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segunda-feira, 8 de maio de 2017

Mordomias

Éramos amigos desde que me lembro. Não que tivéssemos andado os dois a brincar na Praça, que naquele tempo começávamos a trabalhar logo assim que aprendíamos a andar e a rua eram só para alguns, mas porque às vezes nos encontrávamos por lá, quando íamos com as cabras ou ao mato e fazíamos companhia um ao outro.
Depois ele foi para a escola e já não nos víamos tanto, mas continuámos a dar-nos bem. Depois fui eu que abalei para Castelo Branco, a trabalhar para as obras, e já só nos encontrávamos de raro em raro.
Quando chegou a altura da tropa, eu fiquei por cá e a ele mandaram-no para Angola, e foi aí que perdemos o rasto um do outro.
Um dia estava eu sentado ali na Sé, em Castelo Branco, a fazer horas para a camioneta, e vejo parar um vulto à minha frente, mas nem fiz caso.
            - Então tu já não me conheces, homem?
            - Olha quem é ele! Dá cá um abraço, homem! Estava bem longe de te ver aqui hoje!
            - Há quantos anos é que a gente já não se via!
- Já lá vão uma tormenta deles! E olha que se tu não me falasses já nem te conhecia! Eras assim um lingrinhas como eu e agora estás tão gordo! E todo engravatado, que até pareces um doutor…
            - Mas olha que eu a ti conheci-te bem! Estás na mesma… Olha lá, tu já comeste?
            - Eu não; como quando chegar à terra.
            - Anda mas é daí que hoje comes comigo, que ainda é cedo para a camioneta.
E fomos a uma casa de pasto que havia ali ao pé. Mal nos sentámos, puseram-nos logo à frente uma grande travessa de frango com batatas fritas, um pão inteiro e um jarro cheio de vinho. Quando acabámos de comer, fiquei à espera que trouxessem a conta e até com medo que não tivesse dinheiro que chegasse, mas nada. Ele levantou-se, pegou-me por um braço e saímos porta fora, que já se estava a fazer tarde para a camioneta.
            -Então, não pagamos o comer?
            - Deixa estar, que já está pago.
            Se ele o dizia...
            - E quando cá voltares, procura por mim na Devesa, que eu ando muito por lá, e bebemos umas cervejas. Agora também tenho que ir apanhar a camioneta, que tenho que apresentar serviço.
            - Não me digas que és cobrador…
            - Ná; cobrador não sou, mas ando de cá para lá a ver em que é que param as modas, que andam por aí uns meninos a modos que a mijar fora do testo…
            Ainda nos encontrámos mais umas poucas de vezes. Ou comíamos o frango com batatas fritas ou bebíamos umas cervejas, que eu nem gostava muito daquilo, mas mal a gente entrava num lado qualquer metiam-nos logo uma rodada à frente. E quando ia para pagar, era sempre o mesmo:
 - Mas que vida é a nossa? Come-se e bebe-se e não se paga? Nunca tal se viu.
            - Então, eles querem assim… Não te rales.
          - Ná! Assim não nos entendemos. Lá que tu não pagues, vá que não vá, que se calhar até és amigo deles, agora eu não os conheço de lado nenhum.
Um dia íamos a entrar num café muito fino que lá havia, que até tinha uma porta que andava à roda e tudo. A ele deixaram-no entrar, mas a mim houve logo um que me deitou a mão:
            - Aonde é que você vai? Não sabe que não pode entrar aqui sem gravata!
            Ele olhou para trás e só disse estas palavras:
            - Quem é que disse que não pode? Ele vem comigo e entra onde eu entrar!
E entrei. E serviram-nos como se fossemos uns doutores. Mas doutra vez entrámos num café onde estavam uns poucos à conversa. Assim que nos viram, ó pernas para que vos quero! Só o ouvi murmurar:
            - Ide-vos embora, ide, que eu logo vos cozo…
Até fiquei parvo. Se os homens não tinham feito mal nenhum, porque é que ele estava com aquelas coisas?
Depois eu casei-me e fui para a França, e nunca mais nos vimos. Um dia, passados uns anos, ouvi dizer que tinha morrido, não se sabe bem como. Aí lembrei-me daquelas patuscadas à borla e de ter pensado cá para comigo que tantas mordomias ainda haviam de acabar mal. Antes me tivesse enganado, que ninguém gosta de ver acabar mal um amigo.

