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segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Umas Festas de Verão diferentes


Estávamos no mês de setembro, do ano de 1973. Decorriam em S. Vicente da Beira, na terceira semana do mês, as Festas de Verão em honra do Santíssimo Sacramento, do Senhor Santo Cristo e de Nossa Senhora do Carmo.

As festas eram organizadas por uma comissão que todos os anos era nomeada, por ruas. Nessa época, em São Vicente, não havia casas desabitadas, havia mais de dois mil habitantes. Naquele ano, a nossa rua, ou seja, a Rua das Laranjeiras, também foi a incluída para a comissão e o meu Pai foi um deles.

Estes festejos eram vividos e sentidos pela população com o maior respeito. Era o momento em que as famílias se juntavam, os que se encontravam ausentes regressavam, juntando-se aos seus, num franco e saudável convívio. Quase todas as famílias tinham o seu borreguinho que criavam ao longo do ano. Mesmo aqueles que não tinham terras, levavam-nos para a ribeira, onde comiam aquela erva que ali crescia tenrinha. Nestes dias de festa sacrificavam o borrego, servido como um grande pitéu nas nossas mesas.

Eu cumpria o serviço militar no quartel do RTM do Porto e vim passar o meu fim de semana. Cheguei sexta-feira à noite, após ter apanhado o comboio na estação de Campanhã, em direção ao Entroncamento, e a seguir, depois de algumas horas à espera, apanhar o comboio que partira de Lisboa em direção à Guarda. Saí na estação de Alcains e apanhei um táxi até a São Vicente.

Reinava na nossa casa a azáfama dos preparativos para estes três dias festivos. O meu Pai, juntamente com outros vicentinos da comissão de festas, não parava em casa na preparação dos festejos. A minha Mãe, além de estar ocupada com todos estes preparativos, na parte da cozinha, também preparava os doces tradicionais que se encontravam na nossa mesa, como o pão de ló, os biscoitos, as cavacas, os esquecidos, os borrachos, etc.

Eu, devido à minha condição de militar, vinha somente passar o fim de semana normal e na segunda-feira, pelas oito horas, devia dar entrada no quartel. Assim, tinha de sair domingo à tarde, apanhar o comboio em Alcains e seguir viagem até ao Porto. Confesso que me estava a custar partir, mas o meu Pai teve uma ideia brilhante e disse-me: «- Estou a pensar e vou escrever uma carta para o teu comandante, que lhe entregarás quando chegares.» Se bem o pensou, melhor o fez e só parti terça-feira de manhã para o Porto.

A segunda-feira, em honra do Senhor Santo Cristo, era o dia mais importante para nós Vicentinos, o dia em que vestíamos uma roupa nova. Passei a festa alegre e satisfeito, na companhia da família, namorada e amigos e só parti terça-feira de manhã.

Quando entrei no quartel, os colegas disseram-me que eu já estava dado como desertor, já não escapava da TORRE ALTA, que era a prisão. Passei a noite um pouco apreensivo. No dia a seguir, levantei-me ao toque da alvorada, fiz a minha higiene pessoal e às oito horas fomos para a parada fazer a primeira formatura; de seguida fomos tomar o café; às nove horas, dirigi-me ao gabinete do comando e pedi para falar com o comandante; bati à porta e do outro lado ouvi uma voz a dizer que podia entrar; abri a porta e fiquei de frente com o comandante; fiz a continência e identifiquei-me; do outro lado, estava um senhor não muito alto, de bigode, com um aspeto de respeito próprio do comandante da companhia; era o CAPITÃO GUIRA.

Ele pediu-me que apresentasse uma justificação em relação à minha ausência; eu peguei na carta que levava comigo e entreguei-lha; abriu a carta e começou a lê-la; olhou para mim com alguma emoção e, após ler a carta escrita pelo meu Pai, disse-me o seguinte: «- Vou abrir uma exceção e dar-lhe duas hipóteses de escolha: dou-lhe voz de prisão e vai uns dias para a Torre Alta ou vai oito dias para o refeitório fazer serviço de faxina.»

