domingo, 31 de janeiro de 2016

A política e a ganância

Quando acabei a quarta classe, tinha dez anos, fui logo trabalhar para Lisboa. Antes de abalar, o meu avô sentou-se comigo na varanda que tínhamos à frente da casa e disse-me assim:
- Olha, filho, toma bem conta deste conselho que te vou dar: tu nunca te metas por lá na política, nem sejas muito ganancioso.
Naquela altura, não percebi o que é que o meu avô queria dizer com aquelas palavras, mas fiquei a pensar nelas e nunca mais as esqueci.
Da minha terra a Lisboa nem é assim muito longe, mas as estradas eram más e as viagens levavam muito tempo. Ainda por cima, nessa noite tinha havido um ciclone, havia muitas árvores caídas e eram os passageiros da camioneta que tinham que se apear e limpar a estrada. Foi um dia inteiro de caminho.
Fui trabalhar para casa dum tio meu que tinha uma mercearia ali para as Janelas Verdes. Era uma das melhores de Lisboa. Vendia de tudo quanto era bom e os fregueses eram as famílias mais importantes: condes, marqueses, embaixadas, grandes negociantes; tudo gente de dinheiro. 
Naquele tempo era costume os fregueses fazerem as encomendas daquilo que precisavam e as casas mandavam os empregados entregá-las à porta. Eram os moços de recados. Era um trabalho duro e, quando havia festas naquelas grandes casas, andávamos carregados que nem burros; mas eu gostava, principalmente quando me mandavam à embaixada da Inglaterra. Davam-me sempre uma gorjeta boa, mas do que eu gostava mais era quando me davam jornais ou revistas. Não percebia nada do que diziam, mas tinham fotografias muito lindas; já tudo a cores. Não era como cá, que era tudo ainda a preto e branco.  
Um dia mandaram-me entregar uma encomenda num sítio para os lados do rio. De repente vejo uma tormenta de homens a correr pela rua fora, com a polícia atrás, à cacetada a eles (ouvi depois dizer que era uma manifestação de estivadores). Fiquei cheio de medo e desatei a correr também e meti-me na primeira porta que encontrei aberta. Não me valeu de nada, porque um polícia veio atrás e desatou à pancada a mim. Ao ver a minha cara de rapazito e o meu ar de pânico é que percebeu que eu não tinha nada a ver com aquilo e até me pediu desculpa. Mas já as cá tinha no lombo…
Quando cheguei ao pé do meu tio e ele me viu a chorar, perguntou o que é que tinha acontecido. Lá lhe contei, como pude, ainda todo a tremer. Ele encolheu os ombros e só disse isto.
- É a política…
Era a segunda vez que ouvia falar nessa coisa da política, mas continuava sem saber o que isso era. Passados uns tempos, quando fui à terra, o meu avô tornou a chamar-me para a varanda e, antes que ele me fizesse perguntas sobre a minha vida em Lisboa, fiz-lhe eu a pergunta que já trazia atravessada há que tempos:
- Avô, o que é que é a política?
- A política, filho, é uma coisa que só serve aos grandes. Para os pequenos, como nós, só serve para levarmos no lombo.
E eu já tinha levado…
Depois perguntei-lhe ainda:
- E o que é que é a ganância?
- A ganância é nós querermos ter mais fatos do que aqueles que precisamos na vida e podemos levar quando morrermos, para não irmos embrulhados num lençol…

M. L. Ferreira


Nota: Esta história passou-se em 1940 e foi-me contada pelo senhor Jaime Costa, um homem que tem muito que contar. 

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

São Vicente da Beira

(…) Vou dar-te uma ideia, só a aceitas se achares que te pode servir
-Diz ó Pensamento.
Não sei como se tem portado a Memória, se já cedeu alguma coisa ou continua amuada sem abrir mão do quer que seja.
-Mesmo que me abra algum armário para me ceder algo, prefiro a tua ideia, não estou satisfeito com a atitude que anda a ter comigo, portanto…
Sei que és um defensor acérrimo da tua Pátria natal e pensei…
-Onde queres chegar com esta conversa?
Passo a explicar; a tua vila tem umas quadras muito bonitas que podias esmiuçar e começam assim:

Ó meu São Vicente amado
Tu és banhado pela ribeira
Tu és a terra mais linda
Para nós tu és a primeira

Cada verso teria uma fotografia para enfeitar o ramalhete, queres experimentar?
-Vamos a isso.

