidade de Évora todos tanto presentes como futuros, que nesse lugar quiserem habitar.

Mandamos, além disso, que duas partes dos cavaleiros vão no fossado do rei e a terceira parte fique na vila com os peões; e façam o fossado uma vez no ano. E quem não for no fossado, pague de foro 5 soldos por fossadeira.

E por homicídio, (pague-se) 100 soldos ao palácio. E por casa destruída por armas, escudos e espadas, pague 300 soldos e a 7.ª ao palácio. Quem furtar, pague 9 por um e desses tenha o queixoso 2 quinhões e os outros 7 sejam para o palácio.

E quem violentar uma mulher e ela, clamando, disser que foi forçada e o acusado negar, ela apresente em juramento 3 homens de categoria igual à do acusado e ele jure com 12 que não o fez. E se a mulher não tiver quem jure por ela, jure ele só. Se não puder jurar, pague a ela 300 soldos e a 7.ª ao palácio.

A testemunha mentirosa e o fiador mentiroso pague 60 soldos e a 7.ª ao palácio e duplique o que deve.

Quem bater noutro no concelho, no mercado ou na igreja, pague 60 soldos, metade para o palácio e metade para o queixoso. Da metade do queixoso, a 7.ª ao palácio.
O homem que for gentil ou herdador, não seja mordomo.

E quem encontrar penhor na vila e for penhorar ao monte, dobrará a penhora feita e pague 60 soldos w a 7. ª para o palácio. E quem não for juiz e receber penhor da mão do saião, pague 1 soldo ao juiz.

E quem não comparecer ao chamamento às armas, cavaleiro ou peão, exceto os que estão em serviço alheio, pague aos vizinhos: o cavaleiro 10 soldos e o peão 5 soldos.
E quem tiver uma aldeia, uma junta de bois, 40 ovelhas, 1 burro e dois leitões, compre cavalo.

E quem faltar ao casamento com sua mulher pague 1 soldo ao juiz. A mulher casada pela igreja que abandonar o marido pague 300 soldos e a 7.ª ao palácio. Quem abandonar a sua esposa pague ao juiz 1 dinheiro.

Quem montar um cavalo alheio, por um dia, pague 1 carneiro; se mais, pague 6 dinheiros por cada dia e 1 soldo por cada noite.

E quem ferir com lança ou espada, pela ferida pague 10 soldos. Se passar a outra parte, pague ao ferido 20 soldos. Quem vazar um olho ou quebrar um braço ou dente, pague ao ferido, por cada membro, 100 soldos e ele dará a 7.ª ao palácio. Quem bater na mulher doutro, na presença do marido, pague 30 soldos e a 7.ª ao palácio.
Quem mudar, na sua herdade, o marco alheio pague 5 soldos e a 7.ª ao palácio. Quem violar a estrema alheia, pague 5 soldos e a 7.ª ao palácio.

Quem matar um criado alheio pague homicídio ao seu amo e dê a 7.ª ao palácio. Do mesmo modo para o seu hortelão, o seu quarteiro, o seu moleiro e o seu solarengo.
Quem tiver vassalos no seu solar ou na sua herdade, eles, em qualquer parte do Reino de Portugal em que houver herdades, não paguem nem sirvam a outro homem, a não ser ao senhor das herdades.

Os moradores de S. Vicente não paguem multas, a não ser por foro de São Vicente.
As tendas, os moinhos e os fornos dos homens de São Vicente sejam livres de contribuições.

Os cavaleiros de São Vicente sejam considerados, em juízo, como ricos-homens e infanções de Portugal. Os clérigos tenham foro de cavaleiros. Os peões sejam, em juízo, equiparados aos cavaleiros vilãos de outras terras.

Quem vier como vozeiro contra o seu vizinho a favor de homem de fora da vila, pague 10 soldos e a 7.ª ao palácio.

O gado de São Vicente não pague montado em nenhuma outra terra.

E o cavaleiro que perder o seu cavalo, embora tenha outro, seja escusado por um ano.
O mancebo que matar um homem de fora da vila e fugir, o seu amo não pague homicídio por ele.

Em todas as querelas do palácio, seja vozeiro o juiz.

Quem na vila penhorar acompanhado do saião e lhe contestarem a penhora, prove-o o saião e reúnam três chefes de família e seja penhorado por 60 soldos, metade para o concelho e metade para o queixoso.

Os homens de São Vicente não sejam dados em préstamo.

