domingo, 22 de novembro de 2020

Crepúsculos - 2

Desde a Páscoa, na primavera, quando o sol começava a aparecer e as flores a desabrochar, que as populações entravam a tanger música e a rebentar foguetes por todo o lado, em festas e festinhas, em honra de protetores e oragos por terras e terriolas.

E assim continuava por todo o verão.

Por alturas do terceiro sábado do mês de setembro, quando estava à porta o São Miguel, terminava mais um ciclo das colheitas agrícolas.

O tempo, esse insensível — ‘que furtava a vida a todo o vivente’, como asseverava João Jerónimo, por corruptela, João ‘Jerolme’ — fruía, porque a Terra não parava no seu perpétuo movimento.

Estava prestes a entrar o outono.

Maria Santo e Bernardo Garrancho, o casal de velhos de que vimos dando razão, tinham terminado o longo arrendamento no Casal do Ayres Raposo para regressar ao cultivo dos seus haveres que ainda eram coisa que se visse.

Nessa época dava-se a grande feira de ano.

Na Vila, a Praça e o largo da Fonte Velha enchiam-se de tendeiros.

Tudo mexia.

Abundavam as barracas de mercadores de roupa e calçado para o inverno seguinte que se aproximava. Muitos, porém, preferiam mandar fazer as botas, os sapatos e os fatos, por medida, aos artistas da terra!

Todos ganhavam.

Transacionavam-se as loiças onde os noivos compravam o acervo da futura casa e vendia-se tudo o que fosse ferramenta agrícola. O Alma Grande da Póvoa, sorriso apalermado, bonomia de ‘homem grande, corpo de palha’, exibia pequenos utensílios caseiros e apetrechos vários, como costis, ratoeiras, armelas ou joeiras.

O Xis trazia os matraquilhos e via-se em apuros com a juventude de sangue na guelra, que dava azo à sua exaltação por entre o barulho do mecanismo das mesas e a algazarra do jogo!

Vinham os homens dos baloiços.

O Moisés ocupava, havia muitos anos, o seu espaço, a vender ouro!

 Logo pela manhã, uma intensa algazarra na zona destinada aos negociantes de gado, a vozearia dos homens confundia-se com os berros das cabras, o zurrar dos burros e o grunhir dos porcos!

— Quanto quer pelo bacorinho? — perguntou um homem a um feirante que vendia uma ninhada de leitões.  

— Olhe este que belo! São duas notas! — disse, trazendo um dos pequenos animais.

— Huumm … Isso é caro como o lume! E o berrelho parece um pouco ‘incanequedo’!

— Qual o quê?! É mais saudável que um pero! É da raça da mãe! Olhe para aquela estampa! Ver um animal daqueles, é um louvar a Deus! — e apontava para a porca parideira deitada, com os filhos agarrados às tetas. — Só de uma vez, da última barriga, teve doze! Leve o porquinho que vai bem servido. Assim Santo António lho projeta que para tudo é preciso ter sorte — justificava o vendedor.  

 

Os ciganos também marcavam presença com utilidades diversas, mas sobretudo com o seu tradicional negócio dos jericos!

— Quanto dá pelo ‘burranco’, amigo? — perguntou o cigano a um passante que olhava para um jumento que ele tinha à venda. O homem hesitou.

— O burro é muito grande…!

— Ai…! Ora vejam lá, a desfazer na mercadoria…! — volveu o cigano. 

— Não é isso, criatura! É que, não tenho que dar a fazer a um burro desse tamanho! — justificou o cliente meio desapontado.

— Ai…! Então, ‘sinhor’, não se zangue! Se em Portugal nos zangássemos por causa dos asnos, andava metade do país zangada com a outra metade. O que mais para aí há, são burros, ‘sinhor’!

Houve um certo gargalhar na roda dos ouvintes. Mas, o zíngaro voltou à liça, apaziguando os ânimos, pois não queria perder o potencial comprador:

— Leve lá o animal, ‘sinhor’, que está aqui uma linda besta para todo o serviço! Nesta feira não encontra segundo. Veja bem que tanto os joelhos dianteiros com os traseiros não se tocam; olhe para o peito largo e forçudo; aprecie os possantes quartos traseiros; deite bem os olhos por estes costados vigorosos; um animal sempre de olho vivo e orelhas em pé; dentição ainda nova…   

O homem interrompeu-o para reincidir:

— O burro é muito grande...! Come muito…! — defendia-se.

