segunda-feira, 30 de junho de 2014

Andorinhas

Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades, como diz Camões aqui lembrado  pelo Zé da Villa. E, pelos vistos, nem as andorinhas escapam a este desejo de mudança.

Este ano, em vez de fazerem o ninho no sítio habitual, resolveram montar casa em cima dum aparelho anti-insetos dependurado no teto da varanda.

Estive várias vezes para o esbarrondar, mas fui deixando… Nasceram estes três belos exemplares que, sempre de bico aberto, deram uma trabalheira aos pais e a mim. Mas valeu a pena!


Há tempos encontrei esta “poesia”. Pode não ter grande qualidade literária, mas talvez nos ajude a perceber a origem da crença que temos, desde há muito tempo, de que tirar um ninho de andorinhas é pecado:

Lenda das Andorinhas

Conta a lenda que, quando no Calvário
Jesus Cristo na cruz agonizava
Perante a turba vil que o apodava
De louco, charlatão e visionário,

Em face desse povo sanguinário
Que na hora da morte o insultava
Cristo sentiu que alguém o afagava,
Dando-se então um caso extraordinário:

Voou uma andorinha sobre a cruz
E da sagrada fronte de Jesus
Arrancou os espinhos docemente…

E Deus soube sentir tanto carinho!
Por isso onde a andorinha faz o ninho,
Paira a bênção de Deus constantemente.

                                                                               Laura Chaves

M. L. Ferreira

domingo, 29 de junho de 2014

PORTUGAL

Reconquista

José Teodoro Prata

Camões

Maior que a terra onde nasceste
Camões de vistas largas
Choraste lágrimas amargas
Incompreendido enquanto viveste
Os invejosos não descansaram
Enquanto não te desterraram
Foste um lutador incompreendido
Andaste por muitos locais, lados
Teus lusíadas ainda foram publicados
Contigo vivo, ainda foste reconhecido
Nasceste em Portugal
Onde? Não sei
Como já afirmei
Não sabemos o local
Tem sido feita de imaginação
A tua obra tem sido revestida
De encontros, desencontros, é a vida
Viveste a vida com muita paixão
Foste um homem extraordinário
Tua fama só depois da morte chegou
Foste um poeta que muito amou
Mas tiveste um mau fadário
Nunca foste rico, nobre
Eras um homem letrado
Apesar de não seres formado,

Foste sempre um cidadão pobre

Vê lá tu como são os poderosos
Sempre a vida te tramaram
Mas depois teus escritos usaram
Para se tornarem famosos
Foste um pobre soldado
Pela tua Pátria lutaste
Pela África e Ásia andaste
Sempre, sempre endividado
Foste um grande conquistador
De corações das damas nobres
Apesar de teres poucos cobres
Eras invejado, seu galanteador
Por isso foste desterrado
Primeiro para a vila de Belver
Depois Ceuta onde foste combater
Já eras então um homem marcado
Foste um poeta experimentado
Não foste um poeta qualquer
Dinamene era uma bela mulher
No teu tempo foste um poeta odiado
Alma minha que me deixaste
No meio do mar naufragada
Meu amor, minha amada
Porque me abandonaste
A obra que te deu a imortalidade
Conseguiste mesmo molhada salvar
Ao rei a pudeste declamar
É sempre nova, não tem idade
Príncipe dos poetas degredado
Morreste na mais vil e triste pobreza
Deixaste-nos os lusíadas, uma beleza
Numa vala comum foste enterrado
Ao longo dos séculos tens influenciado
Com a tua prosa, teu estilo prosador
Muitos poetas, grande senhor
És o nosso poeta mais amado
Pelos Lusíadas Camões, OBRIGADO
São uma mensagem de esperança
Ao povo Luso transmitem confiança
Por todos os povos lusófonos és exaltado

Zé da Villa

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Javali

José Teodoro Prata

quinta-feira, 26 de junho de 2014

A nossa Feira no imprensa.


Ver vídeo em reconquista.pt

José Teodoro Prata

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Jogos tradicionais na Feira

O JOGO DOS PREGOS


Material: Um cepo de madeira
                Pregos
                Martelo

Objectivo: Não ser o último a espetar completamente o prego
Penalização: Pagar uma rodada (vinho, cerveja…) a todos os jogadores

Espetam-se os pregos (um por cada jogador) superficialmente no cepo. Cada jogador, na sua vez, dá uma martelada no respetivo prego. Quem for o último a conseguir espetar completamente o prego, perde e paga a rodada.

