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quarta-feira, 24 de maio de 2017

Ex votos

Todos nós somos de uma maneira ou outra, religiosos. Mais não seja crermos na ciência humana. Os partidários do agnosticismo não crêem naquilo que não vêm, o intangível. Apesar de aparentemente não acreditarem na existência de um Ser criador de todas as coisas, crêem na ciência. São Tomé só acreditou quando viu o Mestre.
         Ao contrário dos agnósticos, os ateus não seguem qualquer religião; para eles, Deus não existe, em contrapartida, há os que acreditam numa divindade.
Católicos, muçulmanos, judeus, adoram um Deus único. “Latria”. Há povos que aceitam vários deuses.
Os católicos muitas vezes “negoceiam” com a divindade oferecendo contrapartidas pela graça recebida; podem ser velas, dinheiro, ex votos…
Quem numa hora difícil nunca pronunciou a palavra Deus? Valha-me Deus, Deus nos valha, Deus nos acuda…
A igreja da Misericórdia, dedicada ao Senhor Santo Cristo, guarda umas largas dezenas de ex votos, formas de agradecimento por graças alcançadas. Nela figuram dois belos quadros: um oferecido pelo visconde de Tinalhas e o outro pela família Robles Monteiro.
A maioria representa órgãos do corpo humano feitos em cera: braços, pernas, corações… Cada figuração representa a cura daquele órgão figurado.
Também se encontram figurações humanas completas, representam crianças que foram curadas dos seus males. A criança manifesta a dor através do choro, mas não consegue dizer qual o órgão afectado, então os progenitores oferecem à divindade uma figura humana.
Seja na igreja do Senhor Santo Cristo ou no santuário da Senhora da Orada, todos os objectos ex votos estão dependurados nos locais mais nobres do templo.
Na igreja da Misericórdia existe um divisa militar oferta de alguém que foi para a guerra e voltou são e salvo. Também se exibe um grande cirio.
Esta fé em algo que nos transcende já acontecia nos santuários da antiga Grécia. Os nossos reis, em alturas de aflição, agradeciam a Deus, através da construção de grandes monumentos: Real Convento de Mafra, Mosteiro da Batalha… No nosso tempo, ainda há muitos crentes que continuam a oferecer à divindade da sua devoção peças votivas.
Em Santuários como Fátima, Aires, Senhora da Póvoa, existem expostos em lugar apropriado peças de roupa, fotografias, ourivesaria e todo o género de recordações.
         Nos grandes ou pequenos santuários, como da Senhora da Orada, em dias de romaria, os crentes exibem velas acesas como agradecimento. Não se perpetuam no tempo. Enquanto dura a cerimónia, a súplica, o pedido ou o agradecimento pela graça recebida, as velas alumiam, é a forma de pagamento pela graça que a divindade concedeu.
Tudo isto está enraizado nos cultos de raiz popular.    
O Homem, ser finito, pelas suas fragilidades e dores, é limitado. Por isso tem necessidade de recorrer à acção benevolente dos santos, eles são os mediadores entre Deus e o Homem. Estas situações acontecem quase sempre quando a esperança na ciência se esgotou, voltando-se a pessoa para o além, para conseguir o milagre, por intercessão do santo a que se recorre.
A principal razão da existência dos ex votos é a gratidão pela graça concedida, mas para isso o pedido tem que ser acompanhado de muita fé. Porque a fé, nas obras se vê.

J.M.S





M. L. Ferreira

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Mudam-se os tempos

Hoje acordei com muitas ideias. Como o sonho comanda a vida, vou tentar colocá-las nos seus devidos lugares, cronologicamente falando.
Comecei por passar em revista as casas da nossa vila, como eram as habitações e como são nos nossos dias.
Passavam de pais para filhos, estes mantinham-nas tal qual as recebiam, medievas, a cheirar a mofo, com pouca luz, sem conforto, mas acolhedoras. Guardavam dentro de si recordações, histórias únicas; a luz bruxuleante da candeia, o candelabro, as velhas lucernas, a lamparina de azeite, tendo ao meio uma torcida que se mantinha acesa com a ajuda de um pequeno disco de cortiça com um furo ao meio de onde saía o pavio, iluminava o quarto, a sala… As nossas ruas possuíam em locais estratégicos candeeiros a petróleo. Assim que começava a anoitecer, um lanterneiro, escada numa mão, lata do petróleo na outra, acendia-os. “Já era bem bom”, como me contou um dia o senhor Zé coelhito.
Graças à eletricidade, tudo mudou. A noite escura desapareceu das nossas moradas e das nossas povoações, a pasmaceira que seria se ainda se vivesse assim. A energia eléctrica chega a todo o lado, os velhos artefactos foram substituídos pelas lâmpadas.
Eu sou a Luz do mundo, disse Jesus.
Não viviam somente as pessoas nas casas, as lojas eram ocupadas pelos animais que ajudavam nas lides domésticas, fossem vacas, burros, cabras, galináceos. Se a casa possuía mais que uma loja, a segunda destinava-se a guardar o vinho, a salgadeira, o azeite, as ferramentas… As paredes exteriores eram construídas com pedra granítica, miúda; por dentro, as divisões eram feitas de taipa, adobe; assoalhados de madeira… Cheiravam a mofo as casas dos nossos pais, mesmo assim eram acolhedoras.
A casa dos meus pais, da qual eu gostava bastante, certo dia foi totalmente derribada, só ficaram as paredes exteriores. Uns anos mais, o interior de outra casa medieva desaparece, julgo ter sido a pioneira no advir, morada da Maria do Ninho, casa grande feita de grossas paredes e taipa. Um dia chegaram pessoas vindas de fora, orientadas pelo pai do general Eanes, “construtor da obra” as madeiras foram substituídas por placas, vigas de cimento, o solar ficou irreconhecível por dentro, o cimento, o tijolo… começou uma nova era na edificação de edifícios
A vida na vila continuava a fazer-se como sempre se fez até aos anos setenta do passado século. As galinhas esgravatam as pedras da calçada, na esperança de encontrarem algum miolo, minhoca…; à porta das lojas as cordas que guiavam os burros eram atadas a argolas, as mulheres munidas de um caldeiro, onde iam as lavaduras e os restos de comida, desciam as escadas e limpavam a pia, despejando nela a vianda. Quando os porcos comiam bem, eram uma boquinha lavada.
Por vezes perdiam o apetite, a dona do animal ia à casa da pessoa que sabia tirar o mau-olhado. Feito o esconjuro, o porco voltava a comer, era um louvar a Deus. Por altura do Carnaval, os vicentinos ofereciam ao Santo António chouriças, nacos de toucinho, presunto, farinheiras, morcelas… O Chico Calmão empunhava o pau do santo e andava de rua em rua a pedir para o ramo de Santo António.
No princípio dos anos sessenta, Goa, Damão e Diu foram invadidas, ia sendo uma tragédia para os nossos soldados. Angola, Moçambique, Guiné; os mancebos partem aos milhares para as áfricas combater os “terroristas”. As feridas da segunda grande guerra ainda não estavam totalmente saradas na Europa, era preciso construir; voltar a reedificar estradas, pontes habitações… muitas famílias desapareceram do mapa, a Europa necessitava mão-de-obra. Portugueses, espanhóis, italianos… procuram uma vida melhor para si e os seus, grande parte dos trabalhos eram braçais, apesar de já existirem máquinas, a força do homem ainda imperava.
Partiam aos milhares a salto, passadores guiavam-nos até entrarem na terra prometida. Quando atravessavam as montanhas pirenaicas, em estreitas veredas cheias de perigos, se tivessem o azar de escorregar e cair precipício abaixo, iam parar ao rio e nunca mais… os outros seguiam cheios de frio, sujos…
Quando finalmente chegavam ao destino iam parar aos arredores da cidade onde se situavam os bidonvilles, barracas de lata cercadas de lama; os pioneiros viviam em condições péssimas, mesmo assim não desistiam, a vida aos poucos ia melhorando, ganhavam mais numa semana que em Portugal num mês, os trabalhos eram duros, verdade; valia a pena o sacrifício. As famílias juntavam-se, deixavam as barracas para viverem em habitações condignas, o sonho da casinha e da courela no lugar que os viu nascer tornava-se realidade. Só queriam ganhar dinheiro para construir a sua maison e adquirir um pedaço de terra. Os filhos crescem, fazem amigos, a palavra regressar não existia nos seus vocabulários. Havia o problema das guerras coloniais, mancebos fugiam a salto, as casas estavam construídas, olivais, courelas compradas. Foi passando o tempo, casaram os filhos, os netos surgiram e os pais, que só queriam realizar o sonho de terem uma linda casa, foram-se acomodando, a maior parte estão fechadas. É a vida.
Com o envio das remessas dos emigrantes, a construção civil progrediu, a paisagem medieva, rural, transformou-se.
As guerras coloniais não tinham fim à vista; 1974, militares milicianos protestam, o povo aproveita a boleia, surge a revolução do vinte e cinco de Abril.
Descolonização, mais de quinhentos mil desalojados portugueses abandonam haveres, terras, deixam tudo e regressam a Portugal.
Muitos nunca conheceram outra terra, Portugal era um lugar estranho; traziam experiência, conhecimentos, depressa se integraram na sociedade portuguesa, sangue novo foi injectado, floresceu o comércio, a indústria, a construção, o país aos poucos foi-se modernizando
Em 1985, Portugal assina o tratado de adesão à C.E.E., um ano depois entrava oficialmente. Todos os dias chegavam milhões de contos aos cofres. Auto-estradas, algumas quase paralelas, estádios, pavilhões… o dinheiro jorrava, os bancos emprestavam; “queres mil, leva dois mil” foi um fartar vilanagem.
Os valores especulativos dos bens caem, muitos bancos não aguentam a pancada e desmoronam-se, as casas desvalorizam drasticamente, a vida levou um tombo…
Portugal endividou-se, os empregos para toda a vida passaram a ser precários, a torneira foi-se fechando, muitas empresas abriram falência, o dinheiro fácil terminou. A sociedade actual é bem diferente da que era há meio-século atrás, as aldeias estão desertas, as cidades aumentaram a sua população, o perímetro urbano também, as vias de comunicação, os transportes, a saúde, a educação…tornaram-se realidades, a economia está nas mãos de empresas estranhas, a divida pública é enorme.
Os portugueses, povo forte e valente que sempre foi capaz de dar a volta por cima, um país que descobriu meio mundo, onde a língua de Camões é das mais faladas, um povo assim vencerá mais esta batalha.
As casas de outrora quase desapareceram das nossas aldeias, ainda há os resistentes que souberam preservá-las dando-lhes uma nova roupagem. Transformadas por dentro, acolhedoras, mantêm a traça exterior. Conserve-se o que ainda resta, há valores patrimoniais. Quando se esbarrondam, nunca mais se recuperam. Em vez de se esbarrondar, deve-se preservar, para que os nossos netos fiquem com uma ideia de como eram as habitações, as ruas estreitas e medievas no tempo dos seus avós.
O mundo é uma escadaria; sobem uns, descem outros, porque para trás mija a burra.
«Eles não sabem, nem sonham,
Que o sonho comanda a vida,
Que sempre que o homem sonha
O mundo pula e avança
Como bola colorida
Entre as mãos de uma criança.»
Rómulo de Carvalho

