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segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Colégio de São Fiel


Este cartaz foi digitalizado de fotocópia de um cartaz em PDF, por isso não se percebe o título, na imagem, 
mas lê-se no texto, em itálico.
A associação HiscultEduca é orientada pelo nosso conterrâneo Ernesto Candeias Martins, 
professor da ESE de Castelo Branco.
O livro contém estudos apresentados em dois colóquios sobre o Colégio de São Fiel,
promovidos pela HistcultEduca.

José Teodoro Prata

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

São Fiel, o que foi e o que é

Ainda vínhamos longe e já se avistava lá ao fundo, imponente e misterioso, a destoar do resto das habitações ali à roda. Ouvíamos dizer que era uma casa de correção para onde traziam vagabundos e malfeitores de todo o lado. A má fama aumentava-lhe o fascínio e o mistério, mas fazia-nos também tremer de medo, só de imaginar que algum poderia fugir e aparecer-nos à frente, como diz que às vezes acontecia.

Isto passava-se era eu ainda criança e, provavelmente, muito destes medos e fascínios eram fruto da idade e da ignorância, propícia a grandes confusões e fantasias. Mas nem sempre foi assim o Colégio de São Fiel, como ainda hoje lhe ouvimos chamar muitas vezes.

Naquele edifício, construído em meados do século XIX, começou por funcionar um orfanato que se destinava a acolher e educar crianças órfãs, pobres e abandonadas. Era também frequentado por crianças e jovens pobres das redondezas. 

A partir de 1873 passou a funcionar ali o Colégio de São Fiel que, na altura, era um dos estabelecimentos de ensino particular mais prestigiados do país. Estava a cargo da Companhia de Jesus. Os alunos eram os filhos das famílias mais conceituadas e abastadas da região, mas vinham jovens de todo o país para aqui fazerem os seus estudos secundários. Lá estudaram personalidades que se destacaram nas mais variadas áreas da vida do país: Afonso Costa, António Egas Moniz, Robles Monteiro, José Ramos Preto e muitos outros.

Com a implantação da República o Colégio de São Fiel foi extinto e, a partir de 1919, passou a funcionar como reformatório. Destinava-se a acolher e reeducar jovens delinquentes e marginais colocados pelo Tribunal de Menores. Para além da escolarização, os alunos podiam também aprender um ofício que lhes permitisse uma melhor integração social e independência financeira quando deixassem o reformatório.


Desde há mais ou menos duas décadas que o edifício deixou de ter qualquer atividade e, a partir daí, é notória uma degradação acelerada. Parece que todo aquele complexo é pertença do Estado; só isso justifica o estado a que aquilo chegou…