M. L. Ferreira

Nota: Este jogo teve muitos participantes e despertou a curiosidade até das crianças. Talvez fosse interessante que, em próximas edições desta feira, se organizasse um espaço para a divulgação dos jogos que aprendemos com os nossos pais e avós…

segunda-feira, 23 de junho de 2014

O passeio da Feira




José Teodoro Prata

Comentário:

Foi a terceira vez que participei nestes passeios (tenho pena de não ter participado nos outros, principalmente naquele em que subiram ao cimo da serra, mas espero que um ano destes se repita…). Para além das muitas coisas que fiquei a saber sobre a história da nossa terra, cada um deles tem sido uma viagem no tempo e um reavivar de memórias da infância e juventude.
Do primeiro lembro sobretudo a passagem pelo Pelome. Trouxeram-me à memória as aflições da minha mãe quando dava conta da bolsa dos livros do meu irmão ao fundo da escada e percebia que, em vez de ter ido para a escola, teria ido nadar para a Ribeira. Lá ia ela, quelha abaixo, à procura dele! Uma vez, já desesperada, ainda lhe trouxe a roupa e ele teve que voltar encarrapato para casa…
Do segundo, à passagem pelas vinhas do poço, lembrei-me do meu primeiro trabalho remunerado. Foi durante umas férias, a vindimar. A injustiça que senti quando, na hora de recebermos, me pagaram metade do que deram às outras mulheres. Achei que não era justo porque, apesar de inexperiente, nunca tinha ficado para trás das outras.
No domingo, seguindo o curso das águas, passámos por sítios lindíssimos! Alguns, qual Gerês, qual Buçaco!... Mas foi ao passar pelo tanque da regadia, no Cimo de Vila, que me senti a recuar no tempo. Acho que era de lá que saía a água que vinha pela valeta da rua do Convento abaixo, seguia depois pela rua da Igreja e se sumia num boeiro na rua Velha, ao fundo da Nicolau Veloso. Era uma alegria quando, nas tardes de verão, víamos a água começar a correr lá de cima! De saias e calças aforradas e pés descalços, andávamos rua acima, rua abaixo, a chapinhar na água. De que é que nos importava que nos dissessem que as mulheres do Cimo de Vila despejavam lá os penicos?!
Trabalho notável, o do José Teodoro que nos proporciona estas viagens no tempo!

M. L. Ferreira

domingo, 22 de junho de 2014

quarta-feira, 18 de junho de 2014

As nossas feiras

Há dias nem sequer me dei ao trabalho de responder a um comentário da  Libânia em que  (mostrando a sua grande ignorância), afirmava que o Borda d´Água  não fazia alusão às nossas festas e feiras. Fiquei então a saber que ela nunca o deve ter lido, porque nas páginas 20 e 22 dessa folhinha,  na secção festas e feiras, lá está escrito 3.º Domingo de Janeiro e 3. º Domingo de Setembro,   S. VICENTE DA BEIRA.
Esta deve ser daquelas que  transplanta as cenouras enterrando-lhe a rama, ficando a cenoura de fora!
Mas não era disto que eu queria falar;  foi só um desabafo de uma pessoa ofendida.

