terça-feira, 25 de abril de 2017

25 de ABRIL

No verão de 1974, fui com uns amigos acampar para a serra da Estrela, no final do ano letivo. Nesse tempo fazia-se campismo na Nave de Santo António. Até lá existia uma capela onde se dizia missa nos domingos. Mas além de uns chuveiros e umas torneiras, não havia mais nada. Era campismo selvagem, como agora se diz, mas a Nave ficava cheia de gente, talvez milhares.
À noite, fomos surpreendidos por magotes de gente que percorria o acampamento a cantar esta canção. De facto, ela resumia tantos anos de luta e de sacrifícios dos operários da Cova da Beira! 



Não era esta que eu procurava, mas achei-a e não resisti, é um portento!
Poema e voz de Manuel da Fonseca, cantada por Vitorino.
Atentem bem na letra.
Um hino aos desprezados de todos os tempos!



José Teodoro Prata

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Moinho de mão

Penso que no passado lhe chamávamos atafona.
O grão do cereal colocava-se no buraco do centro e os orifícios laterias serviam para encaixar algo em que se pegava para mover, à mão, a mó de cima, chamada galga. A farinha saía pelo buraco lateral, à direita.
O sr. Zé Ar (José Duarte?) contou-me um dia que havia uma atafona (chamou-lhe zangarra) na casa onde morava, na Rua da Costa. Já lá estava quando ele comprou a casa.
No século XVIII, existiam duas atafonas em Tinalhas, uma na Rua do Cabo e outra na Praça. Talvez fossem maiores e por isso movidas por animais.
Esta encontrei-a, no Restaurante O Lagar, no Estreito da Câmara de Lobos, Madeira. Mas nas nossas terras haveria muitas, utilizadas ainda nos inícios do século XX.

José Teodoro Prata

sábado, 22 de abril de 2017

Alcunhas 2

Já lai vai mais de um ano que o Zé Barroso publicou aqui no blogue um artigo com as alcunhas usadas na nossa terra. A lista foi sendo completada por vários colaboradores e, no final, já tinha mais de trezentas.
Uma das perguntas que se colocou na altura foi o que fazer a seguir. Parece que não se chegou a nenhum consenso, mas penso que era interessante escrever-se uma pequena história sobre a origem de cada uma. Algumas são tão óbvias que pouco há a dizer; outras perderam-se no tempo e já ninguém se lembrará da sua origem; mas muitas terão por trás episódios interessantes e engraçados.  
Acho que vale a pena tentarmos. Para já, aqui fica a minha colaboração, incluindo também algumas alcunhas da Partida que acho deliciosas:

O Mil Homens
Quando andava na escola todos me chamavam a Mil Homens. Eu ficava muito envergonhada porque achava que era um nome muito feio.
Só mais tarde é que fiquei a saber a origem daquela alcunha e a partir daí senti sempre um orgulho muito grande nela: O meu avô andou na Guerra e quando regressou foi recebido como um herói; mas vinha tão traumatizado que não conseguia falar noutra coisa que não fosse naquilo que por lá passou. Todas as conversas iam dar ao mesmo: as muitas tropas do seu batalhão; os muitos homens nas trincheiras; os muitos mortos pelo chão. Referia-se sempre a eles utilizando a expressão «Mais de mil homens!» um número que ele, analfabeto, achava ser o maior para definir todas as atrocidades que por lá viu e dificuldades que passou. Por causa disto puseram-lhe o Mil Homens e, a partir daí, toda a família ficou conhecida por essa alcunha, até hoje.

O Quinta Casa
Antigamente também não havia grandes farturas na Partida, mas quase toda a gente tinha um bocadinho de terra para tratar uma horta. E havia por cá até algumas casas ricas, com bons lameiros, olivais, terras de pasto e de pinhal que chegavam para eles, para vender e davam trabalho a muita gente.
Um dia o Ti Manuel Lopes pôs-se a deitar contas ao que cada um tinha e, lá para com os seus botões, ia sentenciando qual era a casa mais rica, e a que vinha a seguir, e por aí fora até chegar à dele que, pelas suas contas, estava em quinto lugar. Começou então a gabar-se, para quem o queria ouvir, que a quinta casa maior da Partida era a dele.
A partir daí todos começaram a chamar-lhe o Quinta Casa.

