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segunda-feira, 29 de agosto de 2016

D. Pedro, Conde de Barcelos - palestra

Reina grande alvoroço em São Vicente desde 5.ª feira da semana passada. É sempre assim, quando o Conde de Barcelos, D. Pedro, aqui pousa com os seus homens, a criadagem e as suas bestas. No entanto, não é isto nada se comparado com o sucedido no ano de 1344, quando o conde aqui instalou um paço e nele a mulher que ama, D. Tareja Anes de Toledo, sua amante.
É D. Pedro um homem de uns onze palmos de altura, com envergadura correspondente, de cabelo crescido e sobremaneira ruivo, o que é uma raridade. De porte altivo e bem apessoado, ele, que é homem dos seus 60 anos, tem, de rico e poderoso, mais do que qualquer outro em Portugal.
D. Pedro é fruto de uma ligação de D. Dinis com D. Graça Froes, pertencente a uma importante família de Torres Vedras.  Este homem, exímio na arte de andar a cavalo, corre desde madrugada os montes do termo de São Vicente, em perseguição de caça grossa, como gosta de fazer sempre que aqui vem em especial no meio do Inverno.
Nem só à caça se dedica o Conde em São Vicente. Se faz mau tempo, o paço anima-se em serões que se alongam pela noite. Acodem jograis com as suas trupes, atraídos pela perspectiva de dormida e comida gratuitas e de uma remuneração compensatórias.  D. Pedro também costuma contratar vilãos de São Vicente para, no paço, cantarem e dançarem as suas modas populares, que muito aprazem à fidalguia presente.
D. Pedro é homem de grande cultura, que dedicou alguns anos da sua vida - entre 1325 e 1344, dizem - a compilar uma Crónica Geral de Espanha; antes disso, fizera já a compilação de um Livro de Linhagens. E pedem muitas vezes as damas que o Conde recite algumas dessas cantigas de amor que ele compôs, ou mesmo outras de autores vários, o que ele de costume faz de boa vontade.

José Miguel Teodoro, No Tempo dos Avós mais Velhos,  GEGA, S. Vicente da Beira, 2003 (adaptação livre das páginas 62 a 64)


José Teodoro Prata

terça-feira, 26 de julho de 2016

Lugares aonde se torna - 11

Já sabemos de notícia anterior que o inquisidor Marcos Teixeira passou em São Vicente, em missão, acompanhado de notário do Santo Ofício, para receber denúncias, em Junho de 1579. Foi bem fornecido de nomes de “prevaricadores”, para acção posterior da Inquisição, como se verá.
Essa visitação, como outras, recolhe dois tipos de testemunhos: as já referidas denúncias e reconciliações. Estas, basicamente, são confissões de heresia, feitas pelos próprios, tecnicamente de forma voluntária. São em menor número que as denúncias: em São Vicente, 80 denúncias, mas somente 2 reconciliações, um cenário em tudo idêntico ao das outras localidades.
Aos reconciliados promete-se que, ao denunciar-se, tenham a graça do perdão da heresia, deixando entrever que não serão objecto de perseguição ou outra acção repressiva visando designadamente cristãos-novos praticantes da religião judaica.
Os dois registos respeitantes a São Vicente datam de 9 e 10 de Junho de 1579 (Livro de reconciliações da visitação do Santo Ofício nas Ilhas dos Açores, e Continente, fls. 140 e 141, abrangendo as seguintes localidades: Angra, e Vila da Praia, Ponta Delgada e Vila Franca, nos Açores, Portalegre, Arronches, Castelo de Vide, Nisa, Abrantes, Sarzedas, Castelo Branco, Idanha-a-Nova, Monsanto, Penamacor, São Vicente da Beira, Alpedrinha, Belmonte e Guarda).
Catarina Fernandes, cristã nova, cuja idade se desconhece, foi a primeira que se apresentou; casada com um cristão-novo da vila, sapateiro, que se acusa de ter dito certas palavras quando as vizinhas lhe disseram que varresse a rua porque ia passar nela o Santíssimo Sacramento; sabe que algumas vizinhas iriam denunciá-la por isso. No dia seguinte, foi Isabel Rodrigues, cristã velha, de 45 anos, viúva de um lavrador e criador de gado, da vila; denuncia-se de palavras que disse, que cada um podia ter a religião que tivesse, pois Deus era tão misericordioso que a todos perdoava. Nenhuma das duas sabia assinar. Saíram dali após serem admoestadas, com as melhores palavras dum “oficial” da «nossa sagrada fé católica», como consta do livro da visitação.
José Miguel Teodoro