Nos anos cinquenta, além dos mercados mensais que ainda hoje se fazem, havia também duas grandes feiras em S. Vicente da Beira. Eram a feira de Janeiro como era conhecida, pendente da Festa de São Vicente (22 de Janeiro), e a feira de Setembro que coincidia com as Festas de Verão no terceiro Domingo desse mês.
Eram feiras de grande nomeada que atraíam muita gente das redondezas e em  que além dos tendeiros normais  também havia gente do povo a vender. Eram os agricultores que vinham vender ou comprar gado; esses agricultores vendiam também os produtos das suas colheitas tais com o feijão pequeno, o feijão grande, o grão, os alhos, as cebolas etc.
Vinha o cesteiro que enquanto vendia uns cestos ia fazendo outros. Os oleiros vinham com as suas carroças carregadas de talhas, alguidares, cântaros e cântaras, caçarolas, tachos etc.
Havia também os quinteiros que vinham vender os leitões galinhas e pitos que lhe sobravam e que muitas vezes trocavam por produtos que faziam falta.
Para a cachopada era dia de festa. Lembro-me que numa feira de Setembro o meu pai me comprou uns sapatos muito bonitos que iriam servir para aquelas festas e por aí adiante. Com o entusiasmo do dia achei que devia estrear logo os sapatos e fui jogar à bola. À noite o meu pai deu-me um jeito na roupa. Bem o merecia. Hoje seria violência doméstica!
Noutra vez, deu-me vinte e cinco tostões (uma fortuna), para gastar na feira e nas festas. Com a moeda na mão, fui direitinho  à taberna da Viúva e gastei tudo em amendoins. Fiz a festa toda logo nesse sábado.
Numa dessas feiras, uma velhota foi vender um leitãozito muito enfezadito  que andava a criar.
Sentou-se na primeira escada do balcão da cadeia com o animal ao lado, na esperança de o conseguir impingir. Era no tempo da miséria e muita gente não tinha dinheiro para comprar ou mandar fazer roupa interior e por isso simplesmente não usava.
A  velhinha era pobre e, ao sentar-se, ficou descomposta. Passaram então dois rapazes já espigadotes e um deles, vendo a velha naquele preparo, vira-se para ela e pergunta:
- Oh Tiazinha, quanto é que vale o seu arrepiado?
A velha,  muito desempenada, olha para o rapaz com  má cara e responde-lhe:
- Arrepiédo não,  que já hoje mamou duas caldeiradas!


E.H.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Passeio pedestre


Vamos visitar, por dentro, as minas e os depósitos da água que bebemos todos os dias.

