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domingo, 28 de maio de 2017

Romaria à Senhora da Orada


Prometia ser um rico dia de chuva, mas só caíram uns barrufos, durante a noite.
Na curva da estrada, os feirantes.


Os bombos que ouvia enquanto me aproximava da capela.


Na fonte, as filas do costume, para refrescar o corpo e o espírito.


A procissão já terminara. Havia mais dois cestos como este.


O GEGA animou a festa com uma exposição de fotografias de romarias passadas, 
algumas há uns bons anos.


A Senhora, linda como sempre!

José Teodoro Prata

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Ex votos

Todos nós somos de uma maneira ou outra, religiosos. Mais não seja crermos na ciência humana. Os partidários do agnosticismo não crêem naquilo que não vêm, o intangível. Apesar de aparentemente não acreditarem na existência de um Ser criador de todas as coisas, crêem na ciência. São Tomé só acreditou quando viu o Mestre.
         Ao contrário dos agnósticos, os ateus não seguem qualquer religião; para eles, Deus não existe, em contrapartida, há os que acreditam numa divindade.
Católicos, muçulmanos, judeus, adoram um Deus único. “Latria”. Há povos que aceitam vários deuses.
Os católicos muitas vezes “negoceiam” com a divindade oferecendo contrapartidas pela graça recebida; podem ser velas, dinheiro, ex votos…
Quem numa hora difícil nunca pronunciou a palavra Deus? Valha-me Deus, Deus nos valha, Deus nos acuda…
A igreja da Misericórdia, dedicada ao Senhor Santo Cristo, guarda umas largas dezenas de ex votos, formas de agradecimento por graças alcançadas. Nela figuram dois belos quadros: um oferecido pelo visconde de Tinalhas e o outro pela família Robles Monteiro.
A maioria representa órgãos do corpo humano feitos em cera: braços, pernas, corações… Cada figuração representa a cura daquele órgão figurado.
Também se encontram figurações humanas completas, representam crianças que foram curadas dos seus males. A criança manifesta a dor através do choro, mas não consegue dizer qual o órgão afectado, então os progenitores oferecem à divindade uma figura humana.
Seja na igreja do Senhor Santo Cristo ou no santuário da Senhora da Orada, todos os objectos ex votos estão dependurados nos locais mais nobres do templo.
Na igreja da Misericórdia existe um divisa militar oferta de alguém que foi para a guerra e voltou são e salvo. Também se exibe um grande cirio.
Esta fé em algo que nos transcende já acontecia nos santuários da antiga Grécia. Os nossos reis, em alturas de aflição, agradeciam a Deus, através da construção de grandes monumentos: Real Convento de Mafra, Mosteiro da Batalha… No nosso tempo, ainda há muitos crentes que continuam a oferecer à divindade da sua devoção peças votivas.
Em Santuários como Fátima, Aires, Senhora da Póvoa, existem expostos em lugar apropriado peças de roupa, fotografias, ourivesaria e todo o género de recordações.
         Nos grandes ou pequenos santuários, como da Senhora da Orada, em dias de romaria, os crentes exibem velas acesas como agradecimento. Não se perpetuam no tempo. Enquanto dura a cerimónia, a súplica, o pedido ou o agradecimento pela graça recebida, as velas alumiam, é a forma de pagamento pela graça que a divindade concedeu.
Tudo isto está enraizado nos cultos de raiz popular.    
O Homem, ser finito, pelas suas fragilidades e dores, é limitado. Por isso tem necessidade de recorrer à acção benevolente dos santos, eles são os mediadores entre Deus e o Homem. Estas situações acontecem quase sempre quando a esperança na ciência se esgotou, voltando-se a pessoa para o além, para conseguir o milagre, por intercessão do santo a que se recorre.
A principal razão da existência dos ex votos é a gratidão pela graça concedida, mas para isso o pedido tem que ser acompanhado de muita fé. Porque a fé, nas obras se vê.

J.M.S





M. L. Ferreira

domingo, 21 de maio de 2017

Béjar

Na passada quinta-feira, fui de visita de estudo a Espanha. A manhã foi passada em Moraleja, num intercâmbio escolar, e depois rumámos a Salamanca. Logo a seguir a Plasencia, surgiu-me aquela que eu conhecia apenas dos registos paroquiais: Béjar. Ao contar a história da vinda dos antepassados do Robles Monteiro para a Covilhã, esqueci-me de fotografar, mas esta é a paisagem vista da autoestrada.