O Conde Caniço
Também tinha muito de seu, o Ti Domingos Nunes. Entre as várias propriedades que possuía, também era dele o Caniço, uma das melhores terras da Partida. Tinha tanto orgulho naquela propriedade que não se calava: «O meu Caniço é a melhor terra que aí há. Nem o conde!».
Tanta vez repetiu aquilo que começaram a chamar-lhe o Conde Caniço.

O Mata Nosso Senhor
Morava no Casal, o João Teodoro. Um dia deu-lhe a preguiça e atrasou-se para vir para a escola. Com medo de apanhar alguma reguada veio o caminho todo a correr até à Vila. Quando chegou à Praça e viu que já toda a gente tinha entrado, correu tanto que até parecia que vinham atrás dele.
Nesse dia o Ti António Mosca andava a podar as olaias e quando o viu naquela pressa, para brincar com ele, desatou a berrar lá de cima da escada: «Agarrem-no! Agarrem-no que foi ele que matou o Nosso Senhor!».
O cachopinho desatou a correr ainda mais e a partir desse dia toda a gente começou a chamar-lhe o Mata Nosso Senhor.

O Nita
Morreu cedo, a mulher do Ti Francisco Candeias, e quem lhe valeu para o ajudar a criar os três filhos, todos ainda crianças, foi a Ti Rita do Manha, tia dos meninos por parte da mãe.
O João, que era o do meio, não saía da casa da tia que o tratava como a um filho e ele também se afeiçoou muito a ela. Mas, como era ainda pequeno e tinha dificuldade em falar, não conseguia dizer o nome dela e, em vez de Rita, chamava-lhe Nita. Foi daí que começaram a chamar-lhe o João Nita.

O Caneco
Era ainda criança e a mãe já o mandava a levar o jantar ao pai quando andava por dia. Uma vez passou por um homem que viu que ele ia todo derreado com a cesta e disse-lhe assim:
- Ó cachopo, olha que tu endireita-me bem a cesta, que ainda entornas o jantar ao teu pai!
- Não entorno não senhor, que hoje até cá levo um caneco de vinho!
Foi quanto bastou para começarem a chamar-lhe o Emílio Caneco…

M. L. Ferreira

quarta-feira, 19 de abril de 2017

O guião do amor

MORTE MATRIS

Disseram-me que faleceste,
Mãe!
Venho pela estrada, veloz,
Anseio fútil.
Coração a saltar do peito,
Com uma súplica nos lábios,
Prece inútil!
Já estás, inerte, deitada no teu leito
E não proferes qualquer palavra,
Quando tanto precisava,
Nesta minha angustiada hora!
Ao despedir-me de ti, da última vez,
Ainda te vi o sorriso e a luz branca do olhar!
E, decerto, ainda me iludo agora,
Pois pareces tão calma e serena!
Porém, como o rigor dessa quietude
Te roubou a suavidade
Da frágil linha da tua face amena.
Estás tão terrificamente imóvel,
Mãe!
Que te fez a realidade severa da morte,
Que te tornou o traço imperturbável
E o rosto tão estranho e reto?!
Ainda estás aqui comigo e já não te conheço,
Porque não mostras mais o jeito amável
Do antigo afeto.
Como vou eu suportar a vida
Desta punição profunda, perpétua, dura
E o sofrimento que tu me deixas,
Com esta ferida,
Sem o bálsamo da tua ternura?
No entanto,
Sei que me podes ouvir no etéreo ignoto,
Aos viventes não permitido.
Percebo que estás aí,
E, todavia, não sei em que lugar!
Mas pressinto-te!
Espera, dá-me a tua mão,
Ensina-me a andar,
Porque não sei o caminho.
Sim, guia-me pela estrada,
Como a ave ensina os filhos a voar ao sair do ninho.
Sempre o fizeste, como ninguém,
Com abnegação, trabalhos e dor!
Assim! Vês?!
A Morte não pode mais que o Amor,
Mãe!

