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quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Pontas

 1. Foto de João Engenheiro (completa uma das publicações anteriores):


ML Ferreira


2. Dia dos Sinos: há dois comentários novos e interessantes, na publicação anterior sobre o assunto.

José Teodoro Prata

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Gente Nossa: João Engenheiro

 

«Muitos nunca ouviram falar deles e quase todos desconhecem a importância que tiveram para S. Vicente, nos meados do século XX. Eu ainda conheci o Zé Companhia, como era conhecido, por andar sempre acompanhado de um grupo de aprendizes de pedreiro. Um deles foi o meu pai.
Mas nunca ouvira falar do João Engenheiro que, já reformado e doente, morava no n.º 20 da Rua da Costa, cerca de 1950. Com ele e a sua esposa partilharam os meus pais esta habitação: eles viviam na casa das traseiras e os meus pais, recém-casados, na que dá para a rua
.» (do artigo “Dois Artistas”, de José Teodoro Prata, publicado em dezembro de 2009).

 

É verdade que do Zé Companhia (José Diogo) já só os da nossa idade é que ainda nos lembramos, mas sobre o João Engenheiro, mesmo os nossos mais velhos, já pouco souberam dizer. Encontrei-o no livro de enterramentos da Junta de Freguesia, no dia 24 de outubro de 1955, o que facilitou encontrar mais alguma informação sobre este nosso conterrâneo.

O registo de nascimento diz que nasceu a 1 de setembro de 1922, numa casa da rua da Costa; os pais, Manuel Niculau, sapateiro, e Francisca dos Santos Moreira, doméstica, quiseram que se chamasse João (João Nicolau dos Santos Moreira, de seu nome completo), o nome do avô materno. O casal, na altura, já tinha três filhas:

 - Maria Libânia Nicolau Moreira (1909/1960), que casou com João Calmão* (1906/?) em 1932, e não deixou descendência;

 - Laura Nicolau Moreira, (1911/1974), que casou em 1966 com João Calmão, já viúvo de Maria Libânia, e também não deixou descendência;

 - Maria de Deus (1914/1980), que casou com João Jerónimo (1906/1983) em 1938 e criaram 4 filhos.

É natural que a chegada do pequeno João, por ser o único rapaz, e vir já quase “fora de tempo”, o tenha tornado no Menino Jesus da família naquele Natal de 1922; o enlevo por este menino ter-se-á prolongado ao longo da vida.

Sabe-se que Manuel Nicolau e Francisca Moreira terão vivido algum tempo em Lisboa, já depois do nascimento dos filhos. Foi bom para o mais novo, que pôde prosseguir os estudos para além da escola primária, e frequentar a Escola Machado de Castro onde tirou o curso de desenhador e pôde desenvolver as suas capacidades artísticas.

Em agosto de 1945, com 22 anos, João casou com Maria do Carmo, natural de Proença-a-Nova, na Igreja de São Mamede, em Lisboa. Em maio do ano seguinte nasceu Suzete,** a única filha que tiveram.  

O casal viveu os primeiros anos em Lisboa, durante os quais João “Engenheiro” exerceu a profissão, julga-se que na Câmara Municipal de Lisboa. Neste período terá também trabalhado em alguns projetos em São Vicente: desenhou casas, muros, o lagar do Casal da Serra, a Fonte da Praça...

Tudo isto apesar da pouca saúde do nosso artista; diagnosticado desde cedo com problemas respiratórios graves, foi aconselhado pelos médicos a vir morar para São Vicente, onde os ares puros da Gardunha seriam mais favoráveis ao alívio da doença. O casal mudou-se para a terra, para a casa da rua da Costa, onde João nascera. A filha, deixaram-na em Lisboa, ao cuidado dos tios Maria Libânia e João Calmão, que a criaram como se fosse deles.

Continuou a trabalhar, enquanto pôde, e ainda projetou algumas obras em vários lugares da freguesia. Dizem os sobrinhos que se lembram de o acompanhar algumas vezes, e era uma festa para eles, montados num burro por esses caminhos fora, até à Partida, ao Casal da Serra ou onde quer que o chamassem para mais um trabalho.

Mas, apesar da mudança de ares, a doença agravou-se em poucos anos. Passou os últimos tempos da vida já na cama, cuidado pela mulher e pela irmã Maria de Deus, presente sempre que era preciso, e mimado com tudo quanto era bom, que as outras irmãs lhe mandavam de Lisboa.

Quando faleceu tinha acabado de fazer 33 anos, a idade de Jesus, como chegou a lembrar, o que, pela sua religiosidade, lhe terá dado algum conforto espiritual. A certidão de óbito diz que morreu de bronquite asmática.

Os filhos da irmã Maria de Deus contam que, mesmo sendo ainda muito novos, se lembram do tio sempre muito distinto, de chapéu preto na cabeça, vestido de fato e gravata e gabardina bege, no inverno. Era generoso com eles, sempre que vinha à terra e mesmo depois, quando veio morar para São Vicente. Dizem também que, apesar de ser ainda muito novo quando deixou de poder trabalhar, lhe deram uma reforma que lhe permitiu viver sem grandes dificuldades.