M. L. Ferreira

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

A batalha da Oles

O cavaleiro vem pela estrada que da portela da serra desce para o território muçulmano. O cavalo marcha às cautelas, no piso íngreme e pedregoso. Ao longe, deles sobressai nos matos uma mancha branca com o risco vermelho das cruzes templárias.
O ribeirito que segue junta-se a outro e é ali a capela da Orada, à esquerda. Prende o cavalo num amieiro e dirige-se para a capela, misturando-se com os camponeses que vêm à missa do domingo. O edifício de pedra enegrecida sobressai no manto verde do adro, com grandes amieiros encostados, do lado do ribeiro. É um templo baixo e de aspeto rústico, quase tosco.
O cavaleiro transpõe a porta e ajoelha em frente ao altar. Depois ladeia-o, à procura da sacristia. Era atrás do altar e o ermitão já vinha a sair quando o cavaleiro enche a porta com a sua figura. Saúdam-se com reverência e conversam por alguns minutos. Depois, o presbítero dirige-se ao altar e o cavaleiro junta-se ao povo cristão.
Homens e mulheres lançam-lhe olhares curiosos e, no regresso da comunhão, encaram-no de frente: é encorpado, rosto escondido nas barbas arruivadas e os cabelos curtos e claros, à mostra pelo capacete que o cavaleiro segura na mão.
No final da missa, frei Gonçalo diz ao que vem o cavaleiro da cruz. É companheiro de Dom Afonso Henriques, o rei cristão que desde Coimbra vem empurrando os governantes do Islão para sul, dilatando a Cristandade e libertando os fiéis do único Deus verdadeiro.
O cavaleiro avança para o altar, flete o joelho e faz o sinal da cruz. Depois coloca-se ao lado do presbítero e fala. Chegara a hora de libertar as gentes da diocese egitaniense do longo cativeiro muçulmano. Os cavaleiros cristãos já aguardavam na encosta norte da Ocaia, mas chegavam notícias de reforços para o exército muçulmano, com cavaleiros vindos de além Tejo.
Estas palavras trazem inquietação aos camponeses. Vasco Anes tinha uma filha casada com um mouro cultivador dumas terras no monte do Mourelo e Rodrigo Peres era amigo do comerciante mouro que lhe trazia as ferramentas para a lavoura e ainda no ano passado lhe vendera um belo garrano. O cavaleiro termina agora. Pede-lhes segredo e vigia aos movimentos do exército inimigo. E ajuda em homens de armas, quando chegasse a hora do confronto militar.
Frei Gonçalo faz sinal a dois homens. Depois desenha no ar o sinal da cruz e despede-se do seu rebanho. “Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe!” Homens e mulheres saem para o adro de rostos fechados. Contornam a capela e nas traseiras aguardam a sua vez, junto à fonte. Bebem o suficiente para a caminhada e purificam os rostos. Depois, cada um toma a direção do seu casal, de coração apertado, sem o que dizer uns aos outros.
Na sacristia, o presbítero apresenta ao templário os dois camponeses, Fernão Mendo e Antão Fernandes, pai e filho, dos mais tementes a Deus e que odeiam os infiéis, com quem não tinham relações de sangue ou especiais amizades. Os quatro fazem as combinações que ali os retinham e depois cada um vai à sua vida.
A semana foi de grandes canseiras para Antão, Fernão e companheiros que foram juntando à causa dos conquistadores cristãos. Atalaias pelos altos, subidas e descidas ao castelo, no alto do penhasco, correrias pela noite dentro, a recrutar homens de armas, pelos casais espalhados pela serra, nos montes da charneca e pelo campo. No fim da semana, encontram-se com o cavaleiro templário, para lhe contar dos movimentos dos guerreiros muçulmanos, em deambulações pelo extenso campo que se estende aos pés da serra. E fazem os acertos para o embate com os infiéis.
No dia seguinte, o exército cristão cruza a serra e pernoita no vale da ribeira, fora das vistas largas do campo. Aos primeiros sinais do alvorecer, marcha para sul, seguindo o curso de água. Depois, os cavaleiros e peões encaram os primeiros raios de sol e continuam a marcha, sempre para nascente.
Já avançam em campo aberto, seguindo caminhos ondulados por entre matos e vinhedos. Soa um longo toque de chifre de boi, vindo do castelo, sinal combinado de avistamento do inimigo. Os olhos perscrutam o campo sul e em breve se vislumbra uma mancha cintilante em movimento.
O exército cristão chega bem à vista do castelo da serra e pára. É primavera e as águas do ribeiro dos enxidros saltitam nos últimos declives da encosta. Os guerreiros ajoelham nas suas margens e bebem de borco, com o rosto mergulhado na água cristalina. Depois as montadas. Camponeses saem do meio da mata de carvalhos, com cestos de pão para os guerreiros. As bestas pastam nas ervas verdes. Aguarda-se.
Dois toques ecoam pela serra. Os infiéis aproximam-se. Os cristãos aprontam-se. Uma espera silenciosa, longa, enervante. “Estes moçárabes são de confiança?” O templário garante que sim. Finalmente soa o terceiro e último aviso, três longos toques. O comandante levanta o braço e todos se aquietam, mãos crispadas nos cabos das lanças e nos punhos das espadas. Distingue-se já nitidamente o tropel dos cavaleiros que se aproximam. São muitos, mais do que os desejados.
Os dois corpos penetram-se, gritos de raiva e dor. Os cavaleiros cristãos são empurrados, encosta acima, já se luta na orla da mata. O templário procura com o olhar os reforços moçárabes. Soaram os quatro toques curtos a eles destinados, mas ninguém sai da mata. Do castelo, Antão segue com desespero o desenrolar da contenda. Tardam os homens que o pai devia comandar. Grita aos dois companheiros de vigia, montam os jumentos e atiram-se serra abaixo. Dentro da mata, Fernão tenta convencer os companheiros do valor da luta, mas eles olham o formigueiro de muçulmanos e consideram que esta luta desigual não é a que lhes fora prometida. E pensam no sossego dos seus casais, nos familiares e amigos que têm no outro lado.
Frei Gonçalo aparece do nada e fala-lhes da paixão de Cristo, do prémio do céu e do castigo dos infernos, razões mais fortes do que os efémeros prazeres da curta vida terrena. Todos empunham as lanças e correm, atrás de Fernão Mendo, encosta abaixo. Há muçulmanos para todos, por todos os lados. Agora, é matar ou morrer. Também combatem pela vida dos que deixaram em casa. A luta alonga-se, no tempo e no campo da Oles. Já no pino do sol, os infiéis começam a recuar frente aos cristãos. Depois gritam-se ordens de retirada e os guerreiros de Alá fogem do campo de batalha, perseguidos por quem ainda tem forças.
Os homens deixam-se cair exaustos. Procuram-se amigos e conhecidos, choram-se os mortos, com os rostos fechados. Juntam-se os guerreiros e aclamam o seu rei. Os moçárabes, com Antão à frente, chegam-se aos vivas. O templário apresenta ao rei os camponeses destemidos que tanto ajudaram na vitória.
“O que mais desejais que o vosso rei vos dê, em sinal de agradecimento pela vossa valorosa ajuda?”
Antão Mendo olha os companheiros e adianta-se. Ajoelha em terra e pede:
“Saiba Sua Majestade que precisamos de uma igreja paroquial, pois a nossa Orada é diminuta e muito dentro da serra, longe dos casais onde moramos.”
“Que seja como pedis. Mando que se erga uma igreja no local onde pernoitámos esta noite. Dou-vos esta bolsa de moedas para ajudar a erguer o templo. Quando estiver construído, ide à minha corte e dar-vos-ei um orago, juntamente com privilégios e isenções.”
“Que Deus abençoe Vossa Majestade!” Agradece um religioso, aproximando-se.
“É frei Gonçalo, o presbítero da Orada que me ajudou a organizar o apoio destes moçárabes.” Informa o templário.
“Louvo o vosso contributo para esta obra de Deus que é a expansão do reino de Portugal. Sereis o cura da nova igreja.”
E acrescenta, para todos:
“Dou-vos uma igreja, com a condição de irdes todos os anos em romagem ao castelo da serra, para que não se perca da memória dos homens a vitória que hoje aqui alcançámos, orientada do alto daquele penhasco por um punhado de homens valentes.”
Os camponeses carregam os corpos dos que tombaram e regressam aos seus lares, satisfeitos da vitória, mas temerosos que a contenda alastre para as suas famílias de sangues tão misturados.