J.M.S 

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

O caldudo

O castanheiro é uma árvore de grande porte e longevidade que se cultiva em muitas regiões do Mediterrâneo. Até aos meados do século XX, em muitas regiões beirãs e transmontanas, existiam enormes soutos. Os nossos pais saíam da vila em direcção à Senhora da Orada, levavam uma saca ou uma cesta e iam apanhando as castanhas que caiam para o caminho; “tal a quantidade de castanheiros que havia”. Na serra existiam enormes exemplares. Os fogos, a doença da tinta… exterminaram a maior parte dos soutos na região de São Vicente da Beira.
Durantes séculos, a castanha era um dos alimentos principais dos povos que habitavam as zonas serranas.
Com a chegada dos espanhóis aos países andinos descobriram um tubérculo “batata” que aos poucos foi destronando a castanha.
As castanhas eram as nossas “batatas”, podem-se comer cozidas, assadas, adocicadas…
Os nossos pais e avós faziam um pitéu muito apreciado, nos nossos dias quase completamente esquecido. Caldudo era o seu nome.
Para se fazer um bom caldudo, são necessárias castanhas piladas. A castanha era colocada em caniços “varas que se estendiam por cima da lareira paralelas umas às outras com uma distância de cerca de um centímetro”; deitavam-se as castanhas em cima das varas, espalham-se e iam secando com o calor da chama.
Depois de secas, tirava-se a pele e guardavam-se em bolsas de pano.

Perguntei à minha mãe como se faz o caldudo:

Para se fazer um bom caldudo, as castanhas têm que estar bem secas.
Põem-se de molho de um dia para o outro, depois tiram-se algumas peles que ainda tenham, coloca-se água num tacho com um pouco de sal, deitam-se as castanhas lá para dentro e deixam-se cozer.
Com uma colher e um garfo, vemos se já se esmagam. Quando se esmagarem, estão cozidas.
Havia quem gostasse de esmagar as castanhas todas; a tua avó deixava sempre algumas inteiras…
Despejamos a água que ainda se encontra no tacho e colocamos o leite juntamente com o açúcar. Deixamos ferver lentamente e vamos provando.
Quando punha o leite e o açúcar, gostava de deitar um pouco de canela e uma casquinha de limão. Ficava mais saboroso, havia quem não pusesse.
E se não tivermos castanhas piladas, pode-se fazer com castanhas normais!
Pode, mas não é tão bom.
Se o caldudo for feito com castanhas “verdes”, antes de se porem no tacho a cozer não esquecer de fazer um corte na castanha, se não se fizer começam a inchar e desfazem-se. Depois de cozidas tira-se a casca…

José Manuel anotou, a explicação foi dada por sua mãe Maria da Trindade, no dia 21 de Outubro do ano 2016, no Lar da Santa Casa da Misericórdia de São Vicente da Beira, sua vila Natal.


