Fiz a publicação abaixo apresentada no facebook, a qual motivou uma reflexão sobre sobre a correção da palabra que cosnta do título, referida em comentário pelo nosso conterrâneo José Nicolau ("Essa cava era chamada cavar cambalhão, ainda cavei assim, deixar a terra direita é cava rasa.")
A Berta Ramalhinho disse que era camalhões (mais tarde o Albano Mendes de Matos informou que na Região Saloia também se diz camalhões). Eu fui consultar a net e de facto é camalhões, vindo do castelhano caballón, palavra que significa cume em português. Eu penso que ao José Nicolau saiu aquilo que se diz e eu digo na nossa terra: cambalhões. De caballón e porque não de cambalhota?, movimento que damos à terra para a virar, muitas vezes até para soterrar a erva da parte superior. Tal como arresário (soalheiro), enxidros (baldios), também usamos cambalhões, de caballlón. São inúmeras as palavras de origem castelhana que nós usamos nesta região fronteiriça!
OS NOSSOS AVÓS ERAM CIENTISTAS – A OXIGENAÇÃO DA TERRA
Cresci a ver os meus pais e o meu avô Francisco a deixarem a terra em pequenos montes, durante a cava, semanas antes de se fazerem as sementeiras. Aquilo sempre me fez espécie, porque, imediatamente antes da sementeira, os montes eram desfeitos e a terra alisada. Quando comecei eu a preparar as terras, questionei a minha mãe sobre a necessidade de fazer os montes. Ela respondeu-me que era para a terra apanhar ar. Ao cavar, a terra de cima ia para baixo e a de baixo ficava ao ar. Depois, quando os montes se desfaziam, outra terra ficava a apanhar ar. E ao fazer os regos das sementeiras, nova terra ficaria a apanhar ar, ficando por baixo a terra já arejada.
Este mover de terras visa a oxigenação da terra. Ao contacto com o ar, o ferro existente na terra capta o oxigénio e depois, em contacto com as raízes, transmite-o às plantas. Sim, as plantas captam o oxigénio do ar, pelas folhas, e da terra, pelas raízes. Este saber popular chegou-nos pela prática ancestral da agricultura ou é fruto das revoluções agrícola e científica (que em Portugal ocorreram sobretudo no século XIX)? Neste caso, esse saber chegou a alguns agricultores mais esclarecidos, que por sua vez o transmitiram aos camponeses que para eles trabalhavam. Um deles, Francisco Tavares Proença (pai do fundador do Museu), grande político albicastrense do final do século XIX e inícios do século XX, o maior cacique entre a Gardunha e o Tejo (conhecido por soba da rua de São Sebastião, onde ainda existe o seu palacete), era grande produtor de batata e o seu entusiasmo por este novo cultivo terá influenciado a agricultura nesta região.
José Teodoro Prata
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