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quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

O alacrário (1)

Naquela época, para regar, minavam-se os morros ou as barrocas próximas das hortas, a fim de procurar a tão preciosa água para a fertilização dos solos. Se a fazenda fosse do próprio. Se não fosse, e a trouxesse de renda ou ao terço, a tarefa competiria ao dono. Às vezes, a água era repartida pelos dias da semana, conforme os usos, com os vizinhos dos terrenos contíguos.
Na Beira predominava o minifúndio. À roda da vila, de acordo com a orografia, a maioria das terras de cultivo dispunha-se em socalcos. Que se sustentavam por paredes suficientemente altas e grossas de pedra de granito ou xisto, conforme a que mais abundasse no local. Por forma a compor os leirões. Se fosse para a serra, a descambar para nascente, era o granito. Já, na vertente norte e a poente, para a Devesa, a caminhar para a Charneca, o xisto é que punha lei.  
Surribavam-se na horizontal, oito ou dez metros ou mais. A boca da mina ficava à face do cômoro do cerro ou da parede que segurava o terreno. Fazia-se aí, até meio, um muro de retenção da água. Por baixo, passava um bueiro, onde era colocada, na parte de dentro, uma tranca para o despejo.
O regime pluvioso era, na altura, rico. E a profundidade da escavação variava, conforme a proximidade da nascente, de acordo com a veia de água e humidade do terreno! Tanto podia estar à babugem, como a metros de distância. Era preciso procurá-la!
— Ó Manel! Ó Alfredo! Cavem aí nesse cabeço, para lá, sempre a direito, até dar água! — dizia ti’ Fecisco Abelha para os filhos, depois de escolher um local que lá lhe parecia adequado.
O nome “Abelha” circulava, somente, entre alguns dos membros da família, como uma mangação inocente. O ti’ Fecisco, por vezes, exasperava-se, por uma qualquer razão, mais ou menos tangível. O que acontecia, não por razões de caráter iroso, que, esse, não era o seu. Mas apenas por simples excessos de impaciência, repentinos e curtos. Soltava, nessas ocasiões, uns silvos, “zzii, zzii”, semelhantes ao zumbido de uma abelha ou de uma vespa, se algum destes insetos nos passava a rasar as orelhas! Não se dava muito pelas exaltações do bom do homem. Pois não produzia sons audíveis. Percebiam-se apenas aquelas sibilações. E um nadinha de gaguez que lhe provocava, nessas ocasiões, a desordem mental! Mas, rapidamente, ti’ Fecisco retornava ao seu equilíbrio e normalidade. No mais, era boa pessoa, magnânimo, e de muita convivência com o seu semelhante.
A ordem que dera aos filhos para escavarem no local que lhes indicara, fora o ponto de partida para começar a mina do Cerro Velho. Um pequeno escolho de terreno pedregoso, de rocha negra e miúda, na sua fazenda do Monte do Gaio. Esta mina possibilitava o alargamento da regadia aos leirões cimeiros. Dela também se abastecia a casa, para beber e cozinhar. A água que dava, porém, não era suficiente para tudo! Mais abaixo, havia outras minas. Que, com o auxílio de chaboucos, irrigavam os terrenos inferiores.  
Já tinha entrado o verão. Os seus filhos do meio, jovens já maduros, peitos para fora, embezerrados de suor, ao timbre da voz forte do pai atiravam-se à labuta que nem gato toirão a coelho! Não se discutia a ordem de um pai, como não se discutia a de um juiz!
— Eh! Meu pai, não se enfade! Vamos já começar a cavar, a ver se aí dá nascente! — diziam eles, solícitos, mesmo que, por dentro, não lhes quadrasse lá muito bem aquela imposição paterna.
Se calhar, aquilo era demais!
— Que diabo de vida esta! — comentavam, baixinho, entre si. — Não há meio de chegarmos ao domingo para podermos ir beber meio quartilho na taberna do Manco. Ou dar um bate-pé no bailarico, à esquina do Largo Grande, a toque de realejo!
Além daquela mina já tinham feito outras. E alguns poços. Nesta fazenda do Monte do Gaio e noutras que os pais tinham de seu! Eram serviçais e obedientes, mas aquele trabalho era violento! Às vezes desanimavam!
Faziam-se muitos outros trabalhos nas terras. Lavravam-se as leiras com a junta de bois. Colhia-se a azeitona. Vindimava-se. Podavam-se as árvores. Semeavam-se as batatas, as hortícolas e os cereais de trigo, milho e centeio. Apascentava-se o gado. Ceifava-se. Faziam-se os rolheiros, com molhos de palha e feno, para o inverno. Regava-se a horta e o milho no verão. Ia-se à lenha. Metia-se mato na cama do gado. Tirava-se o estrume!
Mas lá trabalhar nas minas e nos poços, essa era uma empreitada levada do diabo! Chegava a haver contendas, porque, a uns, os mais novos, o pai mandava a regar ou a guardar as cabras e a outros a escavar a mina ou abrir o poço! Até parece que tinha preferências entre os filhos, condenando uns e premiando outros!
— Eh! Meu pai, porque é que o nosso Jaquim e o nosso João, vão sempre a regar ou guardar as cabras e nunca vêm trabalhar para a mina?! Quando é que nos calha a nós ir regar e pastorear e a eles virem para aqui surribar?! — reclamavam.
E é verdade que aqueles a quem encarregava de regar ou guardar gado era como se os mandasse para o Albergue da Mitra. Eram trabalhos muito mais leves! Nada semelhantes em cansaço e esforço! 
O que ia regar era só abanar a tranca da presa, com um solavanco. E deixar correr a água pelo bueiro, a meio rego, para que a levada não fosse muito vigorosa. Pois, se o fosse, levava, à frente, os tornadouros! Ficava, depois, em pé, encostado ao sacho, de costa direita, a vigiar a água a marear no renovo. E punha-se, depois, a assobiar ou trautear uma canção!
O outro, o que ia apascentar, soltava o gado. Limitava-se a segui-lo e a vigiá-lo até ao mato ou ao pasto. Entretinha-se, depois, a fazer um pífaro de cana. Ou a gravar uns desenhos no cajado, com a navalha que trazia sempre no bolso. E que manejava muito bem. Fosse para cortar o toucinho em cima da broa, à merenda. Fosse para fazer aqueles artefactos. 
Guardar gado e regar, esses é que eram dois trabalhinhos que nem duas minas! Mas de oiro! De boa vida!
— Calem-se, rapazes, que esses vossos irmãos ainda não têm corpo e ossos bem formados para aguentar esse trabalho! Há de chegar a vez deles! Haja concórdia e boa razão! E quem não tem olhos que os abra!
Tinham que se calar! As coisas eram assim, até se tornarem autónomos e casarem! Se vinham da tropa e eram mais serôdios e não casavam logo, continuavam a trabalhar na casa paterna. Que os laços daquelas famílias eram deveras agregadores!
Mas, nos protestos, nunca se atreviam a reclamar dos trabalhos desempenhados pelos irmãos mais velhos. A idade era um posto. Na tropa, como em casa! A autoridade dos anos, colocava-os próximo do poder do pai, que coadjuvavam. Faziam trabalhos menos pesados, é certo, mas de muito maior responsabilidade. Os que tinham umas letras, iam a Castelo Branco pagar a décima e tirar as licenças. Ou ao Fundão, escolher e comprar a batata de sementeira e adquirir as ferramentas necessárias para o trabalho. Pelo S. Miguel, iam mercadejar e trocar algum gado. Ou vender um ou outro saco de semente de pinho bravo. Assim, o ti’ Abelha, gerindo tensões, pondo regras e dirimindo conflitos entre os filhos, conseguia a desejada harmonia. O que, numa família grande, nem sempre era fácil!
Todo o labor a revolver a terra à procura de água, era a pulso, de picareta em punho e padiola na mão, ou a balde, a derrear os braços! Se fosse de verão, dormiam na fazenda, chegados a um dos lados da casa. Onde armavam catres em madeira, sobrepostos, dois a dois, a partir de meio metro do chão térreo. Separavam-nos por divisórias com paredes de ripa, carqueja e barro amassado. Sobre eles, punham colchões de palha centeia. Tudo aquilo, já se vê, não era muito confortável. E aí é que eram elas, com a moinha do corpo do trabalho da mina! Mas tudo passava. Eles eram jovens encorpados. Tinha que passar! De manhã, ainda de madrugada, estavam prontos para outra!
  