J. M. S.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Casas da Memória

Adquirir hábitos culturais demora tempo, a partir dos bancos da escola deveria haver uma disciplina que ensinasse as crianças incutindo nelas o amor pela cultura. Teatro, música, cinema, pintura e por aí fora.
O corpo dá sinais quando tem fome, sede… o espírito não, corpo precisa de alimento, também devemos dar ao espírito os alimentos que necessita, cuidá-lo, mima-lo com as belezas que as artes nos oferecem.
Na cidade de Castelo Branco já existem ao longo do ano as mais variadas exposições e muitos museus.
O Centro de Cultura Contemporânea de Castelo Branco mostra as mais diversas formas de arte, a Casa da Nora também. O antigo edifício dos correios, os museus Cargaleiro, Francisco Tavares Proença Júnior, Arte Sacra, Museu da Memória Judaica… Ofertas culturais que a cidade oferece, que vale a pena ver
No ano 2016, visitei o Museu Nacional de Arte Antiga que se situa na Rua das Janelas Verdes, em Lisboa. Este museu guarda um espólio muito rico; pinturas de autores portugueses (Domingos Sequeira, Vieira Portuense…), europeus (Bosch, Durer…), esculturas, arte da China, India, Japão, mobiliário, biombos, ourivesaria, cerâmica. Lá se encontra a famosa custódia de Belém, os célebres painéis de São Vicente de Nuno Gonçalves…
Todos os portugueses o deviam visitar.
Os funcionários, sempre atenciosos para responderem às nossas dúvidas.
Todo o espólio exposto é uma maravilha, mas, uma cadeira me despertou atenção redobrada. Porquê! Na nossa vila existe um “exemplar” muito parecido. Sabem onde se encontra!?
O segundo museu que vou citar é também um museu nacional, fica na airosa cidade de Viseu, paredes meias com a monumental Sé, é o Museu Nacional Gão Vasco. Deve o seu nome ao mestre viseense Vasco Fernandes e guarda um espólio muito importante de obras de arte do mestre e seus colaboradores. Para além dos quadros, existem numerosos objectos que serviam o culto religioso: imagens, cálices….
O espaço é magnífico. No outro lado da praça, em frente, encontra-se a igreja da misericórdia, que possui também um rico acervo museológico. Estes monumentos estão cercados de artérias medievas com as casas bem preservadas.
Vale a pena visitar a cidade de Viseu.
Há muitos anos que não revisitava a igreja de São Roque e o museu da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Quando o visitei pela primeira vez era um pequeno espaço museológico. Juntamente com os meus irmãos António e João Maria, encontrei um grande, valioso e maravilhoso museu. Rico em paramentaria, ourivesaria, pinturas, relicários, tocheiros. A capela de São João Batista, uma maravilha!
Realço o quadro que representa o casamento do rei D. Manuel l com a princesa Dona Leonor, onde figura o vicentino D. Álvaro da Costa. Terá sido o primeiro provedor da misericórdia de Lisboa.
Finalmente, menciono o mais recente museu da cidade albicastrense, chama-se Museu da Memória Judaica.
Situa-se na Rua das Olarias, o local onde se encontra foi muito bem escolhido, a câmara aproveitou o que restava das muralhas.
Através do seu espólio, ficamos a conhecer a presença hebraica na cidade de Castelo Branco. Vale a pena parar um pouco e escutar, graças às novas tecnologias, episódios que aconteceram a pessoas acusadas pelo tribunal da Inquisição.
Olhar as peças que servem os rituais judaicos, o grande painel onde figuram os nomes dos judeus que de uma maneira ou outra sofreram perseguições, condenações no tribunal do santo ofício. Amato Lusitano foi um dos que sofreu na pele os esbirros da inquisição.
É um espaço agradável e bonito, fiquem bem.




J.M.S

domingo, 15 de janeiro de 2017

Oráculo

O ano dois mil e dezasseis, trezentos e sessenta e seis dias depois cortou finalmente a meta.
Bissexto, torto ou travesso. Terramotos, guerras, mortes inesperadas, inundações… dois mil e dezasseis; exausto, entregou o testemunho ao ano dois mil e dezassete. Folgazão, iniciou a corrida com esperança.
Foguetórios, bebidas, comidas… ei-lo que parte sorridente, satisfeito e esperançoso.
Pura ilusão, dois mil e dezassete à medida que vai percorrendo o caminho irá encontrar os mesmos obstáculos, as mesmas manigâncias do seu antecessor. Fomes, guerras, secas, terramotos, hipocrisias, ilusões, desilusões, algumas alegrias, mortes inesperadas, desastres naturais, esperança num futuro melhor também. Gritará aos quatro ventos: “Paz, quero Paz”. Deixem-se de tormentosas guerras, acabem as perseguições ao nosso semelhante, a ganância, o ódio a inveja, continuarão a reinar. Muitos passarão fome, poucos continuarão a empanturrar-se.
As crianças Senhor, não têm culpa de nada tão pequeninas, que mal fizeram para começarem a sofrer assim que nascem. E os velhinhos, tantos sacrifícios passaram para educar, alimentar, cuidar os seus, tantas vezes esquecidos, abandonados.
Os jovens fartam-se de estudar na esperança de um futuro mais risonho, têm que abandonar o seu torrão natal à procura do pão que não encontram na sua terra.
O ano dois mil e dezassete vai ser uma cópia exacta do ano dois mil e dezasseis. Frio, chuva, vento, calor, acidentes, os estrangeirismos vão continuar a enxamear a língua de Camões, mas também haverá muita fé e esperança num futuro melhor. Um dia chegará a meta da igualdade, fraternidade e solidariedade. Está longe, mas existe, temos que ter paciência, coragem e esperança num futuro digno para todos.
A nossa casa comum está doente, se cada der um pouco de si ao nosso semelhante, se cada um de nós amar e respeitar a mãe natureza, o testemunho um dia será recebido apoteoticamente, festivamente.
Guardado cuidadosamente, elevando-se bem alto para que todas as nações da Terra o possam ver entrelaçando as mãos, possamos alegremente dizer:
- Finalmente chegou o ano que transporta o testemunho da Paz, Amor, Justiça, e Fraternidade.

J.M.S

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

As águas da Gardunha

Na minha rua (as) viviam muitas famílias. Parregas, Zé alfaiate, Manuel patrão, Maiaca,  Reinocos, Patanuchos, ti Maria Joaquina, Guiões, nós os Moscas…
            As mulheres de saias compridas, lenço na cabeça, xaile e avental iam à fonte, à ribeira lavar a roupa, cozer o pão nos fornos comunitários…
            As ruas nunca estavam sozinhas. No tempo da escola a praça fervilhava de catraios, nas férias, nomeadamente as grandes, manhã cedo, antes de o sol nascer, não tínhamos outro remédio senão levantarmo-nos, na rua já se ouvia falaçar. Beber o café, pegar numa saca de serapilheira. O Vale Covo ficava longe, era preciso encher a saca com pinhas, outros arranjavam um molho de tanganhos, um cesto de tocos, lenha miúda.
            Por vezes, principalmente no tempo de verão, a malta ia para a Canada onde havia uma peguia maior que o poço do Pelome e mais funda; assim que chegávamos, entrávamos na água era uma alegria.
            O dia passava depressa, a saca das pinhas por vezes vinha meia, o tempo era escasso para nadar. Como ficava mais longe, a Canada não era tão frequentada como o poço do Pelome. Chegávamos a casa cheios de fome, ceávamos de duas maneiras: sopa de landum, trabalhava a correia; depois da gritaria, comia-se a sopa de feijão manteiga.
As sovas só doíam na hora, no dia seguinte tudo recomeçava…
            Os automóveis naquela época eram escassos; contavam-se pelos dedos das duas mãos e ainda cresciam dedos. Em 1966, faz este ano meio século, começaram a chegar pessoas à vila que se iam instalando como podiam. Casas, partes de casas acolheram dezenas de famílias. A vila fervilhava de gente, parecia uma pequena cidade.
            No Casal do Pisco,máquinas rasgavam terras, transportavam pedras, no poço da Canada abriam-se grandes caboucos enchiam-nos de grossas pedras, cimento para as consolidar.
Aos poucos o paredão de terra ia subindo cada vez mais. A empresa Terbal era a responsável por todo aquele movimento, uma grande barragem estava a ser construída.
            O custo do empreendimento foi adjudicado por 29.971.012$10. O paredão tem cerca de 16 metros de altura e a sua capacidade máxima é de 1.400.000 m3 de água. Esta barragem foi comparticipada em 71% pelo governo, o restante valor ficou a cargo da câmara que teve de fazer um empréstimo. Com o crescimento demográfico na cidade de Castelo Branco a água da barragem do Casal da Serra, Penedo Redondo ou Sales Viana, já não chegava.
            Em 1890, a autarquia fora autorizada a fazer um empréstimo de 150.000.000 réis para diversos melhoramentos e o abastecimento de água era prioritário. O presidente da câmara estava mandatado para negociar nascentes em Castelo Novo. A opção foi o aproveitamento de nascentes de água a partir do rio Ocresa no Casal da Serra. Afixaram-se editais convidando os proprietários que quisessem vender os seus mananciais e, no mês de Novembro, a câmara recebeu três propostas.
            Passado um ano, o presidente entrou em negociações com o senhor Manuel Lucas e sua mulher Maria Patrocínio proprietários, moradores no Casal da Serra concelho de São Vicente da Beira afim de adquirir para a câmara as águas que estes possuíam nos prédios contíguos designados Corticeiras e Eirinhas, situados no limite de Louriçal do Campo. O preço acordado foi de três contos, a pagar em duas prestações de um conto e quinhentos mil réis. A escritura foi feita no dia 4 de Janeiro de 1892.
            A cidade crescia, a necessidade de água aumentava. No ano 1934, a câmara aprovou o concurso para que se construa uma barragem no rio Ocresa. A albufeira foi adjudicada por 472.000$00. No mês de outubro do ano seguinte as obras estavam terminadas e a cidade voltou a ter água suficiente para suprir as necessidades da população.
            O tempo passou, o precioso líquido voltou a não chegar. A cidade crescia. Chegámos ao ano 1966 e, na ribeira de São Vicente nasceu uma nova albufeira. No dia 24 de Dezembro de 1967 foi feita a ligação à rede de Alcains, ficando somente a fornecer água aos marcos fontanários. No dia 26 de Outubro de 1968 foi finalmente feita a ligação aos depósitos do Lirião.
            O presidente do conselho senhor professor Marcelo Caetano deslocou-se a São Vicente da Beira, onde inaugurou diversos melhoramentos, incluindo a barragem do Pisco. O ministro das obras públicas era o senhor engenheiro Arantes de Oliveira. António Liberato Oliveira, presidente da câmara municipal.

