sexta-feira, 31 de outubro de 2014

O robin dos bosques da Gardunha

CIRENEU(1)  
      
Ti´ João levantou-se cedo, como de costume. Era pelo lusco-fusco. Seriam umas cinco e meia da manhã. Estávamos em maio. Via-se ainda bem, no céu, o Sete-Estrelo. As madrugadas perduravam, frescas. Não se tinha ido, de todo, a humidade deixada pela invernia, que fora longa. Até ao mês anterior, abril, chovera muito e o frio ainda se fizera sentir, a justificar o rifão “Em abril, águas mil!” ou “Em abril, queima a velha o carro e o carril!”

Aquecera, entretanto.

Ouvia-se cantar o cuco e a poupa para os lados do Louriçal do Campo, naquelas manhãs amarelas, muito claras, quando o sol se levantava a jorrar luz sobre a natureza. Mas, cedo, pela manhãzinha, o ar era muito lavado e húmido. Em contacto com a terra e as plantas, mais frias, condensava-se em grandes orvalhadas.

Às vezes, mesmo nesta altura do ano, caíam grandes nevões. Não já, aqui, na Gardunha, mas ali na vizinha Estrela. Bastava ir ao alto da Portela da Senhora da Orada para ver, do lado de lá, a norte, um manto novo a branquejar os píncaros arredondados da serra.

Ti´ Mari’ Antonina já estava a pé. Pôs o prato sobre a pequena mesa da cozinha para o almoço(2). O espaço era lúgubre. E a obscuridade era cortada apenas pela fraca chama da candeia de azeite pendurada na parede de pedra nua, enegrecida pelo fumo da lareira. Quando o dia nascesse, a luz entraria apenas por uma caleira de vidro colocada no teto, à telha vã.

A refeição costumava ser miga de broa ou pão centeio e um ovo escalfado na água a ferver com alho e azeite, a que acrescentava apenas uma pitada de sal. Tinha as energias para permitir que um homem subisse a Gardunha, até à parte mais alta, acima da cinta de pinheiros, carvalhos e castanheiros. Onde, na nudez das pedras, apenas certas plantas rasteiras e arbustos, agarrando-se desesperadamente às nesgas de terra paupérrima, são capazes de resistir à crueza das temperaturas do verão e do inverno. Como era seu hábito, Ti´ João cortou ainda um pequeno pedaço de broa. Embrulhou-o num paninho lavado e meteu-o num bolso. A côdea era um pouco rija para os seus dentes, mas quando chegasse lá acima, comia-o como se fosse uma castanha pilada, engrolando-o na boca até se desfazer. Por cima, costumava beber-lhe água de uma nascente fresca, que descobrira na serra, sob uma laje de granito.

De foição na mão e safões para se proteger do mato e da urze, casaco pelo ombro e munido de uma corda, estava pronto para a caminhada.    

— Olha, Maria, — disse parar a mulher — vou à serra a ver se trago um molho de palha. Com o tempo bom, as pessoas querem varrer as suas testadas. Precisam de renovar as vassouras e os capachos que se deterioraram com o inverno. E os donos dos lagares também hão de estar interessados em comprar seiras para a próxima campanha da azeitona. Estarei de volta, lá para a hora de jantar.

Ti’ Tonina era uma mulher sempre bem-disposta. Ria-se com grande facilidade, quase por tudo e por nada, nas conversas com os vizinhos. Mas na privacidade da sua casa, era um pouco mais comedida. Não era tão expansiva e descontraída. Quando o homem acabou de lhe dar o recado, fez apenas “que sim” com a cabeça.

O homem desceu as escadas de madeira, pausadamente. Abriu a porta da rua e tossiu. Perscrutou, na penumbra, algum vulto de gente que passasse para o trabalho. Mas nada. Porém, os vizinhos estavam também a acordar nas suas casas e ouviam-no, distintamente, no silêncio da manhã, a catarrear o fumo do tabaco.

— Lá vai o Ti’ João para a serra. 

Pôs o pé na calçada antiga, irregular. Subiu pela rua Manuel Simões. Passou pelas últimas casas do cimo de vila e virou para a quelha que ladeia a cerca da Maria José Afonso e, lá mais acima, a quinta do conde. Foi pelos Carquejais e lá achou o trilho habitual que o havia de levar à serra, ao sítio do costume. Aquelas veredas conhecia-as ele como as suas mãos, mesmo sem a claridade do dia! Uma vida inteira a calcorrear estes caminhos! Pudera!

