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domingo, 8 de janeiro de 2017

Fontes: os Duarte Ribeiro do Casal da Serra

No dia 16 de janeiro de 1746, casaram os irmãos João e José Duarte Ribeiro com as irmãs Isabel Antunes e Catarina Pires, todos do Casal da Serra.
Eles viriam a ser, nas décadas de 60 e 70, dois dos homens mais ricos e poderosos do nosso antigo concelho. Um foi capitão da capitania da ordenança de São Vicente e o outro foi sargento-mor da ordenança concelhia. Criaram, os dois, uma capela particular devotada a São João Batista, à qual vincularam bens que tiraram cada um do seu património.
A novidade é que estes irmãos Duarte Ribeiro eram mesmo naturais do Casal da Serra (até agora pensava que tinham vindo de Tinalhas/Freixial). 
É que no Freixial do Campo havia também os Duarte Ribeiro, com fortes ligações a Tinalhas, incluindo residência.
Os registos de casamento abaixo apresentados não esclarecem a origem do apelido Ribeiro, nem as possíveis ligações com os Duarte Ribeiro do Freixial.
Recordo que o Pe. João Antunes, testemunha nos dois casamentos, era também natural do Casal da Serra. Foi levado prisioneiro pelos espanhóis, quando estes atacaram e incendiaram parcialmente São Vicente, em 1762, no contexto da Guerra dos Sete Anos. Morreu no cativeiro.



José Teodoro Prata

sábado, 13 de agosto de 2016

Gardunha: Rochas e Castelo Velho


De: http://beira.pt/turismo/rotas-e-percursos/rota-da-gardunha/

Vista deste ângulo, parece um narigudo com cabeleira. 
Vou revê-la na próxima segunda, 15 de agosto. 
É um passeio familiar, mas convido quem queira juntar-se a nós. 
A partida é às 6 horas, da Igreja do Casal da Serra: temos de ir cedo para regressar antes do calor apertar (cerca das 11h).

José Teodoro Prata

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Uma graça de filho

Toda a vida foi um castigo para o tirar da cama. Cama é como quem diz, que para falar verdade, era uma faixa de palha, numa tarimba, na loja da burra; de verão era ao relento, debaixo da figueira, defronte da casa.
Foi assim também no dia do casamento, e a mãe numa lamúria:
- Alevanta-te, filho, que se faz tarde! Não tarda nada, começam a chegar as pessoas e tu ainda nesse preparo… Valha-te Deus, que nem num dia destes tens tino!
E o ti Jaquim, o pai, a clamar:
- Rais parta tal pringueiro que tanto gosta da cama! Quero ver como é que vai governar a mulher e os filhos, se tiver porte para fazer algum!
Mas ele queria lá saber… Continuou a dormir, de papo para ar, que, ainda pra mais, a véspera tinha sido comprida, nas vendas da Vila.
Já os convidados estavam a chegar quando se pôs a pé. Lavou-se à pressa, vestiu o fato novo e, com o chapéu na cabeça e as botas penduradas ao ombro, pôs-se à frente do cortejo, serra acima. Não eram muitos; só a família mais chegada, e quase tudo só homens e canalha pequena, que as mulheres ficaram em casa a fazer o comer.
Ainda era uma esticada, do Rabaçal ao Casal da Serra, por isso tiveram que alargar o passo. A seguir ainda tinham que fazer quase outro tanto, até à Vila.
Chegaram estafados e na esperança que em casa da noiva lhes dessem qualquer coisa para meter na boca; mas não. Mal deu por eles, veio de lá a mãe da rapariga, tão danada que até parecia que havia de os comer a todos:
- Só agora é que lá vindes, almas do diabo? A cachopa aqui farta de esperar, toda inquietada, que até lhe ia dando uma coisa!
- Atão o que é que quer, o caminho é longe! Chame-a lá, que a gente tem pressa.
- Onde é que ela já vai, a estas horas! Estava farta de esperar e foi andando com o pai e os padrinhos, para adiantar caminho. Inde depressa se os quereis agarrar.
Bem correram, mas já só os alcançaram ao pé de S. Sebastião, que tinham parado para se calçarem e compor a roupa. E ele enfiou também as botas e compôs o chapéu. Quando chegaram à igreja, já o senhor vigário estava à espera, com umas beiças que chegavam à porta da rua. Mas foi um alívio quando ela lhe ouviu o sim, de boca cheia, e pôde finalmente sentir-se uma mulher casada. Era o que mais queria da vida: ter um homem que lhe desse um ranchinho de filhos, como a mãe dela tinha tido.
Depois do casamento, tornaram para o Rabaçal, onde era a boda. A mesa estava posta debaixo da figueira, mas só tinha lugar para os homens; mulheres, só as madrinhas e as avós mais velhas, que as outras tinham que servir o comer. Os cachopitos sentaram-se no chão e nas escadas do balcão da casa, com o prato, de cobulo, ao colo. Foi canja de galinha, arroz no forno e borrego guisado com batatas. Doces, os do costume, à descrição. Tudo feito a meias, menos o vinho, que esse foi o pai da noiva que teve muito gosto em o dar todo. Boa pinga!
Quando se levantaram da mesa, já era quase noite. Bem comidos e bebidos, cada um foi à sua vida. Os noivos também abalaram. Tinham arranjado uma casita mais abaixo, à roda do caminho da Senhora da Orada. Quando os viu partir, o ti Jaquim ainda suspirou para a mulher:
- O que é que vai ser da vida deste desgraçado, se ele não tomar rumo...
E ela:
- E quem é que o há de tirar da cama, de manhã, para tomar conta ao menos duma hortinha e fazer alguma jorna?
Ao outro dia, bem cedo, o ti Jaquim levantou-se, porque era dia de despejar a presa que tinha nas Quintas. A casa do filho ficava-lhe em caminho. Quando chegou perto, nem queria acreditar: o seu Francisco já estava a traçar um molho de mato.
- É para a cama dum bacorinho, que ainda hoje hemos de ir buscar ao Fundão; eu mais minha Maria. Ainda se há de fazer até ao inverno. E também quero uma cabra, que precisamos de leite para o cachopinho que aí vem…  
Não disse nada, o ti Jaquim, mas, enquanto regava o milho, não lhe saía da ideia o que tinha visto e ouvido. Olhou para cima e benzeu-se. Era uma graça ter um filho assim, capaz de fazer pela vida!