O percurso aqui marcado passa na fronteira de Marvão (Galegos), mas nós (SVB) atravessaríamos nas Termas de Monfortinho e dali diretos a Plasencia. É perto.
Béjar é uma cidade de montanha. Ainda havia neve, não tanta como na foto. A abundância de água e de gado ovino fizeram surgir uma forte indústria de lanifícios, daí a contratação do João António Robles (roble é carvalho, em castelhano) para vir ensinar os operários portugueses, no tempo do Marquês de Pombal.
O meu colega, professor de Espanhol, contou-me que ali se situa a praça de touros mais antiga de Espanha, ainda de planta retangular. A meia encosta, existe uma aldeia de montanha com uma arquitetura tradicional, muito bonita (vê-se da autoestrada). Anualmente, realiza-se em Béjar um importante festival de blues.


Este registo refere o batismo de Josefa, nascida a 28.10.1812, filha de Bernardo Ribeiro Robles, da Covilhã, e Antónia Raimunda Ribeira, de São Vicente da Beira, neta paterna de João António Robles e Belchior Gomes, naturais de Béjar, Espanha, e neta materna de José Custódio Ribeiro, de SVB, e Maria Hipólita Cassiana, de Zalamea, Espanha.
Acima referi que este Robles e a sua esposa eram os antepassados do Robles Monteiro. Mas sê-lo-ão também de pessoas ainda a viver em São Vicente.

