segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Ode a São Vicente

Tudo começou no Ocaia
Nos cumes frios e agrestes
Começou a vir gente da raia
Acompanhados pelos seus mestres
Não havia mar nem praia
Um castro lá fizestes
Formoso e altaneiro
Forte, belo e roqueiro

Gente rude e pastoril
À sombra da sua fortaleza
Gente forte e varonil
Caçava, trabalhava, que beleza
Gente rude, mas viril
À noite em redor da mesa
Aos seus deuses vão rezando
E o tempo vai passando

Vindos de longes terras
Soldados com armas e cultura
Palmilhavam vales e serras
Sempre em busca de aventura
Trouxeram saber, mas também guerras
Estranha língua falada com doçura
Vinham de Roma, eram romanos
E por cá ficaram por muitos anos

Nossos avós a serra desceram
Abandonaram seu reduto
Nas vinhas seus casebres ergueram
Semeavam, plantavam e colhiam o fruto
Nasciam, viviam e morriam
Dançavam, cantavam e punham luto.
O velho castelo iam deixando
E na planície foram ficando

Trans-Serre se chamavam
Aos que para este lado partiam
Novas terras arroteavam
As mulheres por lá pariam
As pessoas aumentavam
Muitas crianças morriam
A tribo aumentava
Gente livre e não escrava

Um dia chegou a mourama
Na Óles uma batalha travaram
O crescente caiu na lama
Já fogem, passam todos a palavra
Longe chegou esta fama
Suas espadas embainharam,
E a mourama partiu…
Nunca mais ninguém os viu

Talvez por causa do clima
Deixaram este lugar
Construíram mais acima
Sua casa seu novo lar
Mais água para todos
Novas terras para arrotear
Mais almas a rezar
E o povoado a aumentar

Eis que um dia pensaram
Oferecer ao rei a terra
Alguns homens bons a Lisboa rumaram
Senhor, te oferecemos Trans Serra
Fica na Guardunha, disseram
Naquele lugar terminou a guerra
D. Afonso olhando para aquela gente,
Doravante, vai chamar-se São Vicente

Era o dia da trasladação
Dos restos mortais de São Vicente
Da igreja de Santa Justa para a Sé onde repousarão
O rei ficou tão contente
Um osso lhes ofereceu dizendo, ao estender sua mão…
Aceitai esta relíquia do Santo mártir Vicente.
Quando ao povoado chegaram
A santa relíquia guardaram

O tempo ia passando
Com os dias sempre iguais
Construindo e labutando
Trabalhando sempre mais
O sino ia tocando
Dlim, dlão, vê lá se cais
São Vicente a aumentar
Cada família com seu lar

Eis que um dia chegou
Um pregoeiro que avisava
A morte nos roubou
Nosso rei que tanto nos amava
Seu filho Sancho de quem tanto gostou
É o novo rei desta pátria amada
Chorai a morte do rei, chorai
Longa vida para o novo rei, cantai

D. Afonso o nome nos deu
Com tanta alegria e convicção
Sãovicentino sim, sou eu
Sancho deu foral à nossa povoação
Tudo morreu
Só resta a saudade do coração
Setecentos anos de autonomia municipal
Despojaram-nos de tudo, até o hospital

São Vicente sempre a crescer
Até que um dia chegou
O concelho nos tiravam; não podia ser
Uma terrível lei que a todos abalou
Antes morrer
Tudo se desmoronou
Depois foi o marasmo
O esquecimento, o pasmo

Assim durante muito tempo
Prá qui ficámos esquecidos,
Muito pouco movimento
Bastante combalidos
Deixados ao esquecimento
No nosso orgulho feridos
Sempre muito resignados
Durante muito tempo parados

Era na fonte velha que as pessoas se sentavam
Bebendo a água fresquinha
Enquanto namoravam
Tratando cada um sua vidinha
Tudo e todos se falavam
As mulheres enchiam a cantarinha
E ao toque das trindades
Todos rezavam, que saudade

Lá vem o senhor vigário
No seu cavalo galopando
Na mão traz o breviário
Enquanto vai rezando
Vem da casa do boticário
Onde passou a tarde falando
A noite vai caindo
E as pessoas para suas casas vão indo

Tens uma igreja grandiosa
Como tu não há igual
Bela, grande e formosa
Não há outra em Portugal
Tua talha é valiosa
O altar-mor não tem rival
Guardas imagens de grande valor,
Que nós veneramos com amor

Tens a relíquia de São Vicente
Que morreu martirizado
Foi um diácono valente
Um osso do seu queixo, temos guardado
Protege nossa gente
São Vicente, homem honrado
Vicentinos, rezai assim
São Vicente, tem pena de mim

