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segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Pedir o santoro


Era segunda-feira, hora de entrar para a escola. As crianças, na praça, aguardavam as professoras. Mas passaram as 9 horas e nada. Nem apareciam do lado da Igreja, vindas de casa, na Rua de São Francisco, nem chegava o táxi que as trazia de Castelo Branco.
Fomos esperando, ansiosos por passar um dia sem escola e logo um como aquele, o de pedir o santoro!
O dia dos santorinhos era um dos raros, senão o único, em que tínhamos liberdade de andar horas fora do controle das nossas mães e chegar até ao Casal (da Fraga), ao Caldeira ou às Quintas.
O relógio da torre continuou a sua marcha, sempre a descer, até à meia hora. As professoras não vinham mesmo! Mas ninguém ousava arredar pé.
O ponteiro dos minutos parecia andar agora mais devagar, na subida até ao 12. Já rondávamos as tabernas do Noco e da Viúva e o café da Tia Eulália. Mas nenhum arriscava começar a pedir o santoro à hora da escola.
Bateram as 10 badaladas no sino da torre. Era o nosso limite. Entrei quase a correr na taberna da Viúva e fui direito ao balcão: “Dê-me um santorinho!”
A senhora de preto perguntou pela escola, a mim e aos outros. Estava-se a decidir, quando ouvimos um carro a curvar a esquina. Chamamentos dos que estavam fora, correrias na rua. Azar, mesmo quando tínhamos começado! Saímos também a correr, todos em direcção ao balcão. Paciência, ficava para depois da escola.
As professoras tinham ido buscar os nossos livros à papelaria, que só abria às 9 horas. Levámos recados para as mães, a dizer quanto era. Íamos ter livros novos.
À saída, fomos pedindo o santorinho, rua acima, mas davam pouco. O que nos valia, aos da Tapada (eu, as minhas irmãs e os meus primos), era que conhecíamos bem as Quintas, onde poucos da Vila se arriscavam. Lá é que era bom.
Havia a Senhora Luz Romualdo, o Senhor Augusto, o Miguel e o Ti João da Cruz. Podia falhar um, mas davam os outros. Uma romã numa casa, três passas na outra, duas maçãs de bravo mofo no Senhor Augusto e uma mão cheia de castanhas do rabusco nos castanheiros do Carvalhal Redondo e do alto dos Carqueijais. Delícias.
Voltávamos a casa, ao anoitecer, quase sem nada, na bolsa, para partilhar com as nossas mães e irmãs mais novas, mas felizes com a aventura e o consolo dos santorinhos.

Notas
1. Bravo mofo é o nome que damos à maçã bravo esmolfe. O povo não gosta de coisas complicadas e simplifica. Esmolfe é o nome de uma povoação do concelho de Penalva do Castelo, Beira Alta, onde esta variedade de maçã era e é muito abundante.
2. Não me lembro que dia foi esta segunda-feira. Talvez fosse, como neste 2009, o dia seguinte ao de Todos os Santos, 2 de Novembro. É o Dia de Finados, mas não é feriado. Era nesse dia que se pedia o santoro, nos anos 60. Agora pede-se dois dias antes, na véspera do Dia de Todos os Santos, em resultado da aculturação que temos sofrido por parte da cultura norte-americana. E ameaça-se o dono da casa com travessuras, se não der doces. Nisto, a nossa tradição é melhor, menos agressiva.