Que melhor local para começar senão este. É na igreja que se encontra guardada a relíquia de São Vicente, a tradição diz que, o osso que se guarda religiosamente na igreja foi ofertado por D. Afonso Henriques ao povo de Trans Serre. Então:

Ó meu São Vicente amado


Tu és banhado pela ribeira

A tua paisagem é deslumbrante, verdejante, por todo o lado jorram fontes, os regatos cantarolam de pedrinha em pedrinha para se irem juntar à ribeira tornando-a mais forte, és o nosso rio temeroso, caudaloso no inverno, bazofeiro no verão. Teu leito resume-se a alguns poços onde os aldeões colocam mangueiras para levar a água aos terrenos ressequidos, no teu leito corre um pequeno fio de água, mesmo assim és bela.
Não tens castelo é verdade; não precisaste nunca de muralhas. Os antepassados diziam: Nossos guardadores, vigilantes, estão sempre de atalaia, são os santos da nossa devoção. Santa Bárbara no campo, São Domingos no cimo da vila, Santo André no fundo da vila, e a Senhora da Orada na serra. Querem melhor!
Infelizmente as capelas de São Domingos, Santo André há muito que desapareceram, ficou o nome. A Santa Bárbara foi obrigada a mudar de local, como ficava a meio caminho entre o Sobral e São Vicente no dia da sua festa as duas comunidades não se entendiam lá muito bem.
Santa Bárbara é nossa; diziam os sobralenses. Isso é que era bom, a santinha é nossa retorquiam os vicentinos. O padre da vila aconselha as autoridades a tirarem a imagem da ermida. Anos mais tarde novo templo se ergueu no Casal. A ermida encontrava-se dentro dos limites de São Vicente. Então; amigos…
Não tinhas castelo! Não é verdade, situava-se no alto da serra, qual atalaia altaneira, o inimigo a léguas de distância já se vislumbrava. Há muito que ruiu, mesmo assim quem visitar o local descobre com facilidade bocados de panos da muralha.
Sem qualquer favor, salamaleque ou rapapé.


Tu és a terra mais linda, para nós tu és a primeira.


Em São Vicente fui gerado.

                               
Nesta pia fui batizado.


Nesta casa estudei; ó meu São Vicente amado.

Dando continuidade ao assunto em questão, digo:

Ó vila de São Vicente
Duas coisas te dão graça


É o  relógio a torre
                  

E o pelourinho na praça

Diria mais:

Ó vila de São Vicente

Tua gente tem talento  


É alegre


Religiosa
É uma vila formosa.      

E pronto.

J.M.S

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Chef João Dias Hipólito


A votação para o melhor Chef do Quebec, Canadá, termina já amanhã.
Um dos candidatos é o meu João.
Ele e os pais terão de me perdoar este atraso, não há outro remédio.
Clicar em baixo, escolher Quebec e depois votar no João.

Faço minhas as palavras do João Candeias, que me enviou a notícia:
Acabei há pedaço de saber que está a decorrer a votação, até 28 de Janeiro, para o melhor chefe da região do Quebeque, Canadá.
Um dos concorrentes,  para além de ser de São Vicente da Beira, é filho do nosso amigo Ernesto!!!
A nossa OBRIGAÇÃO é VOTAR!
Vamos TODOS VOTAR  no João .

Segue a restante informação:

Portugal continua a dar cartas à mesa;

chef João Dias Hipólito nomeado para

os Notable Awards 2015


João Dias Hipólito foi nomeado para os Notable Awards 2015 na categoria de melhor chef da região do Quebeque, Canadá. O chef está à frente do Ferreira Café, considerado um dos melhores restaurantes de comida portuguesa fora de Portugal, propriedade do empresário Carlos Ferreira.


«Ser reconhecido é para mim muito gratificante, pois confirma a minha paixão perante o olhar e paladar de todos os amantes de boa cozinha. A minha preocupação é colocar o máximo de Portugal no vosso prato e fazer-vos sentir no nosso país! Por isso, já sabem, venham ao Ferreira, venham experimentar», afirma João Dias Hipólito.
Aberto desde Abril de 1996 em Montreal, o Ferreira Café é um hino à gastronomia portuguesa, com grande destaque para os vinhos nacionais. A qualidade e a frescura dos produtos utilizados e a mesclagem entre o tradicional e o moderno são as principais características que tornaram este restaurante uma verdadeira referência.
João Dias começou por trabalhar na área em Portugal, tendo passado por restaurantes como a Casa da Dizima, em Paço de Arcos, o restaurante da Quinta de Catralvos, como braço direito do chef Luís Baena, o Terraço do Hotel Tivoli, o Manifesto e, por fim, como chef executivo em dois hotéis na Serra da Estrela. Estando à procura de novos desafios e experiências fora da hotelaria, conheceu o empresário Carlos Ferreira, que, em 2013, acabou por lhe dar a oportunidade de ser chef no seu famoso Ferreira Café, em Montreal, Canadá.
As votações para os Notable Awards 2015 estão a decorrer até 28 de Janeiro, às 10:00, e podem ser feitas em http://notableawards.com/categories/chef e depois é só seleccionar «Região Quebec» e escolher o chef João Dias.

José Teodoro Prata

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

São Sebastião.e São Vicente

Celebram-se a 20 e 22 de Janeiro, mas já há muito tempo que a festa se faz no mesmo dia.
Foi este fim de semana.