No geral, tudo era fartura de água! Mas o certo é que, de vez em quando, também havia secas. Mais raras, mas havia! E das grandes! Verões abrasadores de estiolar e calcinar tudo! A terra ficava feita em pó! Conquanto que as enormes e longas invernias que alagavam tudo, fossem muito mais comuns!
Muito calor e muito frio! Era assim a diversidade da Natureza, a desafiar a bazófia dos homens que tudo julgam saber! Ou seria o Diabo a querer trocar as voltas aos desígnios de Deus! Sabe-se lá! O mal, às vezes, parece que quer vencer, mas o bem acaba por triunfar! E a bonança retorna sempre ao seu lugar, trazendo equilíbrio ao mundo! Porque Deus Super Omnia!
As agruras do tempo, porém, parecia que queriam arrancar a samarra a quem andava nos trabalhos penosos do campo! Mãos engadanhadas e dedos retorcidos do frio, no inverno! Suor a escorrer, às bagas, pelas costas abaixo, com a camisa ensopada, no verão! Com um calor abafado, de faltar o ar!
Ti’ Fecisco Abelha dizia, muitas vezes, na roda de amigos, meio a brincar, mas sabendo que o caso era sério, na bondade da sua rudeza, moldada por uma vida de canseiras:
— O bicho homem é avesso a extremos! Não há senso nestes tempos! Isto até parece obra do sacana do Barzabu(1), a retorcer-se, quando a luz da espada do Arcanjo Miguel lhe atravessa a crusta!   
Manel e Alfredo, às ordens do pai, um tanto às cegas e, a muito penar, lá acabaram de escavar, quanto bastava. Primeiro, deram com uma pequena nascente. Parecia que vinha um pouco a medo. Depois, cavaram mais um bocado e começou a dar boa água! Finalmente tinham acabado a mina!
A certa profundidade, três dos irmãos mais velhos deixavam outros afazeres e iam ajudar. Uns a meter escoras para suster a terra e as pedras, não fosse haver uma avalanche que os soterrasse a todos! Outros a martelar, lá no fundo, de marreta e guilhos na mão! 
Ao todo, estavam em casa, ainda solteiros, sete rapazes e duas raparigas.
Mas quantas vezes os trabalhos terminavam em vão! Fosse porque apanhavam um veio de pedra rija, intransponível, que impedia o avanço e não pagava a pena recorrer a tiros de pólvora. Fosse porque, depois de muito vasculhar a terra, em certos sítios mais secos, a nascente teimava em não aparecer!
Se não se encontrava água, o pai, descoroçoado, mandava arrasar tudo!
— Ai o raio da mina de um ladrão que não me dá água nenhuma! Tanto prejuízo, em trabalho, que esta alma do diabo me levou! — lamentava-se Abelha. — Isto é que este damonho me espetou uma cria! Hã!
Muitas vezes não se tinha sorte! Era só isso! Porque, nessas coisas de vedores ou radiestesistas, ou lá como lhe chamavam, o ti’ Fecisco Abelha, nunca, por nunca ser, acreditou!
Desta vez, acertara! A mina dava água que bonda! Era mais um ponto de frescura na paisagem árida do verão! Na sua humidade obscura, balsâmica, podia-se esfriar um pouco da calmaria. Lavava-se a cara ardente. Matava-se a sede na água frígida, de fazer doer os dentes! Porque, em redor, na modorra das tardes tórridas, apenas o canto estonteante da cigarra, atravessava, devagar, o ar a estalar da canícula!

Os anos foram passando! Os filhos tiveram filhos! Renovaram-se gerações! Ao tempo, os netos mais pequenos acompanhavam, muitas vezes, os avós na vida do campo. Fosse porque os pais tinham outros compromissos, fosse porque não se encontrava uma tia ou mesmo uma vizinha que tomasse conta deles. No verão, mesmo se já frequentassem a escola, gozavam as férias grandes! Iam às ceifas, às debulhas, às regas!
Eram os primeiros contactos com a terra e a água. Com o calor e a fresquidão. Com a palha seca dos cereais prontos a ceifar ou com o verde das ervilhas, dos feijoeiros ou das alfaces. Com o tempo bom, sempre espinoteavam mais! Amiúde lhes apetecia deitarem-se na terra molhada, à sombra do milho, a refrescar! Ou brincar às represas! E lançar, na levada, pequenos barcos de papel! Ou de corcódea de pinheiro, aparelhados a canivete!
Um dia, no verão, no Monte do Gaio, de boas e férteis áreas de cultivo, ótimas hortícolas, frescor extravasante, era já tarde, tardinha!
Ti’ Felismina dos Casais, avó, como todas, babada dos seus netos, regava. Mesmo ao fundo, junto à parede que dava para o leirão de baixo! Era vital para as couves, as nabiças, as alfaces e outros produtos verdes, necessários, dia a dia, na mesa da família. Mas havia também batatas e milho do alto. A rega demorava um bom pedaço!
Ti’ Felismina, era uma mulher de bondade angélica, de alegria permanente e galhofeira. Corria pelos Casais que nunca ninguém a vira zangada! Tinha o dom da piada fácil, simples e irónica. Contrastava, em parte do seu modo de ser, com o marido, o ti’ Fecisco Abelha, de quem já se falou, com quem era casada há longos anos.
Àquela hora estava já mais fresco nas terras baixas, junto ao pequeno ribeiro que ali passava. Onde havia água corrente, apenas até ao mês de março! Daí, a necessidade de explorar pontos de captação. A prática era corrente em todas as fazendas cultivadas. Exceto nos lameiros, junto à ribeira, onde marinhava todo o ano! Por isso ti’ Abelha abrira outra mina. A mina do Cerro Velho. Era com a água dessa mina que a avó regava, naquele dia. Tão santamente como de costume!
A tarde já era curta, mas, no verão, daí até à noite, era ainda um dia de inverno! A rega tinham que ser feita com o sol a descair para o Ocaso. Assim, a terra conservava por mais tempo a frescura deixada pela água. Que não se dissipava tão rapidamente com o calor!
Tinham ido com a avó, naquele dia, ao Monte do Gaio, dois dos netos mais novos. Eram dois rapazes, primos direitos entre si e ainda crianças. Andariam pelos seus sete anos. Enquanto ela fazia a rega, tão distraída e compenetradamente como sempre, os netos tinham-se entretido, na brincadeira, perto da boca da mina, à saída para o primeiro tornadouro. No ponto onde estavam, achavam-se encobertos pelas couves e nabiças da horta e, sobretudo, pelo milho alto, que os ultrapassava, em altura, uns bons vinte centímetros! De modo que, a avó não os via. E eles apenas a divisavam, espreitando por entre as caneiras do milho!
Dizia-se que a velhacaria nascia quando se completavam os sete anos! Terminava aí o estado da inocência. Embora isso não se soubesse. Pois esse podia ser um daqueles pontos inacessíveis em que o enigma do homem permanecia. À falta de meças, porém, aceitava-se essa idade, como convenção, para se responsabilizarem os jovens, em certos termos, perante Deus e os homens. Com sete anos se entrava para a escola. Com sete anos se supunha mais credível o testemunho em tribunal. Com sete anos se fazia a primeira comunhão. Em suma, aos sete anos se presumia que se podia distinguir o bem e mal!
Mas, lá dizia o ditado, “Com a canalha, nem o Diabo quis nada!”. Os adágios populares encerravam sempre uma verdade. Era a verdade da observação coletiva, da “vox populi, vox Dei”. Com a faculdade da razão, do arbítrio e da escolha, entre o bem e o mal, a canalha escolhia quase sempre o mal! Nunca lhe dava para o bem. Só fazia asneiras e cometia tropelias! O provérbio parecia, portanto, confirmá-lo!  
Tudo isso aparentava ser muito acertado. Mas talvez não fosse assim tão pacífico. Se bem se procurasse, para cada aforismo, não raramente se encontrava o seu contrário. Por outra banda, nem sempre a opinião geral traduz toda a verdade. A virtude estaria, algures ali pelo meio. Dizia-o o bom senso!
Os dois cachopos, os netos da ti’ Felismina dos Casais, não eram, nem mais, nem menos, que os outros. Praticavam, como, afinal, todas as crianças, a suas boas e más ações. Nos folguedos, punham as mães ou as avós em alvoroço, quando partiam as cabeças ou esfolavam os joelhos dos trambolhões, nas pedras da calçada velha! Mas, à noite, as correrias acabavam! Ao colo da mãe ou da avó, na paz do lar, o carinho e as momices retornavam!