Eu nem pensei duas vezes e respondi-lhe que queria ir para o refeitório; ele aceitou a minha escolha e mandou-me embora; quando cheguei à parada, estavam os colegas à minha espera para saberem a resposta; eu pu-los ao corrente da decisão do comandante e eles não acreditavam, porque este Capitão por tudo e por nada mandava o pessoal para a Torre Alta, que estava quase sempre lotada.

E assim se passou este episódio comigo, nas Festas de Verão do ano de 1973.

João Maria dos Santos

História contada na 5.ª sessão do projeto Conta-me histórias

sexta-feira, 4 de outubro de 2024

A Tia

 

Foi a segunda de cinco filhos; a única rapariga. Quando a mãe morreu foi ela que, aos 16 anos, tomou conta da casa e cuidou do pai e dos irmãos; o mais novo tinha cinco anos. Num tempo em que as dificuldades eram muitas, cuidou de todos como se fosse a mãe, e foi adiando a vida até já não precisarem dela.

Quando finalmente pôde sonhar uma família sua, já ia muito para lá dos trinta. A notícia do casamento não foi bem recebida, por o noivo ser viúvo e bastante mais velho, mas não fez caso. Teve os seus próprios filhos e ganhou muitos enteados, alguns mais velhos que ela, mas a quem queria como a novos irmãos. Continuou também a cuidar do pai, até ser velho, e do marido, pouco mais novo. Construiu uma casa onde havia sempre lugar para mais um e todos se sentiam bem. 

Para nós, os sobrinhos, foi sempre a Tia, simplesmente; nem precisávamos dizer-lhe o nome quando nos referíamos a ela, talvez porque não tínhamos mais nenhuma do lado paterno, mas principalmente porque não se confundia com nenhuma outra; quase uma avó, que nos mimava com o pouco que tinha e não nos distinguia dos próprios filhos, mesmo na proteção que nos dava. Às vezes falava muito alto, mas era o jeito dos Lérias, que vinha de longe. Sabíamos que o coração dela era maior que as palavras que lhe saíam da boca, um pouco atrapalhadas.

Desde que me lembro que gostava de ir a casa dela e participar dos rituais, quase festivos, em que transformava qualquer tarefa caseira, mesmo a mais simples. Às vezes íamos ajudá-la na limpeza da casa, feita a preceito, com ela sempre atenta para que nenhuma teia de aranha ficasse no teto, ou algum grãozinho de pó escondido no meio das fisgas entre as tábuas. A água para esfregar o chão tinha que andar sempre limpa, não fosse o soalho ficar encardido; havia muita na fonte de Santo António e na da Praça, logo ali. 

Quando acabávamos o trabalho, já sabíamos que a cafeteira de esmalte azul estava ao lume para fazer o chá. Sentávamo-nos no banco grande, que era o desnível entre o soalho da cozinha e a lareira, e deliciávamo-nos com as fatias de pão amassado em casa e cozido no forno da Mari Estela, com uma boa talhada de queijo fresco comprado no Zé Gomes ou da marmelada feita com os marmelos da Barroca. Havia dias em que apanhávamos grandes barrigadas de beringela ou botelha, que o tio Francisco, amorosamente, ia fritando ao lume. Às vezes também fazia arroz doce ou papas de carolo.  Ficávamos ceados.

Por alturas das Festas de Verão, a casa era revirada do avesso: os ferros e tábuas das camas desarmados e lavados com água a ferver, não andasse por lá algum percevejo escondido; a palha das enxergas mudada, e mantas e cobertores tudo lavado na ribeira; as telhas da cozinha passadas uma a uma com o esfrunhador; todas as paredes caiadas; só para arear tachos e panelas era preciso um dia inteiro, mas ao fim ficava tudo como novo, a brilhar na cantareira enfeitada com recortes de jornal.