Alguns anos depois da sua morte, no início da década de 1970, foi motivo de grande indignação para muitos sanvicentinos, mas principalmente de grande desgosto para a família, terem tirado do lugar a Fonte da Praça, a obra mais bonita que deixou em São Vicente. A irmã Maria de Deus, ainda viva na altura, chorava tanto por terem feito aquela desfeita ao irmão, que o marido, já farto de a ver sempre debulhada em lágrimas, um dia foi direito à sacristia disposto a puxar os colarinhos ao Padre Branco, o principal culpado, dizia-se, por “aquele belo trabalho”. Alguém o terá segurado a tempo…

 

* Muitos ainda nos lembramos de João Calmão. Era militar e, segundo se constava, movia-se bem em alguns meios da capital. Amigo da terra e bom comunicador, era ele quem fazia sempre os discursos no dia da festa da Casa de São Vicente em Lisboa; alguns ficaram registados no Pelourinho e, creio, também ainda no Vicentino.

** Suzete faleceu há já alguns anos, ainda nova; deixou dois filhos: o João e o Gualter.

 

ML Ferreira

sábado, 12 de dezembro de 2009

Dois Artistas

Muitos nunca ouviram falar deles e quase todos desconhecem a importância que tiveram para S. Vicente, nos meados do século XX.
Eu ainda conheci o Zé Companhia, como era conhecido, por andar sempre acompanhado de um grupo de aprendizes de pedreiro. Um deles foi o meu pai.
Mas nunca ouvira falar do João Engenheiro que, já reformado e doente, morava no n.º 20 da Rua da Costa, cerca de 1950. Com ele e a sua esposa partilharam os meus pais esta habitação: eles viviam na casa das traseiras e os meus pais, recém-casados, na que dá para a rua.

O João Engenheiro, como lhe chamavam, trabalhou em Lisboa, como desenhador, e voltou à sua terra natal, onde era solicitado por muitos a traçar plantas de casas e de outras obras de arte. Por exemplo, a ele se deve a traça da casa n.º 36 da Rua do Convento, propriedade de José Maria dos Santos, recentemente falecido.
Ao Zé Companhia coube o primeiro alargamento da Rua da Igreja, então estreita e em diagonal, da esquina da casa do Visconde da Borralha à esquina do lado oposto, no fundo da rua. Cortaram-se as casas a direito e reconstruíram-se novas fachadas. Da antiga rua, permaneceram a casa em frente à Igreja e a casa no topo da rua, frente à fonte de Santo António, só cortadas na década de 70. E assim se chegou à via que temos hoje.


Mas foi sobretudo juntos que mais se distinguiram. A Junta de Freguesia da época, presidida por Manuel da Silva, pediu ao João Engenheiro que desenhasse uma fonte para a Praça. Ele traçou-a e o Zé Companhia construiu-a. Foi em 1947 e chamaram-lhe Fonte de São João de Brito.
A seguir, a Junta de Freguesia chamou-os para restaurar o brasão que durante séculos encimara a porta de entrada da Câmara Municipal. Perdera-se a coroa por cima do escudo. O João Engenheiro desenhou-a e o Zé Companhia trabalhou a pedra e inseriu o brasão completo na parede da fachada do edifício dos antigos paços do concelho, onde o podemos admirar.


O João Engenheiro, de quem não sei o nome completo, nasceu e foi criado, na casa n.º 26 da Rua do Beco, onde os pais tiveram uma taberna durante muitos anos. A irmã, Maria de Deus, era a esposa do João Jerónimo (dos Arrebotes), donos da taberna na Rua da Igreja, já referida neste blogue.


José Diogo, em fotografia cedida pela neta Cristina Bartolomeu.

O Zé Companhia era o José Diogo, cuja genealogia apresentamos:
1. Agostinho Diogo casou com Maria de São João, ambos de S. Vicente da Beira, onde viveram na passagem do século XIX para o século XX.
2. José Diogo (1902-1977), filho dos anteriores, casou com Maria do Carmo, também natural de S. Vicente da Beira. O casal teve os seguintes filhos:
3. João Diogo Costa, casado com Ilda Caio; Maria das Dores, casada com João Gonçalves; Manuel Diogo, casado com Ana Maria Rodrigues (ambos falecidos); Maria do Patrocínio, casada com José Duarte (falecido); António do Carmo Diogo, casado com Maria da Conceição Nunes Candeias; José Diogo, casado com Chantal Lamblin.


A fonte de São João de Brito avista-se na esquina da Praça, entre o pelourinho e o coreto. Fonte e coreto foram demolidos cerca de 1970, no âmbito de um plano de remodelação da Praça. A casa com varanda, à esquerda, foi onde nasceu o João Engenheiro. Foto do Pedro Gama Inácio.


A fonte de São João de Brito. Foto do Pedro Gama Inácio. A imagem está invertida.


Pormenor da parte da fonte aproveitada, cerca de 1980, para fazer o fontanário existente junto à capela de São Francisco.


Outra parte da fonte, reaproveitada para fazer este marco de água em tanque, nas obras de requalificação da Praça, em 2003-2004. Ao fundo, a esquina onde se situava a fonte de São João de Brito.


Fachada do edíficio da antiga Câmara Municipal, com o brasão ali colocado cerca de 1950. Durante séculos, o brasão esteve por cima da porta de entrada da Câmara.


O brasão manuelino, com a coroa real recuperada pelo João Engenheiro e pelo Zé Companhia. Mesmo na fotografia conseguem-se notar os diferentes tons das pedras utilizadas nas duas partes.