domingo, 20 de março de 2011

A Coca

Lembram-se dela? Do desassossego nos nossos frágeis espíritos infantis? Às vezes, nem a canção de embalar, para a esconjurar, nos devolvia a paz.
A nossa mãe cantava, no escuro do quarto:

Vai-te coca, vai-te coca,
Vai-te coca do telhado.
Deixa dormir o menino,
Um soninho descansado.


E nós acreditávamos que ela novamente nos estava a proteger, sempre a afastar a coca para longe de nós. O sono chegava finalmente, mas, por vezes, a coca reaparecia nele e continuava a atormentar-nos.
Nesta história infantil que dramatizei, a coca chama-se medo e o autor ensina, com mestria, um truque para o vencer.
Podem copiar e usar, como quiserem. Mas nunca se esqueçam de referir o criador da história. Leiam o livro e visitem o seu site!

Livro: “Draguim e o bicho de sete cabeças”, de Carlos J. Campos.
Adaptação a texto dramático: “Vencer o Medo”, de José Teodoro Prata
Encenação: Turma do 4.º A da Escola Cidade de Castelo Branco, de Idalina Rodrigues, Março de 2011.

Personagens: Seres da Floresta (Mestre dos duendes, Draguim, Pétala, Duende 1, Duende 2, Duende 3, Duende 4, Coelho, Joaninha, Lobo), Mosca e Dragões (Chefe dos dragões, Dragão 1, Dragão 2, Dragão 3, Dragão 4 e Medo)


(O palco mostra dois mundos bem distintos. De um lado, há uma floresta verdejante e florida, habitat de animais e duendes. Do outro, a terra está despida de árvores, sendo visíveis alguns paus secos e queimados. É a terra dos dragões, que nada cuidam e tudo destroem.
A cena abre com animais e duendes em alegre convívio, numa floresta. Uns fazem uma roda, outros entretidos num jogo. Todos cantam uma canção.)

Viva a terra dos duendes, giroflé, giroflá.
Viva o Draguim nosso amigo, giroflé, flé, flá.
Vamos todos brincar juntos, giroflé, giroflá.
Defender o nosso Mundo, giroflé, flé, flá.