Pesquisa: A História e a Água no Concelho de Castelo Branco.


J.M.S 

domingo, 11 de dezembro de 2016

A azeitona já está preta

Estamos em plena época da colheita da azeitona, fruto de inverno; muitos olivais este ano não produziram, nota-se no lagar; a que vingou é de muito boa qualidade.
Dizem os entendidos na matéria; devido às altas temperaturas do verão a mosca da azeitona não a estragou.   
Começava a colher-se a partir dos meados de Dezembro, Janeiro, Fevereiro… 
As mudanças climáticas, “uma realidade nos dias que correm” alteraram completamente a recolha.
Amadurece mais cedo. Se não se colhe a tempo, mirra, seca e cai.
Alguém mais madrugador dirigia-se à praça e tocava uma corneta que anunciava a partida para os olivais.
Os campos eram alegres, camaradas de azeitoneiros “armados” com uma escada ripavam e cantavam.

A azeitona já está preta
Ai solidó, solidó
Já se pode armar aos tordos
Ai; ai,ai, ai, ai

As mulheres estendiam mantas, apanhavam o fruto que estava por baixo das oliveiras, rebuscavam e limpavam-na.
De vez em quando, colhedores entravam em confronto verbal com as camaradas vizinhas:

Ó Jaquiiim! No sejas lambão
Colhe azeitona, no sejas calão

Por sua vez, o visado retorquia gritando:

Calão és tu, no podes com a escada
Tens a mania, no vales nada

É verdade, é verdade; respondiam todos, rindo

Passavam horas chacoteando-se.
As cachopas regra geral tinham sempre uns raminhos de oliveira enfeitados com alecrim…
Quando algum viandante passava no caminho, a rapariga mais atrevidota, ramo na mão, dizia:

Aceitai este raminho
Senhor António da Tapada
Sei que é pobrezinho
Sempre é melhor que nada

Continuava dizendo mais um verso ou dois, o contemplado metia a mão na algibeira, gratificava com algum dinheiro. Conforme a bolsa assim era a quantia dada.
Árvores milenares, milhares arrancadas para serem substituídas por olivais de regadio.
Carrasquenhas, cordovis, galegas… foram transportadas para longes lugares onde ornamentam jardins.
Levam a oliveira centenária, deixam a oliveira com duração limitada.
Mediterrânica, é um óleo natural muito apreciado e saudável, tem as mais diversas aplicações.
Era o nosso petróleo. Com a industrialização e a descoberta de jazidas de crude passou para um plano secundário, já não é utilizado na iluminação, mas continua a consumir-se na alimentação.
As tabornas (tibornas); simples, tão boas!
Gostava de acompanhar o meu avô José ao lagar do Major, quando ia medir o azeite. Levava uma fatia de pão, torrava-se no brasido da fornalha e o mestre lagareiro tirava da tarefa um pouco de azeite acabado de fazer, quentinho, temperava-a, era um petisco de qualidade. Por vezes havia umas postas de bacalhau a assar nas brasas, um pitéu.
No lagar existia um local que se chamava inferno! Metia-me cá uma confusão…
Era o lugar onde iam parar as águas russas misturadas com algum azeite que os lagareiros aproveitavam.
O azeite, noite e dia alimentava a lâmpada sagrada do sacrário, ainda é utilizado nos sacramentos do baptismo e da confirmação.
Oliveira, árvore milenar, juntamente com a pomba, simboliza a paz e a esperança.
O primeiro objecto que a pomba levou a Noé foi um raminho de oliveira. Estime-se e preserve-se
No dia 26 de Novembro, faleceu o grande compositor senhor Arlindo de Carvalho, que tão bem cantou a nossa região. Natural da vila da Soalheira, onde ficou sepultado. Autor e intérprete:- Chapéu Preto, Fadinho Serrano, Castelo Branco...

A azeitona já está preta
Já se pode armar aos tordos
Diz-me lá ó cara linda
Como vamos de amores novos

J.M.S

sábado, 26 de novembro de 2016

Canja de cobra

O sacristão Manuel subiu as escadas da torre e encostou-se à varanda voltada para o cimo da vila, a saborear o ar fresco da manhã. De seguida pegou nos badalos e começou a badalar as ave-marias. O sol ainda se escondia por detrás da Oles, mas aos poucos inundou toda a vila e campos em redor. Camponeses, jornaleiros e proprietários iam a caminho das hortas para iniciarem mais uma jornada de labor.
O portão do quintal da casa do César abriu-se e o ganhão Dionísio à frente do carro de bois seguiu pela rua das Laranjeiras, em direção à Fonte Velha, a caminho da Tapada do João Gago. Todos os ganhões; “e eram muitos” seguiam cada um sua vida. Alguns dirigiam-se aos pinhais carregar lenha para os fornos comunitários…
Jornaleiros trabalhavam de sol a sol.
Antes de partirem para os trabalhos campestres muitas pessoas assistiam à missa da manhã.
Quando os homens trabalhavam perto da vila as mulheres levavam-lhes o café “por volta das dez da manhã fazia-se uma pausa”. À uma hora, ao toque das trindades, jornaleiros paravam os trabalhos, jantavam e dormiam a cesta. À tarde, nova paragem para se merendar: Um naco de pão com umas azeitonas, uma fatia de queijo…
Naquela época um novo prior tinha chegado há poucos meses à vila, depressa granjeou a simpatia do povo, sempre bem-disposto, comunicativo, mestre-escola…
Ao novel hospital chegavam doentes de toda a freguesia e das freguesias vizinhas para encontrarem a cura dos seus males. Em frente situava-se o tronco do senhor Bonifácio, quando não havia alimária para ferrar ele e o seu ajudante Joaquim da “burra” faziam ferraduras e canelos. Joaquim da “burra” de vez em quando gritava, rebolava no chão cheio de dores.
Meu pai dizia que lhe saiam as tripas “mais tarde soube que era quebrado”.
Ciganos acampavam detrás da capela de São Sebastião e o mestre Ventura juntamente com seus filhos fazia carros de bois na oficina que ficava por baixo da sua casa. Certa vez; eu ia a passar, encaro com uma cigana a esfolar uma cobra, uma panela de ferro aquecia água na fogueira, cortou-a em vários pedaços e meteu-a na panela. Assustado, segui caminho com a cesta na mão onde ia o jantar do meu pai. Quando cheguei à Oles, contei-lhe e respondeu-me:
- As cobras fazem uma canja tão boa ou melhor que a canja de galinha
Não fiquei convencido…
Era o tempo das malhas, ganhões transportavam faixas de centeio, trigo, para as eiras.
A eira da dona Luz estava cheia de rolheiros.
Malhadores desatavam os nagalhos, estendiam as faixas, ouviam-se os manguais com cadência ritmada debulharem as espigas, a palha ia sendo retirada ficando a semente misturada com as praganas, à tardinha aproveitando a nortada, procediam à sua limpeza enchiam um meio alqueire que levantavam no ar e iam lançando a semente para a eira, o vento empurrava as praganas e as rabeiras. A semente caia em cima de umas giestas, aos poucos o monte crescia, os catxiços eram retirados e juntavam-se a um canto. A palha de centeio aproveitava-se para as enxergas, a trigueira não prestava, desfazia-se, dava-se aos animais.
O ar fresco dava lugar ao calor que se tinha feito sentir durante o dia, os notáveis, remediados e os ricos da vila reuniam-se em São Sebastião, sentavam-se nos cais que cercam a capela, cavaqueavam sobre os mais diversos temas.
Uma das pessoas habituais nas tertúlias estivais daquela época era o padre José David.
Conversa puxa conversa “são como as cerejas”; a certa altura diz:
- Meus amigos; quando cheguei a São Vicente a primeira pessoa que confessei foi uma mulher; disse-me que era bruxa, fiquei sem saber o que lhe havia de dizer, não contava com tal segredo. Absolvi-a e, como penitência mandei-a rezar cinco pai-nossos e cinco ave-marias.
Eis senão quando na estrada passa uma mulher com um cesto à cabeça cheio de hortaliças:
- Boa tarde; saiba vossa reverência que tenho a consolação de ser a primeira pessoa que vossa reverência confessou na nossa terra.
O padre ficou sem pinta de sangue, todos os presentes ficaram a saber quem era a bruxa.
Anoitecia, sacristão tocava as ave-marias. À vila chegavam os camponeses, jornaleiros… na Fonte Velha sentavam-se nos cais com a enxada ao lado, as mulheres esperavam a sua vez para encher cântaros, regadores… algumas passavam com o tabuleiro à cabeça deixando um rasto cheiroso e agradável a pão acabadinho de cozer.
Outros, entravam na taberna do João coxo e emborcavam um cajeirão.
Fiquem bem.

