sábado, 18 de novembro de 2017

Roque Lino, 1938-2017

 
Foto dos fundadores do Partido Socialista, em 1973, na Alemanha. 
O Roque Lino está imediatamente à direita de Maria Barroso.

Partido colocou a sua bandeira a meia haste e expressou "profundo pesar pela morte do seu fundador e militante 32"
O PS decidiu colocar esta quinta-feira a sua bandeira a meia haste pela morte de um dos seus fundadores, Roque Lino, de 79 anos, antigo secretário de Estado para a Comunicação Social no segundo Governo de Mário Soares.
Em comunicado, a direção do PS expressou "profundo pesar pela morte do seu fundador e militante 32, José Maria Roque Lino", antigo deputado, advogado de profissão e destacado opositor ao regime do Estado Novo.
Como forma de honrar a memória de Roque Lino, a direção do PS "deu instruções para a colocação bandeira do PS a meia haste nas suas sedes".
"Participante na reunião fundadora do partido, em 1973, na Alemanha, Roque Lino constituiu-se ao longo da sua vida numa referência do PS, tendo evidenciado sempre no exercício das mais diversas funções o seu apego aos valores do socialismo democrático e do humanismo", salienta-se no comunicado.
A morte de Roque Lino, para a direção deste partido, constitui "uma perda para o PS, para os socialistas e para todos os democratas".
"Neste momento de perda, partilhamos com todos os camaradas a nossa mais sentida dor, transmitindo à sua família a solidariedade do Partido e dos socialistas portugueses. A vida de José Maria Roque Lino constitui mais um poderoso testemunho do contributo dos socialistas para a construção do Portugal democrático e de uma sociedade mais justa", acrescenta-se no mesmo comunicado.
Diário de Notícias 

Jaime da Gama

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Véspera do São Martinho

No tempo dos meus Avós e Pais era tradição na véspera de São Martinho ir tocar chocalhos à porta dos Senhores mais abastados da Vila, para que eles dessem um copo do seu vinho novo.
Poucos eram os que acediam ao toque dos chocalhos e aos pedidos dos Vicentinos mais novos, que não tinham outras opções senão ir saciar a sede à Fonte Velha ou, se tivessem alguns tostões no bolso, irem beber o copo de vinho a uma das tabernas existentes na Vila.

Anos mais tarde…
Eu, criança e jovem e os meus Pais, mantínhamos a tradição de ir tocar os chocalhos.
À noite depois do jantar, íamos tocar o chocalho à porta dos familiares mais próximos.
Éramos recebidos com enorme alegria e convidados a entrar para provarmos o vinho novo acabadinho de sair do pipo, a doce jeropiga, as castanhas cozidas ou assadas, as passas de figo, o pão e os bolos caseiros, o queijo fresco e a chouriça assada na brasa.
O serão era passado à lareira, contando histórias de outros tempos e “viveres” do dia-a-dia.
Aos poucos o sono ia chegando e era enorme o meu esforço para manter os olhos abertos e regressar a casa pelo meu próprio pé.
Regressávamos já noite alta, com o ar fresco da Gardunha a tocar-nos o rosto e a promessa: o próximo serão familiar seria nas Janeiras.
E voltávamos e visitávamo-nos, sempre.
Mas os anos passaram e a vida com as suas leis mais duras e os seus percursos mais dolorosos fez com que partissem os familiares de tantos momentos felizes.

Hoje é véspera de São Martinho e não sei se algum Vicentino mantém a tradição de ir tocar os chocalhos.
Por mim, estou em silêncio no meu cantinho e volto atrás no tempo…
Guardo em mim o som do toque do meu chocalho e no coração as memórias e as saudades do tempo que não volta atrás.
Tempo de criança, tempo de alegria, de convívio e de partilha.
Tempo…
Tempo que foi e é meu.


Luzita
10/Novembro/2012

terça-feira, 14 de novembro de 2017

PR 10

Éramos 25, um quarteirão. Uma boa conta, à maneira antiga. Mais seríamos, mas a missa acabara meia hora antes e não se articularam as coisas. No final, as castanhas e a jeropiga do São Martinho!
O percurso, em volta da barragem, está marcado entre o Alto da Fábrica e o paredão da Barragem do Pisco, seguindo a margem esquerda. Mas falta a manutenção e sobretudo concluir o percurso, que não está homologado, mas será  o PR 10, segundo me informaram.
É uma boa hipótese de percurso, circular, fácil, curto/médio (cerca de 6 quilómetros, a olho) com partida e chegada à Praça, pelas duas margens da barragem e da ribeira, até à Fonte da Pipa.
O único senão, e é mesmo o único, pois trata-se de um percurso muito bom, é a estrada de alcatrão até ao Alto da Fábrica. O António Craveiro, que conhece tudo e já terá palmilhado cada metro num raio de 5 quilómetros em torno de São Vicente, disse-me que antigamente passava-se do fundo do ribeiro da Oriana para o Casal do Pisco. Isso sim, seria ouro sobre azul: por um lado, pelo caminho da Oriana, pelo outro, pelo Pelome.
Há floresta, água, fauna abundante e muito variada, terrenos agrícolas, residências e até turismo de habitação (Lugar do Ainda). Sendo circular, dá para começar e terminar na nossa Praça, do Paredão da Barragem do Pisco ou do Lugar do Ainda.
Notas:
1. A garça-real desta vez não se deixou ver, mas a Libânia confirmou que as há até na charca do Casal Pousão!
2. As margens da barragem têm muito lixo, ali deixado por quem a visita. Precisam de ser limpas e que se coloquem letreiros e caixotes do lixo na zona do paredão.