Sumiu-se, depois, no Cabeço do Mastro. Seguiu sempre pelo carreiro, seu velho conhecido, serra acima, direito a uns castanheiros grandes, perto da Pedra do Lagarto. Local que tomara aquele nome por ali haver uma grande rocha granítica com aspeto de cabeça de sáurio. Aí costumava descansar. Mirara a maior das árvores. Procurou uma pedra mediana com uma face lisa para servir de assento. Rebolou-a para junto do troço. E enrolou um cigarro que fumou encostado ao tronco escalavrado pelo tempo. Habitualmente, era aqui surpreendido pela alva.

Nesta altura do ano ainda não havia castanhas. As árvores estavam pouco mais que em flor. No outono, se ali passava nas suas lides, é que apanhava algumas do chão, para roer, enquanto deambulava pela serra. Mas antes, deitava o olho em redor, não fosse alguém estar à espreita. Nessa época, a maioria das pessoas eram pobres. Tinham apenas a hortita das couves para o caldo, no correr do inverno. Trabalhavam de sol a sol para a côdea. A grande propriedade era do nobre. Os pobres tinham que se abotoar com o rebusco, no fim das colheitas. Mas esse roer de consciência do rico, não enchia a barriga a ninguém. Tempos dum filha da puta!   

Ti´ João acabou de fumar o cigarro e seguiu pelo seu caminho, descansadamente, esquecido nas suas cogitações. Após andar um bom pedaço e, coisa aí de uns cem metros à sua frente, viu um homem especado, mesmo no meio da vereda, que era estreita. Embora a aparição deste homem, naquele lugar ermo, o perturbasse, fez um esforço para não dar sinal de inquietação. Não se justificava mostrar fraqueza. Vamos que o homem estava apenas por ali perdido e precisava de ajuda?! E, todavia, caso o desconhecido se revelasse um empecilho, a tolher-lhe o passo, podia ainda fazer-lhe frente! Que diabo, para um homem há sempre outro! Afinal, até ia armado de corda e foição! O seu receio era apenas um, estaria o indivíduo acolitado por outros escondidos na berma do caminho, atrás do mato? Seguiu com alguma cautela. Foi-se aproximando, sem que o homem se mexesse tanto como um palmo, do sítio onde se encontrava.

 — Mau! — meditou consigo. Mas continuou.

A cerca de meia dúzia de metros de distância, podia ver-se que era um indivíduo de estatura média, mas encorpado. Passaria dos 50. Estava vestido andrajosamente. E a avaliar pelos sinais faciais, tinha cara de poucos amigos.

— Está bela a brincadeira! — pensou. Porém, não se desmanchou nem vacilou. À falta de gestos, só a palavra, muitas vezes, pode quebrar o gelo da postura de dois homens que mutuamente se desconhecem.

— Viva lá quem é gente! — disse, finalmente, o outro.

— Deus o guarde! — retorquiu o Ti´ João, ainda com alguma falsa tranquilidade. Mas, pelo modo um tanto familiar como tinha falado o intrometido, já a refazer-se da surpresa e a sentir a paz com que vinha subindo o caminho. Tudo indicava que o inesperado montanhês sempre estaria por ali sozinho! Entretanto, tinham chegado perto um do outro, ficando, frente a frente, à distância de dois braços. Estava lançada a ponte do diálogo.

— Acaso o amigo leva por aí tabaco? — perguntou o intruso.

— E quem pergunta? Pode saber-se? — respondeu, mais afoito, o Ti´ João, já que o trunfo estava do seu lado.

— Não costumo dizer quem sou nem onde estou, não vá alguém dar notícia ao regedor da vila ou mesmo à guarda republicana do Fundão!

— Homessa! Ainda agora aqui cheguei e o amigo a falar-me já de gente tão arredia…Mas lá quanto a isso, pode estar descansado. Não tenho motivos para o acusar seja do que for. E que razões há para recear que alguém dê tal notícia à autoridade? Quem é você e ao que anda nestes ermos?

— Só posso afiançar que sou filho de mãe honrada e de família com casa erguida, num lugar que não vem ao caso, ali para os lados do Fundão. Mas já mal me lembro do nome de batismo. Saí cedo do berço e deambulo por aqui, solitário, percorrendo montes e vales. Não sou nenhum santo. Mas tenho que governar a vida. Seja por caminhos mais direitos ou mais tortuosos. Um homem tem que viver!

— Espere lá! Anda aqui pela serra, sozinho…E por caminhos um tanto ou quanto transviados… Não ponha mais na carta! Acho que já ouvi falar de si. Por esses sinais…Você não é aquele a quem chamam o Cireneu?  