M. L. Ferreira

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Rota de D. Afonso Henriques

A II Feira de Artesanato e Gastronomia de São Vicente da Beira é já nos próximos dias 17, 18 e 19 de Junho.
Entre muitas outras realizações, haverá um passeio pedestre, para todas as idades, ao Castelo Velho, no domingo de manhã, dia 19 de Junho.
A partida está marcada para as 8.30 h, no Casal da Serra, junto à casa dos Serviços Municipalizados (casa com os telhados em bico, imitando as casas de montanha, nos Alpes).
Será o retomar de uma tradição tão antiga como a nossa terra. Segundo o Vigário, em 1578, Dom Afonso Henriques, ao fundar São Vicente da Beira e a sua Igreja, com muitos privilégios, exigiu que os vicentinos fossem todos os anos ao Castelo Velho, para relembrar as origens desta povoação: a ajuda dos habitantes da zona, reunidos no Castelo Velho, a D. Afonso Henriques, na batalha da Oles, contra os mouros.
Escreveu o Vigário José Pegado de Sequeira que o abandono dessa tradição era, já em 1758, a causa da decadência de São Vicente da Beira.
Por isso, a rota se vai chamar Rota de D. Afonso Henriques. Em parte do seu percurso, coincide com a rota da Gardunha, do Geoparque Naturtejo.

Pontos fortes da rota de D. Afonso Henriques:
- Paisagem do campo albicastrense, com o Louriçal e o Colégio de São Fiel aos nossos pés, a barragem da Marateca no meio da planície e Castelo Branco ao fundo.
- Fauna e flora da Gardunha.
- Rochas classificadas como património municipal.
- O Castelo Velho, um castro da Idade do Bronze (cerca de 1000 a. C.)
- Obras de captação de água, dos anos 30 e 40, para abastecer Castelo Branco: barragem do Penedo Redondo e várias minas.
- O Casal da Serra, no colo da montanha.


Porquê a partida do Casal da Serra:
- Porque São Vicente da Beira é muito mais do que a sede da freguesia.
- Porque torna o percurso menos cansativo, embora ainda suficientemente desafiador dos limites de cada um. É um percurso para todas as idades, em que sobrará sempre boa disposição para apreciar o nosso riquíssimo património.

Nota: Pede-se aos participantes de São Vicente que passem pela Praça e Fonte Velha e dêem boleia a quem estiver sem carro. A Junta transportará, na sua carrinha, as pessoas sem transporte, mas poderá demorar, se forem muitas.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Albano Mendes de Matos


Albano Mendes de Matos é natural do Casal da Serra e vive em Oeiras.
Antropólogo de formação, este investigador fez uma vasta recolha das tradições da sua terra natal que são comuns a toda a nossa freguesia e a outras circunvizinhas.

Desde criança, no Casal, aprendeu a conhecer e a distinguir os cogumelos. Tornou-se um estudioso, um especialista.
De cogumelos conversámos, na última vez em que estivemos juntos, lembrando aqueles castanhos grandes e carnudos que ele ainda há pouco tempo apanhou debaixo de castanheiros, nas Lameiras.
No seu blogue plantifungi.blogspot.com, tem publicado a informação e a documentação que vai reunindo sobre os cogumelos da Gardunha.

Uma outra área do seu trabalho são as lendas da nossa serra que desde garoto ouviu da boca do seu avô José Mendes Junior (1864-1960). A Universidade do Algarve está a publicá-las, no site "lendarium.org/new". Também as podemos pesquisar através do nome Albano Mendes de Matos.

Igualmente realizou recolhas de literatura tradicional popular, no Casal da Serra e outras povoações da Gardunha. Tem vindo a publicá-las, no blogue "literatrad-blogspot.com".

O seu mais recente projeto na Internet é o blogue casaldaserra-varandagardunha.blogspot.com. Nele iniciou a publicação das tradições e histórias do Casal da Serra. Estava para lhe “roubar” e publicar, nos Enxidros, o texto e as fotos sobre a matação. São excelentes. Mas para quê, se os temos no seu blogue?
Recomendo uma visita aos seus blogues. Garanto-vos que vale a pena!

Nota: Aconselho a busca dos endereços sem hiperligação através do Google.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Venho pedir à menina…

Os rapazes trabalhavam quase todos à jorna. Depois de largarem, confluíam para a fonte e ali ficavam, em roda, enxadas e sachos de lado, a comer as merendas. Só faltavam as raparigas, a razão daquele ajuntamento. Elas chegavam, com o cântaro debaixo do braço. Vinham à água para a ceia, a mando das mães.
À passagem de uma moça, atiravam-se as boas tardes ou uns piropos, a espreitar um brilhozinho no olhar ou um sorriso reprimido. Ela não parava, direita à bica da água. O interessado seguia-a, chamava-a, na esperança de um estugar dos passos, de um virar de cabeça, de umas palavras mais. Se a rapariga dava esperanças ou porque o rapaz era dos afoitos, ele atirava à moça:
“Por que venho, venho
E porque digo, digo
Venho dizer à menina
Se quer casar comigo”
A resposta adivinhava-se pela reação da pretendida, não por palavras, que não ficavam bem, ali, a uma moça com juízo. Isso seria mais tarde, noutro tempo e noutro local, se ela aceitasse passar aos rituais seguintes.
Em terra de filarmónica, também se faziam serenatas. Músico ou não, o pretendente podia rodear-se de amigos que soubessem tocar os instrumentos da banda ou outros. À noite, em frente à casa da sua amada, cantavam e tocavam, tentando derreter aquele coração empedernido.
Com muita lábia e passadas se chegava ao namoro, se os dois estivessem para aí virados. Primeiro na rua, para se conhecerem melhor e dar tempo à vizinhança e à família. Se o amor resistisse a este primeiro teste de controlo social, o rapaz pedia licença aos pais da namorada, para começar a namorar em casa dela. Mas sempre vigiada pelos irmãos mais novos ou pela mãe. E o namoro não se arrastava até tarde, para que a rapariga não ficasse falada.
Se o rapaz fosse de fora, pagava um cântaro de vinho, tremoços e sardinhas assadas, aos rapazes solteiros de São Vicente. Fazia-se uma patuscada e o forasteiro era aceite na comunidade.
Quem namora quer casar e por isso, rapaz e rapariga, cada um por seu lado, tratava de arranjar o que era costume cada um levar. Precisava-se, no mínimo, de um ano. O rapaz tinha de poupar dinheiro para comprar as mobílias do quarto (cama) e da sala (mesa e cadeiras). À rapariga, cabia a mobília da cozinha (cantareira, bancos, masseira, tabuleiro) e o enxoval (lençóis, fronhas, travesseiros, mantas, toalhas de rosto e de mesa), com a respectiva arca.
Numa casa de lavoura, a família plantava o linho, trabalhava-o até ser fio que a noiva tecia no tear da loja. As peças de pano de linho eram depois cortadas, cosidas e bordadas. As mantas faziam-se com fitas de panos velhos, também no tear.
Cerca de três meses antes do casamento, os pais do noivo iam a casa dos pais da noiva a pedir a mão da rapariga para o filho e a combinar a boda. Quantos convidados de cada parte, que cozinheira contratar, quantas reses e aves de capoeira seriam precisos e se comprados ou de produção própria. Tudo a meias. E o local da boda, em casa de um deles, se fosse grande, ou alugada.
Os convites faziam-se um mês antes do casamento e, na última semana, as duas famílias mobilizavam-se na feitura de bolos e doces: biscoitos, bolos de leite, esquecidos, cavacas e pães-de-ló. Eram para oferecer aos não convidados (vizinhos, amigos e pessoas ricas), agregando-os também à festa. O retorno esperado eram prendas para os noivos.
E chegava o dia do casamento. O noivo, acompanhado pelos convidados, dirigia-se à casa da noiva, onde era aguardado por ela e pelos seus convidados. Depois, em cortejo, seguiam para a Igreja, ele com a madrinha e ela com o padrinho.
O noivo vestia fato preto, camisa branca, gravata cinzenta, lenço branco no bolso do casaco e chapéu. A noiva trajava de fato de saia e casaco, preto ou de outra cor, ou vestido, que não tinha de ser branco, xaile e lenço na cabeça ou véu.
A cerimónia podia incluir missa ou não, conforme fosse dia de semana ou domingo. À saída da Igreja, saudavam-se os noivos com pétalas de flores.
Seguia-se a boda e as iguarias eram de estalo:
- Canja
- Carne assada e guisada
- Bifes com batatas fritas
- Arroz com carne
- Iscas de fígado
- Pastéis de carne
- Arroz-doce
- Vinho
- Chá
- Doces
Era o tirar a barriga de misérias, em tempos de muitas carências.
E começava uma nova vida, gerando outras, muitas vidas.