M. L. Ferreira 

sábado, 22 de abril de 2017

Alcunhas 2

Já lai vai mais de um ano que o Zé Barroso publicou aqui no blogue um artigo com as alcunhas usadas na nossa terra. A lista foi sendo completada por vários colaboradores e, no final, já tinha mais de trezentas.
Uma das perguntas que se colocou na altura foi o que fazer a seguir. Parece que não se chegou a nenhum consenso, mas penso que era interessante escrever-se uma pequena história sobre a origem de cada uma. Algumas são tão óbvias que pouco há a dizer; outras perderam-se no tempo e já ninguém se lembrará da sua origem; mas muitas terão por trás episódios interessantes e engraçados.  
Acho que vale a pena tentarmos. Para já, aqui fica a minha colaboração, incluindo também algumas alcunhas da Partida que acho deliciosas:

O Mil Homens
Quando andava na escola todos me chamavam a Mil Homens. Eu ficava muito envergonhada porque achava que era um nome muito feio.
Só mais tarde é que fiquei a saber a origem daquela alcunha e a partir daí senti sempre um orgulho muito grande nela: O meu avô andou na Guerra e quando regressou foi recebido como um herói; mas vinha tão traumatizado que não conseguia falar noutra coisa que não fosse naquilo que por lá passou. Todas as conversas iam dar ao mesmo: as muitas tropas do seu batalhão; os muitos homens nas trincheiras; os muitos mortos pelo chão. Referia-se sempre a eles utilizando a expressão «Mais de mil homens!» um número que ele, analfabeto, achava ser o maior para definir todas as atrocidades que por lá viu e dificuldades que passou. Por causa disto puseram-lhe o Mil Homens e, a partir daí, toda a família ficou conhecida por essa alcunha, até hoje.

O Quinta Casa
Antigamente também não havia grandes farturas na Partida, mas quase toda a gente tinha um bocadinho de terra para tratar uma horta. E havia por cá até algumas casas ricas, com bons lameiros, olivais, terras de pasto e de pinhal que chegavam para eles, para vender e davam trabalho a muita gente.
Um dia o Ti Manuel Lopes pôs-se a deitar contas ao que cada um tinha e, lá para com os seus botões, ia sentenciando qual era a casa mais rica, e a que vinha a seguir, e por aí fora até chegar à dele que, pelas suas contas, estava em quinto lugar. Começou então a gabar-se, para quem o queria ouvir, que a quinta casa maior da Partida era a dele.
A partir daí todos começaram a chamar-lhe o Quinta Casa.

O Conde Caniço
Também tinha muito de seu, o Ti Domingos Nunes. Entre as várias propriedades que possuía, também era dele o Caniço, uma das melhores terras da Partida. Tinha tanto orgulho naquela propriedade que não se calava: «O meu Caniço é a melhor terra que aí há. Nem o conde!».
Tanta vez repetiu aquilo que começaram a chamar-lhe o Conde Caniço.

O Mata Nosso Senhor
Morava no Casal, o João Teodoro. Um dia deu-lhe a preguiça e atrasou-se para vir para a escola. Com medo de apanhar alguma reguada veio o caminho todo a correr até à Vila. Quando chegou à Praça e viu que já toda a gente tinha entrado, correu tanto que até parecia que vinham atrás dele.
Nesse dia o Ti António Mosca andava a podar as olaias e quando o viu naquela pressa, para brincar com ele, desatou a berrar lá de cima da escada: «Agarrem-no! Agarrem-no que foi ele que matou o Nosso Senhor!».
O cachopinho desatou a correr ainda mais e a partir desse dia toda a gente começou a chamar-lhe o Mata Nosso Senhor.

O Nita
Morreu cedo, a mulher do Ti Francisco Candeias, e quem lhe valeu para o ajudar a criar os três filhos, todos ainda crianças, foi a Ti Rita do Manha, tia dos meninos por parte da mãe.
O João, que era o do meio, não saía da casa da tia que o tratava como a um filho e ele também se afeiçoou muito a ela. Mas, como era ainda pequeno e tinha dificuldade em falar, não conseguia dizer o nome dela e, em vez de Rita, chamava-lhe Nita. Foi daí que começaram a chamar-lhe o João Nita.