Fundamentos:
Afonso Henriques – A tradição diz que ele esteve na batalha, mas esta poderá ter sido travada apenas pelos Templários. Cerca de 1160, o rei doa aos Templários as terras entre o Zêzere e o Tejo (a Covilhã era do rei), muitas ainda muçulmanas. São eles que conquistam, depois, Idanha-a-Velha e Monsanto. Será desses anos a Batalha da Oles. Mas, por outro lado, S. Vicente nunca pertenceu aos Templários, mas sim ao território real da Covilhã, pelo que o recontro da Oles pode ser anterior. Em 1169, dá-se o desastre de Badajoz e o rei fica inválido para a luta, encarregando dessa tarefa os filhos Fernando Afonso e D. Sancho (I).

Batalha da Oles – Esta batalha está descrita nas Memórias Paroquiais de S. Vicente da Beira. O vigário da época escreveu que os naturais observavam a batalha do alto do castelo e que os cristãos estavam a perder, porque os muçulmanos eram copiosos (muitos). Então desceram do castelo e ajudaram o exército de D. Afonso Henriques, saindo vitoriosos. Por isso, D. Afonso Henriques mandou fazer a romagem anual ao Castelo Velho.

Castelo Velho – Embora pouco estudada, esta fortificação da Idade do Bronze (de há cerca de 3 000 anos) tem sinais de reutilização na época da Reconquista.

Diocese egitaniense (de Egitânia, Idanha-a-Velha) – Os muçulmanos eram tolerantes em matéria religiosa, pelo que os cristãos tinham liberdade de culto, mediante o pagamento de um imposto. Aquando da Reconquista, a Egitânia ainda tinha bispo, logo transferido para a Guarda. Ainda hoje a diocese da Guarda se designa por diocese egitaniense. A paróquia da Orada pertenceria à diocese da Egitânia.

Estrada – Tem origem romana a estrada que atravessa a Gardunha, de S. Vicente para o Fundão. Na Fonte da Portela e Vinhas, o piso é romano, mas acima da Orada é já medieval, do tempo dos mouros, como diz a tradição.