  
No sábado à noite, realizou-se a missa na capela de São Sebastião 
e depois a procissão com a imagem do Mártir até à Igreja Matriz.
Domingo, foi rezada a missa perante as imagens dos dois santos.


Após a missa, foram veneradas as relíquias de São Vicente e distribuídos papossecos benzidos.

 

Seguiu-se depois a procissão desde a Igreja Matriz até à capela de São Sebastião…

 

… onde foram benzidas as filhós que, desde há alguns anos, é hábito distribuir por todas as pessoas.


Este ano, os festejos foram assumidos pela comissão das Festas de Verão e foram abrilhantados, 
como sempre, pela nossa Banda…


… e pelo nosso Rancho.


Nota: Sobre S. Sebastião, S. Vicente e o bodo há no blogue várias publicações, nomeadamente em Fevereiro de 2009, 2012 e Janeiro de 2013 que podemos sempre revisitar.
Falei com várias pessoas para tentar perceber qual era o entendimento que tinham sobre o bodo. A maior parte referiu as bênçãos divinas, como proteção na saúde e defender da fome. Creio que será também esse o resultado das pesquisas do Florentino Vicente Beirão, porque quase todos os bodos que conheço estão relacionados com agradecimentos contra pestes ou pragas (saúde e sustento, condições básicas de vida).
Parece que o hábito de distribuir filhós no bodo de S. Sebastião é relativamente recente. Antigamente era costume dar tremoços e vinho, mas só aos homens.

Também me falaram, e depois vi referido numa exposição do GEGA, que antigamente, no dia de S. Vicente, se fazia uma grande feira na Vila. Era a Feira de Janeiro, onde, parece, se vendiam essencialmente produtos agrícolas e gado. Muita gente ainda se lembra disso. 

M. L. Ferreira

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Presidenciais, 2016


Marcelo Rebelo de Sousa: nacional, 52,00%; SVB, 57, 99%

Sampaio da Nóvoa: nacional, 22,89%; SVB, 20,77%

Marisa Matias: nacional, 10,13%; SVB, 8,95%

Maria de Belém: nacional, 4,24%; SVB, 5,75%

Edgar Silva: nacional, 3,95%; SVB, 1,92%

Tino de Rans: nacional, 3,28%; SVB, 2,08%

Nota: o todo nacional não está concluído, pois ainda falta contar os votos da emigração.

José Teodoro Prata

sábado, 23 de janeiro de 2016

Paradanta

Esta publicação é dedicada a um jovem de apelido Paradanta, que falou comigo aquando da minha palestra na Partida.
No dia 9 de julho de 1760, além da Maria das Candeias e do Teodósio Duarte, casaram também o José Leitão e a Maria Pires Duarte. Ela do Casal da Serra e ele nascido no Louriçal do Campo, mas a viver no casal do Monte do Surdo, uma propriedade do Conde de São Vicente, arrendada pelos pais.
O pai do José Leitão chamava-se Manuel Leitão e era da Paradanta. Como a mulher era do Louriçal, deve ter ficado a viver na terra da mulher, tendo nascido lá o filho José. Poucos anos depois, mudaram-se para o casal do Monte do Surdo, onde os seus descendentes vão continuar por muitas gerações. 
( O Pe. Jerónimo ainda conheceu o último membro da família a residir ali, chamado Antonio Rodrigues, isto em meados do século XX).
A propriedade do casal do Monte do Surdo ia desde a fazenda junto ao cruzamento para os Pereiros/Partida, até à Ribeirinha, incluindo todos os terrenos em volta do ribeirito que se forma lá no alto e desagua na ribeira,  separando o casal do Baraçal do Casal da Fraga.
Como haveria vários Manuel Leitão na freguesia, o povo terá acrescentado Paradanta ao nome. O filho aparece já nos registos camarários como José Leitão Paradanta.
Nos registos paroquiais que tenho consultado, surgem vários descendentes do José Leitão e da Maria Pires Duarte que foram casar à Partida. E lá terão deixado o apelido Paradanta, até hoje.


José Teodoro Prata

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Candeias


Este é o registo de casamento, no dia 9 de Julho de 1760, da vicentina Maria das Candeias, com Teodósio(Theodozio) Duarte, da Póvoa da Atalaia.
O apelido Candeias não o herdou dos pais (Mathias de Abreu e Rita Antunes), facto que legitima a história que os Candeias contam, segundo a qual uma menina nasceu (ou foi exposta, já não sei bem) no dia da Senhora das Candeias e por isso ficou com esse nome. Veremos, quando chegar ao registo de batismo.
Esta Candeias deu origem a uma geração que depois se multiplicou. Nas Invasões Francesas, havia um soldado filho de uma Candeias. Também Hipólito Raposo descende destes Candeias.
Ao contrário dos Candeias que defendem haver origens diferentes para os Candeias de São Vicente e Casal da Serra, tudo me leva a concluir que vêm todos do mesmo tronco, este que aqui apresento.

