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sábado, 28 de março de 2026

O nosso falar: cambalhões

 Fiz a publicação abaixo apresentada no facebook, a qual motivou uma reflexão sobre a correção da palavra que consta do título, referida em comentário pelo nosso conterrâneo José Nicolau ("Essa cava era chamada cavar cambalhão, ainda cavei assim, deixar a terra direita é cava rasa.") 

A Berta Ramalhinho disse que era camalhões (mais tarde o Albano Mendes de Matos informou que na Região Saloia também se diz camalhões). Eu fui consultar a net e de facto é camalhões, vindo do castelhano caballón, palavra que significa cume em português. Eu penso que ao José Nicolau saiu aquilo que se diz e eu digo na nossa terra: cambalhões. De caballón e porque não de cambalhota?, movimento que damos à terra para a virar, muitas vezes até para soterrar a erva da parte superior. Tal como arresário (soalheiro), enxidros (baldios), também usamos cambalhões, de caballlón. São inúmeras as palavras de origem castelhana que nós usamos nesta região fronteiriça!

OS NOSSOS AVÓS ERAM CIENTISTAS – A OXIGENAÇÃO DA TERRA
Cresci a ver os meus pais e o meu avô Francisco a deixarem a terra em pequenos montes, durante a cava, semanas antes de se fazerem as sementeiras. Aquilo sempre me fez espécie, porque, imediatamente antes da sementeira, os montes eram desfeitos e a terra alisada. Quando comecei eu a preparar as terras, questionei a minha mãe sobre a necessidade de fazer os montes. Ela respondeu-me que era para a terra apanhar ar. Ao cavar, a terra de cima ia para baixo e a de baixo ficava ao ar. Depois, quando os montes se desfaziam, outra terra ficava a apanhar ar. E ao fazer os regos das sementeiras, nova terra ficaria a apanhar ar, ficando por baixo a terra já arejada.
Este mover de terras visa a oxigenação da terra. Ao contacto com o ar, o ferro existente na terra capta o oxigénio e depois, em contacto com as raízes, transmite-o às plantas. Sim, as plantas captam o oxigénio do ar, pelas folhas, e da terra, pelas raízes. Este saber popular chegou-nos pela prática ancestral da agricultura ou é fruto das revoluções agrícola e científica (que em Portugal ocorreram sobretudo no século XIX)? Neste caso, esse saber chegou a alguns agricultores mais esclarecidos, que por sua vez o transmitiram aos camponeses que para eles trabalhavam. Um deles, Francisco Tavares Proença (pai do fundador do Museu), grande político albicastrense do final do século XIX e inícios do século XX, o maior cacique entre a Gardunha e o Tejo (conhecido por soba da rua de São Sebastião, onde ainda existe o seu palacete), era grande produtor de batata e o seu entusiasmo por este novo cultivo terá influenciado a agricultura nesta região.

José Teodoro Prata

domingo, 15 de março de 2026

O nosso falar (e viver) – sorte, terça, terceiro

A propósito da última sessão do “Conta-me histórias”, fui rever um pouco da História mais antiga de Portugal. Sobre o reinado dos Visigodos, achei interessante este texto, que pode justificar a origem dos nomes sorte, terça e terceiro, que ainda se vão ouvindo nas conversas entre os mais velhos, referindo uma porção de terra, normalmente pequena, que, nas partilhas, cabe a cada um dos herdeiros; ou o modo de pagamento de quem cultiva terrenos alheios, recebendo como paga a terça parte da colheita: 


                                      (História de Portugal de Fortunato de Almeida)

ML Ferreira

sexta-feira, 4 de abril de 2025

O nosso falar - Dar a salvação

Uma das melhores formas de aprender é por imitação, principalmente quando se trata de regras de convivência social. Dar a salvação é um bom exemplo. Desde crianças que começámos a dizer bons dias, boas tardes ou boas noites a toda a gente por quem passávamos (os mais velhos ainda nos lembramos de ouvir Nosso Senhor lhe dê bons dias; Nosso Senhor o ajude; Vá com Deus, Nosso Senhor o acompanhe…). Ninguém nos disse que tínhamos de o fazer, mas imitávamos o que víamos aos nossos pais e a outros adultos significativos, sempre que passavam por alguém na rua, fosse ou não gente da terra.