domingo, 10 de abril de 2016

Lugares aonde se torna - 8

Santo Ofício – os avós denunciantes

Em São Vicente, quem primeiro compareceu a denunciar foi Silvestre Rodrigues, de 23 anos, tratante; no mesmo dia, 7 de Junho de 1579, vieram também Sebastião Fernandes, lavrador, de 38 anos, e Pedro Fernandes, proprietário, de 34. Os três, aqui moradores, e cristãos-velhos.
A receber as denúncias, o inquisidor Marcos Teixeira, acompanhado no acto por «notário apostólico e do Santo Ofício».
Esta sua «visitação» em terras do Continente começara no princípio do ano, em Portalegre, seguindo depois para outras terras de além-Tejo – Arronches, Marvão, Montalvão, e Nisa – passando depois à Beira; antes de chegar a São Vicente, a missão de que estava incumbido levara o senhor inquisidor a Abrantes, Sarzedas, Castelo Branco, Idanha-a-Nova, Monsanto e Penamacor. A derradeira etapa, depois de São Vicente, começou em Alpedrinha, seguindo-se Fundão e a vila da Covilhã e seu termo, onde concluiu, em 11 de Julho de 1579.
Seis dias durou a função em São Vicente. Invariavelmente, os denunciantes apresentavam-se no local onde pousavam o inquisidor e o notário, muito possivelmente a igreja, declarando pretender denunciar alguém. Ordenava-lhes, então, o inquisidor que jurassem dizer a verdade, com a mão sobre os Evangelhos. Do que diziam, era elaborado um registo, que devia ser assinado pelo inquisidor e pelo declarante; não sabendo este escrever, o notário assinava por ele.
Do que ali tinham ido dizer, eram mandados guardar segredo. Era prática da Inquisição que as denúncias se mantivessem anónimas, que as vítimas não soubessem quem as denunciara.
Oitenta pessoas em São Vicente apresentaram-se para denunciar – mais exactamente, 76, homens (31) e mulheres (45), de idades e condição social diversas; 23 têm menos de 25 anos de idade, sendo de 17 anos as duas denunciantes mais novas: Catarina, criada de Manuel Francisco, cristão-novo, e Maria Vaz, já casada. Da relação dos denunciantes, somente 5 têm 50 anos ou mais, identificando-se com 70 anos os dois mais velhos no exercício da delação: a sogra de Sebastião Fernandes, Ana, viúva, e Jorge Gonçalves, lavrador, ambos da vila.
Dos 76, são 28 os que sabem assinar e o fazem; todos homens, muitos deles exercendo profissão manual, aqueles que as Ordenações referiam como trabalhando «per afã de seu corpo».
Na sua grande maioria, são pessoas casadas; todavia, referenciam-se 13 mulheres viúvas, mas não há viúvos. São pessoas morando na vila, quase todas, ou terras do “termo” (Sobral, Freixial, Ninho do Açor); de fora, denunciantes em São Vicente, só o alfaiate Pedro Gonçalves, residente em Alcaide, e um Sebastião «preto, de Manicongo», que veio de Alcains denunciar aquela de quem era escravo («cativo»), Ana Lopes, cristã-nova e mais uns tantos membros da família desta, de Alcains, Castelo Branco e São Vicente.
Os registos das declarações incluem também a condição religiosa de cada um – cristão-velho/cristã velha, é a regra; significa isso, pessoas nascidas em famílias cristãs, sem ascendentes de outra fé e observantes da mesma religião; o acto de denúncia constituía, aliás, uma obrigação do “bom crente”. Nos registos que servem de base à presente notícia identificam-se excepções: o cinquentenário ferreiro, Gil Antunes, e o já referenciado alfaiate do Alcaide, Pedro Gonçalves, ambos «com raça de cristão-novo» – foi assim que se apresentaram ao inquisidor –, e Sebastião «preto», também já referido, sem nenhuma menção de estado em matéria de religião – a condição de escravo, equiparado a besta, retirava-lhe capacidade para tais atributos, mas não a de denunciante, estabelecido que foi, reza a o registo, ter ele «juízo e entendimento», jurando por isso, como os outros, «os santos evangelhos».
