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quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Couves extremas

I

Naqueles invernos negros, de pouco ou nenhum sol, os dias eram pequenos e as noites enormes! A partir do mês de novembro, tinham lugar, em casa de Garrancho, os grandes serões de família. O que sucedia à volta da colossal lareira, na cozinha, à telha vã!
— Boa casa, boa brasa! — dizia ele, em voz forte e sonora, para a ti’ Maria, a mulher, com a espontaneidade e confiança de quem está em sua casa!
Invariavelmente, estavam ao pé um do outro! Unidos, como unha e carne! Caminhavam ligados na vida, havia décadas! Por regra, no tempo do frio, achavam-se na cozinha àquela hora! A hora em que o dia caía e a noite se aproximava.
À luz da candeia de azeite, ela, sempre a remexer e a saraçar, lá andava nos seus afazeres domésticos.
Ao ouvi-lo, atirou-lhe, sem desviar os olhos da faca com que migava, em pedaços grandes, o punhado de couves galegas para a ceia:
— Não fales tão alto, homem, que aborreces os vizinhos! O que é que há de dizer o nosso compadre e a mulher, que são, mesmo aqui, parede com parede, connosco?!
— Homessa! Se um homem não está à vontade para botar palavra entre as suas quatro paredes, então onde diabo vai dar soltura àquilo que quer deitar do peito para fora?! Na taberna? Na adega? Ora, adeus! Aí, muitas vezes, já não é ele a falar! É o briol a falar por ele! Olha que a casa de um homem é como se fosse o seu castelo!
A mulher calou-se e aquiesceu. Entretanto, Garrancho ia pondo, no lume, mais uma boa cavaca de lenha de castanho velho, que tinha trazido da serra.
Era um homem alto de corpo! O mesmo de estatura moral! Contratos onde entrasse, não necessitavam papel! A sua palavra era lei! Tinha uma boa disposição duradoura e um coração imenso!
Às vezes, calhava vir à conversa, um caso de amor juvenil, vivido pela filha, que ele bem amava. Razões do coração de custosa compreensão para a esposa! Bem o viram, então, com o âmago lacerado e repartido, sentado à roda do lume, de lágrimas a esbagoarem-se-lhe pela cara!
Um alma de S. Pedro!
A diferença é que Pedro era pescador e Garrancho lavrador! Se o primeiro, andava no mar a pescar e a molhar os pés na água, o segundo andava a cavar, a semear e a engolir o pó da terra! Mas foi aquele apóstolo, rude como Garrancho, rijo como uma rocha de granito, que Cristo escolhera para nele edificar a sua Igreja!   
O casamento com Garrancho não podia se não ser uma bênção para a ti’ Maria! Ouvia-a, ouvia-a! Que ela — sabia-o ele muito bem — era também moldada por uma grande alma, mas um poucochinho mais dura! Porém, entre eles, a vida prosseguia! Não era preciso que as suas almas fossem gémeas. Bastava que fossem, como a dele, suficientemente tolerantes. Escutava-a, escutava-a! E a boca dele não se abria! A não ser para tentar compreender as suas razões, procurando suavizar-lhe a rigidez na forma de ver o mundo, as coisas e as pessoas.
No início de novembro, ainda se estava quase a dois meses de terminar o outono, a que se seguiria o inverno. Contudo, o frio e a chuva eram de molde a que não se sabia quando acabava um e começava o outro! E quase com toda a certeza, que já tinha nevado na Estrela e, quiçá, também na Gardunha. Se o tempo era mau, logo pelos Santos, era contar que, afora o verão de S. Martinho, assim iria até lá para o fim de fevereiro! Com o sol de março é que se começava já a sentir a terra a aquecer e a vida a querer despertar do torpor da hibernação.  
No entretanto, o fumo e o calor curtiam as morcelas e os chouriços dispostos em fila, nas varas, por cima da lareira. Ao mesmo tempo que secavam as castanhas, no caniço, ao lado do fumeiro. À época, as castanhas eram já poucas. A maior parte dos castanheiros tinha sido substituída por oliveiras, que davam o rico fio doirado do azeite, produto bem mais rentável!
Garrancho e Maria contavam para cima de sessenta. Sempre foram velhos! Ou assim parecia aos olhos dos netos, moços e moças a transbordar mocidade!
Tinham tido uma vasta progenitura de dez filhos! Agora restavam eles. Sós, naquela casa enorme! Carregada de memórias!
Por entre a crueldade dos males e doenças, tinham vingado, até à idade madura, oito deles! Seis rapazes e duas raparigas. Uma menina falecera em criança. Outra, pouco passaria dos 18 anos! E os que eram vivos, todos estavam casados e apartados em suas casas. Salvo um deles e a mulher que morreram pouco depois do casamento.
Foi esse infortúnio que levou o filho destes, o neto Juvenal, ainda criança, a ir viver com os avós, ajudando-os nas lides da terra. O que, ao menos, lhes suavizava um pouco o sofrimento naqueles anos da velhice.
Era ele que, agora, mais enfrentava as intempéries. Era ele que, no inverno, se demorava na serra, até mais tarde, a trabalhar. À chuva e ao frio! A tratar das cabras. A ordenhá-las. A fechá-las convenientemente, na corte, à noite. Para impedir algum ataque de animal feroz que, conforme o porte — raposa ou gato toirão — podia, se não mais, pelo menos, pôr em perigo as crias do rebanho!
Todas as noites, os velhos esperavam que o neto chegasse da serra, de labutar. Bastas vezes encharcado. E a chegar-se ao lume para enxugar a roupa!
Depois, os três, comiam, na paz do Senhor, a ceia que a avó preparava com sábias mãos!  