Negar a salvação era a pior ofensa que se podia fazer a alguém, e só acontecia quando a zanga era séria; por isso, a primeira vez que íamos à cidade (para muitos era a ida a Castelo Branco para o exame da quarta classe) achávamos estranho que as pessoas passassem umas pelas outras e não dessem a salvação, como se andassem todas zangadas. A situação piorava quando, como aconteceu com alguns de nós, íamos viver para uma cidade maior. Sentíamos que parte da nossa humanidade tinha ficado para trás.

Regressados à terra, muita coisa mudara: as crianças tinham-se feito homens e mulheres e já não tínhamos o nosso pai e a nossa mãe a esperar-nos à porta de casa. Apesar disso continua a ser reconfortante passar por alguém na rua e, muitas vezes, poder ir para além dum apressado «bom dia». Estranhamente, começa a ser frequente cruzarmo-nos com pessoas, geralmente mais novas, que, de tão mergulhadas nas próprias bolhas, passam pelos outros como seres invisíveis.

Há quem diga que é só falta de educação; é possível que seja sobretudo sinal de um tempo de maior isolamento e solidão…

ML Ferreira

terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

O nosso falar: abelhudo e desabelhar

 Andámos a fazer o desdobramento de uma colmeia e no final uma abelha não nos largava, por mais fumo que lhe lançássemos em cima.  

- Desabelha daqui! – disse-lhe o Chico. E rimo-nos, porque a expressão vinha mesmo a calhar.

A abelha anda sempre de um lado para o outro, numa constante azáfama, por isso chamamos abelhudo a alguém com a mesma caraterística, sobretudo se aparece de forma constante e inoportuna. E desabelhar é mandar o abelhudo dar uma volta, desaparecer. Neste caso era mesmo uma abelha!

José Teodoro Prata

quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

O nosso falar: pechorro

 Ando a ler o livro Os sertões, do brasileiro Euclides da Cunha (1866-1909), que fez a reportagem jornalística da Guerra dos Canudos (1896-1897) e posteriormente realizou um estudo sobre os sertões do Brasil (este livro), nas vertentes geográfica, humana e político-militar (neste caso, sobre a guerra acima referida).

O arraial dos Canudos situava-se no interior do estado da Baía e aí se concentraram milhares de sertanejos em torno de um louco (António Conselheiro, 1830-1897), a viver à margem da lei e da Administração Central. Esta guerra foi uma catástrofe humana, pois morreram cerca de 20 mil membros daquela comunidade sócio religiosa e 5 mil militares.

Sobre o assunto, foi realizado um filme (A Guerra dos Canudos) e Mário Vargas Llosa escreveu o romance A Guerra do Fim do Mundo.

 

Ora, à página 119, o autor escreveu que as pétalas das flores recém-abertas «…caem, mortas, sobre a terra imóvel sob o espasmo enervante de um bochorno de 35º, à sombra.»

As campainhas tocaram na minha cabeça quando li a palavra bochorno. Lembrei-me da expressão dos meus pais, quando estava um daqueles calores em que até o ar treme: Hoje está um pechorro! Ou seria pochorro ou bochorro? Ou mais certamente p´chorro ou b´chorro? Eu(tu), os meus(vossos) pais e as gerações anteriores fomos alterando oralmente a palavra bochorno, que existe de facto e significa muito quente.

José Teodoro Prata 

sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

O nosso falar: Resto de Boas Festas

Uma das minhas vizinhas desejou-me, a meio desta semana, entre Natal e Ano Novo, Um resto de Boas Festas. Há que tempos não ouvi nem usava esta expressão, tão nossa (desconheço se de outras regiões).

Ela é do Ingarnal, que fica na nossa zona geográfica e cultural.

Lembro-me bem de usar e ouvir: Resto de um bom dia; Resto de bom domingo; Resto de boas férias; Resto de bom aniversário; Resto de Bom Natal....

Atualmente já se usa pouco, em parte porque a urbanização levou ao abandono de muitas expressões antigas, o que, consequentemente, provocou um empobrecimento vocabular. Por outro lado, há muitos preconceitos sobre certas palavras/expressões. Hoje não fica bem falar em resto, parece que o que falta é a parte má do todo.

José Teodoro Prata

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

O nosso falar: desassemelhado

Travei-me de razões com um galho de laranjeira e saí com um ligeiro raspão na testa. Agora secou e fez crosta, parecendo uma grande coisa. Hoje vi-me ao espelho e achei-me um pouco desassemelhado para a festa.