J.M.S 

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Pedintes

Naquele tempo a vida diária na vila era muito vagarosa, medieval. As três classes da sociedade medieva ainda imperavam. O clero estava acima na pirâmide social, o senhor vigário era uma pessoa respeitada ou temida, à hora da catequese mesmo os mais arredios tinham que deixar as brincadeiras, as rotinas diárias e entrar na igreja para aprender a doutrina.
As catequistas pacientemente ensinavam o pai-nosso, acto de contrição, confissão, credo, salve-rainha… Senhoras Matilde, Resgate, irmãs passaraças, Estela e Maria, menina Maria de Jesus;  as irmãs professoras, Susana e Teresinha…  Mestras do catecismo boas e pacientes. Se por ventura algum catraio não entrasse na igreja à hora marcada, o padre Tomaz ralhava, ameaçava que diria ao pai.
Naquela época ainda se viam homens, mulheres, crianças descalças; as mulheres do Casal da Serra trocavam o calçado atrás da capela de São Sebastião. As que viviam na charneca trocavam as chinelas debaixo da sobreira que ainda hoje existe no Casal, à entrada da quelha que dá acesso à ribeira; quando regressavam às suas casas, os sapatinhos eram guardados e voltavam a calçar umas alpergatas ou faziam o percurso descalças.
Os senhores eram os donos de quase tudo, as melhores terras pertenciam-lhes, as melhores casas eram deles e situavam-se nos locais mais nobres da vila. A praça atesta aquilo que estou explanando: o clero com duas igrejas, a nobreza com seus solares e o mais nobre de todos, ao menos isso, a domus municipalis, símbolo do povo.
Para os senhores trabalhava o povo de sol a sol, a troco de uma escudela… No tempo da azeitona, aos colhedores por cada oito ou nove litros de azeite cabia-lhes um; os rendeiros, para além de pagarem uma determinada quantia em dinheiro, tinham que levar ao senhor uma cesta com os melhores frutos; as uvas, a azeitona eram para os senhores, o desgraçado estrumava, cavava e só arrecadava o que a terra produzia com muito trabalho e suor:- batatas, cebolas, couves, figos, maçãs…
Se isto não eram tempos medievos!
Aos “nobres” não lhes interessava nada que alguém quisesse progredir, um exemplo flagrante foi a construção da serração, a fábrica, que empregava no primeiro quartel do século umas duas dezenas de pessoas. Quanto tempo durou?
Há um dito que diz: "Os espanhóis foram conquistando… quando encontraram pedras deixaram aos portugueses." Quem passar por Salamanca, Ciudad Rodrigo e por aí fora, em redor da estrada a paisagem, apesar de seca, não é pedregosa. Assim que entramos em Vilar Formoso, começam as serranias graníticas, pedregosas, giestais, matorrais…
Na vila acontecia a mesma coisa: Casa Conde, Casa Cunha, Casa Visconde de Tinalhas e por aí fora. O pobre tinha as serras, courelas pobres difíceis de arrotear, caminhos mal andamosos, estreitos e tortuosos, onde só passava o homem e o burro.
Parece que tudo isto se passou há uma porradoria de lustros, mas não.
As coisas só começaram a mudar com a partida dos homens para as Franças… as guerras de África, as saídas para Lisboa… Todos tinham um objectivo comum, a melhoria das condições de vida, melhores ordenados, menos horas de labor diário. Os que ficavam, os senhores não tinham outro remédio senão acompanhar a evolução dos tempos.
A prosa já vai longa e ainda não escrevi nada sobre a ideia que me fez escrevinhar todas estas palavras.
           
Naquela época, estávamos ainda nos anos cinquenta do passado século, de vez em quando os tambores rufavam pelas ruas basálticas da vila, comediantes anunciavam a sua chegada. Na praça montavam o trapézio, à noite comediavam e o povo encantava-se com as momices que se iam desenrolando.
Os porcos eram criados paredes meias com as pessoas, as furdas situavam-se nas lojas rés-do- chão das habitações. Não eram só os porcos que lá viviam; burros, galinhas, vacas… As ruas eram “enfeitadas” com bostas, galinhas esgravatavam à procura do milho rei. Os ganhões transportavam nos seus carros toda a espécie de géneros, os rodados iam desgastando os granitos que se encontravam nos caminhos, deixando sulcos por onde escorriam as águas na estação invernal. A miséria campeava, era rainha em muitos lares, de vez em quando apareciam pessoas que andavam de porta em porta a pedir, eram os pedintes.
Um deles era o Mudo da Torre, pessoa simples, andrajosamente vestido, bonacheirão, risonho, não fazia mal a uma mosca. Quando o víamos, não o largávamos e clamávamos: "Mudo da Torre… Mudo da Torre." Voltava-se para nós com um brilhozinho nos olhos e um sorriso nos lábios, tirava a gorra levantava-a no ar e dizia "É! É! É! É…" e nós voltávamos ao princípio "Mudo da Torre…"
Havia um que era o oposto do Mudo da Torre, chamava-se Diamantino. Timantino um homem alto, bem-posto, fato coçado, andar meio torcido, na cabeça usava uma boina. Parece que era natural da Lardosa. Até certa altura tinha tido uma vida estável, uma desavença e foi parar à cadeia onde passou alguns anos. Quando saiu, transtornado com a vida, passou-se. Andava de terra em terra a pedir, Mudo da Torre aceitava tudo que lhe davam, Timantino só pedia nas casas ricas. Nós, os catraios, um pouco afastados, atanazavamo-lo gritando: "Ó Timantino… Ó Timantino, Tino, Tino…". Com cara de mau, corria atrás de nós com uma faca na mão…
Havia um pedinte discreto, natural de Niza. Uma vez por ano visitava a casa do senhor José Lourenço que lhe dava uma esmola.  José Lourenço era o senhor todo-poderoso da Casa Conde, punha e dispunha, ia às feiras ver os gados, comprava, vendia… Este pedinte, quando saía, dizia-lhe: "Senhor José, se algum dia passar por Nisa, terei muito gosto em o receber na minha casa."
O feitor sorria amareladamente. Certo dia, resolveu ir a Nisa a uma feira e lembrou-se de o procurar. Dirigindo-se a um transeunte, perguntou onde morava o tal pedinte, este só faltou pôr-se em sentido. "Vá por esta rua abaixo, a sua casa fica ao fundo da rua."
Seguiu as instruções do transeunte e quando chegou ao local indicado disse para o criado que tinha ido com ele: "Não pode ser esta a casa, isto é um palácio."~
Em todo o caso, bateu à porta e imediatamente aparece um criado. "Diga ao seu patrão que está aqui o José Lourenço de São Vicente da Beira…" Subiu as escadas do casarão e aparece à sua frente o pedinte. O pobre era mais rico que ele. "Olhe senhor José, foi a pedir que consegui o que tenho."
A partir dessa altura nunca mais voltou à vila.
Naquela época ainda havia usos, costumes e preconceitos muito arreigados entre as populações, as sociedades viviam em espaços rurais muito fechados, o espírito comunitário imperava, assim como a miséria grassava e campeava. Havia uma coisa nos nossos dias cada vez mais rara: alegria. As pessoas mesmo com a barriga vazia mourejando de sol a sol, cantavam, ajudavam-se e à noite, ao toque das ave-marias, viam-se ranchos que regressavam às suas casas rezando ou galhofando.
Hoje não falta nada, mas falta o principal que se chama alegria e amor solidário.
Fiquem-se com mais esta: A ambição cerra o coração; mas o amigo conhece-se na adversidade; em contrapartida, o amigo fingido conhece-se no arruído.