A foto é de um casamento na Meimoa (Penamacor), em 1933. Embora não pareça, a noiva tinha apenas 24 anos!

Em São Vicente da Beira, os jovens já se casavam por amor, na primeira metade do século XX. Os meus pais, António Teodoro e Maria da Luz (Prata), casaram há precisamente 60 anos, tal como Luís Rodrigues (Prata) e Tomázia da Conceição e ainda Joaquim Leitão e Emília Rosalina do Casal da Serra. O dia 30 de Dezembro calhou num sábado, em 1950. Só puderam casar depois do Natal, pois no Advento não se realizavam casamentos.
Esta crónica é uma homenagem aos pais e avós que viveram os rituais de amor aqui descritos.

Texto composto a partir da recolha de Maria Isabel dos Santos Teodoro, trabalho manuscrito, Escola Secundária de Alcains, 1985.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Pneumónica 4

Conclusões
Apresentam-se algumas conclusões sobre a incidência da Gripe Pneumónica de 1918, na freguesia de São Vicente da Beira. Conclusões forçosamente parciais, pois o estudo ainda não está terminado.

1. A Gripe Pneumónica é a mesma que agora denominamos por Gripe A.

2. A Gripe Pneumónica atacou Portugal por três vagas: final da Primavera e início do Verão de 1918, Outono de 1918 e Inverno/Primavera de 1919, mas apenas a segunda provocou grande mortalidade.

3. A nível nacional, foi no mês de Outubro que se registou a maior mortalidade. Mas, na freguesia de S. Vicente da Beira, o mês de Novembro foi o mais mortífero.

4. A média dos óbitos de 1917-1919 foi de 4,8 mortes por mês, exceptuando os meses da Pneumónica, em que os óbitos subiram para 20, em Outubro, e 66, em Novembro.

5. Portugal Continental teve uma taxa de mortalidade de 1,08%, com um máximo de 7% em Benavente, Ribatejo. A freguesia de S. Vicente da Beira registou uma taxa de mortalidade de cerca de 2,40%, uma percentagem superior à média nacional.

6. A Gripe Pneumónica entrou na freguesia pelo Tripeiro, S. Vicente e Casal da Serra, povos onde se registaram mais óbitos, em Outubro. No mês seguinte, continuou a fustigar o Casal da Serra e S. Vicente, mas provocou enorme mortandade também na Partida. As restantes povoações, excepto o Tripeiro, a Paradanta e Pereiros, registaram poucas mortes.

7. Na época, S. Vicente, Partida e Casal da Serra eram as povoações maiores da freguesia (ver publicação “Curiosidade Demográfica”, do passado 31 de Outubro). Tal facto não justifica, só por si, uma maior mortalidade. Esta ter-se-á devido, também, ao facto de as pessoas estarem mais juntas e por isso transmitirem a gripe umas às outras, mais facilmente.

8. A Paradanta é a excepção que nos impede de concluir que a Gripe atacou as povoações maiores e localizadas em corredores viários. No entanto, este povo situa-se num corredor formado pelos vales de dois ribeiros, que eram locais de passagem. Um corre para oeste, para a Partida, onde, com outros, forma a Ribeira do Tripeiro, e o outro corre para nordeste, pelo Vale D´Urso e Castelejo.

9. O Vale de Figueiras não teve óbitos nestes meses, e o Violeiro e o Mourelo sofreram mortalidades muito aquém do que seria normal, em povos com da sua dimensão.

10. Durante a Gripe Pneumónica, as 10 camas do Hospital da Misericórdia só receberam doentes da Vila e a elite local não foi ali internada (terá pago consultas a domicílio). Desconhecemos se o internamento unicamente de pessoas de São Vicente se terá devido a uma proibição de deslocação de doentes ou se, simplesmente, os familiares optaram por não sujeitar os doentes a grandes deslocações, por falta de esperança na cura ou para não agravar o seu estado de saúde. A documentação do Hospital nada refere sobre uma proibição, interna ou externa, de internamento de doentes de fora da Vila.

11. Na povoação de São Vicente, o internamento no Hospital terá atenuado a mortalidade, pois dos 29 doentes ali internados com Gripe Pneumónica, apenas 4 faleceram. A excepção terá sido Maria de Jesus Hipólito, esposa do enfermeiro do Hospital, que possivelmente contraiu o vírus através do seu marido.

12. Em 1918, o único cemitério da freguesia era o de São Vicente, certamente sem capacidade para receber tantos mortos. Sabemos que, no Casal da Serra, foram sepultados num terreno à esquerda da antiga capela, localizada no início da Rua da Lagariça. Situações semelhantes terão ocorrido noutros povos.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Pneumónica 3

Óbitos de Novembro
Apresentam-se, hoje, os óbitos de Novembro de 1918, aquando da Gripe Penumónica. Os nomes das pessoas estão copiados tal como foram escritos nos registos da Igreja Matriz de S. Vicente da Beira.

