quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

O nosso falar: lareta e bacalhoeira

Uma aluna minha teve uma atitude que a minha mãe classificaria de lareta. E saiu-me, tendo em seguida de lhe explicar o que era, pois nunca ouvira tal palavra.
Lareta era uma rapariguita esperta, alegre e algo atrevida. Consultei um dicionário online que me informou significar esperta e também que recolhera essa informação no Fundão. Lá está, a nossa cultura comum da Gardunha!
Mas um outro site dizia que é uma pessoa incapaz de guardar um segredo, pessoa palavrosa que conta tudo a todos. Ora para essas o nosso termo é bacalhoeira, palavra bastante depreciativa para a pessoa a quem é dirigida, pois é o mesmo que lhe chamar grosseira, o significado que lhe dá outro dicionário online.
Bacalhau com todos até se compreende, mas lareta?! De onde virá?

José Teodoro Prata

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Os Sanvicentinos na Grande Guerra


António José


António José nasceu no Casal da Fraga, a 9 de junho de 1895. Era filho de João José, natural do Casal da Serra, e de Mariana Duarte.
Alistou-se em 19 de junho de 1915, como recrutado, apresentando-se no Regimento de Cavalaria n.º 10, em 13 de janeiro de 1916. Sabia ler, escrever e contar corretamente e, durante esse ano de 1916, completou o curso de habilitação para 1.º Cabo e o curso de Serviço Telegráfico Militar, no qual ficou aprovado com distinção.
Pronto da instrução, passou à Companhia de Telegrafistas de Praça, em 30 de setembro de 1916, ficando obrigado a servir no quadro permanente por mais um ano a partir daquela data. 
Fazendo parte do CEP, embarcou para França, no dia 26 de maio de 1917, integrando a Unidade Territorial Companhia de Telegrafistas, como soldado com o n.º 1358 e a placa de identidade n.º 26812.
Foi promovido a 1.º Cabo em 16 de abril de 1918, e equiparado a 2.º Sargento, desde 19 de outubro, nos termos do regulamento para a promoção e equiparação das Praças das Secções de Telegrafistas e Sinaleiros. Embarcou de regresso a Portugal, no dia 5 de abril de 1919, a bordo do navio Pedro Nunes.
Em junho desse ano, domiciliou-se em Sacavém, Loures, e ingressou na Companhia de Telegrafistas da GNR, em 16 de outubro. A 1 de abril de 1922, passou ao Batalhão n.º 2 da mesma Guarda.
Aprovado no concurso para Furriel, foi promovido a esse posto e passou ao Batalhão n.º 4 da GNR, em Julho de 1932. Em maio de 1938, foi promovido a 2.º Sargento (nesta altura já estava colocado na região norte do país).
Passou à situação de reforma, por ter atingido o limite de idade, em 9 de junho de 1951.
Registo na folha de matrícula militar:
a)    10 dias de detenção aplicada pelo Comandante da Companhia, porque «em 12 de Agosto de 1918, não substituiu uma sentinela que estava doente, consentido que ela estivesse no seu posto sem a devida correção.»
Prémios, condecorações e louvores:
  • 2.º prémio, de 3$00, pelo curso de habilitação para 1.º Cabo;
  • Medalha da vitória;
  • Medalha Militar de cobre de classe de comportamento exemplar;
  • Medalha militar de prata de comportamento exemplar em substituição da de cobre que lhe havia sido atribuída anteriormente;
  • Louvado por, «na instalação do posto de Penafiel e organização dos respectivos serviços e ainda como amanuense dos mesmos ter desenvolvido notável atividade e manifestado excepcional competência e extraordinária dedicação, colaborando para o prestígio da Corporação a que pertencia.» (Folha de matrícula militar);
  • Condecorado pelo comandante do Batalhão n.º 4 da GNR «pela grande dedicação e competência profissional de que deu provas ao cabo de mais de 31 anos de exemplar comportamento nas fileiras do Corpo de Tropas, sempre no serviço rural, onde revelou apreciáveis qualidades de trabalho e muito interesse pelas suas funções de Comandante de Posto, o que muito contribuiu para o seu prestígio pessoal e engrandecimento da Corporação.» (Folha de matrícula militar).


Família:
António José casou com Virgínia dos Santos em 1924. Deste casamento nasceu uma filha: Maria da Conceição dos Santos José. 