II

A cozinha situava-se em cima, na “casa velha”, numa espécie de primeiro andar. Para se lá chegar, passava-se em baixo, pelo corredor da “casa nova”, situada do lado direito, à entrada da porta principal.   
No tempo, havia um grande respeito e confiança entre as pessoas da vila. Razão por que esta porta estava sempre aberta! Aberta, é um modo de dizer. Porque, na realidade, estava presa no trinco, mas em singelo. Sem a fechadura corrida. Bastava premir a peça de balanço com o polegar e levantar a tranqueta interior, para entrar.
Tinha um pormenor que, porventura, a distinguia de todas as outras portas. Atrás, fora pregada, por uma das pontas, uma tira de metal flexível. Mas suficientemente forte para, na outra extremidade, ter suspensa, balançando, uma campainha. De modo que, se alguém abria a porta, ao mínimo movimento, a campainha tocava, ouvindo-se por toda a casa! E reconhecia-se de imediato a voz da dona: 
— Quem é que lá vem?!
— Eh! ti’ Maria, sou eu…! Hoje precisa de sardinha ou chicharro?! — gritava lá de baixo a Mira Sardinheira.
— Lá vai, lá vai!...
Descia as escadas. A conversa prosseguia entre as duas mulheres, sobre saber se precisava ou se lhe agradava algum peixe para aquele dia!  
Franqueavam-se, assim, as portas a quem quisesse entrar. Todos estavam por bem! Desde logo, bem entendido, os vizinhos e a família. Se os pais moravam ao cimo da rua, os filhos moravam, quase sempre, por essa rua abaixo. Ou, mesmo, noutras ruas da vila! Em todo caso, perto uns dos outros. Prontos a ajudar se houvesse qualquer aflição. As gerações sucediam-se e a vila achava-se cheia de gente! Não se tinha dado, ainda, a emigração em massa para França e para o litoral!
Era nessa conjuntura de vizinhança que, o Lopo, a bem dizer, porta com porta com Garrancho, frequentava com regularidade, a casa deste, havia longos anos! As mulheres até se chamavam mutuamente por “comadres”. Embora não se soubesse bem a razão e o porquê! Talvez porque entendiam que a amizade, o conhecimento e o traço de união entre as famílias, mereceria mais que o simples tratamento por “vizinhas”!
Como local de sociedade e encontro, Lopo e Garrancho privilegiavam, quase sempre, a adega, onde se encontrava o pipo do vinho, a salgadeira com o presunto, os queijos a fazer a cura e a talha das azeitonas. E, onde nunca faltava uma bolsa com pão dessa semana. Cozido no forno da serra ou no da viúva do Mesquitela - homem de muitas posses - na rua Velha. Estava guardado dentro de uma caixa de madeira, robusta, para evitar ser roído pelos ratos.
Como os dois gostavam de estar sempre muito próximo do espicho do barril do vinho, chegavam a ficar, às vezes, bastante entradotes. Não, somente, pelo odor que lhes atravessava a pituitária, mas, sobretudo, pelo gosto frutado e tanino do tintol que lhes passava nas gustativas! Davam-lhe forte e bem! Quando Garrancho se preparava para encher o primeiro copo, o Lopo punha-se logo a dizer, com receio de desperdícios e a deixar supor que estaria pronto a beber o segundo, se lho dessem:
— Ó amigo, não enchas o copo demais, que o vinho não faz cogulo! Olha que podes estragar a pomada! Sempre ouvi dizer que o que se estraga, nem as galinhas o aproveitam! E antes dois copos que entornar…! — alegava.
— Ora o damonho do homem! Sim, senhor! Ai o alma de cântaro! Hã! — ria-se, sarcástico, Garrancho, não diretamente para o Lopo, mas como se imaginasse ali presente uma terceira pessoa.
Depois, para ele:
— Onde aprendeste semelhante ladainha, ó Lopo? Na taberna do Arrebotes ou na do Coxo?!
— Ná! Nem numa nem noutra. Esta já ma contava o meu pai, que no céu esteja!
— Pois! Muito me contas, mas não são notas de conto!
E a conversa prosseguia. Garrancho esforçava-se por pôr os copos bem cheios de vinho tinto rematados por uma coroa de espuma vermelha, em cima da mesa improvisada. Armada com uma tábua larga sobre o fundo de um barril de cinquenta litros, vazio, colocado, na vertical, sobre o chão térreo. Uma vez e outra vez! Mais um pedaço de presunto no prato! Mais um naco de pão centeio ou de broa esnocado a esmo! Mais um bocado de queijo e uma mão cheia de azeitonas! E mais uma rodada!
Assim corriam as suas pândegas e comezainas, até o vizinho regressar a casa, do outro lado da mesma rua, duas portas acima. E, ou era dos olhos de Garrancho, ou o Lopo já ia um pouco entornadote.
Depois da função, um tanto para o tarde, era quando Garrancho ia ver da ti’ Maria que estava já deitada, apenas a dormitar! Não serenava enquanto não sentia o homem a abrir as mantas e a aconchegar-se ao pé dela.
Mas, antes, na despedida, os dois homens, ainda tinham tido tempo de emborcar mais um copo de tinto, para a sossega. Era quando o Lopo dizia para Garrancho, com a voz entrecortada pelo efeito dormente da pinga:
— Ó amigo, na tua casa mando eu! E na minha casa mandas tu! Hã?!...
Garrancho bem o compreendia! Com a tirada, o Lopo parecia querer assenhorear-se de carta-branca para acesso ao barril do vinho de Garrancho!
Nunca se soube se este aceitou tal proposta de reciprocidade. Ou se cada um continuou a mandar na sua própria casa!

III

Tinha chegado, entretanto, a hora da ceia! Juvenal estaria a chegar da serra, de acomodar o gado. As couves com batatas, a morcela de cozer e os ovos, para os três, estavam quase cozinhados.
Muitas vezes, porém, sobretudo nos sábados, aconteciam as magnas reuniões da família. Vinham à casa paterna alguns dos filhos. Se fossem todos, seriam mais que as mães. É um modo de dizer! Quase todos moravam na vila! Levavam as mulheres e a prole! Que compunha um bom rancho de netos dos venerandos avós. Jovens ou ainda crianças. Num momento, enchia-se a casa! De pessoas e de ruído! Repentinamente, a algazarra das crianças elevava-se ao teto! Ouviam-se-lhes os estrepitosos gritos das brincadeiras. Eram a riqueza da família! Mas, eh!, malta dum raio!
— Estejam quietos e calados meninos! Não façam barulho que me dói a cabeça! — ralhava a avó Maria. Ao mesmo tempo que produzia com a língua, por obra de artes orais, um estalido de impaciência. Som difícil de imitar e impossível de transcrever! Tudo quedava por um momento. Mas qual quê?! Eram como ferrabrases. E o rebuliço retornava pouco despois!
Com a chegada dos filhos, noras e netos, colocavam-se na panela mais couves, batatas, morcelas de cozer e ovos. A ti’ Maria se encarregaria de fazer os acrescentos. Ou colocava mesmo outra panela ao lume com as quantidades que bastassem para satisfação de todas as bocas presentes.
Couves e batas cozidas, grandes rodelas de morcelas de cozer. Ovos cozidos. Tudo bem regado com azeite e vinagre. Pão de centeio ou broa. Vinho para os homens e chá ou água para as mulheres e as crianças! Fruta, azeitonas ou queijo. Tudo deste quilate! E com abundância! Alguém que estivesse de fora a observar, concluiria: “Uma família em ordem! E que beja ceia!”.
Às vezes, a refeição era comum! Ou seja, em vez de cada um ter o seu prato individual, deitava-se tudo já devidamente cortado numa descomunal caçoila de barro. Cada um, munido apenas de um garfo e de uma fatia de pão, comia do recipiente o que entendia. A partilha era por estimativa. E ninguém se empanturrava. As mães tinham o especial cuidado de se certificarem que os filhos mais pequenos tinham comido o suficiente. Matava-se a fome. Havia muita fartura de tudo o que a terra dava! Graças à Divina Providência!
Garrancho e Maria nunca sabiam quando contavam com tanta gente! É certo que os filhos, as noras e os netos nem sempre estavam todos. A não ser nas festas mais marcantes ou nas matações. Mas era sempre bastante gente! E vinham sem aviso. Mas não era necessário qualquer planeamento. Arranjava-se sempre alguma coisa para quem chegava!
Durante o repasto, Garrancho não raras vezes tinha que se deslocar à adega, a encher mais um ou dois canjirões de vinho! Ele sabia melhor que ninguém como manobrar o espicho do barril! Levantava-se do banco, uma espécie de “trono”! Desaparecia nos degraus de madeira que davam para o piso de baixo. Atravessava a “casa nova” e descia por uma escada amovível até à cave do pipo. Os netos continuavam os seus divertimentos. Se, no auge dos folguedos, algum se sentava, mesmo por momentos, no banco deixado vago, a avó clamava:
— Sai daí, menino! Não quero ninguém aí sentado! Já vos avisei muita vez! Ora com fêto! Hã! — dizia abespinhada.
O “trono” era um cilindro, serrado do tronco de um velho sobreiro, assente numa das bases. Fora cortado para servir de banco e colocado à roda da lareira. E ninguém se podia sentar nele, por respeito. Estivesse o dono presente ou não! Era norma da casa! E as normas eram para se cumprir! 
 
Mas nesses grandes serões, à ceia, muito se cavaqueava! Recordavam-se outras épocas. As épocas dos tempos difíceis de antigamente!
— Isto agora é um luxo! Há a fartura que não havia noutras ocasiões! Hoje é diferente! Está melhor! Temos para comer! — pregava Garrancho, com a comunidade familiar a ouvir. — Nessas alturas, comiam-se couves! Couves e apenas couves! Coziam-se com sal, temperavam-se com um fio muito fino de azeite, se o houvesse, e uma gota de vinagre!
— Couves! Só couves! — rematava a avó Maria, voltando-se para os netos, que entrementes tinham quedado, pasmados, com o teor da conversa! — Couves, sem nada a acompanhar! Chamávamos-lhe as couves extremas! Foi nos terríveis anos das guerras, pestes e fomes… Vocês não sabem nada da vida! — concluiu, ciente da experiência que lhe conferia a idade. Relembrando-se de um tempo mau, que coincidira com o da sua juventude, pôde-se-lhe, todavia, entrever, na face enrugada pelos anos, uma réstia de nostalgia!...
Com o andar da noite, os ouvidos iam perdendo a acuidade e a capacidade auditiva. Os mais novos adormeciam. Em breve, o João-pestana os transportava para o imaginário mundo dos sonhos!
Já era tarde quando se encerrava a assembleia de família. Quentes como estavam do calor da lareira, agasalhavam-se! Em especial os mais pequenos. Para enfrentar o ar gélido da rua. Onde não havia luz pública! E regressavam a suas casas por entre as sombras da escuridão!