01-11-1918: Maria Rita Raymundo, de 80 anos, viúva de Jose Raymundo, natural e moradora em S. Vicente da Beira.

01-11-1918: Maria da Anunciação, de 40 anos, casada com Francisco Marcelino, moradora no Casal da Fraga, São Vicente da Beira.

01-11-1918: Francisco Jeronymo, de 26 anos, cultivador, casado com Maria da Luz Romualdo, natural e morador em São Vicente da Beira. Faleceu no Hospital.

01-11-1918: Domingos Leonardo, de 23 anos, solteiro, guarda republicano, filho de Antonio Leonardo e Antonia Raposa, morador na Partida.

01-11-1918: Maria de Jesus, de 29 anos, solteira, costureira, filha de Joaquim Antunes e Joaquina Maria, natural dos Pereiros.

02-11-1918: Jose Alves Páscôa, de 49 anos, jornaleiro, natural do Violeiro, filho de Antonio Alves Páscôa e Carolina Maria, já falecidos.

02-11-1918: Maria Rosalina, de 24 anos, solteira, natural da Partida, filha de Joaquim Gonçalves e Maria Rita, moradores no mesmo povo.

02-11-1918: Ana Josefa, de 40 anos, natural e residente nos Pereiros, filha de João Antunes e Josefa Santos, naturais e moradores no mesmo povo.

02-11-1918; João Caetano, de 35 anos, casado com Ana Serra, cultivador, filho de Simão Caetano e Maria Ana, todos naturais do Casal da Serra.

03-11-1918: Theodora Marques, de 63 anos, solteira, costureira, filha de Joaquim Marques e Theodora dos Santos, naturais e moradores em São Vicente da Beira.

03-11-1918: Filippe Miguel, de 32 anos, filho de Antonio Lino Lopes e Maria José Nunes, todos naturais e moradores em São Vicente da Beira.

03-11-1918: João Frade, de 27 anos, serrador, casado com Antonia Maria, natural dos Pereiros e a viver na Partida, filho de João Frade e Ana Frada, moradores na Partida, de onde são naturais.

03-11-1918: Maria de Jesus, de 12 anos, natural do Casal da Serra, filha de Simão Caetano e Maria Joaquina, ambos moradores no mesmo povo.

03-11-1918: Antonio Martins, de 7 anos, filho de Antonio Martins e Lucia Craveiro, naturais e moradores no Casal do Baraçal, São Vicente da Beira.

04-11-1918: Francisco Pereira, de 65 anos, viúvo de Maria Joana, natural e morador em São Vicente da Beira.

04-11-1918: Joaquim da Silva Lobo, de 38 anos, jornaleiro, casado com Carolina Barata, filho de Antonio da Silva Lobo e Maria dos Santos, naturais e moradores no Casal da Fraga, São Vicente da Beira.

04-11-1918: João dos Reis Alves, de 27 anos, cultivador, natural e residente nos Pereiros, filho de Manuel Alves, jornaleiro e Francisca Maria, naturais e moradores no mesmo povo.

05-11-1918: Maria de Deus, de 7 meses, filha de José Báu e Maria do Carmo, naturais e moradores em São Vicente da Beira.

05-11-1918: Manuel Lourenço, de 4 anos, filho de João Lourenço e Izabel Maria, naturais e moradores no Mourelo.

05-11-1918: Antonio Alberto, de 19 meses, filho de Alberto Venancio e Angelina Fernandes, naturais e moradores no povo da Partida.

05-11-1918: Julia Fernandes, de 14 anos, filha de Joaquim Martins e Antonia Fernandes, todos naturais e moradores na Partida.

06-11-1918: Maria Augusta, de 50 anos, jornaleira, casada com José Simão, naturais e moradores em São Vicente da Beira.

06-11-1918: Bento Venancio, de 7 anso, filho de Antonio Maria Venancio e Ana Joaquina, todos naturais e moradores na Partida.

06-11-1918: Jose Leitão, de 5anos, filho de João Leitão e Maria do Rozário, todos naturais e moradores na Partida.

06-11-1918: Antonio Lourenço, de 44 anos, casado com Maria Felicia, natural da Partida, filho de João Lourenço e Maria Vitoria, também moradores na Partida.

07-11-1918: Filomena Nunes, de 30 anos, casada com Amandio Barroso, natural do Casal da Serra, filha de Joaquim Gama e Rosa Nunes, naturais e moradores no mesmo povo.

08-11-1918: João Castanheira, de 45 anos, caiador, casado com Antonia Pereira, filho de Francisco Castanheira e Ana de S. José, todos naturais e moradores em São Vicente da Beira.

08-11-1918: João Agostinho, de 19 anos, jornaleiro (sardinheiro, segundo o registo do Hospital), filho de André Agostinho e Maria da Conceição, naturais e moradores em São Vicente da Beira. Faleceu no Hospital.

08-11-1918: Maria dos Anjos, de 25 anos, filha de João Antunes Amendôa, natural da Partida e domiciliada no Ribeiro de Dom Bento, São Vicente da Beira.

08-11-1918: Maria Pedra, de 18 anos, natural da Torre e moradora nos Pereiros, filha de João Lucas e Joaquina Pedra, moradores nos Pereiros.

09-11-1918: Ana da Ascensão, de 3 anos, natural da Partida, filha de Alberto Venancio e Angelina de Jesus, moradores no mesmo povo.

09-11-1918: Maria Antonia, de 30 anos, solteira, natural de São Vicente da Beira, filha de Francisco Pereira e Maria Joana, já falecidos.

09-11-1918: João Duarte Romualdo, de 35 anos, proprietário, morador no Ribeiro de Dom Bento, São Vicente da Beira, filho de Joaquim Duarte Romualdo e Maria Martins desta vila.

09-11-1918: Francisco Lucas, de 4 anos, filho natural de Filomena Lucas, natural e moradora em São Vicente da Beira.

09-11-1918: Beatriz de Jesus, de 18 anos, natural dos Pereiros, filha de Antonio Martins e Ana Varanda, moradores no mesmo povo.

10-11-1918: Maria Jose, de 16 anos, filha de Jose Sarnada e Maria Rosa Santos, naturais e moradores no Casal da Serra.

10-11-1918: Josefa Maria, de 80 anos, viúva de Francisco Alves, natural e moradora na Partida.

11-11-1918: Manuel Martins Paiagua, de 50 anos, ganhão, casado com Rita Maria, moradores no Casal do Baraçal, São Vicente da Beira, filho de José Martins Paiagua e Emilia Maria.