José Teodoro Prata

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Conversas fiadas

Nasci em 1937 e tenho muita coisa que contar, que a minha vida já foi muito grande.
Éramos nove irmãos, mas morreu um, ainda em pequeno, e ficámos só oito. Criámo-nos todos aqui nesta casinha. Agora já está muito aumentada, mas naquele tempo era só uma sala tão pequena que mal lá cabia uma mesa e umas poucas de cadeiras, para quando vinha alguém de fora; a cozinha, também um cochicho, e os quartos eram só dois; mas cabíamos cá todos. Os meus pais dormiam num dos quartos, três das cachopas dormiam no outro, as outras duas dormíamos numa enxerga, no forro, e os três rapazes dormiam todos juntos, no palheiro ou ali por debaixo das escadas que vão para a loja. Mas vivíamos todos muito felizes. Sem mimos que, com tanto filho para criar, não havia tempo para essas coisas; mas nunca nos faltou a educação nem que comer, graças a Deus.

O meu pai era muito bom homem e o melhor pai do mundo. Nunca nos tocou, mas o que ele dizia era uma escritura. E era muito trabalhador, mas tinha que andar quase sempre por fora, que aqui ninguém se governava. Até ainda chegou a ir para a Espanha e lá para cima, para o norte. Andou nas minas da Panasqueira uns poucos de anos e também foi serrador. E quando não tinha noutro lado ia ao quinto e à azeitona. Alguns anos até era ele o manageiro.   

A minha mãe também era muito boa, mas como era ela que tinha que nos aturar, às vezes perdia a paciência e chegava-nos a roupa ao pêlo. Era fiadeira e tecedeira, que naquele tempo pelas nossas terras toda a gente cultivava linho, fiava e tecia. Só na nossa casa havia três teares, e foi com ela que eu e as minhas irmãs aprendemos tudo o que sabemos. Ela fazia primeiro e depois nós fazíamos como ela.

Eu andei na escola e ainda fiz até à 3ª. classe. Entrei com 7 anos e aos dez estava pronta; nunca fiquei mal. Naquele tempo era uma sala cheia de cachopos e cachopas, todos juntos. Tínhamos cá uma professora muito boa e que ensinava muito bem. Era de Castelo Branco e ficou cá pra cima de 30 anos; ninguém teve nunca nada a apontar-lhe. Batia pouco, que nós também lhe tínhamos muito respeito, mas havia alguns que eram turrões e aí ela às vezes tinha que lhes dar umas reguadas valentes. Eu não era mais que os outros, mas era humilde e aprendia muito bem. Do que mais gostava era dos problemas, chamávamos-lhe nós exercícios, e ainda hoje os faço como ela os ensinava, de cabeça.

E também brincávamos e cantávamos muito. Na quaresma não, que não se podia cantar, nem dançar, nem fazer rodas; mas jogávamos ao paspelho e fazíamos bolas com retalhos de pano e jogávamos à parede. Os rapazes jogavam ao pião, à bilharda, ou faziam alcatruzes com paus de salgueiro para ver quem acertava mais longe. Divertia-se a gente como podia.

Quando acabei a escola tive um grande desgosto porque o que eu queria era começar logo como tecedeira. Mas éramos seis raparigas lá em casa, e como era às mais velhas que pertencia estarem nos teares, e eu era das mais novas, tive que ir para lavadeira e para o campo. Mas sempre que podia punha-me a olhar como é que elas faziam e fui aprendendo só de ver.

Depois, quando chegou o tempo da azeitona, fui logo para uma campanha do Vaz Preto. Era uma casa muito grande, das maiores aqui à roda, sempre com muitos trabalhadores todo o ano. Era tão rico e deu tudo em nada. Nesse tempo ganhava-se a sete e quinhentos por dia, mas depois passaram a pagar ao quilo. Quanto mais se colhia mais se ganhava. Ainda lá fiz 25 fragatas.