O casamento durou poucos anos, porque Virgínia adoeceu gravemente, vindo a falecer em Fevereiro de 1933, vítima de tuberculose. Durante a doença da esposa, António José entregou a filha, na altura com 9 anos de idade, aos cuidados de familiares próximos, no Casal da Fraga.  
Entretanto, António José tinha sido colocado em Valpaços, no lugar de Argeriz, onde veio a casar com Albertina de Sousa Barroso, também já viúva, em outubro de 1935.
Após este casamento, veio buscar a filha ao Casal da Fraga, passando a menina a viver com o pai e a nova esposa. A criança foi muito bem recebida e integrou-se facilmente na nova família. Casou, anos mais tarde, com um sobrinho da madrasta, Anselmo Barreira, e tiveram cinco filhos: Maria Cidália Santos Barroso Barreira, Rosa Virgínia Santos Barroso Barreira, Natália Santos Barroso Barreira, Maria Manuela Santos Barroso Barreira e António José dos Santos Barreira.
Mesmo após o casamento, Maria da Conceição manteve sempre os laços com os familiares da terra do pai, que visitou regularmente enquanto foi viva.
António José prestou serviço como militar da GNR, em várias localidades, nomeadamente em Ponte de Lima e Penafiel, onde foi sempre muito considerado pela correção com que lidava com toda a gente, pela sua educação, caráter e coragem.
Diz-se que uma vez, provavelmente para acalmar os ânimos, se envolveu numa zaragata entre dois grupos que se debatiam à paulada. De repente, uma das partes virou-se para ele com os paus no ar; mal teve tempo de desembainhar a espada, mas enfrentou-os com coragem. Ainda hoje o neto mais novo guarda, com orgulho, essa espada, à qual falta um pedaço da ponta.
Contam também que um dia estava num café da terra onde vivia, e viram chegar uns homens que o algemaram e levaram preso. Foi acusado de oposição ao regime e, por mais que negasse, mantiveram-no preso durante algum tempo, em condições muito difíceis. Talvez por isso adoeceu gravemente, vindo a falecer em Carrazeda de Montenegro, Valpaços, no dia 14 de Fevereiro de 1959, vítima de angina de peito. Tinha 63 anos de idade.
(Pesquisa feita com a colaboração da esposa de um dos netos, Rosa Barreira)

Maria Libânia Ferreira
Do livro "Os Combatentes de São Vicente da Beira na Grande Guerra"

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Poesia em São Vicente da Beira



“A QUATRO MÃOS” e “CUMPLICIDADES” são dois livros de poesia de Zulmira Mendes e Luis Infante apresentados este domingo, na nossa terra.


A Zulmira, é nossa conterrânea, nascida no Casal da Fraga. Muitos já lhe conhecíamos a voz poderosa para cantar, principalmente o fado, mas a maior parte desconhecíamos-lhe a alma de poeta, que só agora nos revelou.
O Luis Infante nasceu em Castelo Novo, mas, por amor, vai adotando a nossa terra como também um pouco sua. É já um “veterano” no mundo da poesia, com vários livros publicados.
Os poemas contidos nos dois livros apresentados, alguns guardados no “baú” da Zulmira há muito tempo, outros mais recentes, abordam temas muito diversos como o amor, a amizade, a saudade, a natureza; outros são recordações de lugares ou de amigos.
Os poemas não estão assinados por nenhum dos autores, justificando um pouco o título dos livros, e talvez para deixar aos leitores o jogo de adivinhar quem é que terá escrito o quê. Nem sempre é fácil, até porque como dizem os autores, muitos terão resultado do «casamento de duas mentes que lhes deram forma». 
Tive que ler alguns poemas na apresentação, mas não foi fácil escolher. Um dos que li foi este, por falar da Gardunha de que todos, os que crescemos à roda dela, gostamos tanto; talvez também porque, em quaisquer circunstâncias, mantém em nós a esperança de a ver sempre viva.  

ESPERANÇA

O sol já vai alto,
Brilhante, ligeiro,
Aquece o asfalto
Num gesto rotineiro.

Percorre a terra,
Por vezes
Por entre as nuvens se esconde
E eu olho para a serra,
Da minha janela,
Triste por não saber onde.

Onde paira o verde da minha serra?
Foi o sol que o queimou?
Não sei, mas vejo que se extinguiu
E tanta beleza fugiu,
O vento a soprou
E, a minha serra altaneira,
Sozinha ficou.

As estevas,
Os pinhais,
As andorinhas,
Os pardais
Vivem tristes, sem alegria
Porque suas irmãs perdizes
Que ali viviam tão felizes
Já não têm onde se acoitar
Porque a minha serra perdeu
Aquele ar
De saber dar
Tudo quanto tinha de seu.

Foi sentinela,
Agora olho para ela
Com uma tristeza infinda
Mas quero vê-la ainda linda.

Vê-la florir, verdejar,
Ouvir as aves cantar
Em alegre sinfonia
Dando à serra aquela alegria
Desde o amanhecer
Até ao final do dia.



No final da apresentação a Zulmira, o Luis e alguns amigos da USALBI presentearam-nos com um grande momento de fado (eram tantos que não couberam na fotografia…).

M. L. Ferreira
As fotografias são da Luisa Ferreira e Florinda Baptista Carrega