domingo, 27 de dezembro de 2009

Invasões Francesas 10


Castelo Branco, em 1812, gravura do artista britânico George Cumberland Júnior, que acompanhou o Exército Inglês.

Ajuda ao Exército Luso-Inglês
Fazer a guerra requeria bom tempo e não respeitar esta regra podia custar caro. Assim aconteceu a Napoleão, na Campanha da Rússia, apanhado e vencido pelo General Inverno. Foi em 1812 e o Exército Francês sofreu 550 mil mortos.
Mas, em 1811, os franceses ainda andavam por cá, tal como continuaram em 1812.
E era preciso alimentar o Exécito Luso-Inglês que os combatia.
No mês de Dezembro de 1811, só houve uma requisição: o ganhão de Francisco Ferreira da Vila transportou bolacha de Abrantes para Castelo Branco, em 12 dias.

Ajuda ao Exército Francês
Na 1.ª Invasão, os franceses passaram por Castelo Branco, entre 20 de Novembro de 1807 e 9 de Janeiro de 1808.
A cidade de Castelo Branco e as povoações dos arredores, incluindo dos concelhos limítrofes, tiveram de fornecer alimentos e montadas aos franceses, a mando das autoridades portuguesas.
No meu livro “O Concelho de S. Vicente da Beira na Guerra Peninsular”, referi e citei um documento de um autor anónimo que descreveu a passagem dos franceses por Castelo Branco.
Na altura, conhecia apenas a parte do documento publicada por J. Ribeiro Cardoso. Mais tarde, tive acesso ao documento na íntegra, publicado no jornal “Terra da Beira”, nos anos de 1929 e 1930.
Pude então localizar, no tempo, com mais rigor, as contribuições dos nossos antepassados para o Exército Francês, pois a documentação consultada situava as nossas contibuições para os franceses, entre 20 de Novembro de 1807 e 30 de Março do ano seguinte.
A partir de finais de Novembro, a cidade de Castelo Branco, capital da Comarca, já esgotara os seus recursos e passou a requisitar alimentos nos povos e concelhos vizinhos. Por exemplo, no dia 6 de Dezembro, foram embargados todos os alimentos armazenados nas tulhas das Comendas da Comarca.
Assim, as contribuições do concelho de S. Vicente da Beira terão ocorrido quase todas no mês de Dezembro de 1807.
Seguem-se as entregas aos franceses, por parte da freguesia de S. Vicente da Beira, que constam da documentação consultada.

VILA
Ignes Caetana, viúva de Francisco Caldeira: 1 junta de bois machos + 1 cavalo + 41 alqueires de farinha
Berardo Joze Leal, feitor de Gonçallo Caldeira: 10 alqueires de centeio
Capitão Joaõ Duarte: 6 alqueires de feijão pequeno + 5 alqueires de milho grosso + 4 alqueires de feijão pequeno (em Tinalhas)
Capitão Joaõ Rodrigues Lourenço Caio e sogro: 5 alqueires de feijão pequeno + levou 1 carrada de farinha a Castelo Branco
Joze Custodio Ribeiro: 1 junta de bois machos + 4 alqueires de feijão pequeno + 3 alqueires de centeio
Antonio Leitaõ Canuto
e sobrinho: 1 mula
Jozefa, viúva do San.to: 1 vaca + 1 carrada a C. Branco, com outra vaca de Joaõ Lopes
Joaõ Lopes: 1 vaca + 1 carrada a C. Branco, com outra vaca da Jozefa + 1 saca + 1 tamoeiro
Joze de Oliveira: 3 alqueires de milho grosso
Ignes, viúva de Domingos Rapozo: 6 alqueires de feijão pequeno
Anacleto Antunes: 1 vaca + 1 carrada a C. Branco, com outra vaca de Joaõ Bernardo + 1 saca
Joaõ Bernardo: 1 vaca + 1 carrada a C. Branco, com outra vaca de Anacleto Antunes
D. Anna Felicia de Azevedo: 6 alqueires de centeio + 4 alqueires de milho grosso
Padre Estevaõ Cabral: 5 alqueires de milho grosso
Joze Henriques Matias, feitor do Capitão-Mor de Alpedrinha Antonio Bernardo Esteves de Brito: 15 alqueires de centeio
Bento Lopes: 6 alqueires de feijão pequeno (estavam em C. Branco) + 3 sacos + 1 jugo de bois + 18 pães cozidos
Joze Bernardo Cardoso: 2 alqueires de farinha de milho + 1 macho ao serviço das tropas, durante 10 dias

PEREIROS
João Antunes: 5 alqueires de milho grosso + 1 saco
Bras Antunes: 4 alqueires de milho grosso

PARTIDA
Joze Vicente: 1 alqueire de milho grosso
Manoel Mateus: 1 alqueire de milho grosso
Venancio Freire: 1 alqueire de milho grosso
Manoel Martins: 1 alqueire de milho grosso
Maria Martins, viúva: meio alqueire de milho grosso + levar 1 carrada a C. Branco
Antonio Baranda: meio alqueire de milho grosso
Mateus Antunes: 1 alqueire de milho grosso
Isabel Leitoa, viúva, e filho: 1 alqueire e meio de milho grosso
Joze Leitaõ o Bógas: 1 alqueire de milho grosso
Manoel Alexandre: 2 alqueires de milho grosso + 1 saco
Domingos Joaõ: 1 alqueire e meio de milho grosso
Antonio Fernandes: 1 égua de coudelaria + 3 alqueires de milho grossoJoze Martins Pedro: 1 alqueire de milho grosso

Para saber mais, consultar: "O Concelho de S. Vicente da Beira na Guerra Peninsular", de José Teodoro Prata, publicado pela Associação dos Amigos do Agrupamento de Escolas de São Vicente da Beira, em 2006

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Boas Festas


Passei a tarde e parte da noite da Consoada, em S. Vicente.
À chegada, ainda não havia filhoses para comer.
De manhã, a minha irmã Tina misturara os ingredientes e coubera ao Pedro da minha irmã São amassar. Depois do almoço, a massa ainda estava arreganhada e por isso foi colocada ao lado da lareira.
Preparava-me para ir visitar alguns familiares, quando a minha mãe deu pela massa já finta.
Já todos tinham saído, excepto a minha irmã Celeste, a minha filha Filipa e eu.
A Celeste continuou os preparativos para a Ceia de Natal e nós agarrámo-nos às filhoses.
A minha filha, que nunca vira fazer filhós, ficou a virá-las e eu e a minha mãe a tendê-las.
Fiz muitas asneiras, pois nunca tendera a massa, ainda por cima nas costas da mão. Dantes, era no redondo do joelho.
Desenrascámo-nos e estavam boas!
Enchi a barriga e visitei pessoas amigas. Depois ceámos e fomos ver a fogueira de Natal.
Se, com estes momentos plenos, eu não tivesse regressado feliz, era porque não estava de bem com a vida. Era exigir mais do que ela nos pode dar.
Boas Festas a todos.

A imagem é da fogueira deste 2009. Quem nos deu esta prenda foi o grupo de Moto 4, que há meses já oferecera um televisor aos nossos bombeiros, como aqui se noticiou.
Foram eles que encontrei, no sábado, ao Alto da Fábrica, a cortar o sobreiro, para a fogueira.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Zé Nicho


O tempo fora de chuva, nos dias antes do Natal. Valeu à malta da inspecção ter começado cedo, em Outubro, a recolher troncos de castanheiro e sobreiro para a noite de Natal.
Era normalmente ao entardecer, depois dos trabalhos. Ouvia-se a corneta e todos sabiam que a rapaziada andava a tratar da fogueira do Menino Jesus. Os madeiros eram trazidos de tractor, já não em carros de bois, como nos anos passados. Arrumavam-se na Praça, a um canto, e monte crescia, até meados de Dezembro.
Mas depois deu em chover. Os chaparros, para atear os madeiros, já foram cortados a pingar.
No dia 24 de Dezembro, a malta das sortes andou todo o dia a montar a fogueira, no centro da Praça. Mas o desânimo lia-se nos rostos. Os madeiros estavam encharcados e de vez em quando caía um chuvisco ou mesmo uma pancada de água.
À noite, por volta das onze e meia, os rapazes convergem para a fogueira, armados de garrafões de vinho oferecidos por lavradores e de braçados de carqueija ou rama de pinheiro que cada um tinha em casa, resguardadas da chuva.
Abrem buracos no cone de lenha e enchem-nos de acendanhas. O fogo pega, mas logo esmorece. Mais rama seca. O fogo alastra, a malta anima-se, mas a chama não vinga.
Começam a chegar famílias, em fato domingueiro, para a Missa do Galo. Entram arreganhados, na Igreja, com a esperança de se aquecerem, à saída.
Homens e rapazes de anos anteriores ficam-se pela Praça, a apreciar como se desenrasca a malta da inspecção. Uns dão-lhes conselhos, outros atiram-lhes provocações. Alguns sentenciam que este ano não vai haver fogueira. Novas tentativas. A ala queima a caruma, mas não pega nos troncos e morre.
Aproxima-se mais um homem, vindo do lado da torre da Igreja. É baixo, sem ser pequeno. A magreza e o curvado do corpo apoucam-lhe a estatura. O rosto e as mãos estão enrugados e enegrecidos pelos rigores dos trabalhos passados e dos anos vividos.
Chega à fogueira e começa a esburacar. Os rapazes das sortes aproximam-se. Ele ranha-lhes de mansinho e eles obedecem-lhe. Algum mais folgazão dá-lhe uma palmada nas costas e elogia-o, em forma de agradecimento. Oferece-lhe um copo, mas ele recusa, concentrado no trabalho de abrir túneis por onde o ar tem de circular. O trabalho demora e o velho carvoeiro parece não ter pressa.
Mas o relógio da torre não se compadece. A uma hora aproxima-se e não tardarão a soar da Igreja os cânticos ao Menino Jesus.
A malta da inspecção afadiga-se, na esperança de ter fogueira à saída da missa. Depois, mesmo que o consiga, já será tarde.
Os túneis estão abertos. Os rapazes colocam lá dentro a rama de pinheiro e a carqueija, trazidas segunda vez por rapazes que tornaram a casa. A matéria seca pega fogo. A chama aguenta-se e vai entrando pela fogueira a dentro. Pouco arde por fora, mas no interior persistem focos de fogo, a adivinhar pela fumarada.
Já se ouve, na Igreja:

Alegrem-se os Céus e a Terra
Cantemos com alegria
Já nasceu o Deus Menino
Filho da Virgem Maria


E as pessoas começam a sair, a pouco e pouco, conforme beijam o Menino Jesus.
A Praça vai-se enchendo, todos envoltos no fumo que sai da fogueira. Alguns, a viver fora, já desabituados das lareiras, indignam-se por ficar com a roupa a cheirar a fumo e querem ir para casa, mas outros familiares teimam em ficar.
Pouco a pouco, o fumo da fogueira é substituído por alas de fogo que fazem crepitar os madeiros. Mais uns minutos e o cone negro torna-se um foco incandescente de luz e calor.
É tempo de festejar e o Ti Zé Nicho aceita aquele copo e muitos mais, ao longo da noite, que ainda é uma criança.
E canta-se. Primeiro o “Alegrem-se…” e depois:

Estava a cantar o Natal
À porta do capelão
Estava tão descansado
Que a Guarda deitou-me a mão
A Guarda deitou-me a mão
Vamos já daqui p´ra fora
São oitenta mil e quinhentos
Que saem do bolso p´ra fora


Qui tomba qui tomba
Qui dale qui dale
Toca na zamburra
Na noite de Natal


Cada um fica mais um pouco, uns minutos ou umas horas. O tempo preciso para se reabastecer de luz e calor, para mais um ano.