J.M.S

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Fui aos Chocalhos


Fui aos chocalhos; aproveitei o primeiro dia, andamos mais à vontade, menos pessoas; gostei.
A câmara do Fundão e a junta de freguesia de Alpedrinha em boa hora criaram este evento. Já lá vão quinze anos, único na região, quiçá em Portugal. Atrai milhares de pessoas de toda a nossa Beira e país.
No belo solar do Picadeiro “Sarafanas” estava uma representação dos amigos espanhóis, não sei se foi este ano a primeira vez, já se internacionalizou. Ruas medievais apinhadas de gente; janelas, portas, lojas escancaradas onde se expõem os mais diversos produtos:- gastronómicos, artesanais, artísticos… Diversão a rodos, bombos, pandeiros, gaitas de fole, conjuntos, pífaros… a animação, é grande.
Dá gosto passear pelas ruas da bonita Alpedrinha, as casas bem conservadas mantêm a traça original. Solares, capelas, a bela igreja paroquial, a monumental fonte, o palácio do picadeiro, a capela do leão que nos recorda o célebre cardeal. Parece que era aparentado com o nosso D. Álvaro da Costa. Ilustres, os Costas.
Fui aos chocalhos; há alguns anos que lá não ia, deixei o carro num parque improvisado junto ao cruzamento das Atalaias, os autocarros transportam-nos para o local, tudo muito bem organizado.
A nossa vila também foi testemunha do fenómeno transumante; era garoto, na estrada nova passavam enormes rebanhos de ovelhas a caminho do Alentejo. No outono desciam a Estrela, na primavera regressavam na direcção dos montes Hermínios. Era um espetáculo bucólico, pessoalmente adorava ver. O chocalhar misturado com os assobios e as ordens dos pastores, formavam uma campestre orquestra. Eram às centenas as ovelhas, uma nuvem de pó à medida que passavam, pastores com seus safões, manta e alforge caminhavam. “Caminho faz-se caminhando, não é verdade”!
A vila possuía também grandes rebanhos, na casa conde havia um canzarrão enorme chamava-se leão; só lhe faltava a juba, o pescoço estava enfeitado com uma grande coleira de picos de ferro por causa dos lobos. Dizem que quando atacam atiram-se logo ao pescoço do animal. O Leão estava protegido, um animal corpulento como ele não precisaria. De vez em quando ia à praça passear, nós os catraios, fazíamos festas ao Leão. Cabradas, ovelhadas; à noite, quando regressavam das pastagens, o chocalhar e campainhar alegravam nossos largos e ruas.
Não chegou a meio século para a sociedade se transformar radicalmente. O chafariz já não mata a sede aos animais, é uma peça decorativa, as bicas da fonte velha já não enchem cântaros, regadores, baldes…
O mundo pula e avança …
Resta a recordação.


J.M.S

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Quadros da nossa história

Era uma vez…
Todas as histórias começam assim.
Há muitos, muitos séculos; clima ameno, água pura que brotava das encostas verdejantes; a serra começou a servir de refúgio a muita gente que fugia dos invasores…
Tendo em conta a necessidade de se defenderem constroem num local inexpugnável da serra um castelo.
Durante muitas gerações viveram no alto da montanha apascentando seus rebanhos, vivendo da caça e da pastorícia.
Os vales já não ofereciam perigo, depois de duras guerras entre cristãos e sarracenos; no sítio da Oles travou-se uma grande batalha entre cristãos e mouros; diz a lenda.
Ei-los descendo as encostas serranas e agrestes caminhando para os vales e planícies mais férteis e amenas. Pouco a pouco abandonam o castro “Castelo Velho” A fronteira cristã já se encontrava mais ao sul.
Do velho castelo nada resta; amontoados de pedras, as populações que habitavam aquelas paragens partiram:-uns para o lado nascente, outros para o poente.
Os primeiros certamente por estarem mais expostos a invasões construíram um castelo novo. Os que partiram para a encosta poente nunca construíram outro, ficariam conhecidos por Trans Serre (Trás da Serra).
Uns e outros fazem suas vidas, acessos difíceis, os contactos foram rareando, cresceram duas novas comunidades.
Os moradores de Trás da Serra ao fixarem-se no campo construíram suas cabanas nas vinhas. Naquele lugar encontram-se numerosos vestígios da ocupação humana” pedaços de telhas, talhas, mós…
Talvez não fosse o melhor sítio para se viver “escassez de água, muitas formigas, ou outro motivo”!, abandonaram-no, resolvem habitar um pouco mais acima nas faldas da serra Guardiã onde fundam um novo povoado, muita água, nateiros que bordejam a ribeira.
Foi crescendo o povoado.
A independência nacional estava consolidada, certo dia o povo reuniu no largo principal, depois de muito conversarem decidiram que alguns tinham que ir à capital do reino oferecer a terra ao rei. Ouçamos:

Primeiro homem bom: Vizinhos e familiares, estamos reunidos para debatermos um assunto muito importante para o nosso povo, a independência do reino foi alcançada, alguns de nós têm que ir a Lisboa oferecer a nossa terra a el-rei nosso senhor
Segundo homem bom: Devemos entregar a nossa terra à protecção do nosso rei e senhor D. Afonso Henriques.
Terceiro homem bom: Estou convosco, mas não contem comigo para ir a Lisboa.
Primeiro homem bom: Porque?
Segundo homem bom: Tenho a vinha para colher e as terras para lavrar.
Primeiro homem bom: Alguns terão que ir
Terceiro homem bom: A minha égua anda manca, não me vou meter ao caminho com ela assim.
Primeiro homem bom: Alguém tem que ir.
Todos em uníssono: Podes ir tu, tu, tu…
Primeiro homem bom: Assim aos berros ninguém se entende, vamos às sortes. Eu não me importo de ir, haja quem me acompanhe.
Quarto homem bom: Podes contar comigo, responde o quarto homem bom.
Segundo homem bom: Eu vou.
Primeiro homem bom: Vamos os quatro, de hoje a oito dias, abalamos de madrugada.
Quarto homem bom: Povo de Trás da Serra, no dia quinze de Setembro nós os quatro vamos a Lisboa oferecer a nossa terra a el-rei nosso senhor D. Afonso Henriques.

Narrador: Os dias foram passando, iguais como todos os dias, tirar as cabras do bardo, as ovelhas do redil. Finalmente o grande dia chegou.
Mulher do primeiro homem bom: Meu querido homem, que a jornada te corra bem, que Deus Nosso Senhor te acompanhe, agasalha-te bem à noite, tem cuidado com os salteadores, com os lobos e não te percas. Voltai depressa!
Mulher de outro homem bom: Adeus meu rico homem, faz boa viagem, que Nosso Senhor te cubra com sua sombra.
Um filho: Pai, sua bênção.
Primeiro homem bom: Adeus amigos, adeus a todos…já lá vem a aurora; vamos.