José Teodoro Prata

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Aos domingos

O domingo era o dia do descanso das lides do campo e da confraternização com a família. Era sobretudo religioso: ir à missa era um compromisso a que ninguém se atrevia a faltar. Envergava-se o melhor fato. As mulheres cobriam a cabeça com um véu arrendado. A igreja enchia-se: os homens ao fundo, no coro e nos camarins, as mulheres nos bancos e à frente as crianças, nos primeiros bancos e nos degraus de madeira dos altares, sob o olhar vigilante das catequistas, a Menina Amélia, a Menina Graça a tia Estela Passaraça e a Menina Maria de Jesus. As meninas ficavam todas juntas, com os seus vestidinhos engomados e com o lencinho de assoar bordado, preso na mão. A missa demorava, algumas pessoas adormeciam, no abandono do corpo enfim repousado e aconchegado pelo calor e pelo já longo sermão, previamente elaborado, do pároco.
À saída da missa todas as pessoas se concentravam em redor da igreja, agrupando-se para cumprimentar os familiares e para por a conversa em dia. Lembro-me de ser muito pequena e olhar em redor e ver um mar de saias compridas e já não saber qual era a da minha mãe. Cumprimentavam-se os familiares, reviam-se tios e tias, avós e netos, recebiam-se carinhos e palavras calorosas. Os homens dirigiam-se para a taberna, com os filhos ainda rapazitos a reboque e confraternizavam, acompanhados de um copito de vinho, onde por vezes se perdiam, até tarde.
No muro da praça, alguns agricultores vendiam fruta da época. A mãe comprava-nos um dióspiro ou uma romã a cada um que sabiam a pouco e nos ajudava à subida da quelha, no regresso a casa. E no tempo das melancias, era com cada uma, enormes, vermelhinhas e suculentas. Estas, era o pai que as comprava e carregava ao ombro, quelha acima.
Da parte da tarde, por vezes, íamos visitar os avós maternos à Oriana. Fazenda enorme soalheira e fértil situada na parte sul da vila. A casa ficava situada mesmo junto à estrada nova, pelas traseiras e a frente virada para sul, com uma varanda corrida de madeiras cruzadas em losangos, entrelaçadas por trepadeiras, cravos e cravinas bem cheirosas. As flores preenchiam também parte dos muros que dividiam os leirões e que em certas alturas do ano se enchiam de cores.
Juntávamo-nos aos tios e tias, que ficavam a conversar, enquanto os miúdos se entretinham nas brincadeiras. Às tantas, o avô João Prata pedia à avó para ir ao forro buscar fruta para dar aos netos. A avó Doroteia subia os degraus largos de madeira da escadaria que levava ao forro. Lá em cima no soalho, estendiam-se as maçãs sobre a palha que assim se conservavam nos meses de inverno. Encostadas à parede, arcas enormes de madeira onde eram guardados os cereais. Ao lado, as bilhas de zinco com o azeite. Então a avó descia a escada com uma abada de fruta e distribuía pelos pequenos. Mas estes, rebeldes e ainda insatisfeitos, corriam pelos leirões abaixo que se estendiam desde a casa até ao ribeiro, férteis, salpicados de cores, transformados em pomares onde as laranjeiras, carregadinhas de laranjas, abundavam.
No lameiro, altos arbustos em flor, como o noveleiro, carapeteiro e roseiras, ladeavam a represa que ligava o ribeiro ao tanque a transbordar de água límpida, para a rega. Era ali também que as mulheres da casa lavavam a roupa, por vezes na companhia de amigas mais próximas, tempo também aproveitado para conviverem e trocarem confidências.
Os pequenos assaltavam as laranjeiras e tiravam a barriga de misérias e iam atirando algumas aos mais pequenos, que ficavam em baixo, à espera. A avó Doroteia perseguia-os, gritava com eles e punha-os em fuga.
A avó era uma mulher que vivia no seu mundo silencioso, habituada ao trabalho e à obediência ao marido. O avô era um homem inteligente e trabalhador, mas firme no carácter. Deu o seu melhor aos filhos, trabalho e também a educação possível para a época e permitiu-lhes crescer trabalhando no amanho das terras, que eram o sustento da família, ou aprendendo um ofício.
Noutros domingos íamos visitar os avós paternos, no Casal da Fraga: o avô Francisco e a avó Maria do Rosário. Eram pessoas humildes e com um enorme coração. Havia sempre uma fatia de pão com queijo fresco para os netinhos.
Em cada família das tias do Casal e na nossa, havia um domingo por ano que era o dia da matação. Toda a família se juntava: logo de manhã, os homens chegavam para matar e pendurar o porco, mais tarde chegavam as mulheres que, após um farto almoço com toda a família, iam lavar as tripas ao ribeiro, cortar as carnes, temperá-las e tratar dos enchidos. Após uns dias era ver o fumeiro junto ao tecto da cozinha por cima da lareira, com as morcelas, as chouriças, os chouriços e as farinheiras, que emanavam um cheirinho de fazer crescer água na boca.
Também havia o domingo de Páscoa, da Ressurreição. As famílias limpavam cuidadosamente as casas e enfeitavam-nas com flores. O padre Branco com as suas vestes brancas levava a água benta. O Sacristão, o sr. António Maria, com a sua batina vermelha, levava a Cruz de Cristo, toda enfeitada com flores. Os donos da casa mais os familiares próximos faziam um círculo à volta da sala e era-lhes dado o Cristo a beijar. A casa era abençoada pelo Padre, com a água benta. Os pequenos corriam de casa em casa a beijar Nosso Senhor e iam comendo e enchendo os bolsos com os doces e tremoços, que cobriam as mesas.
E no domingo da Senhora da Orada? Era uma alegria. Na véspera tratava-se da merenda, onde não faltava o frango frito e os ovos verdes. Na manhã de domingo, todas as veredas, caminhos e estradas, desde São Vicente e povoações dos arredores, se enchiam de peregrinos, carregados com as cestas do almoço, na mão ou à cabeça, cantarolando, em direcção à ermida. Ao aproximarem-se, já se ouvia o padre e os fiéis a rezarem o terço. Toda a zona envolvente se enchia de barraquinhas, onde se vendiam guloseimas e brinquedos para regalo da pequenada. As mães não podiam deixar de comprar aos pequenos a Nossa Senhora de Açúcar, que era pendurada ao pescoço por uma fita e depois comida no regresso a casa. As pessoas enchiam o terreiro da capela, para ouvir a missa, sob a sombra das grandes amoreiras, no chão, um tapete de flores branquinhas. A seguir à procissão, as famílias procuravam-se e juntavam-se para almoçar: estendia-se uma manta de trapos no chão, à sombra de pinheiros ou amieiros, no meio de mato florido ou relva, o barulho da água a cantarolar no ribeiro e dos passarinhos a cantar. Por cima estendia-se a toalha, onde se colocava a merenda. As famílias sentavam-se em redor, comia-se com vontade e convivia-se.
Quando já era mais crescida, nos domingos à tarde e com a difícil e conseguida permissão dos pais e com a promessa de regressar antes de se fazer noite, ia sair com as minhas amigas. As conversas aconteciam na Praça, na Fonte Velha e por vezes no café da beira da estrada, onde bebíamos uma coca-cola, uma Pepsi ou uma Seven-Up, acompanhada com um prato de amendoins. Quantos namoros começaram assim!
Dávamos passeios na estrada nova, por vezes com alguns rapazes no encalço, uns metros atrás. Mandavam olhares comprometedores e piropos. Havia risos entre os grupos, por vezes trocistas. Nas árvores da estrada eram gravados nomes, corações, juras de amor.
Sentávamo-nos na Praça e jogávamos ao anel e ao lenço, com os rapazes. Era o ponto de partida para uma aproximação entre rapazes e raparigas.
À tardinha quase ao por do sol com o tempo bom, havia baile na Praça, no cantinho, ao pé do café da tia Janja. O César montava a aparelhagem que ligava ao café e punha o funil na árvore do canto da Praça que se enchia com músicas e alegria.
As raparigas sentavam-se de um lado e os rapazes do outro, dançávamos Rock and Roll em grupo, slows e corridinhos. Quando a música era para dançar a dois, os rapazes faziam sinal à rapariga ao longe, ou iam busca-la, se se sentissem seguros. Dançáva-se ao som dos ABBA e outras músicas então em voga. Era então o tempo do despertar de novas emoções, de incendiar as paixões, dos encontros e desencontros.
Quando estava muito frio e chuva, o baile fazia-se num salão ao pé da capela de São Sebastião. Este era também utilizado para teatro e projecção de filmes, o cinema ambulante. As bancadas eram feitas com tábuas de madeira corridas, o filme era projectado num grande papel branco ou um pano a cobrir o palco. Lembro-me do filme que me impressionou e vi naquela sala: O Tubarão. Uma delícia e uma saudade enorme daqueles domingos.