Nota: neste texto foi utilizada lexicologia de cariz local ou regional que não consta da ortografia e dicionários oficiais.       

JOSÉ BARROSO

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

O alacrário (1)

Naquela época, para regar, minavam-se os morros ou as barrocas próximas das hortas, a fim de procurar a tão preciosa água para a fertilização dos solos. Se a fazenda fosse do próprio. Se não fosse, e a trouxesse de renda ou ao terço, a tarefa competiria ao dono. Às vezes, a água era repartida pelos dias da semana, conforme os usos, com os vizinhos dos terrenos contíguos.
Na Beira predominava o minifúndio. À roda da vila, de acordo com a orografia, a maioria das terras de cultivo dispunha-se em socalcos. Que se sustentavam por paredes suficientemente altas e grossas de pedra de granito ou xisto, conforme a que mais abundasse no local. Por forma a compor os leirões. Se fosse para a serra, a descambar para nascente, era o granito. Já, na vertente norte e a poente, para a Devesa, a caminhar para a Charneca, o xisto é que punha lei.  
Surribavam-se na horizontal, oito ou dez metros ou mais. A boca da mina ficava à face do cômoro do cerro ou da parede que segurava o terreno. Fazia-se aí, até meio, um muro de retenção da água. Por baixo, passava um bueiro, onde era colocada, na parte de dentro, uma tranca para o despejo.
O regime pluvioso era, na altura, rico. E a profundidade da escavação variava, conforme a proximidade da nascente, de acordo com a veia de água e humidade do terreno! Tanto podia estar à babugem, como a metros de distância. Era preciso procurá-la!
— Ó Manel! Ó Alfredo! Cavem aí nesse cabeço, para lá, sempre a direito, até dar água! — dizia ti’ Fecisco Abelha para os filhos, depois de escolher um local que lá lhe parecia adequado.
O nome “Abelha” circulava, somente, entre alguns dos membros da família, como uma mangação inocente. O ti’ Fecisco, por vezes, exasperava-se, por uma qualquer razão, mais ou menos tangível. O que acontecia, não por razões de caráter iroso, que, esse, não era o seu. Mas apenas por simples excessos de impaciência, repentinos e curtos. Soltava, nessas ocasiões, uns silvos, “zzii, zzii”, semelhantes ao zumbido de uma abelha ou de uma vespa, se algum destes insetos nos passava a rasar as orelhas! Não se dava muito pelas exaltações do bom do homem. Pois não produzia sons audíveis. Percebiam-se apenas aquelas sibilações. E um nadinha de gaguez que lhe provocava, nessas ocasiões, a desordem mental! Mas, rapidamente, ti’ Fecisco retornava ao seu equilíbrio e normalidade. No mais, era boa pessoa, magnânimo, e de muita convivência com o seu semelhante.
A ordem que dera aos filhos para escavarem no local que lhes indicara, fora o ponto de partida para começar a mina do Cerro Velho. Um pequeno escolho de terreno pedregoso, de rocha negra e miúda, na sua fazenda do Monte do Gaio. Esta mina possibilitava o alargamento da regadia aos leirões cimeiros. Dela também se abastecia a casa, para beber e cozinhar. A água que dava, porém, não era suficiente para tudo! Mais abaixo, havia outras minas. Que, com o auxílio de chaboucos, irrigavam os terrenos inferiores.  
Já tinha entrado o verão. Os seus filhos do meio, jovens já maduros, peitos para fora, embezerrados de suor, ao timbre da voz forte do pai atiravam-se à labuta que nem gato toirão a coelho! Não se discutia a ordem de um pai, como não se discutia a de um juiz!
— Eh! Meu pai, não se enfade! Vamos já começar a cavar, a ver se aí dá nascente! — diziam eles, solícitos, mesmo que, por dentro, não lhes quadrasse lá muito bem aquela imposição paterna.
Se calhar, aquilo era demais!
— Que diabo de vida esta! — comentavam, baixinho, entre si. — Não há meio de chegarmos ao domingo para podermos ir beber meio quartilho na taberna do Manco. Ou dar um bate-pé no bailarico, à esquina do Largo Grande, a toque de realejo!
Além daquela mina já tinham feito outras. E alguns poços. Nesta fazenda do Monte do Gaio e noutras que os pais tinham de seu! Eram serviçais e obedientes, mas aquele trabalho era violento! Às vezes desanimavam!
Faziam-se muitos outros trabalhos nas terras. Lavravam-se as leiras com a junta de bois. Colhia-se a azeitona. Vindimava-se. Podavam-se as árvores. Semeavam-se as batatas, as hortícolas e os cereais de trigo, milho e centeio. Apascentava-se o gado. Ceifava-se. Faziam-se os rolheiros, com molhos de palha e feno, para o inverno. Regava-se a horta e o milho no verão. Ia-se à lenha. Metia-se mato na cama do gado. Tirava-se o estrume!
Mas lá trabalhar nas minas e nos poços, essa era uma empreitada levada do diabo! Chegava a haver contendas, porque, a uns, os mais novos, o pai mandava a regar ou a guardar as cabras e a outros a escavar a mina ou abrir o poço! Até parece que tinha preferências entre os filhos, condenando uns e premiando outros!
— Eh! Meu pai, porque é que o nosso Jaquim e o nosso João, vão sempre a regar ou guardar as cabras e nunca vêm trabalhar para a mina?! Quando é que nos calha a nós ir regar e pastorear e a eles virem para aqui surribar?! — reclamavam.
E é verdade que aqueles a quem encarregava de regar ou guardar gado era como se os mandasse para o Albergue da Mitra. Eram trabalhos muito mais leves! Nada semelhantes em cansaço e esforço! 
O que ia regar era só abanar a tranca da presa, com um solavanco. E deixar correr a água pelo bueiro, a meio rego, para que a levada não fosse muito vigorosa. Pois, se o fosse, levava, à frente, os tornadouros! Ficava, depois, em pé, encostado ao sacho, de costa direita, a vigiar a água a marear no renovo. E punha-se, depois, a assobiar ou trautear uma canção!
O outro, o que ia apascentar, soltava o gado. Limitava-se a segui-lo e a vigiá-lo até ao mato ou ao pasto. Entretinha-se, depois, a fazer um pífaro de cana. Ou a gravar uns desenhos no cajado, com a navalha que trazia sempre no bolso. E que manejava muito bem. Fosse para cortar o toucinho em cima da broa, à merenda. Fosse para fazer aqueles artefactos. 
Guardar gado e regar, esses é que eram dois trabalhinhos que nem duas minas! Mas de oiro! De boa vida!
— Calem-se, rapazes, que esses vossos irmãos ainda não têm corpo e ossos bem formados para aguentar esse trabalho! Há de chegar a vez deles! Haja concórdia e boa razão! E quem não tem olhos que os abra!
Tinham que se calar! As coisas eram assim, até se tornarem autónomos e casarem! Se vinham da tropa e eram mais serôdios e não casavam logo, continuavam a trabalhar na casa paterna. Que os laços daquelas famílias eram deveras agregadores!
Mas, nos protestos, nunca se atreviam a reclamar dos trabalhos desempenhados pelos irmãos mais velhos. A idade era um posto. Na tropa, como em casa! A autoridade dos anos, colocava-os próximo do poder do pai, que coadjuvavam. Faziam trabalhos menos pesados, é certo, mas de muito maior responsabilidade. Os que tinham umas letras, iam a Castelo Branco pagar a décima e tirar as licenças. Ou ao Fundão, escolher e comprar a batata de sementeira e adquirir as ferramentas necessárias para o trabalho. Pelo S. Miguel, iam mercadejar e trocar algum gado. Ou vender um ou outro saco de semente de pinho bravo. Assim, o ti’ Abelha, gerindo tensões, pondo regras e dirimindo conflitos entre os filhos, conseguia a desejada harmonia. O que, numa família grande, nem sempre era fácil!
Todo o labor a revolver a terra à procura de água, era a pulso, de picareta em punho e padiola na mão, ou a balde, a derrear os braços! Se fosse de verão, dormiam na fazenda, chegados a um dos lados da casa. Onde armavam catres em madeira, sobrepostos, dois a dois, a partir de meio metro do chão térreo. Separavam-nos por divisórias com paredes de ripa, carqueja e barro amassado. Sobre eles, punham colchões de palha centeia. Tudo aquilo, já se vê, não era muito confortável. E aí é que eram elas, com a moinha do corpo do trabalho da mina! Mas tudo passava. Eles eram jovens encorpados. Tinha que passar! De manhã, ainda de madrugada, estavam prontos para outra!
  