José Teodoro Prata

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Hipólito de Jesus

A 15-09-2015, publiquei o registo de casamento do soldado Hipólito de Jesus, que ocorreu a 29 de outubro de1787, o qual deu origem ao apelido de família Hipólito.
Na altura, informei que meses depois a viúva de um Hipolito de Jezus casara de novo, mas não se tratava da mesma pessoa.
Levantei a questão da relação que existiria entre os dois, talvez um padrinho e outro afilhado, o que justificaria aquele Galecho ter um nome tão estranho à família.
Agora encontrei o registo de casamento deste Hipolito de Jezus, o presumível padrinho do outro, o soldado, ambos Galecho.
Casou a 28 de abril de 1756, com Joanna Baptista de Oliveira. Ele era filho de Manoel Rodrigues Galecho e de Izabel Rodrigues, todos de São Vicente da Beira. A noiva era de Castelo de Vide.
Só estou a trabalhar com registos de casamento, pelo que ainda não tenho respostas para tudo. Quanto ao parentesco, deixamos ao Ernesto o trabalho das ligações.


Nota: Tens razão FB, estas descobertas são as pequenas (grandes) alegrias dos investigadores. Aparecem após muitas horas de estudo, quando já se perderam as esperanças. Por vezes vai-se a Lisboa, passam-se horas na Torre do Tombo e nada. Mas de repente, ALELUIA!

José Teodoro Prata

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Uma graça de filho

Toda a vida foi um castigo para o tirar da cama. Cama é como quem diz, que para falar verdade, era uma faixa de palha, numa tarimba, na loja da burra; de verão era ao relento, debaixo da figueira, defronte da casa.
Foi assim também no dia do casamento, e a mãe numa lamúria:
- Alevanta-te, filho, que se faz tarde! Não tarda nada, começam a chegar as pessoas e tu ainda nesse preparo… Valha-te Deus, que nem num dia destes tens tino!
E o ti Jaquim, o pai, a clamar:
- Rais parta tal pringueiro que tanto gosta da cama! Quero ver como é que vai governar a mulher e os filhos, se tiver porte para fazer algum!
Mas ele queria lá saber… Continuou a dormir, de papo para ar, que, ainda pra mais, a véspera tinha sido comprida, nas vendas da Vila.
Já os convidados estavam a chegar quando se pôs a pé. Lavou-se à pressa, vestiu o fato novo e, com o chapéu na cabeça e as botas penduradas ao ombro, pôs-se à frente do cortejo, serra acima. Não eram muitos; só a família mais chegada, e quase tudo só homens e canalha pequena, que as mulheres ficaram em casa a fazer o comer.
Ainda era uma esticada, do Rabaçal ao Casal da Serra, por isso tiveram que alargar o passo. A seguir ainda tinham que fazer quase outro tanto, até à Vila.
Chegaram estafados e na esperança que em casa da noiva lhes dessem qualquer coisa para meter na boca; mas não. Mal deu por eles, veio de lá a mãe da rapariga, tão danada que até parecia que havia de os comer a todos:
- Só agora é que lá vindes, almas do diabo? A cachopa aqui farta de esperar, toda inquietada, que até lhe ia dando uma coisa!
- Atão o que é que quer, o caminho é longe! Chame-a lá, que a gente tem pressa.
- Onde é que ela já vai, a estas horas! Estava farta de esperar e foi andando com o pai e os padrinhos, para adiantar caminho. Inde depressa se os quereis agarrar.
Bem correram, mas já só os alcançaram ao pé de S. Sebastião, que tinham parado para se calçarem e compor a roupa. E ele enfiou também as botas e compôs o chapéu. Quando chegaram à igreja, já o senhor vigário estava à espera, com umas beiças que chegavam à porta da rua. Mas foi um alívio quando ela lhe ouviu o sim, de boca cheia, e pôde finalmente sentir-se uma mulher casada. Era o que mais queria da vida: ter um homem que lhe desse um ranchinho de filhos, como a mãe dela tinha tido.
Depois do casamento, tornaram para o Rabaçal, onde era a boda. A mesa estava posta debaixo da figueira, mas só tinha lugar para os homens; mulheres, só as madrinhas e as avós mais velhas, que as outras tinham que servir o comer. Os cachopitos sentaram-se no chão e nas escadas do balcão da casa, com o prato, de cobulo, ao colo. Foi canja de galinha, arroz no forno e borrego guisado com batatas. Doces, os do costume, à descrição. Tudo feito a meias, menos o vinho, que esse foi o pai da noiva que teve muito gosto em o dar todo. Boa pinga!
Quando se levantaram da mesa, já era quase noite. Bem comidos e bebidos, cada um foi à sua vida. Os noivos também abalaram. Tinham arranjado uma casita mais abaixo, à roda do caminho da Senhora da Orada. Quando os viu partir, o ti Jaquim ainda suspirou para a mulher:
- O que é que vai ser da vida deste desgraçado, se ele não tomar rumo...
E ela:
- E quem é que o há de tirar da cama, de manhã, para tomar conta ao menos duma hortinha e fazer alguma jorna?
Ao outro dia, bem cedo, o ti Jaquim levantou-se, porque era dia de despejar a presa que tinha nas Quintas. A casa do filho ficava-lhe em caminho. Quando chegou perto, nem queria acreditar: o seu Francisco já estava a traçar um molho de mato.
- É para a cama dum bacorinho, que ainda hoje hemos de ir buscar ao Fundão; eu mais minha Maria. Ainda se há de fazer até ao inverno. E também quero uma cabra, que precisamos de leite para o cachopinho que aí vem…  
Não disse nada, o ti Jaquim, mas, enquanto regava o milho, não lhe saía da ideia o que tinha visto e ouvido. Olhou para cima e benzeu-se. Era uma graça ter um filho assim, capaz de fazer pela vida!