E se os homens de São Vicente contenderem judicialmente com homens de outra terra não corra entre eles processo de querela, mas proceda-se ao inquérito de testemunhas ou por combate judicial.

E os homens que quiserem demorar-se nos termos de São Vicente, com o seu gado, recebam deles montágio, isto é, dum rebanho de ovelhas 4 carneiros e de uma vacada uma vaca. Este montádigo é do concelho.

E todos os cavaleiros que forem no fossado ou na guarda, todos os cavalos que perderem na algara ou na lide, primeiro tomarão para si o valor deles, sem deduzirem a quinta parte, e depois dê-se-lhes a quinta parte do restante.

E todo o homem de São Vicente que encontrar alguém doutra vila nos seus termos, cortando ou levando madeira dos montes, apreenda tudo o que encontrar sem multa.
De azarias e guardas dai-nos a 5.ª parte, sem qualquer presente.

Todo o que penhorar ou roubar gado doméstico pague ao palácio 60 soldos e dobrará o gado ao seu dono.

Atestamos e para sempre confirmamos que todo aquele que penhorar mercadores ou viajantes cristão, judeus ou mouros, a não ser que sejam fiadores ou devedores, o que o fizer pague 60 soldos ao palácio e dobrará o gado que apreender, ao seu dono; além disso, pague 100 morabitinos pelo couto que violou; o senhor da terra terá metade e o concelho outra metade.

Se alguém vier, pela violência, à vossa vila, para tomar comida ou outra coisa, e lá for morto ou espancado, não se pague por ele qualquer multa, nem os seus parentes tenham homicídio. Se vier com queixa ao senhor, pague 100 morabitinos, metade para o senhor e metade para o concelho.

Mandamos e concedemos que se alguém tiver sido ladrão e se já roubou há um ou dois anos ou deixar de roubar e depois disso for procurado por alguma coisa que cometeu, salve-se como ladrão. Se é e foi ladrão, pereça e sofra a pena de ladrão. Se alguém foi procurado por furto e não é nem foi ladrão, responda pelo seu foro.

Se algum homem raptar a filha de outro, entregue-a aos seus parentes, pague-lhes 300 morabitinos e a 7.ª ao palácio e seja considerado homicida.

De portagem: foro de trouxa de cavalo, de panos de lã ou de linho, 1 soldo; de trouxa de lã, 1 soldo; de trouxa de panos de algodão, 5 soldos; de trouxa de panos de cor, 5 soldos; de carga de pescado, 1 soldo; de carga de burro, 6 dinheiros; de carga de peles de coelho de cristãos, 5 soldos; de carga de (peles de) coelhos de mouros, 1 morabitino. Portagem de cavalo que vender no mercado, 1 soldo; de muar, 1 soldo; de burro, 6 dinheiros; de carneiro, 3 medalhas; de porco, 2 dinheiros; de furão, 2 dinheiros; de carga de pão ou de vinho, 3 medalhas; de carga de peão, 1 dinheiro; de mouro que vender no mercado, 1 soldo; de mouro que se resgatar, a décima; de mouro que se assoldadar com o seu dono, a décima; de coiro de vaca ou de zebra, 2 dinheiros; de coiro de veado ou de gamo, 3 medalhas; de carga de cera, 5 soldos, de carga de azeite, 5 soldos.

Esta portagem é dos homens de fora da vila; a terça parte desta portagem dê-se ao hospedeiro e duas partes aos senhores. Os moradores de São Vicente não paguem portádigo.

Os moradores de São Vicente dêem a décima a Deus e a São Vicente.

Os termos de São Vicente são estes: através da Enxabarda, vai pela ribeira de Almacaneda e segue a corrente até ao fundo do Vale do Peral, ao fundo, entram em Almacaneda e entra o Rio de Moinhos no Ocreza; depois segue pela água de Ocaia até … e vai até à Portela de São Vicente.

Eu, Gonçalo Martins, prior de São Jorge, juntamente com todo o convento e com Frei João autorizamos, concedemos e confirmamos esta carta, com as próprias mãos, ao concelho de São Vicente. Eu, rei Afonso, juntamente com minha mãe, rainha Dulce, e ao mesmo tempo com Gonçalo Martins, prior de S. Jorge, e com todo o seu convento e com Frei J. de Albergaria de Poiares autorizamos e confirmamos esta carta pelas nossas próprias mãos. Todo o que quiser violar estes termos assinados, pague ao concelho 1000 soldos de moeda corrente.