— Chiu! Caluda! — acudiu visivelmente incomodado o viandante. E, aproximando-se mais do Ti´ João, proferiu em tom muito baixo:

— Parece que sim. Parece que é isso que me chamam. Mas fale baixo, homem! Pode estar alguém por aí a ouvir! 

— Qual quê? — retorquiu o Ti´ João. — Nestes cumes, nem vinga árvore, nem há bicho bravio, porque não tem que comer, quanto mais gente! Aqui, só nós e Deus, que está em toda a parte! Para estas bandas não passa ninguém! Apenas eu venho aqui cortar a palha para as seiras, as vassouras e os capachos. Porque é aqui que ela cresce!

E, pausadamente, a adivinhar qual seria a reação do interlocutor, acrescentou:

— Mas saiba o amigo que não me têm dito nada bem de você. Dizem que assalta casas e anda por aí a roubar. Não se livra da fama de bandoleiro dos caminhos.

— Não é tanto como dizem. É verdade que, devido às voltas que a vida deu, me vejo sem nada e preciso de comer todos os dias. Mas, pobre que é pobre, nada tem a temer de mim. E, como é bom de ver, onde nada há, nada se pode tirar.

— Lá isso é verdade — concordou o da vila.

— Pois é. E dá-me volta ao estômago ver os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais miseráveis. Ando de mal com o mundo. Move-me uma certa vontade de o equilibrar. Ora diga-me lá, se tirar alguma coisa ao rico e o utilizar em proveito próprio ou o der a outros pobres, não acha que haverá mais igualdade?

— Bem, bem! — fungou o Ti´ João.

Mas o vagabundo concluiu:

— Portanto, já vê, o amigo, que faço um pouco de justiça por minha conta. E daí, parece-me que não vem mal ao mundo.

Ti´ João fungou novamente algo impercetível e acrescentou:  

— Homem, nem você nem ninguém vai equilibrar o mundo. E por esse andar, ainda se arrisca a ir parar à enxovia por uns tempos. Bem sei que o rico sempre teve a pata em cima do pescoço do pobre. Mas o mundo nasceu assim e assim vai continuar. E já não está tão mau como quando eu era novo!

E mais isto e mais aquilo. Não houve forma de concordarem. Como a conversa já se alongasse, o viandante insistiu:

— Mas o amigo, afinal, sempre leva aí tabaco?

— Então não havia de levar? Fumo quase de noite e de dia! A bem dizer, acendo os cigarros uns com os outros! Passo as manhãs a pigarrear por mor do fumo…

— Então, já que assim é, podia fazer-me o grande favor de me dar um pouco de tabaco e uma mortalha para enrolar um cigarro?

— Ora essa! Aqui tem a onça do tabaco e o livro das mortalhas! Sirva-se você como lhe aprouver!

— Ainda bem que encontro homem! Dizem que agora se vendem por aí uns cigarros já feitos…Mas não há nada como tirar o tabaco da onça, às pitadas, enrolá-lo para lhe sentir o cheiro e colar a mortalha com cuspo.

Fez o cigarro. O Ti’ João ia puxar da caixa dos fósforos, mas o outro atalhou:

— Alto lá! Lume tenho eu!

Riscou um fósforo e acendeu o cigarro. Deu uma fumaça profunda, fez uma pausa a saborear o aroma do tabaco e por fim deu um “ah!” de satisfação.   

— Um dia hei de arranjar maneira de lhe pagar esta gentileza.        

— Homessa! Não tem que pagar coisa nenhuma. A um fumador não se nega tabaco. Hoje você, amanhã eu — arengou o Ti’ João. E acrescentou: — Mas, diga-me lá, o amigo não tem vida fácil? Pelo que vejo, vive em sobressalto constante, com medo de ser preso. Não tem casa para se abrigar da chuva, do frio e do calor, nem tem família. Não valia mais entregar-se e pagar à justiça pelo que tem feito, tomando, honestamente, a vida nas suas mãos, podendo passar na rua, descansado, tão inocentemente como uma criança que vai a aviar o seu recado?!

— Cale-se lá com isso, homem! Levei a minha vida nestas serranias. Ora do lado de cá, ora do lado de lá, onde nasce o sol. Nem sempre de bem com os outros, é certo. Sobretudo com os ricos. Mas estou nos meus domínios e sou livre. Conheço bem o terreno e ninguém me veda o caminho. Daqui vejo quase o mundo todo e tenho a agilidade de uma cabra brava! Já fiz tantas ou tão poucas que a prisão da justiça é pequena demais para mim! Encarcerado, morria em oito dias! Ou mandavam-me para o degredo para a África! O que está feito, feito está. Não paga a pena recuar.
Após o cigarro e depois de uma pausa um tanto ou quanto incómoda, ambos perceberam, tacitamente, que nada mais havia a conversar. Os dois homens preparavam-se para se saudarem na despedida e prosseguir cada um o seu caminho.