— Ai…! Essa gora…! Ai…! Não come não ‘sinhor’! Só come o ‘qui li’ dão…!  

O homem desinteressara-se do negócio e afastava-se do local.

— Ai… Venha cá, ‘sinhor’…! — insistia de longe o cigano. — Ai…! Dê lá uma palavra; quanto vale para si a cavalgadura?

E mais assim e mais assado.

Não obteve resposta. Ainda não fora desta que o freguês se decidira a comprar a alimária.   

As famílias desta etnia, não eram apenas negociantes. Saltimbancos das estradas, deambulavam pela Vila por períodos mais ou menos longos, ficando quase sempre aboletados no barracão do ti’ António Dias. Alguns traziam mesmo a comédia com atores, palhaços e equilibristas. Vinham com usos e costumes diferentes. Se um animal, porco ou galinha, morria sem se saber porquê, apressavam-se a perguntar:

— Ai…! Onde enterrou vossemecê o porquinho?

— Na horta — respondiam. — Mas olhe que o animal morreu de doença desconhecida… talvez uma febre. Não se deve comer!

— Ai… ‘sinhor’, não se incomode que nenhum de nós morre por causa disso!

Nada os demovia. Averiguavam do local onde tinha sido inumado o animal, desenterravam-no e comiam-no assado no acampamento, em festa! 

 

À enorme feira que nesse tempo tinha lugar, seguiam-se as Festas de Verão, que se alargavam por três ou quatro dias! Tão rijas, que competiam com as maiores das redondezas! Um colossal poderio de fogo que chegava, por vezes, às cento e vinte dúzias de foguetes lançados só na alvorada do dia principal da festa.

— Este ano vai haver uma alvorada que alto lá com ela! — gabavam-se os festeiros da comissão daquele ano, com o juiz à cabeça. — Havemos de fazer ver aos da festa passada e aos do Sobral!

Vinham dois fogueteiros de Oleiros que se propunham fazer detonar continuadamente todos os foguetes, a dar-lhes mecha e a atirá-los para a atmosfera, sem descanso!

Com os primeiros estouros viam-se passar, pelo ar, revoadas de pássaros, espavoridos, a procurar outras paragens; os cães ladravam àquela inusitada manhã barulhenta; as galinhas esparvadiças cacarejavam nos galinheiros inquietas, à toa. Alvoroçavam-se as gentes que acorriam ao Quintalinho para ver lançar e estalar o fogo!

Por duas horas, pum! pum! pum! pum! Uma singular forma de homenagear o Senhor Santo Cristo, a quem a Vila e arredores prestavam uma devoção em peso! 

Aquilo já se metia pelos ouvidos dentro. Os engenhos explosivos pirotécnicos eram para todos os gostos: de estralejar, de repetição, de parada e resposta e de tiro. A descarga encerrava, como era costume, com o lançamento de vinte e um morteiros, à guisa das celebrações militares! 

Por terem lugar pouco antes do início do outono, às vezes, os festejos, eram já molhados pelo tempo…! Por esses caminhos estuporados, com as primeiras chuvadas ou, todavia, repletos de poalha, com o sol ainda a pino, as gentes das vizinhanças, vinham descalças ou com sapatos velhos para poupar os novos, que só enfiavam nos pés à entrada da Vila! A fé inquebrantável fazia-as convergir para a Praça, onde se erigia a Igreja e tinham lugar os atos mais solenes. Aí se situava também o centro nevrálgico das Festas e se organizavam os bailes, regando-se o terreiro para não levantar pó! Entre música e venda de ofertas, apregoava-se, a espaços, pelos potentes altifalantes:

— Aparelhagem sonora, Silva Tinalhas…! Prefira sempre o nosso serviço! É mais caro, mas é melhor…!    

 

Verão após verão, festas após festas, assim se foram passando anos e mais anos; e sobre estes anos, ainda outros. A grande maioria das gentes vivia das terras, da lavoura. Foi por mor desse tempo e à custa de muito mourejar que, tisnadas pelo sol ou encarquilhadas pelo frio, as pessoas foram ganhando grossas rugas, como as que se viam nas faces da ti’ Maria Santo e do ti’ Bernardo Garrancho que durante todo o estio habitavam a sua Casa da Serra, como noutro passo já se deu nota.