M. L. Ferreira

domingo, 17 de janeiro de 2016

O Bodo


Bodo de São Sebastião ou de São Vicente? Paposseco e/ou filhós e tremoços?
Para proteger das tempestades (paposseco), dos gafanhotos ou das pestes (filhós)?
O palestrante, Florentino Beirão, enquadrou o nosso bodo nos bodos desta região, havendo-os do ciclo do Natal, como o nosso, da Páscoa e das colheitas do estio, como em Alcains.
O ponto de partida foi "A Festa das Papas de Alcains", um livro do Florentino, editado há alguns anos.
A palestra foi organizada pelo Movimento Monárquico Português, com a colaboração da nossa Junta.

Havia quase ninguém, por muitas razões, sendo a minha culpa o não ter publicitado aqui o evento. Mas recebi o convite há já algumas semanas e, embora tenha programado a minha presença, esqueci-me de o anunciar aqui. É imperdoável, mas não há nada a fazer, a cabeça não deu para mais.
Valha-nos o próximo domingo, pois a comissão da festa do São Sebastião promete festa rija!

José Teodoro Prata

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Futilidades

Demóstenes

Vou contar uma verídica história
Que se passou na Antiguidade
Numa grande e próspera cidade
Atenas; urbe de grande memória

Demóstenes o filósofo, discursava
Na grande praça central
A multidão passava e não parava no local
O povo distraído não lhe ligava

Atenienses; clamava irritado
Certo dia de muito calor e seca
Um rapaz alugou uma pileca
Para o levar a um determinado lado

Era a hora do meio-dia
Não havia sombra para o ir tapando
Aproveitou a sombra do burro e ia andando
O dono não gostou do que via

Eu aluguei meu burrinho
Não aluguei sua sombra benfazeja
Se a quiser aproveitar como deseja
Tem que me dar mais dinheirinho

Não acredito no que estou a ouvir
Diz o rapaz incrédulo e espantado
Ao alugar o burro sua sombra hei alugado
Nada mais tenho que pagar; disse o jovem a rir

Depois disto contado
Demóstenes desceu do púlpito
Perguntou o povo, de súbito
Que aconteceu ao coitado!

Então o grande orador
Para o céu os olhos voltou
Deuses, vejam como o povo se interessou
Por este conto balofo e sem grande valor

Assim é no tempo actual, de agora
Há interesse por futilidades
E lança-se o que é bom fora


Zé da Villa

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Casal da Fraga



Temos acima o registo de casamento de José Antunes e Maria Gonçalves, no ano de 1754. Ela era filha de Manuel Rodrigues e Luzia Gonçalves, moradores no Casal de Duarte da Fraga. Trabalharia para o Duarte da Fraga (antepassado dos Jerónimo) e por isso vivia no seu casal.
A segunda imagem é um pormenor da primeira, na qual está ampliado o nome do casal: Casal de Duarte da Fraga.
Para entender melhor esta questão, aconselho a reler a publicação Jerónimo. Basta escrever Jerónimo na janela do canto superior esquerdo. É a 3.ª publicação que aparece (salvo erro).