11-11-1918: Alberto Venancio, de 33 anos, casado com Angelina de Jesus, morador na Partida, filho de Antonio Venancio e Maria Rozario, do mesmo povo.

11-11-1918: João Martins Leitão, de 39 anos, casado com Maria Rozaria, natural da Partida, filho de Manuel Leitão e Josefa Maria, do mesmo povo.

12-11-1918: Maria Izabel, de 9 anos, filha de José João e Izabel Maria, naturais e moradores na Paradanta.

13-11-1918: Maria José Patricio, de 15 anos, filha de Joaquim Matias e Ana Patricio, moradores em São Vicente da Beira.

13-11-1918: Manuel Francisco, de 4 anos, filho de Francisco Carrilho e Albina Maria, naturais e moradores na Partida.

13-11-1918: Manuel de Jesus, de 8 anos, filho de João Alves e Maria Inês, moradores nos Pereiros.

13-11-1918: Maria dos Anjos, de 4 anos, filha de Manuel Duarte Romualdo, proprietário, e Maria Balbina, moradores no Ribeiro de Dom Bento, São Vicente da Beira.

14-11-1918: Sebastião Amoroso, solteiro, de 80 anos, natural e morador no Casal da Serra, filho de Manuel Caetano e Maria Amorosa, naturais do mesmo povo.

14-11-1918: Maria do Nascimento, de 35 anos, casada com Joaquim Teodoro, moradores no Casal do Baraçal, São Vicente da Beira, filha de Manuel Marques e Ana Maria.

14-11-1918: Cesar Marques Neto, de 13 anos, seminarista, natural de São Vicente da Beira, filho de Antonio Marques, já falecido, e de Maria Neto Raposo.

15-11-1918: Francisco Frade, de 25 anos, solteiro, serrador, filho de Antonio Frade e Maria Freire, naturais e moradores na Partida.

15-11-1918: Ana da Ressurreição, de 2 anos, filha de Manuel da Cruz e Maria de S. João, naturais e moradores no Casal da Serra.

15-11-1918: Maria Celeste, de 18 anos, solteira, filha de Manuel Paulo e Maria Felicia, moradores no Tripeiro.

16-11-1918: Leopoldina Maria, de 60 anos, casada com Domingos Jacinto, filha de pais incógnitos, moradora na Paradanta.

16-11-1918: João Lourenço, de 7 anos, filho de Antonio Lourenço e Maria Felicia, moradores e naturais da Partida.

16-11-1918: Silvestre Serra, de 24 anos, casado, natural do Casal da Serra, filho de Luciano Serra e Ana Barrosa, moradores no dito casal.

16-11-1918: Maria Filomena, de 4 anos, filha de João Alves e Maria Inês, naturais e moradores nos Pereiros.

17-11-1918: Joaquim Varanda, de 64 anos, casado com Maria Balbina da Conceição e morador no Tripeiro, filho de Joaquim Varanda e Ana Moreira.

17-11-1918: Joaquim Martins, de 2 meses, filho de Augusto Martins e Maria Calmôa da Silva, moradores em S. Vicente da Beira.

17-11-1918: Antonio Filipe Salvado, de 23 anos, proprietário, solteiro, filho de João Filipe e Joaquina Maria, naturais e moradores na Paradanta.

18-11-1918: Maria de Jesus Hipólito, de 35 anos, casada com Joaquim Caio, funileiro, moradores em S. Vicente da Beira. Era filha de Joaquim Hipólito de Jesus e Maria Antonia, da mesma vila. Faleceu no Hospital.

18-11-1918: José Amandio, de 5 anos, filho de Amandio Barroso e Filomena Nunes, moradores no Casal da Serra.

19-11-1918: Justina Maria, de 14 anos, filha de José Bartolomeu, cultivador, e Maria Justina, moradores na Partida.

21-11-1918: Maria, de 10 meses, filha de José Lopes e Maria Justina, naturais e moradores na Partida.

22-11-1918: Manuel Bento, de 10 dias, filho de Antonio Maria Venancio e Ana Joaquina, moradores na Partida.

24-11-1918: Maria Carlota, de 6 meses, filha de José Simão e Ana Maria, moradores em S. Vicente da Beira.

26-11-1918: Bernardo Candeias, de 24 anos, jornaleiro, solteiro, filho de Manuel Candeias e Maria do patrocínio, moradores no Casal da Serra.

26-11-1918: Maria Matias, de 40 anos, filha de Domingos Leitão e Maria Matias, todos naturais e moradores na Partida.

26-11-1918: Antonio Rato, de 14 anos, filho de José Rato e Josefa Maria, naturais e moradores no Violeiro.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Pneumónica 2

Os óbitos de Outubro

A freguesia de São Vicente da Beira registou, entre 1917 e 1919, uma média mensal de 4,8 óbitos, sem contar com Outubro e Novembro de 1918, os meses da gripe pneumónica. Nestes, o número de mortos subiu para 20, em Outubro, e 66, em Novembro.
Esta maior mortalidade em Novembro contraria a tendência nacional, em que o mês mais mortífero foi o de Outubro.
Como os registos do Hospital só nos dão informação detalhada de 4 óbitos por gripe pneumónica, temos de utilizar os registos paroquiais, que não apontam a causa da morte.
Nem todos morreram por gripe pneumónica, nestes dois meses, mas foram a quase totalidade. A gripe pneumónica atacou sobretudo os jovens e adultos jovens, pelo que temos de excluir os idosos, possivelmente já imunizados por uma epidemia da mesma doença ocorrida em 1889. Os bebés talvez também tenham sido vitimados pela gripe pneumónica, embora nestes não haja tantas certezas, pois ainda era habitual morrerem muito e raramente eram levados ao hospital.
Apresentam-se, hoje, os óbitos de Outubro de 1918. Transcrevem-se os nomes tal como foram registados.

02-10-1918: Leopoldina, de 1 ano, filha de Manuel Joaquim e Maria Domingas, naturais e moradores no Tripeiro.

02-10-1918: Maria, de 16 meses, filha de Antonio Soares cruz e Maria Serra, jornaleiros, naturais e moradores no Casal da Serra.

04-10-1918: Gracinda, de 4 anos, filha de Antonio Afonso e Maria da Conceição, jornaleiros, naturais e moradores no Tripeiro.

12-10-1918: Antonio, de 1 ano, filho de João Caio e Serafina da Conceição, jornaleiros, naturais e moradores no Casal da Serra.

12-10-1918: João Nunes, de 45 anos, solteiro, mendigo/jornaleiro, natural do Mourelo. Faleceu no Hospital, de febre paratifóide.

16-10-1918: Maria dos Anjos da Silva Leal, de 35 anos, casada, doméstica, natural dos Pereiros, filha de Joaquim da Silva Leal e Isabel Maria, proprietários.