Conheci o Ti Zé Nicho nos anos da minha adolescência, pelos inícios dos anos 70, os desta crónica. Só o via uma vez por ano, precisamente nesta noite de Natal, e desconheço o seu nome completo e a que família pertencia. Morava nas cercanias da fonte de Santo António e chamava-se José, o que adivinho pelo diminutivo com que o identificávamos. Era carvoeiro e foi a sua sabedoria que garantiu o acendimento da fogueira de Natal muitas vezes, algumas presenciadas por mim.
No ano em que fui às sortes, com a malta de 1957, já teria falecido ou estaria doente, pois não me lembro dele, em redor da fogueira de Natal.
Este ano, o tempo anda igualmente invernoso e bem dava jeito à malta da fogueira tê-lo por perto. Mas os tempos também mudaram muito e agora há dinheiro para comprar combustíveis altamente inflamáveis, com que se regam os madeiros, em caso de necessidade.
Modernices, havia de ralhar o Ti Zé Nicho.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Boas Notícias


Afinal, o Padre António Branco nem sequer ficou internado no Hospital.
Estará a ser devidamente cuidado pelo seu lar da Misericórdia.
Nem o frio de rachar o quebrou. Têmpera rija!
Boas melhoras e um Natal cheio de doçura e calor irmão, como no poema de ontem do Torga.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Duas breves e um poema

Acabo de chegar de São Vicente. Para os que estão longe, duas notícias, uma boa e outra má, na esperança de que se torne boa.

Hoje, um feirante que montava a tenda junto à entrada da Casa Paroquial deu com o Padre Branco no chão, semi-nu e inconsciente.
A noite foi gelada.
Eram 7 horas da manhã e, miraculosamente, dia de mercado.
O feirante bateu à porta do senhor José Matias e foram os seus filhos Luís e Céu que recolheram o Padre Branco e o agasalharam, enquanto não chegava a ambulância.
Que não seja ainda desta que o velho leão nos deixe!
Darei notícias.


No regresso, dei com uma valente brigada a cortar o grande e ancião sobreiro do Alto da Fábrica, no cruzamento para o Casal do Pisco. Não soava a corneta, nem vi garrafões de vinho, mas foi bonito!
No largo, junto à Igreja, a cama de saibro já está pronta e coberta de toros. Mais estes e temos fogueira garantida. Que faça bom tempo, pois já não temos o Ti Zé Nicho!



Um poema de Miguel Torga, também ele das serranias de um interior:

NATAL

Devia ser neve humana
A que caía no mundo
Nessa noite de amargura
Que se foi fazendo doce...
Um frio que nos pedia
Calor irmão, nem que fosse
De bichos de estrebaria.


Diário IV, Natal de 1948

sábado, 12 de dezembro de 2009

Dois Artistas

Muitos nunca ouviram falar deles e quase todos desconhecem a importância que tiveram para S. Vicente, nos meados do século XX.
Eu ainda conheci o Zé Companhia, como era conhecido, por andar sempre acompanhado de um grupo de aprendizes de pedreiro. Um deles foi o meu pai.
Mas nunca ouvira falar do João Engenheiro que, já reformado e doente, morava no n.º 20 da Rua da Costa, cerca de 1950. Com ele e a sua esposa partilharam os meus pais esta habitação: eles viviam na casa das traseiras e os meus pais, recém-casados, na que dá para a rua.

O João Engenheiro, como lhe chamavam, trabalhou em Lisboa, como desenhador, e voltou à sua terra natal, onde era solicitado por muitos a traçar plantas de casas e de outras obras de arte. Por exemplo, a ele se deve a traça da casa n.º 36 da Rua do Convento, propriedade de José Maria dos Santos, recentemente falecido.
Ao Zé Companhia coube o primeiro alargamento da Rua da Igreja, então estreita e em diagonal, da esquina da casa do Visconde da Borralha à esquina do lado oposto, no fundo da rua. Cortaram-se as casas a direito e reconstruíram-se novas fachadas. Da antiga rua, permaneceram a casa em frente à Igreja e a casa no topo da rua, frente à fonte de Santo António, só cortadas na década de 70. E assim se chegou à via que temos hoje.


Mas foi sobretudo juntos que mais se distinguiram. A Junta de Freguesia da época, presidida por Manuel da Silva, pediu ao João Engenheiro que desenhasse uma fonte para a Praça. Ele traçou-a e o Zé Companhia construiu-a. Foi em 1947 e chamaram-lhe Fonte de São João de Brito.
A seguir, a Junta de Freguesia chamou-os para restaurar o brasão que durante séculos encimara a porta de entrada da Câmara Municipal. Perdera-se a coroa por cima do escudo. O João Engenheiro desenhou-a e o Zé Companhia trabalhou a pedra e inseriu o brasão completo na parede da fachada do edifício dos antigos paços do concelho, onde o podemos admirar.


O João Engenheiro, de quem não sei o nome completo, nasceu e foi criado, na casa n.º 26 da Rua do Beco, onde os pais tiveram uma taberna durante muitos anos. A irmã, Maria de Deus, era a esposa do João Jerónimo (dos Arrebotes), donos da taberna na Rua da Igreja, já referida neste blogue.


José Diogo, em fotografia cedida pela neta Cristina Bartolomeu.

O Zé Companhia era o José Diogo, cuja genealogia apresentamos:
1. Agostinho Diogo casou com Maria de São João, ambos de S. Vicente da Beira, onde viveram na passagem do século XIX para o século XX.
2. José Diogo (1902-1977), filho dos anteriores, casou com Maria do Carmo, também natural de S. Vicente da Beira. O casal teve os seguintes filhos:
3. João Diogo Costa, casado com Ilda Caio; Maria das Dores, casada com João Gonçalves; Manuel Diogo, casado com Ana Maria Rodrigues (ambos falecidos); Maria do Patrocínio, casada com José Duarte (falecido); António do Carmo Diogo, casado com Maria da Conceição Nunes Candeias; José Diogo, casado com Chantal Lamblin.


A fonte de São João de Brito avista-se na esquina da Praça, entre o pelourinho e o coreto. Fonte e coreto foram demolidos cerca de 1970, no âmbito de um plano de remodelação da Praça. A casa com varanda, à esquerda, foi onde nasceu o João Engenheiro. Foto do Pedro Gama Inácio.


A fonte de São João de Brito. Foto do Pedro Gama Inácio. A imagem está invertida.


Pormenor da parte da fonte aproveitada, cerca de 1980, para fazer o fontanário existente junto à capela de São Francisco.


Outra parte da fonte, reaproveitada para fazer este marco de água em tanque, nas obras de requalificação da Praça, em 2003-2004. Ao fundo, a esquina onde se situava a fonte de São João de Brito.


Fachada do edíficio da antiga Câmara Municipal, com o brasão ali colocado cerca de 1950. Durante séculos, o brasão esteve por cima da porta de entrada da Câmara.


O brasão manuelino, com a coroa real recuperada pelo João Engenheiro e pelo Zé Companhia. Mesmo na fotografia conseguem-se notar os diferentes tons das pedras utilizadas nas duas partes.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Perder alguém

Todos nós já perdemos alguém muito querido. Somos natureza e ela impõe a sua lei.
Eu perdi o meu pai por duas vezes, mas, na primeira, tive-o de volta.

Foi em 1967, nos inícios do mês de Dezembro.
Como de costume, o meu pai vinha passar o tempo frio connosco.
Na altura, achava que os patrões franceses nos faziam um grande favor, mandando-nos o meu pai de volta. Hoje percebo que, no final de cada Outono, eles despediam todos os trabalhadores, com a promessa de os readmitir por finais de Março ou princípios de Abril, quando o tempo aquecesse e as obras na construção civil fossem retomadas. Adiante…
O meu pai avisara, por carta, do dia da chegada. Mas, na véspera, houve um grande acidente ferroviário, em Espanha. Dois comboios chocaram de frente, em cima de uma ponte. A televisão mostrou fotografias de carruagens penduradas para o rio. A rádio dizia que havia muitos emigrantes portugueses mortos.
E o meu pai não chegou no dia seguinte!
A minha mãe correu para casa do irmão dela, o meu tio António Prata, uma das poucas pessoas da Vila que tinha telefone.
Mas regressou sem notícias. Era cedo para saber alguma coisa. Vestiu-se de preto e não parava de chorar.
No dia seguinte, voltou para lá e nós, muitas crianças, ficámos sozinhos em casa.
À noite, regressou a casa, ainda de luto e chorosa. O tio António telefonara para o Governo Civil e o meu pai não constava da lista dos mortos. Mas ainda não havia certezas.
O Diário de Notícias trazia uma fotografia de mulheres de preto que tinham perdido os maridos. Não sei se foi a minha mãe que nos contou ou se trouxe mesmo o jornal do tio António.
E o meu pai continuava sem aparecer.
Sentia-me perdido, sem interesse por nada. Estávamos à espera do meu pai para passar o Natal e era com os vales dele que a minha mãe pagava todos os meses a conta na loja do senhor Jaquim Boas Noites. Sem ele, como seria? Éramos tantos e a minha mãe não ganhava dinheiro!
Acho que o terceiro dia foi segunda-feira e eu fui à Escola. Passei o dia mole, apático.
À saída, sem vontade, fui caminhando para casa. Cruzei-me, na Praça, com o Chico Chamiço.
“Já viste o teu pai? Fui agora mesmo ajudá-lo a levar as malas à Tapada. Venho de lá.”
Corri, corri, rua acima, quelha acima. Já tinha outra vez pai!



Nota:
Afinal, o comboio do meu pai vinha atrás daquele que teve o acidente. Foi desviado para sul e andaram às voltas por Espanha, até pararem numa estação. Foram todos ao restaurante, a matar a fome de dias. Tentaram explicar-se em espanhol, mas os empregados viram que eram portugueses.
“Falem português, que estamos em Portugal!”
Gritos e abraços, caldo verde e vinho com fartura. Estavam na fronteira do Alentejo.
Há anos, fui buscar o meu filho a Vilar Formoso. Ainda mal o comboio parara e já dezenas de homens saíam, aos gritos e em corrida, para os bares. Só percebi a expressão “cerveja portuguesa”.
Eram trabalhadores sazonais, de volta a Portugal.
Então compreendi melhor a festa do caldo verde que o meu pai me contara, em criança.
E também o significado da expressão matar saudades.

sábado, 28 de novembro de 2009

1 de Dezembro de 1640


Em 2004, aquando das Comemorações dos 450 Anos da Morte do Padre Leonardo Nunes, o Tenente Coronel Pires Nunes mostrou o seu espanto por haver, em S. Vicente da Beira, tantos homens que se foram da lei da morte libertando, como escreveu Luís de Camões, referindo-se aos que, por acções gloriosas, não caíram no esquecimento dos homens.
Isto a propósito do P.e Leonardo Nunes, de D. Fernando Rodrigues de Sequeira e de António de Azevedo Pimentel. Seria da água!