José Teodoro Prata

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Atrás de tempo, tempo vem

Talvez, na Taberna da Viúva

Chegou. 
Era um estranho de vestes brancas e longas! 
Assomou à porta da Taberna e disse à sociedade:
— Que estão vocês aqui a fazer, reunidos?!
— A olhar o calendário do ano de 2016 e a mirar de soslaio o passado – disseram.
— Já viram por aí os anos de 1893, 1924, 1951 ou 1960?!
— Ói, ói, ói, ói! Lá para trás, lá para trás!... Parece que somos os velhos destes tempos.
E o forasteiro, autoritário:
— Vocês já estão mortos, ouviram? E os vossos filhos também! Vocês são um "Coro de Defuntos".
— Ah! Sim?
— E quem é você?
— Sou um anjo do Senhor.
Jerolme tomou a palavra e disse:  
 — Atrás de tempo, tempo vem!
— Palavras de sábio - asseverou Canhoto.
E mais não queriam eles dizer!
Que as cruas palavras do anjo lhes tinham ferido fundo a alma, provocando-lhes enorme inquietação!
Mas Garrancho ergueu a voz para um dos mirones do adjunto, de modo que todos ouvissem:
— Sabes o  que é isto meu rapaz?
— Humm!
— É a senilidade!
Houve  um grande rumor entre os presentes.
E, de facto, como declarara o homem das vestes brancas, viu-se que se assemelhavam a um "Coro dos Tribunais", de voz fria e atitude austera.
Todavia, o anjo no seu esplendor, buscando alguma harmonia:  
- Olhai: os velhos de hoje não são vocês. São os vossos netos!
Ora, porque essa era a pura da verdade, não puderam responder-lhe.
Contra fatos não há jumentos! Pois todos sabiam que estes apenas usam albarda.  
Então, o anjo limpou a parede às suas vestes!
E, tal como surgira, assim dali se sumiu, lesto.
Mas antes, desejou:
— Tenham um bom futuro!


Boris de Viana

domingo, 10 de janeiro de 2016

Das trovoadas

Não encontrei a música sugerida pela Libânia (Santa Barborinha Bendita), mas esta é igualmente bela, vem das nossas raízes e também pede proteção contra as trovoadas.
Pertence ao album Cenários, dos Realejo. É um tema tradicional da Beira Baixa.



José Teodoro Prata

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Um São José de azulejo

(…) Pensamento dá-me uma dica; neste momento nada me ocorre…
Vai ao teu arquivo fotográfico e fala sobre as imagens de azulejo que decoram muitas casas da tua terra.
- Deste-me uma ideia genial, vai-me dar algum trabalho vasculhar, mas penso que irá valer a pena.
- Essas representações são painéis de religiosidade e devoção popular e servem, julgo eu, para protecção da família que habita a casa. Se no painel está uma imagem de São José, com certeza quem o mandou colocar chamava-se José: pode ser Pedro, João, António…


Sendo assim; começo pelo São Jorge. Segundo reza a tradição, São Jorge foi um soldado romano que viveu no tempo do imperador Dioclesiano, também foi padre; o que lhe valeu o martírio. Estamos habituados a vê-lo montado num cavalo, espada em riste matando o dragão que simboliza satanás; desde o tempo do nosso rei D. João I que é o patrono do exército português, também é dos escoteiros, quem introduziu o culto foram os soldados ingleses. Os primeiros reis de Portugal quando andavam em guerra, gritavam: Santiaaago… o problema era quando os exércitos de Castela e Portugal se defrontavam, os dois a pedirem a protecção ao santo, já viram a confusão, devia apanhar cada afronta!
- Diria: a minha sede está na Galiza, mas o portuga também é filho de Deus. Não queria estar na pele dele. Os nossos reis resolveram a situação adoptando o São Jorge, desta maneira Santiago deixou de ter problemas de consciência…
- Adiante; era tanta a fé no São Jorge que o santo condestável dizia que a batalha de Aljubarrota foi ganha graças a ele. Por influência inglesa ou pela fé, o rei D. João I substituiu Santiago pelo São Jorge.
- Terminaste?
- Acho que escrevi o essencial.
- Volta ao teu arquivo e descobre mais um painel de azulejos, conta também a história resumida da imagem.
- Numa casa ao lado encontra-se um painel que representa São João Baptista.
- Pensamento; repara na beleza, um São Joãozinho muito ternurento tendo por companhia um lindo e manso cordeiro, conta um pouco da história deste santo.
- Passou uma grande parte da sua vida no deserto, alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre, era um asceta. Um dia resolveu aparecer e começou a pregar, tinha muitos seguidores e baptizava no rio Jordão. Certo dia, estava baptizando, ao longe avista uma pessoa, era Jesus. 


Quando se aproximou disse-lhe: João baptiza-me… Senhor, eu não sou digno de desatar as tuas sandálias.
- Baptiza-me.
- Eu te baptizo…
- O rei Herodes mais tarde mandou-o degolar. É o São João das fogueiras, dos folguedos.

- Os lares querem-se abençoados, guardados, protegidos; dificilmente entra o maligno nesta habitação.



- O Menino não tem medo de nada, está protegido pelos braços fortes do pai. Cresce em sabedoria e força.
- Jesus, dá-me a serra para cortar esta tábua; pega na vassoura e varre a oficina.
- Jesus, anda para a praça brincar à espada lua.
- Agora não; estou ajudar o meu pai.
- Jesus: diga mãezinha;- vai à fonte buscar um jarro de água para fazer a ceia
- Assim que acabar de varrer a oficina do pai, vou logo.
- Não te demores; passa pela loja e compra um litro de petróleo.
- Ó pai, deixa-me aplainar esta tábua! Para que queres tu aplainar a tábua! Para fazer um banquinho.
- Essa não, pega antes esta. A plaina corre ligeira, tornando lisa a madeira, Jesus transpira, martela e o banco começa a tomar forma.
José, Maria e Jesus; família modelo. Tinha 33 anos quando o crucificaram numa cruz.