Também era uma doceira afamada. Chamavam-na muitas vezes para fazer os bolos mais finos de casamentos, batizados e festas de gente rica. Em casa dela nunca se acabavam porque quando cozia o pão amassava sempre uma lata de bolos de leite, esquecidos ou borrachos. Pelas Festas de Verão fazia-os de toda a qualidade.

Algumas semanas antes começava a juntar os ovos das galinhas poedeiras que tinha sempre com fartura. Arrecadava-os dentro de um cesto no fundo mais fresco da loja, por baixo da casa. Com o moleiro era um desassossego enquanto não chegava com as talegas, e ficava doente se a farinha não vinha com a moagem que ela entendia. Dizia que os ovos e a farinha eram o mais importante para os bolos calharem bem.

Na semana das Festas não saía da loja durante três ou quatro dias, sempre a dar ordens e vigilante para que tudo se fizesse como é dado: partir os ovos um a um, não fosse algum estar podre; separar bem as claras das gemas e batê-las em castelo firme, quando era preciso; medir bem o açúcar e a farinha; dar as voltas todas à massa; untar as latas bem untadas. Nada lhe escapava, nem as rezas e benzeduras, logo ao princípio. No dia das cavacas e biscoitos ficava ainda mais gaga, e só ela é que mexia na massa. Até chorava, se ficavam com pé…

Os pães leves ficavam para último. Levavam muitos ovos e muito açúcar, e eram muito trabalhosos. Consoante os ovos, eram precisas duas ou três mulheres, que se sentavam à roda do alguidar, e se iam revezando com o batedor, sem parar, até a massa fazer bolhas. Era cansativo e só para mãos calejadas. Para os mais novos era o dia preferido, porque, mal despejavam a massa nas formas, nos deliciávamos a rapar o alguidar. Ficava que nem que já tivesse sido lavado. 

No dia seguinte os cestos dos bolos ficavam quase pela metade: a Tia arranjava uns pratos com dois ou três de cada qualidade e mandava-nos ir dá-los de presente a alguma vizinha ou parente que não tinha podido fazê-los, principalmente se andava de luto, estava doente ou trazia algum filho na guerra. Nós íamos todos contentes, na esperança de que nos dessem alguma moeda para gastarmos nas tendas armadas na Praça, cheias de novidades, onde perdíamos os olhos augados, durante os três dias das Festas de Verão…

ML Ferreira

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Festas, terça à noite






Os poetas e a fadista.




O rancho e o povo.


A banda. Muito jovem!

A prata (o ouro) da casa. Soube bem estar e pertencer.