O Caneco
Era ainda criança e a mãe já o mandava a levar o jantar ao pai quando andava por dia. Uma vez passou por um homem que viu que ele ia todo derreado com a cesta e disse-lhe assim:
- Ó cachopo, olha que tu endireita-me bem a cesta, que ainda entornas o jantar ao teu pai!
- Não entorno não senhor, que hoje até cá levo um caneco de vinho!
Foi quanto bastou para começarem a chamar-lhe o Emílio Caneco…

M. L. Ferreira

segunda-feira, 27 de março de 2017

Profissão: serrador

Numa vista de olhos recente pelos registos de batismo dos anos vinte e trinta do século passado constatei que muitos dos pais das crianças batizadas tinham a profissão de serrador. Eram muitos, principalmente no Mourelo, Pereiros, Partida, Violeiro e Vale de Figueira.
Achei interessante esta informação porque, entre outras coisas, nos dá conta da importância da floresta na economia da nossa terra e de como a madeira, talvez a par da pedra e do barro, foi um dos materiais de construção mais importantes de outros tempos.
Nesta ruína que encontrei há dias no Fundão, mas que podia ser por cá, podemos ver bem a quantidade de madeira que era necessária para construir uma casa, e como ela era imprescindível em todas as fases da sua construção: telhado, paredes, chão, portas, janelas, varandas…

   
Não sei se é por serem só materiais da terra e dizerem tanto do trabalho árduo dos nossos antepassados, mas ao olhar para estas ruínas sinto a mesma emoção de quando aprecio a obra de um grande artista.

M. L. Ferreira

quinta-feira, 16 de março de 2017

À espera do inimigo

Assentei praça no Regimento de Cavalaria em Castelo Branco em 1943; tinha 21 anos. Éramos uns poucos cá da freguesia, mas dos que me lembro melhor é do Zé Candeias que depois até andámos os dois na resina e ficámos sempre muito amigos, e do João da Corredoura que morava no Casal da Fraga. Bom homem, que até ainda lá parei algumas vezes na casa dele quando ia à Vila e não me deixava abalar sem comer uma bucha e beber um copo para o caminho.
Naquele tempo não havia as estradas que há agora e era o cabo dos trabalhos para uma pessoa ir para qualquer lado. Para os que vivíamos aqui, longe de tudo, ainda era pior. Para se ir daqui à Vila aviar algum recado eram precisas duas horas para lá e outras duas para cá, sempre a subir e a descer por veredas e atalhos. Mas o pior era quando morria alguém e tinham que levar os mortos para serem enterrados. Ainda me lembro de os levarem embrulhados num lençol, atados a uma escada levada em ombros por dois homens. Mais tarde, quando já havia uns caminhos um pouco melhores, passaram a levá-los num esquife, em cima de um carro de bois. Mas quando era de inverno, que ainda não havia pontes e os bois tinham que atravessar os ribeiros, é que eram elas. Uma vez, ainda eu era novo, mas lembro-me bem, o esquife caiu à água e parecia o fim do mundo com toda a gente aos berros: «Agarrem o morto! Agarrem o morto que ele foge!». Foi o cabo dos trabalhos para o agarrar. Coitado, ficou todo numa sopa, que até metia dó. Ele e os que tiveram que se meter na água para o segurar…
Foi por causa destas e doutras que um dia foi daqui o Cabo d’Ordens e mais uns poucos à Guarda a pedir ao Bispo que nos deixasse passar para Almaceda, que estava aqui mais à mão. Nunca nos deu resposta ou, se deu, deixaram-na ficar fechada dentro da gaveta, que era o costume, e ficou tudo em águas de bacalhau, até hoje.
Mas estava a falar de quando assentei praça. No dia em que me fui apresentar mal preguei olho, com medo de me deixar dormir e não chegar a tempo, que daqui até lá eram umas boas três horas de caminho, tudo a pé. De manhã éramos uma tormenta deles à entrada do quartel.


Painel de azulejo existente à entrada do antigo quartel de cavalaria, na Devesa, em Castelo Branco.