Ana Jerónimo e José Teodoro

sábado, 14 de junho de 2014

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Santo António Casamenteiro

Em tempos que já lá vão, no arco da Rua das Donas, a Alfama, perfilava-se em seu nicho envidraçado o divino Padre Santo António. Era de pedra policrómica, e chamavam-lhe familiarmente Sant’Antoninho. Uma lâmpada ardia dia e noite à sua ilharga. O nicho era fechado a loquete para que os gatunos de cutiliquê não roubassem o azeite. Um ano fora visitado por um quadrilheiro, tão infeliz pilho e miserando que se deixou apanhar e foi enforcado na Praça da Lã. Santo António tivera com isso um profundo desgosto, resultando ele sugerir, em sua atiladíssima inspiração, ao vereador do pelouro que fosse dotada a charola com uma tranqueta de segurança.
Para o precioso óleo cotizavam-se os moradores, á cabeça do rol a família Coelho Manso, que tinha a chave e professava a mais afervorada devoção pelo beato taumaturgo. Tratava-se de um lar infraburguês, superpovoado, o pai oficial de Contos e Casa, um dos filhos alferes, o outro França, duas tias velhas, com lugar certo na Constelação da Onze mil Virgens, e três meninas bonitas, sécias, solteiras e namoradeiras, das tais de derreter com a labareda dos olhos e a sofreguidão de amar quem pisasse a rua para cá dos cem passos. Chamavam-lhes no sítio, para não fugir ao lugar comum, as Três Graças Mansas. Os rapazes, esses eram afogadiços de génio e estroinas, sempre na rosa divina, tanto o militar como o que não exercia outro emprego do que o de fazer semblante de que andava à procura dele.
Santo António trazia debaixo de olho, um olho de argos vigilante e caridoso, o bairro todo, primitivo e pobrinho, mas honrado, dado a luxos e amigo de se divertir, mas temente a Deus e ainda mais testo a círios e festas de altar que a própria Madragoa. Agora quem ele desvelava particularmente era a família Coelho Manso. Pudera! A velha Conegundes, sempre queixosa das cruzes quando não era do flato, do reumático quando não era do baço, com achaques mais numerosos do que os dentes que lhe caíam, da manhã á noite dentro da bata de fundo amarelo semeado de ervilhas verdes, cabelo em regueifa para a nuca, o infalível carocho preto no regaço, deixaria faltar o azeite no prato das sextas, e na sopa de repolho com feijão barriga-de-freira, dia sim, dia não, mas lá na lamparina do santinho, jamais. Acabava-se o mundo se se extinguisse o fanal que ali bruxuleava pela noite velha, quando a escuridão parecia um avejão imenso, de asas estendidas, a afogar o casario torcicolar.
As Coelhas Mansas, Maria Ana e Marta, votavam a Santo António uma dilecção extremada, patusca se bem que não original. Volta e meia, a pretexto de renovarem o azeite, palmavam o Menino ao santo. Palmavam-lhe o Menino que estava rechonchudo e nu sentado sobre o breviário, as pernocas à dependura, a mãozita papudinha no jeito amoroso de prender-se-lhe à sotaina. Era o modo de exercer coacção sobre o taumaturgo para que desse bom e lesto despacho às suas deprecadas. Santo António, que suportaria tudo menos ver-se separado do cachopinho, não resistia àquela chantage amorável. No dia seguinte, os anelos das Três Graças obtinham ganho de causa. Por via de regra estavam em jogo os seus amores. Embora ao santo repugnasse o papel de pau-de-cabeleira, que remédio? Antes de mais era preciso que o Menino voltasse para o divã de ocasião que era o ripanço.
Uma das vezes que se tinha demorado a obtemperar, estivera iminente a catástrofe. Conjurando, as três manas Mansas tinham-se ido, horas mortas, ao nicho e tentado atar uma corda ao pescoço do Santo para o mergulhar no poço do quintal até que dignasse deferir a deprecada. Valera-lhe ser de pedra de Ançã, mais pesado que todos os pecados do bairro, e as conspiradoras, por muito que soprassem, suassem, gemessem, não conseguiram deslocar a estátua do absidíolo.
Não eram apenas elas as almas súplices. Estava para nascer o primeiro mariola na Alfama que lhe não apresentasse os mais inverosímeis requerimentos. De modo geral só por grande casualidade faltavam ajoelhados a Sant’Antoninho. Além da rogação directa, de caso pensado, era ao passar que muitos, nada mais que in pétto, apelavam para sua intercessão e, após a vénia da regra, ala, que se faz tarde. Os mais próximos, tais as Coelhas Mansas, vinham à varanda e dali formulavam seus votos mentalmente. Santo António sabia interpretá-los na sua linguagem muda como se fossem rezados, embora, de facto, lhes passassem pelas cabeças ocas mais surdos que lagartas nas couves. Interpretava-os, decifrava-os, bem como a todos mais, e dava-lhes, consoante a fé dos suplicantes, provimento ou não.
Ora uma daquelas tardes – estamos no século XVIII com guerra nas fronteiras e nas províncias ultramarinas, e uma nobre vadiagem, acobertada pelo escudo dos avós, a infestar as ruas – soprava um vento de desbarato sobre a casa de Coelho Manso. Além do alferes ser chamado ao regimento que partia em expedição contra os castelhanos, empresa a que era ainda mais avesso que o Diabo à Cruz, ó sorte infanda! era mobilizado o pai Coelho, oficial de Contos e Casa. Os namorados da meninas, porque não lhes cheirasse o dote bastante, pareciam querer desarvorar um, meter outro o idílio para rumo desonesto, ainda o terceiro brandir o punhal de Otelo contra a ingrata e infiel, surpreendida na Sé a trocar miradas langorosas com um chichisbéu.
E vá de irem todas à sacada e apelarem sucessivamente para o miraculoso padroeiro, interpretando a lição, aprendida com o leite da boa mãe Conegundes:
- Ó meu beato António, santinho da minha alma, luzeiro da Itália e resplendor de Portugal – congeminava Maria, a filha mais velha, alevantadiça de trunfa e de vozes – guardai-me o namorado, que ameaça deixar-me pela filha do mercador de sola, rico como um porco, aquela gorda e sardenta Rosa Fagundes, para mais taxada de sangue marrano. Guardai-mo rendido e fiel ao bem que lhe quero, Glorioso Sol do Empírio, e prometo rezar-vos tantos padre-nossos que eu caia para a banda de cansaço e vós tapeis os ouvidos, azoado. Não serei eu mais bonita que a correeira, e mesmo mais prendada e discreta? Oh, que as peças que tem o pai lhe sirvam de brasas no inferno! Ouvi-me, meu divino Padre Santo António! Amparai-me na demanda com a maldita, invencível advogado! Valei-me, nas minhas penas, boticário dos corações aflitos!
Retirou-se a moça da varanda ao ver que vinha lá a mana – uma peste por baixo das sete falinhas doces, uma acusa-cristos que ia contar tudo ao pai – quando o santinho começara a dar mostras de comovido. Uma lágrima teria mesmo começado a aflorar-lhe aos olhos, daquelas que o menino costumava esmagar-lhe com a cabecinha do dedo róseo. Mas, schiu, de facto abria-se de novo a porta na varanda das Coelhas Mansas. Era Aninhas, a cadeta, branca, poética e vaporosa que se debruçava sobre o vão da rua.
- Padre Santo António – rompeu a exortar a perlequitetes – senhor de estranhos poderes, que em Limoges vos condoestes da pobre dona desfeada e, pegando nos cabelos que lhe cortou o ciumento, lhos repusestes em sua formosura e inteireza; que açaimastes os tiranos; que destes vista aos cegos; que endireitastes os estropiados e os coxinhos – alumiai o meu caminho! Posso seguir, confiada, o homem que adoro? Devo por ele deixar pai, mãe, irmãos e o lar sossegado a que presidis com solicitude paternal, meu glorioso Padre Santo António, meu adorado Sant’Antoninho!? Inundai de luz minha alma, ó preclaro luminar do céu! Dignai advertir-me se as pétalas de rosa com que o meu mais que tudo promete atapetar-me o caminho escondem a víbora que mata! Dizem-me que há um bicho mau chamado trigonocéfalo, que disfarça o covil no meio das flores. Não vá eu dar nesse bicho! Por quem sois, guiai-me nesta senda de verdadeira Primavera, que me inebria, e tanto pode conduzir-me à ventura como á perdição, no dizer da mãe Cunegundes.
Recolheu-se a doidinha e, no seu nicho, Santo António que guardara uma atitude carrancuda de reserva, entregou-se logo a movimentos vários de cólera. Debalde tentava o Menino acalmá-lo. Com a mão, enclavinhada em martelo, fazia o gesto de britar, de reduzir a grude a cabeça da serpente, e ante disposição tão cómica, o menino não conseguia reprimir-se e soltava-lhe nas bochechas risadinhas deliciadas. Mas, de repente, ouviu-se o ranger duma porta nos gonzos enferrujados. Que sarna! Era ainda na varanda das Coelhas Mansas. Lá assomava a terceira Graça. Só faltava aquela cabeça de alho chocho, engraçada como um pássaro do paraíso, garrida, e a mais lambisqueira e casquivana das três. Não abria a boca, mas, como já se disse, Santo António via os pensamentos loucos voarem-lhe na alma como pulgões numa açucena.
- Meu santo quebrador de infusas, meu Sant’Antoninho de papas de leite e mel, que culpa tenho eu que os rapazes olhem mais para mim do que para as outras?! Se o meu rosto é prazenteiro, a minha voz meiga, o meu olhar requebrado, foi Deus que assim me fez. Por quem sois, meu rico Padre Santo António, abri, ou melhor, fechai os olhos ao meu namorado que se ofuscam com tudo que não seja derreterem-se os meus nos dele. Reacendei a idolatria que me tinha, encaminhai-mo e eu vos prometo uma novena e missa cantada, quando me casar, no vosso altar da Sé.
Retirara-se a donzela, ficando Santo António a saborear o sainete daquela alma especiosa. Ao cabo do seu enlevo, que não foi longo, murmurou para o Menino:
- Coitadinha! Coitadinha! É bonita, não se há-de fechar numa trapeira.