Por todo esse período, como era habitual, os dois iam assistir à eucaristia dominical ao Casal da Serra, que ficava mais perto da sua fazenda e onde o padre Tomás se deslocava na sua égua, a celebrar, logo pela manhã.

No estio, os dias eram enormes!

Depois da missa, jantavam por volta do meio-dia velho. Da parte da tarde, depois de deixar o gado acomodado, Garrancho costumava descer à Vila para se abastecer dos produtos que as suas terras não produziam — arroz, massa, açúcar ou café — previamente comprados nos lojistas da Baixa e armazenados na Casa da Vila.

— Daqui até à noite é ainda um dia de inverno! Ó Maria, vou-me até lá abaixo buscar a mercearia — dizia para a mulher. Ela já sabia do que se tratava.

E punha-se a andar, a pé, até à Vila, como era costume, pelo caminho mais curto, deixando a ti’ Maria Santo sozinha na serra. Uma vereda que só admitia a passagem de pessoas ou animais, em fila indiana. Apenas transitava pela estrada da Cascalheira com a burra carregada. Esta via era mais larga mas, viajar por lá, era muito mais longe! Tirante, pois, essas situações especiais, vinha pela abrupta vereda abaixo, pela encosta, seguindo o trilho habitual. Passava pelas leiras do tio Augusto, ao lado da casa do Santinho e do Vermelho, fazendas e pinhais, bairro do Caldeira, ribeiro do Marzelo, Corredoura e chegava ao Cimo de Vila! Uma estirada! E de piso ruim! Quando acabava aquela via-sacra, desafrontava-se, sozinho, em voz alta:

— Raios parta o caminho! Coisa mais endemoninhada que isto é raro encontrar-se! Um homem escorrega, apanha umas esfoladelas nas pernas e levanta-se! Que remédio! Que havemos de fazer? — dizia a si próprio, com entono de lamentação.  

Em chegando ao cimo do povo, dirigia-se logo à sua Casa da Vila.

A habitação era grande, de acordo com os cabedais da família. O prédio fora construído em duas diferentes épocas, uma parte antiga outra mais recente. Estava cheia do que a terra dava. Na sala velha havia três grandes arcazes de semente de trigo, centeio e milho. Tirante a ração para o gado e a seleção da semente para o ano seguinte, o grão destinava-se à azenha para fazer a farinha que governava de pão a família no correr do ano. Na frescura do piso térreo, na adega, o grande pipo do vinho que chegava para dar e vender; na loja, as talhas de azeite, o bom porco na salgadeira, a rica azeitona nos escoureiros e os queijos nas tábuas a curar. No forro, as leguminosas secas, as castanhas, as batatas e as maçãs que duravam até março. Tudo devidamente acondicionado para evitar a bicharada.

Era uma edificação tradicional, robusta. As paredes tinham sido feitas em pedra predominantemente de granito de cantaria. A armação do telhado, o soalho e a varanda que dava para o casarão, espaço interior a céu aberto, era tudo em madeira de castanheiro, cortado em vigorosas sonaves, caibros e tábuas robustas, bem aparelhadas por considerados artistas! Parecia desafiar o tempo!  

— Ó cachopos — dizia Bernardo que, pela sua experiência, bem conhecia os materiais usados na construção — se quereis fazer uma casa, ponde-lhe castanho que, ao seco, é como o ferro! Dura várias vidas!

E, com efeito, assim era.  

 

Após meter num saco de serapilheira os produtos de que necessitava, punha-o às costas. Dava depois uma volta em redondo pela Baixa da Vila, na zona das vendas. Aí encontrava, inevitavelmente, alguns dos habituais conversadores de domingo e ainda havia tempo para confraternizar um pouco e beber alguns meios quartilhos. Falavam de negócios, das colheitas e do tempo. Como é que ia a vida, como é não ia. Com o copito a acompanhar, esses eram momentos propícios para afirmar as palavras de ordem com os velhos amigos. Numa sociedade esotérica, como são todas as tertúlias, os vocábulos solenemente pronunciados têm o seu significado próprio que revela saber, humor e pode ser verrinoso quanto baste.    

