O Jorge foi
com o Zé Manel para a França. Ainda não tinham feito a tropa, por isso tiveram
de ir assalto. Andavam os dois a trabalhar na estrada, perto da Paradanta, e
apareceu lá um senhor com ordens dos pais para os trazer para casa. Chegaram,
já tinham as malas feitas, só tiveram de se lavar e mudar de roupa. O senhor, da Partida, que costumava passar
gente, levou-os de carro até Vilar Formoso e disse-lhes que apanhassem o
comboio em Fuentes de Onor, do outro lado da fronteira. Eles lá foram e
entraram no comboio, mas logo apareceram os carabineiros a correr, pareciam
andar à procura de alguém. Eles fizeram-se desentendidos e colocaram-se à
janela, a fingir descontração. Foram até Irun, na fronteira com a França,
saíram do comboio e seguiram aquela gente toda para um túnel. Que levantassem o
braço com o passaporte na mão, gritava alguém. O Zé Manel levada um livrito e
levantou-o. O Jorge não tinha nada para mostrar, mas deixou-se ir no meio da
multidão e lá passaram. Foram para Clermont-Ferrand e arranjaram trabalho na
fábrica da Michelin. Mas passado um ano receberam cartas dos pais pedindo-lhes
que regressassem, pois, se não viessem fazer a tropa, não poderiam vir a
Portugal ver a família, durante 45 anos. Lá vieram, fizeram a tropa, o Jorge
foi à guerra colonial e depois voltou para a França, onde ficou toda a vida
ativa.
A ida da
Isabel para a França foi uma ilusão e um erro. A família vivia bem com o
negócio da resina, mas alguém os convenceu que na França é que era. Foram,
passaram dificuldades e só não voltaram porque o bom que tinham deixado já não
estava à espera deles. Os filhos foram nascendo, o marido adaptou-se, porque
era um otimista, mas ela nunca gostou, e agora também não, já sem o Chico e
olhada como estrangeira cá e lá.
A Lurdes
emigrou para a Alemanha, com o marido. Trabalhavam na mesma fábrica, em turnos
diferentes. Ela gostava do trabalho e até era elogiada pelas suas capacidades.
Tinham uma vida boa, mas o Joaquim nunca gostou. Acabaram por regressar a
Portugal ainda com os filhos menores.
A emigração
da Fátima foi de luxo, em tempos de bidonvilles, mas nunca gostou, de tal modo
que só durou quatro meses. O marido trabalhara nas Oficinas Gerais de Material
Aeronáutico, em Alverca, mas foi para Paris aprender mais, na prática e na
teoria, pois estudava na Sorbonne. Ele ganhava muito dinheiro, por isso vivam
num hotel, mas ela não parava de rezingar. Desesperado, o Francisco levou-a a
Champigny-sur-mer, o maior bairro de lata de França, onde viviam cerca de 15
mil pessoas, 10 mil das quais emigrantes portugueses. Foi no inverno, as ruas
eram autênticos lamaçais, assim como o chão das barracas de madeira e chapas.
Um horror, mas nem assim conseguiu saborear o luxo do hotel. Certo dia, perto
da meia-noite, apanhou um comboio em sentido contrário ao seu destino. No final
da viagem, viu-se numa estação terminal, rapidamente deserta, em nenhures.
Pediu ajuda e passado muito tempo lá voltou à estação inicial, onde apanhou um
táxi. Ao chegar ao hotel, às duas da manhã, disse ao marido que no dia seguinte
a levasse ao comboio para Portugal. E assim foi. O marido ainda voltou a Paris
por um curto período de tempo, mas depois regressou definitivamente. Teve uma
vida muito mais difícil do que se tivesse ficado, mas nunca se arrependeu.


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