- António santo, de Jesus querido, valha-nos sempre o vosso patrocínio:-cantava-mos na sua capela durante a trezena. Santo casamenteiro, português, tinha um carinho muito grande para com o Menino, ainda hoje lhe confiam os animais para que os guarde e proteja.


- Que achas da ideia?
- Genial, não sei que seria de mim sem a tua ajuda. Também não é necessário exagerar. É verdade; se não fosses tu abrires as portas à minha memória…

- Não precisa de apresentação; o nosso São Vicente foi um mártir. Temos o privilégio de guardarmos na igreja paroquial um pedaço do seu queixo oferecido por D. Afonso Henriques.

                                    
Homem rude, forte, valente. Segue-me, a partir de agora vou fazer-te pescador de homens. Desde já te aviso, antes que o galo cante três vezes tu vais negar-me.
- Eu mestre, nunca.
- Nunca diga nunca.
- Perdoa-me Senhor.
- Simão, és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, o que ligares na terra será ligado no céu, o que desligares na terra será desligado no céu.


Terra de Santa Maria, Senhora da Conceição nossa padroeira e rainha, mãe carinhosa, bondosa, salvé santa mãe de Deus, avé ó cheia de graça o Senhor é contigo, bendito o fruto do teu ventre…


A treze de Maio, na Cova da Iria… Não há português no mundo que não conheça a história da Senhora de Fátima. Não tenhais medo, eu sou a Senhora do Rosário. Vocemecês não a viram? É uma Senhora muito bonita, mais brilhante que o sol, o seu brilho não nos ofusca, seu sorriso é doce, sua voz meiga…


Ó anjo da minha guarda, ó meu doce companhia, guarda minha alma noite e dia… é uma oração do meu tempo de criança, que minha mãe me ensinou. Todos temos um ser celestial que o Pai nos cedeu para nos guiar, ajudar, orientar e guardar, não o vemos, mas ele acompanha-nos. É ou não é verdade Pensamento! Podes crer.



J.M.S





José Teodoro Prata

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

A felicidade

Faz parte da Constituição Francesa e Americana já dos finais do séc. xviii, como um dos direitos do ser humano, a procura da felicidade.
Antes como hoje, todos a procuramos e poucos a encontram, porque a procuramos fora, quando ela está dentro de nós.
A felicidade exterior é como o horizonte por cima do Ingarnal. Se nos dermos ao trabalho de lá subir, (um sítio maravilhoso, que recomendo) verificamos que se desloca invariavelmente para a Serra do Muradal, um bocado mais a baixo.
O meu pai contou-me que, quando era criança, julgava que o mundo acabava ali (no horizonte) e que ficou deslumbrado quando, ainda gaiato, foi ao Zêzere apanhar umas pedras para afiar o podão, os machados e as facas. Ao atravessar a serrania, viu que outras serras lhe apareciam, umas atrás das outras.
A vida é assim…uma tentativa constante de ultrapassarmos o nosso Ingarnal, no sentido do Cabo das Tormentas, (para os infelizes que não conhecem o Ingarnal), mas sempre na expectativa que se converta para cada um de nós no Cabo da Boa Esperança.

F. B.



O Francisco Barroso tem a enorme capacidade de dizer tudo sobre determinado assunto, em poucas palavras.
Neste caso, foi sobre a felicidade. O texto acima foi enviado em forma de comentário à história da Libânia, mas eu passei-o para aqui, com medo que alguém o perdesse, o que seria uma pena, sobretudo para esse alguém.
A paisagem mostra o Ingarnal, aldeia e cume.

José Teodoro Prata


É verdade! Às vezes também fico desconsertada pela forma simples, e aparentemente fácil, como o Francisco define e fala das coisas mais complexas. Oxalá todos conseguíssemos viver a vida assim!
Deixo esta fotografia de uma das últimas luas cheias de 2015, como paga da do Ingarnal. É para todos, mas principalmente para o Francisco, já que, penso, tem ao fundo a sua Serra. É o meu presente de Natal! 


M. L. Ferreira

domingo, 3 de janeiro de 2016

Casamento à moda antiga

Deliciosa e desconcertante a história da Celina, na introdução de “Olha a noiva se vai linda”! Fez-me lembrar esta que me contaram há tempos, bem mais triste, mas parece que bastante comum naquele tempo.