Quando se acabava a azeitona íamos logo para os terços e para os quintos, ali para a Idanha, e trabalhávamos tanto como um homem. Éramos umas quarenta, entre raparigas novas e mulheres feitas. Era muito difícil porque de inverno era muito frio e às vezes a chuva era tanta que não trazíamos um fio enxuto em cima do corpo; e no verão era tanto o calor que até atabafávamos. Mas também nos divertíamos muito e andávamos sempre a cantar, que até parece que o cantar ajudava a gente. Já o meu avô dizia que «gente que canta não está com a preguiça e seu mal espanta…»

E era lá que a gente aprendia muitas das coisas da vida que as nossas mães não nos ensinavam em casa. As mais novas aprendíamos com as mais velhas porque dormíamos todas juntas e, quando era à noite, fazíamos de conta que estávamos a dormir, e elas punham-se a falar dos namoros e doutras coisa, e nós a ouvir tudo sem elas darem por isso.
Algumas arranjavam por lá namoros, mas o mais das vezes não iam avante. Até cantávamos assim:

Os amores da azeitona
São como os da cotovia,
Acabada a azeitona,
Fica-te com Deus, Maria.

Também sucedeu algumas virem de lá de barriga; depois tinham que casar à pressa ou eram apontadas por todos. É assim; o mundo sempre foi igual e há de continuar a ser. As pessoas é que se esquecem…

Quando era pelo Santiago era uma alegria, e mesmo quem andava por lá nunca faltava. Era uma festa muito linda. Cada terra trazia o seu ranchinho com um homem a tocar concertina, e as mulheres atrás, a cantar. Ia tudo a pé por esse caminho afora. Quando lá chegávamos dávamos a volta à capela, sempre a cantar, a ver quem ganhava. Os do Vale da Figueira ganhavam quase sempre porque vinham os do Açor, que éramos quase todos de família, e ajudavam-nos no rancho. Depois da missa vínhamos para casa e comia-se a carne e os doces que já tinham sido preparados de véspera ou de manhã cedo; as famílias todas juntas. Era muito lindo!

O pior era quando se lá armavam aquelas grandes bulhas, que era quase todos os anos, e alguns vinham de lá com as cabeças partidas, todos a escorrer sangue. Não é que os rapazes daquele tempo fossem piores que os de agora, mas dantes parece que juntavam as teimas que havia pelo ano adiante e eram todas distinguidas à pancada pelo Santiago. Rapaziada nova, com o sangue a ferver na guelra…

Quando as minhas irmãs mais velhas se casaram e abalaram para as casas delas, já eu pude ter um tear só para mim. Tecia tudo: linho, algodão, orelos, e a bordar e fiar, não havia quem me ganhasse. Trabalhávamos para as terras todas aqui à roda. Às vezes íamos entregar o trabalho ao Casal da Serra ou ao Louriçal com algumas vinte mantas à cabeça. Por isso é que eu tenho tanto mal nas minhas costas. Outras vezes íamos de burro, com uma carga tão grande que mal se lhe viam as patas. Ganhava-se bem, mas também nos saía do corpo. Havia alturas em que o trabalho era tanto que estava todo o dia ao tear, e à noite enchia canelas, sentada ao lume, para não perder tempo ao outro dia.

Era muito trabalhoso, mas as horas mais felizes que eu tinha era quando me punha ao tear. Nunca fui grande cantadeira, mas ao tear ninguém me calava. Até parecia que as próprias cantigas me avultavam o trabalho.


Tecedeira briosa
Está no tear e não tece,
Ou ela anda de amores
Ou o tear lhe aborrece.

Namorei uma tecedeira
Pelo buraco do pano,
Ela, trac, trac, trac,
Não me dava o desengano.

Se o meu amor hoje morresse
Que penas eram as minhas,
Deitava-me a afogar
Para o caco das galinhas.

Meninas da nossa terra
São muitas, parecem poucas,
São como as folhas da rosa,
Encobrem-se umas às outras.

Nunca me casei. Não porque não tivesse tido quem me quisesse, mas não calhou. Às vezes diziam-me que uma mulher sozinha não era ninguém, e que um homem sempre era um amparo, mas nunca tive inclinação pr’aí. Também nunca me arrependi, que os meus irmãos e os meus sobrinhos foram sempre meus amigos e estimaram-me sempre muito. E eu também os ajudo, quando posso. Já se sabe, uma mão lava a outra…

Tive uma vida grande. Com muito trabalho, mas a fazer aquilo de que mais gostava. E a minha maior pena, agora que já não posso, é a mocidade já não querer saber destas coisa antigas para nada.

Nota: A indústria da fiação e tecelagem foram, durante muito tempo, uma das mais importantes desta região. De acordo com a pesquisa do José Teodoro, apresentada no livro «O Concelho de S. Vicente da Beira nos finais do Antigo Regime», em 1790 havia 177 cardadores e fiadeiras em S. Vicente, só por conta das fábricas da Covilhã. Haveria muitas mais a trabalharem por conta própria, para consumo familiar.
Numa consulta aos Registos Paroquiais do início do século XX, verifiquei que a maior parte das mães e madrinhas das crianças batizadas tinham a profissão de fiadeira/tecedeira. Não eram referidas as profissões das avós, pelo que não estaremos muito enganados se dissermos que não haveria muitas casas em que não existisse pelo menos uma roca e um tear.
Outros tempos e outras vidas, que nos ajudam a compreender o valor das coisas, e a perceber porque é que se deixava em testamento uma camisa ou um lençol, às vezes já usados. 

M. L. Ferreira