E a igreja da misericórdia
Casa do Senhor Santo Cristo
É um templo de concórdia
Onde se ora e suplica, só visto
Senhor, que na cruz estás pregado
Tens que ter mão nisto
O mundo anda tão mal
Salva-nos e salva Portugal

Santo António e São Francisco
Homens de grande fé e amor
Nunca pisaram o risco
Sempre amaram o Senhor
Alegres, bem-dispostos, só visto
Paz e bem, senhor doutor
Vossa capela é maravilhosa
Grande, arejada e espaçosa

Um calvário logo em frente
Bastante original
Onde se junta muita gente
Rezando naquele local
Na semana santa o crente
Vem de todo o Portugal
Lá está o Cristo crucificado
Aos pés Maria e João ajoelhado

A capela de São Sebastião
Pequenina mas asadinha
Tem o lar como irmão
Onde moram muito velhinho e velhinha
O povo tem-lhe muita devoção
Coloca tua fitinha
Tem o condão de afastar
As bexigas ou de as curar

Ficava no campo no limite da freguesia
Santa Bárbara; tinha lá sua capela
O povo do Sobral também a queria
No dia da festa havia muita querela
O Sobral dizia:
A capela é nossa, queremos ficar com ela
A imagem para São Vicente foi levada
E no Casal da Fraga nova capela foi levantada

No cimo da vila uma capela havia
Ao São Domingos pertenceu
Desapareceu como que por magia
Foi um ar que lhe deu
Que saudade, que nostalgia
Não sei o que aconteceu
Desleixo ou afastamento
Já nem resta o assento

Ao fundo da vila junto ao ribeiro
Também havia uma capela
Santo André era o seu padroeiro
Ninguém se lembra dela
Em frente está o Barreiro
Uma paisagem muito bela
Devia de se “alevantar”
Porque há lá muita gente a morar

E a praça municipal
Bela, arejada, espaçosa
Não conheço outra igual
Uma beleza tão grandiosa
Não conheço em Portugal
Graciosa, bela, formosa.
Tens um lindo pelourinho
Forte, formoso e bonitinho

A Domus com seu balcão
E a torre sineira ao lado
Possui um lindo carrilhão
Pelo padre Branco comprado
Tocam muita canção
Que beleza o seu trinado
À noite nos bancos sentados à luz do luar
Que bem se está na praça a descansar

Um dia chegou um coadjutor
Sílvio era a sua graça
Cedo cativou os jovens este prior
Que a todos juntava na praça
Brincava com eles com muito amor
Jogando, rezando, cantando com muita graça
Um dia partiu…
Nunca mais ninguém o viu

Na serra está edificada
Num lugar verdejante e sagrado
É a Senhora da Orada
Muitos milagres tem obrado
Com sua água sagrada
Transportada para muito lado
É nossa rainha
Senhora nossa Senhora minha

Tiveste um convento famoso
Do qual só resta um portão
Sólido e glorioso
Encimado por um brasão
Pórtico belo e grandioso
Tudo o resto caiu para o chão
As pedras levaram
Num muro de uma quinta se transformaram

E a casa da roda, dos enjeitados
No cimo da vila edificada
Onde bebés eram depositados
Continua “alevantada”
Por uma rodeira eram criados
Da câmara recebia a soldada
Cá deixo; dizia uma voz abafada
E a criança a chorar, era abandonada

Ninguém sabia de onde eram
Nem quem a deixava ficar
Nem nome lhe puseram,
Para ali ficava a chorar
Nem roupa lhe trouxeram,
Que nome lhe vamos dar!
Se for menino, será José
Se for menina, será Maria, mulher de fé

Foste terra de judeus
Artífices e gentes honradas
Povo sofrido, temente a Deus
Restam alguns sinais, nalgumas moradas
Dispersos pelo mundo fora, os hebreus
Nunca esqueceram as suas raízes passadas
Gente nobre e valente
Quantos viveram em São Vicente!

Com uma nobreza decadente
De Cunhas, Costas, Monteiros e Raposos
Era gente de São Vicente
Muitos deles famosos
Gente de fé, gente crente
Alguns nem sempre amorosos
Gente de São Vicente
Forte, fiel e valente

Também há gente empreendedora
Em São Vicente nos nossos dias
Que não tem medo, investidora
Por exemplo: os Matias.
Transformaram a água criadora
Dando a muitos trabalho e alegrias
São pessoas valentes e corajosas
Sempre trabalharam e nunca foram preguiçosas

João dos Santos Vaz Raposo
Vicentino e abastado lavrador
Trabalhador, nada preguiçoso
Amava suas terras com amor