Tina Teodoro

domingo, 14 de maio de 2017

O Espírito Santo

Publiquei, a 3 de abril de 2011, um artigo intitulado Os franciscanos em São Vicente. Recupero a parte inicial:

«A presença franciscana remonta, na nossa terra, possivelmente, ao século XV ou XVI. Quase todos os templos da Vila são desses finais dos tempos medievais e inícios da Idade Moderna, exceto a Igreja Matriz (erigida na época da fundação da povoação) e a Orada (é muito mais antiga que a Matriz, mas a atual capela também foi construída naquele período).
Nesses fins da Idade Média, São Vicente terá alcançou o seu máximo desenvolvimento económico e social. Houve então riqueza para levantar templos, palácios e equipamentos públicos, como a Câmara Municipal e o Pelourinho.
A capela de São Francisco não foge a esta regra. O grande arco de volta perfeita, no seu interior, com a aresta cortada, é, na nossa Beira, tipicamente quinhentista. Esteve, até há poucos anos, pintado de azul.
Mas o templo não foi, desde o início, de devoção a São Francisco, mas sim a Santo António, ele próprio franciscano e contemporâneo do fundador da Ordem Franciscana, com quem ainda se encontrou, na Itália que depois o adotou como seu e onde se tornou um dos santos maiores da Cristandade.
Foi, pois, a capela dedicada a Santo António, até 1744. Nesse ano, veio a São Vicente um grupo de frades franciscanos pregar uma missão. E sementeira foi de tal modo fecunda que, nos anos seguintes, a capela deixou de pertencer apenas a Santo António para a ser, sobretudo, dedicada a São Francisco. Nela teve sede, logo de seguida, a Irmandade da Ordem Terceira…»


São Francisco recebendo a bula da criação da Ordem Terceira das mãos do Papa Inocêncio III. 
Procissão dos Terceiros, 2010 ou 2011.

Ando a ler o livro FRANCISCO, Desafios à Igreja e ao Mundo, do Pe. Anselmo Borges, e ontem encontrei algo que diz diretamente respeito a São Vicente da Beira. Cito uma parte do capítulo “As «sopas» do Espírito Santo”, páginas 242 e 243:

            A propósito das festas do Divino Espírito Santo, nos Açores, escreveu o Pe. Anselmo Borges:
            «Se formos à procura da origem destas festas, encontramos um monge célebre do século XII, Joaquim de Fiore, que deu o joaquinismo. Segundo ele, a História do mundo está dividida em três idades: a Idade do Pai ou da Lei, que é a idade da servidão e do medo; a Idade do Filho, que é a idade da submissão filial; a Idade do Espírito Santo, na qual se ia entrar, e que é a idade do Amor, da Liberdade e da Fraternidade.
[Segue-se um parágrafo em que se refere o eterno conflito no seio da Igreja entre o lado institucional e hierárquico e o lado espiritual e fraternal; a esta nova mensagem revolucionária tinham aderido os franciscanos espirituais, desgostosos com os papas que abafavam o Espírito. Os franciscanos espirituais viriam a abrir um convento na serra da Arrábida.]
            Em 1282, D. Dinis casa com D. Isabel de Aragão, a futura Rainha Santa. (…) Toda a família da nova rainha de Portugal era partidária dos frades espirituais e a própria rainha possuía um conceito franciscano de vida: simplicidade, despego dos bens terrenos, amor aos pobres e fracos. Santa Isabel protegia os franciscanos, e foi por seu intermédio que entrou um culto especial ao Espírito Santo. Fundaram-se confrarias do Espírito Santo, irmandades de socorro mútuo, e instauraram-se as Festas do Império do Espírito Santo, nas quais se celebrava o Pentecostes, comemorando a descida do Espírito santo sobre os Apóstolos.