José Teodoro Prata

domingo, 19 de setembro de 2010

Praga de Gafanhotos

As Festas de Verão são em honra do Santíssimo Sacramento da Igreja Matriz, no domingo, do Santo Cristo da Misericórdia, na segunda-feira, e da Senhora do Carmo, na terça-feira. Nos anos 70, o P.e António Branco e um grupo de vicentinos radicados em Lisboa começaram a ir de romagem à Senhora da Orada, na quarta-feira, mas este festejo não vingou, talvez por ser sobretudo motivado pela fome de sardinhas assadas, tal o enjoo de carne, nos dias anteriores.
As Festas eram da responsabilidade de uma comissão nomeada no ano anterior. O método de escolha era a vizinhança. Escolhia-se um grupo de chefes de família moradores em ruas contíguas. No ano seguinte, eram os das ruas a seguir. Este método, certamente centenário, fracassou nos anos 80, pois cada vez era menor o número de chefes de família que aceitavam sacrificar-se a organizar as Festas. Até hoje, ainda não foi criado um sistema alternativo sólido, pelo que, em cada ano, é incerta a realização das Festas. Elas organizam-se quando há uma associação que chame a si essa incumbência. Por exemplo, no ano passado ninguém se interessou, mas este ano valeu-nos a aniversariante e centenária Banda Filarmónica Vicentina.
As Festas eram no terceiro fim de semana de Setembro, em pleno fim de ciclo das colheitas. Apenas faltavam as vindimas, feitas logo a seguir. Os festejos começavam, no sábado, com a realização da feira anual, que no passado, desde a fundação da Vila, fora em Janeiro, no dia do padroeiro São Vicente. Nos anos 80, mudaram-se as Festas para o primeiro fim de semana de Agosto, para possibilitar a participação dos emigrantes em férias e das famílias com estudantes, devido à alteração da abertura do ano escolar de 1 de Outubro para meados de Setembro.
Continuo a desconhecer a data da criação das Festas de Verão, talvez porque estão desaparecidos, possivelmente em casa de particulares, alguns livros de actas da antiga Câmara Municipal de São Vicente da Beira. Nas últimas décadas do século XVIII, ainda não se realizavam, pelo que arrisco situar a sua criação por volta de 1800, isto é, há cerca de duzentos anos.
No ano passado, aqui nos Enxidros, em publicação de 21 de Junho, intitulada “Guerra dos Sete Anos”, já levantei o véu sobre esta problemática. No trabalho escrito, que aguarda publicação, acrescentei mais algumas informações, embora não tenha podido encerrar a investigação, pelas razões atrás apontadas.
Adianto alguns dados sobre a justificação das Festas devido a uma praga de gafanhotos. É esta a tese explicativa mais comum, a que nos alimentou a imaginação durante a infância. O que encontrei é pouco, mas pode ser tudo:
As pragas de gafanhotos eram frequentes nos séculos XVII e XVIII. Não temos notícia de nenhuma, na segunda metade do século XVIII, embora não possamos garantir que não existiu. Em 1781, a Câmara foi avisada, pela Provedoria de Castelo Branco, de que uma praga de gafanhotos assolava outras regiões e era preciso tomar providências. Assim se fez, embora não houvesse sinais da praga no concelho. Mas a Provedoria de Castelo Branco mandou também avisar o Provedor da Misericórdia, para que se fizesse uma novena e mais preces, na Igreja da Misericórdia, a fim de afastar o perigo. Temos, pois, o Santo Cristo da Misericórdia como protector dos povos também contra a bicharada.
Não sabemos se a praga chegou a atingir o concelho e se os gafanhotos vieram morrer nas paredes da Igreja da Misericórdia, conforme é crença popular, mas podemos concluir que a festa anual ao Santo Cristo foi criada como forma de agradecer e buscar protecção divina contra os males dos homens e da natureza.

sábado, 17 de julho de 2010

Há Festa!

Informa-me o Dário Inês de que as Festas de Verão estão garantidas. O organização é da Sociedade Filarmónica Vicentina. Faz cem anos e a prenda é para todos os vicentinos. Bonito!

30 DE JULHO (Sexta-feira)
17h - Início dos festejos;
Abertura do Bar e animação com a aparelhagem;
22h - Actuação do artista RUI ALVES.

31 DE JULHO (Sábado)
15h - Continuação das festas, com a abertura do bar;
17h30m - Animação infantil, com insuflável;
18h - Aparelhagem do Vale da Torre;
23h - Actuação da banda XCA de Oliveira de Azeméis.

1 DE AGOSTO (Domingo)
08h - Arruada pelas ruas da vila, pela BANDA FILARMÓNICA VICENTINA;
18h - Eucaristia e procissão, em honra do Santíssimo Sacramento, com a actuação da BANDA FILARMÓNICA VICENTINA;
23h - Actuação do grupo musical IMAGEN 5.


O Santo Cristo da Misericórdia

2 DE AGOSTO (Segunda-feira)
05h - Arruada dos BOMBOS VICENTINOS;
08h - Alvorada com a BANDA FILARMÓNICA VICENTINA;
08h30 - Alvorada a cargo da PIROTECNIA OLEIRENSE;
09h - Arruada com a BANDA FILARMÓNICA VICENTINA, pelas ruas da vila;
17h30 - Novena e Eucaristia em honra do Senhor SANTO CRISTO, seguida de procissão, com a actuação da BANDA FILARMÓNICA VICENTINA;
23h - Actuação da BANDA INNEM DE VISEU;
01h - Espectáculo de FOGO DE ARTIFICIO.