No geral, tudo era fartura de água! Mas o certo é que, de vez em quando, também havia secas. Mais raras, mas havia! E das grandes! Verões abrasadores de estiolar e calcinar tudo! A terra ficava feita em pó! Conquanto que as enormes e longas invernias que alagavam tudo, fossem muito mais comuns!
Muito calor e muito frio! Era assim a diversidade da Natureza, a desafiar a bazófia dos homens que tudo julgam saber! Ou seria o Diabo a querer trocar as voltas aos desígnios de Deus! Sabe-se lá! O mal, às vezes, parece que quer vencer, mas o bem acaba por triunfar! E a bonança retorna sempre ao seu lugar, trazendo equilíbrio ao mundo! Porque Deus Super Omnia!
As agruras do tempo, porém, parecia que queriam arrancar a samarra a quem andava nos trabalhos penosos do campo! Mãos engadanhadas e dedos retorcidos do frio, no inverno! Suor a escorrer, às bagas, pelas costas abaixo, com a camisa ensopada, no verão! Com um calor abafado, de faltar o ar!
Ti’ Fecisco Abelha dizia, muitas vezes, na roda de amigos, meio a brincar, mas sabendo que o caso era sério, na bondade da sua rudeza, moldada por uma vida de canseiras:
— O bicho homem é avesso a extremos! Não há senso nestes tempos! Isto até parece obra do sacana do Barzabu(1), a retorcer-se, quando a luz da espada do Arcanjo Miguel lhe atravessa a crusta!   
Manel e Alfredo, às ordens do pai, um tanto às cegas e, a muito penar, lá acabaram de escavar, quanto bastava. Primeiro, deram com uma pequena nascente. Parecia que vinha um pouco a medo. Depois, cavaram mais um bocado e começou a dar boa água! Finalmente tinham acabado a mina!
A certa profundidade, três dos irmãos mais velhos deixavam outros afazeres e iam ajudar. Uns a meter escoras para suster a terra e as pedras, não fosse haver uma avalanche que os soterrasse a todos! Outros a martelar, lá no fundo, de marreta e guilhos na mão! 
Ao todo, estavam em casa, ainda solteiros, sete rapazes e duas raparigas.
Mas quantas vezes os trabalhos terminavam em vão! Fosse porque apanhavam um veio de pedra rija, intransponível, que impedia o avanço e não pagava a pena recorrer a tiros de pólvora. Fosse porque, depois de muito vasculhar a terra, em certos sítios mais secos, a nascente teimava em não aparecer!
Se não se encontrava água, o pai, descoroçoado, mandava arrasar tudo!
— Ai o raio da mina de um ladrão que não me dá água nenhuma! Tanto prejuízo, em trabalho, que esta alma do diabo me levou! — lamentava-se Abelha. — Isto é que este damonho me espetou uma cria! Hã!
Muitas vezes não se tinha sorte! Era só isso! Porque, nessas coisas de vedores ou radiestesistas, ou lá como lhe chamavam, o ti’ Fecisco Abelha, nunca, por nunca ser, acreditou!
Desta vez, acertara! A mina dava água que bonda! Era mais um ponto de frescura na paisagem árida do verão! Na sua humidade obscura, balsâmica, podia-se esfriar um pouco da calmaria. Lavava-se a cara ardente. Matava-se a sede na água frígida, de fazer doer os dentes! Porque, em redor, na modorra das tardes tórridas, apenas o canto estonteante da cigarra, atravessava, devagar, o ar a estalar da canícula!

Os anos foram passando! Os filhos tiveram filhos! Renovaram-se gerações! Ao tempo, os netos mais pequenos acompanhavam, muitas vezes, os avós na vida do campo. Fosse porque os pais tinham outros compromissos, fosse porque não se encontrava uma tia ou mesmo uma vizinha que tomasse conta deles. No verão, mesmo se já frequentassem a escola, gozavam as férias grandes! Iam às ceifas, às debulhas, às regas!
Eram os primeiros contactos com a terra e a água. Com o calor e a fresquidão. Com a palha seca dos cereais prontos a ceifar ou com o verde das ervilhas, dos feijoeiros ou das alfaces. Com o tempo bom, sempre espinoteavam mais! Amiúde lhes apetecia deitarem-se na terra molhada, à sombra do milho, a refrescar! Ou brincar às represas! E lançar, na levada, pequenos barcos de papel! Ou de corcódea de pinheiro, aparelhados a canivete!
Um dia, no verão, no Monte do Gaio, de boas e férteis áreas de cultivo, ótimas hortícolas, frescor extravasante, era já tarde, tardinha!
Ti’ Felismina dos Casais, avó, como todas, babada dos seus netos, regava. Mesmo ao fundo, junto à parede que dava para o leirão de baixo! Era vital para as couves, as nabiças, as alfaces e outros produtos verdes, necessários, dia a dia, na mesa da família. Mas havia também batatas e milho do alto. A rega demorava um bom pedaço!
Ti’ Felismina, era uma mulher de bondade angélica, de alegria permanente e galhofeira. Corria pelos Casais que nunca ninguém a vira zangada! Tinha o dom da piada fácil, simples e irónica. Contrastava, em parte do seu modo de ser, com o marido, o ti’ Fecisco Abelha, de quem já se falou, com quem era casada há longos anos.
Àquela hora estava já mais fresco nas terras baixas, junto ao pequeno ribeiro que ali passava. Onde havia água corrente, apenas até ao mês de março! Daí, a necessidade de explorar pontos de captação. A prática era corrente em todas as fazendas cultivadas. Exceto nos lameiros, junto à ribeira, onde marinhava todo o ano! Por isso ti’ Abelha abrira outra mina. A mina do Cerro Velho. Era com a água dessa mina que a avó regava, naquele dia. Tão santamente como de costume!
A tarde já era curta, mas, no verão, daí até à noite, era ainda um dia de inverno! A rega tinham que ser feita com o sol a descair para o Ocaso. Assim, a terra conservava por mais tempo a frescura deixada pela água. Que não se dissipava tão rapidamente com o calor!
Tinham ido com a avó, naquele dia, ao Monte do Gaio, dois dos netos mais novos. Eram dois rapazes, primos direitos entre si e ainda crianças. Andariam pelos seus sete anos. Enquanto ela fazia a rega, tão distraída e compenetradamente como sempre, os netos tinham-se entretido, na brincadeira, perto da boca da mina, à saída para o primeiro tornadouro. No ponto onde estavam, achavam-se encobertos pelas couves e nabiças da horta e, sobretudo, pelo milho alto, que os ultrapassava, em altura, uns bons vinte centímetros! De modo que, a avó não os via. E eles apenas a divisavam, espreitando por entre as caneiras do milho!
Dizia-se que a velhacaria nascia quando se completavam os sete anos! Terminava aí o estado da inocência. Embora isso não se soubesse. Pois esse podia ser um daqueles pontos inacessíveis em que o enigma do homem permanecia. À falta de meças, porém, aceitava-se essa idade, como convenção, para se responsabilizarem os jovens, em certos termos, perante Deus e os homens. Com sete anos se entrava para a escola. Com sete anos se supunha mais credível o testemunho em tribunal. Com sete anos se fazia a primeira comunhão. Em suma, aos sete anos se presumia que se podia distinguir o bem e mal!
Mas, lá dizia o ditado, “Com a canalha, nem o Diabo quis nada!”. Os adágios populares encerravam sempre uma verdade. Era a verdade da observação coletiva, da “vox populi, vox Dei”. Com a faculdade da razão, do arbítrio e da escolha, entre o bem e o mal, a canalha escolhia quase sempre o mal! Nunca lhe dava para o bem. Só fazia asneiras e cometia tropelias! O provérbio parecia, portanto, confirmá-lo!  
Tudo isso aparentava ser muito acertado. Mas talvez não fosse assim tão pacífico. Se bem se procurasse, para cada aforismo, não raramente se encontrava o seu contrário. Por outra banda, nem sempre a opinião geral traduz toda a verdade. A virtude estaria, algures ali pelo meio. Dizia-o o bom senso!
Os dois cachopos, os netos da ti’ Felismina dos Casais, não eram, nem mais, nem menos, que os outros. Praticavam, como, afinal, todas as crianças, a suas boas e más ações. Nos folguedos, punham as mães ou as avós em alvoroço, quando partiam as cabeças ou esfolavam os joelhos dos trambolhões, nas pedras da calçada velha! Mas, à noite, as correrias acabavam! Ao colo da mãe ou da avó, na paz do lar, o carinho e as momices retornavam!