            Ora São Vicente da Beira, embora nos últimos séculos não tenha nenhum culto ao Espírito Santo, teve-o na Idade Média, precisamente na sequência da difusão do joaquinismo em Portugal, pelos franciscanos protegidos da Rainha Santa. É que, em 1362, menos de 100 anos após a chegada de Isabel de Aragão a Portugal, existia na Vila a albergaria do Espírito Santo, certamente gerida por uma confraria do Espírito Santo. Pensa-se que foi esta irmandade que deu origem à nossa irmandade da Misericórdia, na sequência de nova dinâmica fraternal criada por uma outra rainha, D. Leonor, nos finais do século XV. Os fins eram os mesmos e talvez até a albergaria da Misericórdia, situada no início da Rua da Misericórdia, fosse a mesma antes chamada do Espírito Santo.

José Teodoro Prata

sábado, 22 de abril de 2017

Alcunhas 2

Já lai vai mais de um ano que o Zé Barroso publicou aqui no blogue um artigo com as alcunhas usadas na nossa terra. A lista foi sendo completada por vários colaboradores e, no final, já tinha mais de trezentas.
Uma das perguntas que se colocou na altura foi o que fazer a seguir. Parece que não se chegou a nenhum consenso, mas penso que era interessante escrever-se uma pequena história sobre a origem de cada uma. Algumas são tão óbvias que pouco há a dizer; outras perderam-se no tempo e já ninguém se lembrará da sua origem; mas muitas terão por trás episódios interessantes e engraçados.  
Acho que vale a pena tentarmos. Para já, aqui fica a minha colaboração, incluindo também algumas alcunhas da Partida que acho deliciosas:

O Mil Homens
Quando andava na escola todos me chamavam a Mil Homens. Eu ficava muito envergonhada porque achava que era um nome muito feio.
Só mais tarde é que fiquei a saber a origem daquela alcunha e a partir daí senti sempre um orgulho muito grande nela: O meu avô andou na Guerra e quando regressou foi recebido como um herói; mas vinha tão traumatizado que não conseguia falar noutra coisa que não fosse naquilo que por lá passou. Todas as conversas iam dar ao mesmo: as muitas tropas do seu batalhão; os muitos homens nas trincheiras; os muitos mortos pelo chão. Referia-se sempre a eles utilizando a expressão «Mais de mil homens!» um número que ele, analfabeto, achava ser o maior para definir todas as atrocidades que por lá viu e dificuldades que passou. Por causa disto puseram-lhe o Mil Homens e, a partir daí, toda a família ficou conhecida por essa alcunha, até hoje.

O Quinta Casa
Antigamente também não havia grandes farturas na Partida, mas quase toda a gente tinha um bocadinho de terra para tratar uma horta. E havia por cá até algumas casas ricas, com bons lameiros, olivais, terras de pasto e de pinhal que chegavam para eles, para vender e davam trabalho a muita gente.
Um dia o Ti Manuel Lopes pôs-se a deitar contas ao que cada um tinha e, lá para com os seus botões, ia sentenciando qual era a casa mais rica, e a que vinha a seguir, e por aí fora até chegar à dele que, pelas suas contas, estava em quinto lugar. Começou então a gabar-se, para quem o queria ouvir, que a quinta casa maior da Partida era a dele.
A partir daí todos começaram a chamar-lhe o Quinta Casa.

O Conde Caniço
Também tinha muito de seu, o Ti Domingos Nunes. Entre as várias propriedades que possuía, também era dele o Caniço, uma das melhores terras da Partida. Tinha tanto orgulho naquela propriedade que não se calava: «O meu Caniço é a melhor terra que aí há. Nem o conde!».
Tanta vez repetiu aquilo que começaram a chamar-lhe o Conde Caniço.

O Mata Nosso Senhor
Morava no Casal, o João Teodoro. Um dia deu-lhe a preguiça e atrasou-se para vir para a escola. Com medo de apanhar alguma reguada veio o caminho todo a correr até à Vila. Quando chegou à Praça e viu que já toda a gente tinha entrado, correu tanto que até parecia que vinham atrás dele.
Nesse dia o Ti António Mosca andava a podar as olaias e quando o viu naquela pressa, para brincar com ele, desatou a berrar lá de cima da escada: «Agarrem-no! Agarrem-no que foi ele que matou o Nosso Senhor!».
O cachopinho desatou a correr ainda mais e a partir desse dia toda a gente começou a chamar-lhe o Mata Nosso Senhor.