Joaquim Benedito

terça-feira, 11 de abril de 2017

Os Passos do Senhor

O entrudo pregou uma valente partida aos foliões, a neve caiu durante uma boa parte do dia, a contra dança não pode actuar, só os mais afoitos se aventuravam nas ruas por culpa da neve. A paisagem imaculada era um regalo para os cachopos, de vez em quando ouvia-se um som estridente era a pernada de uma oliveira, de um castanheiro…não aguentavam o peso e partiam.
Chuvosos e frios foram os quarenta dias da quaresma.  
O entrudo estava borralheiro, assim como o natal deve ser passado em casa, o entrudo ao borralho para que a páscoa possa ser vivida na praça. Não só na praça, mas nas ruas acompanhando o compasso. O povo cantava, o tilintar da campainha anunciava o local onde andava o senhor vigário a distribuir as boas festas aos paroquianos. A imagem florida do crucificado era transportada pelo sacristão; à porta, o dono da casa esperava o Senhor.
- A paz esteja nesta casa; aleluia, aleluia… com o aspersório aspergia os presentes e seguia em direcção a outra morada.
A procissão dos terceiros, não se realizou, culpa do tempo; a água caia a cântaros, a ribeira ia de mar a monte cobria as passadouras, os vicentinos que moravam na outra margem tinham que dar a volta pela estrada, era impossível passar, um morador mais afoito aventurou-se e à medida que saltava de uma para a outra …dizia baixinho.
- Deus é bom, mas o diabo também não é mau; Deus é bom… quando se apanhou no outro lado, mandou o diabo para as malvas.
Não era uma ribeira, mas um rio, a água invadiu os lagares, muitas paredes caíram, “muitas borregas”; camponeses suplicavam ao Senhor Santo Cristo para que a chuva parasse, não estava capaz de se fazer fosse o que fosse nas terras, entrar nelas era uma aventura.
Um campónio tentou atravessar um leirão por pouco não ia sendo engolido pela terra lamacenta, a sorte foi um pastor que andava perto ouvir gritos aflitivos.
- Acudam, socorro…
Correu em direção ao chamamento, quando chegou ao local, no meio do leirão enterrado até à cintura José do cabeço esbracejava, imediatamente lhe atirou a corda que sempre o acompanhava para levar uns chamiços à noite para casa; José agarrou-a, salvando-se.
No domingo seguinte ajoelhado em frente ao altar do Senhor Santo Cristo com velas acesas rezou, agradeceu.
Como a terra estava mole muitos pinheiros caiam, as sementeiras primaveris não se podiam fazer, os animais não saiam da corte, as tabernas estavam cheias de fregueses; uns jogavam às cartas, outros ao nôcho, ao burro, o vinho escorria goelas abaixo.
- Bota aí dois copos, quero daquele pipo além.
- Aquele não; ainda não o baptizei…
Fregueses bebiam, falaçavam, jogavam, de vez em quando; culpa dos vapores do etílico, alguns desatavam num berreiro tremendo, nascia uma escaramuça, agarravam-se, esbofeteavam-se, quando chegava a guarda tudo estava normal, os desentendidos bebiam e conversavam como se nada se tivesse passado.
A chuva caia, as ruas pareciam ribeiros, o tempo não melhorava, antes pelo contrário.
Deu tréguas a chuva no domingo de Ramos. O sol rompeu as espessas nuvens a tarde compôs-se. À medida que se aproximavam as cerimónias da semana santa o tempo ia melhorando, a lua quase cheia iluminava a noite.
Iniciavam-se quarta-feira as cerimónias da semana maior.
A seguir ao domingo de Ramos em que Cristo foi aclamado pelas pessoas, as autoridades do tribunal judaico talvez por ciúme, inveja… reuniram para combinarem a morte de Cristo.
Uma mulher chamada Maria comprou um perfume muito caro e com ele perfumou os pés de Jesus. Judas, era o tesoureiro da comunidade dos apóstolos, não achou graça àquele gesto.
Nada satisfeito com a acção de Maria, abandonou os companheiros encaminhando-se para o Sinédrio e combinou com as autoridades que entregaria o Mestre em troca de dinheiro.
Era a semana maior dos cristãos; as cerimónias começavam quarta-feira com a realização das trevas.
Num local destacado encontra-se um grande tocheiro triangular “ver no coro da igreja da misericórdia”; com velas acesas, à medida que os senhores padres vão recitando salmos, sacristão; vai apagando uma a umas todas as velas até o templo ficar completamente às escuras; as trevas cobriram a terra; do coro surge um grande barulho, recorda o momento em que morreu Cristo, o som barulhento continua, faz lembrar o terramoto que se seguiu à morte de Jesus. Na quinta-feira santa, finda a procissão a praça e as ruas enchem-se de gente.
