terça-feira, 26 de julho de 2016

Lugares aonde se torna - 11

Já sabemos de notícia anterior que o inquisidor Marcos Teixeira passou em São Vicente, em missão, acompanhado de notário do Santo Ofício, para receber denúncias, em Junho de 1579. Foi bem fornecido de nomes de “prevaricadores”, para acção posterior da Inquisição, como se verá.
Essa visitação, como outras, recolhe dois tipos de testemunhos: as já referidas denúncias e reconciliações. Estas, basicamente, são confissões de heresia, feitas pelos próprios, tecnicamente de forma voluntária. São em menor número que as denúncias: em São Vicente, 80 denúncias, mas somente 2 reconciliações, um cenário em tudo idêntico ao das outras localidades.
Aos reconciliados promete-se que, ao denunciar-se, tenham a graça do perdão da heresia, deixando entrever que não serão objecto de perseguição ou outra acção repressiva visando designadamente cristãos-novos praticantes da religião judaica.
Os dois registos respeitantes a São Vicente datam de 9 e 10 de Junho de 1579 (Livro de reconciliações da visitação do Santo Ofício nas Ilhas dos Açores, e Continente, fls. 140 e 141, abrangendo as seguintes localidades: Angra, e Vila da Praia, Ponta Delgada e Vila Franca, nos Açores, Portalegre, Arronches, Castelo de Vide, Nisa, Abrantes, Sarzedas, Castelo Branco, Idanha-a-Nova, Monsanto, Penamacor, São Vicente da Beira, Alpedrinha, Belmonte e Guarda).
Catarina Fernandes, cristã nova, cuja idade se desconhece, foi a primeira que se apresentou; casada com um cristão-novo da vila, sapateiro, que se acusa de ter dito certas palavras quando as vizinhas lhe disseram que varresse a rua porque ia passar nela o Santíssimo Sacramento; sabe que algumas vizinhas iriam denunciá-la por isso. No dia seguinte, foi Isabel Rodrigues, cristã velha, de 45 anos, viúva de um lavrador e criador de gado, da vila; denuncia-se de palavras que disse, que cada um podia ter a religião que tivesse, pois Deus era tão misericordioso que a todos perdoava. Nenhuma das duas sabia assinar. Saíram dali após serem admoestadas, com as melhores palavras dum “oficial” da «nossa sagrada fé católica», como consta do livro da visitação.
José Miguel Teodoro

3 comentários:

Anônimo disse...

Se calhar é por estas e por outras que, tentando viver dentro de certos limites, o faço mais por autodeterminação que para obedecer a princípios seja de que «sagrada fé» for.
Felizmente que os judeus eram espertos e muitos conseguiram sobreviver às perseguições que sofreram em vários períodos da História. A prová-lo estarão os apelidos que muitos de nós herdámos. Cá por mim tenho sangue de Castanheiras, Carvalhos, Moreiras, Fernandes, Santos, etc. que, só por si, poderão não significar muito, mas dizem alguma coisa dos meus ascendentes.

M. L. Ferreira

José Teodoro Prata disse...

Tempos de intolerância e fanatismo!
Penso que haverá alguma relação entre estas visitas do Santo Ofício e as visitações do enviado do bispo, de cerca de 1750, cujos resultados apresentei na publicação Big Brother.
São irmãs gémeas ou uma é filha da outra: a Igreja aprendeu com o Santo Ofício para fazer o controlo social dos costumes, numa época em que a Inquisição já perdia força, tempo sido extinta, para as questões religiosas, pouco depois.

José Teodoro Prata disse...

Ecuménica, esta Isabel Rodrigues. Diria muito avançada para o seu tempo, embora em todos os tempos tenha havido de tudo, fanáticos e tolerantes.