(De repente, a cena é atravessada por uma criatura negra, que logo desaparece. A sua passagem foi tão rápida que os seres da floresta, distraídos como estavam, nem tiveram tempo de ver o que era. Ficam todos preocupados, a perguntar uns aos outros o que teria sido aquilo.)
Coelho: O que foi aquilo?
Joaninha: Viste o que aqui passou?
Lobo: Era uma mancha escura.
Duende 1: Parecia um dragão.
Todos: Um dragão? (Exclamam em coro, cheios de medo.)
Draguim: Vou avisar o Mestre.
(Disse um pequeno dragão colorido, chamado Draguim. Os outros continuam apreensivos. À boca de cena, num dos lados, está o Mestre sentado, na sua mesa, a ler um velho livro.)
Draguim: Mestre! A floresta foi atravessada por uma criatura inquietante.
Mestre: Inquietante, porquê?
Draguim: Era estranha e escura e encheu de medo os habitantes da floresta.
Mestre: Obrigado, Draguim, por me teres vindo avisar. Agora volta para junto dos outros e diz-lhes para nada temerem.
(O pequeno Draguim junta-se aos outros e o Mestre fica a falar com os seus botões, mostrando preocupação.)
Mestre: Uhm! Será que isto tem algo a ver com aqueles estranhos sinais de fumo que tenho visto a sair da terra dos dragões?
(E mergulha de novo no seu livro. Entretanto, o palco é atravessado pela mancha negra, em várias direcções. Os animais e os duendes da floresta ficam estáticos. Do outro lado, entram em cena alguns dragões, empunhando cartazes onde se lê: “VIVA O MEDO”. Estes dragões têm aspeto desleixado e escuro. Um deles distingue-se dos outros pela bengala que usa como símbolo de poder – é o Chefe.)Todos os dragões: VIVA O MEDO! VIVA O MEDO!
(Gritam eufóricos. A mancha negra pára junto deles. É um dragão insignificante, feio e magricela. Ao vê-lo, os outros dragões perdem o entusiasmo e dividem-se entre o riso trocista e a desilusão.)
Dragão 1: Ó Chefe, é este lingrinhas que nos vai ajudar a conquistar a floresta dos duendes? Ah! Ah! Ah! (Diz um deles. Os outros riem também e abanam a cabeça, desiludidos.)
O Medo (Dirigindo-se ao Chefe): Vamos começar a trabalhar já. Diga a estes idiotas para irem buscar muitas folhas secas e pedaços de carvão.
Chefe: Façam o que ele pediu, já!
(Os outros dragões procuram folhas e carvões. O Medo escreve a primeira mensagem.)
Medo: Agora, escrevam a mesma coisa em todas as folhas!
(A floresta é atravessada, novamente, pela mancha negra, que vai largando folhas secas à sua passagem. Depois desaparece, tão rápido como chegou. Os animais e os duendes param as suas brincadeiras e, apreensivos, apanham do chão algumas folhas. Todas trazem a mesma mensagem. Lê cada um, numa repetição sucessiva e cada vez mais entoando preocupação.)
Duende 1: O MEDO VEM AÍ!
Duende 2: O MEDO VEM AÍ!
Duende 3: O MEDO VEM AÍ!
Todos os seres da floresta: O MEDO VEM AÍ!
(O Draguim leva umas folhas ao Mestre.)
Draguim: Mestre, veja! O MEDO VEM AÍ!
Mestre: Draguim, o medo é uma semente má que, uma vez plantada, vai crescendo e tomando conta de tudo. Sei pouco sobre o medo. Talvez “O grande livro dos duendes” me ajude a encontrar uma solução. Volta para junto dos teus amigos e procura distraí-los.
(O pequeno Draguim volta para junto dos seus amigos e encontra a Pétala, que lhe estende uma folha.)
Pétala: Ó Draguin, eu não sei o que é o medo! Tu sabes?
Draguim: O medo é um artista muito divertido que vem fazer um espetáculo à nossa aldeia.
Pétala: Então, porque estão todos tão preocupados com este anúncio?!
Draguim: Ahh… porque neste anúncio não diz quando é que ele chega…
Pétala: Obrigado, Draguim! Olha, queres vir comigo apanhar frutos?
(O Medo fala para os outros dragões.)
Medo: Vamos passar à segunda fase do plano. Agora precisamos de um mensageiro. Alguém que espalhe um boato entre os animais da floresta. Uma criatura sorrateira, capaz de andar entre dois mundos. Um ser sem escrúpulos que não se importe de trair os da sua espécie.
(Chega uma mosca, muito excitada com as novidades que vem contar.)
Mosca: Na floresta dos duendes só se fala num tal Medo… e que está para chegar, não se sabe quando… nem onde…
Medo: Vai contar-lhes que esse tal Medo é um dragão enorme que consegue destruir uma árvore com uma só labareda!
Mosca: Mas afinal sempre é verdade?! Onde é que ele está?
Chefe: Isso não é da tua conta. Faz o que te mandam!
(A Mosca entra na floresta e atrai para a boca de cena um duende. Fala-lhe, em voz baixa. O duende conta aos outros.)
Duende 1: Vêm aí dois dragões enormes, capazes de incendiar duas árvores com uma só labareda!
(Na terra dos dragões, o Dragão 1 coloca-se de braço dado com o Medo, formando um dragão de duas cabeças.)
Medo (os dois dragões ao mesmo tempo): Pronto! A semente está lançada. O medo vai começar a crescer! UAH! UAHUAH! UAUAHAH!