Desta vez, porém, os dois garotos, tinham congeminado ludibriar a avó que fazia a rega ao fundo do leirão da mina. Os marotos, pensaram, imagine-se, em cortar-lhe a água! Para o que bastava mudar o tornadouro, logo ao início da regadia! Desviando o curso da regueira para o lado oposto ao terreno em que a avó regava. Quando esta desse pelo logro, já não teria água! O que, sem dúvida, não deixava de ser um mistério! Pois, pelo tempo decorrido e pelo terreno já regado — pensaria ela — ainda a mina haveria ter muita água! Mas, então, já os malandros estariam lá para diante, escondidos atrás de uma moita, a rir-se da tramoia! E a ver, de longe, a avó andar à nora, a procurar saber a razão do sucedido!
A maldade premeditada é sempre a pior. Porque é traiçoeira e insidiosa. Mas, nem por ser planeada, se conseguia, sempre, levar ao seu termo. Nada do que os dois mariolas conjeturaram foi concretizado!
É que, sobre o tornadouro da água que os dois tratantes tinham decidido desviar à sua avó, encontrava-se uma pedra. Era uma maneira de o reforçar. Por forma a que, a corrente, por vezes mais forte, não o destruísse e se desencaminhasse a água! O que levaria à sua dispersão pelo terreno, tornando impossível direcioná-la para o local desejado. Para cortar a água era, pois, necessário remover a pedra! Se os dois rapazes lhe pegassem, um de cada lado, seria possível deslocarem-na. A terra, por baixo da pedra, essa, seria de fácil remoção, apenas com as mãos ou com a ajuda da lasca de xisto rijo, que, para o efeito já tinham arranjado!
A irreverência, a exaltação e, pior, a falta de simplicidade, levam muitas vezes à perdição. Nas palavras que se seguem, podia ver-se o cúmulo da vaidade de um traquina:
— Deixa, primo, que eu, sozinho, sou capaz de tirar a pedra! — disse um dos mariolas para o outro, ufano da sua importância!
Então, enquanto o primo assistia, fletiu-se sobre o tornadouro. Procurou assentar melhor os pés, em terreno fixo. Esticou os braços e meteu os dedos, por baixo, em cada lado da pedra, o mais que pôde. Tanto quanto alcançavam as suas pequenas mãos. E fixou-os no vinco, mais fixe, que conseguiu tatear. Firmou-se, esforçou-se e ainda conseguiu demovê-la um pouco! De repente, porém, num ato instantâneo e reflexo, como alguém que sente uma repelência abjeta, aguda, viu-se o rapaz largar a pedra e pôr-se aos gritos, com o primo estático e boquiaberto:
— Ai, ai! Ai, ai!
Um escorpião que, por baixo da pedra, se sentira importunado na sua toca, mordera-o na mão, ferrando-o a bom ferrar! Ainda o tinham visto, de raspão, a fugir e a meter-se pelo meio das ervas! Só então o primo percebeu o que acontecera! Mas a perplexidade e o desassossego gerados, permitiram que a repugnante criatura fosse, ligeira, à sua vida, incólume e sem punição!
— Ai, ai! Ai, ai!
Aos brados do neto, acudiu prontamente a avó, acordada da quietude com que regava a horta! Inteirou-se do que se passara. E, calma e carinhosamente, como era seu timbre, tentou acalmá-lo. Passando com as suas mãos por cima da mão mordida da criança chorosa.  
— Onde é que te dói, meu filho?!
As palavras ajudam sempre o espírito, mas não aliviam a intensidade da dor!
— É aqui, avó! — apontava o menino, na sua mão, o sítio da mordedura.
— Mas não se vê cá nada, meu amor!
— Pois não, avó, mas dói-me! Ai! Ai!
É verdade que quase não se dá pelo local de certas picadas. Não fazem sangue! Mas doem! Não havia forma de consolá-lo! E fossem lá falar agora de remédios! No Monte do Gaio não era lugar para essas coisas! A farmácia situava-se na vila, longe, e já eram horas de estar fechada. Os remédios eram caros!
Os pais e avós do tempo, eram avessos a remédios. Salvavam, porém, a face, sendo engenhosos. A isso obrigava a necessidade. Tinham as suas mezinhas. Sabiam que os seus métodos em pouco ou nada atenuavam o sofrimento. Mas sempre era um gesto para enganar a mente do enfermo. Nada fazer, seria pior. Então, a avó, pôs sobre a mão doente do neto uma folha de couve. Talvez o distraísse com a suavidade fresca do vegetal. Quando a couve aquecia em contacto com o a mão, tirava-a e punha outra. Como isso não tivesse surtido efeito, meteu-lhe a mão na água. Mas, isso, arrefeceu-lha e não lhe tirou a dor. Estava à vista, que, mais ou menos calor ou frio, nenhum lenitivo trazia. Depois, pôs-lhe um pedaço de lama de terra argilosa. Diziam que fazia muito bem às picadas das vespas. Podia ser que resultasse com a picada de alacrário.
Após as primeiras horas, não era que o sofrimento fosse menor, mas a criança já se acomodara um pouco. Depois do choque inicial, passou a existir uma espécie de previsibilidade na dor. O corpo do jovem arranjara resistências naturais, como acontece com todos os organismos, perante a ofensa e adversidade do meio. O moço entrou, então, numa lengalenga magoada, “ai! ai! ai!”, prolongada e monocórdica. Era o início de uma via- sacra!
Chegava quase a noite quando regressaram a casa. A avó tentou, em vão, adormecer o neto. Como os outros remédios não tivessem logrado produzir o desejado abrandamento da dor, ainda lhe pôs manteiga na picada. Procurava tranquilizá-lo, nem que fosse, por sugestão, mais uma vez. Nada! A dolorida cantilena do rapaz, que, sem adormecer, apenas semicerrava, às vezes, olhos, vencido pelo cansaço, prolongou-se pela noite fora, “ai! ai! ai!”!
Já o dia seguinte ia alto quando a dor o deixou. E pôde, finalmente, descansar!
Mas a ti’ Felismina dos Casais nunca veio a saber da trapaça que os netos lhe haviam preparado, naquele dia, no Monte do Gaio. Afinal, a água da rega não chegara a ser cortada!
E se os remédios caseiros daquela avó não tinham surtido qualquer efeito, a sua paciência, essa, era infinita!