3 DE AGOSTO (Terça-feira)
15H - Continuação dos festejos;
18h - Eucaristia em honra de NOSSA SENHORA DO CARMO, seguida de procissão, com a actuação da BANDA FILARMÓNICA VICENTINA;
21H - Concerto pela BANDA FILARMÓNICA VICENTINA.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Festas de Verão 2


A Igreja da Misericórdia, morada do Santo Cristo e da Senhora do Carmo.

(O trabalho previsto para esta semana era outro, mas cheirou-me a maresia e as uvas maduras e lembrei-me dos anos sessenta, os da minha infância.)

As Festas de Verão eram no terceiro fim-de-semana de Setembro, dias depois da Santa Luzia, no Castelejo. Mas os manjares eram preparados muito antes, logo no Inverno, tempo das cabras e das ovelhas parirem.
Nós tínhamos uma cabra, que também tinha cabritos, mas o que pertencia nas Festas era comer o borrego. O meu pai costumava ir ter com o Nonga, o pastor do tio Albano, que mal conseguia falar, mas ele percebia, porque eram amigos, de quando o meu pai também era pastor, em rapaz. O Nonga adivinhava quantos borregos trazia cada ovelha, a apalpar-lhe a barriga. Se houvesse alguma com três, ficava prometido para o meu pai. Então nós comíamos um cabrito da nossa cabra, para lhe podermos juntar o borrego, logo que nascesse.
Às vezes apanhava borreira e curava-se com tiras de casca de trovisco atadas em volta da barriga. Se não morresse, o borrego crescia e em Setembro já estava feito. No sábado, eu e o meu pai matávamos o borrego, já carneiro, e tínhamos carne para a festa. O que se comia primeiro era o sangue cozido, que eu apulara para um tacho. A ceia era omelete de tubras e miolos.
No domingo de manhã, o meu pai gostava de comer a fressura, que a minha mãe fazia na caçola do lume. Depois temperava as massas para assar no dia seguinte e fazia o comer, antes de irmos à missa do Santíssimo Sacramento. O jantar era sopa de massa com carne cozida e carne guisada com batatas fritas ou cozidas e salada de tomate. No fim, comíamos melancia, que comprávamos na Praça, à saída da missa.
O meu pai, com uma ranchada de filhos, comprava muitas melancias. Melancias grandes para os grandes e pequenas para os pequenos, o tamanho dependia de quem as tinha que carregar até à Tapada. Mas as mãos suavam com o calor e a fome amolecia-nos. Uma ou duas iam ao chão e chegávamos a casa com os bocados, às vezes já a comer nelas.
Na segunda-feira festejava-se o Santo Cristo. O meu pai levantava-se cedo, para a alvorada. Fosse para o Quintalinho a ver deitar os foguetes ou à serra a buscar um molho de mato, o tempo da alvorada era religiosamente contado. Pertencia uma hora. Menos uns minutos já eram sinal de Comissão de Festas fraca e as contas acertavam-se à tarde, quando os festeiros andassem a fazer o peditório.
Antes dos foguetes, os bombos tinham dado a volta à Vila, a acordar quem ainda mal se deitara. À tarde tocavam outra vez na Praça. Inquietava-me aquele círculo de bombos com um dançarino no centro, a tocar uma flauta do tamanho da sua mão. Ficava estranho, nervoso, sentia um chamamento que nunca compreendi.
Santo Cristo, a veneração maior das gentes da Vila. A procissão unia os pés à cabeça. O andor era levado em ombros pelos soldados regressados da guerra. Toda a gente tinha promessas a cumprir ou pedidos a fazer.
Tamanha santidade pedia manjar especial e por isso as massas do borrego iam a assar ao forno do Sr. José Matias e mais tarde no nosso. Alguns de nós, os mais pequenos, nem íamos à missa, para que ninguém viesse roubar o borrego que ficava no forno, a assar lentamente. O meu pai fartava-se de comer carne assada, mas eu e a minha mãe preferíamos a guisada, que era mais saborosa.
Comíamos borrego no domingo, na segunda-feira e na terça-feira, dia de Nossa Senhora do Carmo. Festas acabadas e, de borrego, nem sobras.



