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quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Ir à marouva

Andávamos de noite e éramos sempre uns poucos, que enquanto uns trepavam às árvores, os outros ficavam à espreita, a ver se lá vinha a Guarda ou o dono.
 Uma vez, já rente ao sol-posto, era eu, o Chico Vaca, o Albertino da Lusitana, o Jorge Gato e o Justino Escavaterra. Estávamos todos sentados na Fonte Velha à espera das cachopas que vinham à fonte, e às duas por três diz o Justino assim:
- O meu avô é que lá tem umas laranjas boas! São doces que nem mel! Mas onde elas estão ninguém lá chega, que a laranjeira está mesmo defronte da janela da cozinha.
Ninguém lá chega? Ai não que não chega! Olha para quem ele o estava a dizer! Fizemos logo sinal uns aos outros e assim que ele se levantou para se ir embora, levantámo-nos logo todos também e abalámos cada um para seu lado, como se fôssemos para casa. Não tardou muito, estávamos outra vez todos juntos, na Estrada Nova, ao pé da quelha. Todos menos ele, que não deu conta de nada.
Saltámos a parede do Pomar, que era onde havia a tal laranjeira, espreitámos pela janela e vimos que a candeia ainda estava acesa e o ti Tomás e a mulher ainda levantados, mas cada um com a cabeça já a cambalear para seu lado. Só o gato é que parece que deu razão de qualquer coisa e pôs-se coca, mas como não viu nada, tornou a enroscar-se aos pés do dono.
Saltámos para cima da laranjeira e toca a colher e a encher a camisa por dentro, que a tínhamos atado com a correia das calças. Só deixámos as que não víamos ou aquelas aonde não chegávamos.
Quando foi ao outro dia, ajuntámo-nos outra vez na Fonte Velha e chega lá o Justino, que até parecia que nos havia de comer:
- Seus cabrões, que fosteis às laranjas do meu avô e não deixasteis nem uma!
- Nós? Atão não nos vistes abalar também aquando tu? Alguém lá terá ido a elas, mas nós não fomos…
Ele calou-se e lá ficou na dele; nunca teve a certeza de quem tinham sido os ladrões.
Doutra vez, era no tempo das ameixas. Havia uma ameixoeira numa horta para lá do Marzelo, carregadinha delas; grandes e tão encarnadinhas que metiam cobiça. Até faziam água na boca, só de olhar pra elas. Um dia lá vamos nós, pela calada da noite, prontos para uma barrigada.
Assim que lá chegámos o Chico Vaca saltou logo para cima dum ramo tão carregadinho que até amochava; mas teve tanto azar que o ramo esnocou-se e ele foi parar ao leirão de baixo, mesmo por cima dum poço que lá havia. A noite estava como breu, e só o ouvíamos a berrar.
- Tirem-me daqui! Tirem-me daqui, que eu morro!
Fomos à horta e arrancámos uma empa dum tomateiro, e foi assim que o conseguimos tirar de lá; ele agarrado ao pau e nós a puxar pra cima. Vinha todo esfarrapado e a escorrer tanto sangue que até parecia um Cristo. E a sorte dele foi que o poço estava tapado com um basculho de silvas e o ramo tinha-o amparado, senão tinha morrido, que o poço era fundo como o diabo.
Jurou pra nunca mais, mas foi sol de pouca dura, que não tardou muito tempo e já andávamos todos aos gachos naquilo da dona Judite. Era cada um, dos brancos, mais doces que o mel! Mas dessa vez íamos sendo apanhados pela Guarda. O que nos valeu foi que demos conta da patrulha pelas passadas das botas e tivemos tempo de nos agachar atrás duma parede. Passaram mesmo à nossa frente, com a arma às costas, mas assim que deixámos de os ouvir, ó gachos duma figa! Foi até não podermos mais!
E estava aqui até à noite só a contar partes destas. Naquele tempo não havia a fartura da fruta que há agora, que até a deixam apodrecer, caída ao tronco da árvore. Se queríamos comer alguma coisa que nos consolasse, tínhamos que ir a ela, aonde a havia, naquilo dos ricos. Raras vezes éramos descobertos, mas mesmo que fôssemos, tínhamos as pernas leves e era difícil sermos apanhados.
Belos tempos! Quem me dera lá neles!...

M. L. Ferreira