Narrador: Pernoitando aqui, descansando ali, a jornada correu sem grandes sobressaltos, chegaram a Lisboa no dia vinte e cinco de Setembro do ano da graça de 1173. Muita gente a sair de uma igreja, duas alas se vão formando.

Primeiro homem bom: O que é isto que nossos olhos estão vendo, nunca vimos tanta gente.
Terceiro homem bom: Perguntemos àquele ancião. Olhe lá, vossemecê diga-nos o que vem a ser isto.
Ancião: Vossemecês não são de cá, pois não?
Os quatro homens bons: Não senhor.
Ancião: São os restos mortais do mártir São Vicente que estão a ser levados da igreja de Santa Justa para a Sé.
Primeiro homem bom: Quem foi esse santo?
Ancião (pacientemente): Foi um diácono hispânico, natural da cidade de Valência, que os romanos mataram por não ter querido renegar a fé de Cristo Nosso Senhor. É um grande santo, seu corpo foi levado secretamente para o nosso Algarve onde o sepultaram. Por ordem de el-rei D. Afonso Henriques os restos mortais vieram para Lisboa num barco, desde o promontório de Sagres até Lisboa dois corvos acompanharam as santas relíquias, olhem; vinha um à proa e outro à popa.
Segundo homem bom: Muito bem! E quem é aquele?
Ancião: É o nosso rei e senhor D. Afonso Henriques que se dignou acompanhar as venerandas relíquias.
 Primeiro homem bom: Bem haja bom homem. Não podemos perder o rei de vista

Narrador: Findas as cerimónias, os moradores de Trás da Serra dirigem-se ao rei.
Primeiro homem bom: Alteza real, vimos da Beira Serra onde fundámos um povoado, Trás da Serra é o seu nome, vimos oferecer a nossa terra e todos os nossos pertences ao nosso rei e senhor.
Afonso Henriques: Estou grato, aceito a vossa terra, como prova do meu agradecimento e alegria vou-vos oferecer um tesouro, tendes que o guardar para todo o sempre. Acompanhai-me.
Quarto homem bom: Onde nos leva o rei! Vamos entrar na Sé.
Afonso Henriques: Tomai este osso do queixo do mártir São Vicente, guardai-o religiosamente, a partir deste momento a vossa terra deixará de se chamar Trás da Serra e passa a chamar-se São Vicente.
Os quatro homens bons: El-rei nosso senhor, bem- haja
Primeiro homem bom: Majestade, aceitai estes humildes presentes, fruto do nosso trabalho. Isto é um pote de mel, aquele é um odre de azeite, uma canada de vinho, neste alforge estão enchidos das nossas salgadeiras; presuntos, chouriços…
Afonso Henriques: Bem-haja, que Santa Maria Nossa Mãe vos acompanhe de regresso à vossa terra, ao nosso São Vicente

Narrador: Contentes e felizes regressam; o povo recebe-os festivamente no largo principal.
Primeiro homem bom: Trazemos duas grandes notícias de Lisboa. El-rei D. Afonso Henriques com quem tivemos o privilégio de falar ofereceu-nos esta relíquia de um mártir que morreu pela nossa santa fé de nome Vicente, disse-nos para a guardarmos religiosamente na nossa terra. Só nós e Lisboa possuímos relíquias deste santo, aceitou a nossa terra e a partir de agora por vontade sua passa a chamar-se São Vicente. Viva o nosso rei
Todos: Viva… Deus o proteja.

Narrador: A comunidade Vicentina crescia, os dias e as noites sempre iguais; alguns anos mais tarde..
Arauto: Avisam-se todos os vizinhos desta nossa terra de São Vicente que faleceu no passado dia 6 de Dezembro deste ano da graça de 1185 nosso rei e senhor D. Afonso Henriques; sucede-lhe seu filho D. Sancho I. VIVA O REI!

Narrador: D. Afonso Henriques foi o “pai” de São Vicente, D. Sancho seu filho, concedeu-lhe a carta de alforria. Todo o povo reunido no largo escuta atentamente.
Primeiro homem bom: Perante todos vós, quero transmitir-vos o seguinte:-D. Sancho I concede-nos um foral que nos faz a partir deste momento cabeça de um grande território. Começa assim:
Em nome da Santa e Individua Trindade, Padre, Filho e Espirito Santo amem. Eu, rei Afonso filho do rei Sancho juntamente com minha mãe rainha Dulce e ao mesmo tempo com Gonçalo Martins prior de São Jorge e todo o seu convento e com frei João de Albergaria de Poiares queremos restaurar e povoar o lugar de São Vicente
Damos e concedemos o foro e costumes da cidade de Évora a todos, tanto presentes como futuros que lá quiserem habitar…
(Seguem-se todas a regalias e obrigações que cada morador tem)
A terminar, o documento menciona os limites de São Vicente que vão pela ribeira de Almacaneda e segue a corrente até ao fundo do vale do Peral, ao fundo entram em Almacaneda e entra em Rio de Moinhos no Ocresa, depois pela água de Ocaia! Vai até à Portela de São Vicente.
Eu rei Afonso, juntamente com minha mãe rainha dona Dulce, autorizamos e confirmamos esta carta com nossas próprias mãos.
Todo o que quiser rasgar este facto nosso, seja amaldiçoado de Deus. Concedemos a todo o cristão embora servo que habitar durante um ano em São Vicente seja livre e ingénuo.
João Venegas; presbítero, notou.
Eu, rei Sancho de Portugal confirmo. Eu, infante Fernando filho do rei Sancho confirmo. Eu, infanta dona Teresa, confirmo. Eu, Gonçalo Martins, prior de São Jorge e todo o seu convento confirmamos.
Frei João de Albergaria, confirmo
Os moradores de São Vicente não têm poder de vender, nem dar suas herdades enquanto não as sirvam por um ano, depois; vendam ou deam a quem quiserem
João Fernandes, testamenteiro; Mendo Pelágio, testamenteiro; Martinho Fernandes, testamenteiro; D. Julião, testamenteiro; Gonçalo Martins, testamenteiro; Didaco Cavaco, testamenteiro; Pelaio Rutura, testamenteiro; e Fernando Soares, testamenteiro
Feito no dia 22 de Março do ano da graça de 1195
Quem quiser saber tudo mais pormenorizado venha à minha humilde casa que leio e explico.
Todos: Viva São Vicente, viva a nossa vila, viva o nosso rei e senhor D. Sancho!

Narrador: Passavam os séculos, a vila sempre a crescer, tornou-se uma das terras mais importantes das Beiras.
Vigário: Fidalgo, estou velho, os anos passam, quero deixar os meus bens à Albergaria, é uma instituição que cuida dos pobres, dos doentes, dos que nada têm.
Fidalgo: Vossa reverência padre Estevão Anes é quem sabe.
Vigário: Deixarei os meus bens à Albergaria do Santo Espírito. Amanhã, dia 22 de Abril do ano da graça de 1363 chamarei o escrivão à minha casa. Conto com a vossa ajuda.

Narrador: Esta instituição antecede as misericórdias. A primeira vez que a palavra misericórdia é relatada, “até prova em contrário”, menciona que uma senhora casada com um senhor de nome Crespo, faleceu no dia 15 de Dezembro do ano 1572, foi sepultada na igreja da misericórdia. Em 1363 já existia na vila uma  albergaria assistencial.
As misericórdias foram fundadas pela rainha dona Leonor, a primeira a ser criada foi a de Lisboa, no dia 15 de Agosto do ano 1498.