22-10-1918: Jose Duarte Soalheira, de 70 anos, viúvo de Antonia Clara, jornaleiro, natural e morador em S. Vicente da Beira, filho de Francisco Duarte e Luiza Bernarda.

22-10-1918: Albertina, de 20 meses, filha de Francisco João e Joaquina Alves, naturais e moradores na Paradanta.

24-10-1918: Jacinta Maria, de 34 anos, casada com Joaquim Bartolomeu, natural e moradora na Partida, filha de João Alexandre e Joaquina Maria.

26-10-1918: Adrião Mateus, 27 anos, solteiro, jornaleiro, natural e morador em S. Vicente da Beira, filho de José Mateus e Maria Luxindra, também de S. Vicente.

26-10-1918: Maria de Oliveira, de 52 dias, filha de Lopo Vitorino e Carolina de Oliveira, naturais e moradores em S. Vicente da Beira.

28-10-1918: Maria Luisa, de 3 anos, filha de Alexandre Caio e Antonia Carlota, naturais e moradores no Casal da Serra.

29-10-1918: Maria Amalia Roque, de 21 anos, solteira, doméstica. Filha de Manuel Roque e Ludovina Varanda, moradores em S. Vicente da Beira, na Rua Nicolau Veloso.

30-10-1918: Emilia do Rosario, de 23 anos, doméstica, filha de Francisco Afonso e Maria Sebastiana, naturais e moradores no Tripeiro.

30-10-1918: Maria do Rosario, de 23 anos, doméstica, filha de Antonio Fernandes (já falecido) e Maria Ludovina, moradora em S. Vicente da Beira.

30-10-1918: Antonio Caio, de 16 meses, filho de Alexandre Caio e Antonia Carlota, naturais e moradores no Casal da Serra.

31-10-1918: Ana Ramalho, de 29 anos, doméstica, filha de João Ramalho e Maria de São Pedro, todos naturais e moradores no Casal da Serra.

31-10-1918: Antonio Lourenço, de 28 anos, natural do Tripeiro, filho de José Lourenço e Maria Joaquina, moradores também no Tripeiro.

31-10-1918: Antonio Candeias, de 14 anos, pastor, filho de Manuel Luis Candeias e Maria da Conceição, naturais e moradores em S. Vicente da Beira. Faleceu de gripe pneumónica, no Hospital.

31-10-1918: João Marcelino, de 25 anos, filho de Joaquim Marcelino e Maria Ana, todos naturais e moradores no Tripeiro.

sábado, 14 de agosto de 2010

Casal da Serra


Mós do antigo lagar de azeite.


Casa dos Serviços Municipalizados de Castelo Branco, de apoio à exploração de águas, através da barragem e de minas. Foi projectada pelo arquitecto Salles Viana, também autor do projecto do edifício do Banco de Portugal, em Castelo Branco. Estas obras (barragem, minas e casa) datam da segunda metade da década de 30 e dos anos 40 do século passado.


Rota da Gardunha.


Casa com balcão e pereira, mas sem pessoas. No Cavaco, a meia altura entre o Casal e os cimos da Gardunha.


Botelha porqueira pendente para a rua.


Leirão de milho e leira de feijão rasteiro, nas margens da Ocresa, junto ao antigo lagar.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

2.º Nevão

Na noite de domingo para segunda-feira de Carnaval, a neve voltou à nossa Gardunha, desta vez com menor intensidade.
O Frederico Candeias enviou-me estas fotos do Casal da Serra e da Senhora da Orada.




sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Projecto NINHO



É um projecto de Miguel Carvalhinho, um músico desta nossa Beira, a residir no Ninho do Açor.
O CD já está à venda e o espectáculo é amanhã, 23 de Janeiro, às 21.30h, no Cine-Teatro Avenida, em Castelo Branco.
Os músicos que produziram o CD e vão estar em palco são da Escola Superior de Artes de Castelo Branco.

O Jornal do Fundão (07/01/2010) entrevistou Miguel Carvalhinho:

«Como a nossa linha de investigação prevê a comparação e a interacção entre os povos, perceber o que se passou em termos de música ao longo dos tempos, decidimos trabalhar em oito povoações da Gardunha, para tentar saber até que ponto existem músicas comuns ou não. Trabalhei assim em Alpedrinha, Soalheira, Castelo Novo, Casal da Serra, Louriçal do Campo, São Vicente da Beira, Souto da Casa e Alcongosta.»
E continua:
«Sabe-se que existiam músicas para determinados tipos de funções… cantava-se até para matar a fome. Por exemplo, músicas que tenham a ver com a Nossa Senhora da Serra ou das Necessidades ou da Orada, têm muito a ver com um cântico que se canta em todo o lado que é o Cântico da Aleluia, no sábado que antecede o domingo de Páscoa. Tinha acabado a penitência e o jejum.»

Os interessados em adquirir o CD (10 euros) devem fazê-lo através do endereço de correio electrónico: migcarva@gmail.com.

Ouçam o 1.º tema ("Viradinho ao Norte"), no Reconquista de hoje (22/01/2010) ou em www.myspace.com/ninhomusica

Ainda não conheço a versão da Senhora da Orada, das Necessidades ou da Serra que vem no CD, mas tem razão Miguel Carvalhinho.
Tentem cantar o poema que se segue, com a música de José Afonso, Oh! Que calma vai caindo, recolhida em Malpica do Tejo e publicada no album Contos Velhos, Rumos Novos, de 1969.
É a mesma música, cantada em duas povoações que distam entre si cerca de 60 quilómetros, com letras diferentes:

Ó que calma vai caindo
Ai, para quem anda no campo
Meu amor que por lá andas
Ai, enconsta-te o lírio branco

Abaixa-te ó serra alta
Ai, que eu quero ver a Lardosa
Quero ver o meu amor
Ai, que anda na folha da rosa

Abaixa-te o serra alta
Ai, que eu quero ver o Fundão
Quero ver o meu amor
Ai, que anda na ceifa do pão

ó Idanha, ó Idanha
Ó Idanha roubadora
Se tu nunca fosses Idanha
Ai, nunca o meu amor lá fora


Era um canto de trabalho, das mulheres que andavam na sacha do milho ou na ceifa do pão. Ainda se cantava nos campos da nossa terra, nos anos 70.
Recolha de Maria Isabel dos Santos Teodoro, trabalho manuscrito, Escola Secundária de Alcains, 1985

quarta-feira, 10 de junho de 2009

O Geoparque da Naturtejo


O Geoparque
A UNESCO, em conjunto com a União Internacional de Ciências Geológicas, criou, em 2004, a Rede Mundial de Geoparques.
Um geoparque é, por definição, um território de limites bem definidos, com uma área suficientemente grande para servir de apoio ao desenvolvimento sócio-económico local. Deve abranger um determinado número de sítios geológicos de relevo ou um mosaico de entidades geológicas de especial importância científica, raridade e beleza, que seja representativa de uma região e da sua história geológica, eventos e processos. Poderá possuir não só significado geológico, mas também ao nível da ecologia, arqueologia, história e cultura.