António de Azevedo Pimentel ficou na história desta região como o 1.º a aclamar D. João IV como rei de Portugal, em S. Vicente da Beira e em Castelo Branco.
Na vila de S. Vicente, onde era capitão-mor, o mais importante cargo militar do concelho, levantou bandeira por Portugal e D. João IV. O mesmo fez depois em Castelo Branco, levando esta vila acastelada a romper com o domínio espanhol e a aclamar D. João IV.


E tinha muito a perder.
A fronteira espanhola fica perto e os espanhóis não tardariam a invadir Portugal.
Por outro lado, possuía uma grande propriedade, na vila de São Felices dos Galegos, Espanha, administrada pelo seu cunhado, o qual acabou por ter de a abandonar, não sem antes distribuir, pelas populações da fronteira portuguesa de Almeida, os géneros alimentícios que lá tinha armazenados.
Esta propriedade era um morgado de bens de raiz, no valor de mais de 20 mil cruzados.
Temos notícia destas ocorrências por um processo da Mesa do Desembargo do Paço, de 24 de Julho de 1641.
Nele, António de Azevedo Pimentel suplicava que lhe fosse dado um morgado na cidade da Guarda, propriedade de um castelhano de Cidade Rodrigo. A posse desta propriedade compensaria a perda do morgado de São Felices, permitindo-lhe levar uma vida digna e cumprir as suas obrigações.
Também se oferecia, com dois sobrinhos e cunhados, um letrado e outro mudo, de idade entre 25 e 30 anos, para com eles servir na guerra contra Espanha.
Desconhecemos a decisão final de Sua Majestade, mas é de supor que tenha sido favorável, pois a opinião da Mesa do Desembargo do Paço foi nesse sentido.
Há que recordar que António de Azevedo Pimental era fidalgo da Casa Real e como tal estava proibido de trabalhar, mesmo de exercer o cargo de tabelião, em Castelo Branco, ofício herdado por sua esposa, de seu pai.
E que, na época, os cargos políticos e militares que os nobres exerciam, como o de capitão-mor de São Vicente da Beira, raramente eram pagos em dinheiro, mas em doações, como esta que António de Azevedo Pimentel requeria ao rei.


Foi Hipólito Raposo quem nos deu a conhecer este naco da nossa história, no artigo “Um Beirão Restaurador” da sua “Oferenda”. E terminou, orgulhoso:
«Por agora, resta-me saudar e louvar a memória de António de Azevedo Pimentel, bom português e vassalo fiel, capitão-mór da minha vila natal, muito provàvelmente comandante militar de avoengos meus, soldados nas primeiras refregas com tropas castelhanas na fronteira beiroa, a lutar pela restauração de Portugal.»

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Padre Leonardo Nunes

Há oito dias, um município brasileiro pediu à Câmara Municipal de Castelo Branco o envio do livro “Abarebebê” Tão rápido como um beija-flor, do nosso conterrâneo José Miguel Teodoro.
Porquê este interesse tão longínquo? Porque o livro é sobre Leonardo Nunes, um dos padres jesuítas pioneiros na missionação do Brasil.

Leonardo Nunes nasce, em S. Vicente da Beira, no seio de uma família de cristãos-novos, antigos judeus convertidos ao Cristianismo. Seu pai é Simão Álvares e sua mãe Isabel Fernandes. Veio ao mundo em data incerta, possivelmente, em 1518.
Já era padre, quando, em 1548, entra para a Companhia de Jesus.
A partir do colégio da Companhia, em Coimbra, percorre o Minho e a Beira, em pregação e vivendo de esmolas, o que muito chocou seus pais, quando o viram a mendigar, na sua terra natal.
Em 1549, parte para o Brasil, incorporado na armada de Tomé de Sousa, o primeiro governador-geral desta colónia. Integra um grupo de jesuítas chefiados por Manuel da Nóbrega. Os outros são o P.e António Pires de Castelo Branco, o P.e Juan de Azpilcueta de Navarra, o Irmão Diogo Jácome e o Irmão Vicente Rodrigues.
A sua missão é converter os índios e dar assistência religiosa aos portugueses que lá viviam.
Nos anos 1550 a 1554, Leonardo Nunes fica em São Vicente, ajudado pelo Irmão Diogo Jácome. São Vicente era já uma grande colónia portuguesa, desde 1530. Ali funda um colégio e depois aventura-se montanha a dentro, onde tem contacto com os indígenas e enfrenta os caçadores de índios que os queriam escravizar. O filme “A Missão” é um excelente testemunho da realidade que o P.e Leonardo Nunes ali viveu.
No ano de 1553, o P.e Manuel da Nóbrega, o Provincial da Companhia de Jesus, junta-se a Leonardo Nunes, em São Vicente, centralizando ali o trabalho missionário dos jesuítas, no Brasil. Manuel da Nóbrega fixa-se nos campos de Piratininga, numa aldeia, onde funda o Colégio de São Paulo, que deu nome à pequena povoação e hoje enorme cidade de São Paulo.
Nesse ano de 1553, Leonardo Nunes desloca-se à Baía, de onde regressa com o Irmão e futuro Padre José de Anchieta, outra figura cimeira na missionação do Brasil.
No ano seguinte, 1554, o P.e Leonardo Nunes embarca para Lisboa, com destino a Roma. Manuel da Nóbrega encarregara-o de transmitir a (Santo) Inácio de Loiola os sucessos da Companhia de Jesus no Brasil.
Mas o barco naufragou ainda à vista da vila de São Vicente, arrastando consigo o nosso Leonardo Nunes, apenas com 36 anos, os últimos 5 como missionário no Brasil.



Ficha Técnica:
Autor: José Miguel Teodoro
Projecto: Comemorações dos 450 Anos da Morte do Padre Leonardo Nunes
Ilustrações / Gravuras: José Miguel Teodoro e António Cavaco
Fotos: Tó Sabino e Américo André (profesor da EBI)
Concepção gráfica da capa: António Cavaco (actual Director da EBI)
Desenhos: Alunos da EBI de São Vicente da Beira
Composição, impressão e acabamentos: Semedo - Sociedade Tipográfica Lda
Edição: Câmara Municipal de Castelo Branco
Ano: 2004
Número de páginas: 269
À Venda: Estação dos Correios (S. Vicente da Beira), Papelaria Central (C. Branco) e Quiosque Vidal (C. Branco)
Nota: A síntese acima apresentada foi elaborada a partir do Prefácio deste livro

domingo, 15 de novembro de 2009

As Chuvadas de Novembro

Não participei no passeio pedestre pela encosta da Gardunha, organizado pelos nossos Bombeiros. A noite foi chuvosa e o clima matinal estava instável. Fiquei-me por Castelo Branco.
Mas um bom grupo de gente corajosa meteu pés ao caminho. Arriscaram e petiscaram. O mundo é dos afoitos, como diz o povo. Fica para a próxima.


As chuvas de Novembro são incertas. Tanto se podem ausentar durante anos, fazendo o Verão de S. Martinho, como chegar de mansinho ou caírem torrenciais e arrasarem tudo.
As deste ano são mansas (estão a ficar bravas, no centro e norte do país), mas as chuvadas mais violentas costumam cair neste período de transição entre o fim do tempo quente e a chegada do frio invernal.
A memória dos homens dá-nos alguns testemunhos de temporais de Outono.
A referência constante a Alcains deve-se ao facto de se situar num vale, nas margens da ribeira da Líria. Em S. Vicente da Beira, as ocorrências terão sido muito semelhantes às das outras povoações da região.

Novembro de 1807
O Exército Francês atravessou a França em direcção a Portugal, sempre debaixo de uma chuva impiedosa. Os soldados franceses chegaram a Castelo Branco, no anoitecer do dia 20, exaustos, encharcados e famintos.
Na noite de 21, havia 16 mil homens em Castelo Branco e arredores. Acenderam uma fogueira na igreja do castelo, para secarem a roupa e se aquecerem. O templo acabou por pegar fogo. Pelos campos, onde pernoitaram milhares de soldados, cortaram-se as oliveiras para alimentar fogueiras.
A passagem para Lisboa era difícil, neste tempo de poucas pontes e frágeis barcas. Choveu torrencialmente durante semanas e os rios e ribeiras iam de enxurrada. Muitos soldados morreram na travessia e outros andavam às voltas, na esperança de passagens mais favoráveis.
No dia 1 de Dezembro, Castelo Branco, uma cidade de cerca de 1000 habitantes, tinha alojados cerca de 6000 franceses. Todos os dias chegavam novos regimentos, mas a chuva não lhes permitia a partida. As cavalarias não tinham como atravessar rios e ribeiras.

Novembro de 1852
As ribeiros de Alcains galgaram os seus leitos, como não havia memória. A água subiu aos 4 metros, na parte baixa da povoação.
A ribeira da Ocreza subiu 12 palmos acima da maior elevação conhecida até à data. A torrente levou todos os moinhos e pontes. Houve mortos e desaparecidos.

Novembro de 1908
No dia 8, caiu uma tromba de água sobre Alcains. A água submergiu a parte baixa da povoação e muitas pessoas foram salvas pelos telhados, por pontes que se fizeram com as escadas de colher a azeitona.
A ribeira da Líria tomou tamanho caudal que destruiu a ponte da estrada para o Salgueiro.
A linha do caminho de ferro ficou interrompida próximo da estação de Alcains.
Não escapou nenhum dos moinhos da ribeira da Ocreza.
Nas Benquerenças, o temporal levou um moleiro, apanhado desprevenido no seu moinho.

Novembro de 1937
Pelos meados do mês, caiu uma tromba de água, sobre a parte este da Gardunha, levando a destruição às gentes das duas vertentes da serra. A maior descarga foi sobre o Sobral do Campo e depois Louriçal do Campo, Soalheira, Alpedrinha, Donas, Capinha…
Parte da população de Alcains esteve em sério risco. A água levou uma ponte da Ocreza e três da Líria. Desaparecerem moinhos e azenhas.
A Câmara de Castelo Branco teve de conceder subsídios para reparação dos caminhos nos Escalos de Baixo, Sobral do Campo e Louriçal do Campo.
O melhor testemunho deste temporal é uma carta de Armando Prata Lizardo, morador no Louriçal do Campo, publicada no jornal “A Beira Baixa”, de 27 de Novembro. Transcrevem-se alguns excertos.