Desta vez, porém, os dois garotos, tinham congeminado ludibriar a avó que fazia a rega ao fundo do leirão da mina. Os marotos, pensaram, imagine-se, em cortar-lhe a água! Para o que bastava mudar o tornadouro, logo ao início da regadia! Desviando o curso da regueira para o lado oposto ao terreno em que a avó regava. Quando esta desse pelo logro, já não teria água! O que, sem dúvida, não deixava de ser um mistério! Pois, pelo tempo decorrido e pelo terreno já regado — pensaria ela — ainda a mina haveria ter muita água! Mas, então, já os malandros estariam lá para diante, escondidos atrás de uma moita, a rir-se da tramoia! E a ver, de longe, a avó andar à nora, a procurar saber a razão do sucedido!
A maldade premeditada é sempre a pior. Porque é traiçoeira e insidiosa. Mas, nem por ser planeada, se conseguia, sempre, levar ao seu termo. Nada do que os dois mariolas conjeturaram foi concretizado!
É que, sobre o tornadouro da água que os dois tratantes tinham decidido desviar à sua avó, encontrava-se uma pedra. Era uma maneira de o reforçar. Por forma a que, a corrente, por vezes mais forte, não o destruísse e se desencaminhasse a água! O que levaria à sua dispersão pelo terreno, tornando impossível direcioná-la para o local desejado. Para cortar a água era, pois, necessário remover a pedra! Se os dois rapazes lhe pegassem, um de cada lado, seria possível deslocarem-na. A terra, por baixo da pedra, essa, seria de fácil remoção, apenas com as mãos ou com a ajuda da lasca de xisto rijo, que, para o efeito já tinham arranjado!
A irreverência, a exaltação e, pior, a falta de simplicidade, levam muitas vezes à perdição. Nas palavras que se seguem, podia ver-se o cúmulo da vaidade de um traquina:
— Deixa, primo, que eu, sozinho, sou capaz de tirar a pedra! — disse um dos mariolas para o outro, ufano da sua importância!
Então, enquanto o primo assistia, fletiu-se sobre o tornadouro. Procurou assentar melhor os pés, em terreno fixo. Esticou os braços e meteu os dedos, por baixo, em cada lado da pedra, o mais que pôde. Tanto quanto alcançavam as suas pequenas mãos. E fixou-os no vinco, mais fixe, que conseguiu tatear. Firmou-se, esforçou-se e ainda conseguiu demovê-la um pouco! De repente, porém, num ato instantâneo e reflexo, como alguém que sente uma repelência abjeta, aguda, viu-se o rapaz largar a pedra e pôr-se aos gritos, com o primo estático e boquiaberto:
— Ai, ai! Ai, ai!
Um escorpião que, por baixo da pedra, se sentira importunado na sua toca, mordera-o na mão, ferrando-o a bom ferrar! Ainda o tinham visto, de raspão, a fugir e a meter-se pelo meio das ervas! Só então o primo percebeu o que acontecera! Mas a perplexidade e o desassossego gerados, permitiram que a repugnante criatura fosse, ligeira, à sua vida, incólume e sem punição!
— Ai, ai! Ai, ai!
Aos brados do neto, acudiu prontamente a avó, acordada da quietude com que regava a horta! Inteirou-se do que se passara. E, calma e carinhosamente, como era seu timbre, tentou acalmá-lo. Passando com as suas mãos por cima da mão mordida da criança chorosa.  
— Onde é que te dói, meu filho?!
As palavras ajudam sempre o espírito, mas não aliviam a intensidade da dor!
— É aqui, avó! — apontava o menino, na sua mão, o sítio da mordedura.
— Mas não se vê cá nada, meu amor!
— Pois não, avó, mas dói-me! Ai! Ai!
É verdade que quase não se dá pelo local de certas picadas. Não fazem sangue! Mas doem! Não havia forma de consolá-lo! E fossem lá falar agora de remédios! No Monte do Gaio não era lugar para essas coisas! A farmácia situava-se na vila, longe, e já eram horas de estar fechada. Os remédios eram caros!
Os pais e avós do tempo, eram avessos a remédios. Salvavam, porém, a face, sendo engenhosos. A isso obrigava a necessidade. Tinham as suas mezinhas. Sabiam que os seus métodos em pouco ou nada atenuavam o sofrimento. Mas sempre era um gesto para enganar a mente do enfermo. Nada fazer, seria pior. Então, a avó, pôs sobre a mão doente do neto uma folha de couve. Talvez o distraísse com a suavidade fresca do vegetal. Quando a couve aquecia em contacto com o a mão, tirava-a e punha outra. Como isso não tivesse surtido efeito, meteu-lhe a mão na água. Mas, isso, arrefeceu-lha e não lhe tirou a dor. Estava à vista, que, mais ou menos calor ou frio, nenhum lenitivo trazia. Depois, pôs-lhe um pedaço de lama de terra argilosa. Diziam que fazia muito bem às picadas das vespas. Podia ser que resultasse com a picada de alacrário.
Após as primeiras horas, não era que o sofrimento fosse menor, mas a criança já se acomodara um pouco. Depois do choque inicial, passou a existir uma espécie de previsibilidade na dor. O corpo do jovem arranjara resistências naturais, como acontece com todos os organismos, perante a ofensa e adversidade do meio. O moço entrou, então, numa lengalenga magoada, “ai! ai! ai!”, prolongada e monocórdica. Era o início de uma via- sacra!
Chegava quase a noite quando regressaram a casa. A avó tentou, em vão, adormecer o neto. Como os outros remédios não tivessem logrado produzir o desejado abrandamento da dor, ainda lhe pôs manteiga na picada. Procurava tranquilizá-lo, nem que fosse, por sugestão, mais uma vez. Nada! A dolorida cantilena do rapaz, que, sem adormecer, apenas semicerrava, às vezes, olhos, vencido pelo cansaço, prolongou-se pela noite fora, “ai! ai! ai!”!
Já o dia seguinte ia alto quando a dor o deixou. E pôde, finalmente, descansar!
Mas a ti’ Felismina dos Casais nunca veio a saber da trapaça que os netos lhe haviam preparado, naquele dia, no Monte do Gaio. Afinal, a água da rega não chegara a ser cortada!
E se os remédios caseiros daquela avó não tinham surtido qualquer efeito, a sua paciência, essa, era infinita!

Notas: (1) Escorpião, Lacrau.  
(2) Belzebu, Demónio.  
Obs.: Neste texto podem ter sido utilizados termos locais ou regionais que não constam dos dicionários oficiais.

José Barroso

sábado, 8 de julho de 2017

D. Sancho I

Os sinos do mosteiro de Santa Cruz dobram, dentro do templo encontra-se uma urna que contém o cadáver do rei Sancho I de Portugal, colocada em cima de uma essa ricamente ornada, ladeada por seis tocheiros, três de cada lado.
  Frades agostinianos com seus hábitos negros cantam em cantochão salmos fúnebres, imploram ao Senhor o perdão dos seus pecados e receba sua alma na morada eterna do Céu
  O largo fronteiro ao mosteiro está apinhado de gente que reza e chora a morte do bom rei. Sofria de uma doença terrível que grassava em Portugal e em toda a Europa, a lepra.
  Não poupava ninguém, pobre ou rico.
  D. Sancho I morreu desse terrível mal, a igreja considerava castigo de Deus.
  Findas as exéquias fúnebres, o cadáver foi colocada num mausoléu, perto do túmulo de seu pai D. Afonso Henriques.
  Tinha 56 anos quando naquele dia 26 de Março do ano 1211 entregou a alma ao Criador.
  A vida quotidiana decorria com normalidade em Sanctus Vincencii; os servos trabalhavam para os senhores, donos das melhores terras, alguns tinham que fazer corveio, que consistia em trabalhar gratuitamente um ou dois dias da semana para o senhor dono da terra, os que moravam nas Vinhas, na Fonte da Portela, eram livres de qualquer encargo perante o senhor feudal, dai haver alguns renitentes…
  Alguns dias após a morte do rei, um arauto entrou em Sanctus Vincencci, contactou os Homens Bons, estes, imediatamente mandaram tocar o sino da igreja.
  Mensageiro anunciou a todos os moradores o trágico desfecho.
O povo chorou amargamente a morte de D. Sancho, prior rezou ofícios divinos pela alma de sua majestade.
  Rei morto, rei posto; D. Afonso II seu filho, sucedeu-lhe no trono.
  D. Sancho nasceu no dia 11 de Novembro do ano 1154, ”dia de São Martinho”; por esse motivo deram-lhe o nome Martinho.  
  Henrique, seu irmão, “morreu criança”; por morte deste, o herdeiro da coroa passou a ser Martinho. Os nobres achavam que este nome não era o mais apropriado, passou a chamar-se Sancho Afonso.
  Casou D. Sancho I com Dª Dulce de Aragão no ano 1174 de quem teve dez filhos: D. Afonso; D. Pedro; D. Fernando; D. Henrique; D. Raimundo; D.ª Berengária, que foi rainha da Dinamarca; D.ª Branca e as beatas Teresa; Mafalda e Sancha.
 Para além dos filhos legítimos D. Sancho teve alguns filhos naturais: D. Martim Sanches e D.ª Urraca Sanches; filhos de D.ª Maria Aires de Fornelos.
  De D.ª Maria Pais Ribeira teve seis filhos: D. Rodrigo; D. Gil; D. Nuno; D. Maior; D.ª Constança; D.ª Teresa.