— Garrancho…! — pronunciava Bernardo, em voz alta, assim que assomava à porta da taberna! ‘Garrancho’ era o nome por que o conheciam na companha por ter o indicador direito, torto, como noutra ocasião já se referiu. — … É para arrebanhar! — concluía, em jeito irónico.

Com isto queria apenas dizer que não deixava por mãos alheias o dever de tratar do seu arranjinho, da sua vida, procurando angariar o melhor que ela lhe oferecesse.   

Alvoroçava-se a turba no interior.  

— O tempo! — respondia, de entre a malta, o João Jerónimo, por corruptela, João ‘Jerolme’, outro que pertencia ao habitual ajuntamento dos domingos.

Era a sua palavra.

O tempo — entendia ele — era o grande mestre que tudo dá e tudo tira e que, por fim, arrancará, inexoravelmente, a todos, a própria vida; e contra o qual não se podia lutar, restando, perante ele, apenas a resignação.

Por sua vez, o ti’ Francisco do Casal, clamava do outro lado com voz forte:

— Ou me eu engano!  

Nenhum homem pode ter em si toda a sabedoria! Humilde é aquele que aceita os seus limites.

— Ou me eu engano! — repetia sempre que iniciava uma conversa.

Reconhecer os seus erros e admitir enganar-se diz muito do caráter de um homem experimentado e sério.

Assim era ele.

Mas, encostado ao balcão da taberna, estava ainda, entre muitos, António Racha — outro dos habituais convivas, que lançou o seu grito:  

— Se for preciso racha-se já um diabo! — bradava, desafiador; razão por que era conhecido no grupo por aquele nome.

Mas, lá rachar, não rachava nada! Emborcava era vários copos de bagaceira, a sua bebida de eleição, logo de manhã cedo. Se a pomada fosse macia e forte — dizia quem o conhecia — ingeria-a como à água na Fonte Velha! Era preado por aguardente! Ah! homem excomungado! Não há caruncho que lhe entre!

Assim passeava ele, com altivez, os seus 90, rijos e feros!

 

E a estroinice na taberna do grupo dos afeiçoados conterrâneos, continuava assim, ainda por um bom naco de tempo, à boca da noite.  

Mas, bom, mais uns dichotes e virotes, mais uma rodada e estava feita a sossega; e Garrancho lá retornava serra acima, com o saco da mercearia ao ombro.

Era já noitinha, ao crepúsculo, quando deixou a assembleia da baiuca. Tinha muito que andar até ao alto da serra da Gardunha, onde ele e a mulher residiam regularmente até ao começo do tempo das chuvas; e onde ela o esperava naquela noite, desde que estivera sentada à porta, como noutra circunstância já foi relatado.

Passaram-se anos e anos a fazer este trajeto, serra abaixo, serra acima. Fizera estas voltas durante décadas! Este era apenas mais um desses domingos de calor em que Garrancho tinha ido à Vila fazer o habitual recado. Porém, a idade agora já não era a mesma. Enquanto se é novo é outra coisa.  

Principiava a cair sobre a povoação a penumbra do lusco-fusco e sentia-se algum frescor agradável àquela hora.

Mas passar dos oitenta pesava muito!

O tempo não perdoava.  

Os vultos das gentes começavam a andar penosamente, acometendo devagar contra o escuro; devagar, mas com a mesma obstinação com que Cristo caminhou para o Gólgota, para nos remir das enfermidades! Os transeuntes já não se divisavam uns aos outros, por mor da proximidade do fim do dia.

— Boa noite! — saudavam, surdamente os passantes. Os poucos candeeiros de querosene da iluminação pública, colocados estrategicamente às esquinas, que deveriam ser acesos todos os dias ao escurecer, há muito que não funcionavam!  

— Deus o guarde! — respondia Garrancho sem abrandar o passo. — Que caminhos do diacho temos nós que palmilhar neste mundo para ganhar a côdea! — remoía com os seus botões.

Mas lembrou-se da perseverança da mulher perante as contrariedades: ‘Deus não deixa nada ao acaso’!

Para a frente é que era o caminho!