«…foram arrastadas pela torrente impetuosa as azenhas, algumas delas pela base, ficando sem recursos algumas pobres famílias (…). Prédios rústicos, que ladeavam a ribeira, ficaram sem a camada de cultura, que as águas arrastaram, deixando a descoberto a rocha. Outros ficaram cobertos de uma espessa camada de areia, tornando impossível a cultura durante muito tempo (…).
A ponte de comunicação com a povoação da Torre ficou quasi por completo destruída (…), No mesmo estado ficou a ponte que faz a ligação de Louriçal com S. Vicente da Beira.
(…) Estragos iguais se deram na freguesia de S. Vicente da Beira, onde muita e pobre gente ficou reduzida a uma situação aflitiva.»


Em S. Vicente, os potes grandes do lagar que foi de José Mesquita, recentemente falecido, foram arrastados ribeira abaixo e ficaram presos nos amieiros junto à ponte do Ramalhoso, no Sobral, segundo me contou o centenário Tio Joaquim Teodoro.
A minha mãe, Maria da Luz Prata, nascida em 1927, lembra-se bem de as pessoas andarem a acarretar terra em cestos, para refazerem os terrenos agrícolas das margens da ribeira.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Invasões Francesas 9


Os invasores à chegada a Portugal, em Novembro de 1807, numa gravura da época.

Continuamos a dar notícia dos serviços prestados pelos ganhões da freguesia de S. Vicente da Beira, aos exércitos de Portugal e de Inglaterra, em luta contra os invasõres franceses, nos anos 1807-1812.

Vila
O ganhão de Francisco Ferreira foi de Abrantes para Cidade Rodrigo, com uma carrada de pólvora e bala, em Novembro de 1809. Gastou 28 dias.
A fortaleza de Cidade Rodrigo, na fronteira de Espanha com Portugal, desempenhou um papel muito importante nesta Guerra Peninsular, pois guardava uma das melhores portas de entrada de Espanha em Portugal.
O ganhão de Joaõ Roiz Lourenço Caio transportou farinha de Abrantes para Castelo branco, em Novembro de 1811, tendo demorado 10 dias. O carro de bois era puxado por uma vaca do patrão e outra da viúva de Antonio da Silva.

Mourelo
Em Novembro de 1811, foram dois carreiros deste monte, para a Covilhã, dali seguiram para Vila Velha, de onde voltaram para o Fundão. A documentação não nos informa da mercadoria que transportaram, mas sabemos que gastaram 13 dias.
Um carro era puxado pelas vacas de Joam Francisco e da viúva Maria Nunes. O outro pelas de Joze Mateos e Manoel Leitam.
Como já escrevi anteriormente, penso que estes lavradores tinham a junta a meias.

Para saber mais, consultar: "O Concelho de S. Vicente da Beira na Guerra Peninsular", de José Teodoro Prata, publicado pela Associação dos Amigos do Agrupamento de Escolas de São Vicente da Beira, em 2006.

sábado, 7 de novembro de 2009

Passeio na Gardunha


No próximo dia 15 de Novembro, domingo, temos passeio pedestre, pela Gardunha.
A organização é dos Bombeiros Voluntários de Castelo Branco, Grupo de São Vicente da Beira. O GEGA e a Junta de Freguesia apoiam.
O percurso está traçado, na imagem apresentada (clicar em cima, para ver melhor).
Não o conheço em toda a sua extensão, mas parece-me um percurso equilibrado:
- Não é excessivamente longo e só há uma subida acentuada (da Senhora da Orada ao Alto da Portela).
- Tem alguns pontos fortes: zona onde vai ser criada uma área de lazer, com lagar e moinhos antigos; vale agrícola da ribeira; ermida da Senhora da Orada; antiga estrada real, ainda com troços de calçada medieval; paisagens do Alto da Portela e doutros cumes; barragem do Casal da Serra...

Programa:
8.00 Concentração no quartel dos Bombeiros
8.30 Pequeno almoço
9.00 Início do passeio
13.00 Chegada
13.30 Almoço, convívio e visita ao museu (do GEGA ?).
Preço: 10 vicentinos (para pagar despesas)
Inscrições: 963269688 922022670 937901113 926438561


Lá estarei!
Aos que não forem, darei notícias.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Cumprir a Tradição


O Padre José Pegado de Sequeira, vigário de S. Vicente da Beira, em 1758, informou, nestes termos, sobre o Castelo Velho, situado na serra da Gardunha, nas respostas aos inquéritos pombalinos, conhecidas por Memórias Paroquiais:

A tradição que há deste castelo é que, no tempo em que este reino era povoado de mouros, se conservava no dito castelo alguns cristãos e aí viviam.
E vindo o Senhor Rei Dom Afonso Henriques conquistando estas terras, todas povoadas de mouros, no sítio da Oles, limite da mesma vila, no fundo da serra e referido sítio, por ser campina dilatada, se deu uma batalha contra os mouros, que eram já copiosos
(numerosos), o que observavam os cristãos que estavam no dito castelo.
E conhecendo que o dito Rei com seu exército enfraquecia, lhe saíram em socorro do castelo os cristãos e pondo-se da parte do dito Senhor Rei, em breve tempo venceram e desbarataram o inimigo.
Informado de quem eram e de sua assistência, entre muitos e amplos privilégios lhes assignou
(assinalou) o sítio aonde está edificada a vila, para no mesmo a fundarem, o que fizeram.
E depois de edificada e já povoada a foram oferecer ao mesmo Senhor, no dia em que se trasladava o corpo do Mártir São Vicente da Igreja de Santa Justa para a Sé de Lisboa, por motivo do qual o dito Senhor Rei, aceitando a vila, lhe deu por nome São Vicente, querendo que o Santo Mártir fosse da mesma vila padroeiro, dando aos mesmos moradores dela parte do seu queixo, que hoje se venera na dita vila.
E lhe confirmou na mesma ocasião grandes privilégios e isenções, com a condição de que todos os anos irem ao dito Castelo Velho, câmara e povo, a fim de se conservar sempre em ser para memória do sucedido, o qual se observou por muitos anos. E o descuido dos moradores foi causa para se perderem os ditos privilégios, deixando de satisfazer a condição com que foram dados.


Vamos recomeçar a cumprir a obrigação que os nossos antepassados negligenciaram?
É um excelente cartaz turístico!

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Pedir o santoro


Era segunda-feira, hora de entrar para a escola. As crianças, na praça, aguardavam as professoras. Mas passaram as 9 horas e nada. Nem apareciam do lado da Igreja, vindas de casa, na Rua de São Francisco, nem chegava o táxi que as trazia de Castelo Branco.
Fomos esperando, ansiosos por passar um dia sem escola e logo um como aquele, o de pedir o santoro!
O dia dos santorinhos era um dos raros, senão o único, em que tínhamos liberdade de andar horas fora do controle das nossas mães e chegar até ao Casal (da Fraga), ao Caldeira ou às Quintas.
O relógio da torre continuou a sua marcha, sempre a descer, até à meia hora. As professoras não vinham mesmo! Mas ninguém ousava arredar pé.
O ponteiro dos minutos parecia andar agora mais devagar, na subida até ao 12. Já rondávamos as tabernas do Noco e da Viúva e o café da Tia Eulália. Mas nenhum arriscava começar a pedir o santoro à hora da escola.
Bateram as 10 badaladas no sino da torre. Era o nosso limite. Entrei quase a correr na taberna da Viúva e fui direito ao balcão: “Dê-me um santorinho!”
A senhora de preto perguntou pela escola, a mim e aos outros. Estava-se a decidir, quando ouvimos um carro a curvar a esquina. Chamamentos dos que estavam fora, correrias na rua. Azar, mesmo quando tínhamos começado! Saímos também a correr, todos em direcção ao balcão. Paciência, ficava para depois da escola.
As professoras tinham ido buscar os nossos livros à papelaria, que só abria às 9 horas. Levámos recados para as mães, a dizer quanto era. Íamos ter livros novos.
À saída, fomos pedindo o santorinho, rua acima, mas davam pouco. O que nos valia, aos da Tapada (eu, as minhas irmãs e os meus primos), era que conhecíamos bem as Quintas, onde poucos da Vila se arriscavam. Lá é que era bom.
Havia a Senhora Luz Romualdo, o Senhor Augusto, o Miguel e o Ti João da Cruz. Podia falhar um, mas davam os outros. Uma romã numa casa, três passas na outra, duas maçãs de bravo mofo no Senhor Augusto e uma mão cheia de castanhas do rabusco nos castanheiros do Carvalhal Redondo e do alto dos Carqueijais. Delícias.
Voltávamos a casa, ao anoitecer, quase sem nada, na bolsa, para partilhar com as nossas mães e irmãs mais novas, mas felizes com a aventura e o consolo dos santorinhos.

Notas
1. Bravo mofo é o nome que damos à maçã bravo esmolfe. O povo não gosta de coisas complicadas e simplifica. Esmolfe é o nome de uma povoação do concelho de Penalva do Castelo, Beira Alta, onde esta variedade de maçã era e é muito abundante.
2. Não me lembro que dia foi esta segunda-feira. Talvez fosse, como neste 2009, o dia seguinte ao de Todos os Santos, 2 de Novembro. É o Dia de Finados, mas não é feriado. Era nesse dia que se pedia o santoro, nos anos 60. Agora pede-se dois dias antes, na véspera do Dia de Todos os Santos, em resultado da aculturação que temos sofrido por parte da cultura norte-americana. E ameaça-se o dono da casa com travessuras, se não der doces. Nisto, a nossa tradição é melhor, menos agressiva.

domingo, 1 de novembro de 2009

Padre Lúcio Brandão


Foto roubada ao blogue saboresdabeira, que é o ponto de contacto dos ex-alunos do Verbo Divino, a viver na região de Lisboa. O nosso Chico Barroso é um dos dinamizadores. Na fotografia, o P.e Lúcio é 1.º à direita da fila de cima. Na fila de baixo, está o P.e Jerónimo.

Tem sentido usar este espaço para enviar um abraço do Padre Lúcio a todos os ex-alunos do Seminário do Tortosendo. A relação da Sociedade do Verbo Divino com a comunidade de S. Vicente da Beira é tão estreita que quase formam uma só.

Ontem, realizou-se mais um encontro dos ex-alunos do Seminário do Tortosendo. É todos os anos, sempre no último sábado de Outubro.
Da freguesia de S. Vicente da Beira, estávamos cinco: o reitor, Padre Jerónimo; o Irmão José Amaro, do Violeiro; um Magueijo do Mourelo, juiz desembargador jubilado, a viver em Lisboa; o José Jerónimo, reformado das Finanças e filho do (tio do meu pai) Miguel Jerónimo do Cimo de Vila, também a residir em Lisboa; e eu.
Tínhamos a receber-nos uma surpresa vinda do Brasil, o P.e Lúcio Brandão. Pediu-me, repetidamente, que desse um abraço, por ele, a todos os ex-alunos da SVD, naturais de S. Vicente da Beira. Aqui fica.
Quase todos os miúdos da escola o conheceram, mesmo sem terem frequentado o Seminário: ele era o missionário muito alto, com fala meio a cantar, que vinha todos os anos às turmas dos rapazes da Escola Primária, a maravilhar-nos com histórias das Missões e a perguntar quem queria seguir esse caminho.
O Padre Lúcio regressará brevemente ao Brasil, onde vive desde 2002.
Veio agora expressamente para participar nos 60 anos da Fundação da SVD em Portugal, precisamente no Seminário do Tortosendo.