Narrador: Continua o progresso e o engrandecimento da vila. Em Coimbra, no dia 20 de Agosto do ano 1469, D. João, ainda regente, confirma o foral; seu pai D. Afonso V ainda era vivo. Quarenta e três anos depois, D. Manuel l reforma-o em Lisboa, no dia 22 de Novembro do ano 1512

Narrador: Dona Teodósia da Paixão, à saída da missa.
Teodósia da Paixão: Senhor vigário, é meu desejo fundar um convento na nossa terra.
Vigário: Vou enviar uma carta ao senhor bispo a informá-lo.
Dona Teodósia: Dê-me novas o mais rápido que possa.
Um popular: A Dona Teodósia vai fundar um convento na nossa terra.
Outro popular: É uma santa, tem sempre qualquer coisa para dar aos pobres.
Vigário: Senhora, chegaram novas do senhor bispo, ele concede esse privilégio à nossa terra.
Dona Teodósia: Deus ouviu minhas preces. Obrigado, meu Deus!
Narrador: Dona Teodósia da Paixão foi a fundadora e a primeira abadessa do convento de monjas clarissas de São Vicente da Beira. Do velho mosteiro nada resta; desculpem: escapou um pórtico à voragem dos homens.

Narrador: Os tempos passam, a certa altura em São Vicente surge mais um momento histórico
Anónimo popular: Senhor D. António, para onde vai com tanta pressa!
D. António: Quarenta bravos e valentes conjurados colocaram novamente rei português no trono de Portugal, mataram o traidor Miguel de Vasconcelos e obrigaram a duquesa de Mântua a deixar Portugal.
Anónimo popular: Vou tocar os sinos, senhor D. António de Azevedo.
D. António: Vai, toca-os com todas as tuas forças, este dia é de festa, de alegria e de esperança no futuro.
Populares: Que se passa! Os sinos não param de tocar, vamos à praça.
D. António: Vicentinos, vizinhos, amigos; o poder dos Filipes terminou, sessenta longos anos de obscurantismo acabaram, temos novamente rei português. Viva nosso rei e senhor D. João IV. Uma conspiração havida em Lisboa no dia 1 de Dezembro deste ano da graça de 1640, quarenta patriotas derrubaram o rei estrangeiro. Viva Portugal, viva o rei. Deixem-me partir, vou à vila de Castelo Branco aclamar o nosso rei.
Anónimo popular: Este senhor D. António de Azevedo Pimentel é um grande vicentino.

Narrador: Foi o primeiro a levantar voz a favor do rei português nas vilas de Castelo Branco e São Vicente. O tempo sempre velho e sempre novo passava, a pacatez da vila foi mais uma vez alterada.
Criado: Senhor comendador, uma carta de el-rei.
D. João: Deixa-me ver, era o que eu esperava, nosso rei D. Afonso VI concede-me o título de conde de São Vicente. Eu, João Nunes da Cunha, a partir desta data 2 de Abril do ano da graça 1666 sou o primeiro conde de São Vicente.
Narrador: Algum tempo depois recebe outra mensagem.
Isabel de Borbon: Senhor, que diz essa carta?
D. João: Sua alteza real quer que vá para a Índia ocupar o lugar de vice-rei.
Narrador: Nesse mesmo ano embarcou para a Índia, foi o trigésimo vice-rei. Faleceu na Índia no mês de Outubro do ano 1668. Dona Maria Caetana Vilhena e Cunha, sua filha, foi a segunda condessa, casou com o senhor D. Miguel Carlos de Távora que, pelo casamento, passou a ser o segundo conde de São Vicente.

Primeiro popular: Os sinos estão a dobrar, vou à praça ver o que se passa, se calhar morreu o senhor padre José, tem estado muito mal.
Segundo popular: Oh Maria, os sinos estão a dobrar há tanto tempo, o que é que se passa?
Maria: Vossemecê não sabe! Foi o senhor padre José Estevão Cabral que morreu.
Narrador: Foi um sábio, nasceu em Tinalhas no dia 22 de Fevereiro do ano da graça de 1734, aos catorze anos partiu para Coimbra para estudar no colégio dos jesuítas. O marquês de Pombal extinguiu a ordem em Portugal. Seu pai, abastado lavrador, foi a Coimbra convencê-lo a vir para Tinalhas, mas ele não aceitou e partiu para Roma.
O papa Clemente IV nomeou-o mestre do colégio romano. Trinta anos depois regressa a Lisboa. Grande conhecedor da hidráulica, a rainha Dona Maria I encarrega-o de estudar os rios Tejo e Mondego. Publicou vários livros sobre essa matéria. Hoje, dia 1 de Fevereiro de 1811, expirou um homem notável do nosso concelho.
Viveu os últimos anos da sua vida em São Vicente da Beira
Terceiro popular: Além vai o cortejo fúnebre a caminho da sua terra natal, que Deus o tenha em bom lugar.
Tanta gente a acompanhá-lo!

Padre Simão: Afilhado, estou velho e alquebrado, tenho pensado seriamente naquilo que hei de fazer à fortuna que possuo. Gostaria de fazer alguma coisa pela nossa terra, que achas? Uma obra social?
Padre José: Padrinho, a sua ideia é boa, mas o Sobral é uma terra tão pequena, porque não construir em São Vicente? Tem um passado histórico riquíssimo, é sede do concelho, localiza-se num lugar central, ao passo que o Sobral está numa ponta…
Padre Simão: Tens razão, afilhado; São Vicente está bem localizado, a nossa terra fica perto, vou pensar na tua ideia.
Narrador: O padre José Davide dos Reis foi um grande professor e um grande amigo de São Vicente. Provedor da Santa Casa, foi ele o mentor e o principal responsável para que o padre Simão Duarte do Rosário deixasse a sua fortuna à Santa Casa. Com a sua fortuna, construiu-se o grande hospital que ficaria a servir todas as freguesias vizinhas, vontade sua.
Padre Simão: Afilhado, tens razão, será na vila que irei construir o hospital. Fique desde já assente, servirá a vila, o Sobral, Louriçal, Ninho do Açor, Tinalhas, Almaceda…
Padre José: A sua vontade será feita.
Narrador: Em 1894, nascia um grande edifício, o hospital da misericórdia de São Vicente da Beira. Possuía bastantes bens, com o advento da república a maior parte do seu património foi confiscado. Tinha propriedades no Ninho do Açor, Lardosa, São Vicente… Começou a sobreviver de donativos, cortejos de oferendas.
Outro grande benemérito, foi o doutor Silva Lemos, natural da cidade do Porto, deixou todo o seu património ao hospital. Com o seu dinheiro construíram-se as casas do bairro.
Em 1952 realizou-se um grande cortejo de oferendas. Nessa altura o poeta popular senhor José Lourenço editou um pequeno livro de versos onde narra toda a história do cortejo.
(…)
Deram os comerciantes
-Que em seus carros bem se via-
Muita coisa proveitosa
Roupas e mercearia!

Lá vinham os nossos ranchos
Todos tão bem ensaiados
Que nos deixaram absortos
-Completamente encantados

Lá vinha o Mestre Ventura
Na bigorna a martelar
Co`seu porta voz fingido
E o seu fole a trabalhar

Chegaram os lavradores
Com tantos produtos seus
-Tão úteis e variados
Que eram um louvar a Deus!

O do Ninho do Açor
Foi o que primeiramente
Deu entrada no cortejo
Co`seu carro de semente

Vinham os carros das Quintas
Todos bem apetrechados
-Neles as donas de casa
Bem mostraram seus cuidados

Viu-se o carro dos Pereiros
A correr por ali fora
Ia ficando p `ra traz
Por vir à última hora!
(…)

A Santa Casa chegou a ter 75 propriedades.

Com a queda dos morgadios, o apoio a D. Miguel na guerra entre absolutistas e liberais, começou a decadência da vila.
Era composto este antigo concelho pelas freguesias de Sobral do Campo, Louriçal do Campo, Ninho do Açor, Freixial do Campo, Tinalhas, Povoa Rio de Moinhos ”justiça”. Com a queda do concelho de Sarzedas, Almaceda passou para o concelho de São Vicente
A partir do terceiro quartel do século dezanove, o concelho começou a esboroar-se até à queda final que aconteceu em 1895.
Atualmente, todas a freguesias deste antigo concelho pertencem ao grande concelho de Castelo Branco.
E depois! Morreram as vacas, ficaram os bois


J.M.S