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segunda-feira, 13 de março de 2017

Mas doce ilusão

O dia chegará
Tudo terminará
Quando esse dia chegar
E tudo terminar
Os sinos tocarão
Dlim, dlão…dlim, dlão
Dentro de um caixão
Alguém te levará
Ao lugar do esquecimento
Ossos, cinza, terra, meu irmão
Nada mais, encontrarão

Carnaval, ilusão
Matrafonas, folia,
Três dias, dois dias, um dia
Foliões, ilusões
Máscaras, desnudos
Batuques, danças, entrudos
Piadas, engraçadas
Carne vale
Ninguém leva a mal

Recorda-te homem
Não és nada, pó
Só!?
Sim; pó, aleivosia
Até um dia, qualquer dia
Pó; amigo, inimigo
Familiar, desconhecido
Não tenhas ilusões
Vaidade esquecida
Nova vida
Vida nova
O pó ficou na cova


Zé da Villa

quarta-feira, 23 de março de 2016

Páscoa

A Páscoa dos cristãos, juntamente com a festa da Natividade, são as duas festividades mais importantes do calendário da Igreja.
A Natividade comemora o nascimento de Jesus, a Páscoa assinala a vitória da morte através da Sua ressurreição.
O tempo quaresmal recorda-nos os quarenta dias que Jesus viveu no deserto, onde passou privações de toda a ordem e foi tentado pelo demónio.
- Tudo isto Te darei se me adorares.
- Afasta-te de mim, satanás!
Durante quarenta dias, o povo crente jejua e faz penitência, é tempo de recolhimento.
 Antigamente as rádios, nomeadamente na semana maior, passavam música clássica, as folias terminavam na quarta-feira de cinzas.
A quaresma recorda-nos o sofrimento de Cristo até à sua morte na cruz.
A semana maior inicia-se Domingo de Ramos, com a entrada triunfal de Jesus e a Sua aclamação popular, na cidade de Jerusalém.
Quatro dias depois, o povo que o tinha aclamado condenou-O.
Interrogatórios, calúnias, e finalmente a morte na cruz.
Ao terceiro dia, Domingo de Páscoa, ressuscitou.
A Páscoa Judaica lembra a libertação do povo que esteve cerca de quatrocentos anos escravizado no Egipto. Os hebreus recordam também a passagem do anjo da morte pelas terras do Egipto. Nesse dia, o povo hebreu matou um cordeiro e com o sangue marcaram as portas, desta maneira o anjo passava. Nas casas que não tivessem o sinal, se houvesse nelas recém-nascidos, o anjo praticava a justiça…
É a festa da primavera, os hebreus assinalavam a Pessach, porque também se iniciavam as ceifas da cevada.
A Páscoa dos cristãos é um tempo de renovação, um tempo novo.
Através da Sua paixão e morte na cruz, Cristo redimiu-nos dos pecados e das tentações.

Jesus é o novo Cordeiro imolado, que libertou do pecado e da morte todos as criaturas que crêem na Sua ressurreição.


 Domingo de Páscoa, o senhor vigário percorria as casas do vicentinos benzendo-as e dando o Senhor a beijar a todas as famílias.
Os moradores das Quintas e do Caldeira recebiam o Senhor segunda-feira de Páscoa, o Casal no dia da festa da Santa Bárbara.
A Cruz florida simbolizava a vida, a ressurreição do Senhor. Cristo está vivo.


Ovos


Azeitinho das oliveiras de São Vicente


Açúcar



Aguardente


Envolve-se tudo muito bem, até a massa ficar rala, mas consistente


O forno está a ficar “branquinho”


Eis o produto final: são bolos da Páscoa de São Vicente da Beira


Esquecidos


Bolos de leite

Não há nada de novo, é só acrescentar mais um ponto e a história renova-se.
Para além da aguardente, açúcar e azeite, os nossos bolos levam também canela, leite, fermento…
Olhem, uma Páscoa feliz para todos!