CULINÁRIA

Borrego assado

Ingredientes: sal, pimento, alho, cebola, azeite, vinho e massas do borrego.
Misturam-se o sal, o pimento, o alho, o azeite e o vinho e com eles esfregam-se bem as massas, que se colocam nos tabuleiros de ir ao forno, com os fundos previamente untados e azeite e cobertos de rodelas de cebola. Ficam a temperar algumas horas, pode ser de um dia para o outro, e depois vão ao forno bem aquecido. Assam lentamente.

Borrego guisado
Ingredientes: alho, cebola, vinho, salsa, sal, azeite, louro, pimento e carne das costelas, cortada em pedaços.
Juntam-se todos os ingredientes num tacho e guisa lentamente.

Fressura
Ingredientes: alho, sal, cebola, salsa, vinho, azeite, sangue cozido, fígado, bofe e pâncreas.
Corta-se o bofe e o pâncreas em pedaços e tempera-se com o alho, o sal, a cebola picada, a salsa, azeite e o vinho. Coze-se na caçola, ao lume, com o mínimo de água. Depois de cozido, junta-se o fígado, também cortado aos pedaços, e o sangue cozido, esfarelado, para engrossar o molho. Deixa-se ferver um pouco e está pronto a comer.

Omelete de tubras e miolos
Ingredientes: tubras, miolos, sal, salsa e azeite.
Escaldam-se as tubras, tira-se-lhes a pele e migam-se em pedacinhos. Juntam-se os miolos e ovos batidos, envolve-se tudo, tempera-se com sal e salsa picada e vai a fritar em omelete.

Sopa de massa com carne cozida
Ingredientes: sal, azeite, água, massa e carne com ossos, da cabeça e do pescoço.
Coze-se a carne em água, temperada com os restantes ingredientes, excepto a massa. Depois da carne cozida, tira-se da panela e desossa-se. Em seguida, à água da cozedura, juntam-se a massa e os pedaços da carne cozida. Deixa-se ferver cerca de vinte minutos e está pronta.

Vocabulário (para que as novas gerações nos percebam):
Bofe - Pulmões.
Borreira - Diarreia.
Caçola - Pronúncia local de caçoula; caçarola.
Ceia - Actual jantar.
Fressura - Comida regional, confeccionada com o fígado, os pulmões e o pâncreas do borrego ou do cabrito; o termo também designa o conjunto destes órgãos, quando são retirados do animal.
Jantar - Actual almoço.
Ranchada de filhos - Muitos filhos. Nesta expressão, ranchada é sinónimo de rancho.
Trovisco - Planta arbustiva venenosa, expontânea em Portugal. Utilizado na feitura de vassouras caseiras.
Tubras - Pronúncia local de túberas; testículos do animal (cabrito ou borrego).

(Publicado em: PRATA, José Teodoro – “Instantes saborosos”, Estudos de Castelo Branco, Julho de 2007, Nova Série, N.º 6, Direcção de António Salvado)

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Festas de Verão


O Santo Cristo da Misericórdia

Hoje é dia do Santo Cristo.
Fui às Festas de Verão, mas era tudo tão diferente!
A verbena estava a ser desmontada e os sinos só tocaram pouco antes das 19, a chamar os fiéis para a missa.
A festa civil foi encurtada para sábado e domingo e a religiosa também drasticamente abreviada.
Surpreendido? Não.
Chocado? Também não.
Frustrado? Claro que não! As horas de convívio com a minha família valeram plenamente a minha deslocação a S. Vicente. Pena não ter encontrado alguns amigos ou não estarem disponíveis para partilharmos uns momentos.