O Nita
Morreu cedo, a mulher do Ti Francisco Candeias, e quem lhe valeu para o ajudar a criar os três filhos, todos ainda crianças, foi a Ti Rita do Manha, tia dos meninos por parte da mãe.
O João, que era o do meio, não saía da casa da tia que o tratava como a um filho e ele também se afeiçoou muito a ela. Mas, como era ainda pequeno e tinha dificuldade em falar, não conseguia dizer o nome dela e, em vez de Rita, chamava-lhe Nita. Foi daí que começaram a chamar-lhe o João Nita.

O Caneco
Era ainda criança e a mãe já o mandava a levar o jantar ao pai quando andava por dia. Uma vez passou por um homem que viu que ele ia todo derreado com a cesta e disse-lhe assim:
- Ó cachopo, olha que tu endireita-me bem a cesta, que ainda entornas o jantar ao teu pai!
- Não entorno não senhor, que hoje até cá levo um caneco de vinho!
Foi quanto bastou para começarem a chamar-lhe o Emílio Caneco…

M. L. Ferreira

terça-feira, 11 de abril de 2017

Boa Páscoa!

Com a nossa doçaria...



...as flores da quadra...



...e o nosso património religioso.




E claro, o fundamental: familiares e amigos!
José Teodoro Prata

sábado, 8 de abril de 2017

Ordenanças

Os registos de casamento abaixo apresentados referem os nomes do comandantes do concelho de São Vicente da Beira, nos inícios do século XVIII
O 1.º, de 1705, apresenta o casamento do vicentino Manuel Lopes e de Mariana Gracia, natural de São Romão. Este Manuel Lopes tinha ainda Guerra como apelido e foi avô de Benedita Simões, fundadora da Casa Cunha. Uma das testemunhas deste casamento foi o Sargento-mor António Nogueira. O nosso concelho tinha 5 capitanias: Louriçal, São Vicente, Sobral, Ninho + Freixial e Tinalhas. Juntas formavam a Capitania-mor de S. Vicente da Beira e o sargento-mor era o segundo oficial mais importante.
O 2.º, de 1706, documenta o casamento do Capitão Francisco Luís Esteves, de Peraboa, com a vicentina Maria Vaz Neves. Não é claro que ele fosse, na altura do casamento, capitão na capitania de São Vicente, mas foi mais tarde capitão-mor da nossa capitania-mor.
0 3.º, de 1705, refere o casamento do viúvo Manuel Pestana e da viúva Catarina Antunes, ambos vicentinos. Foi testemunha o capitão-mor Francisco de Brito Fragoso, portanto o comandante militar máximo do concelho de S. Vicente da Beira.



José Teodoro Prata

terça-feira, 4 de abril de 2017

O tesouro da Partida

Há muitos anos vivia na Partida uma família a que chamavam “As Mari’ Joanas”. Eram duas irmãs solteiras que viviam com o pai, e já naquele tempo eram consideradas das pessoas mais abastadas da terra.
Um dia, já rente à noite, bateram-lhes à porta. Estranharam a hora, mas foram assomar à janela e viram dois homens, cada um com sua mula pela mão, que disseram ser almocreves. Pediram que lhes dessem alguma coisa que cear e os deixassem dormir por uma noite, que vinham com fome e cansados do muito caminho que tinham andado. E que não tivessem medo, que tinham com que pagar o comer e a dormida.
Fazendo justiça à fama da hospitalidade das gentes da terra, as duas irmãs prepararam logo ali num instante uma bela sopa de couves temperada com um bom naco de presunto. Os viajantes comeram-na tão sôfregos e calados que até parecia que não comiam há uma semana. Entretanto foram fazer as camas com os melhores lençóis de linho que havia na casa.
Depois de comerem, os viajantes levantaram-se da mesa e disseram que queriam fazer contas. O dono da casa bem disse que não senhor, que as contas se faziam de manhã, e que ficassem mais um pouco para dois dedos de conversa e a reza do terço. Disseram que não, que tinham que abalar de manhã cedo, antes do nascer do Sol, mas antes agradeciam muito que lhes indicassem para que lados era um sítio, ali nas redondezas, que dava pelo nome de Porto, e qual era o melhor caminho para lá chegarem.
O dono da casa achou estranha a pressa dos dois homens em abalar, mas desconfiou ainda mais da curiosidade deles em saberem onde era o tal lugar. Não pregou olho em toda a noite, a pensar no caso e à escuta de qualquer barulho, não fossem eles abalar sem ele dar conta. Já agora não queria perder a partida de tão estranhos hóspedes e ver se tirava a limpo as intenções que os trazia a vaguear por aquelas bandas.
Ainda o dia vinha longe, sentiu o ranger das tábuas. Deviam ser eles a levantarem-se, e ficou à escuta. Mal ouviu a porta da rua a ranger, pôs-se a pé e foi espreitar. Viu-os a descer a rua, cada um montado na sua mula. Nem se preocupou de estar em camisa de dormir e barrete na cabeça; enfiou só as botas nos pés e foi atrás deles. Quando chegaram lá ao sítio, viu-os parar e pôs-se à espreita, um pouco mais longe, a ver o que é que eles faziam. Nem queria acreditar quando os viu a encherem umas sacas e a carregarem uma das mulas com elas. Aproximou-se mais e viu que eram moedas de ouro o que estavam a ensacar. Assim que o viram, os dois homens voltaram-se para ele, zangados:
            - Se não tivéssemos comido ontem à sua mesa e dormido nos seus lençóis, era hoje aqui o fim da sua vida. Mas, assim sendo, nós já cá levamos o nosso quinhão; ainda aí fica esse pote, acabe vossemecê de o rapar.
O homem não perdeu tempo e, tão depressa quanto pôde, apanhou as moedas que restavam no fundo do pote e encheu o barrete com elas. Correu depois para casa o mais depressa que as pernas deixaram, não fosse alguém dar por ele, e foi contar às filhas o sucedido.
Se já eram abastadas, as Mari’Joanas ficaram ainda mais ricas. Quando morreram, como eram solteiras e nem sobrinhos tinham, quem herdou tudo foram os primos Fernandes. Vem desses tempos a fama, e só eles sabem se o proveito, de serem das famílias mais ricas da terra.