J.M.S.

terça-feira, 15 de março de 2016

Quadragésima

É entrudo
O povo diverte-se com tudo
Brinca à caqueira
Em São Vicente da Beira
A contra dança já lá vem
O arreda chocalhando, também
Joga-se a dinheiro,
Não sejas batoteiro
Lá vem a guarda
Não faz mal,
É carnaval

Ouçam: o entrudo estão chorando…

Não querem saber
Senhor Zé lendo um jornal
Não sabe escrever, nem ler.
Onde está o mal!

Onde está o mal!?
Tem o jornal ao contrário
Está armado em intelectual
É um pãozinho sem sal

Se vos apanho, velhacos
Faço o harmónio em cacos
Fujamos; ele traz na mão
Uma foice, ou um foição

Terminada a folia
O entrudo é enterrado
Era bom homem; coitado
Morreu cedo o desgraçado

Homem; és pó e a ele vais voltar
Acabou-se a folia
Jejua todo o dia
É a penitência que te vou dar

No terceiro domingo da quaresma…

Os irmãos franciscanos
Fazem a procissão penitencial
Participa gente de muito local,
Não se faz todos os anos

Há medida que cada andor vai saindo
Um pregador faz um pequeno sermão
É um frade da Ordem, um irmão
Depois, pelas ruas vão seguindo
Senhor Deus misericórdia…

Na igreja do Santo Cristo toca o sino
Chama o povo para a oração
Os garotos levam archotes na mão
Canta-se e reza-se ao Divino

Senhor Deus misericórdia…

Os martírios são cantados
Na praça junto ao pelourinho
Tudo muito afinadinho
Senhor, perdoa nossos pecados

Às almas do purgatório vamos rezar
Para que subam ao céu sem demora
Rezemos um Pai Nosso agora
Para que deixem de expiar

Senhor Deus misericórdia…

Hossana rei dos judeus
Grandes ramos enchem a igreja
Para que Jesus veja
Hossana, Senhor… adeus

Na quinte feira seguinte…

És o rei dos judeus! Diz-me por favor
Tu é que estás afirmando
Eis o homem… e o povo gritando
Cruxifica-O, é um impostor

Sexta- feira, às duas horas…

O Senhor dos Paços já lá vem
Com seu manto arroxeado
Com um madeiro mui pesado
Eis o apóstolo João e Sua Mãe

Com um pano que traz na mão
A Verónica limpa Seu rosto sagrado
O povo crente reza ajoelhado
E a banda toca a paixão

Seguem a caminho da crucificação
No calvário no madeiro é pregado
Para nos salvar do pecado
Perdão Senhor; és a nossa salvação

À noite realiza-se mais uma procissão
Num esquife amortalhado
Com um pano preto tapado
Vai o Senhor do caixão

Bendito e louvado seja
Cristo Salvador e Redentor
Morreu na cruz por nosso amor
Amen; assim seja

Aleluia; aleluia, Cristo regressou
A paz esteja com todos vós
Alegria, o Senhor vela por nós
Ao terceiro dia ressuscitou


Zé da Villa

domingo, 13 de março de 2016

Cantar os Martírios

Para além das Novenas, Ladainhas, e Via Sacras, cantar os Martírios também fazia parte dos rituais religiosos próprios da Quaresma em muitas regiões do País, sobretudo em muitas aldeias da Beira.
Os cânticos eram compostos por várias quadras que lembravam a Paixão de Jesus Cristo, pediam pelos mortos e o perdão para os pecadores; mas não eram iguais em todas as terras, nem nas letras, nem nos dias em que eram cantados, nem nos participantes.
Na nossa terra parece que a tradição era serem cantados todas as sextas feiras da Quaresma, no escuro da noite, quando já toda a gente dormia. Tinham que ser vozes bem afinadas e fortes como as da ti Janja, da ti Aurélia, da Céu Parrita ou da ti Mari da Luz da Glória (informação da ti Lurdes Barroso) para conseguirem dar as voltas precisas e fazerem-se ouvir ao longe.
Entre muitas que se terão perdido, as quadras eram estas:

O Vosso Sagrado Nome
É Jesus de Nazaré
Quero viver e morrer
Pela Vossa santa fé.