Puseram-nos a todos numa fila e entregaram-nos a farda. As calças e a camisa, vá que não vá; as botas é que foram elas. Avezado a andar quase sempre descalço, e obrigarem uma pessoa a andar todo o santo dia com os pés dentro numas botas que ainda por cima eram duras como cornos e nos roíam os calcanhares todos, foi um martírio. E depois meteram-me uma arma na mão e ensinaram-me a dar tiros com ela; a mim que sempre me soube defender com estas mãos que Deus me deu (não é que não tivesse também boa pontaria com pedras…).
Ao princípio não havia dia nenhum que não pensasse em fugir para a serra. Era lá onde me conhecia desde sempre, primeiro a guardar cabras e depois na resina, quando ainda mal me podia ajudar com os cântaros às costas. Mas a pouco e pouco lá me fui fazendo às botas e àquela vida da tropa, que não tive outro remédio, mas sempre a contar os dias para poder voltar para a terra.
Passados uns tempos, já no fim da recruta, começámos a ver por lá um grande reboliço: os comandantes de um lado para o outro, e pessoal que já tinha sido licenciado a apresentar-se outra vez. Vimos logo que se passava alguma coisa. E a verdade é que uma noite nos mandaram apresentar todos na parada e deram-nos ordens para estarmos prontos ao outro dia porque íamos para fora por uns tempos. Não nos disseram para onde é que íamos, mas soava-se que íamos em manobras para o Alentejo porque Portugal ia ser invadido pelos alemães e desconfiava-se que a guerra havia de vir lá por baixo, pelos lados do mar.
Quando foi de manhã meteram-nos a alguns em camiões e outros formaram um esquadrão montado em motas e abalámos todos por aí abaixo. Até chegarmos ao destino ainda parámos em dois ou três sítios para fazer manobras e treinar com umas armas novas que nos deram. Ao outro dia tornávamos a arrumar tudo e continuávamos o caminho. Quando chegámos ao destino, lá mais para baixo ainda, montámos outra vez o acampamento e continuámos os treinos, sempre com os olhos postos no horizonte, à espera que chegasse o inimigo. Havia lá gente de muito lado e éramos tantos que não havia tendas para todos, mas estava bom tempo e à noite até dormíamos à restolhada debaixo dos sobreiros, que havia por lá muitos.
Estivemos uns poucos de dias à espera, sempre alerta, mas passou-se o tempo e não veio ninguém, nem do mar nem do céu, que também diziam que podiam vir de avião. Depois, um dia, já assim à tardinha, vimos chegar um grande automóvel preto, todo descoberto, com um homem lá em cima a acenar para nós. A gente mal o via, mas disseram-nos que era o Salazar que tinha vindo passar revista às tropas e que tinha dado ordens para abalarmos, que o perigo já tinha passado.
Ao outro dia mandaram-nos arrumar tudo. Montámos outra vez para cima dos camiões e voltámos todos descansados, cada um para os seus quartéis. Os que já estavam licenciados abalaram para as terras deles todos contentes, que já tinham a obrigação deles mais que cumprida e o trabalho à espera.
Ainda bem que o inimigo não chegou a vir, se não éramos capaz de ter ficado todos ali estendidos à sombra dos chaparros e hoje já ninguém se haveria de lembrar desta passagem.