Logotipo das Comemorações dos 60 Anos dos Missionários do Verbo Divino em Portugal.

Entre outros eventos, fez-se uma exposição, de que deixo uma imagem. Ao lado, está o caderninho do Maestro, com as notas dos alunos, no desempenho dos vários instrumentos!

Esta foto foi tirado do blogue http://svd-tortosendo.blogspot.com/. Podem lá encontrar outras, mas o melhor é visitar a exposição.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Os Museus de Luci Bento


As bonecas de Luci Bento

Toda a vida de Luci Bento é norteada pela concretização de um objectivo: a realização pessoal, o fazer aquilo de que gosta, que lhe dá prazer. Afinal, que melhor definição para uma artista?
Divide-se entre a Suiça e Portugal, as raízes e o país que lhe deu a oportunidade de descobrir a artista que vivia dentro de si.
Passa agora mais tempo entre nós e já se vêem os frutos dos seus projectos. As casas reconstruídas na Partida e no Vale de Figueiras destinam-se a expôr o produto do seu trabalho: as pinturas, as bonecas e as antiguidades.
Quer deixar aos netos as coisas que os avós usavam, para que eles percebam como foram esses tempos passados. Por isso, defende que nada se deite fora.
Uma mulher com três projectos: um Museu das Antiguidades, um Museu de Bonecas (tem cerca de 3 mil, muitas feitas por si) e um Museu da Pintura (a sua).
O seus quadros e as suas bonecas são os frutos do seu trabalho, já reconhecido internacionalmente. As antiguidades são as suas raízes.
Temos pedalada para esta mulher? Vão as associações, os poderes e a sociedade saber aproveitar aquilo que tão generosamente nos oferece? Oxalá!


Luci Bento e as suas velharias

Notas:
1. Fonte: Jornal Povo da Beira
2. Escrevo Vale de Figueiras, pois era esse o nome da povoação. Só recentemente, por erro de alguém, é que a passaram a denominar Vale de Figueira.

sábado, 24 de outubro de 2009

Cabeço do Padre Teodoro


Foto do Cabeço do Padre Teodoro, na actualidade, visto do lado do poente.

No relato da minha experiência autárquica, no iníco dos anos 80 ("Experiência Autárquica" de 16 de Outubro), fiz referência ao Cabeço do Padre Teodoro.
Este sítio, junto ao Marzelo, local onde se cruzavam as estradas norte-sul (C. Branco-Fundão/Covilhã), pelas Vinhas e Poldras, seguindo pela Corredoura, em direcção à Senhora da Orada, e este-oeste (Alpedrinha-Almaceda), por dentro da Vila e saindo pela ponte, junto a Santo André, era, em 1975, propriedade dos herdeiros do visconde de Tinalhas.
Porquê este topónimo (Padre Teodoro) e estes donos?
Eis a explicação:

O Padre Theodoro Faustino Dias viveu, no século XVIII, em Tinalhas. Foi cura (pároco) do Freixial do Campo, no 3.º quartel desse século.
Era um grande agricultor, tendo herdado propriedades de vários familiares, um dos quais lhe deixou um morgado (conjunto de propriedades indivisível) que veio a ser a base do património dos seus descendentes, os viscondes de Tinalhas.
O Padre Teodoro era, por exemplo, o maior criador de gado bovino do concelho (cerca de 30 cabeças).
Mas nem sempre foi padre. Só seguiu o sacerdócio após enviuvar, pouco antes de 1750.
Casara com Maria Cabral de Pina, do monte do Violeiro, filha do Sargento-Mor Domingos Nunes Pouzam e de Brittis Maria Cabral de Pinna, ele do Violeiro e ela da Quinta da Canharda, freguesia de S. Miguel de Fornos, junto a Algodres.
Este casal teve vários filhos: a Maria, já referida, um Joam Cabral de Pinna, que viveu em S. Vicente e depois no Fundão, e outros quatro filhos que se fixaram em S. Vicente da Beira. Foram eles o Padre Manoel Cabral de Pinna, o Padre Estevam Alvares de Pinna, Brites Cabral e Joanna Cabral. Os dois irmãos padres e as duas irmãs solteiras viviam numa casa situada na rua que vai da praça para a ponte, como então se designava a actual Rua Nicolau Veloso.
Por morte dos pais, foram herdeiros de muitas propriedades, na Vila e no Violeiro. Por exemplo, pertenciam-lhes a Azenha Nova e o lagar junto à capela do Apóstolo Santo André, ao fundo da Devesa.
É natural que estas propriedades dos irmãos Cabral de Pina tenham sido herdadas pela sobrinha que tinham em Tinalhas, a filha de Theodoro Faustino Dias e de Maria Cabral de Pinna. Não era filha única. Tinha um irmão, Estevão Dias Cabral, que era padre jesuíta e faleceu, na Vila, em 1811. Também a herança deste terá passado, mais tarde, para a herdeira do já então Padre Theodoro Faustino Dias.
Chamava-se Euzebia Dias Cabral e casou com Antonio Jozé Ferreira Meyreles Ferreira Gramaxo, natural do Fundão, mas a viver na Soalheira.
Cerca de 1800, surge frequentemente na documentação o nome deste Antonio Meyreles, com muitas propriedades, incluindo residência, em S. Vicente da Beira, que eram as que a esposa herdada do ramo materno da família.
Foi o neto de Antonio Meyreles e de Euzebia Dias Cabral, chamado José Coutinho Barriga da Silveira Castro e Câmara, que recebeu o título de visconde de Tinalhas.
O seu filho e 2.º visconde, Tomás de Aquino Coutinho Barriga da Silveira Castro e Câmara, foi presidente da Câmara de S. Vicente da Beira, em finais do século XIX.
A sua residência era na casa onde viveu o tio Albano Jerónimo, situada na rua que vai da praça para a ponte, e que é agora de Luís Barroso. A casa anexa a esta, na Rua Velha, para o lado nascente, servia de cozinha à residência do visconde e foi dela que veio o lintel manuelino que está actualmente nas traseiras da Igreja Matriz, numa janela aberta aquando das últimas obras, nos anos 80.

O cabeço junto ao Marzelo seria, então, uma das propriedades da família Cabral de Pina, também antepassados dos viscondes de Tinalhas.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Invasões Francesas 8


Gravura da época das Invasões Francesas, representando um soldado francês a carregar com tudo o que pode levar, roubado aos portugueses.

No mês de Outubro de 1811, vários carreiros da freguesia de S. Vicente da Beira foram requisitados para prestar serviços aos exércitos português e inglês, em lutam contra os franceses.

Quatro carros de bois foram a Abrantes buscar mantimentos para Castelo Branco, conduzidos por:
Pedro,ganhão de Berardo Joze Leal, o feitor de Gonçallo Caldeira, o pai do futuro 1.º visconde da Borralha (trouxe uma pipa de vinho). Regressado a S. Vicente, foi mandado levar uma carga de pão cosido ao Fundão.
Manoel de Oliveira e Francisco Ferreira, de S. Vicente da Beira (transportaram farinha). Francisco Ferreira era uma pessoa importante na Vila, pelo que não teria a junta a meias com Manoel de Oliveira. Terá ido uma vaca de cada um.
Joam Antunes Piqueno e Joze Alves do Mourelo. Neste caso, é provável que tivessem a junta a meias. Aliás, pelo grande número de ganhões deste monte que faziam os transportes aos pares, é provável que essa fosse uma prática muito comum no Mourelo.
Joaõ Figueira dos Pereiros. Este carro e o anterior foram mandados de volta a Abrantes, para trazerem mais uma carga de mantimentos para Castelo Branco.

Cinco carros de bois partiram de S. Vicente, em comboio (todos juntos, uns a seguir aos outros) e chegaram ao Fundão. Aí não tinham nada para transportar e mandaram-nos à Covilhã, onde também não havia nada para levarem. Foram então enviados a buscar farinha a Vila Velha (aqui chegada via fluvial), para o Fundão. Andaram nesse serviço os seguintes ganhões:
Joze Mateos do Mourelo
Manoel Alves do Mourelo
Manoel Mateus da Partida
Joaõ Antunes dos Pereiros
Victorino, filho de Joanna Gonsalves, do Tripeiro

Domingos Silva de S. Vicente da Beira foi levar uma carga de centeio ao Sobral de Casegas, para as guerrilhas (grupos de populares armados, em luta contra os invasores franceses).

Para saber mais, consultar: "O Concelho de S. Vicente da Beira na Guerra Peninsular", de José Teodoro Prata, publicado pela Associação dos Amigos do Agrupamento de Escolas de São Vicente da Beira, em 2006.

sábado, 17 de outubro de 2009

Homenagem

Há oito dias, vésperas das eleições autárquicas, fui surpreendido com a ausência do Vitor Louro da lista do Partido Socialista.
Ele integra a equipa que guiou os destinos da nossa freguesia, nestes últimos quatro anos.
A minha primeira reacção foi escrever aqui o quanto lamentava a sua saída, mas decidi esperar até falar com ele.
Encontrei-o hoje e soube que as razões são do domínio da dignidade e da verticalidade.
Mais lamento a sua saída, mas também a acho mais natural, pois é bom não perdermos a dignidade e a verticalidade. Elas não têm preço!
O Vitor é um dos melhores da minha geração. Muito inteligente, com um sentido crítico desarmante, sem ser ofensivo, e uma enorme sensibilidade para as questões sociais.
Recordo uma conversa que tivemos após as eleições de há quatro anos. A preocupação que ele revelava em ajudar a resolver os problemas concretos das pessoas, mesmo das que tinham apoiado a lista adversária.
É uma sorte para S. Vicente ter o Vitor a residir na nossa terra, ele que a adoptou como sua. E é um desperdício não aproveitar todo o seu podencial intelectual e humano!
Um abraço para ele.

Nota: Não vale especular sobre esta publicação. A minha conversa com o Vitor durou um minuto. Fiquei a saber o essencial, apenas, e chegou-me. Segundas leituras, nem eu tenho dados para as fazer, não tenho de ter, nem interessam.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Experiência Autárquica

As eleições para a Assembleia de Freguesia trouxeram-me à lembrança a minha experiência autárquica.

