sábado, 20 de junho de 2026

Conta-me histórias da emigração

 

O Jorge foi com o Zé Manel para a França. Ainda não tinham feito a tropa, por isso tiveram de ir assalto. Andavam os dois a trabalhar na estrada, perto da Paradanta, e apareceu lá um senhor com ordens dos pais para os trazer para casa. Chegaram, já tinham as malas feitas, só tiveram de se lavar e mudar de roupa.  O senhor, da Partida, que costumava passar gente, levou-os de carro até Vilar Formoso e disse-lhes que apanhassem o comboio em Fuentes de Onor, do outro lado da fronteira. Eles lá foram e entraram no comboio, mas logo apareceram os carabineiros a correr, pareciam andar à procura de alguém. Eles fizeram-se desentendidos e colocaram-se à janela, a fingir descontração. Foram até Irun, na fronteira com a França, saíram do comboio e seguiram aquela gente toda para um túnel. Que levantassem o braço com o passaporte na mão, gritava alguém. O Zé Manel levada um livrito e levantou-o. O Jorge não tinha nada para mostrar, mas deixou-se ir no meio da multidão e lá passaram. Foram para Clermont-Ferrand e arranjaram trabalho na fábrica da Michelin. Mas passado um ano receberam cartas dos pais pedindo-lhes que regressassem, pois, se não viessem fazer a tropa, não poderiam vir a Portugal ver a família, durante 45 anos. Lá vieram, fizeram a tropa, o Jorge foi à guerra colonial e depois voltou para a França, onde ficou toda a vida ativa.

A ida da Isabel para a França foi uma ilusão e um erro. A família vivia bem com o negócio da resina, mas alguém os convenceu que na França é que era. Foram, passaram dificuldades e só não voltaram porque o bom que tinham deixado já não estava à espera deles. Os filhos foram nascendo, o marido adaptou-se, porque era um otimista, mas ela nunca gostou, e agora também não, já sem o Chico e olhada como estrangeira cá e lá.

A Lurdes emigrou para a Alemanha, com o marido. Trabalhavam na mesma fábrica, em turnos diferentes. Ela gostava do trabalho e até era elogiada pelas suas capacidades. Tinham uma vida boa, mas o Joaquim nunca gostou. Acabaram por regressar a Portugal ainda com os filhos menores.

A emigração da Fátima foi de luxo, em tempos de bidonvilles, mas nunca gostou, de tal modo que só durou quatro meses. O marido trabalhara nas Oficinas Gerais de Material Aeronáutico, em Alverca, mas foi para Paris aprender mais, na prática e na teoria, pois estudava na Sorbonne. Ele ganhava muito dinheiro, por isso vivam num hotel, mas ela não parava de rezingar. Desesperado, o Francisco levou-a a Champigny-sur-mer, o maior bairro de lata de França, onde viviam cerca de 15 mil pessoas, 10 mil das quais emigrantes portugueses. Foi no inverno, as ruas eram autênticos lamaçais, assim como o chão das barracas de madeira e chapas. Um horror, mas nem assim conseguiu saborear o luxo do hotel. Certo dia, perto da meia-noite, apanhou um comboio em sentido contrário ao seu destino. No final da viagem, viu-se numa estação terminal, rapidamente deserta, em nenhures. Pediu ajuda e passado muito tempo lá voltou à estação inicial, onde apanhou um táxi. Ao chegar ao hotel, às duas da manhã, disse ao marido que no dia seguinte a levasse ao comboio para Portugal. E assim foi. O marido ainda voltou a Paris por um curto período de tempo, mas depois regressou definitivamente. Teve uma vida muito mais difícil do que se tivesse ficado, mas nunca se arrependeu.

O Zé Manel não pode estar presente e escreveu um comentário no facebook, com memórias ligeiramente diferentes. Publico-o amanhã.
José Teodoro Prata

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