M. L. Ferreira

sexta-feira, 24 de março de 2017

Balcão da CGD em São Vicente

O Jornal RECONQUISTA deste fim de semana traz duas notícias sobre o anunciado fecho do balcão da Caixa Geral de Depósitos na nossa terra: a tomada de posição das juntas de freguesia da zona, enviada à direção da Caixa, com entrevista ao Vítor Louro, e a carta de algumas pessoas sobre o mesmo assunto. O jornal refere ainda um folheto anónimo que por estes dias tem circulado em São Vicente, mas não o reproduz.


José Teodoro Prata

quarta-feira, 22 de março de 2017

Piscina, 1973

O Sr. Ministro da Educação Nacional concedeu um subsídio para a Piscina de São Vicente da Beira

Sua Ex.ª o Sr. Ministro da Educação Nacional exarou um despacho para concessão dum subsidio destinado à construção da Piscina em São Vicente da Beira. Ainda não sabemos ao certo qual o quantitativo da comparticipação inicial do Ministério Nacional da Educação, o que esperamos venha a concretizar-se dentro de pouco tempo. A Piscina enquadrada no futuro Parque Infantil e de juventude, está orçada em cerca de 600 contos. O Ilustre Ministro da Educação Nacional, Professor Dr. Veiga Simão, recebeu com agrado a petição feita por intermédio do Ex.º Presidente da Câmara Municipal a que deu deferimento imediato para a concessão de subsídio pelo mesmo Ministério.
A Vila de são Vicente da beira está naturalmente grata a S. Ex.ª e pede o máximo de generosidade para que tal obra seja em breve uma realidade nesta terra. As crianças e juventude, sobretudo, saberão ser igualmente gratas ao Governo da Nação perante uma Obra que virá trazer-lhes imensos benefícios à sua constituição física e moral.
O Pároco, promotor desta iniciativa está profundamente reconhecido ao senhor Ministro da Educação a quem saúda respeitosamente.