Estávamos no início da década de 80 e a lista ganhadora era a do PSD+CDS, encabeçada pelo Ernesto Hipólito, pois o Francisco Alves, anterior Presidente da Junta, candidatava-se à Câmara.
Eu concorri pela APU, antiga CDU, tentando juntar numa única lista os votantes da UDP, de que eu saíra recentemente, e do Partido Comunista. Elegemos dois elementos, eu e o Sr. Artur, o taxista de S. Vicente, naqueles tempos.
No primeiro ano, procurei cumprir as minhas obrigações de representante do povo: falava com as pessoas e levava as suas propostas às reuniões da Assembleia de Freguesia.
Num desses encontros, em casa do Sr. Adriano, na Rua de S. Sebastião, fiquei a saber que, em pleno Verão Quente de 1975, só não levara uma sova à porta do Barracão porque era filho do meu pai.
Havia uma reunião de pessoas de S. Vicente com funcionários do Ministério da Agricultura, a fim de tratar da criação de uma cooperativa para explorar o cabeço do Padre Teodoro. Mas outras pessoas estavam interessadas na divisão do terreno em lotes, para cultivo individual. Essas foram à reunião e boicotaram-na antes de começar. E eu, que fora arregimentar alguns amigos para irmos apoiar a Reforma Agrária, só cheguei a tempo de cobrir de insultos os reaccionários. Valeu-me ser filho do povo, como se dizia nesse tempo do PREC.
Mas voltemos à Assembleia de Freguesia. Na reunião de Setembro, o jovem Tó Zé(António José Macedo) do Caldeira, então funcionário do Partido Comunista, pediu-me para apresentar à Assembleia uma moção contra as armas nucleares. Falou comigo, mas não com o Sr. Artur. Eu é que o informei da proposta do Partido, minutos antes da reunião, sentados no Pelourinho.
Apresentei a moção e fez-se a votação: 1 voto a favor (o meu), 1 contra (do Sr. Artur) e os restantes abstiveram-se. A moção não foi aprovada.
No final da reunião, o Tó Zé nem queria acreditar. O Sr. Artur, militante do Partido Comunista, não ia em pacifismos, mesmo que retóricos, e queria era uma URSS forte, para enfrentar o Mundo Capitalista!
Em finais de Dezembro, fez-se a reunião de balanço de um ano de mandato da Junta de Freguesia.
Não sei se li algures ou se me disseram, mas cheguei e pedi o relatório e contas do ano que terminava. O Presidente da Junta, o meu amigo Ernesto Hipólito, olhou-me com sincera surpresa, pelo pedido que eu acabava de fazer, pegou no dossier de facturas e outros papéis e passou-mo para as mãos. Eu folheei-o e, como não sabia o que fazer com ele, devolvi-lho, sem mais. Estava feito o balanço, com base na confiança mútua. Assim aprendemos a viver em democracia!
No ano seguinte, as coisas complicaram-se para mim. Fixara residência no concelho de Vila de Rei e, quando vinha de fim de semana, ficava em Cebolais de Cima e pouco vinha a S. Vicente. Perdi o contacto com a realidade local e faltei a algumas reuniões. Pedi para ser substituído, mas a CDU nunca o fez, não percebi porquê.
Assim acabou a minha experiência autárquica, sem honra nem glória. Mas não deixou de ser uma experiência positiva, que me trouxe alguns ensinamentos valiosos.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Eleições Autárquicas


Assembleia de Freguesia

Resultados:

PS: 541 votos (57,01%) - 6 mandatos

PSD: 355 (37,41%) - 3 mandatos

Eleitores inscritos: 1.605
Votantes: 949 (59,13%)

Nota: Os três primeiros da lista do PS saem da Assembleia de Freguesia e formam a Junta de Freguesia, sendo substituídos pelas pessoas que ocupam as posições 7.ª, 8.ª e 9.ª da mesma lista.

Fonte: www.noticias.rtp.pt

sábado, 10 de outubro de 2009

Canuto

O Paulo Duarte Almeida, autor do comentário na publicação “Gosto de figos”, de 10 de Setembro, diz-se descendente de João Leitão Canuto, que viveu em finais do século XVIII e inícios do século XIX, referido na publicação “Invasões Francesas 5”, de 26 de Setembro.
É filho de Maria de Jesus e de Francisco Nicolau. Mas este Francisco Nicolau não é cunhado do P.e Jerónimo, como eu julguei, na resposta ao comentário do Paulo.
A sua mãe era irmã de Basílio Moreira, casado com Maria Libânia, uma das irmãs do P.e Branco.
A minha tia Maria de Jesus Nicolau, casada com João Teodoro, o irmão do meu pai, era sua tia-avó.
A genealogia de Maria de Jesus, a mãe do Paulo Almeida, pode ser consultada no site de genealogias: http://www.geneall.net/P/per_page.php?id=280140.
Neste site, existem informações sobre outras famílias da nossa terra.
Também a obra em três volumes “Famílias da Beira Baixa”, de Manuel da Silva Rolão, recentemente editada e que pode ser consultada, pelo menos, na Biblioteca Municipal de Castelo Branco e na Torre do Tombo, em Lisboa, tem inúmeras referências a famílias de S. Vicente da Beira.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Autárquicas 2009


Depois de amanhã, domingo, na freguesia de S. Vicente da Beira, defrontam-se duas listas encabeçadas por homens já experientes na política.

Pelo PS, recandidata-se o actual Presidente da Junta de Freguesia, João Benevides Prata. Concorre ao terceiro mandato.
Depois dos anos passados em Castelo Branco, como professor na Escola Secundária Amato Lusitano, a qual dirigiu durante vários mandatos, regressou à sua terra para instalar a Escola Básica Integrada, ele que já dirigira o processo da sua criação.
Reformou-se das lides escolares e virou-se para as autárquicas.

Pelo PSD, concorre Francisco Alves. Não é um novato nestas andanças. No final da década de 70, presidiu à Junta de Freguesia, que depois trocou pela vereação na Câmara Municipal, integrando a equipa de César Vila Franca, no início dos anos 80.
É engenheiro de formação e reformado da Portucel - Vila Velha de Ródão.
Vive em Castelo Branco, mas continua intimamente ligado a S. Vicente, pela família e pelo saudável vício da agricultura.

Que ganhe o melhor!

sábado, 3 de outubro de 2009

Invasões Francesas 7

A guerrilha dos populares na Estrada Nova

Notas prévias:
1. Devem consultar-se as imagens das publicações de 26 de Setembro (Invasões francesas 5) e de 3 de Setembro (Estrada Nova), a fim de perceber melhor esta publicação.
2. Ontem, sexta-feira, foi publicada a primeira parte da presente publicação.


Em 2008, os meus alunos recolheram, junto dos seus familiares, as histórias das invasões francesas que ainda persistem na nossa tradição oral. Duas delas eram relativas às lutas dos povos dos lugares próximos da Estrada Nova contra os contingentes franceses que por lá passavam.

O professor e maestro Carlos Dias Gama, natural de Bogas de Baixo, mas descendente dos Gamas do Maxial da Ladeira, contou assim ao seu filho Luís:

«Chegou ao Maxial da Ladeira a notícia de que um pelotão de franceses vinha dos lados do Fundão e seguiria a Estrada Nova até Abrantes.
Se imediato se organizou a resistência, liderada por alguns habitantes do Maxial que pediram às aldeias vizinhas toda a gente disponível. Juntaram-se mais de 1 000 homens.
Durante dois dias e duas noites, fizeram uma armadilha que consistiu na abertura de um fosso profundo e comprido, no caminho por onde iriam passar os franceses. Depois cobriram-no com traves de madeira e mato e finalmente reconstituíram o caminho com terra, voltando a ficar como dantes, mas com o fosso por baixo. Quando os franceses ali passaram, enfiaram-se no buraco com carros e cavalos e poucos se salvaram.»


A narrativa continua, em duas versões. Numa, a esposa de um oficial morto casou com um dos chefes da resistência, Manuel Joaquim Gama, tetravô do meu aluno Luís Gama.
Na segunda versão, não há casamento, mas as riquezas dos franceses foram divididas pelos chefes da resistência, tendo Manuel Joaquim Gama ficado com muitas moedas de ouro. Com esse dinheiro se fez a casa da família Gama, em Bogas de Baixo.
O texto termina com a informação de que são descendentes deste Manuel Joaquim Gama muitas pessoas de apelido Gama a viver no distrito de Castelo Branco, incluindo os Gamas de S. Vicente da Beira.

Alberto e Engrácia Antunes da Foz do Giraldo contaram à sua neta, Marisa Santos:

«Ainda hoje se podem ver buracos no solo dum caminho, nos arredores da Foz do Giraldo, que antigamente eram bastante profundos, com estacas afiadas e tapados no topo por ramos, muito bem disfarçados. Quando os cavaleiros franceses passassem no Vale da Aveleira, cairiam nos buracos».


Estes dois testemunhos da tradição oral dos povos da Gardunha referem-se possivelmente ao ataque à coluna do General Foy, o regimento 30, a 1 de Fevereiro de 1811, coordenado pelo Tenente-Coronel Grant. Este, na sua carta de 4 de Fevereiro, informou que a luta se travou no espaço de 4 léguas, sensivelmente a distância da Enxabarda à Foz do Giraldo, e, na carta de 2 de Fevereiro, escreveu que mandou picar a frente e a retaguarda da coluna militar inimiga, mas que só tinha com ele 80 ordenanças de Alpedrinha. Ora 80 militares eram insuficientes para atacar e vencer uma coluna militar, numa extensão de mais de 20 quilómetros.
É provável que, nesta luta de guerrilha de 1 de Fevereiro, tenham participado homens dos lugares da freguesia de S. Vicente da Beira mais próximos da Estrada Nova: Paradanta, Partida, Vale de Figueiras e Violeiro. Se se arrebanharam os homens dos povos da vertente norte da Gardunha, para atacar os franceses, é normal que o mesmo se tenha feito nos povos da vertente sul.
Quanto à participação das nossas ordenanças, isso é mais duvidoso, por três razões: elas eram comandadas pelos mais poderosos do concelho e estes raramente gostam (em todos os tempos) de correr riscos; não se conhecem referências à sua participação, nos documentos da época; a nível nacional, esta luta de guerrilha contra os franceses teve quase sempre um cariz popular, embora geralmente o comando pertencesse a poderosos locais, nomeadamente clérigos.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Invasões Francesas 6

A guerrilha do Tenente-Coronel Grant

Notas prévias:
1. Devem consultar-se as imagens das publicações de 26 de Setembro (Invasões francesas 5) e de 3 de Setembro (Estrada Nova), a fim de perceber melhor esta publicação.
2. Amanhã, sábado, será publicada a conclusão da presente publicação.


Durante a terceira invasão francesa, o Regimento 30 do Exército Francês, comandado pelo General Foy, passou pela Estrada Nova, em direcção ao Ribatejo e à Estremadura, a fim de ajudar Massena a transpor as Linhas de Torres.
O ambiente no Reino de Portugal era então de sublevação total contra os franceses. O grosso do exército anglo-luso encontrava-se a defender as Linhas de Torres, mas o Tenente-Coronel Grant permanecia na retaguarda, com a missão de dificultar a chegada de reforços ao Exército Francês, que se encontrava num impasse, sem capacidade de abrir caminho para Lisboa.
Segue-se a transcrição de duas cartas do Tenente-Coronel Grant, nas quais relata o ataque de 1 de Fevereiro de 1811 à coluna militar do General Foy, na Estrada Nova.