 A ti’ Maria Santo, com o cair da noite, tinha deixado o poial da porta e recolhera-se ao interior da casa, encontrando-se a preparar a ceia, à espera que o homem chegasse. Eram horas do demo pelas quais ela já tinha passado muitas vezes, inquietada. Sabia lá o que podia acontecer ao homem pelos caminhos! Muito embora ele os conhecesse como a palma da mão, pois que os calcorreava desde criança! Mas, para um homem, a morte é certa e a hora incerta!

Como era costume no verão, continuavam as festas por muitas terras ali à volta. E calhou a ser, nesse domingo, a festa de ano do Casal da Serra. Alguns cachopos — seriam talvez uns seis ou sete — iam subindo àquele lugar, à procura de divertimento e — quem podia saber? — talvez de algum amor para a vida. Seguiam pelo mesmo trilho palmilhado pelo intrépido velho, montanha arriba.   

Mais ou menos a meio do caminho deram, justamente, com ele, por cima do Caldeira, mas já em plena serra. A ti’ Maria devia estar aflita. E não era a primeira vez.

A noite era jovem, mas a lua-cheia de agosto levantara-se, redonda, grandiosa, às primeiras horas da obscuridade, a lançar a sua claridade branca e fria sobre a terra, na noite límpida. Mas, como numa ilusão de amantes, a sua bela luz, não deixa ver com nitidez a realidade! Embora, como bem se compreende, para aqueles rapazes novos tal luminosidade bastasse!

O octogenário tinha perdido muita da sua visão. Para mais, bebera o seu copito na reunião da taberna.

Quando o interrogaram sobre a razão por que se encontrava ali, ele, que mal já caminhava, apenas respondeu:

— Eu não vejo! 

É certo que tinha permanecido na taberna da Vila com a noite já a avançar! Mas a carência de sua visão, não podia ser apenas a falta de claridade. Não havia dúvida: o problema estava na incapacidade dos seus olhos. Era esta que mais o afetava. Tinham os jovens que pensar na forma de o levar até ao alto, à Casa da Serra.  

Sendo ele um homem encorpado, dois rapazes cruzaram as mãos a fazer de cadeirinha e sentaram-no; lá o levaram por 20 metros através daquele caminho de Cristo. Depois, revezavam-se e outros dois cruzavam as mãos para o levar mais 20 metros.

Por fim e, a muito custo, alcançaram o seu destino e deixaram-no entregue à ti’ Maria Santo, devidamente acomodado e sentado num banco junto à lareira, parecendo ter recobrado algum conforto. Ela se encarregou de lhe pôr a ceia sobre a pequena mesa e de o encaminhar depois para o quarto improvisado, onde ficou deitado.

Levantou-se pela manhã. Com o novo dia de sol e com o cérebro porventura limpo de alguma gota de álcool proveniente de um ou outro copito do dia anterior, pareceu ter recuperado alguma visão. Não voltou, porém, a trabalhar como dantes; aquele episódio tinha sido o sinal iniludível da velhice!

— Já não me sinto capaz de fazer nada! — lamentava-se com a voz fraca e entrecortada.

Notório era que não tinha a energia de outrora; foi esmorecendo. O casal, ele mais, ela menos, achava-se bastante acabado! Alguns dias depois, os dois velhos resolveram descer, a custo, o trilho da serra e vieram instalar-se definitivamente na Casa da Vila, apesar de ainda não ter acabado o estio, estação até ao fim da qual eles, habitualmente, se mantinham no seu retiro da casa da fazenda, lá em riba.

Os filhos e netos tomaram conta de animais e terras que constituíram durante décadas o seu modo de vida.

Garrancho pela sua própria condição de homem cansado e, apesar de tratado com desvelo pela mulher, não mais largou a cama. Sentia-se cada vez mais fraco.

Não demorou muito tempo, entregou a alma ao Criador, na paz do seu lar, deixando um vazio terrível na alma da mulher.

E ela, depois de alguns anos, sem a presença daquele homem que desde sempre constituíra o alento e o sentido da sua vida, foi-se-lhe juntar nas mesmas condições de sossego, no seio da vasta família. 

O tempo, esse artista indolente, tinha conseguido os seus intentos como pressagiara João ‘Jerolme’! Acabaram a vida, neste mundo, para sempre! Mas não sem antes terem combinado, aquando da morte dele — por uma força inabalável em que ambos acreditavam — que um dia se voltariam a encontrar!