Carta feita no mês de Março da Era (de Espanha) de 1233 (ano de 1195 da Era de Cristo).

E se alguém quiser atacar este facto nosso, seja maldito por Deus.

E concedemos a todo o cristão, mesmo que seja servo, desde que habite durante um ano em São Vicente, seja livre e ingénuo, ele e toda a sua descendência.

João Viegas presbítero, notificou; Eu, rei Sancho de Portugal, autorizo, concedo e confirmo. Eu, rei Afonso, confirmo. Eu, rainha Dulce, confirmo. Eu, rei Pedro, filho daquele rei Sancho, confirmo. Eu, rei Fernando, filho do rei Sancho, confirmo. Eu, rainha D. Teresa, confirmo. Eu, rainha Sancha, confirmo. Eu, G. Martins, prior de S. Jorge e todo o seu convento, confirmamos. Frei João de Albergaria, confirmo.

Os moradores de São Vicente não têm poder de vender nem dar as suas herdades, enquanto não as sirvam por um ano; depois vendam ou dêem o que quiserem.

João Fernandes, testemunha; Mendo Pelágio, testemunha; Martinho Fernandes, testemunha; D. Julião, testemunha; Gonçalo Martins, testemunha; Didaco Cavaco, testemunha; Pelágio Rotura, testemunha; Fernando Soares, testemunha.


GLOSSÁRIO
Aldeia – Propriedade rústica (rural), quinta, casa, herdade.
Algara – Expedição militar, combate contra os sarracenos.
Almacaneda – Almaceda.
Assoldadar – Comprometer-se a trabalhar para um patrão a troco de um soldo ou salário.
Azaria – Expedição para roubar madeira, em terras inimigas.
Cavaleiro – Aquele que lutava a cavalo. Como não era nobre, chamava-se cavaleiro vilão.
Chamamento às armas – Grito de alerta, em caso de ataque inimigo; apelo às armas.
Clérigo – Membro da Igreja: padre, presbítero…
Concelho – Junta da Câmara, homens-bons que governavam o concelho.
Couto – proteção régia e multa com ela relacionada, por se ter desrespeitado a ordenação do rei.
Décima – Imposto religioso que recaía sobre toda a produção, pagando-se à Igreja a décima parte.
Dinheiro – Moeda medieval de valor inferior ao soldo.
Em juízo – Face à lei.
Estrema – Linha ou caminho que divide duas propriedades.
Fiador – Alguém nomeado pelas partes ou pelo juiz, num processo judicial; pessoa que se responsabiliza pela dívida de outro.
Foro – Imposto; norma jurídica, conjunto de direitos e obrigações de uma comunidade.
Fossadeira – Multa aplicada aos cavaleiros e peões que faltavam ao fossado.
Fossado – Serviço militar a que era obrigada a população vilã. Expedição militar em território muçulmano, realizada anualmente, com a duração de algumas semanas.
Furão – Animal carnívoro usado na caça ao coelho.
Gentil – Aquele que pertence à casa de um senhor, dependente, criado, homem semi-livre.
Guarda – Vigilância sobre os inimigos, em patrulha.
Herdador – Pequeno proprietário que detinha o domínio útil de uma propriedade, cujo domínio direto pertencia ao rei, e um senhor ou à Igreja.
Homicídio – Morte de homem; multa paga por quem comete crime de morte de homem; direito da família da pessoa assassinada de se vingar do homicida, mesmo depois deste pagar a multa por homicídio.
Hospedeiro – Aquele que no concelho dava hospedagem ao mercador vindo de fora e por isso tinha direito a um terço da portagem, por este paga.
Infanção – Membro da média nobreza, abaixo do rico-homem, mas acima do cavaleiro.
Ingénuo – Indivíduo considerado como nascido de pais livres. O foral considerava ingénuo um servo (semi-livre) que viesse morar para o concelho de São Vicente.
Lide – Luta, batalha.
Mancebo – Criado.
Medalha – Moeda de baixo valor; partes de moedas partidas; valia metade de um dinheiro.
Montádigo – Imposto cobrado em espécie (gado), a pagar por quem apascentasse o gado bovino ou ovino em pastos de um senhor ou de um concelho que não o seu.
Montado – O mesmo que montádigo.
Morabitino – Moeda medieval de ouro, também chamada maravedil ou maradevi.
Mordomo – Agente encarregado de presidir à cobrança dos rendimentos devidos ao rei.
Palácio – Casa da Câmara, local onde se fazia justiça e se pagavam as multas.
Penhor – Objeto ou bem que se dava como garantia de um contrato ou de uma dívida.
Penhorar – Efetuar a penhora; apreender, por meio de execução judicial, os bens de um devedor.
Peões – Elementos do povo que cumpriam o serviço militar na infantaria por não terem posses para terem um cavalo e comprarem as armas de cavaleiro.
Portádigo – Imposto que incidia sobre o comércio de mercadorias. Pagava-se de todos os produtos trazidos para o concelho, normalmente à entrada da povoação.
Portagem – O mesmo que portádigo.
Préstamo – Contribuição destinada a obras públicas ou à manutenção de um fidalgo.
Quarteiro – Arrendatário ou caseiro que trabalhava em terras que não eram suas a troco da quarta parte do que produzia.
Querelas – Denúncias ou queixas judiciais; questões judiciais.
Resgatar – Comprar a sua liberdade ao senhor (dono).
Rico-homem – Membro da alta nobreza.
Saião – Funcionário encarregue de executar as sentenças judiciais; algoz.
Solar – Casa do senhor, propriedade onde o senhor vivia.
Solarengo – Indivíduo que cultivava uma propriedade alheia, a troco de um salário ou de parte da produção.
Soldo – Moeda da época, de ouro, prata ou cobre.
Tenda – Loja de comércio, bancada improvisada para fazer comércio.
Termo – Campo do concelho; local do concelho afastados da sede. Limite ou fronteira.
Trouxa – Embrulho de tecido transportado por uma pessoa.
Vassalo – Dependente de um senhor, homem semi-livre.
Vizinho – Habitante do concelho.
Vozeiro – Testemunha, aquele que faz acusações, procurador, investigador.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O nosso falar: coebulhos