Notas: (1) Escorpião, Lacrau.  
(2) Belzebu, Demónio.  
Obs.: Neste texto podem ter sido utilizados termos locais ou regionais que não constam dos dicionários oficiais.

José Barroso

sábado, 8 de julho de 2017

D. Sancho I

Os sinos do mosteiro de Santa Cruz dobram, dentro do templo encontra-se uma urna que contém o cadáver do rei Sancho I de Portugal, colocada em cima de uma essa ricamente ornada, ladeada por seis tocheiros, três de cada lado.
  Frades agostinianos com seus hábitos negros cantam em cantochão salmos fúnebres, imploram ao Senhor o perdão dos seus pecados e receba sua alma na morada eterna do Céu
  O largo fronteiro ao mosteiro está apinhado de gente que reza e chora a morte do bom rei. Sofria de uma doença terrível que grassava em Portugal e em toda a Europa, a lepra.
  Não poupava ninguém, pobre ou rico.
  D. Sancho I morreu desse terrível mal, a igreja considerava castigo de Deus.
  Findas as exéquias fúnebres, o cadáver foi colocada num mausoléu, perto do túmulo de seu pai D. Afonso Henriques.
  Tinha 56 anos quando naquele dia 26 de Março do ano 1211 entregou a alma ao Criador.
  A vida quotidiana decorria com normalidade em Sanctus Vincencii; os servos trabalhavam para os senhores, donos das melhores terras, alguns tinham que fazer corveio, que consistia em trabalhar gratuitamente um ou dois dias da semana para o senhor dono da terra, os que moravam nas Vinhas, na Fonte da Portela, eram livres de qualquer encargo perante o senhor feudal, dai haver alguns renitentes…
  Alguns dias após a morte do rei, um arauto entrou em Sanctus Vincencci, contactou os Homens Bons, estes, imediatamente mandaram tocar o sino da igreja.
  Mensageiro anunciou a todos os moradores o trágico desfecho.
O povo chorou amargamente a morte de D. Sancho, prior rezou ofícios divinos pela alma de sua majestade.
  Rei morto, rei posto; D. Afonso II seu filho, sucedeu-lhe no trono.
  D. Sancho nasceu no dia 11 de Novembro do ano 1154, ”dia de São Martinho”; por esse motivo deram-lhe o nome Martinho.  
  Henrique, seu irmão, “morreu criança”; por morte deste, o herdeiro da coroa passou a ser Martinho. Os nobres achavam que este nome não era o mais apropriado, passou a chamar-se Sancho Afonso.
  Casou D. Sancho I com Dª Dulce de Aragão no ano 1174 de quem teve dez filhos: D. Afonso; D. Pedro; D. Fernando; D. Henrique; D. Raimundo; D.ª Berengária, que foi rainha da Dinamarca; D.ª Branca e as beatas Teresa; Mafalda e Sancha.
 Para além dos filhos legítimos D. Sancho teve alguns filhos naturais: D. Martim Sanches e D.ª Urraca Sanches; filhos de D.ª Maria Aires de Fornelos.
  De D.ª Maria Pais Ribeira teve seis filhos: D. Rodrigo; D. Gil; D. Nuno; D. Maior; D.ª Constança; D.ª Teresa.

  O campo, nomeadamente as Vinhas, Fonte da Portela, eram lugares onde ainda moravam muitas pessoas; certo dia, ouvem-se gritos aflitivos, vinham do lado da Oles.
  Fujam… vêm aí os sarracenos; matam e queimam tudo por onde passam!
  Pedro Afonso homem possante, valente, imediatamente reúne malados, peões, cavaleiros vilãos…armados de chuços, vão ao encontro dos sarracenos; estes vendo que não conseguiam vencer os habitantes das Vinhas e Fonte da Portela fugiram em direcção à campina dilatada de Vila Franca da Cardosa.
  D. Afonso I já tinha atribuído nome à nova povoação que se encontrava mais acima no sopé da serra, as brenhas, os ursos e outros animais por onde passavam devastavam… eram como o inimigo quando fazia algum fossado.
  Os moradores aos poucos foram deixando o campo, apesar de as terras serem mais fáceis de arrotear, as formigas e a falta de água, obrigava-os a deixarem suas cabanas.
  Os vizinhos, à medida que iam chegando a Sactus Vincencii, eram logo ajudados pelos que já lá moravam, todos juntos levantavam paredes e nascia mais uma casa; as mulheres pariam, o povo rezava na pequena igreja, até que um dia o rei D. Sancho querendo povoar o interior do reino convidou gente da Flandres, da Borgonha… a viverem em Portugal.
  Sanctus Vincencii, já era uma terra importante, o rei sempre preocupado com a governança, defendendo o comércio e fomentando a criação de riqueza atribui forais a muitas terras das beiras.
  Covilhã, 1186; Viseu, 1187; São Vicente 1195; Guarda 1199…
  D. Sancho I não se preocupou somente com a criação de concelhos atribuindo forais, também era meticuloso na administração dos dinheiros públicos, deixou muitos morabitinos nas arcas.
 
  Naquele dia pelas ruas da vila ouviam-se pandeiros, guizos, castanholas; eram dois jograis que anunciavam um folguedo no terreiro, vinham acompanhados por uma amásia e uma soldadeira.
  Saltério, viola de arco e outros instrumentos eram tocados pelos jograis, o povo acorreu em massa, as mulheres dançavam enquanto uma tocava o pandeiro e a outra, castanholas...
  O largo estava todo iluminado com archotes e banhado pela lua cheia; compareceram todos os moradores, que assistiram ao espectáculo com alegria.
     
A do mui bom parecer
mandou lo adufe tanger
louçana, d`amores moir`eu

  A hora ia adiantada, mas ainda houve tempo para ouvirem um jogral declamar uma trova da autoria do rei D. Sancho I; foi um grande protector de trovadores e jograis.
Vamos lá então:
Ai eu, coitada, como vivo em gram cuidado
Por meu amigo, que hei alongado!
Muito me tarda
O meu amigo na Guarda!

Ai eu, coitada, como vivo em gram desejo
Por meu amigo, que tarda e nem vejo!
Muito me tarda!
O meu amigo na Guarda!

  Quando os jograis deram por terminada a função, todos foram para a deita satisfeitos.

  Em nome da Santa e indivisa Trindade, Pai, Filho; Espírito Santo, ámen. Eu, rei Afonso, filho do rei Sancho, juntamente com minha mãe rainha Dulce, e ao mesmo tempo com G. Martins, prior de São Jorge e todo o seu convento e com frei João de Albergaria de Poiares, queremos restaurar e povoar o lugar de São Vicente, damos e concedemos o foro e costumes da cidade de Évora a todos, tanto presentes como futuros que lá quiserem habitar…
 (…) Se alguém quiser rasgar este facto nosso seja amaldiçoado de Deus.
Concedemos a todo o cristão, embora servo, desde que habite durante um ano em São Vicente, seja livre e ingénuo, ele e toda a sua progénie…

  Resumindo: uma vila do tempo da fundação de Portugal, e nunca houve ninguém que tenha atribuído o nome de uma rua, largo ou praça ao rei Sancho I ou erguer-lhe um busto. Nunca é tarde para corrigir…
Fiquem bem!