  O campo, nomeadamente as Vinhas, Fonte da Portela, eram lugares onde ainda moravam muitas pessoas; certo dia, ouvem-se gritos aflitivos, vinham do lado da Oles.
  Fujam… vêm aí os sarracenos; matam e queimam tudo por onde passam!
  Pedro Afonso homem possante, valente, imediatamente reúne malados, peões, cavaleiros vilãos…armados de chuços, vão ao encontro dos sarracenos; estes vendo que não conseguiam vencer os habitantes das Vinhas e Fonte da Portela fugiram em direcção à campina dilatada de Vila Franca da Cardosa.
  D. Afonso I já tinha atribuído nome à nova povoação que se encontrava mais acima no sopé da serra, as brenhas, os ursos e outros animais por onde passavam devastavam… eram como o inimigo quando fazia algum fossado.
  Os moradores aos poucos foram deixando o campo, apesar de as terras serem mais fáceis de arrotear, as formigas e a falta de água, obrigava-os a deixarem suas cabanas.
  Os vizinhos, à medida que iam chegando a Sactus Vincencii, eram logo ajudados pelos que já lá moravam, todos juntos levantavam paredes e nascia mais uma casa; as mulheres pariam, o povo rezava na pequena igreja, até que um dia o rei D. Sancho querendo povoar o interior do reino convidou gente da Flandres, da Borgonha… a viverem em Portugal.
  Sanctus Vincencii, já era uma terra importante, o rei sempre preocupado com a governança, defendendo o comércio e fomentando a criação de riqueza atribui forais a muitas terras das beiras.
  Covilhã, 1186; Viseu, 1187; São Vicente 1195; Guarda 1199…
  D. Sancho I não se preocupou somente com a criação de concelhos atribuindo forais, também era meticuloso na administração dos dinheiros públicos, deixou muitos morabitinos nas arcas.
 
  Naquele dia pelas ruas da vila ouviam-se pandeiros, guizos, castanholas; eram dois jograis que anunciavam um folguedo no terreiro, vinham acompanhados por uma amásia e uma soldadeira.
  Saltério, viola de arco e outros instrumentos eram tocados pelos jograis, o povo acorreu em massa, as mulheres dançavam enquanto uma tocava o pandeiro e a outra, castanholas...
  O largo estava todo iluminado com archotes e banhado pela lua cheia; compareceram todos os moradores, que assistiram ao espectáculo com alegria.
     
A do mui bom parecer
mandou lo adufe tanger
louçana, d`amores moir`eu

  A hora ia adiantada, mas ainda houve tempo para ouvirem um jogral declamar uma trova da autoria do rei D. Sancho I; foi um grande protector de trovadores e jograis.
Vamos lá então:
Ai eu, coitada, como vivo em gram cuidado
Por meu amigo, que hei alongado!
Muito me tarda
O meu amigo na Guarda!

Ai eu, coitada, como vivo em gram desejo
Por meu amigo, que tarda e nem vejo!
Muito me tarda!
O meu amigo na Guarda!

  Quando os jograis deram por terminada a função, todos foram para a deita satisfeitos.

  Em nome da Santa e indivisa Trindade, Pai, Filho; Espírito Santo, ámen. Eu, rei Afonso, filho do rei Sancho, juntamente com minha mãe rainha Dulce, e ao mesmo tempo com G. Martins, prior de São Jorge e todo o seu convento e com frei João de Albergaria de Poiares, queremos restaurar e povoar o lugar de São Vicente, damos e concedemos o foro e costumes da cidade de Évora a todos, tanto presentes como futuros que lá quiserem habitar…
 (…) Se alguém quiser rasgar este facto nosso seja amaldiçoado de Deus.
Concedemos a todo o cristão, embora servo, desde que habite durante um ano em São Vicente, seja livre e ingénuo, ele e toda a sua progénie…

  Resumindo: uma vila do tempo da fundação de Portugal, e nunca houve ninguém que tenha atribuído o nome de uma rua, largo ou praça ao rei Sancho I ou erguer-lhe um busto. Nunca é tarde para corrigir…
Fiquem bem!

Notas:
Essa: Estrado onde se coloca o caixão com o cadáver durante as cerimónias fúnebres
Cantochão: Canto da igreja católica, canto gregoriano
Malado: Pessoa sujeita a encargos e serviços dos senhores feudais
Peão: Soldado de Infantaria; plebeu
Jogral: Músico
Amásia: Amante
Soldadeira: Mulher que serve por soldada, criada
Saltério: Instrumento musical de cordas
Louçana: Louçã
Hei alongado: Tenho ausente

Pesquisa:
História de Portugal, Fortunato de Almeida, Promoclube
Fotografia D. Sancho I, História de Portugal, Fortunato de Almeida, Promoclube
História da Literatura Portuguesa Ilustrada, Albino Forjaz de Sampaio, Livrarias Aillaud e Bertrand
Cantiga de amigo, (Ai eu, coitada…) História da Literatura Portuguesa Ilustrada, D. Carolina Michaelis de Vasconcelos

J.M.S

José Barroso

domingo, 11 de junho de 2017

Fé, ateísmo e proselitismo

Na sequência do texto sobre Fátima que há pouco tempo assinei neste blog, escrevo agora este outro, que pouco tem a ver com o primeiro. De alguma forma, porém, é, para mim, um aditamento clarificador. Mas, antes, duas advertências.
A primeira para dizer que respeito todos os que pensam de maneira diferente da minha. Este texto é, eventualmente, apenas, para confrontar ideias. E serviu de base para responder, noutra instância, a um amigo meu, que bastante prezo e que se assume como ateu (1).
A segunda, para pedir desculpa a muitos dos leitores que, certamente, acharão estes temas uma grande maçada! E com alguma razão! Mas, enfim, são poucas as vezes que aqui aparecem coisas destas. E acontece que sempre me inquietei com elas! Vá lá saber-se porquê! Ou talvez se saiba!...
Diz esse meu amigo, em consonância com as ideias que abraçou, que Deus não existe! Para se escorar nessa difícil posição (na verdade, o grau de dificuldade para provar que Deus existe ou que não existe, é o mesmo!), recorre, esse meu amigo, a argumentos de autores de vários quadrantes e sensibilidades. Todos próximos, porém, da sua orientação doutrinária. Entre eles, alguns que afirmam que os crentes são mesmo uma espécie de loucos! Mais comezinhamente, mas com idêntico conteúdo, li recentemente, algures numa revista, que Lúcia, uma das chamadas videntes de Fátima era uma doente mental.
Afirma ainda esse meu amigo que quer que o deixem em paz com todas essas embrulhadas da religião! Quer viver livre de todas as pressões e confusões do proselitismo (2), que os apaniguados das várias religiões têm cultivado ao longo dos séculos, para converter descrentes e pagãos. E tem esse direito!
Vamos ver se nos entendemos.
Apenas por via da razão e da lógica – instrumentos do nosso conhecimento – é claro que não se prova a existência de Deus. Pela mesma ordem de pensamento, não se comprova a Sua não existência. É mais ou menos o que afirma o agnosticismo (3) que diz, justamente, que Deus não pode ser conhecido porque – como Ser Absoluto - não é suscetível de ser sujeito a uma análise racional.   
Ora, é certo que a razão e a lógica são as bases da ciência, que constitui todo o património do nosso saber (conhecimento objetivo). Quer dizer, que pode ser explicado e que todos podem constatar. Mas já não são a origem de todo o conhecimento humano, mais vasto (conhecimento subjetivo). Isto é, aquele conhecimento que apenas cada um nós apreende, por si mesmo, que adquire pelas suas vivências e experiências ao longo das mais variadas situações da vida!
Ademais, sabemos que a ciência, que tanto fascina alguns e, na qual se reconhecem, efetivamente, enormes avanços, é, apesar disso, tão pequena que não nos dá as respostas mais óbvias aos nossos naturais e, por isso, tão expectáveis anseios.
Mas também é certo que quem se manifesta apenas pela fé, menosprezando, totalmente, a razão, pode cair na crendice. Veja-se a religiosidade popular, que, todavia, deve ser respeitada, se não for por adesão de opinião, que seja, ao menos, pela sinceridade das pessoas. É o que acontece em fenómenos como o de Fátima.
Igualmente, aqueles mesmos que atuam unicamente pela fé, podem também tornar-se doentes fanáticos. Pense-se, neste caso, nos que andam a cometer atos de terrorismo, matando dezenas de inocentes ou imagine-se o tempo da inquisição católica.
Por estas e por outras, como já se disse, alguns autores veem os crentes como loucos! Mas a fé é a única forma de respondermos às nossas grandes inquietações. O que carece é de ser esclarecida pela razão. Fé e razão, são, pois, dois elementos que fazem parte da nossa vida psíquica e não podem dissociar-se no ser humano.
A fé, tal como os amores, os ódios e tudo o que são emoções, faz parte do domínio do nosso irracional! Por sua vez, a razão, a lógica, o pensamento e os atos em geral, que usamos para governo da nossa vida, fazem parte do nosso racional! 
Receio, por isso, ter que dizer que ateus, agnósticos e descrentes em geral, também têm a sua fé! Pois, espero que, se nada lhes faltar, tenham também eles, como todos nós, a sua dimensão irracional! Se não têm fé em Deus, têm-na noutras coisas, entidades ou pessoas. E, se não em Deus, porque não O veem, manifestam-na nas suas paixões e arrebatamentos, em muitas situações da vida. Estados psíquicos esses, que eles também não conseguem clarificar! Portanto, sendo a fé a adesão ao que se considera absolutamente verdadeiro, logo, irracional, não pode, por isso mesmo, ser explicitada. Tal como os ateus e agnósticos (e todas as pessoas, afinal) não podem explicar a exaltação pela música do seu cantor preferido ou pelo seu clube de futebol! Têm apenas essa vivência! É como muitas vezes se diz de certo estado de alma: vive-se e pronto! Da mesma forma, a fé só pode ser experimentada pelo próprio.
E é, por consequência, a única forma de se poder chegar a uma outra verdade que não a científica, ainda que seja, por isso mesmo, uma verdade subjetiva. Mas que não deixa de ser uma verdade tendencialmente absoluta, ainda que válida apenas para quem a vive! Para essa pessoa essa é a sua verdade. 
Só para dar mais dois exemplos: como é que ateus e agnósticos (falo só deles, mas todos nós sabemos que assim é), podem explica o Amor (assim mesmo, com maiúscula) por uma mulher ou por um filho?! Eles bem sabem que não podem! Porque esses afetos, não só não têm valor económico, como não têm dimensão de qualquer outra natureza, que se possa dizer mensurável! Sabe-se apenas que tais vivências se aproximam do absoluto e, sendo assim, são tendencialmente impossíveis de entender. No entanto, existem e são bem reais!
Como se vê, todos possuímos a nossa face irracional! Por isso, quanto a saber quem são os loucos, como dizem certos autores, não é necessário pôr mais na carta, porque estamos conversados!
Os ateus, agnósticos e descrentes, quando se interrogam sobre o seu destino último, tomam uma atitude de conformismo ou de revolta perante a finitude física. Entretanto, vão admirando as maravilhas da ciência, mesmo sabendo da sua precaridade – como, debalde, fizeram todos os Cientismos. Ora, sendo a ciência passível de uma demonstração objetiva, acontece que os crentes, mesmo com uma pontinha de loucura (afinal, como todos os outros), também a compreendem. E ambos, crentes e não crentes, sabem, perfeitamente, que ela, sendo embora importante, não passa de uma verdade relativa. Mas só os segundos parece conformarem-se com esse relativismo e contentarem-se com essa meia verdade!
Relativamente ao proselitismo de que se queixa o tal meu amigo (pelo menos no que concerne ao Catolicismo), diz o Código de Direito Canónico, Cân. 748, § 2: “A ninguém é lícito coagir os homens a abraçar a fé católica contra a sua consciência.”. Também aqui, estamos conversados! 