Esta é uma palavra do outro mundo, ou melhor, de outros mundos.
Quando há anos a encontrei, no livro de atas da Câmara de São Vicente da Beira, primeiro achei estranho e depois senti uma inquietação.
Vasculhei nas minhas memórias e ela lá apareceu: eram uns farrapos velhos muito sujos a que a minha mãe chamava cadabulhos, num tempo em que não havia caixotes do lixo para deitar fora o que já só incomodava.
Uma postura municipal de 1769 proibia a lavagem de coebulhos na ribeira e nos ribeiros, «...no tempo em que durar o alagar dos linhos...», para não os sujarem e enegrecerem. A multa era pesadíssima: 4 mil réis, o ordenado de mais de dois meses de um jornaleiro!

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Capela de São Sebastião


A capela de São Sebastião, antes da recente restauração

É muito antiga, a capela de São Sebastião. No século XVIII, já se tinham perdido os papéis que ali autorizavam o culto religioso.
No ano de 1780,entrou em obras. Mas, em abril do ano seguinte, continuava «… sem portas que a defendam e sem mais ornato precizo para nella se celebrar…».
Não havia dinheiro para a acabar, nem para acudir à Igreja Matriz, «… com bastante indecencia principalmente nos estrados da mesma Igreja…».
Face ao problema, o juiz de fora (António Antunes da Trindade) convocou a nobreza e o povo, para uma vereação, no dia 29 de Abril de 1781.
Não tendo o povo posses para suprir as referidas despesas, o juiz de fora propôs que se vendesse a coutada destinada aos bois de arado.
«E visto o consentimento dos procuradores do povo e moradores interessados acordaram que se pozese a pregam a coutada…».
Os procuradores do povo eram António Mesquita de Carvalho e José Rodrigues Marques. Os moradores presentes foram: José Duarte Ribeiro, João Correia da Costa Cabral, João Duarte Ribeiro, João Barata de Gouveia, António …, Francisco António dos Santos, Jacinto Castanheira e Pedro Rodrigues. Tudo registado pelo secretário da Câmara Cláudio António Simões.
A coutada em causa não foi identificada. Era um terreno baldio, público como a Devesa, reservado à pastagem dos bois de trabalho. Em toda a freguesia, haveria duas a três dezenas de médios e grandes lavradores com posses para terem um ou dois, raramente mais, bois de trabalho. A coutada em causa, seria (?) a das Casas do Leitão, nas margens do ribeiro do Tripeiro. É a única ervagem que a documentação da época refere como destinando-se aos bois do concelho. Talvez a canada no passado existente na margem direita da Ribeirinha (atualmente da barragem) se destinasse à passagem dos bovinos para esta coutada.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

