Desde pequeno que eu fiquei o seu pastor. À saída da escola, os outros rapazes iam nadar para o Pelome, na ribeira, mas eu não podia, tinha a cabra, na loja, à minha espera. A missão do meu primo era igual. A cabra dele era cornuda, de pelo escuro e maior do que a minha. Como nas Festas de Verão era costume comer borrego assado e guisado, o meu pai ia ter com o Nonga, o pastor do tio Albano, que mal conseguia falar, mas entendiam-se, porque eram amigos. Ele apalpava a barriga das ovelhas e sabia quantos borregos traziam. Se houvesse uma com três, então um ficava prometido para nós. Comíamos um dos dois cabritos da nossa cabra e metíamos-lhe o borrego, para ela o criar. Por isso, além da cabra, eu tinha de guardar o outro cabrito dela e o borrego.
Ao lado das nossas casas havia uma encosta muito grande, chamada barreira. Descíamos por ela, sem pressas, ao ritmo das cabras que iam comendo mato, sobretudo de giestas brancas, até chegar ao ribeiro das Lajes. Aí regalavam-se com a erva tenrinha e depois começavam a subir pela barreira oposta, ainda mais calmamente.
E demorávamo-nos no ribeiro, sobretudo na presa da regadia, pouco funda, mas o suficiente para pregarmos uma partida ao meu cão. Chamava “Bobi” e ele vinha a correr, a abanar o rabo de contente. Pegava-lhe ao colo e atirava-o à presa. Ficava aflito, mas nascera a saber nadar e por isso saía da água rapidamente. Nessa tarde não voltava a aproximar-se de mim, mas no dia seguinte já não se lembrava.
A água da presa vinha de uma mina, em parte a céu aberto. Se apanhávamos a presa vazia, entrávamos pela mina e víamos peixes cabeçudos e salamandras preguiçosas, às manchas pretas, vermelhas e amarelas. Depois íamos a ver das cabras, que já mal avistávamos.
A meio da barreira havia um poste metálico dos telefones. Então pegávamos numa pedra e batíamos nele, às vezes depressa, outras devagar, com mais ou menos força, a tentar conversar com as pessoas que estavam ao telefone, nós que nem sabíamos o que isso era. Outras vezes subíamos a uma piçarra e fazíamos um relato de futebol:
“O Coluna passa para o Costa Pereira, este chuta para o Jaime Graça que centra para o Torres e é GOOOLLLOOOO!”
Além da mãe do meu primo, tínhamos outra tia nossa vizinha ainda mais religiosa que as nossas mães. Ela costumava ranhar-nos quando nos portávamos mal e falava-nos dos pastorinhos de Fátima, querendo que nós fossemos como eles. Um dia emprestou-nos uns livrinhos sobre o Francisco e a Jacinta. A Nossa Senhora tinha-lhes aparecido e pedira-lhes que rezassem muito e jejuassem. Andámos aterrorizados muito tempo, pois éramos pastores e podia-nos acontecer o mesmo. Rezar, ainda vá lá, mas deixar de comer… Não descansámos enquanto não lhe devolvemos os livros!
Mas voltemos à vida de pastor, que o ganal tem de comer todos os dias. Na barreira do lado de lá do ribeiro, o mato era de carquejas e algumas giestas amarelas. As cabras gostavam de comer as flores e os rebentos tenros. Talvez também gostassem, como nós, de ver a encosta matizada com o castanho da terra, o negro das rochas e o colorido verde e alaranjado dos matos. Por isso se demoravam lá tanto, facilitando as nossas brincadeiras no ribeiro.
No alto da barreira, havia um pequeno planalto, com uma pedra enorme a sobressair na encosta, como se fosse uma varanda sobre a presa. Antigamente era lá que se malhava o pão, mas para nós era mais um bom sítio com imensas oportunidades para brincar. Havia vagar, pois as cabras adoravam o mato branco lá do alto.
Um dia, já sol-posto, corremos pelo mato para virar as cabras de volta a casa e demos com um ninho no chão. Tinha quatro passarinhos já vestidinhos, completamente pretos. Pegámos neles, dois para cada um, e regressámos apressados, para mostrar às nossas mães e irmãs.
“São cotovias, os passarinhos de Nossa Senhora. Tendes de ir depressa colocá-los no ninho, pois é pecado tirá-los. E esperemos que a mãe não os enjeite, por terdes mexido neles!”
Corremos no escuro do anoitecer, com eles na concha da mão. Descemos a barreira, subimos a barreira e metemo-los no ninho. Voltámos com o coração apertado, pois já se ouviam uns pios tristes, seriam os pais a chorar pelos filhos.
Nos dias seguintes, não voltámos ao alto da barreira e ao entardecer ficávamos sempre de ouvido à escuta, tentando ouvir os pios dos pais cotovias a quem nós havíamos roubado os filhos. Felizmente, deixámos de os ouvir, embora ainda hoje se ouçam todos os dias ao anoitecer
Sargaço
Giesta amarela
Mato branco

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