Notas:
Essa: Estrado onde se coloca o caixão com o cadáver durante as cerimónias fúnebres
Cantochão: Canto da igreja católica, canto gregoriano
Malado: Pessoa sujeita a encargos e serviços dos senhores feudais
Peão: Soldado de Infantaria; plebeu
Jogral: Músico
Amásia: Amante
Soldadeira: Mulher que serve por soldada, criada
Saltério: Instrumento musical de cordas
Louçana: Louçã
Hei alongado: Tenho ausente

Pesquisa:
História de Portugal, Fortunato de Almeida, Promoclube
Fotografia D. Sancho I, História de Portugal, Fortunato de Almeida, Promoclube
História da Literatura Portuguesa Ilustrada, Albino Forjaz de Sampaio, Livrarias Aillaud e Bertrand
Cantiga de amigo, (Ai eu, coitada…) História da Literatura Portuguesa Ilustrada, D. Carolina Michaelis de Vasconcelos

J.M.S

José Barroso

domingo, 11 de junho de 2017

Fé, ateísmo e proselitismo

Na sequência do texto sobre Fátima que há pouco tempo assinei neste blog, escrevo agora este outro, que pouco tem a ver com o primeiro. De alguma forma, porém, é, para mim, um aditamento clarificador. Mas, antes, duas advertências.
A primeira para dizer que respeito todos os que pensam de maneira diferente da minha. Este texto é, eventualmente, apenas, para confrontar ideias. E serviu de base para responder, noutra instância, a um amigo meu, que bastante prezo e que se assume como ateu (1).
A segunda, para pedir desculpa a muitos dos leitores que, certamente, acharão estes temas uma grande maçada! E com alguma razão! Mas, enfim, são poucas as vezes que aqui aparecem coisas destas. E acontece que sempre me inquietei com elas! Vá lá saber-se porquê! Ou talvez se saiba!...
Diz esse meu amigo, em consonância com as ideias que abraçou, que Deus não existe! Para se escorar nessa difícil posição (na verdade, o grau de dificuldade para provar que Deus existe ou que não existe, é o mesmo!), recorre, esse meu amigo, a argumentos de autores de vários quadrantes e sensibilidades. Todos próximos, porém, da sua orientação doutrinária. Entre eles, alguns que afirmam que os crentes são mesmo uma espécie de loucos! Mais comezinhamente, mas com idêntico conteúdo, li recentemente, algures numa revista, que Lúcia, uma das chamadas videntes de Fátima era uma doente mental.
Afirma ainda esse meu amigo que quer que o deixem em paz com todas essas embrulhadas da religião! Quer viver livre de todas as pressões e confusões do proselitismo (2), que os apaniguados das várias religiões têm cultivado ao longo dos séculos, para converter descrentes e pagãos. E tem esse direito!
Vamos ver se nos entendemos.
Apenas por via da razão e da lógica – instrumentos do nosso conhecimento – é claro que não se prova a existência de Deus. Pela mesma ordem de pensamento, não se comprova a Sua não existência. É mais ou menos o que afirma o agnosticismo (3) que diz, justamente, que Deus não pode ser conhecido porque – como Ser Absoluto - não é suscetível de ser sujeito a uma análise racional.   
Ora, é certo que a razão e a lógica são as bases da ciência, que constitui todo o património do nosso saber (conhecimento objetivo). Quer dizer, que pode ser explicado e que todos podem constatar. Mas já não são a origem de todo o conhecimento humano, mais vasto (conhecimento subjetivo). Isto é, aquele conhecimento que apenas cada um nós apreende, por si mesmo, que adquire pelas suas vivências e experiências ao longo das mais variadas situações da vida!
Ademais, sabemos que a ciência, que tanto fascina alguns e, na qual se reconhecem, efetivamente, enormes avanços, é, apesar disso, tão pequena que não nos dá as respostas mais óbvias aos nossos naturais e, por isso, tão expectáveis anseios.
Mas também é certo que quem se manifesta apenas pela fé, menosprezando, totalmente, a razão, pode cair na crendice. Veja-se a religiosidade popular, que, todavia, deve ser respeitada, se não for por adesão de opinião, que seja, ao menos, pela sinceridade das pessoas. É o que acontece em fenómenos como o de Fátima.
Igualmente, aqueles mesmos que atuam unicamente pela fé, podem também tornar-se doentes fanáticos. Pense-se, neste caso, nos que andam a cometer atos de terrorismo, matando dezenas de inocentes ou imagine-se o tempo da inquisição católica.
Por estas e por outras, como já se disse, alguns autores veem os crentes como loucos! Mas a fé é a única forma de respondermos às nossas grandes inquietações. O que carece é de ser esclarecida pela razão. Fé e razão, são, pois, dois elementos que fazem parte da nossa vida psíquica e não podem dissociar-se no ser humano.
A fé, tal como os amores, os ódios e tudo o que são emoções, faz parte do domínio do nosso irracional! Por sua vez, a razão, a lógica, o pensamento e os atos em geral, que usamos para governo da nossa vida, fazem parte do nosso racional! 
Receio, por isso, ter que dizer que ateus, agnósticos e descrentes em geral, também têm a sua fé! Pois, espero que, se nada lhes faltar, tenham também eles, como todos nós, a sua dimensão irracional! Se não têm fé em Deus, têm-na noutras coisas, entidades ou pessoas. E, se não em Deus, porque não O veem, manifestam-na nas suas paixões e arrebatamentos, em muitas situações da vida. Estados psíquicos esses, que eles também não conseguem clarificar! Portanto, sendo a fé a adesão ao que se considera absolutamente verdadeiro, logo, irracional, não pode, por isso mesmo, ser explicitada. Tal como os ateus e agnósticos (e todas as pessoas, afinal) não podem explicar a exaltação pela música do seu cantor preferido ou pelo seu clube de futebol! Têm apenas essa vivência! É como muitas vezes se diz de certo estado de alma: vive-se e pronto! Da mesma forma, a fé só pode ser experimentada pelo próprio.
E é, por consequência, a única forma de se poder chegar a uma outra verdade que não a científica, ainda que seja, por isso mesmo, uma verdade subjetiva. Mas que não deixa de ser uma verdade tendencialmente absoluta, ainda que válida apenas para quem a vive! Para essa pessoa essa é a sua verdade. 
Só para dar mais dois exemplos: como é que ateus e agnósticos (falo só deles, mas todos nós sabemos que assim é), podem explica o Amor (assim mesmo, com maiúscula) por uma mulher ou por um filho?! Eles bem sabem que não podem! Porque esses afetos, não só não têm valor económico, como não têm dimensão de qualquer outra natureza, que se possa dizer mensurável! Sabe-se apenas que tais vivências se aproximam do absoluto e, sendo assim, são tendencialmente impossíveis de entender. No entanto, existem e são bem reais!
Como se vê, todos possuímos a nossa face irracional! Por isso, quanto a saber quem são os loucos, como dizem certos autores, não é necessário pôr mais na carta, porque estamos conversados!
Os ateus, agnósticos e descrentes, quando se interrogam sobre o seu destino último, tomam uma atitude de conformismo ou de revolta perante a finitude física. Entretanto, vão admirando as maravilhas da ciência, mesmo sabendo da sua precaridade – como, debalde, fizeram todos os Cientismos. Ora, sendo a ciência passível de uma demonstração objetiva, acontece que os crentes, mesmo com uma pontinha de loucura (afinal, como todos os outros), também a compreendem. E ambos, crentes e não crentes, sabem, perfeitamente, que ela, sendo embora importante, não passa de uma verdade relativa. Mas só os segundos parece conformarem-se com esse relativismo e contentarem-se com essa meia verdade!
Relativamente ao proselitismo de que se queixa o tal meu amigo (pelo menos no que concerne ao Catolicismo), diz o Código de Direito Canónico, Cân. 748, § 2: “A ninguém é lícito coagir os homens a abraçar a fé católica contra a sua consciência.”. Também aqui, estamos conversados! 

Notas:
(1) Ateísmo: doutrina que nega a existência de Deus.
(2) Proselitismo: atividade que tem por missão angariar adeptos para determinada religião, partido, etc.
(3) Agnosticismo: doutrina que declara que a existência de Deus não é acessível ao espírito humano, por não ser passível de análise racional.


José Barroso

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Tempo de milagres

Os autores têm tentado, ao longo dos séculos, explicar o nosso mundo, quer material e físico, quer espiritual. A matéria, de certa forma, impõe-se-nos aos sentidos. O que não acontece com o mundo espiritual. Pese embora tudo não seja assim tão simples, vamos supor que é! E, assim, nada espanta que seja mais fácil explicar o primeiro que o segundo. Acreditar no mundo espiritual é mesmo, para muitos, uma impossibilidade. E essa é a maior razão, por que, talvez, metade da humanidade se diz descrente, ateia ou agnóstica. Mas vejamos: o que dizemos nós acerca do Amor, da Justiça, da Paixão ou da Beleza?! A nossa vida está carregada dessas vivências, desses sentimentos! E todos eles fazem parte do nosso mundo afetivo, emocional, irracional, numa palavra, espiritual. À nossa razão, mesmo com a sua dura lâmina e finíssimo corte, é vedado penetrar na Alma.