Desassemelhado é um adjetivo e o particípio passado do verbo desassemelhar. De certa forma, desassemelhado é sinónimo de desfigurado, adjetivo mais usado que este, que caiu em desuso.

Desassemelhado significa não estar semelhante ao que é habitual. No uso do nosso povo, penso que é mais suave que desfigurado.

José Teodoro Prata


Nota: há novo comentário (com informações importantes), na publicação Pe. Domingos Martinho Raposo (para voltar lá, escrever este nome da publicação na caixa da esquerda, ao alto)

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

O nosso falar: refeito

 Hoje a minha mulher levantou-se com alguma falta de apetite, realçada pelo meu apetite quase voraz na primeira metade do dia (à agricultor).

Provoquei-a: Estás refeita!

Depois pensei na origem desta expressão que me saíra espontaneamente.

A minha mãe usava-a, referindo-se a pessoas ou animais domésticos, satisfeitos após uma refeição.

De facto, o prefixo re, na palavra refazer, indica algo reconstruído, recuperado, corrigido. Neste caso o nosso equilíbrio físico através da alimentação.

O José Barroso, escreveu aqui, em "Crepúsculos I", a 6 de novembro de 2020:

"— O descanso está feito e o corpo refeito. Estais comidos e bebidos! Ide à vida! — dizia Garrancho incentivando-os ao trabalho! E eles lá iam, às vezes com um gesto a adivinhar uma pontinha de preguiça, a indiciar que os corpos queriam ainda permanecer na modorra por mais algum tempo."

Nota: Publicação alterada a 27 de fevereiro.

José Teodoro Prata

quinta-feira, 14 de março de 2019

O nosso falar: sagorro

Ao escrever o texto dramático Pagar o vinho, já aqui publicado, usei a palavra sagorro e na altura consultei os dicionários.
Curiosamente, sagorro é sinónimo de avarento, enquanto na nossa terra é sinónimo de saloio.
Vá-se lá saber porquê esta colagem do avarento ao saloio! Talvez porque o avarento, por sê-lo, vive como um saloio.

José Teodoro Prata

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

O nosso falar. vagamundo


Há dias, já quase noite e um frio de rachar, tocou o telefone. Era uma vizinha a avisar:
- Olha que tu fecha as portas bem fechadas, que está um vagamundo mesmo aí à frente da tua casa.
Fui espreitar e, de facto, vi um homem sentado na paragem da camioneta. Tinha o cabelo comprido e as barbas brancas chegavam-lhe até ao peito. À roda dele, no chão, tinha dois sacos de plástico cheios com qualquer coisa, provavelmente roupa. Passado um bocado voltei a espreitar e o homem continuava no mesmo sítio, mas já embrulhado numa manta, como se fosse passar ali a noite.
A pretexto de lhe levar algum agasalho, saí de casa e fui meter conversa com ele. Era espanhol, por isso tive dificuldade em entender tudo o que disse, mas percebi que tinha nascido numa terra da Andaluzia. Percebi também que não se quedava por muito tempo no mesmo sítio e por isso abalava, sem destino certo, por esse mundo fora. Desta vez tinha vindo para Portugal e já andava por cá desde junho.
Ao outro dia, bem cedo, o homem tinha desaparecido. Na paragem da camioneta não havia qualquer vestígio de que alguém tivesse dormido naquele sítio. No centro do banco estava apenas a malga da sopa que lhe levara na véspera, bem lavada. Por baixo dela, um bocado de cartão com a palavra “gracias” escrita em letras mal alinhadas.
Durante alguns dias pensei várias vezes naquele homem e em como há vidas… (qualquer adjetivo pode ser válido ou descabido). Compreendi, finalmente, o sentido do termo vagamundo utilizado pela minha vizinha. E, cá no fundo, fiquei contente porque, do alto da minha sapiência, por pouco não lhe emendei o falar.  

Nota: A palavra vagamundo ainda consta numa edição já velhinha (sem data, infelizmente) do Dicionário da Língua Portuguesa, da Porto Editora (se atentarmos bem, o significado do termo não é exatamente o mesmo de “vagabundo”), mas já não se encontra em dicionários mais recentes, como o Houaiss da Língua Portuguesa.

Maria Libânia Ferreira