O Geoparque da Naturtejo
O Geoparque da Naturtejo abrange os concelhos de Idanha-a-Nova, C. Branco, Vila Velha de Ródão, Nisa, Proença-a-Nova e Oleiros.
A Naturtejo é a empresa intermunicipal que gere este geoparque.
Para saber mais, consultar www.naturtejo.com. À direita, clicar em Geossítios.

A Rota da Gardunha


Esta rota é uma das várias rotas do Geoparque da Naturtejo. Mais informação pode ser encontrada na página da Internet acima indicada, clicando, à direita, em Rotas Naturtejo.
Aquando da criação desta rota, em 2006, o Geoparque estudou a hipótese de pelo menos mais uma rota na freguesia de S. Vicente da Beira: pelo vale da Ribeirinha, desde a Vila à Senhora da Orada. Mas ocorrera então o grande incêndio e a rota ficou para mais tarde. Até hoje.



Algumas notas sobre a Rota da Gardunha:
Em vez de partir do Louriçal e subir a serra íngreme, pode começar-se no Casal da Serra e seguir pelo percurso P. R. 1. 1, em direcção à Casa da Floresta. Mas abandonar esse percurso a cerca de 800 metros do Casal e continuar pelo caminho à esquerda. Depois subir e descer novamente para o Casal (clicar no mapa acima, para ver melhor).
Junto à Casa da Floresta, há um parque de merendas. Mesmo ao lado, fica a mata dos cedros, para os esfomeados de natureza.




O Castelo Velho está fora da rota. É um castro da Idade do Bronze, mas com reutilizações posteriores. O caminho do percurso passa a cerca de 150 metros. Tem de se virar à esquerda e ir por entre matos e rochas, em direcção à crista do galo e continuar depois desta, até ao picoto. O limite das freguesias do Louriçal e de S. Vicente passa precisamente neste cume.


O Castelo Velho nunca foi estudado, embora tenha um potencial arqueológico enorme. No final do século XIX, cerca de 1890, alguém o visitou e levou alguns achados arqueológicos, que se encontram no Museu Francisco Tavares Proença Júnior de Castelo Branco. Mas os vários poderes nunca se interessaram pelo Castelo Velho, embora esteja ali, possivelmente, a génese do povoamento desta região.


A não perder: descer o percurso entre o Casal e a Torre. É curto, fácil e lindíssimo. Há poucas semanas, os representantes de uma cidade francesa, com a qual o Louriçal se geminou, fizeram esse percurso, apenas.






quarta-feira, 3 de junho de 2009

Rota da Gardunha


Foi na Primavera de 2007, menos de um ano após o grande incêndio que despiu a serra.
Participei na inauguração da Rota da Gardunha, a mais bonita rota do Geoparque, na opinião de um dos seus criadores, o geólogo Carlos Carvalho.
Ao chegar a casa, pus no papel o que me ia na alma. Aqui vai:



Louriçal do Campo, 9 horas, recinto de festas. Apresentação do Geoparque e da Rota da Gardunha e partida. Contornamos a Igreja, é de São Bento, bi ne di te, como informa a pedra com a cruz de Avis. O templo foi construído por Petrus, em 1559, segundo o Edgar Fernandes, com o latim mais fresco que o meu. Viramos a nordeste, pela Rua do Casalinho e seguimos, entre casas e hortas, com ramos floridos debruçados nos muros, a ver-nos passar.
Enfim, a serra, sempre a subir, a subir. Por entre pinheiros, tojos, carquejas, estevas e giestas. O corpo já aquece, mas a brisa arrefece à medida que trepamos.
Cruzamento para o Casal da Serra, primeiro reforço, de águas, maçãs e laranjas. E uma oportunidade a quem não quer trepar mais e segue pelo percurso alternativo.
Continuamos. Mais acima, o bosque dos cedros, onde apetece descansar e merendar. O caminho dá agora uma grande volta e na curva espera-nos a recompensa, um bonsai de carqueja, com tronco ressequico e retorcido, no alto da rocha. Seguimos até ao miradouro da Baldaia, com o anfiteatro de Castelo Novo ao fundo e em volta rochas e mais rochas, paisagem lunar que o último incêndio realçou. Mas é terrena, pois tojos teimosos exibem as suas flores e o chão já se cobre de florinhas cor-de-rosa.
A nossa direcção é o Castelo Velho e por isso viramos à esquerda. Já se avista a rocha em crista de galo, daqueles que antes se criavam para haver ovos galados para o choco. Mas ainda não vamos para lá. Continuamos em direcção ao cume da Gardunha e pasmamos com uma paisagem cravada de penedos. A alguns, o tempo cortou talhadas, a outros, esquartejou a superfície, em quadrícula arredondada. São as meninas dos olhos do geólogo Carlos Carvalho.
Cortamos a mato, para o Castelo Velho. A crista de galo, já mais perto, dá boas fotos aos caminheiros, que também levam consigo a rocha com cara em cabeça de râguebi.
Deixamos o percurso e viramos à esquerda, para o castro lusitano, em homenagem aos nossos antepassados de há três mil anos. É difícil encontrar um acesso até ao picoto. Atravessamos panos de muralha derramados pela encosta, que ninguém já reconstrói. No alto, o deslumbramento, o prémio para quem ousou. Apetece ficar, sentado na laje, a beber toda a paisagem que se estende a nossos pés. À esquerda, o cume de Monsanto espreita pela toalha de nevoeiro, em frente, dois altinhos, Cardosa e S. Martinho, ajudam-nos a localizar Castelo Branco. Em baixo, azul, no verde acastanhado, a água da Marateca.
Mas não podemos ficar. Voltamos ao caminho e descemos a serra quase a correr. Por baixo dos nossos pés, o sussurro de água. Nos anos 40 e 50, tiveram que esventrar a serra, para saciar Castelo Branco, que crescia. Até ao Casal da Serra, é como se deslizássemos dentro de uma concha, até abaixo, onde camponeses desbravaram a terra e fizeram um casal. Há uma vaca, que nos fixa com olhar calmo, mas afinal é um boi. À frente, um cavalo, na sua elegância vaidosa. Depois um sardão, daqueles grandes e verdes, que mal se vê, porque desapareceu no buraco, escaldado de maus tratos.
Enfim, a casa dos telhados em bico, que Salles Viana projectou, a pensar nos Alpes Suíços. Segundo reabastecimento. As sandes de carne assada acabaram-se, mas há um queijo fresco, grande como a roda de um carro. Atrasados, não temos tempo para ele e por isso ensarroamo-nos de fruta, prontos a saltar do colo em que a Gardunha envolve o Casal, desfiladeiro abaixo, com a Ocreza, até ao campo.
A natureza excedeu-se, aqui. Eu andava quase morto na cidade e o paraíso aqui tão perto! A Ocreza atira-se à maluca, serra abaixo, despenha-se, espraia-se em lagoas, torna aos precipícios e nós, embalados com a sua música, mas mais prudentes, vamos descendo, às vezes em três, outras em quatro, com correntes de ferro a ajudar nos sítios mais difíceis.
Entramos num moinho pelo telhado e saímos pela porta. O moleiro já cá não vem, nem há taleigas pelos cantos. Atravessamos a Ocreza para a outra margem. Cabrinhas brancas, em verde de fetos, casas e mais moinhos abandonados. Um burro espoja-se na terra e o dono diz-me que este casal é o dos Pinhões.
Mais casas e moinhos, é a Torre. Durante séculos, este vale da Torre, junto com o vale de Castelo Novo, com mais de cinquenta moinhos, mataram a fome de pão à comarca de Castelo Branco, segundo documentos antigos.
Voltamos a atravessar a Ocreza, agora em pontão de madeira, e ficamos por ali, entre o verde e a água irrequieta e pura, sem vontade de continuar. Mas são quase catorze horas. Seguimos por veredas, entre hortas. Agora chega, o corpo já pede trato e descanso. Depois da capela de S. Sebastião, rua fora e final. O almoço reconforta-nos.
E regressamos, mas ainda vamos espreitar o casarão que foi o colégio jesuíta de S. Fiel. Os portões estão fechados e, da sabedoria que aqui bebeu o nosso nobel Egas Moniz, nem sinais.
Pela estrada, que foi o caminho dos moleiros em direcção à estação de comboios da Lardosa, sinto-me como o Malhadinhas do Aquilino Ribeiro, que já com dois carros de anos em cima ainda gostava de saborear a vida.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