O bodo de São Sebastião


Florentino Vicente Beirão acaba de publicar um livro sobre os bodos em geral e a Festa das Papas de Alcains em particular.
O autor é conhecido de muitos vicentinos, alguns dos quais foram seus alunos, na Secundária de Alcains.
Na fase de investigação, esteve em São Vicente e assistiu ao bodo de São Sebastião, no dia 23 de Janeiro.
Aqui se deixa a parte do livro referente ao nosso bodo.


sábado, 11 de fevereiro de 2012

O jogo do speta


Um pedaço de pau de pinheiro, da grossura de um dedo e com uma mão-travessa de comprimento, mais um pedaço de varelha de um guarda-chuva estragado espetado no miolo do pau. Afia-se a ponta do arame em pedra de granito e está pronto.
O speta da foto tem 8 cm de pau e outro tanto de arame. Ainda não foi afiado, nem será, pois o dono já não joga.
Se faltar material ou a pressa for muita, um prego de caibro também dá e até um de solho, em desespero de causa.


Joga-se de setembro a maio, depois da chuva amolecer a terra. Há dois jogadores (o azul e o vermelho). Cada um faz a sua casa, um círculo, à distância que apetecer (2 a 4 metros). Cada segmento do percurso não pode ultrapassar um palmo do jogador. Se ultrapassar, perde. Se espetar o speta e ele cair, perde igualmente e joga o adversário. Cada jogador deve dar a volta à casa do adversário e voltar para a sua.


Os jogadores já deram a volta à casa do adversário e estão a voltar para trás, pois se forem em frente não poderão entrar na sua casa.


O azul jogou, mas perdeu ao tentar circundar a sua casa, num caminho propositadamente apertado pelo adversário. Coube a vez ao vermelho que fez a mesma coisa com êxito e terminou o percurso. Para finalizar, desenha junto à sua casa uma casinha do tamanho dos três dedos maiores da mão (comprimento e largura). Espeta lá dentro o speta e termina espetando 3 vezes dentro da sua casa. Ganhou o vermelho!

Ficou célebre, entre a rapaziada do meu tempo, a resposta do Alexandre do Casal dos Ramos, quando questionado pela Dona Natália do motivo para tão grande atraso na chegada à escola:
"Estive a jogar ao speta no lagar farrancha."
Referia-se a um lagar em ruínas, junto às passadouras da ribeira. Ali, o chão era bem molinho!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O nosso falar: estar um barbeiro

O Ernesto Hipólito recordou-nos esta expressão no comentário a "Notícias da frente agrícola". Também nos trouxe à memória as noites de caramelo. Esta é fácil, são noites de caramelo quando a geada congela e fica como que em ponto de caramelo.
Estar um barbeiro é muito mais subtil! Os barbeiros rapam (rapavam) as barbas dos homens com as navalhas, tal como o vento gelado na cara das pessoas parece rapar-lhes (cortar) a cara.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

FORAL MANUELINO - São Vicente, em 1496

O numeramento de 1496 foi uma das primeiras contagens da população portuguesa.
O concelho de S. Vicente da Beira tinha, então, 337 vizinhos (agregados familiares), o que corresponde a uma população de perto de 1 200 pessoas, dispersas por aldeias e casais, desde os cumes da Gardunha à Ocreza e desta à ribeira de Almaceda.

O concelho arrecadava, de rendimentos anuais, 16 000 réis, de diversas proveniências: 6 a 7 000 réis de portagem (imposto pago, pelos comerciantes forasteiros, à entrada da Vila, pelas mercadorias transportadas); 8 000 réis de foros (rendas de terras públicas); 1 600 réis de “soldo d´água”, um imposto pago no concelho, a que tinha direito Vasco Gil de Castelo Branco. Os rendimentos da portagem e dos foros eram divididos, em partes iguais, pelo comendador da vila e pelo mosteiro de São Jorge de Coimbra.
Este mosteiro foi uma das entidades que concedeu foral a São Vicente, em 1195, e o comendador era da Ordem de Avis, que aqui tinha uma comenda e com os seus rendimentos pagava metade das despesas da Igreja, no concelho (despesas correntes e sustento dos clérigos). A outra parte era paga pelo mosteiro de São Jorge, a quem cabia nomear o vigário (o chefe do clero do concelho) e pagar a outra metade das despesas religiosas. Por esta altura, essa obrigação passou para a comenda da Ordem de Cristo, criada pelos bens que tinham pertencido ao morteiro de São Jorge.