Aquilino Ribeiro – Humildade Gloriosa

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Primavera

A Primavera "primo vere", primeiro verão, está a chegar ao fim, é a estação do renascimento, das flores, toda a terra se cobre com um manto novo.
Nossos avós e pais não simpatizavam muito com a prima vera, era a estação da fome ,diziam.
Tinham razão, em certa medida, o campo depois do tempo invernal...
"Vejam como a mãe Natureza é"
Assim que chega o tempo outonal, as folhas das árvores caducas amarelecem e caem, mas antes são uma beleza aquela natureza morta.
Tomam um encanto tamanho...
Depois, bem depois vem o "general hibernum"
O Criador concedeu à Natureza plenos poderes para proteger as plantas.
Senão vejamos.
Coitadas das árvores se não despissem a folhagem, vinha o vento, queria passar, encontrava um obstáculo no caminho e derrubava-o.
Vinha a neve, mansamente, sem fazer alarde, as pernadas não aguentavam a carga e  partiam...
A Natureza resolveu a situação.
Liberta-as das folhas, o vento desta maneira passa sem fazer grandes estragos, a neve também.
Os nossos maiores costumavam dizer:
“Ano de nevão, ano de pão"
Mas também tinham um medo da neve que se pelavam!
Quando havia grandes nevões, as oliveiras, os pinheiros e tantas árvores de folha perene partiam com o peso da branquinha.
Uma dor de alma!
Quem não gosta de se aquecer a uma lareira, ouvindo o vento que passa e as beiras.?
Eu gosto!
Um provérbio judaico diz: "Para o ignorante, a velhice é o inverno, mas para o instruído é a estação da colheita."
Pura verdade.
O diabo sabe muito, porquê?
É velho.
Ao longo da minha vida, sempre me pautei por ouvir os velhinhos, analfabetos ou letrados são bibliotecas muito ricas.
Há aqueles que são insensatos, o inverno não os moldou então.
Vale mais um jovem pobre, mas sábio, que um rei velho, mas insensato (Eclesiastes)
Não tenhamos medo do inverno, porque a amendoeira florescerá, os passarinhos regressarão e tudo se renovará.
A primavera é uma estação muito alegre. Logo pela manhã, cantam maviosamente os rouxinóis, os melros, o cuco, a poupa, a rola e as plantas como por magia vestem uma nova roupagem, mas...
Não há nada que se possa comer?
Há laranjas!
É tempo de semear, plantar, para mais tarde recolhermos o fruto do nosso trabalho
Este gajo é um chato dirão vocês, mas...
Antes de terminar, lembrei-me de uma quadra que se encontra junto ao portão que dava acesso à casa da Dona Joaninha, atualmente propriedade do “Capador". Diz o seguinte:
Pedi a Deus um conselho
Para encontrar a alegria
Deus voltou-se para mim e disse
Trabalha, semeia e cria
Passem muito bem.                            