As vítimas das denúncias são, quase sempre, cristãos-novos. Os denunciantes referem práticas judaizantes, alguns com soma de detalhes – a isso eram incentivados por quem os ouvia –, com identificação clara de quem e quando os actos haviam sido praticados e se outras pessoas os tinham presenciado. Esses factos haviam de servir, a posteriori, para acusar os seus autores. Em geral, a mesma pessoa denunciava várias pessoas; com frequência, os denunciantes haviam tido convivência, em alguns casos, de portas adentro (criados e serviçais…) com aqueles que vêm acusar.
A denúncia ao Santo Ofício é referenciada pelas autoridades eclesiásticas como uma obrigação do bom cristão, como se de um acto piedoso, uma boa acção que acarretaria benefícios a quem delatasse. Isso mesmo era transmitido aos fiéis, antes da inquisição: na missa de domingo, acompanhada pelo inquisidor itinerante, anunciava-se aos paroquianos o início dos actos, invocando-se o Édito da Fé, em conformidade com o qual o cristão tinha o dever de denunciar actos de que tivesse conhecimento, directa ou indirectamente, contra a sua religião, os seus dogmas e rituais, a prática do judaísmo ou da feitiçaria, mas também certas condutas em matéria de casamento e sexualidade, como a bigamia ou a homossexualidade. O denunciante, além dos actos, deveria identificar o seu ou seus autores.
A legislação canónica, as bulas papais, o Santo Ofício e seus agentes, “garantiam”, a quem denunciasse, graças várias, mas principalmente o perdão dos pecados e por essa via o acesso mais fácil à salvação eterna. Apesar do peso da Igreja, do poder da Inquisição e da discricionariedade da sua acção, com o apoio da máquina do Estado, também existe em São Vicente (noutros sítios seria o mesmo) quem discorde do que vê: no Livro 1º das Denúncias da Visitação do Santo Ofício nas Ilhas dos Açores, Alentejo e Beira encontramos António Vaz, por alcunha Cabeças, dirigindo-se, da porta de sua casa, atrás da igreja, a duas mulheres que vão denunciar, dizendo-lhes: «Vão muito depressa, pensando que ganham perdões, mas vão é ganhar o Inferno». Por isso, o Cabeças é também denunciado.
Não são apenas gente comum, os denunciantes. Fazem-no também pessoas que exercem localmente cargos políticos e administrativos, como o procurador do número, Manuel Carrilho, o escrivão da Câmara, Manuel de Brito, e Sebastião Nunes, juiz ordinário na vila, o último declarante nesta “visitação”, em 13 de Junho; curiosamente, apresenta-se em nome de sua mulher que, por estar doente, não pôde vir depor. Finalmente os “padres-denunciantes”: três, “deveriam” ser, pelo menos, três – Jorge Machado, «clérigo de missa», o «cura» Fernão Valente e o «cura» Sebastião Carvalho; mas são somente dois, Jorge Machado e Fernão Valente, que coincidem nas denúncias – as práticas diferentes dos cristãos-novos da terra no enterro dos seus mortos, e o padre Sebastião Carvalho, por comportamento herético, ao recusar uma segunda extrema-unção a uma moribunda, a quem ministrara, pouco tempo antes, o mesmo sacramento.
No dia 14 Junho de 1579, o inquisidor Marcos Teixeira iniciava a recepção de denúncias em Alpedrinha.
José Miguel Teodoro