Carta do Tenente-Coronel J. Grant ao coronel D´Urban. Enxabarda, 2 de Fevereiro de 1811:

«Sede servido referir a S. Ex.ª o comandante em chefe que ontem uma coluna do inimigo, debaixo do comando do General Foy, consistindo em três mil cavalos e infantes de Ciudad Rodrigo, passou pela Estrada Nova, para se unir a Massena. Pernoitou aos 31, em Alcaria, junto do Fundão.
No 1.º deste mês tomei posto em um outeiro junto a esta aldeia, por onde o inimigo devia passar, tendo comigo oitenta ordenanças de Alpedrinha. Fez-se-lhe um bem dirigido fogo por duas horas e terminou somente com a noite.
O resultado foi dezoito mortos na estrada, grande número de feridos e dez prisioneiros. Vários feridos acharam-se mortos esta manhã pela extrema inclemência do tempo.
Também se tomaram diversos carros de trigo e considerável número de bois.
Tendo mandado partidas para picar a frente e a retaguarda do inimigo, tenho razão para pensar que ele deve ter sofrido consideravelmente antes de deixar a estrada nova.
Nós perdemos somente um homem, com poucos cavalos feridos, entre eles o meu.»



Carta do Tenente-Coronel L Grant ao Coronel D´Urban. Fundão, 4 de Fevereiro de 1811:

«Tende a bondade de referir a S. Ex.ª o marechal, que o resultado da acção do 1.º do corrente, junto à Enxabarda, foi mais completo do que eu ao princípio referi.
Acharam-se mortos duzentos e sete do inimigo, aos 2 do corrente, no espaço de quatro léguas, parte dos quais morreu em consequência das feridas e da inclemência do tempo. Estão também em meu poder dezoito prisioneiros (…).
Tenho também que dizer que o coronel do regimento francês 30 e o quartel mestre do mesmo regimento foram achados entre os mortos. O inimigo perdeu a maior parte da sua bagagem e gado.»


Cartas publicadas em Apontamentos para a História do Concelho do Fundão, de José Germano da Cunha, Lisboa, 1892, páginas 87 a 89. O autor extraiu as cartas de Claudio Chaby, Excerptos históricos e collecção de documentos relativos á guerra denominada da península.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Eleições Legislativas 2009


Total nacional:
PS – 36,56%; PSD – 29,09%; CDS – 14,46%; BE – 9,85%; CDU – 7,88%

Distrito de Castelo Branco:
PS – 41%; PSD – 29,72; CDS – 8,37%; BE – 9,08%; CDU – 5,05%

Concelho de Castelo Branco:
PS – 39,12%; PSD – 28,64%; CDS – 8,76%; BE – 11,57%; CDU – 4,88%

Freguesia de S. Vicente da Beira:
PS – 42,66 (398 votos); PSD – 35,05% (327); CDS – 6,43% (60); BE – 6,43% (60); CDU – 2,79% (26)
Inscritos: 1605
Votantes: 933 (58,13%)
Nas eleições legislativas de 2005, a percentagem de votantes foi de 63,1%
Entre 2005 e 2009, o número de elitores inscritos decresceu de 1653 para 1605.

Tal como nas eleições para o Parlamento Europeu, registou-se grande coincidência entre os resultados nacionais e os da freguesia de S. Vicente da Beira. Ver publicação "Parlamento Europeu", de 13 de Junho.

Site consultado: http://www.legislativas2009.mj.pt/

domingo, 27 de setembro de 2009

Esquilos e Javalis


Os esquilos já andam nas nozes!
E os javalis nos pêssegos, nos figos, nas maçãs, nas uvas...
Tenho de pedir ajuda ao protector dos agricultores, aquele cujo nome não pode ser pronunciado (em dia de eleições).
Só ele saberá acabar com a praga!

sábado, 26 de setembro de 2009

Invasões Francesas 5



A pintura é do Reverendo William Bradford e representa um regimento inglês a descer a serra e a começar a atravessar a ribeira de Nisa, em direcção a Vila Velha (de Ródão), em 1811. Na encosta, avistam-se muitos carros de transporte de bagagens, alimentos e munições. Era para esse serviço (e outros) que os nossos carreiros eram requisitados. Clicar na imagem para ver melhor.

Continuamos, hoje, a apresentar os carreiros da freguesia de S. Vicente da Beira que trabalharam para o exército aliado (Portugal e Inglaterra), durante a Guerra Peninsular (Invasões Francesas).

S. Vicente da Beira
Joaõ Leitaõ Canuto andou, com a sua junta de bois e carro, a acarretar feno de S. Vicente para Castelo Branco, durante 9 dias, em Setembro de 1811. Terá feito vários transportes.

Casal da Serra
Joze Francisco, com a sua junta de bois e carro, prestou o mesmo serviço que Joaõ Leitaõ Canuto. Terão andado juntos.

Para saber mais, consultar: "O Concelho de S. Vicente da Beira na Guerra Peninsular", de José Teodoro Prata, publicado pela Associação dos Amigos do Agrupamento de Escolas de São Vicente da Beira, em 2006.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Rotas turísticas


Está a decorrer, por estes dias (ontem, hoje e amanhã), em Castelo Branco, o XIII ENCONTRO NACIONAL DE EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS, organizado pela Escola Superior de Educação.
Hoje, sexta-feira, o programa inclui um passeio dos participantes, pela Beira Baixa: C. Branco, Castelo Novo, Lavacolhos, Fundão, S. Vicente da Beira e C. Branco.
A nossa terra entra na rota turística deste importante evento nacional!
Infelizmente, isto é ainda uma novidade, mas deveria ser já uma prática habitual.
A verdade é que pouco temos feito para isso. Limitamo-nos a conservar (nem sempre) o riquíssimo património que nos legaram os nossos antepassados, mas não o divulgamos, não organizamos actividades para o mostrar.
Há algumas iniciativas, mas muito mais poderia ser feito, até para colher as vantagens económicas desta importante actividade económica que é o turismo.
Repito o que já escrevi antes: outros, mais pobres que nós, têm sabido aproveitar muito mais!
Culpados? Todos nós.
Mas hoje é dia de nos alegrarmos e de aproveitar este optimismo para fazermos melhor.


Na Rua Nicolau Veloso

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Festas de Verão 2


A Igreja da Misericórdia, morada do Santo Cristo e da Senhora do Carmo.

(O trabalho previsto para esta semana era outro, mas cheirou-me a maresia e as uvas maduras e lembrei-me dos anos sessenta, os da minha infância.)

As Festas de Verão eram no terceiro fim-de-semana de Setembro, dias depois da Santa Luzia, no Castelejo. Mas os manjares eram preparados muito antes, logo no Inverno, tempo das cabras e das ovelhas parirem.
Nós tínhamos uma cabra, que também tinha cabritos, mas o que pertencia nas Festas era comer o borrego. O meu pai costumava ir ter com o Nonga, o pastor do tio Albano, que mal conseguia falar, mas ele percebia, porque eram amigos, de quando o meu pai também era pastor, em rapaz. O Nonga adivinhava quantos borregos trazia cada ovelha, a apalpar-lhe a barriga. Se houvesse alguma com três, ficava prometido para o meu pai. Então nós comíamos um cabrito da nossa cabra, para lhe podermos juntar o borrego, logo que nascesse.
Às vezes apanhava borreira e curava-se com tiras de casca de trovisco atadas em volta da barriga. Se não morresse, o borrego crescia e em Setembro já estava feito. No sábado, eu e o meu pai matávamos o borrego, já carneiro, e tínhamos carne para a festa. O que se comia primeiro era o sangue cozido, que eu apulara para um tacho. A ceia era omelete de tubras e miolos.
No domingo de manhã, o meu pai gostava de comer a fressura, que a minha mãe fazia na caçola do lume. Depois temperava as massas para assar no dia seguinte e fazia o comer, antes de irmos à missa do Santíssimo Sacramento. O jantar era sopa de massa com carne cozida e carne guisada com batatas fritas ou cozidas e salada de tomate. No fim, comíamos melancia, que comprávamos na Praça, à saída da missa.
O meu pai, com uma ranchada de filhos, comprava muitas melancias. Melancias grandes para os grandes e pequenas para os pequenos, o tamanho dependia de quem as tinha que carregar até à Tapada. Mas as mãos suavam com o calor e a fome amolecia-nos. Uma ou duas iam ao chão e chegávamos a casa com os bocados, às vezes já a comer nelas.
Na segunda-feira festejava-se o Santo Cristo. O meu pai levantava-se cedo, para a alvorada. Fosse para o Quintalinho a ver deitar os foguetes ou à serra a buscar um molho de mato, o tempo da alvorada era religiosamente contado. Pertencia uma hora. Menos uns minutos já eram sinal de Comissão de Festas fraca e as contas acertavam-se à tarde, quando os festeiros andassem a fazer o peditório.
Antes dos foguetes, os bombos tinham dado a volta à Vila, a acordar quem ainda mal se deitara. À tarde tocavam outra vez na Praça. Inquietava-me aquele círculo de bombos com um dançarino no centro, a tocar uma flauta do tamanho da sua mão. Ficava estranho, nervoso, sentia um chamamento que nunca compreendi.
Santo Cristo, a veneração maior das gentes da Vila. A procissão unia os pés à cabeça. O andor era levado em ombros pelos soldados regressados da guerra. Toda a gente tinha promessas a cumprir ou pedidos a fazer.
Tamanha santidade pedia manjar especial e por isso as massas do borrego iam a assar ao forno do Sr. José Matias e mais tarde no nosso. Alguns de nós, os mais pequenos, nem íamos à missa, para que ninguém viesse roubar o borrego que ficava no forno, a assar lentamente. O meu pai fartava-se de comer carne assada, mas eu e a minha mãe preferíamos a guisada, que era mais saborosa.
Comíamos borrego no domingo, na segunda-feira e na terça-feira, dia de Nossa Senhora do Carmo. Festas acabadas e, de borrego, nem sobras.



CULINÁRIA

Borrego assado

Ingredientes: sal, pimento, alho, cebola, azeite, vinho e massas do borrego.
Misturam-se o sal, o pimento, o alho, o azeite e o vinho e com eles esfregam-se bem as massas, que se colocam nos tabuleiros de ir ao forno, com os fundos previamente untados e azeite e cobertos de rodelas de cebola. Ficam a temperar algumas horas, pode ser de um dia para o outro, e depois vão ao forno bem aquecido. Assam lentamente.

Borrego guisado
Ingredientes: alho, cebola, vinho, salsa, sal, azeite, louro, pimento e carne das costelas, cortada em pedaços.
Juntam-se todos os ingredientes num tacho e guisa lentamente.

Fressura
Ingredientes: alho, sal, cebola, salsa, vinho, azeite, sangue cozido, fígado, bofe e pâncreas.
Corta-se o bofe e o pâncreas em pedaços e tempera-se com o alho, o sal, a cebola picada, a salsa, azeite e o vinho. Coze-se na caçola, ao lume, com o mínimo de água. Depois de cozido, junta-se o fígado, também cortado aos pedaços, e o sangue cozido, esfarelado, para engrossar o molho. Deixa-se ferver um pouco e está pronto a comer.