Zé da Villa

segunda-feira, 9 de junho de 2014

domingo, 8 de junho de 2014

Bárbara dos trovões


José Teodoro Prata

Nota: Ver na postagem anterior mais uma oração recolhida pela Libânia.

sábado, 7 de junho de 2014

Hoje talvez troveje!

A Lenda da Santa Bárbara


Diz-se que há muitos anos, numa terra muito longe, havia um homem muito rico com tinha uma filha que era a menina dos seus olhos. Chamava-se Bárbara e era linda como as rosas e dona de um bom coração. O pai sonhava com um futuro bonito para ela, porque, para além da riqueza em terras e palácios, à medida que a rapariga ia crescendo, ia aumentando também a sua formosura e bondade.
Quando chegou à idade de casar, apareceram pretendentes à mão de Bárbara, vindos de todas as bandas, mas ela negava-se a noivar com qualquer deles. O pai andava preocupado e desgostoso, porque estava a ficar velho e não queria morrer sem ver a filha casada. Prometia-lhe jóias, vestidos e toda a sorte de outras prendas, mas nada a fazia mudar de ideias. Até que um dia, ferido com tantas desfeitas da filha, lhe disse que, se ela não se resolvesse a casar, a metia dentro duma torre e a deixava lá até que a morte a levasse. Nem isso valeu de nada. Muito zangado, ordenou que construíssem a torre o mais depressa possível e mandou lá fechar Bárbara, a pão e água.  
Passados uns tempos, mandou trazê-la à sua presença e perguntou-lhe se já estava resolvida a escolher um noivo. Ela respondeu-lhe que não e disse que se tinha convertido à fé cristã, pela graça da Santíssima Trindade.
Furioso, o homem mandou degolar a filha e que a arrastassem pelas ruas da cidade. Quando a multidão, exaltada, apedrejava o corpo despido de Bárbara, veio uma tempestade tão grande, com relâmpagos e trovões tão fortes, que matou o pai da rapariga e fez desabar a torre até à última pedra.
Toda a gente acreditou que tinha sido um milagre e, a partir daí, Bárbara foi considerada santa e ficou a ser a protetora contra as trovoadas.
Ainda hoje se reza:
Santa Bárbara, Bendita
Que no céu está escrita
Com raminhos de água benta,
Livrai-nos desta tormenta.
Espalhai-a lá para bem longe
Onde não haja eira nem beira,
Nem raminho de oliveira,
Nem raminho de figueira,
Nem mulheres com meninos,
Nem ovelhas com borreguinhos,
Nem pedrinhas de sal,
Nem nada a que faça mal.
Amém!
 M. L. Ferreira

Mais uma oração, da resposta da Libânia ao comentário do Ernesto:

Uma das pessoas a quem perguntei se sabia a oração, ensinou-me esta que também acho interessante:

Santa Barba, S. Jerolme,
Que lá estais no céu escritos
Com raminhos de água benta,
Livrai-nos de tal tormenta.
Magnífica! Magnífica!
Engrandecido seja o Senhor!
Valha-nos o Bom Jesus
E a Flor donde nasceu.
E a hóstia consagrada
Onde Jesus Cristo morreu.
Amém!