terça-feira, 5 de abril de 2016

Lugares aonde se torna - 7

Papéis do Convento de São Francisco e Santa Clara à vista
Na última arrumação lá em casa, apareceram uns papéis do Convento de São Francisco de São Vicente da Beira, anteriores à implantação do Liberalismo. Para quem possam interessar, aqui se dá o seu registo (ANTT-Devassas Gerais de Freiráticos, 1810-1824 – São Vicente da Beira, 1816-1818, maço 1629).
No fim do século XVIII, o Convento (fundado para nele viverem 33 freiras) dava sinais de alguma decadência: o efectivo estava reduzido a 15 religiosas professas, «todas velhas e decrépitas» (de que se dava como razão a persistência da proibição de novas admissões nos conventos); por carta régia, é autorizada a entrada de 15 noviças (Licença do Príncipe Nosso Senhor…, 27-01-1793, op. cit., ms. 1).
Por esta documentação sabe-se que, em 1813, a situação do Convento é bem pior, com apenas 7 religiosas (Mapa geral do estado actual do Mosteiro…, 19-08-1813, id., ms. 9), apesar do ingresso de duas mulheres no noviciado: D. Ana Mariana, do Casal da Serra, e Maria Rosa Arminda Machado, natural de Peroviseu, dando elas ao Convento, em vida, respectivamente, 30 e 60 mil réis por ano (Cartas do Ministro Provincial dos Menores Observantes da Província de Portugal, 26-01-1807 e 06-04-1807, id., mss. 6 e 7; idem, 13-09-1807, id., ms. 8).
Além das freiras professas, o Convento acolhia outras mulheres, sem votos, como se indica: em 1794, ali se recolhe, «para escapar ao mundo», D. Joana Inês de Brito Mouzinho Homem, de São Vicente, «órfã de pais e sem parente algum próximo», onde se sustentará, mais a criada, com «a pequena produção da sua sorte» (Licença do Príncipe Nosso Senhor…, 17-01-1794, id., ms. 2); em 1796, Brites Catarina Machado, viúva, irmã da madre prioresa do Convento, com sua criada, aí se juntando a (sua filha?) Maria Rosa Pires Machado, órfã, que aí se criou, «para que, assim recolhidas, se livrassem dos riscos e contingências do mundo» (Licença do Príncipe Nosso Senhor…, 25-08-1796, id., ms. 3). Em 1800, é admitida, também com criada, Maria Cândida, referindo a documentação que com o consentimento de toda a comunidade conventual (Carta…, 06-06-1800, id., ms. 5), sendo por isso de presumir que era o procedimento usual nas admissões de seculares. Em 1815, referencia-se o recolhimento, como secular, de D. Mariana Xavier Taborda Pinhately (sic) de Sá Souto Maior Soares de Albergaria, também acompanhada de uma criada, com meios com que se sustente e expressa obrigação de «usar da modéstia e moderação nos vestidos [como praticam] as educandas nos claustros religiosos» (Licença do Ministro Providencial…, 13-03-1815, id., mss.10 e 11).
Uma referência às finanças da instituição: em 1799, tem de receita 592,5 mil réis (de pensões, foros e rendas, e de padrões, estando já deduzida a dízima, destes últimos, para o erário real, pagando ainda 8,2 mil réis de dízima eclesiástica (Receitas do Convento de S. Francisco de S. Vicente da Beira, 25-04-1799, id., ms. 4); em 1813, as receitas ascendem a 593,613 mil réis, pagando 28,78 mil réis (Mapa geral…, cit., ms. 9), registando o mesmo documento que o edifício em que está o Convento é muito antigo, a precisar de obras, para as quais são necessários, para trabalhos de carpintaria e de pedreiro, respectivamente, 2.400 mil réis e 341,6 mil réis.
Na janela temporal aberta por estes documentos, identificam-se duas prioresas do Convento de São Francisco: Soror Maria Marcelina Josefa de Santa Ana (1796 e 1800) e Soror Maria Joaquina da Encarnação (1813), havendo ainda registo dos nomes de outras freiras professas: as Irmãs Maria Inácia Agostinha de Santa Ana, Clara Teresa de São Jerónimo (em 1799), Joana Batista Xavier da Visitação e Luísa Ana de S. Diogo (em 1799 e 1813).
Do lado de cá, continua em aberto a curiosidade sobre esta instituição, a par de outra, também em São Vicente, o convento de Santa Clara, que acolheu, pelos anos 80 do séc. XVII, as “boas irmãs” Polónia da Conceição e Juliana do Nascimento. A ver vamos.

José Miguel Teodoro

domingo, 1 de maio de 2011

Sopas e missas

Já aqui informei sobre o blogue do José Miguel Teodoro. Entretanto, esteve em hibernação, por excesso de trabalho do dono, mas já voltou ao activo.
As publicações de 6 de Março, 3 de Abril e 17 de Abril referem-se a São Vicente da Beira e são daquelas a não perder!
O Convento de Santa Clara, apontado nos textos, é o nosso convento das religiosas. Como nos ensinaram na recente Procissão dos Terceiros, foi Santa Clara que criou a organização feminina da Ordem Franciscana. A Igreja do Convento, dedicada a São Francisco, era maior do que a Igreja da Misericórdia. Situava-se na parte esquerda de quem olha da rua para o antigo convento, no local onde atualmente está um palheiro e foi aberto um portão.
Aqui deixo, de novo, o endereço do blogue do José Miguel: http://sopasemissas.blogspot.com/