Vossos divinos cabelos
Foram em sangue ensopados
Sangue que veio remir-nos
Dos nossos feios pecados

Quem me dera estar na fonte
Quando o Senhor pediu água
Eu lhe dava de beber
Dava-lhe até a minha alma

Na vossa santa cabeça
Coroa de espinhos cravaram
Por entre dores incríveis
Fontes de sangue emanaram

Ó almas que tendes sede,
Vinde ao calvário beber
O Senhor tem cinco fontes
Todas cinco a correr

Ó almas que estais dormindo,
Nesse sono tão profundo
Rezemos um Padre Nosso
P’las almas do outro mundo.

(Recolha do Rancho Folclórico Vicentino)

À semelhança do que aconteceu em muitas localidades onde estas tradições quaresmais eram praticadas com grande fé há muitos anos, também na nossa terra muitos destes rituais se perderam. As razões são várias e não vale a pena enumerá-las mais uma vez.
Felizmente, o nosso Rancho este ano tomou em mãos a sua recuperação e, embora sem a frequência de outros tempos, já fizeram a Ladainha algumas vezes e na última sexta-feira cantaram os Martírios.


Começaram na Praça, junto ao Pelourinho, e depois em vários dos cruzamentos da terra.


No cruzamento ao cimo da rua da Costa, apareceu o tio Zé Candeias que se juntou ao grupo. Já tem uma voz fraquinha, mas sabe as quadras na ponta da língua.
- Então não havia de me lembrar? Cantei-as tantas vezes, eu mais o Zé Ramalho e o João Afonso, no cimo da varanda mais alta da casa Cunha! Cantávamos tão alto que se ouvia por todo o lado!
Pelos vistos, não eram apenas as mulheres que antigamente cantavam os martírios cá na terra e, com o tio Zé Candeias, manteve-se também agora tradição.

M. L. Ferreira

sábado, 23 de abril de 2011

Jejuns e gulodices

No passado sábado, véspera de Domingo de Ramos, passei por três tratores a carregar ramos secos de pinheiro, no curto espaço entre o Carvalhal Redondo e o Caldeira. A lenha é, certamente, para os bolos e os doces da Páscoa, com que tradicionalmente se quebra o longo jejum da Quaresma.
O Domingo Gordo, domingo anterior ao Carnaval, foi a penúltima etapa antes dos sacrifícios. Costumava-se comer o rabo do porco, na salgadeira desde a matação. No tempo em que os porcos ainda comiam comida de gente (hortaliças, botelhas, beterrabas, farelos, lavadura da loiça dos donos…), o rabo do porco era uma das partes mais saborosas do dito. Claro que não era só o rabo, mas toda a zona envolvente ao cu, incluindo a ponta final da espinha. A água em que era cozido fazia uma sopa de estalo e depois acompanhava com feijão grande. E nem pensar em deitar fora o toucinho, porque gordura e febra era tudo uma delícia! (Quando eu era criança, nos anos 60, contava-se, na Vila, que o Doutor Alves aconselhara alguém a dar couves ao porco, para a carne ter mais sabor, sem ser muito gorda.)
Dois dias depois era o Carnaval, a despedida dos prazeres. Há dois anos, quando escrevi sobre as nossas tradições carnavalescas, não liguei ao arroz-doce referido no trabalho da minha irmã Isabel, em que me tenho apoiado nestas tradições. Não liguei, porque aquilo não me dizia nada: nem gosto especialmente de arroz-doce, nem era muito habitual fazê-lo na casa dos meus pais.
Ora, no ano passado, oito dias antes da Feria de Gastronomia, o Presidente da Junta, eu e a minha tia Eulália (Teodoro e Jerónimo) fomos entrevistados para a Rádio Cova da Beira. Ao ouvir a entrevista da Tia Eulália é que percebi toda a importância do arroz-doce nos rituais iniciais do ciclo quaresmal. Na casa dos meus avós paternos, onde tanta coisa faltava nesses anos 40 e 50 do século XX, nunca a minha avó Rosário deixava de fazer o arroz-doce, para toda a família comer e consolada entrar no jejum da Quaresma.
As semanas iam-se sucedendo e, chegados à Quinta-Feira Santa, nem couves se podiam comer, pois nelas estivera escondida a Sagrada Família, fugida dos soldados de Herodes. No dia seguinte, não se trabalhava. Era dia de luto total. Recordo-me de que, na Semana Santa, toda a gente se confessava e comungava, praticamente sem exceções. E nesses tempos comungava-se em jejum, mesmo que a missa fosse ao meio dia, como era costume. Um dia, o meu avô Francisco tocou com o pão na boca, ao levantar-se de madrugada e, antes de comungar, contou o sucedido ao senhor Vigário, para ele lhe autorizar a comunhão.
Cristo ficava morto durante todo o dia de sábado e nós aproveitávamos para fazer bolos e doces. À meia-noite, era a missa da Aleluia, Cristo ressuscitava e o povo desforrava-se de semanas de tristeza e jejuns: as Boas-Festas, os bolos, os tremoços, o convívio com os amigos e familiares e depois as romarias. Entrava-se numa nova etapa, o ciclo Pascal, em que se festejava a vida.
Se me virem por aí, já sabem: a minha preferência vai para uma fatia de bolo da Páscoa coberta com uma talhada do mesmo tamanho de queijo fresco caseiro (o do circuito comercial tem um aditivo que o torna amargo, sem o sabor adocicado do leite).