Omelete de tubras e miolos
Ingredientes: tubras, miolos, sal, salsa e azeite.
Escaldam-se as tubras, tira-se-lhes a pele e migam-se em pedacinhos. Juntam-se os miolos e ovos batidos, envolve-se tudo, tempera-se com sal e salsa picada e vai a fritar em omelete.

Sopa de massa com carne cozida
Ingredientes: sal, azeite, água, massa e carne com ossos, da cabeça e do pescoço.
Coze-se a carne em água, temperada com os restantes ingredientes, excepto a massa. Depois da carne cozida, tira-se da panela e desossa-se. Em seguida, à água da cozedura, juntam-se a massa e os pedaços da carne cozida. Deixa-se ferver cerca de vinte minutos e está pronta.

Vocabulário (para que as novas gerações nos percebam):
Bofe - Pulmões.
Borreira - Diarreia.
Caçola - Pronúncia local de caçoula; caçarola.
Ceia - Actual jantar.
Fressura - Comida regional, confeccionada com o fígado, os pulmões e o pâncreas do borrego ou do cabrito; o termo também designa o conjunto destes órgãos, quando são retirados do animal.
Jantar - Actual almoço.
Ranchada de filhos - Muitos filhos. Nesta expressão, ranchada é sinónimo de rancho.
Trovisco - Planta arbustiva venenosa, expontânea em Portugal. Utilizado na feitura de vassouras caseiras.
Tubras - Pronúncia local de túberas; testículos do animal (cabrito ou borrego).

(Publicado em: PRATA, José Teodoro – “Instantes saborosos”, Estudos de Castelo Branco, Julho de 2007, Nova Série, N.º 6, Direcção de António Salvado)

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Gosto de figos


Tínhamos 3 figueiras, no leirão da Tapada, em frente à casa. A do fundo era coriga, a do meio, maior que as outras, dava figos brancos pingo de mel e a mais próxima era uma figueira preta. Gostava de todos, mas, embora os figos brancos pingo de mel sejam os melhores, sempre tive um gosto especial pelos corigos, apesar ou talvez por terem aquele gosto selvagem e a casca ser um pouco agressiva à pele da boca.
Também havia uma figueira, na Barroca. Era enorme. Uns ramos cresciam para o alto, outros desciam ao longo da parede até quase ao lameiro. Um dia vi um figo na ponta de uma pernada. Era muito gordo, com mel a sair. Fui avançando e a minha irmã Celeste a convencer-me a desistir. Ia cair! Cheguei à ponta da pernada, estendi a mão, mas, antes de lhe tocar, mergulhei numa floresta de ramos, por onde fui caindo, até bater com a cabeça no chão. Valeu-me ter começado, na véspera, precisamente por aquele canto, a cava do restolho para pôr as couves.
Anos antes, em Setembro de 1967, tinha eu 10 anos, foram os figos que me ajudaram a optar pela vida.
O tempo dera em refrescar e era altura de armar os costis. Eu e os meus primos João e Tó tínhamos só um ou dois por casa, encontrados perdidos nos caminhos e leirões, por quem tinha muitos.
Íamos ao milho, nosso ou de quem fosse, e procurávamos aqueles com sinais de carneiros: um furo, um monte de cocó… Partíamos a cana do milho e escarafunchávamos lá dentro até encontrar o carneiro. Guardavam-se quatro ou cinco numa caixa de fósforos e podíamos ir armar os costis.
A escolha do local exigia saber: um terreno liso, para o pássaro ver facilmente o carneiro, um pouso onde ele pousar e traçava-se a diagonal mais favorável ao olhar do passarinho. Mexia-se a terra, escondia-se lá o costil aberto, com o carneiro preso pelo rabo ao arame da ratoeira. O carneiro ficava a agitar-se e nós íamos armar outro.
Se caía algum, sentíamos orgulho da nossa arte, embora com pena de um pássaro tão bonito que pouco tinha para comermos.
Nesse fim de Setembro, eu e o João tínhamos ido levantar um costil num leirão da primeira horta da Barroca. Olhámos para a encosta do outro lado e vinha a descer a patrulha da Guarda. Já nos tinham visto!
Saltámos para o caminho do rego da água e quase voámos para casa, com os guardas ao nosso encalce pela barreira acima.
Cada um refugiou-se junto da sua mãe. A casa do João era do lado da barreira, por isso os guardas começaram por lá. Ouvi-os a falar e depois apareceram à nossa porta. Perguntaram-me pelos costis, mas eu atirara o meu fora. Foram comigo ao local e lá estava no meio do mato. Voltámos para casa e os guardas ficaram a conversar comigo à entrada da quelha, eles e a minha mãe na ideia de que o assunto ficasse por ali.
Mas eu protestava, dizia que os meus colegas da escola caçavam com 30 e 40 costis e depois disparei para o guarda que falava mais: “O que o senhor quer é levar o meu costil para o seu filho, que já tem mais de 30!”
Ele encostou-me a metralhadora à barriga e ameaçou: “Ou te calas ou nunca mais comes figos daquela figueira!”
Olhei para a arma. Era medonha, com o cano cercado por um mais largo cheio de buracos. Depois virei-me para a figueira. Ele apontara para a nossa figueira branca pingo de mel. Rendi-me. Fiquei calado e os guardas abalaram, quelha abaixo, com o meu costil.



quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Estrada Nova

Não, não é a nossa Estrada Nova, construída nos anos 40 do século passado, em jeito de circular à Vila, para tirar o trânsito do centro e facilitar a passagem por S. Vicente da Beira.
Esta Estrada Nova é a do Marquês de Alorna, como também era conhecida. Passava nos limites da nossa freguesia, nos cumes da Gardunha, e é provável que os dois regimentos ingleses que estiveram em S. Vicente da Beira, em Julho/Agosto de 1811 (ver Invasões Francesas 4), seguissem por essa estrada antes de virar para a nossa terra.
O Marquês de Alorna que deu nome à estrada foi Pedro José de Almeida Portugal, comandante militar da Beira, em 1801, durante o conflito de Portugal com Espanha, no qual perdemos definitivamente Olivença. Este conflito, chamado Guerra das Laranjas, é já considerado um episódio da Guerra Peninsular, a que chamamos Invasões Francesas. A Wikipédia informa sobre ele:

«Tratando o governo de se preparar para a guerra, Alorna teve o comando das tropas que se uniram na Beira. Em vão requisitou mais forças, dinheiro e recursos indispensáveis para a defesa; seus pedidos tiveram somente promessas em resposta. Então, valendo-se do seu próprio crédito, abasteceu Almeida e, com a sua energia, conseguiu fazer das rochas do Monsanto uma praça de guerra, e construir na Guarda um forte com casamatas à prova de bomba, fortificou a posição das Talhadas com três redutos e outros entrincheiramentos, pôs o castelo de Vila Velha, um montão de pedras, em estado de se defender, levantando flechas e trincheiras, fez obras nos arredores de Sortelha e Celorico, criou um Hospital no Fundão, estabeleceu nesta vila, em Cardigos e Celoricos, armazéns para abastecimento das suas posições e com o fim do facilitar as comunicações para Abrantes, uma sofrível estrada, que ficou com o nome do estrada do marquês de Alorna…»

Esta sofrível estrada era a Estrada Nova, construída entre Cardigos e a Enxabarda, a fim de facilitar as comunicações de Abrantes para a praça-forte de Almeida.
Da Enxabarga, a Estrada seguia pelos cumes da Gardunha (Candal, Cigarrelho, Portela da Moreira e Zibreiro(Alto do Engarnal) e descia para a Foz do Giraldo, seguindo em direcção ao Estreito e depois para a Isna até Cardigos, onde se unia a uma estrada já existente.
Diamantino Gonçalves, o fotógrafo que descobriu as gravuras rupestres do Zêzere, na sua página da internet (http://www.dbgoncalves.com/terras_do_xisto.htm), onde descreve todo este vale do Zêzere (a que já me referi neste blogue, a propósito do P.e Branco), escreve sobre a Estrada Nova:

«Daqui tudo se vê, o vale da ribeira estende-se até à Panegral por detrás dela a eira dos Três Termos, lugar mágico de lutas terríveis durante as invasões francesas, que se estenderam ao Cabeço Zibreiro, por toda a Estrada Nova. Estrada construída em 1801 fazia parte do plano de preparação para a guerra, elaborado também pelo Marquês de Alorna, que mais tarde combateu ao lado das tropas de Napoleão, morreu na Rússia. A estrada nova era da maior importância para a estratégia militar da época. Pois encurtava muito a distância do Fundão a Tomar e ainda com ligações às estradas de Castelo Branco, Vila Velha e Abrantes. A estrada traçada pelo cume dos montes servia ainda para apoiar o (Telegrafo de Sinais) que chegou a funcionar de Lisboa a Almeida. Cada estação do telégrafo distava entre si 15.000 metros funcionavam com uma ou duas pessoas, mas tinham de ser montadas e abastecidas e defendidas. Dirigiu parte ou toda a sua construção, uma das maiores figuras da Beira daquele tempo: José Pereira Pinto Castelo-branco, (O mil diabos da Capinha) foi ajudante de campo do marquês de Alorna…»

Um autor francês anónimo deixou-nos o relato da passagem de uma coluna militar do Exército Francês, comandada pelo General Gardanne, que seguia de Almeida para Cardigos. No dia 24 de Novembro de 1810, escreveu:

«Le 24 on a suivi le Chemin d´Enchabardas(Enxabarda), mauvais village a 1/2 lieue de Castelleijo(Castelejo) e dans la même vallée. C´est la que commence réellement l´Estradanova(Estrada Nova), on monte d´abord pendant plus d´une heure pour arriver au sómet de la Serra dos tres termos(Eira dos Três Termos), mais les rampes sont bien mauvaises. Cette route est fort belle et suit constament les crêpes jusqu´à fogeraldo(Foz do Giraldo), mauvais hameau ou nait un ruisseau que se jette dans le Trepeito (Tripeiro)
(VICENTE, António Pedro – Manuscritos do Arquivo Histórico de Vincennes referentes a Portugal, III, (1807-1811), Paris, Fundação Calouste Gulbenkian, 1983, p. 317.)

Seguem-se extractos das Cartas 20-D e 20-B, do Instituto Geográfico e Cadastral, com a Estrada Nova assinalada a tracejado negro. Os mapas estão em sequência, um continua no seguinte. Deve clicar-se em cada um, para se conseguir percebê-los.


A Eira dos Três Termos era assim chamada, porque ali se encontravam os limites(termos) dos concelhos do Fundão, S. Vicente e Sarzedas. Nunca lá fui, pelo que não tenho a certeza absoluta da sua localização, mas tudo indica que seja no local indicado (à esquerda do nome).


O Zibreiro é o cume também chamado Alto do Engarnal.



Nota: O meu livro O Concelho de S. Vicente na Beira Guerra Peninsular tem, na página 49, um mapa com a Estrada Nova a passar junto a S. Vicente. Na altura, pensava que ela passasse por Almaceda, Partida, Paradanta, Vale D`Urso e Castelejo. Pelos documentos que entretanto fui consultando, sei agora que ela passava de facto perto, mas nos cumes da Gardunha.