Mais um crepúsculo teve lugar na longa vida do casal. Este, porém, ao contrário de todos outros, tinha sido o último.   

  

Nota: neste texto podem ter sido usadas palavras ou expressões do léxico local ou regional que não constam dos dicionários oficiais.

       

JOSÉ BARROSO 

4 comentários:

M. L. Ferreira disse...

A descrição da azáfama vivida ciclicamente na nossa terra, de que muitos ainda nos lembramos, tem pouco mais de meio século, mas parece-se mais com aquilo que sabemos ter sido a vida na Idade Média do que a dos nossos dias. De lá para cá é que as mudanças foram tão grandes e tão rápidas, que se os nossos avós voltassem à terra iam achar estranhos alguns dos lugares onde passaram parte das suas vidas.
No essencial, e por mais que haja quem diga que antigamente é que era bom, ainda bem que foi assim; mas há coisas de que tenho saudades, principalmente das pessoas que se juntavam, quer fosse nos trabalhos do campo, nas feiras, nas festas ou à noite, nos serões à volta do lume ou à porta, nas noites de verão.
Um dos pensamentos que me têm apoquentado nos últimos tempos é a possibilidade de nos acomodarmos de tal forma ao distanciamento a que esta pandemia nos está a obrigar, que ela se transforme também no crepúsculo do pouco que ainda nos une e torna felizes: as reuniões da família na Páscoa, no Natal, nas Festas de Verão, na Senhora da Orada, e principalmente esta vontade, sempre pronta, de nos abraçarmos.
Mais uma grande história (em todos os sentidos) que o José Barroso nos oferece!

José Barroso disse...

Concordo plenamente com a Libânia, quanto à mudança que se operou em Portugal nos últimos +- 50 anos. Acho que, mais que uma vez, falei ou escrevi sobre isso. É claro que, nessa altura, já havia comboio, rádio, automóvel, telefone ou televisão. Mas os "gadgets" dessa tecnologia eram tão raros que as comunidades rurais pouco se alteraram, éramos nós já gente, embora minúscula. E isto, apesar do famoso passo que o homem deu na lua, já lá vão os mesmos 50 anos, mal éramos nós ainda jovens...! Hoje, porém, o mundo não é o mesmo! O caso é curioso porque foi exatamente na nossa geração, sensivelmente, que tudo aconteceu. Num certo sentido, somos uns privilegiados porque podemos estemunhar essa alteração. E basta ouvir um ou dois jovens numa conversa para se compreender que a cultura deles pouco tem a ver com a nossa. Mas, como tudo na vida, não se pode dizer que uma é melhor que a outra. São apenas diferentes! E eu até costumo dizer que nasci 50 anos mais cedo do que devia, já que não percebo nada destas tecnologias novas.
Do que, porém, parece não haver dúvidas é que, embora nós repudiemos aqueles tempos, por falta de condições de vida, éramos, apesar disso, mais felizes, porque talvez fôssemos mais autênticos! Com efeito, existe a ideia de que a máquina desumaniza! Eu acho que tudo tem de ser entendido de uma forma equlibrada! Mas também é preciso que o homem não deixe de ser homem!
Abraços, hã!
JB

José Teodoro Prata disse...

O senhor Moisés faleceu na semana passada, andava na casa dos 80. Lembro-me dele, figura delicada a atenciosa, a manejar coisas preciosas.
Texto muito leve e saboroso! Gostei deveras de o ler!

medronheira disse...

E eu aqui na torre de Londres a ver o meu avô a tatear aquela vereda ínvia na penumbra crepuscular da vida e dos dias e a tatear a terra para encontrar as batatas que arrancava para a ceia. Agora a mãe do Ronaldo, com um filho riquíssimo, vai comprar uns óculos e dão-lhe outros…
E a ver o Sr. Moisés que subiu à Serra num dia chuvoso de Inverno para mostrar um relógio de bolso, que achava que seria o ideal para o meu pai. E os elogios que dava à relojoaria Suíça e ao próprio relógio como se fosse o melhor tesouro do mundo e o ar complacente com que o meu pai o olhava, sentados ali ao lume… As coisas que vocês me trazem à memoria.
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