Quando os meus pais se casaram, não tinham onde cair mortos e passaram muito para criar os filhos. Éramos oito, fora os que morreram. Fui a última, mas nem por isso tive mais mimos, que naquele tempo a gente nem sabia o que isso era.
Aos cinco anos já andava atrás das cabras e com molhos de lenha à cabeça, e mal tive corpo para ir ao terço ou à azeitona, não ficava um ano que fosse em casa. Eram três meses de calma, no verão, e outros três de gelo, no inverno. Tempos ruins, os de antigamente!
À medida que os meus irmãos se casavam, iam saindo de casa, e fui eu que fiquei a tomar conta dos meus pais, cada vez mais velhos e doentes.   
Nunca tive um namorado, que o meu pai, mal eles começavam a rondar a porta, empontava-os logo. Houve um que ainda lhe foi pedir ordem para falar p’ra mim. Era um bonito rapaz, mais ou menos da minha idade, e eu até nem desgostava dele, mas também não tinha onde cair morto e o meu pai dizia que para pobre bondávamos nós.
Um dia, estava a chegar da missa, que nesse tempo ainda tínhamos que vir à Vila, vejo uma burra presa à argola da porta da nossa casa. Mal ponho o pé na soleira, ouço um homem a dizer:
- Falem cá com a rapariga que eu torno cá p’rá semana pra levar a cédula, a ver se damos andamento aos papéis. Quero recebê-la quanto antes. E vossemecê, se for até à Vila, passe lá pela taberna, que este ano tenho lá uma pinga da boa.
- Ande vá descansado que eu me encarrego cá do assunto.
Vi logo quem era o homem e pressenti ao que vinha, mas nem queria crer que estavam a arranjar-me o casamento; ainda por cima com um velho, já viúvo. Saí porta fora e pus-me à espreita a uma esquina, e só tornei a casa quando vi o homem a abalar, em cima da burra. Fiz-me de nova, como se nada fosse, e tratei logo de esconder a cédula no fundo duma arca, na loja.
Passado um bocado, o meu pai chega-se ao pé de mim e começa-me para lá com um palavreado, a dizer que estava na altura de arranjar um amparo e que tinha lá ido a falar com ele um homem que queria casar comigo.
- Mas quem é que lhe disse a vossemecê que me quero casar? Estou muito bem como estou, não preciso d’ homem nenhum!
- Mas tu não vês que com a idade que tens, daqui amanhã já não há quem te pegue e ficas pr’aí feita uma desgraçada?
- E olhe que eu bem ralada!
- O homem é de boa gente e já não é nenhum garoto. E ainda p’ra mais até já tem casa posta e uma barroca que dá renovo com fartura p’ra todo o ano. O que é que tu queres mais?
- Já lhe disse que não quero saber disso p’ra nada! Ainda por cima, um velho, e já viúvo. Era o que a mim me havia de faltar! Tirem daí o sentido, que nem morta ele me leva!
- Ai leva, leva, que já lhe dei a minha palavra!
E a minha mãe a ajudar:
- Não sejas torta, Maria, e recebe lá o homem. Olha que uma mulher arrumada é outra coisa; toda a gente a respeita. E depois não hás de passar necessidades como as que eu passei com o teu pai, que ainda tive que ir muita vez a pedir às portas para vos dar de comer.
Mas eu continuei sempre a ateimar que não me casava.
Não sei como é que deram com a cédula, mas a verdade é que daí a pouco tempo já corriam os banhos na igreja e o casamento tinha data marcada.
Foram ao Fundão, compraram um corte de pano e mandaram-me fazer um fato de saia e casaco, numa costureira da Vila. Uns dias antes mataram umas galinhas e fizeram arroz doce e uns pães leves. E eu sempre a ateimar que era escusado andarem naquele afogadilho todo, que eu não me casava, nem com aquele, nem com outro qualquer.
Na véspera, ainda vim a correr à Vila a falar com uma irmã minha que já cá estava casada, a dizer-lhe que não fizessem o comer, porque eu não aparecia na igreja. Ela só me disse assim:
- Ó Maria, tens de casar com o homem. Olha a vergonha para os nossos pais... Da maneira que eles andam, ainda lhes dá alguma. E ele é boa pessoa; trabalhador, não é nenhum borrachão como o meu é e ainda p’ra mais tem alguma coisa de seu.
Eu chorava que nem uma Madalena.
No dia do casamento levantei-me, ainda era noite e abalei para a horta a regar. Já o Sol ia alto, quando tornei a casa. Fiz uma trouxa com o fato, meti-a debaixo do braço e pus-me a caminho da Vila. Vinha eu e mais alguns parentes mais chegados; tão triste que mais parecia que vinha para um enterro.
Quando cheguei ao ribeiro, despi a roupa que trazia, lavei-me e vesti o fato do casamento. Os sapatos eram de pano e tinham-me sido dados por uma tia que fazia limpezas num teatro em Lisboa. Emprestaram-me um véu de renda que pus na cabeça. Era preto, mas mais preta era a tristeza que tinha dentro de mim.
E foi assim que eu me casei…
- E depois, deram-se bem?
- Quer que lhe diga? Quem tem filhos tem cadilhos, diz o povo e é verdade; mas mais cadilhos tem, quem casa descontra vontade.

M. L. Ferreira