Voltámos
à Biblioteca Hipólito Raposo, para mais um Conta-me histórias, desta vez sobre
a guerra colonial.
O livro Poesia Simples, de
José Augusto Alves, conta a história do Tó, soldado paraquedista que foi
voluntário para a Guiné e sofreu um ataque. Veio para o hospital militar, em
Lisboa, com múltiplas queimaduras e só chegou à terra na sexta-feira santa do
ano seguinte, quando desciam o Cristo da cruz, no Calvário. «Foi um enorme
guerreiro / Também andou pelos matos; / Tantos soldados solteiros / Que da
guerra andavam fartos.» Um dia, num jantar de antigos combatentes, disse ao ex-comandante
militar da Guiné, também presente: «Quando morrer, eu fico a substituí-lo!»
Ambos se chamavam António e aos dois faltava um olho.
O Rui esteve num ponto
crítico da Guiné, próximo da outra Guiné que fora francesa e já estava
independente. O sítio era tão perigoso que até foi para lá mandado, como
castigo, um soldado que matara um sargento noutra região. Era motorista e teve
de ir para a guerra, porque vários motoristas madeirenses foram despedir-se à
ilha e apanharam o avião para os Estados Unidos. Ouvia o Amílcar Cabral, às 7
da tarde, desde Conacri. Quando partiu, não percebia nada de política, mas era
impossível não concordar com Cabral que defendia um governo misto de
portugueses e africanos. Na altura do seu assassinato, houve uma companhia que
foi massacrada e os sobreviventes dispersaram. A um deles, o João, também
vicentino, encontrou-o muito mal, todo amarelo, com hepatite. Levou-o para o
quartel e tratou dele. Depois pediu ao comandante e “adotaram-no”. O Rui
foi protegido pela mãe de Jesus, pois escapou ileso de um ataque no dia 13 de
maio. Mas houve na guerra tantos mortos por se relaxarem as regras de
segurança!
O Jorge já fora para França,
mas regressou a pedido dos pais, pois, se não viesse fazer a tropa, não poderia
vir visitar a família. Ele passou melhor, também na Guiné, pois o seu quartel
só sofreu um ataque. Filho do barbeiro da terra, cortava o cabelo aos outros
soldados, nas horas vagas.
O Cassiano esteve na
retaguarda, desde os 16 anos, como funcionário do hospital militar, em Lisboa,
onde chegavam os feridos e os mortos. Depois do 25 de Abril foi para Luanda,
como militar, a receber e inventariar os equipamentos médico-cirúrgicos trazidos
pelas unidades que regressavam do mato, com destino à metrópole.
Tantos traumas!
José Teodoro Prata

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