As Invasões Francesas 2

Continuamos, hoje, a dar notícia dos carreiros (ganhões que transportavam de mercadorias nos carros de bois) da freguesia de S. Vicente da Beira, que prestaram serviços aos exércitos português e inglês, na Guerra Peninsular (1807-1812), conhecida por Invasões Francesas.
Para conhecer melhor as condições em que se andava nos embargos, deve consultar-se a anterior publicação “As Invasões Francesas”.
Como se pode verificar, faltaram muitos homens à romaria a Nossa Senhora da Orada, em Maio de 1812, e muitas terão sido as preces por eles rezadas!


Casal da Serra
Em Maio e Junho de 1811, Joze Francisco andou com a sua junta de vacas a puxar o trem do exército inglês, entre Abrantes e Nisa, e a prestar serviços aos exércitos, em Abrantes, durante 33 dias.

Mourelo
Em Maio de 1812, a junta de Manoel Leitam transportou mercadorias entre Abrantes e Elvas, durante 31 dias.

No mesmo serviço, período e data, andou também a junta de Jose Antonio e Jose Alves.

Pelo mesmo período e na mesma data, andou a junta de Joam Franses e Joze Mateos, mas a transportar lenha para um forno, em Abrantes, onde se situava o Quartel-general das tropas inglesa e portuguesa.
Este Franses não tem relação com os franceses que invadiram Portugal, em 1807-1812, pois esta família já vivia, no Mourelo, pelo menos 50 anos antes.

Paradanta
Em Maio e Junho de 1812, por 33 dias, andou Manoel Mendes, criado de Manoel Leitam, com a junta de vacas, entre Abrantes e Nisa, levando o trem do Hospital e entre Abrantes e Elvas, carregando pólvora e bala.

Partida
Em Abril de 1812, Manoel Mateus transportou cevada, no carro de bois, entre Abrantes e Nisa, e trouxe arroz e bacalhau, de Vila Velha para Castelo Branco. Gastou 11 dias nestes serviços, entre Abrantes e Castelo Branco.

Em Maio e Junho de 1812, a junta de Manoel Martins e Manoel Alexandre puxou o trem do hospital, entre Abrantes e Nisa e levou pólvora e bala de Abrantes para Elvas. Foram 33 dias.

Os mesmos 33 dias e na mesma data, mas entre Abrantes e o Pego, andou o ganhão de Antonio Fernandes a acarretar rama, vinho, pão e carne.

Pereiros
Em Maio de 1822, por 28 dias, andou a junta de Manoel Andrade, entre Abrantes e Nisa, a puxar o trem do hospital, em Abrantes, a fazer carregos, e de Abrantes a Castelo de vide, a levar o trem do hospital.

Tripeiro
Em Maio e Junho de 1812, foram para Abrantes e lá ficaram a acarretar lenha, durante 32 dias, três juntas de vacas de Manoel Vas, Joaõ Ribeiro e Manoel Antunes Maximo.

Violeiro
Em Maio e Junho de 1812, partiram duas juntas de vacas para Abrantes e trabalharam durante 30 dias. A junta de Joze Pires fez duas viagens a Elvas, para levar bolacha. A junta de Joze Rodrigues mosso puxou o trem do hospital de Abrantes para Nisa e depois fez outro serviço de Nisa para Elvas.

No livro que serve de base a este trabalho, abaixo indicado, defendeu-se que as juntas em que foram indicados dois donos resultavam da junção de duas vacas de proprietários diferentes.
O autor foi vítima do individualismo agrário em que cresceu, em S. Vicente. Mais tarde, aprendeu o que era a torna, na freguesia das Sarzedas, e conheceu a prática comum da pastorícia, nas aldeias da freguesia da Sobreira Formosa, onde, cada dia, uma pessoa apascentava o gado de todos. Há dias, soube, por um aluno, que, numa aldeia da freguesia de Alvito da Beira, só existia uma junta de bois, propriedade de 6 famílias, ficando cada família com a junta de bois, por uma semana.
Era certamente esta a realidade nas povoações do antigo concelho de S. Vicente da Beira, em inícios do século XIX. Nos casos em que se indicam dois proprietários, é porque teriam a junta a meias, um foi com ela, mas os dois apresentaram a conta, para pagamento do serviço.


Para saber mais, consultar: "O Concelho de S. Vicente da Beira na Guerra Peninsular", de José Teodoro Prata, publicado pela Associação dos Amigos do Agrupamento de Escolas de São Vicente da Beira, em 2006.