-           QUE FAZES AQUI?
-           ESTOU À ESPERA…

MAS MEU MENINO E VÓS OUTRO, QUEREIS SABER O QUE JÁ CHEGOU DE MUITO AMOR POR VÓS? ORA VÊDE:
O Senhor Ministro da Educação Nacional atendeu o nosso pedido e vai dar-nos uma ajuda substancial. Ele quer que os meninos das escolas aprendam natação. É vosso amigo. Temos também dum Senhor Doutor Holandez que nos tem ajudado muito, é o Sr, Dr. Hendrik de Rook. Pois este nosso querido benfeitor enviou-me 10 000$00 para a vossa Piscina. Deveis estar-lhe muito gratos e deveis rezar por ele para que tenha muita saúde a fim de vos dar ainda mais, que tem um coração muito generoso.
Mas os vossos amigos são muito, rezai por todos.
Se não vede:
Uma pessoa anónima: 1 000$00; mais do Sr. Afonso Costa (de Moçambique) com uma carta muito linda: 150$00; Da França do Sr. Albertino Duarte Martins: 50$00; da Sra. Aldina de Vires Caldeira: 2 000$00; e que nunca as mão lhe doam. Mas esta senhora entregou-nos mais 1 000$00; dos Srs. Gonçalves de Azevedo que estiveram de visita em sua casa. O Sr. Alípio Bau veio com uma nota de 50$00. O Sr. António de Jesus Candeias deu 50$00, o Sr. António de Jesus Craveiro 50$00, um anónimo com a mesma quantia de 50$00, é de Castelo Branco. Por mão própria o Sr. António Teixeira Governo: 100$00 e de igual forma e nota igual o Sr. António Prata Rodrigues Inês, o Sr. Adão Boaventura Caldas Costa: 50$00, o Sr. Domingos José Pedro: 150$00, que nos fez uma visita; o Sr. Domingos Candeias: 20$00; Sr. Francisco da C. Pereira de frança, 100400; de Angola uma carta e 500$00 do Sr. Francisco Duarte Leitão; Sr. Francisco Eduardo Candeias de Castelo Branco: 100$00; Sr. Francisco José Bau, mandou o seu filho visitar a sua terra, o que ele admirou e deixou 50$00. Mais 75$00 do Sr. Francisco Moreira Nicolau. Vieram apresentar-nos cumprimentos a família do Sr. Francisco Miguel que nos entregou 50$00; Sr. Francisco Nicolau do Rio deixou 20$00; Sr. Herminio de Matos Fialho entregou-nos pessoalmente 100$00 e de igual modo fez o Sr. Jaime Pedro, 100$00. O Sr. João da Conceição e Silva que muito sabiamente escreveu para o nosso <>, nunca esqueceu a terra do seu pai e que frequentou quando pequeno, pois aqui, está ele a ajudar os pequeninos com 1 000$00. O Sr. João Freixo Boavida, da Caparica 200$00 e mais 100$00 do Sr. João Fernandes, 100$00 do Sr. Joaquim Ambrósio (França), e também do Sr. Joaquim dos Anjos Candeias (Alemanha). O Sr. Joaquim dos Santos Caio (Lisboa), pelos seus netinhos Tiago e Melissa, 200$00, o Sr. Joaquim dos Santos Craveiro, 100$00. O Sr. Governador de Niassa, Moçambique, Sr. Coronel Guardado Moreira enviou-nos 1 000$00, o Sr. José Maria Gama com 100$00, o Sr. José Maria Lino: 50$00 e Sr. José Maria Patrício, também 50$00, mais 100$00 do Sr. José Martins e 200$00 da Sra. Laurentina Gama (Angola) e ainda 200$00 da Sra. D. Lúcia M. Lopes Agostinho, o Sr. Luís Martins que está na Bélgica deu-nos 50$00.
Tivemos muita satisfação em cumprimentarmos o amigo Sr. Manuel Marques dos santos que faz vida em Alcobaça e veio matar saudades a esta sua terra que já não via há largos anos, ele deixou-nos 100$00, também o Sr. Manuel Martins Paiágua, esteve connosco e ficaram por sua vontade, 200$00, mas há mais: Sra. D. Bárbara Marques Jerónimo, que nos visitou com o marido e filhinhos, vindos de França cá nos deixou 250$00. A Sra. D. Maria Emília Patrício de Lisboa também nos visitou e ofereceu 100$00 e a D. Maria do Carmo Cardoso entregou-nos 50$00, a Sra. D. Maria Fernanda Marcelino que está na Alemanha: 100$00, ainda 50$00 da Sra. D. Maria de Jesus Sousa Campos e mais 100$00 da Sra. D. Maria de Lurdes Cardoso de Lisboa. Entregaram-nos 50$00 a Sra. D. Maria Madalena Candeias Moreira, 200$00, o Sr. António Pereira que trabalha na Bélgica e 50$00 por portador a Sra. D. Maria Rosa Vitório. A Sra. Maria Teresa Craveiro Santos Nicolau enviou-nos do Brasil a linda conta de 1 000$00. Temos oferta de 20 francos do Sr. António Martins Lino, 100$00 do Sr. Miguel Hipólito Jerónimo e 120$00 do Sr. Lino Martins que nos visitou pessoalmente quando veio a Portugal. E a coisa por agora está quase a terminar.
São 100$00 do Sr. Anselmo Pereira, uma entrega pessoal de 500$00 da Sra. D. Maria Cunha Pignatelli Fonseca e mais 150$00 do Sr. José dos Santos Prata (França) que com a sua família nos fez uma visita ao nosso cartório. Para já é tudo, resta-nos prestar homenagem sincera a estes construtores dum São Vicente mais belo. Estou contente porque estais comigo. Um grande abraço do Pároco Amigo, muito reconhecido.


Do “Pelourinho”, dezembro de 1973
Jaime Gama