M. L. Ferreira

quinta-feira, 5 de junho de 2014

ANTIPATIAS

No mês de Abril, fui a Castelo Branco. O normal é dizer: - Esta semana fui cinco vezes a Castelo Branco. Eu ainda sou dos que dizem: - No mês de Abril fui a Castelo Branco. Tem a ver com poluições e outras coisas terminadas em ões,  tais como:  uma mentalidade obsoleta que teima em não me largar.
Entrei na Livraria Bertrand com a ideia conservadora de comprar mais um livro do Miguel Torga. Os funcionários eram dois jovens com idades muito aproximadas às do meu João e do meu Zé e o que me atendeu, muito solicito, revoltou a livraria à procura do que eu pretendia, mas não encontrou.
Sugeriu-me então um livro que ele estava a promover. O título era esquisitíssimo e o autor um ilustre desconhecido para mim: MAZAGRAN, escrito por José Rentes de Carvalho, um nortenho radicado na Holanda.
Qual é o pai que, tendo dois filhos lá fora, a lutar pela vida, diz não a um rapaz que está cá dentro a lutar pela vida? Dos cinco euritos que eu tinha ideia de gastar por um livro de bolso, tive que passar para  dezasseis e sessenta, mas,  lá diz o outro, “Não há dinheiro que pague a paz do meu coração”. Para mais, o livro que tem como subtítulo  Recordações e outras fantasias, revelou-se uma agradável  surpresa. A prová-lo, junto um dos muitos pequenos textos que integram o MAZAGRAN:

ANTIPATIAS

Tal como o mistério de algumas simpatias, o de certas antipatias também se não pode discutir. Muitas surpreendem pela sua insignificância, mas debalde tentaremos escapar à garra com que nos apertam.
Eu, por exemplo, não consigo olhar o retrato de um escritor de pena na mão, ou com os dedos mergulhados no teclado da máquina de escrever sem que a qualidade da sua obra não sofra logo na estima em que eventualmente a tenho. Escritor que se deixa fotografar assim, diz a minha antipatia,  que não pode ser sério nem valer muito.
Porque se uma pose dessas traduz algo, não é por certo o  brio do talento nem a modéstia que pede a condição humana, mas o espírito frívolo que para se afirmar, necessita dos sinais exteriores do seu ofício.
Também me desagradam, mas por outra razão, creio, os retratos de escritores com as suas estantes a servir de pano de fundo. Desde que nos últimos anos a reprodução fotográfica, mesmo a dos jornais, aumentou sensivelmente a qualidade, mal vejo um desses retratos logo de lupa na mão me ponho a esquadrinhar os títulos dos livros que ele ou ela possui, na esperança de descobrir uma sintonia com os meus próprios interesses ou simpatias.
Recentemente publicado numa revista, o retrato de corpo inteiro de  um conhecido escritor, diante de um colossal e impressionante armário a abarrotar de volumosos tomos, veio agudizar outra das minhas irracionais antipatias.
Desconheço se o intento tinha sido fotografar o escritor em questão ou o aparatoso móvel, certo é que ao atentar nas lombadas dos livros no seu armário me correu pelo corpo o arrepio da descoberta: eu tinha ali sob os olhos a mina de citações do homem, o armazém do seu saber.
Por um instante cedi à tentação, peguei na lupa e comecei a ler os títulos. Mas logo me detive, tomado por um incómodo, a vergonha de penetrar impune no segredo da fraqueza e artimanha de outrem. Porque é talvez por isso que o excesso de citações sempre acorda em mim a irritação. É que me dá o sentimento de surpreender alguém que, por si só, não tem força para andar e que, em vez de se servir discretamente das muletas em que se apoia, acena orgulhoso com elas. De facto para se fazer valer, o hábil não necessita de originalidade nem saber verdadeiro: para ele e para o mundo a prótese já serve.

JOSÉ RENTES DE CARVALHO


E.H.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Já tem um lar!