Notas:
(1) Ateísmo: doutrina que nega a existência de Deus.
(2) Proselitismo: atividade que tem por missão angariar adeptos para determinada religião, partido, etc.
(3) Agnosticismo: doutrina que declara que a existência de Deus não é acessível ao espírito humano, por não ser passível de análise racional.


José Barroso

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Tempo de milagres

Os autores têm tentado, ao longo dos séculos, explicar o nosso mundo, quer material e físico, quer espiritual. A matéria, de certa forma, impõe-se-nos aos sentidos. O que não acontece com o mundo espiritual. Pese embora tudo não seja assim tão simples, vamos supor que é! E, assim, nada espanta que seja mais fácil explicar o primeiro que o segundo. Acreditar no mundo espiritual é mesmo, para muitos, uma impossibilidade. E essa é a maior razão, por que, talvez, metade da humanidade se diz descrente, ateia ou agnóstica. Mas vejamos: o que dizemos nós acerca do Amor, da Justiça, da Paixão ou da Beleza?! A nossa vida está carregada dessas vivências, desses sentimentos! E todos eles fazem parte do nosso mundo afetivo, emocional, irracional, numa palavra, espiritual. À nossa razão, mesmo com a sua dura lâmina e finíssimo corte, é vedado penetrar na Alma.

Tem isto a ver com uma pergunta que se julga oportuna e atual: que fenómeno, afinal, se terá passado em Fátima? Ou nada se terá passado, a não ser uma espetacular manifestação popular, sedenta de um unguento para a suas feridas corporais e espirituais? Não podemos negar as experiências pessoais destes casos, se relatadas por pessoas idóneas e de boa fé, tomando-as como fantasias. A questão é saber como podem tais fenómenos ser entendidos pela generalidade da população, se só os que os vivenciaram os puderam conhecer? Percebe-se por que os três pequenos pastores de Fátima, pediram à visão, a qual diziam ser Nossa Senhora (Mãe Terrena do Jesus histórico), que fizesse um milagre que seria o sinal para que todos acreditassem no que eles próprios vivenciaram.

Esse terá sido o chamado milagre do sol, a 17 de outubro de 1917. Já lá iremos. Mas sobre Fátima há explicações para todos os gostos! Uns dizem que foram extraterrestres. Entre teólogos e padres católicos, uns dizem que foram aparições, outros, visões. O padre Mário de Oliveira (católico dissidente), nega o caso de Fátima. Frei Bento Domingues parece que também tem dúvidas quanto à narrativa das chamadas aparições. O atual bispo de Leiria-Fátima, compara a visão dos videntes com o Crucificado. Isto é, quem morre fisicamente não pode mais aparecer aos nossos olhos com a sua dimensão material. Outros se pronunciaram. De entre todos, Ratzinger, iminente teólogo, atual papa emérito, Bento XVI. O antropólogo Moisés Espírito Santo entende que Fátima é uma manifestação do Islão (com base na ocupação do território português pelos Mouros). Fátima é a filha do Profeta Maomé, sendo, por isso, um topónimo árabe, etc., etc. Um ponto, porém, parece impor-se como convergência de muitos dos autores e estudiosos do fenómeno. Dizem que algo se passou em Fátima, especialmente, naquele dia 13 de outubro de 1917! O único milagre relacionado com o sol é descrito no Antigo Testamento, quando se diz que Deus parou aquele astro para dar tempo a que Josué pudesse desbaratar o inimigo de Israel, com quem travava uma batalha, tarefa que não poderia levar a cabo, caso entretanto anoitecesse! Trata-se, certamente, de mais uma descrição simbólica de que está pejada a Bíblia!

Como crente, ressalvo a ideia de que a Deus nada é impossível. Uma premissa irredutível! Mas como curioso destes acontecimentos e ser racional, admito que será lícito assentar no seguinte: não é admissível que o sol físico, o astro sol, se tenha deslocado um centímetro que fosse do seu lugar! Porque isso seria uma hecatombe universal com consequências inimagináveis para a vida do sistema solar e, particularmente, da Terra! Por outro lado, se se tratasse de um fenómeno dessa magnitude, tal teria que ser visto em cerca de metade da Terra. Quer dizer, em todos os locais onde, àquela hora, o sol fosse visível, caso não houvesse nuvens! Atenta, obviamente, a hora e o fuso horário de Portugal. Com efeito, sabendo nós que Terra é redonda, ela está permanentemente iluminada de um lado, onde é dia, enquanto no outro é noite.

Ora, parece que não existe notícia de qualquer registo em observatórios astronómicos por esse mundo fora, relativamente aos acontecimentos desse dia em Portugal. Se assim for, o caso leva-nos, forçosamente, à conclusão (como dizem algumas fontes) que o fenómeno terá tido lugar no céu de Fátima apenas a cerca de 500 metros de altura (numa avaliação grosseira), a calcular a partir do local mais distante do epicentro onde terá sido observado (e de que há notícia), que foi a casa do poeta Afonso Lopes Vieira, situada a cerca de 40 Km de Fátima, que disse tê-lo testemunhado.