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Portugal, 1958

«Apesar de um pouco melhor do que no tempo da sardinha para três, quando havia, passa-se mal por esses povos e até nas cidades: a sopa e o pão, como regra, as batatas e os feijões, conduto quando calha, mas não para todos, como o pão trigo, que o comem só os mais remediados - os demais, bastam-se com broa ou centeio - com umas azeitonas nos dias de maior fartura, ou uma tripa de enchido, o culto do bacalhau bem vivo, por todo o lado onde não chega o peixe miúdo, e a carne se reduz ao porco que se mata para dele comer a família, o ano inteiro. Da venda ou da mercearia, gasta-se o obrigatório, fiado, com amortizações à quinzena ou no fim do mês, o fantasmo do calote ou da insolvência sempre a pairar: sabão para as lavagens, o arroz e o açúcar, petróleo para iluminação, sendo que, em muitas casas, ainda se enfrenta o breu da noite com candeia de azeite.
Milhares de famílias continuam a partilhar o espaço da habitação com os animais da casa, a amontoar estrumeiras à porta, a defecar onde calha, a catar os piolhos de filhos e netos, sendo plausível que, em caso de acidente ou doença séria, à cabeceira de cada um se encontre mais provavelmente o padre do que o médico. É assim o país cinzento, pobre até no sonho e curto na ambição.»

Retrato de Portugal, no ano da inauguração do monumento do Cristo-Rei.

TEODORO, José Miguel - Por alturas do Cristo-Rei em Almada, Câmara Municipal de Almada, 2010, p. 51

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

O livro do Cristo-Rei

Muitos afazeres e alguns desencontros ditaram a apresentação tardia do “Por alturas do Cristo-Rei em Almada”, aqui, nos Enxidros.



É criação do nosso José Miguel Teodoro e foi lançado no passado dia 29 de Maio, em Almada.
Esteve presente o bispo de Setúbal, D. Gilberto dos Reis, que também escreveu o Prefácio do livro, do qual vos deixo um breve trecho:

«Felicito o autor de “Por alturas do Cristo-Rei em Almada” porque ora mostrando um pouco da vida em Portugal na hora da construção do Monumento ora avivando episódios ligados à sua inauguração, - vida e episódios sobre os quais não me pronuncio – contribuirá certamente para levar os leitores a pensar no Monumento a Cristo-Rei e no seu significado nesta hora em que o homem é desafiado a pensar num mundo mais justo e pacífico.»

O autor traça o contexto sócio-económico, político e religioso da sociedade portuguesa, com maior incidência sobre a realidade local de Almada e os poderes centrais do Estado e de Igreja, na época em que foi projectado, construído e inaugurado o monumento, sem esquecer um saltinho às suas raízes:

«E, proclamou, o cadeal-patriarca: “Portugueses de aquém e de além-mar! Portugueses dessa outra pátria, filha da nossa e maior que ela, o Brasil! Portugueses espalhados pelo Mundo, todos vós que trazeis Portugal no coração onde quer que vos encontreis: Ajoelhai! Fala Portugal”.



Àquela hora, a trezentos quilómetros dali, João N. traçava o último braçado do molho de mato com que havia de fazer a cama dos “vivos” da casa – galinhas, um borrego ainda cordeiro, a cabra e o porco. Está de pé desde as sete da manhã, como costuma nos domingos, que é quando pode adiantar alguma coisa da vida, pois passa toda a semana a trabalhar fora da terra. Os domingos são isto: cavar um bocado de terra, arrancar batatas, semear um canteiro, regar uma leira de couves, mudar a cama dos animais, pôr em casa uma pouca de lenha para cozinhar e para aquecimento, curar alguma videira, enfim, o que for preciso. Filhos, quatro já criadinhos, e um de mama.»

