quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Continuando a narrativa


Vinha Rua da Costa acima, a certa altura uma voz vinda do alto:
- Ó sobrinho; vai-me lá buscar um cântaro de água; aqueles malandros…
- Os meus netos…
Era a tia Maria dos Anjos; mulher do tio Joaquim da cadeia .
Subi as escadas, peguei no cântaro de lata, recompensava com passas, maçãs...
Continuei a subir a rua, gorra enfiada; à janela de sua casa estava a D.ª Maria; baixei a cabeça.
- Malcriado, quando vir o teu pai…
O motivo de tanta aspereza era o seguinte; naquele tempo, as pessoas ao passarem pela dona ou pelo senhor, tinham que descobrir a cabeça, eu não estava para ai virado, não tirei a gorra.
Continuei a caminhada, a casa da avó ainda ficava longe, eu tinha que ir à fonte buscar um cântaro ou dois de água.
Ao chegar ao pequeno largo onde entroncam as ruas do Eiró, da Costa, Travessa Manuel Lopes e a Rua Manuel Mendes, o senhor Fecisco Candeias estava danado, uma das suas cabras tinha saído da loja e já ia à porta da Maria Caetana.
- Vê lá se me consegues agarrar a cabra; já não tenho pernas…
Nove anitos, sangue na guelra, corri atrás dela, valeu a ajuda do Domingos feijão, forte, atiradiço, imobilizou-a ao pé do Chão do Balcão.
- Ó catchôpo, toma lá uma sarroada de passas; esta valhaca ia direitinha à serra.
Tio Fausto batia sola, o sorna estava encostado à esquina com umas trombas…
Manuel Candeias, filho da t` i Maria Madalena encostou a sua bicicleta ao balcão, subiu as escadas e entrou.
O homem da pirisca, abriu a porta da loja, pôs as cangalhas ao burro, encheu dois cestos de estrume voltou a fechar a porta e saiu levando o asno pela arreata que transportava os dois cestos cheios de esterco.
A ti Maria Joaquina, “morava na rua Manuel Lopes” passa com as suas duas cabritas a caminho dos Canavéis.
Minha avó Ana, doceira de mão cheia, andava atarefada a fazer doces para a Dª Aulia, estava no quintal quando eu ia a passar.
- Ó filho, traz-me o batedor dos pães-de-ló, está no arcaz da cozinha.
Senhor Alexandre, homem alto e magro abriu a janela que fica em frente à casa do tio Manuel das Esperança, sentado num cadeirão lia o jornal
- Olha o homem da calças baratas, ouvia-se nitidamente o senhor Lourenço da Soalheira na Rua do Convento, apregoava aos fregueses; calças de serrobeco, cotim, camisas de popelina
- Olha o homem das calças baratas
Diamantino tinha acabado de sair da casa do senhor José Lourenço, a cachopada; “eu incluído”
- Ó ti mantino; ó ti mantino, tino, tino… corria atrás de nós naifa na mão, fugíamos.
A ladainha repetia-se.
Diamantino, cara de mau; mudo da Torre, bonacheirão, pobre diabo. Pedintes, de vez em quando apareciam na vila.


Esta narrativa segue o pensamento anterior da autoria do Zé Barroso, a casa com o balcão já não existe, o batedor manual foi substituído pelas batedeiras eléctricas.
Restam as minhas fotografias.

J.M.S

5 comentários:

Jaime da Gama disse...

Ao chegar ao pequeno largo onde entroncam as ruas do Eiró, da Costa, Travessa Manuel Lopes e a Rua Manuel Simões, pois a rua Manuel Mendes fica na baixa da Vila.

Anônimo disse...

Estas viagens ao passado, têm o condão de trazer à memória, tanta gente que já se tinha evaporado. Alguns já muito desfocados...e se fossem do Fundo-de-Vila ainda seria pior. Acho que foi de ir viver para os enxidros cimeiros muito pequenito.
De maneiras que era assim...ontem
FB

M. L. Ferreira disse...

Devia ser ainda mais linda a nossa terra se, em determinada altura, não se achasse que as casas em pedra eram sinónimo de pobreza e se tivesse mandado rebocar tudo. Foi apenas uma questão de cosmética, porque as casas ficaram brancas por fora, mas por dentro a negrura manteve-se durante muitos anos.

José Barroso disse...

JMS: deste movimento, som e cor ao local, com as pessoas e as situações do texto. E que nos trouxeste à tona das lembranças! Também tenho bem presentes aqueles casos da D. Maria, da D. Zara, etc., que queriam que nos levantássemos (caso estivéssemos sentados) ou fizéssemos vénia à sua passagem. É por isso que não gramo essa gente de condes e viscondes... Mas essa é outra história!
Diz-se que uma imagem vale mais que mil palavras. Pois é! A foto é daquele tempo! Onde se vê o balcão da ti' Maria Madalena. A loja do Joaquim Moleiro era a da porta grande que se vê, de perfil, na parede, à direita. Pertencia à ti' Celeste Barata que a tinha arrendada ao ti' João Macedo (da ti' Luz "Pirisca"). Acho que era isso.
Mas muita outra gente ali morava, como referes: a D. Hália e o marido o Alexandre Pignatelli. Ela, uma mulher forte e branca. Ele, um homem seco, branco e alto. Como nunca viam sol, assemelhavam-se a cortesãos, ambos a subir a rua da Costa quando voltavam da missa. Diziam que ele até fazia renda!! Provavelmente pertenciam a famílias italianas (Pignatelli) de que até houve Papas.
Depois, havia a ti' Maria dos Anjos, do Joaquim "da Cadeia" (rua da Costa), o ti' Fausto, o ti' "Fecisco" Candeias, a ti' Esperança e o ti' Manel, a ti' Maria Madalena (avó da Santita), a ti' Martins e o ti' João "Broa", a ti' Joaquina e o ti' João Lopes (na esquina da rua Manuel Lopes), a ti' Laurentina e o ti' Manel "Codel", a D. Maria... Mas as outras ruas contíguas também estavam cheias de gente... O Mira (Domingos Feijão) deve ter aparecido naquela cena da cabra, porque eles (a família) morava numa casa quase ao lado da tua avó Ana...
E foi assim naquele tempo...
Abraços.
JB

José Teodoro Prata disse...

A foto é uma preciosidade. Deve datar de cerca de 1970, a julgar pelos vestígios, na parede, da instalação da rede de água.
Mas podia ser de 1900, 1700...