Fonte da Orada – A antiga fonte situava-se nas traseiras da capela. Só em meados do século XX, nas obras realizadas pelo Pe. Tomás, essa fonte foi substituída pela bica na outra margem do ribeiro. É costume as pessoas molharem a cara na água da fonte, por a considerarem santa. Na realidade, a água terá algumas qualidades medicinais, nomeadamente para as infeções dos olhos.

Mata (das Vinhas) – A toponímia medieval e a documentação do século XVIII referem a Mata das Vinhas. Existiria uma mata, certamente de carvalhos, junto à Oles, pois a ser de sobreiros ou castanheiros chamar-se-ia sobreiral (Sobreiral/Sobral) ou souto. No século XVIII (e ainda hoje), existiam muitos carvalhos acima de Alpedrinha. Os pinheiros só se impuseram na paisagem nos finais do século XIX e inícios do séxulo XX.

Moçárabes – Era o nome dado aos cristãos que residiam no sul muçulmano, o Al-Andalus. Foram eles que conservaram o culto a São Vicente e por isso se pensa que todas as povoações com topónimos de S. Vicente são antigas comunidades moçárabes.

Mourelo – É possível que o termo venha de mouros.

Ocaia – É outra denominação da nossa serra, anterior a Gardunha, esta da época muçulmana. O primeiro foral de S. Vicente da Beira (1195) designa a serra por Ocaia.

Oles – Zona no sopé sul da Gardunha, junto ao Louriçal do Campo, no caminho para S. Vicente da Beira.

Orada – Frei Agostinho de Santa Maria visitou a ermida e escreveu, no Santuário Mariano, em 1711, que se pensava ter sido esta capela a igreja paroquial dos cristãos da zona, no tempo dos godos. Se o foi no tempo dos godos, continuou a sê-lo, depois com os muçulmanos, que se seguiram aos visigodos.

Ribeiro do Enxidro - Existe, mas proximidades da Oles, um ribeiro com este nome.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Um caldo para os vadios

Eles passavam quase todos os anos, sempre na altura em que o tempo aquecia, talvez saudosos dos cheiros a maresia que tem a vida à beira-mar.
Vinham apressados, ora a correr, ora em passos largos, continuamente a virar a cabeça para trás. Eram invariavelmente dois ou três, não mais.
Avistávamo-los, quando atravessavam o pequeno planalto entre o vale do Caldeira e o vale das Lajes, pelo caminho que passava acima do Chão da Bica. Desciam até ao ribeiro e bebiam de borco nas bordas da presa, a matar a sede de tantas correrias. Depois deixávamos de os ver, pois a seguir tinham a barreira até à Tapada, do nosso lado, e ali o caminho era muito subido.
Chegavam e davam-nos a salvação. As nossas mães perguntavam-lhes quem eram e eles respondiam que vinham de São Fiel e iam para o Porto, a terra deles, fugidos dos maus tratos. E pediam-nos comida. A minha mãe e a minha madrinha conversavam entre si e dava um prato de caldo a cada um quem tivesse sopa feita.
Comiam e partiam, sempre como quem quer fugir de um lugar e tem pressa de chegar a outro. Antes, perguntavam-nos qual o melhor caminho. Nós não sabíamos onde era o Porto e eles apontavam para o horizonte, um pouco acima do local onde se punha o sol. Então aconselhávamo-los a descerem pelo caminho mais largo, até ao portão de uma quinta, com um cedro grande à esquerda. Aí, deviam seguir pela direita, sempre contornando o muro alto. Quando chegassem às casas, junto a uma capela, tomavam o caminho para a ribeira. Mas atenção, porque no final do muro alto estava o posto da Guarda!
Eles partiam apreensivos e nós seguíamo-los com o olhar, até se sumirem na curva do caminho, desejosos de que não fossem apanhados pela Guarda.


Nota:
Passados estes anos, o que me fica é esta solidariedade entre os menos afortunados. A tradição popular conta-nos histórias do Zé do Telhado e do Cireneu, mas eu vivi essa generosidade no concreto: quem pouco tinha matava a fome a alguém que passava à sua porta, mesmo sabendo que vinha fugido das autoridades e provavelmente já cometera crimes. E ainda ficávamos com o coração nas mãos, com medo que a GNR os apanhasse!