Mandou à exposição agrícola de Paris seu azeite
Como prémio de consolação
Trouxeram-lhe um diploma de participação
Foi um produto muito bem aceite

Seus descendentes guardam religiosamente
Este documento do seu antepassado
Era azeite das oliveiras de São Vicente
Que tratava com muito amor e cuidado

Os nossos campos actualmente
Andam tão desprezados
Há máquinas, mas não há gente
Vejam o exemplo dos nossos antepassados

A nossa riqueza está na agricultura
Saibamos trata-la com carinho
Apesar de a vida ser mais dura
Ela nos dá, azeite, mel, pão e vinho

Pedi a Deus para me ajudar
A encontrar a alegria
Respondeu-me, tens de labutar
Trabalha, semeia e cria
Para encheres o teu lar
Tens que lutar noite e dia
Só assim encontrarás a felicidade
Paz, harmonia e amizade

São Vicente terra bendita
Com paisagens sem igual
Não há outra mais bonita
Neste nosso Portugal
Tens campo, charneca e montanha infinita
Água pura, azeite, fruta e vinho divinal
São Vicente, amar-te nunca é demais
Minha terra, dos meus avós e pais

Tens muitas anexas, qual delas a mais famosa
Casal da Serra, Mourelo e Violeiro
Onde não há gente preguiçosa
Vale de Figueira, Partida e Tripeiro
Qual delas a mais formosa
Pereiros e Paradanta, onde houve muito resineiro
Cada uma tem seus encantos
Capelas e igrejas com seus santos

A vila de São Vicente está cercada
De bairros típicos e maravilhosos
O maior é o Casal da Fraga
Cercado de olivais mui formosos
Na serra a Senhora da Orada
São tantos e vistosos
Oriana, Devesa, Quintas, Tapadas e Caldeira
São todos, São Vicente da Beira

Tens casas apalaçadas
Grandes, solarengas e fortes
Algumas brasonadas.
Também tens casas pobres
Mas todas são engraçadas
Sejam dos remediados ou dos lordes
Cada uma tem sua história
Guardam todas a sua memória

Quem não conhece São Vicente
Não conhece Portugal
Venham ver nossa gente
Como esta não há igual
Quem disser o contrário mente
Deixo-vos um sinal
Museus, lugares e paisagens
Não encontram em outras paragens

Foi terra de artesãos
Alfaiates e sapateiros
Belas obras saiam de suas mãos
Barbeiros, latoeiros, pedreiros e carpinteiros
Escudeiros, fidalgos, todos unidos e irmãos
Tens filarmónica, bombeiros e escoteiros
O folclore e os bombos também têm actividade
Onde dançam e toca a mocidade

Bem no alto da Devesa
Junto ao campo de futebol
Está a escola que é uma beleza
Onde as crianças são formadas no melhor escol
É uma escola portuguesa
Bem arejada, cheia de alegria e sol
Não é só de São Vicente, mas é também do Sobral
Ninho, Almaceda e Louriçal

Na Rua do antigo convento
Viveu um notário, o último tabelião
Tiraram nosso concelho, e tudo levou o vento
Na casa da família Dória também havia uma repartição
A vila mudou radicalmente cem por cento
Ficámos sem nada, com as calças na mão
Na casa das Casacas ficava a recebedoria
Em frente havia um tronco onde ferravam todo o dia

Desculpem se não nomeei alguma instituição
Foi porque não me lembrei
Por isso peço perdão
Perdoem-me se errei
Do fundo do coração
Fiz o que pude e sei.
Quem dá o que tem
A mais não é obrigado…


Castelo Branco, 16 Julho 2010

Zé da Villa

3 comentários:

José Teodoro Prata disse...

A História também se conta assim e esta é uma forma bem original de conhecer o nosso passado.
Parabéns ao poeta.

Anônimo disse...

Ao Zé da Villa só faltou
Falar da Serra do Santinho
Agora dum inglês, novinho
Vizinho da Serra do Barroso
Não há lugar mais formoso
Que até tem um miradouro
Para contemplar o mundo
E o Céu estrelado quão profundo...

Ó Zé Vila, o teu poema é um verdadeiro retrato de 350º
e agora sabes porque.
Um abraço do FB

Anônimo disse...

Nem mais! E quase ia ficando sem fôlego com o desfilar de tantas instituições que fizeram a história da nossa terra ao longo dos tempos.
Não sei se por cá alguma vez as instituições civis e religiosas integraram as procissões do Corpo de Deus (em Espanha ainda acontece em muitas localidades; Toledo e Córdova são exemplos notáveis). Se assim fosse, nem as ruas todas da Vila chegariam para tanta gente!
Belo exercício de pesquisa, memória e observação!

M. L. Ferreira