domingo, 21 de dezembro de 2014

O menino Jesus

Já durante a  tarde, ela mostrara sinais de inquietação. O tempo estava completo e a qualquer momento a coisa ia acontecer.Ia nascer o primeiro filho. Durante a noite, as coisas desenvolveram-se e ele levou-a ao hospital. Aí separaram-se com um beijo e uma lágrima, era a primeira vez que se separavam. Ele regressou a casa, só e apreensivo. Mal conseguiu dormir.
De manhã, recebeu um telefonema; tinha acabado de ser pai de um menino e tudo correra bem.
Preparou-se então para o primeiro encontro com o seu filho. Vestiu o fato de inverno (era dia 31 de Julho) que era o único que tinha, pôs uma gravata e lá foi.
Chorou de alegria ao ver o menino e durante toda a visita as lágrimas não deixavam de cair. A felicidade era imensa.
No dia seguinte, foi ter com o Sr.  Professor Couto para registar a criança. O Professor perguntou-lhe onde tinha nascido o menino e ele na sua inocência respondeu-lhe que no hospital de Castelo Branco. Que não, que não podia ser registado em S. Vicente, porque não tinha cá nascido!
Então ele abriu os olhos. Dirigiu-se a Castelo Branco e pediu para registar o filho.
 -Onde é que nasceu a criança?.
 -Em S. Vicente da Beira, minha senhora!
 -Então tem que ser o Professor Couto a regista-la lá!
 -Mas, minha senhora, o Senhor Professor está de férias e eu não consigo registar o meu filho!
 -Onde é que ele nasceu?
 -Em casa, minha senhora!
 -Sendo assim, vamos lá registar o seu filho. Que nome é que lhe vai por?
 -João.
E foi assim que ele conseguiu que o seu filho fosse natural de S. Vicente da Beira.
Em Dezembro desse ano, a Menina Isaura fez um presépio ao vivo, no barracão.
Já bem rechonchudinho, calhou aquele menino ser o Menino Jesus.

E. H.

4 comentários:

Anônimo disse...

EH:
'Tá gira a história! Não sabia que tinha havido um ano em que o Menino Jesus em S. Vicente da Beira se chamou João! Mas em que foi precisa uma mentira piedosa para que ficasse lá registado. Não só piedosa, mas também justa pois a lei veio, efectivamente, a ser alterada, passando a estar mais em conformidade com os anseios das pessoas, como era o teu caso. E ainda bem.
Abraços.
ZB

Anônimo disse...

Linda história de Natal!
Que bom seria se o nascimento de todas as crianças fosse assim festejado, com lágrimas de alegria e fato e gravata… De certeza que o João, mesmo acabado de nascer, se apercebeu dessas emoções. E deve ser por isso que é uma das pessoas boas de S. Vicente da Beira.
Feliz Natal para todos!

M. L. Ferreira

José Teodoro Prata disse...

Ainda me recordo do orgulho que o Ernesto sentia ao contar-me como conseguira registar o filho com a naturalidade de São Vicente da Beira, numa época em que quase todos os partos já se faziam no hospital de C. Branco e por isso os bebés eram registados como naturais da cidade.
E eu, já na altura um estrangeirado, achei extraordinário esse apego ao torrão natal.

José Teodoro Prata disse...

E este texto está muito bem escrito.
Quando escrevemos com todas as nossas emoções, a coisa resulta mais facilmente.
Também nesse aspeto, tem valido a pena a tua colaboração: Dos Enxidros deram-te a oportunidade de escrever (oficina de escrita - Zé Barroso) e cada vez nos dás melhores textos.