Colégio de São Fiel, um excelente colégio jesuíta, na viragem do século XIX para o século XX, e depois Centro de Reinserção Social. Actualmente, está ao abandono. Fotografia do site: http://www.google.pt/imgres?imgurl=

domingo, 15 de novembro de 2009

As Chuvadas de Novembro

Não participei no passeio pedestre pela encosta da Gardunha, organizado pelos nossos Bombeiros. A noite foi chuvosa e o clima matinal estava instável. Fiquei-me por Castelo Branco.
Mas um bom grupo de gente corajosa meteu pés ao caminho. Arriscaram e petiscaram. O mundo é dos afoitos, como diz o povo. Fica para a próxima.


As chuvas de Novembro são incertas. Tanto se podem ausentar durante anos, fazendo o Verão de S. Martinho, como chegar de mansinho ou caírem torrenciais e arrasarem tudo.
As deste ano são mansas (estão a ficar bravas, no centro e norte do país), mas as chuvadas mais violentas costumam cair neste período de transição entre o fim do tempo quente e a chegada do frio invernal.
A memória dos homens dá-nos alguns testemunhos de temporais de Outono.
A referência constante a Alcains deve-se ao facto de se situar num vale, nas margens da ribeira da Líria. Em S. Vicente da Beira, as ocorrências terão sido muito semelhantes às das outras povoações da região.

Novembro de 1807
O Exército Francês atravessou a França em direcção a Portugal, sempre debaixo de uma chuva impiedosa. Os soldados franceses chegaram a Castelo Branco, no anoitecer do dia 20, exaustos, encharcados e famintos.
Na noite de 21, havia 16 mil homens em Castelo Branco e arredores. Acenderam uma fogueira na igreja do castelo, para secarem a roupa e se aquecerem. O templo acabou por pegar fogo. Pelos campos, onde pernoitaram milhares de soldados, cortaram-se as oliveiras para alimentar fogueiras.
A passagem para Lisboa era difícil, neste tempo de poucas pontes e frágeis barcas. Choveu torrencialmente durante semanas e os rios e ribeiras iam de enxurrada. Muitos soldados morreram na travessia e outros andavam às voltas, na esperança de passagens mais favoráveis.
No dia 1 de Dezembro, Castelo Branco, uma cidade de cerca de 1000 habitantes, tinha alojados cerca de 6000 franceses. Todos os dias chegavam novos regimentos, mas a chuva não lhes permitia a partida. As cavalarias não tinham como atravessar rios e ribeiras.

Novembro de 1852
As ribeiros de Alcains galgaram os seus leitos, como não havia memória. A água subiu aos 4 metros, na parte baixa da povoação.
A ribeira da Ocreza subiu 12 palmos acima da maior elevação conhecida até à data. A torrente levou todos os moinhos e pontes. Houve mortos e desaparecidos.

Novembro de 1908
No dia 8, caiu uma tromba de água sobre Alcains. A água submergiu a parte baixa da povoação e muitas pessoas foram salvas pelos telhados, por pontes que se fizeram com as escadas de colher a azeitona.
A ribeira da Líria tomou tamanho caudal que destruiu a ponte da estrada para o Salgueiro.
A linha do caminho de ferro ficou interrompida próximo da estação de Alcains.
Não escapou nenhum dos moinhos da ribeira da Ocreza.
Nas Benquerenças, o temporal levou um moleiro, apanhado desprevenido no seu moinho.

Novembro de 1937
Pelos meados do mês, caiu uma tromba de água, sobre a parte este da Gardunha, levando a destruição às gentes das duas vertentes da serra. A maior descarga foi sobre o Sobral do Campo e depois Louriçal do Campo, Soalheira, Alpedrinha, Donas, Capinha…
Parte da população de Alcains esteve em sério risco. A água levou uma ponte da Ocreza e três da Líria. Desaparecerem moinhos e azenhas.
A Câmara de Castelo Branco teve de conceder subsídios para reparação dos caminhos nos Escalos de Baixo, Sobral do Campo e Louriçal do Campo.
O melhor testemunho deste temporal é uma carta de Armando Prata Lizardo, morador no Louriçal do Campo, publicada no jornal “A Beira Baixa”, de 27 de Novembro. Transcrevem-se alguns excertos.