Alucinação coletiva da multidão, como a Psicologia procura explicar? Esta tese não colhe juntos dos estudiosos (ou pelo menos da maioria), porquanto o acontecimento foi visto por muitos: crentes, descrentes, ateus ou agnósticos. E se os nossos olhos só veem o que querem ver, só os crentes estariam imbuídos de uma predisposição interior para aceitar o fenómeno como uma ilusão. Como explicar que uns tenham visto e outros não? Dois exemplos para ilustrar: algumas fontes dizem que o poeta e ensaísta português, António Sérgio, estava lá acompanhar a esposa e nada viu. Mas há outra testemunha ocular que atesta o contrário. Trata-se de um professor de Ciência Naturais da Universidade de Coimbra que nunca tinha visto um fenómeno como o que presenciou. E não conseguia explicar o que tinha acontecido, com o sol a rodar e a mudar de cor.
        
E aconteceram todas aquelas coisas descritas como maravilhosas por milhares de testemunhas. Coisas sobejamente conhecidas em Portugal e em todo o mundo! Em face do que a Igreja Católica acabou por aceitar tudo como manifestação sobrenatural e divina, oficializando o culto mariano de Fátima. O que foi, definitivamente, confirmado com a vinda, pela primeira vez, de um papa a Fátima, Paulo VI, em 1967 (por ocasião do 50.º aniversário das aparições). Já vimos que, sobre estas coisas, cada um diz o que sente ou o que lhe parece, com mais ou menos informação.  

Já foi publicado neste blogue o seguinte texto: «E, quando já não imaginava que via alguma coisa mais impressionante do que essa rumorosa mas pacífica multidão animada pela mesma obcessiva ideia e movida pelo mesmo poderoso anceio, que vi eu ainda de verdadeiramente estranho na charneca de Fátima? A chuva, á hora prenunciada deixar de cair; a densa massa de nuvens romper-se e o astro rei - disco de prata fosca - em pleno zenith aparecer e começar dançando n'um bailado violento e convulso, que grande numero de pessoas imaginava ser uma dança serpentina, tão belas e rutilantes côres revestiu sucessivamente a superfície solar…
Milagre, como gritava o povo; fenomeno natural, como dizem sábios? Não curo agora de sabel-o, mas apenas de te afirmar o que vi...O resto é com a Ciência e com a Egreja...» AVELINO DE ALMEIDA 
(in Jornal “O Século”, de 17/10/1917). A grafia é da época).

Perante um testemunho tão claro evidente, creio que não foi tanto a história dos três meninos, nem foram os textos da Lúcia, embora em coerência com os acontecimentos históricos posteriores, que lograram levar tanta gente a acreditar em Fátima! Também não foi a revelação do terceiro segredo, no ano 2000, que ficou muito aquém das expectativas. E que se baseia apenas numa interpretação peculiar daqueles textos pelo papa João Paulo II. O que, verdadeiramente, pôde levar a acreditar que algo de extraordinário se passou em Fátima, em 1917, foi este texto desse desconhecido e obscuro jornalista d’ “O Século”, Avelino de Almeida, publicado naquele jornal alguns dias depois do sucedido. Um insuspeito antigo seminarista do seminário de Santarém, ateu e anticlericalista.

Na verdade, nunca saberemos o que terá acontecido naqueles dias na Cova da Iria. E ainda menos conheceremos a sua verdadeira natureza. Porém, continuamos a ver passar essa impressionante multidão de peregrinos! Já não são 50 ou 60 mil, mas 1 milhão! Massa de gente, consciente da sua inexorável finitude! Sôfrega de curar as maleitas próprias da sua condição! Pedindo um bálsamo para as dores e um momento de paz! Como há dias dizia um frade anónimo na televisão: “Talvez seja esse o maior milagre de Fátima”!

A fé é isso mesmo. É acreditar. Apesar das dúvidas, que sempre teremos. Porque acreditar, está para além de toda e qualquer compreensão. O tempo é, pois, de milagres!

José Barroso  

domingo, 29 de janeiro de 2017

Conversas na Vila

Era mais uma manhã escura de janeiro. Na vila, fazia frio e chovia. Corria um daqueles invernos habituais, longos e modorrentos com chuva miudinha e persistente. Com a humidade excessiva, os quintais, à ilharga das casas, onde se acumulava o estrume dos animais, que se acomodavam na loja, por baixo ou ao lado das habitações, tinham um cheiro peculiar a decomposição, pouco agradável! O tempo passava lento, com aquele assardaniscar do carujo a ensopar a terra, mas a fazer crescer as águas freáticas e a ribeira, o que era bom!
Mas certo é que, com o tempo que fazia, a vida nas fazendas era muito agreste. Mesmo assim, todos se levantavam logo pela manhã cedo, ainda ao lusco-fusco.
A mulher punha o almoço em cima da mesa da cozinha. Comiam as migas ou as sopas de leite ou o feijão pequeno e, ala que se faz tarde! Com o almoço na barriga, os homens lá iam, casaco pelas costas, para se protegerem da humidade e do ar frio da manhã, dar o almoço aos vivos, que já faziam a chinfrineira matinal com a fome. A burra zurrava assim que ouvia a voz do dono e os porcos cuí, cuí, pediam também o almoço! A manhã avançava e andavam por ali, entretidos, a dar as forragens secas ao gado, guardadas desde o último verão. Ração de feno para ovelhas e cabras. Palha triga e caneirões de milho para os animais de carga e de tiro.
— Raio de tempo este que não deixa fazer nada nas fazendas! — disse Bernardo Garrancho, de si para si, arreliado com a invernia que tudo trazia enchapuçado!  — As fazendas querem ver o dono todos os dias! E ninguém as trata melhor! Por isso, lá diziam os antigos, “Quando o dono morre, as fazendas vão com ele!”
Por vezes passava ali pela porta da loja um vizinho ou mesmo um conviva habitual dos domingos à tarde, na taberna:
— Bons dias nos dê Deus!
— Tu por aqui, Tonho?! Tu que moras da praça baixo, aqui no cimo de vila a esta hora?! Anda por aí passarinho novo!
O seu nome era António Dias, mas os amigos chamavam-lhe Tonho Racha! A alcunha vinha-lhe de repetir muitas vezes na roda de conversadores, na praça ou na taberna, sobretudo quando já estava com um copito: “Se for preciso, racha-se já um diabo!” Apanharam-lhe o ponto! Mas lidava bem com a alcunha que, afinal, não lhe arrancava nenhum bocado! À provocação de Garrancho respondeu:
— Ná! Não quero, nem tenho idade para isso! A minha mulher tem feito vir muitos ao mundo porque … é a parteira da terra!
— Bem sei! E que tem isso?!
— Tem que, para alvoroço de crianças, já basta as que tenho, que são minhas e dela e as dos outros que ela vai ajudando a nascer! 
— Então e depois?!