Ficha ténica do livro:
Título: "Por alturas do Cristo-Rei em Almada"
Autor: José Miguel Teodoro
Edição: Câmara Municipal de Almada
Local: Almada
Ano: 2010
Tiragem: 1000 exemplares
Distribuição:
Divisão de História Local e Arquivo Histórico
Departamento da Cultura
Direcção Municipal de Desenvolvimento Social
Rua Visconde Almeida Garret, 12, 2800-014 Almada
Tel. 212724900
E-mail: arq.hist.mun@cma.m-almada.pt

quarta-feira, 26 de maio de 2010

O Cristo-Rei de Almada


Há meses, anunciei a publicação do livro "Por alturas do Cristo-Rei de Almada", do nosso conterrâneo José Miguel Teodoro.
A apresentação é já este sábado, 29 de Maio, pelas 16 horas, no auditório do Convento dos Capuchos, na Caparica.
Estarão presentes as autoridades eclesiásticas: o Bispo de Setúbal e o Reitor do Santuário Cristo-Rei.
A edição é da Câmara Municipal de Almada.
O convite abaixo apresentado é para todos os leitores Dos Enxidros.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Padre Leonardo Nunes

Há oito dias, um município brasileiro pediu à Câmara Municipal de Castelo Branco o envio do livro “Abarebebê” Tão rápido como um beija-flor, do nosso conterrâneo José Miguel Teodoro.
Porquê este interesse tão longínquo? Porque o livro é sobre Leonardo Nunes, um dos padres jesuítas pioneiros na missionação do Brasil.

Leonardo Nunes nasce, em S. Vicente da Beira, no seio de uma família de cristãos-novos, antigos judeus convertidos ao Cristianismo. Seu pai é Simão Álvares e sua mãe Isabel Fernandes. Veio ao mundo em data incerta, possivelmente, em 1518.
Já era padre, quando, em 1548, entra para a Companhia de Jesus.
A partir do colégio da Companhia, em Coimbra, percorre o Minho e a Beira, em pregação e vivendo de esmolas, o que muito chocou seus pais, quando o viram a mendigar, na sua terra natal.
Em 1549, parte para o Brasil, incorporado na armada de Tomé de Sousa, o primeiro governador-geral desta colónia. Integra um grupo de jesuítas chefiados por Manuel da Nóbrega. Os outros são o P.e António Pires de Castelo Branco, o P.e Juan de Azpilcueta de Navarra, o Irmão Diogo Jácome e o Irmão Vicente Rodrigues.
A sua missão é converter os índios e dar assistência religiosa aos portugueses que lá viviam.
Nos anos 1550 a 1554, Leonardo Nunes fica em São Vicente, ajudado pelo Irmão Diogo Jácome. São Vicente era já uma grande colónia portuguesa, desde 1530. Ali funda um colégio e depois aventura-se montanha a dentro, onde tem contacto com os indígenas e enfrenta os caçadores de índios que os queriam escravizar. O filme “A Missão” é um excelente testemunho da realidade que o P.e Leonardo Nunes ali viveu.
No ano de 1553, o P.e Manuel da Nóbrega, o Provincial da Companhia de Jesus, junta-se a Leonardo Nunes, em São Vicente, centralizando ali o trabalho missionário dos jesuítas, no Brasil. Manuel da Nóbrega fixa-se nos campos de Piratininga, numa aldeia, onde funda o Colégio de São Paulo, que deu nome à pequena povoação e hoje enorme cidade de São Paulo.
Nesse ano de 1553, Leonardo Nunes desloca-se à Baía, de onde regressa com o Irmão e futuro Padre José de Anchieta, outra figura cimeira na missionação do Brasil.
No ano seguinte, 1554, o P.e Leonardo Nunes embarca para Lisboa, com destino a Roma. Manuel da Nóbrega encarregara-o de transmitir a (Santo) Inácio de Loiola os sucessos da Companhia de Jesus no Brasil.
Mas o barco naufragou ainda à vista da vila de São Vicente, arrastando consigo o nosso Leonardo Nunes, apenas com 36 anos, os últimos 5 como missionário no Brasil.



Ficha Técnica:
Autor: José Miguel Teodoro
Projecto: Comemorações dos 450 Anos da Morte do Padre Leonardo Nunes
Ilustrações / Gravuras: José Miguel Teodoro e António Cavaco
Fotos: Tó Sabino e Américo André (profesor da EBI)
Concepção gráfica da capa: António Cavaco (actual Director da EBI)
Desenhos: Alunos da EBI de São Vicente da Beira
Composição, impressão e acabamentos: Semedo - Sociedade Tipográfica Lda
Edição: Câmara Municipal de Castelo Branco
Ano: 2004
Número de páginas: 269
À Venda: Estação dos Correios (S. Vicente da Beira), Papelaria Central (C. Branco) e Quiosque Vidal (C. Branco)
Nota: A síntese acima apresentada foi elaborada a partir do Prefácio deste livro