«…foram arrastadas pela torrente impetuosa as azenhas, algumas delas pela base, ficando sem recursos algumas pobres famílias (…). Prédios rústicos, que ladeavam a ribeira, ficaram sem a camada de cultura, que as águas arrastaram, deixando a descoberto a rocha. Outros ficaram cobertos de uma espessa camada de areia, tornando impossível a cultura durante muito tempo (…).
A ponte de comunicação com a povoação da Torre ficou quasi por completo destruída (…), No mesmo estado ficou a ponte que faz a ligação de Louriçal com S. Vicente da Beira.
(…) Estragos iguais se deram na freguesia de S. Vicente da Beira, onde muita e pobre gente ficou reduzida a uma situação aflitiva.»


Em S. Vicente, os potes grandes do lagar que foi de José Mesquita, recentemente falecido, foram arrastados ribeira abaixo e ficaram presos nos amieiros junto à ponte do Ramalhoso, no Sobral, segundo me contou o centenário Tio Joaquim Teodoro.
A minha mãe, Maria da Luz Prata, nascida em 1927, lembra-se bem de as pessoas andarem a acarretar terra em cestos, para refazerem os terrenos agrícolas das margens da ribeira.

sábado, 11 de julho de 2009

Estrada da Oles


Fui ver e sempre é verdade. A estrada da Oles está alcatroada, com risquinha ao lado e tudo!
Estamos em 2009, mas...bem bom.
Penso que, depois da ligação entre o Mourelo e o Tripeiro, no ano passado, com esta obra entre S. Vicente e o Louriçal fica concluída a rede de estradas que serve a nossa freguesia.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

O Geoparque da Naturtejo


O Geoparque
A UNESCO, em conjunto com a União Internacional de Ciências Geológicas, criou, em 2004, a Rede Mundial de Geoparques.
Um geoparque é, por definição, um território de limites bem definidos, com uma área suficientemente grande para servir de apoio ao desenvolvimento sócio-económico local. Deve abranger um determinado número de sítios geológicos de relevo ou um mosaico de entidades geológicas de especial importância científica, raridade e beleza, que seja representativa de uma região e da sua história geológica, eventos e processos. Poderá possuir não só significado geológico, mas também ao nível da ecologia, arqueologia, história e cultura.


O Geoparque da Naturtejo
O Geoparque da Naturtejo abrange os concelhos de Idanha-a-Nova, C. Branco, Vila Velha de Ródão, Nisa, Proença-a-Nova e Oleiros.
A Naturtejo é a empresa intermunicipal que gere este geoparque.
Para saber mais, consultar www.naturtejo.com. À direita, clicar em Geossítios.

A Rota da Gardunha


Esta rota é uma das várias rotas do Geoparque da Naturtejo. Mais informação pode ser encontrada na página da Internet acima indicada, clicando, à direita, em Rotas Naturtejo.
Aquando da criação desta rota, em 2006, o Geoparque estudou a hipótese de pelo menos mais uma rota na freguesia de S. Vicente da Beira: pelo vale da Ribeirinha, desde a Vila à Senhora da Orada. Mas ocorrera então o grande incêndio e a rota ficou para mais tarde. Até hoje.



Algumas notas sobre a Rota da Gardunha:
Em vez de partir do Louriçal e subir a serra íngreme, pode começar-se no Casal da Serra e seguir pelo percurso P. R. 1. 1, em direcção à Casa da Floresta. Mas abandonar esse percurso a cerca de 800 metros do Casal e continuar pelo caminho à esquerda. Depois subir e descer novamente para o Casal (clicar no mapa acima, para ver melhor).
Junto à Casa da Floresta, há um parque de merendas. Mesmo ao lado, fica a mata dos cedros, para os esfomeados de natureza.




O Castelo Velho está fora da rota. É um castro da Idade do Bronze, mas com reutilizações posteriores. O caminho do percurso passa a cerca de 150 metros. Tem de se virar à esquerda e ir por entre matos e rochas, em direcção à crista do galo e continuar depois desta, até ao picoto. O limite das freguesias do Louriçal e de S. Vicente passa precisamente neste cume.


O Castelo Velho nunca foi estudado, embora tenha um potencial arqueológico enorme. No final do século XIX, cerca de 1890, alguém o visitou e levou alguns achados arqueológicos, que se encontram no Museu Francisco Tavares Proença Júnior de Castelo Branco. Mas os vários poderes nunca se interessaram pelo Castelo Velho, embora esteja ali, possivelmente, a génese do povoamento desta região.


A não perder: descer o percurso entre o Casal e a Torre. É curto, fácil e lindíssimo. Há poucas semanas, os representantes de uma cidade francesa, com a qual o Louriçal se geminou, fizeram esse percurso, apenas.