Alguns artigos relacionados:
“Os Martírios”, de 1 de abril de 2010
“Procissão do Enterro”, de 3 de abril de 2010
“Tradições de Carnaval”, de 13 de Fevereiro de 2010
“A Ladainha”, de 12 de abril de 2009
“Doçaria pascal”, de 5 de abril de 2009
“Tradições da Páscoa”, de 28 de março de 2009

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Procissão do Enterro

É hoje à noite.
Estes vídeos não têm grande qualidade, mas ajudam a matar saudades a quem está longe.
São da procissão do ano passado. Nos últimos anos, desliga-se a iluminação pública, para uma melhor reconstituição da tradição.





Nota: Filmagens da Filipa Teodoro

domingo, 13 de março de 2011

Procissão dos Terceiros


A Ordem Terceira de São Francisco, a Paróquia, a Santa Casa da Misericórdia e a Junta de Freguesia uniram esforços e vão realizar a Procissão do Terceiros, no dia 3 de Abril.
As fotos que se seguem são da procissão de 1967, data em que o Padre António Branco, recém-chegado a S. Vicente da Beira (1965), mobilizou a comunidade e restaurou a antiga Procissão do Terceiros. O fotógrafo é desconhecido e as fotos não estão datadas, mas só podem ser da procissão de 1967, pelo aspeto de muitas pessoas que se conseguem identificar, sobretudo das três jovens, à esquerda, na foto acima apresentada.




As palavras do P.e Branco, publicadas no jornal Pelourinho, n.º 76, de Março de 1967:
«A piedosa procissão saiu da capela de S. Francisco, junto ao Calvário, e percorreu as principais ruas da Vila. Foram necessários 52 homens para transportar os 13 andores que seguiram por esta ordem:
Paraíso Terreal (S. Miguel Arcanjo, Árvore do Bem e do Mal, Eva e a Serpente); Senhor Jesus dos Passos; Igreja de Roma com S. Francisco e S. Domingos; S Francisco entregando o hábito a Santa Bona, a pioneira dos Terceiros Franciscanos; S. Ivo; S. Luís - Rei de França; Santo Padre Inocêncio III (o Papa que, em 1210, aprovou a Ordem de S. Francisco, entregando a bula àquele santo); Santa Rosa Viterbo; Santa Clara; Santa Isabel, rainha de Portugal; S. Francisco de Assis recebendo as cinco chagas; Santo António de Lisboa; N.ª Sr.ª da Conceição, rainha da Ordem Terceira.»





Nota 1: As fotos são propriedade do Pedro Gama Inácio e foram tratadas pelo Carlos Matos, responsável pelo design e coordenação gráfica do livro sobre o Padre Branco.
Nota 2: A citação do "Pelourinho" e as fotos constam das páginas 58 e 59 do livro "Uma vida em construção - Homenagem ao Padre António Branco", de José Teodoro Prata, editado pela Fábrica da Igreja Paroquial de S. Vicente e à venda na mesma Igreja.