— Depois, é que vim só a dizer ali ao João Jarêto para falar com o patrão a ver se me pode ir lá dar uma jeira daqui a um mês ou dois, à entrada da primavera. Tenho a fazenda do Vale de Caria com o mato a querer avançar para um leirão que este ano quero semear de batata. Aquilo tem que ser atalhado quanto antes. Senão, os vizinhos vá de me censurarem a dizer que ali não entra ferro de enxada nem charrua! E, como bem sabes, a semente quer mudar de terra de vez em quando, senão deixa de luzir! Olha lá, ou!... Mas, que andas tu a fazer, Bernardo?!
— O que hei de andar a fazer, Tonho? — respondeu Bernardo Garrancho. — Com o tempo como tem ido, ando aqui a dar de comer à burra e aos bácoros, porque as cabras, essas, estão sempre na serra. O meu neto, que pode bem melhor que eu, ainda hoje tem que dar lá um salto para lhes dar a ração, apesar do tempo que faz! Tenho lá ainda as galinhas e os coelhos que também estão sempre a reclamar a sua parte. Na semana passada a raposa fez-me lá estragos! Escavou um buraco por baixo da parede de madeira e rede do galinheiro, conseguiu entrar e matou-me meia dúzia de galinhas, o estupor! Aquilo deve ter sido um desassossego! Mas quê?! Se é no verão, estamos a dormir lá ao lado, em casa, e podemos acudir logo que haja alarido nos animais. De inverno vimos a dormir para a vila e é o que se vê! Já viste como vai este ano que ainda há dias começou?! Um alagoeiro que alto lá com ele! Nada se pode fazer que as terras não estão capazes!
— Deixá-lo — retorquiu Tonho Racha. — Uma temporada assim é boa para as couves negras e, sobretudo, para as nascentes. Sem elas como é que, no verão, regamos as batatas, os tomates e as alfaces?! Sofremos esta inclemência, se é que podemos assim chamar-lhe, mas a partir da primavera, vamos gozar o que agora estamos a amargar! E lá diz o ditado: “Quem manda, pode”!
S. Pedro, que era quem podia, não estava a colaborar. Aquela invernia ensopava tudo!
— Mas — acrescentou Tonho Racha — volúvel, é a oração do crente! Agora quer chuva, logo quer sol e calor! Por isso é que o santo decide como lhe apraz, sem atender aos rogos dos homens!
O resultado ver-se-ia na primavera, com a natureza a rebentar, prenhe vida.
O “casarão”, assim designado pela família, era a loja térrea dos animais em casa de Garrancho, onde os dois amigos se encontravam em amena conversa. Espaço em parte coberto pela “casa velha”, também assim apodada pela família e, em parte, a céu aberto. Tinha um portão largo que dava diretamente para a rua, por onde entravam as carradas de mato e carqueja, mas também o feno, a palha e os caneirões para o gado, no inverno. E de onde saía o estrume para todas as fazendas que ele cultivava.    
— Mas, ó Tonho — disse Bernardo Garrancho — tenho aqui um barril de tinto na loja. Está ali a ouvir a conversa! Vai um copinho? Olha que é de boa vontade!
Tonho Racha era um grande apreciador de aguardente, a sua bebida preferida pela manhã cedo, logo que se levantava! Depois, durante o dia, passava tanto para o vinho tinto como para o branco! Dizia que nunca fora homem com preferência por qualquer cor! E nunca recusava um copo à porta de uma adega, desde que fosse cheio de uma bebida da família da uva fermentada.
— Se vai?! Homessa! Ó Bernardo, isso nem se pergunta! Um homem, para ser um bom cristão, nunca deve recusar um copo de vinho! É como se fosse uma obrigação e até um preceito da nossa religião! Na adega, como na missa, há de beber-se sempre vinho! — riram!
Bernardo Garrancho estendeu-lhe o copo de meio quartilho que Tonho levou à boca e bebeu sem descansar.
— Aaah! — fez de satisfação!
A seguir a um copo foi outro, que Garrancho gostava de tratar bem os amigos! E Tonho Racha não se fez rogado.
— Já fui a muitas adegas cá na vila a provar o deste ano — disse — e olha que este é um dos mais bem apaladados! — concordaram os dois!
— Espera! — disse Garrancho — tens ainda que beber mais um. Vou ali à salgadeira buscar um bocado de presunto para acompanhar.
Veio um pedaço de presunto. Febra bem curada de sal, com uma tira de gordura entremeada para não saber a seco! Mas Bernardo foi ainda buscar um bom naco de queijo de cabra curado que a mulher era hábil em fazer e metade de um casqueiro!
— Mau, ó Bernardo, não me estejas já a arranjar o jantar! Olha que ainda é muito cedo! Ainda agora é de manhã!
— Nada disso. Hoje já comeste o almoço?
— Bebi só um copo de aguardente com passas de figo.
— Ora então aí tens! Isto é apenas uma bucha para aconchegar. Toca a comer e a beber!
Depois, aproveitaram para conversar sobre a agricultura e as sementeiras. Como é que ia o tempo, como é que não ia. Se andava bom para as colheitas, se não andava. E mal se descuidaram estava a chegar a hora do jantar. Despediram-se com mais um copo para a sossega!
Não fossem os afazeres com os animais nas lojas e os amigos para o palratório e estes homens andariam ali por casa a rebolar, sem nada produzir, como que a morrinhar ou sentados à lareira. Quando assim era, uma dormência tolhia-lhes o corpo habituado que estava à exercitação diária do trabalho. As pernas entorpeciam. Depois, levantavam-se e iam ao janelo da cozinha, encostavam-se à vidraça a olhar o horizonte. Lá fora, via-se a invernia muito agarrada que acaçapava todo o vale onde se situa a vila, ao fundo da encosta da Gardunha. E depois punham-se, absortos, a ver cair a água dos beirais, mesmo ali nas casas defronte. O regato à roda das parede de ambos os lados da calçada lá ia, rua abaixo, com pouco mais que uma chisca. Com as trovoadas e aguaceiros é que a valeta, pouco profunda, não podia conter o caudal que extravasava para a calçada.
Mas muitas vezes os homens, nestas manhãs molhadas, também iam para a taberna fazer sociedade. Bebiam, riam em voz alta, jogavam as cartas, ao tanguinho ou ao burro. Falavam dos negócios do gado, da vida agrícola e contavam passagens para matar o tempo. E assim passavam a maior parte destes invernos feios e mortiços, sem nada poder fazer!
Inverno rima com inferno!
Seria isto uma grande verdade, não fosse certo que a água é um bem precioso que não podemos dispensar e que torna a natureza úbere!
Eram estes homens, prisioneiros da sua própria condição, que vinham às portas das lojas, das casas ou das tabernas. Olhavam, impotentes, o cinzento carregado do firmamento, enquanto a chuva fazia o seu caminho do céu à terra, aspergindo-a vagarosamente como uma canção dolente!