M. L. Ferreira

quinta-feira, 2 de março de 2017

Torturas

Bom homem, o Ti Zé Cipriano. Cantava que nem um rouxinol e para contar histórias, estava por ali… Mas ai de quem se risse ou dissesse alguma coisa enquanto ele falava, que abria muito os olhos e punha logo tudo em sentido. Um dia contou-nos esta assim, a mim e à minha mãe:
«Quando vim da Guerra, fiquei em Lisboa como impedido dum General. Gostava muito dele, e ele a mim tratava-me como a um filho. Para onde quer que fosse levava-me sempre a acompanhá-lo, e foi com ele que aprendi muitas das coisas que sei hoje
Um dia fomos os dois à Torre do Tombo, que ele era muito dado a essas coisas antigas, e encontrou lá um livro que contava a história dum padre que por modos, entre missas e confissões, não havia saias nas redondezas com que não se metesse. Era raro o ano em que não aparecia na terra mais um ou dois cachopitos que eram a cara chapada dele. Por modos chegaram a conhecer-se-lhe p’ra cima de trinta, entre fêmeas e machos.
E andou por lá muitos anos a pregar, a comer boas galinhas e a esfregar as mãos de contente enquanto sacudia a batina.
Na terra toda a gente sabia dos pecados do padre, mas eram tempos de miséria e de medo, e muitas vezes até as mães e os pais fechavam os olhos e os ouvidos, na esperança de verem as filhas fugirem à pobreza em que viviam. Que havia alguns que aperfilhavam os filhos e até punham casa às raparigas. Mas este é que não ia nessa, e nunca reconheceu nenhum dos inocentes, nem deu uma fatia de pão a ninguém, apesar de todos saberem que tinha muito de seu.
Naquele tempo reinava em Portugal um rei que o que queria era divertir-se e comer do bom e do melhor. Como não tinha mão no País, era o ministro que mandava e fazia tudo à maneira dele. Por modos até era bom ministro e leal ao rei, mas era um ganancioso, com a mania das grandezas e mau como as cobras. Só fazia o que tinha na ideia e lhe desse proveito, nem que tivesse que mandar expulsar ou matar os que lhe fizessem frente.   
Um dia chegou-lhe aos ouvidos a história do padre e ele próprio ditou-lhe a sentença: Que o atassem a um cavalo montado por um cavaleiro com boas esporas, e dessem tantas voltas ao castelo quantas fossem precisas até não ter pinga de sangue; e no fim de morto que deitassem os restos às feras. Os bens dele, todos confiscados, que logo se veria o que fazer com eles.
Assim que lhe chegou aos ouvidos a sentença do ministro, o padre tratou de se esconder o melhor que pode. E tal era o esconderijo que durante uns tempos ninguém soube onde é que se tinha metido. Passados uns tempos, o rei morreu e, como não tinha filhos varões, quem lhe sucedeu foi a filha. Diziam que tinha pouco juízo, mas coragem não lhe faltava. Tratou logo de despedir o ministro e acabar com muitas das leis que ele tinha feito.
Quando lhe chegou aos ouvidos a sentença do padre, mandou-o procurar e perguntou-lhe quantos eram os filhos que tinha tido.
- Saiba Vossa Alteza que são dezoito machos e pr’aí uma dúzia de fêmeas.
De boca aberta, a rainha virou-se para o novo ministro e exclamou:
- Como é que se pode mandar matar um homem que deu tantos filhos à nação? Ainda por cima sendo homens, o mais deles!
E para o padre:
- Abale lá para a sua terra e a partir de agora cumpra os Mandamentos e dê de comer a quem tem fome!
- Creia Vossa Alteza que assim farei.
Por modos já estava velho e nunca mais se ouviu falar dele, nem de mais nenhum rebento».

Esta história foi-me contada há algum tempo por uma vizinha que ainda se lembra do senhor José da Silva Lobo, mais conhecido por Zé Cipriano. Lembrei-me dela quando há dias vi estas imagens de instrumentos e práticas de tortura da Inquisição:




Voltei a lembrá-la há umas semanas, a propósito das declarações de Donald Trump sobre a eficácia da tortura e a ideia de que se deve combater o fogo com o fogo. Se é por demais lamentável que, apesar de proibida, a tortura seja ainda uma prática frequente em muitos países, incluindo Portugal, há alguma diferença entre essas situações (que mais não seja porque podem ser denunciadas e punidas) e o que defende o presidente de uma das nações mais influentes do mundo.

«Olho por olho, e o mundo ficará cego…», M. Gandhi

M. L. Ferreira

terça-feira, 7 de junho de 2016

AINDA boas notícias


Passámos por lá há três anos, durante o passeio pedestre realizado por alturas da Feira do Artesanato. A casa já andava em obras nessa altura, mas não imaginava que ficasse tão linda!


Se o Padre Zé Sarafana cá voltasse nem ia acreditar…
Agora já ninguém tem desculpa para não vir à terra por falta de alojamento. Até eu, que estou aqui tão perto, fiquei com vontade de lá ir passar uns dias para usufruir daquele sossego.


M. L. Ferreira

domingo, 15 de maio de 2016

Pintassilgos, melros...

Que sorte, viver na cidade e poder ter galinhas, mesmo que cocós! A mim, mesmo com um quintal grande, dizem-me que não as posso ter por causa dos vizinhos… Mas não me falta cá criação!
Esta primavera, apesar de pouco amiga das cerejas e da horta, não afetou os amores da passarada. Para além de dezenas de ninhos de melros, pardais e outras espécies que por aqui vivem, um casal de pintassilgos fez o ninho mesmo por baixo da varanda. Foi vê-los, numa fona, a fazer o ninho, a chocar os ovos e depois a acartar comida para os quatro comilões, sempre de bico escancarado.