Há anos que as nossas Festas agonizam. Elas são uma herança de um mundo muito diferente daquele em que hoje vivemos. Tempos de profunda religiosidade, de crescimento populacional (desde há cerca de 250 anos, excepto os últimos 30 anos) e de grande unidade de cada comunidade. Como mantê-las nestes novos tempos?
Sem a pretensão de conseguir uma análise exaustiva do fenómeno, penso que a situação em que se encontram as Festas de Verão se deve aos seguintes factores (a ordem é arbitrária):
1 - A diminuição da religiosidade na população, mas sobretudo e principalmente uma crescente desvalorização, pelas pessoas, das formas institucionais (da Igreja) de manifestar os sentimentos religiosos. Valorizo as tradições, mas defendo a sobrevivência apenas das que tenham sentido para a comunidade. Não quero uma Igreja-Museu, com "espectáculos" para turista ver!
2 - A insuficiência de padres para garantir um tão elevado número de cerimónias religiosas, como eram as que tradicionalmente caracterizavam as nossas Festas. Há 250 anos, a paróquia de S. Vicente da Beira tinha 7 a 8 sacerdotes em serviço permanente; hoje, o Padre José Manuel garante o serviço religioso de duas paróquias e ainda acumula com outras funções na diocese. Por outro lado, a Igreja (tanto a instituição como o conjunto dos fiéis) ainda não encontrou e sobretudo não implementou novas formas de manifestar a religiosidade a nível da paróquia. Neste caso das Festas de Verão, falta decidir que cerimónias a comunidade cristã deseja preservar e como concretizá-las.
3 - O sentido de pertença à comunidade-povoação é cada vez mais ténue. A família sempre foi o núcleo principal. No passado, a povoação era o conjunto desses núcleos, mas actualmente não. Para muitos habitantes de S. Vicente, como de outras povoações, na maioria idosos, os seus familiares estão dispersos por outras terras, alguns longe. Agora, já não regressam todos uma vez por ano, nas Festas de Verão. No passado, preparar a festa, alindar a casa, matar o borrego ou aluminar com uma vela na procissão do Santo Cristo, tudo tinha uma só finalidade: festejar a vida com os mais queridos. Agora, o coração voa para longe, repartido em pedaços, um para cada canto do país ou do mundo. Por isso, a povoação-comunidade já não diz tanto às pessoas.
4 - O excesso de dias de Festas, tornando exaustivo o trabalho de quem as organiza e até cansativo o dia a dia dos que moram perto da Praça. Por isso, compreendo o facto de os festeiros deste ano terem feito a festa apenas no sábado e no domingo! O problema, ainda não resolvido, é a nova configuração das Festas de Verão.

Mas há coisas boas:
a) Deixou de haver festeiros, nomeados por ruas, mas sempre surge uma organização a garantir a realização dos Festas: o GEGA, a Santa Casa da Misericórida e este ano o Rancho. Isso mostra a presistência de um forte sentido comunitário, na nossa terra. Aliás, ele tem estado bem evidente na formação e no dinamismo do Rancho, da Banda, dos Bombeiros...
b) Também as festas comunitárias da paróquia, como foram as da homenagem ao Padre Branco, em Agosto do ano passado, e a festa de S. Vicente, este ano, revelam uma dinâmica que apenas necessita que se lhe alimente a chama.

Afinal, nada está perdido. Se calhar, falta apenas diálogo e redefinição do que pretende a comunidade civil e religiosa que, sendo plural, é una.
Trabalho meticuloso, com luvas e pinças, mas talvez inevitável.
Em todo o caso, o tempo e as pessoas se encarregarão de adaptar as tradições aos novos tempos.