(A mosca volta e fala ao ouvido de um segundo duende.)
Duende 2: Contaram-me que vêm aí três dragões enormes, capazes de derrubar três árvores cada um, só com uma labareda! Salve-se quem puder!
(Entretanto, o Dragão 2 junta-se ao Medo, formando um dragão de três cabeças. Riem às gargalhadas.)
Medo (os três dragões ao mesmo tempo): UAH! UAHUAH! UAUAHAH!
(Os seres da floresta estão cada vez mais amedrontados com as notícias. A mosca reaparece e fala ao ouvido de um terceiro duende.)
Duende 3: Contaram-me que estão a chegar à nossa floresta quatro dragões gigantes, capazes de derrubar quatro árvores cada um, só com uma labareda!
(Entretanto, o Dragão 3 junta-se ao Medo, formando um dragão de quatro cabeças. Riem contentes.)
Medo (os quatro dragões ao mesmo tempo): UAH! UAHUAH! UAUAHAH!
(A mosca fala ao ouvido de um quarto duende.)
Duende 4: Não são quatro, mas cinco dragões e cada um derruba cinco árvores só com uma labareda. Vão queimar a nossa floresta num instante!
(Entretanto, o Dragão quatro junta-se ao Medo, formando um dragão de cinco cabeças. Riem ainda mais forte.)
Medo (os cinco dragões ao mesmo tempo): UAH! UAHUAH! UAUAHAH!
(Os seres da floresta mostram uma crescente preocupação. Nem todos, o Draguim e a Pétala continuam as suas brincadeiras. Afastados deles, os duendes conversam entre si.)
Duende 1: Se não abandonarmos a floresta, morreremos todos.
Duende 2: Eu estou de acordo. Vamos embora.
Duende 3: Também vou convosco.
Duende 4: Draguim, Draguim, vai avisar o Mestre!
(O pequeno Draguim vai avisar o Mestre do que se passa. Enquanto conversam, surge a mosca junto dos dragões.)
Medo (os cinco dragões ao mesmo tempo): Leva-lhes esta última mensagem: AMANHÃ DE MANHÃ, O MEDO VAI CHEGAR À FLORESTA!
(A mosca mistura-se com os seres da floresta e fala com eles. Ficam aterrorizados com a nova notícia e dão sinais de abandonar a floresta. O Mestre vê que tem de fazer alguma coisa.)
Mestre: Draguim, convoca todos os seres da floresta para uma reunião.
(O Draguim sai de junto do Mestre e chama pelos animais e pelos duendes. Os seres da floresta aproximam-se do Mestre, ainda receosos.)
Mestre: Nada há a temer. Vós é que dais força ao medo. Confiai em mim e vereis.
(O Mestre e o Draguim escrevem uma mensagem nas folhas do chão. Os duendes lêem a mensagem e começam também a reproduzi-la noutras folhas. Em seguida, o Draguim chega-se à orla da floresta e atira as folhas para cima do dragões-Medo. Eles apanham-nas e lêem-nas.)
Medo (os cinco dragões ao mesmo tempo): OS DUENDES NUNCA ABANDONARÃO A FLORESTA!
(Ficam confusos e desanimados.)
Medo: Oh!
(Mas, depressa, recuperam o ânimo.)
Medo: Não há problema! Se nós estamos assim tão fortes, é porque o medo deles é muito grande. Vamos acabar com isto!
(O Medo - os cinco dragões - sai do seu canto e avança em direcção à floresta. O Mestre, o Draguim e a Pétala aguardam-no sorridentes, com os outros seres mais atrás, receosos. O Medo faz gestos espetaculares, grita, faz Oh! e AH! numa dança ameaçadora.)
Pétala: Lindo! Lindo! Tinhas razão, Draguim! O espectáculo é mesmo giro!
(Todos se animam e batem palmas. O Medo fica confuso e ainda mais furioso. Os seres da floresta redobram os aplausos. O Medo desfalece e cai no chão, perante as gargalhadas de todos.)
Mestre: Viram, amigos, nada havia a recear! A explicação do que aconteceu é simples: muitas vezes a nossa imaginação dá asas ao medo e deixa que ele cresça em nós e se torne enorme. Temos sossego, de novo, na nossa floresta. Podeis voltar às vossas brincadeiras.
(A floresta volta a animar-se, com os animais e os duendes entretidos em jogos e canções. Todos cantam.)

Os duendes tinham medo, giroflé, giroflá.
Mas conseguiram vencê-lo, giroflé, flé, flá.
Quem tem medo tem coragem, giroflé, giroflá.
Unidos somos mais fortes, giroflé, flé, flá.


FIM

Nota: Por questões de ordem prática, optou-se por, na parte final, formar o Medo com os dragões da Terra dos Dragões. Mas o Medo pode ser formado por outros quatro dragões, iguais ao Medo, que se vão juntando a ele.

Um comentário:

ANA disse...

eu canto uma versão dessa canção aos meus rapazes aprendi-a com a avó Maria dos anjos Alves que a cantou à minha mãe e aos meus tios.

Vai-te embora bicha coca
Vai-te embora do telhado
Deixa dormir o menino
Um soninho descansado

Dorme dorme meu menino
Foi-se o sol nasceu a lua
Qual será o teu destino
Que sorte será a tua

Riquezas tenhas tão grandes
E tal Bondade tambem
Que ao redor de onde tu andes
Não fique pobre ninguem

Mas se Oiro for mau caminho
Antes tu venhas a ser
O maior pobrezinho
De quantos pobres houver