Janela manuelina na parede lateral da Igreja Matriz, junto ao altar-mor, a dar para a Rua da Igreja. Foi trazida de uma casa arruinada na Rua Velha, que fora a cozinha da Casa Visconde de Tinalhas, no final do século XIX e princípios do século XX.


Nesta época, no concelho, vivia um fidalgo (média nobreza) chamado Diogo da Cunha. Não foi o antepassado dos condes de São Vicente, pois esses vieram para cá através do casamento de um membro da família Cunha com uma descendente de Rui Vaz de Refoios, um membro da pequena nobreza que, em 1496, vivia em Castelo Branco
Existiam 4 escudeiros (pequena nobreza): Pedro Vasques, Rui Fernandes, Lopo de Azevedo e Pero Camelo (os dois últimos criados do rei e do Infante).
Havia, ainda, 9 oficiais, também eles pertencentes à pequena nobreza: 3 tabeliães, sendo um também escrivão das sesmarias (distribuição de terrenos incultos por cultivadores) e outro coudel (capitão de cavalos); 1 escrivão da coudelaria (criação de cavalos); 1 escrivão da câmara e almotaçaria (inspeção de pesos e medidas e fixação de preços); 2 juízes dos órfãos (menores sem pais, por morte ou abandono); 1 juiz das sisas (imposto por compra de propriedades); 1 escrivão das sisas.
O concelho de S. Vicente da Beira, era, no conjunto da Beira Interior, dos que apresentavam uma maior percentagem de privilegiados (nobres): 4%. Castelo Branco tinha 1% e a Covilhã 1,6%. Belmonte ultrapassava-nos com 4,1% e Salvaterra com 4,4%.

Além dos rendimentos acima referidos, os impostos pagos pelos judeus da comuna de São Vicente e Castelo Branco somavam 23 000 réis e pertenciam ao rei. Alguns judeus já aqui viveriam há muitos anos, mas a maioria era originária de Espanha, de onde haviam sido expulsos quatro anos antes, em 1492.
Dizer que os judeus de São Vicente e Castelo Branco formavam uma comuna significa que o rei lhes dera autonomia administrativa a troco dos referidos 23 000 réis.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Notícias da frente agrícola

1. Desde inícios de Novembro que não chove. Os terrenos estão secos, embora na serra ainda haja alguma humidade, graças à ribeira e aos seus afluentes. O ribeiro de Dom Bento está quase a secar, novamente.

2. As temperaturas andam baixas, mas mais altas do que habitualmente. Há muitas noites sem geadas ou gelo. De dia, nos sítios mais abrigados, parece primavera. Há anos aconteceu o mesmo. Os pessegueiros ficaram floridos todo o mês de fevereiro, mas pouco produziram, pois a flor estava como que congelada e a polinização foi fraca.

3. A imprensa de Castelo Branco deu notícia de um projeto agrícola que envolve um investimento de sete milhões de euros. Espera-se colher 400 toneladas de azeitona e produzir 500 mil litros de azeite por campanha. Os olivais ocuparão uma área de 300 hectares, em Vale Sarzedo e Esteveiras. Também será construído um lagar. Junto à estrada entre a ponte do Chão-da-Vã e o cruzamento do Padrão são já visíveis enormes olivais, uma barragem e um grande edifício.

4. Uma multinacional, a Unitom, está a plantar, no Ferro (Covilhã), um dos maiores cerejais do país: produzirá, dentro de 3 anos, 500 toneladas de cereja (10% da produção da Cova da Beira).

Nota: Várias publicações deste mês têm sido marcadas pelo pessimismo. Queria dar a volta a isto, mas... "Quem não tem cão caça com gato". Pode ser que as boas notícias alheias nos contagiem um bocadinho!

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

O nosso falar: esbarrondar

A palavra esbarrondar é relativa a barro. Desabava ou desmoronava-se uma parede em que as pedras eram coladas com barro. O mesmo que esboroar-se, que acontece frequentemente com coisas de barro já muito antigas.
Um dicionário on-line informa-me que também se usa no sentido de parir, na zona do Fundão, que é a nossa. O bebé está na barriga da mãe e, quando chega o tempo, rompe-se o véu e tudo se esbarronda, saindo a criança para o mundo exterior.
E ainda se utiliza com o significado de menstruação. Tem lógica, porque dizemos barronda se uma porca anda saída, isto é, com propensão para acasalar e procriar, pois está no período da ovulação. E a menstruação significa o fim desse ciclo reprodutor, esbarrondou-se tudo.