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sábado, 22 de abril de 2017

Alcunhas 2

Já lai vai mais de um ano que o Zé Barroso publicou aqui no blogue um artigo com as alcunhas usadas na nossa terra. A lista foi sendo completada por vários colaboradores e, no final, já tinha mais de trezentas.
Uma das perguntas que se colocou na altura foi o que fazer a seguir. Parece que não se chegou a nenhum consenso, mas penso que era interessante escrever-se uma pequena história sobre a origem de cada uma. Algumas são tão óbvias que pouco há a dizer; outras perderam-se no tempo e já ninguém se lembrará da sua origem; mas muitas terão por trás episódios interessantes e engraçados.  
Acho que vale a pena tentarmos. Para já, aqui fica a minha colaboração, incluindo também algumas alcunhas da Partida que acho deliciosas:

O Mil Homens
Quando andava na escola todos me chamavam a Mil Homens. Eu ficava muito envergonhada porque achava que era um nome muito feio.
Só mais tarde é que fiquei a saber a origem daquela alcunha e a partir daí senti sempre um orgulho muito grande nela: O meu avô andou na Guerra e quando regressou foi recebido como um herói; mas vinha tão traumatizado que não conseguia falar noutra coisa que não fosse naquilo que por lá passou. Todas as conversas iam dar ao mesmo: as muitas tropas do seu batalhão; os muitos homens nas trincheiras; os muitos mortos pelo chão. Referia-se sempre a eles utilizando a expressão «Mais de mil homens!» um número que ele, analfabeto, achava ser o maior para definir todas as atrocidades que por lá viu e dificuldades que passou. Por causa disto puseram-lhe o Mil Homens e, a partir daí, toda a família ficou conhecida por essa alcunha, até hoje.

O Quinta Casa
Antigamente também não havia grandes farturas na Partida, mas quase toda a gente tinha um bocadinho de terra para tratar uma horta. E havia por cá até algumas casas ricas, com bons lameiros, olivais, terras de pasto e de pinhal que chegavam para eles, para vender e davam trabalho a muita gente.
Um dia o Ti Manuel Lopes pôs-se a deitar contas ao que cada um tinha e, lá para com os seus botões, ia sentenciando qual era a casa mais rica, e a que vinha a seguir, e por aí fora até chegar à dele que, pelas suas contas, estava em quinto lugar. Começou então a gabar-se, para quem o queria ouvir, que a quinta casa maior da Partida era a dele.
A partir daí todos começaram a chamar-lhe o Quinta Casa.

O Conde Caniço
Também tinha muito de seu, o Ti Domingos Nunes. Entre as várias propriedades que possuía, também era dele o Caniço, uma das melhores terras da Partida. Tinha tanto orgulho naquela propriedade que não se calava: «O meu Caniço é a melhor terra que aí há. Nem o conde!».
Tanta vez repetiu aquilo que começaram a chamar-lhe o Conde Caniço.

O Mata Nosso Senhor
Morava no Casal, o João Teodoro. Um dia deu-lhe a preguiça e atrasou-se para vir para a escola. Com medo de apanhar alguma reguada veio o caminho todo a correr até à Vila. Quando chegou à Praça e viu que já toda a gente tinha entrado, correu tanto que até parecia que vinham atrás dele.
Nesse dia o Ti António Mosca andava a podar as olaias e quando o viu naquela pressa, para brincar com ele, desatou a berrar lá de cima da escada: «Agarrem-no! Agarrem-no que foi ele que matou o Nosso Senhor!».
O cachopinho desatou a correr ainda mais e a partir desse dia toda a gente começou a chamar-lhe o Mata Nosso Senhor.

O Nita
Morreu cedo, a mulher do Ti Francisco Candeias, e quem lhe valeu para o ajudar a criar os três filhos, todos ainda crianças, foi a Ti Rita do Manha, tia dos meninos por parte da mãe.
O João, que era o do meio, não saía da casa da tia que o tratava como a um filho e ele também se afeiçoou muito a ela. Mas, como era ainda pequeno e tinha dificuldade em falar, não conseguia dizer o nome dela e, em vez de Rita, chamava-lhe Nita. Foi daí que começaram a chamar-lhe o João Nita.