Na altura em que o Ernesto deu conta do avistamento do Rabomole na Praça, eu não estava por cá. Quando regressei, não o vi e disseram-me que um homem do Violeiro o tinha levado.
Ontem resolvemos ir visitá-lo, para ver se estava a dar-se bem com o novo dono e dar notícias aos amigos, mas não conseguimos avistá-lo e ninguém nos soube dizer nada dele. Fomos depois até à Partida e lá, logo à entrada, disseram-nos que andava por lá um cão com as características do Rabomole. Andámos rua acima, rua abaixo, mas de Rabomole nem sombras… Quando já estávamos quase a desistir, mesmo à saída, lá estava ele, triste, com o rabo entre as pernas. Quando me viu, correu logo para mim. Não tivemos coragem de abalar e deixá-lo lá…
Hoje foi um dia cheio de emoções, para nós e para ele! Ainda não está muito à vontade, mas já brinca com a nova amiga e salta para o sofá como se sempre tivesse sido o lugar dele!


M. L. Ferreira

domingo, 1 de junho de 2014

Na minha terra...

TEMPOS QUE JÁ LÁ VÃO

Na minha terra Natal
Antigamente
Havia movimento
Havia mais gente
Antigamente
Na minha terra Natal
Havia muitas crianças
Que cantavam, pulavam alegremente
Na minha terra Natal
Havia muita gente
Antigamente
Na minha terra Natal
As pessoas trabalhavam
No campo, ou eram artesãos
Belos trabalhos saiam de suas mãos
Com suas canções alegravam
Os seus e nossos corações
Na minha terra Natal
Ainda a alva estava dormitando
O resineiro já ia a caminho do pinhal
Para extrair a resina ao pinheiro e cantando
Amava a floresta, não lhe fazia mal
Em todas as ruas havia um sapateiro
Sentado no tropeço a sola batia
Cortava, recortava e assim todo o dia
Fivela na mão transformava o cabedal
Nosso amigo sapateiro
Com as mãos calejadas
Batia, batia...
E eis umas botas cardadas
Em certas ruas um rumor se ouvia
Era a máquina de costura
O alfaiate cosia
Cortava o pano para as calças. para o casaco
Trabalhava noite e dia
De vez em quando fazia um fato macaco
E o alfaiate cortava
As medidas tirava
Suas mãos faziam maravilhas
Blusas, saias e camisas
O alfaiate costurava
Fazia aquilo que gostava
No largo principal
Estavam os latoeiros
Moldavam a folha de Flandres
Regadores, cântaros eram feitos no local
Eram uns tipos porreiros
Um deles era o "matador oficial"
Dos porcos da povoação
No tempo da matação
Era ele que matava o animal
Havia os fornos do povo
Que eram geridos pela forneira
Estavam sempre cheios como um ovo
O marido acendia a fogueira
Os pães eram sinalizados
Para as donas os conhecerem
Com uma caruma eram marcados
Mais uma tabuleirada
Para os familiares comerem
Havia muitos pedreiros
Que a pedra transformavam
Também havia carpinteiros
Que faziam janelas e portas
As suas profissões amavam
Também havia os ferreiros
Que o ferro moldavam
Os ferradores ferravam
Eram fortes e nada "pringueiros"
Havia muitas tabernas
Geridas pelos taberneiros
Serviam vinho ao copo
Às vezes os fregueses já não podiam com as pernas
Também havia muitos barbeiros
Os cabelos cortavam
As barbas escanhoavam
Eram uns tipos porreiros
Subia à torre o sacristão
Para o sino tocar
Punha o povo a rezar
Dlim,dlão; dlim, dlão
Havia muitas adegas com grandes tonéis
Que guardavam bom vinho
O litro era vendido a dez réis
Também havia quem cultivasse o linho
As mulheres iam para a ribeira
Lavar a roupa suja
Era posta a corar 
Na erva da lameira
Depois de ensaboada
Com água corrente era lavada
Havia muitos ganhões
Que trabalhavam para os lavradores
Muitos eram patrões
Mas todos pegavam na charrua
Desfaziam os torrões
Lavravam a terra para as plantações
No carro transportavam de tudo os ganhões
Havia grandes cabradas
Por aqueles montes fora
Também havia grandes ovelhadas
Chocalhando a toda a hora
E o pastor
Nas noites frias
Embrulhava-se na sua manta
Era assim todos os dias
Na praça a ganapada
Na hora do recreio corria
Na escola levava-se reguada
Era assim na freguesia
Ao domingo todo o povo ia à igreja
Ouvir a palavra de Jesus
Que morreu por nós na cruz
Assim seja, assim seja...
Hoje os tempos outros são
Muito poucos os moradores
A morar na povoação
As ruas estão desertas
Até dói o coração

Zé da Villa