Nota: neste texto foram utilizados termos ou expressões regionais ou locais.  

José Barroso 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Nos bancos da praça

— Já vou estando velho! — disse Chequim da Oles para os companheiros, como princípio de conversa, naquela tarde. — E, passados todos estes anos, ainda não atinei com a resposta!
Era conhecido por aquele nome por ter nascido nas casas da Oles. Toda a sua mocidade foi trabalhar e guardar gado nas terras baixas e férteis daquele sítio. Mas herdara a casa que os pais tinham na vila! Os que estavam com ele, sentados no banco da praça, ouviram o que tinha dito e olharam-no. Não percebiam o que queria ele dizer com aquilo!
— Que estás tu para aí a relatar ó Chequim?! Parece que estás arloucado! Vê lá se falas com’é dado, de maneira que a gente te entenda! — interveio o Zé Canhoto. Canhoto, por ser esquerdino, já se vê! Aproveitara um momento de pausa dos fregueses e viera à praça dar fé do que se passava. Mas podia continuar a vigiar a porta da sua taberna, ao fundo da igreja, que deixara aberta! — Picou-te o moscardo ou estarás tu a esgrouviar da cabeça, meu dialho?
— Por que raio teriam eles feito aquilo? — continuava a perguntar, de viva voz, o Chequim da Oles ao adjunto de tagarelas. Mas fazia-o como se não esperasse resposta.
Não era burro de todo. O pai ainda o mandara aprender algumas letras com o Padre José David dos Reis. Onde é que isso já ia!...
Muitos lustros passaram! Quem o queria ver agora, já bem entrado nos anos, era sentado na praça, a dar dois dedos de conversa a outros da sua igualha e com idade do mesmo quilate!
— Certas idades, convidam a novas vidas! — tinham-lhe zumbido aos ouvidos.
— Vós falais que nem doutores, falais. — teria dito. — Isso soa bem à rapaziada nova, como diz o outro! Mas é de mau agouro para os que por cá andam há muito!
Lembrava-se dos tempos da sua juventude, quando era cachopo novo, todo cheio de nove- horas!
— Dali, já só para a quinta das cruzetas! — pensava, em voz alta, quando via os velhos da vila, sentados nos bancos ou no muro da praça, encostados às pilastras.
Nessa altura andava a zurzir segredos de bem-querer ao ouvido das cachopas. Acabou por casar com a Rosária das Lameiras. Boa moça e de alguns haveres. Veio a herdar, por sua banda, algumas courelas e um bom pedaço de pinhal. Juntas às dele, davam umas boas jeiras em ricas terras aráveis e tinham lenha para as invernas. Punham pé nas baixas junto à ribeira, depois, também, nas Lameiras, na Fonte da Portela, nos Aldeões e na Serra. Com boas e abundantes colheitas hortícolas, fruta, batata, milho, azeite, vinho, trigo, centeio e pasto. Praticamente tudo! Governava a família e tirava das fazendas o sustento para o gado miúdo, rebanhos e animais de carga.  
Tiveram doze filhos! Seis machos e seis fêmeas. Sãozinhos e escorreitos, que os benzera Deus! Era vê-los a espigar e a calcorrear paredes e cômoros atrás das cabras e das ovelhas e à frente dos bois, a guiá-los, nas lavradas, com o pai na rabiça do arado! Aquilo era rapaziada de ímpeto e vivacidade que nem as ondas do mar alteroso!
— Uma dúzia de filhos, ó Chequim! Assim é que se vê quem é que tem… unhas! — diziam-lhe os amigos, a mangar e com uma pontinha de malícia!
— Tende lá tento na língua rapazes, que eu bem sei o que vos vai nessa mente corrupta! — ripostava sem se abespinhar. — Mas perdoe-vos Deus metade da vossa maldade, almas do dialho, que eu vos perdoo o resto. Não quero, um dia, ser responsável por entrardes com a consciência pesada na eternidade! — disse-lhes.
Mas o tempo fora-se, impiedoso! D’abanão, mal deu por ela, encontrava-se ele nos bancos da praça, no lugar da provecta gente de outrora.
— Cá na vila, já não há velhos como dantes! — mal se ouvia dizer no soalheiro.  
— Ele há coisas! Criaturas com a maluqueira que o tempo apenas vai fluindo para o vizinho!
Parecia-lhes que os velhos eram sempre os mesmos que por ali costumavam ver sentados nos bancos. Na verdade, todos tinham cabelos já muito ralos e brancos. E ostentavam, na face, profundas gaivas, que os tornavam semelhantemente uniformes para a morte! — Como diz o santo a respeito do pecado: “Veem o argueiro no olho do próximo mas não veem a tranca no seu próprio olho!” Se calhar é por não terem ângulo de visão! — riam.
Esperem-lhe pela volta!
— Não há velhos? Há sim senhor! Então, os velhos agora somos nós! Nós é que vamos ocupar os bancos da praça onde eles se sentavam antigamente! — sentenciavam. E com razão!
— Cada um tem que estar onde manda a idade! — falava a experiência pela boca de Bernardo Garrancho que, entretanto, interviera na conversa. A alcunha deste, vinha-lhe de ter o dedo indicador direito curvado em gancho. Devido a um ferimento, em consequência de um acidente de trabalho, o dedo sarara naquela posição e não mais voltara a endireitar-se!   
— É assim mesmo! — ripostaram-lhe.
Fossem lá pedir agora ao Chequim da Oles, para cavar um bocado de vinha! É o cavas! Já não tinha genica nenhuma! Isso era dantes! Ah! caraças! Levantava-se de manhãzinha, ia cortar um molho de mato, ougava-o, trazia-o às costas para a furda e traçava-o, tudo em menos duas horas! Outros tempos!
Mais tarde, já casado, a família crescera, a vida, graças a Deus, melhorara e pôde atirar-se, a custo, à compra de um carro e uma junta de bois, com que passou a ir ao mato e à lenha, acompanhado dos dois filhos mais velhos. Duas sonaves que alto lá com eles, como se podia ver pelos ombros forçudos e pela grande chave das mãos de que, na vila, poucos se podiam gabar.
Mas Chequim tinha trazido à conversa, naquela tarde, um pensamento:
— Farto-me de matutar por que raio teriam eles tirado o concelho à nossa terra?! — disse, esclarecendo, enfim, a curiosidade dos circunstantes. — É o demonho duma pergunta que fiz toda a vida!
Para onde fora a câmara, o tribunal, o notário-tabelião e os registos, que cá estiveram tantos séculos e que tanta falta nos faziam?!
— Dizem que os ricos não queriam cá o concelho porque, quando quisessem tratar dos seus assuntos bem podiam fazê-lo, indo de charrete, refastelados, a Castelo Branco! Gente rica! Vai lá, vai… É mais fácil passar um camelo…
— Ah! Finalmente percebe-se a tua inquietação e compreendem-se agora as tuas perguntas! — declarou Adelino Cansado que até ali estivera sem bulir um som.
Ao contrário de muitos dos do seu tempo, Chequim da Oles sempre tivera o bichinho de se incomodar com os caminhos que ia trilhando a comunidade vicentina. O que nos reservava o futuro com os dias cada vez mais sombrios que se atravessavam. O assunto, achava ele, devia interessar a todos! Mas era como clamar no deserto! Não compreendia por que é que os seus companheiros de ajuntamento não se interessavam por coisas tão importantes.
— Cedo percebi que fomos uma terra de grandes pergaminhos. A nossa vida, no correr do ano, estava cheia de datas assinaladas!
Ah! Caramba, havia grandes acontecimentos nas Festão de Verão, no Natal e na Páscoa. Enormes procissões do Senhor Santo Cristo e do Enterro do Senhor. O pálio estava reservado aos homens mais importantes da vila! Hoje andam ó tio, ó tio, a perguntar quem lhe quer pegar! — disse para o adjunto. Não teve repercussão naquelas cabeças toscas.
— Tinham alguma consciência coletiva ou andavam no mundo por ver andar os outros?! — intrigava-se. E começou a vociferar:
— Vocês destas coisas não querem saber! Só vos interessa as vossas leiras e beber copos na taberna! Do resto não vos acusa a consciência! — continuava no seu solilóquio. — Por isso chegámos ao que chegámos!
Os outros nada opinaram sobre o assunto que há muito o afligia. Lá lhe pareceu que estavam desatentos, talvez a pensar nas vindimas do fim do verão que se aproximava, que era o que concretamente mais lhes tocava. Vai daí, arreliou-se:
— Mas, que diabo! Ninguém quer falar da nossa terra? Vocês parece que estão mortos! Mortos!
— Ali o Tonho Insonso só dorme! — e apontou para a extremidade do banco. — Já parece o Tonho da Lija que tem a doença do sono! Ó Tonho picou-te a mosca ou estás a remoer as couves?!   
Com a algazarra, o Tonho Insonso, acordou! Cerrou as mãos em punho, meteu os indicadores dobrados nas covas dos olhos e esfregou-os! Estava modorrento e como não discernia muito bem, Chequim da Oles atirou de través, entre dentes, aos companheiros de conversa, como quem lança um osso a sete cães:
— Este alma de chichentes faz justiça à alcunha que lhe puseram! Parece que não tem sal! Sim senhor! Ora com fêto! Se calhar, por isso, é que nunca arranjou mulher!
Todos gargalharam com a tirada. Mas ele ainda ouvira parte do comentário. E a zombaria era como se esses cães o mordessem, fundo, no ego!
— O que foi?! Que berraria é esta?! — disse, finalmente, confuso, o pobre homem. Tinha a certeza que chasquearam dele e que lhe tinham chamado ruminante. Mas, optou por nada dizer, que era homem cordato e boa pessoa, lá nisso todos concordavam!...
João Jerolme, outros dos presentes, que tardava em se juntar à conversa, aproveitou um avo de compasso de espera e retomou o assunto do Chequim da Oles:
— Não te assanhes, ó Chequim! Se bem estou a perceber, estás a meter-te em política! — disse. — Olha que isso, nestes tempos, não é coisa boa, meu homem! — confidenciou-lhe, paternalmente, como mais velho do grupo. Ele sabia a rês que estava a governar em Lisboa por aqueles tempos!
— Não me meto em política! O que ninguém pode é impedir-me de querer saber das coisas que se passam na minha terra! Se isso é política!... — replicou Chequim da Oles.
— Tu lá sabes. Mas não te adiantes muito nos condutos. Às duas por três, podes ter que ir parar a África à força, se é que, pelo caminho, não vais mas é servir de comida aos peixes e nunca mais se ouve falar de ti! Não te metas com políticos que é má gente! E lá dizia o outro que a ignorância se manifesta pela política!
Chequim da Oles, feito um exame de consciência, concordou com o amigo. E, embora a contra gosto, aceitou o seu conselho. Por uns tempos prometeu não maçar a reunião de comparsas com as questões da política!
João Jerolme era o mais instruído dos do grupo. Pela idade e pelo saber. A sua família, mais abastada, tinha-lhe permitido frequentar um colégio de jesuítas por alguns anos.
Muitas vezes, nas tertúlias, se falava do tempo. Como é que andava, como é que não andava, se ia bom para as colheitas, se não ia. Se chovia ou fazia sol para medrarem as árvores e as searas e darem boas colheitas!...
Bernardo Garrancho, cuja escola tinha sido a terra, o campo, a chuva com muitas molhas e o sol com escaldões, animais e plantas, sabia bem ler-lhe as aparências. Se uma nuvem grossa e escura aparecia, no horizonte, a ocidente, ao fim da tarde, ajuizava:
— Ó rapazes, há uma barda além por cima do Ingarnal. Amanhã chove pela certa! Assim eu tivesse a certeza de entrar no reino dos céus!  
João Jerolme, mais pensador, percebia os efeitos do tempo, mas não podia compreender que ímpeto da natureza era aquele. Apenas sabia que fora essa força imparável que o relegara para o banco da praça ou para o balcão da taberna. Era quando, amiúde, erguia o copo de vinho na mão, já trémula, declarava, simplesmente, para o círculo de amigos, como um presságio:
— O tempo! O tempo! …
E, fosse ou não o efeito do vinho a subir-lhes às cachimónias, o que é certo é que alguma coisa ali parecia pairar. Por instantes, todos os da roda quedavam. Enquanto os olhos da sua natureza rude aparentavam alcançar alguma luz por entre a escuridão. Eles bem compreendiam o Jerolme: o tempo era, afinal, o grande mestre que tudo ensina, tudo cura, tudo faz esquecer, tudo cria e tudo destrói!
Tinha sido o tempo, esse mesmo, esse vilão, o que eles não podiam nem sabiam qualificar, que lhes roubara as suas vidas!

Nota: Neste texto foram utilizados termos regionais ou locais, incluindo nomes de pessoas, que não se encontram na ortografia e dicionários oficiais.
                                                

José Barroso