O Caneco
Era ainda criança e a mãe já o mandava a levar o jantar ao pai quando andava por dia. Uma vez passou por um homem que viu que ele ia todo derreado com a cesta e disse-lhe assim:
- Ó cachopo, olha que tu endireita-me bem a cesta, que ainda entornas o jantar ao teu pai!
- Não entorno não senhor, que hoje até cá levo um caneco de vinho!
Foi quanto bastou para começarem a chamar-lhe o Emílio Caneco…

M. L. Ferreira

domingo, 10 de julho de 2016

A Justiça: sanções e controlo social

Dispõe a comunidade (Partida) de várias sanções sociais que influenciam e controlam o comportamento dos seus membros.
Há uma escala de valores socialmente aceite que cada indivíduo procura respeitar. Sempre que o não faz, a comunidade reage por diversos modos, exercendo uma censura por vezes bastante eficaz.
Um dos meios de que a comunidade se serve é a negação da salvação. Esta espécie de sanção só é, porém, praticada pela generalidade dos habitantes, para uma pessoa cuja reputação tenha descido muito baixo no conceito geral. É que o seu uso repugna a muitas pessoas que entendem que não devem negá-la nem aos próprios inimigos, desde que estes correspondam.
Contudo, ao nível de famílias ou de grupos, ela é algumas vezes usada e não há dúvidas de que exerce uma certa pressão sobre as pessoas visadas. Estas são constantemente obrigadas a uma reflexão dos motivos que a determinam e não raro tendem a eliminá-los.
Outra espécie de sanção é a que consiste na atribuição de alcunhas, traduzindo o comportamento vulgar de certos indivíduos ou até por motivo de uma única acção menos conforme com os padrões socialmente aceites.
«Aqui, como em todas as povoações da Beira Baixa, é corrente designarem-se as pessoas pelas alcunhas por que são conhecidas» - Dias, Jaime Lopes; «Etnografia da Beira Baixa», Vol. III, Lisboa, 1948.
Nem sempre, porém, as alcunhas são motivadas por comportamentos censuráveis. Por vezes derivam até do exercício de uma certa profissão e são aceites pacificamente pelos alcunhados. Mas geralmente representam uma crítica social. Não são chamadas directamente às pessoas a quem são atribuídas, senão em caso de desentendimento, mas as pessoas, sabedoras da alcunha por que são conhecidas, procuram corrigir o seu comportamento ou não voltar a praticar a acção que lhe deu origem.
(…)
Também o choro do entrudo representa uma sanção social «Não obstante estarem em declínio os folguedos do Carnaval, ainda hoje, na maioria dos povos do nosso distrito, noite alta, nos três dias consagrados à folia, continua a chorar-se o Entrudo… É uma sátira alegre que por vezes torna públicos acontecimentos íntimos, desconhecidos de muitos moradores» - Dias, Jaime Lopes; «Etnografia da Beira Baixa», Vol. I, Lisboa, 1926.
Assim acontece de facto na Partida e não apenas nos três dias consagrados à folia, mas durante uma semana ou mesmo mais, antes do Carnaval.
Ao longo do ano, vão os rapazes tomando nota dos comportamentos mais invulgares, para nos dias que antecedem o Carnaval os irem referir e comentar, durante a noite, às portas dos referidos moradores. Certos comportamentos ou acções mais íntimas é por este meio que chegam ao conhecimento público. Se as pessoas visadas reagem ou tentam, por qualquer modo, afugentar os «entrudos», estes voltam uma, duas e mais vezes a importuná-los.
           
Retirado de «PARTIDA  -  COMUNIDADE DA ZONA DO PINHAL NA BEIRA BAIXA», de Luís Leitão -  Composto e impresso nas Oficinas Gráficas do Jornal do Fundão, 1991.


M. L. Ferreira