Mas o pior era quando se apercebiam dos gatos por perto e piavam, aflitos, a avisar os filhotes do perigo. Fazia doer o coração, mas eles percebiam e faziam-se de mortos.
Hoje de manhã, quando me levantei, estranhei o silêncio e fui espreitar. Tinham abalado! Bem vi nos últimos dias os pais a esvoaçar diante do ninho, como que a ensiná-los a ganhar asas, mas gostava de ter assistido ao primeiro voo…

M. L. Ferreira

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

A culpa foi dos frades

Uma ocasião, era eu ainda rapaz novo, andaram por cá uns frades que diz que eram das Missões. Diziam missa de manhã e à noite, e durante o dia confessavam e faziam benzeduras.
A igreja estava sempre à cunha com gente que vinha de toda a freguesia para se confessar e assistir às missas. Os sermões eram compridos e de meter medo. Às vezes até parecia que o púlpito caía com os clamores dos frades a enumerar as fraquezas e a falta de fé do povo. Os homens, uns bêbados e unhas de fome; só taberna, mas pagar as bulas e as côngruas, deixa estar. As mulheres, umas pecadoras, que agora até já tinham arranjado maneira de evitar os filhos; rapazes e raparigas, uma miséria; só maus pensamentos. Nem os inocentes escapavam, por via do pai e da mãe que os geravam. Por causa disso, se não se emendassem, não tardaria que Deus fizesse desabar o mundo e ia tudo direitinho para o fogo do inferno.
O povo andava todo atremozado e não saía da igreja, ajoelhado no confessionário ou a adorar a cruz, ao cimo da igreja. Tinham-na mandado fazer de propósito no Casal da Fraga, ao Miguel Leitão que a ofereceu como agradecimento por ter escapado duma doença tão grande, que até já lhe tinham feito a mortalha. Levaram-na depois do Casal para a Vila, em procissão. Quem a carregou foi o ti Jaquim Guilherme, homem considerado por todos. Pelo caminho, o povo todo cantava, em ato de expiação dos pecados:

Que viva, que viva,
A Cruz sacrossanta,
Que viva, que viva,
E quem a levou.


Por causa disto, um cachopito chegou a casa e disse assim para o pai:
- Eh pai, hoje é que o ti Jaquim Guilherme levou vivas!
- Atão porquê?
- Vossemecê não viu que era ele que levava a cruz na procissão?!
E o pai benzeu-se, da inocência do filho.
E os dias foram passando. Um dia, estava a igreja à cunha (homens e rapazes no coro, mulheres cá por baixo e a cachopada pequena à roda do altar), e os ralhos do sermão até pareciam trovões:
- Homens de pouca fé! Pecadores! Se não vos emendais vem aí o fim do mundo, não tarda!
Nisto, começa-se a ouvir um estrondo tão grande de dentro da torre, que até parecia que a igreja vinha abaixo.
Os homens atropelaram-se pelas escadas do coro, e os que vinham atrás pisavam os capotes aos da frente; era vê-los a rebolar todos, escadas abaixo. As mulheres gritavam e fugiam pela porta que tinham mais à mão. Até a ti Ana Ferreira, que passava a vida de candeias às avessas com o homem, gritava:
- Ai Federico, acode-me! Meu rico homem, não me deixes morrer sem ti!
Outra chorava:
- Ai o meu rico xale, que só tenho este! Alguém mo apanhe!
Os cachopitos, no coro, desataram também a correr, aos gritos, cada um para seu lado e alguns já todos mijadinhos pelas pernas abaixo.
O frade que fazia o sermão continuava a berrar com quantos pulmões tinha. O senhor vigário, de caldeira na mão, aspergia os fiéis com água benta.
Apanhados cá fora, cada um correu para a sua casa. O pior foi para os que eram de longe; e logo com uma noite de breu como aquela...
Ao outro dia foram espreitar o que é que se tinha passado nas escadas da torre, mas não se viu nada. No altar-mor é que não se podia estar com o mau cheiro.
Nos anos a seguir, as mulheres tiveram tantos meninos que foi uma coisa por demais. Até eu, que já namorava, um dia cheguei a casa fartinho de trabalhar, e mandaram-me a dormir para a loja da burra. Que voltasse só de manhã. Ao outro dia disseram-me que tínhamos lá mais uma menina. Uma menina? É mas é mais uma boca! E tudo por culpa dos frades…

M. L. Ferreira