Tem isto a ver com uma pergunta que se julga oportuna e atual: que fenómeno, afinal, se terá passado em Fátima? Ou nada se terá passado, a não ser uma espetacular manifestação popular, sedenta de um unguento para a suas feridas corporais e espirituais? Não podemos negar as experiências pessoais destes casos, se relatadas por pessoas idóneas e de boa fé, tomando-as como fantasias. A questão é saber como podem tais fenómenos ser entendidos pela generalidade da população, se só os que os vivenciaram os puderam conhecer? Percebe-se por que os três pequenos pastores de Fátima, pediram à visão, a qual diziam ser Nossa Senhora (Mãe Terrena do Jesus histórico), que fizesse um milagre que seria o sinal para que todos acreditassem no que eles próprios vivenciaram.

Esse terá sido o chamado milagre do sol, a 17 de outubro de 1917. Já lá iremos. Mas sobre Fátima há explicações para todos os gostos! Uns dizem que foram extraterrestres. Entre teólogos e padres católicos, uns dizem que foram aparições, outros, visões. O padre Mário de Oliveira (católico dissidente), nega o caso de Fátima. Frei Bento Domingues parece que também tem dúvidas quanto à narrativa das chamadas aparições. O atual bispo de Leiria-Fátima, compara a visão dos videntes com o Crucificado. Isto é, quem morre fisicamente não pode mais aparecer aos nossos olhos com a sua dimensão material. Outros se pronunciaram. De entre todos, Ratzinger, iminente teólogo, atual papa emérito, Bento XVI. O antropólogo Moisés Espírito Santo entende que Fátima é uma manifestação do Islão (com base na ocupação do território português pelos Mouros). Fátima é a filha do Profeta Maomé, sendo, por isso, um topónimo árabe, etc., etc. Um ponto, porém, parece impor-se como convergência de muitos dos autores e estudiosos do fenómeno. Dizem que algo se passou em Fátima, especialmente, naquele dia 13 de outubro de 1917! O único milagre relacionado com o sol é descrito no Antigo Testamento, quando se diz que Deus parou aquele astro para dar tempo a que Josué pudesse desbaratar o inimigo de Israel, com quem travava uma batalha, tarefa que não poderia levar a cabo, caso entretanto anoitecesse! Trata-se, certamente, de mais uma descrição simbólica de que está pejada a Bíblia!

Como crente, ressalvo a ideia de que a Deus nada é impossível. Uma premissa irredutível! Mas como curioso destes acontecimentos e ser racional, admito que será lícito assentar no seguinte: não é admissível que o sol físico, o astro sol, se tenha deslocado um centímetro que fosse do seu lugar! Porque isso seria uma hecatombe universal com consequências inimagináveis para a vida do sistema solar e, particularmente, da Terra! Por outro lado, se se tratasse de um fenómeno dessa magnitude, tal teria que ser visto em cerca de metade da Terra. Quer dizer, em todos os locais onde, àquela hora, o sol fosse visível, caso não houvesse nuvens! Atenta, obviamente, a hora e o fuso horário de Portugal. Com efeito, sabendo nós que Terra é redonda, ela está permanentemente iluminada de um lado, onde é dia, enquanto no outro é noite.

Ora, parece que não existe notícia de qualquer registo em observatórios astronómicos por esse mundo fora, relativamente aos acontecimentos desse dia em Portugal. Se assim for, o caso leva-nos, forçosamente, à conclusão (como dizem algumas fontes) que o fenómeno terá tido lugar no céu de Fátima apenas a cerca de 500 metros de altura (numa avaliação grosseira), a calcular a partir do local mais distante do epicentro onde terá sido observado (e de que há notícia), que foi a casa do poeta Afonso Lopes Vieira, situada a cerca de 40 Km de Fátima, que disse tê-lo testemunhado.

Alucinação coletiva da multidão, como a Psicologia procura explicar? Esta tese não colhe juntos dos estudiosos (ou pelo menos da maioria), porquanto o acontecimento foi visto por muitos: crentes, descrentes, ateus ou agnósticos. E se os nossos olhos só veem o que querem ver, só os crentes estariam imbuídos de uma predisposição interior para aceitar o fenómeno como uma ilusão. Como explicar que uns tenham visto e outros não? Dois exemplos para ilustrar: algumas fontes dizem que o poeta e ensaísta português, António Sérgio, estava lá acompanhar a esposa e nada viu. Mas há outra testemunha ocular que atesta o contrário. Trata-se de um professor de Ciência Naturais da Universidade de Coimbra que nunca tinha visto um fenómeno como o que presenciou. E não conseguia explicar o que tinha acontecido, com o sol a rodar e a mudar de cor.
        
E aconteceram todas aquelas coisas descritas como maravilhosas por milhares de testemunhas. Coisas sobejamente conhecidas em Portugal e em todo o mundo! Em face do que a Igreja Católica acabou por aceitar tudo como manifestação sobrenatural e divina, oficializando o culto mariano de Fátima. O que foi, definitivamente, confirmado com a vinda, pela primeira vez, de um papa a Fátima, Paulo VI, em 1967 (por ocasião do 50.º aniversário das aparições). Já vimos que, sobre estas coisas, cada um diz o que sente ou o que lhe parece, com mais ou menos informação.  

Já foi publicado neste blogue o seguinte texto: «E, quando já não imaginava que via alguma coisa mais impressionante do que essa rumorosa mas pacífica multidão animada pela mesma obcessiva ideia e movida pelo mesmo poderoso anceio, que vi eu ainda de verdadeiramente estranho na charneca de Fátima? A chuva, á hora prenunciada deixar de cair; a densa massa de nuvens romper-se e o astro rei - disco de prata fosca - em pleno zenith aparecer e começar dançando n'um bailado violento e convulso, que grande numero de pessoas imaginava ser uma dança serpentina, tão belas e rutilantes côres revestiu sucessivamente a superfície solar…
Milagre, como gritava o povo; fenomeno natural, como dizem sábios? Não curo agora de sabel-o, mas apenas de te afirmar o que vi...O resto é com a Ciência e com a Egreja...» AVELINO DE ALMEIDA 
(in Jornal “O Século”, de 17/10/1917). A grafia é da época).

Perante um testemunho tão claro evidente, creio que não foi tanto a história dos três meninos, nem foram os textos da Lúcia, embora em coerência com os acontecimentos históricos posteriores, que lograram levar tanta gente a acreditar em Fátima! Também não foi a revelação do terceiro segredo, no ano 2000, que ficou muito aquém das expectativas. E que se baseia apenas numa interpretação peculiar daqueles textos pelo papa João Paulo II. O que, verdadeiramente, pôde levar a acreditar que algo de extraordinário se passou em Fátima, em 1917, foi este texto desse desconhecido e obscuro jornalista d’ “O Século”, Avelino de Almeida, publicado naquele jornal alguns dias depois do sucedido. Um insuspeito antigo seminarista do seminário de Santarém, ateu e anticlericalista.

Na verdade, nunca saberemos o que terá acontecido naqueles dias na Cova da Iria. E ainda menos conheceremos a sua verdadeira natureza. Porém, continuamos a ver passar essa impressionante multidão de peregrinos! Já não são 50 ou 60 mil, mas 1 milhão! Massa de gente, consciente da sua inexorável finitude! Sôfrega de curar as maleitas próprias da sua condição! Pedindo um bálsamo para as dores e um momento de paz! Como há dias dizia um frade anónimo na televisão: “Talvez seja esse o maior milagre de Fátima”!

A fé é isso mesmo. É acreditar. Apesar das dúvidas, que sempre teremos. Porque acreditar, está para além de toda e qualquer compreensão. O tempo é, pois, de milagres!

José Barroso