O sermão do Exe Homo foi escutado atentamente pelos fiéis que lotavam completamente a igreja.
À semelhança dos anos passados paroquianos de todos os lugares vinham à vila para fazerem a desobriga e participarem nas cerimónias religiosas.
Findo o sermão do Senhor da Cana Verde os fiéis deixavam a igreja e cada um seguia para suas casas, seus lugares.
Sacristão fechou as portas, apagou as velas e saiu.
No coro um cachopito dormia na paz dos anjos; mal abriu os olhos vendo-se no meio da escuridão começou num berreiro aflitivo, subiu as escadas da torre a tactear, gritava, fungava…
A aurora aproximava-se; um ganhão ao atravessar a praça ouvindo gemidos teve medo e fugiu, aconteceu o mesmo com outras pessoas.
- É uma alma do outro mundo, diziam. A criança continuava a chorar e a fungar. Só pela madrugada quando o responsável pela manutenção do relógio subiu as escadas da torre para lhe dar corda, o resgatou.
A manhã de sexta-feira santa estava criadora; depois da tempestade, vem a bonança. António juntamente com alguns ajudantes dirigiu-se ao calvário para colocar o Cristo na cruz, feito o trabalho passam dois garotos que moravam no Casal param, fixam os olhos na imagem, António com ar doutoral e sério voltando-se para um deles disse:
- Ó meu malandro; foste tu que mataste o Nosso Senhor!
- Não fui eu não senhor, foi o meu primo.
Desatou num berreiro correndo juntamente com o primo em direcção ao Casal. António já faleceu, Mata Nosso Senhor ainda está entre nós graças a Deus. A partir daí começou a chamar padrinho ao meu pai.
O martelo sineiro batia duas badaladas, o povo acotovelava-se para participar na procissão do encontro, Senhor dos Passos tinha acabado de sair da Igreja da Misericórdia, a banda toca os primeiros acordes da paixão, os mesários cada um com sua vara orientam a procissão, janelas e varandas estão cheias de gente querendo ver o préstito.
Na Fonte Velha padre Leal com seu vozeirão forte toca o coração das mães que tinham seus filhos no ultramar, lágrimas, choro…A Senhora do Pranto acompanhada pelo São João saem da Rua das Laranjeiras e juntam-se ao Senhor dos Passos; Verónica limpa a cara ensanguentada mostrando aos fiéis o rosto de Cristo que ficou marcado no pano, as três imagens sobem a Rua da Costa em direcção ao calvário, Senhor da Paixão entra sub-repticiamente na capela de Santo António, os andores da Senhora das Dores e do São João sobem as escadas do monte Gólgota atrás do pano preto são colocadas, a banda termina a função, padre Leal dá início ao sermão do calvário.
- Meus irmãos; Cristo acaba de percorrer as ruas da vossa terra, neste momento chegou ao monte calvário, passou uma noite terrível, no jardim das oliveiras até os apóstolos O abandonaram, Judas traiu-O, Pedro renegou-O.
Judas manifestou o seu arrependimento enforcando-se numa figueira; Pedro puxou da espada e cortou uma orelha a Malco para defender o Mestre; Jesus repreendeu-o e voltou a colocá-la. Antes que o galo cante três vezes tu me trairás.
- Mestre; nunca. O galo cantou, Pedro arrependeu-se e chorou amargamente.
Pilatos lavou as mãos, não encontrava nada que pudesse condenar aquele inocente.
A multidão gritava:- cruxifiquem-no, cruxifiquem-no…
- Eis nosso Salvador.
- Pai, perdoai-Lhes porque não sabem o que fazem e expira.
O Céu tolda-se de nuvens escuras, trovões fortes…o bombo da banda troa fortemente imitando o ribombar da trovoada, as pessoas respeitosamente ajoelham.
Sentado no muro do quintal da Ordem Terceira um garoto do Casal da Serra, “era a primeira vez que assistia à cerimónia” desata a chorar saiu a correr cheio de medo, a mãe coitada muito aflita foi atrás dele e lá o acalmou.
Há cerca de cinco ou seis anos no mesmo local a minha neta; sete aninhos voltando-se para a avó.
-Avó, aquilo é verdadeiro ou é a fingir?…
Olhem; sabem que mais! Muitas graças a Deus e poucas graças com Deus.


J.M.S

Boa Páscoa!

Com a nossa doçaria...



...as flores da quadra...



...e o nosso património religioso.




E claro, o fundamental: familiares e amigos!
José Teodoro Prata

domingo, 9 de abril de 2017

Arqueologia no adro

O espaço já está limpo e estão a decorrer trabalhos de levantamento arqueológico.
São visíveis vestígios de atividade humana um pouco abaixo do nível das ruas.
Aguardemos por notícias.

José Teodoro Prata