Ti´ João estava decidido a concluir a tarefa que o levara àquele local, naquela manhã: cortar um molho de palha e voltar à vila perto do meio-dia, como prometera à mulher que estaria já com o jantar preparado à sua chegada.

O sol já ia alto!

Mas Cireneu proclamou repentinamente:

— Ó amigo, ó amigo, espere aí!

— Então o que há?! Tenho que ir cortar o molho da palha…

— Já que teve a franqueza de me dar do seu tabaco, que muito aprecio na quietude divina destas alturas, quero levá-lo a um certo sítio, aqui na serra, que só eu conheço. Ora venha daí!

— Ai o raio do homem! Isto está bonito! — tartamudeou, entre dentes, o Ti´ João. 

Mas o outro insistiu:

— Deixe lá! Tem tempo de apanhar a palha. Uma manhã não são dias! E as ocasiões é Deus que as dá. Sei-o muito bem. Aprendi-o nesta vida. Mas também pode tirá-las de uma vez. Não se sabe o dia de amanhã!

Ti’ João ficou um pouco contrariado por estar a fugir, desmesuradamente, à tarefa a que se tinha proposto e que o levara ao local, de apanhar a palha para as vassouras, para os capachos e as seiras. Mas, bom, lá foi.

Puseram-se em marcha, calcorreando carreiros que o Cireneu conhecia como as linhas das suas mãos. Em volta, os enormes pedregulhos de granito nu. Nos quais desenhamos, mentalmente, formas e recortamos figuras, com a ajuda da erosão que já fez o seu trabalho. Referiu-se já a Pedra do Lagarto. E é bem conhecida a Pedra do Galo, próximo do Castelo Velho. Na Estrela, a Cabeça da Velha, anda por aí nos livros e nos postais ilustrados. E sabe-se lá que mais!

Ao cabo, chegaram a um local onde deram com três dessas grandes piçarras graníticas, arredondadas pelo tempo, com toneladas e toneladas de peso. A maior delas encontrava-se encostada a outras duas, também de grande porte, todavia, um pouco mais pequenas, que lhe serviam de calço. Todas estavam parcialmente enterradas na encosta da montanha. Contornando-se, parcialmente, a pedra que se encontrava postada à frente, em descendo, descobria-se uma entrada, quase exígua, que dava para um espaço vazio mais amplo, entre as outras duas. Podia perfeitamente servir de guarida improvisada, a quem a achasse e fosse ali surpreendido pelo mau tempo ou mesmo pelo sol calcinante.

Se se cavasse o terreno ao fundo desta gruta moldada pela natureza, podia alargar-se muito o espaço útil, tornando-o mais acolhedor, até porque ficaria ainda mais resguardado da agressividade do tempo. Haveria espaço para armar um catre e colocar-lhe uma boa camada de palha seca por cima, acender uma lareira e arranjar uma pedra maior a servir de mesa e outras a fazer de bancos.

Para tornar mais discreto o local, podia-se camuflar totalmente a entrada, com quatro ou cinco pedras previamente escolhidas que um homem sozinho facilmente manejava, quando entrasse ou quando saísse do abrigo.

Cireneu dirigiu-se, então, à porta da gruta, tirou as pedras que lá tinha deixado quando saíra e entrou. O Ti´ João foi atrás. Assim que pôs um pé lá dentro, fez um “ah!” e disse com ar de espanto:

— Então é aqui que você está alapado!

— Esta lapa é um sítio meu, discreto e recatado, que procuro preservar a todo o custo. Tenho feito dele ponto de descanso após as minhas calcorrearias aos vales, à procura de comida, abaixo da serrania.

Tio João ficou admirado com o que viu. Ali constavam, de facto, um aconchego armado com paus talhados e com muita palha em cima, a servir de cama, uma pedra a servir de banco e outra de mesa. Algumas ferramentas de corte, como um podão, uma machada, algumas facas e navalhas de vários tipos. Chaves de fendas improvisadas a partir de peças de ferro às quais era metido um cabo em madeira. Algumas malgas e pratos de loiça e esmalte. Havia comida: maçãs e outras frutas — já era tempo da cereja e de certas espécies de pêssego — uma perna de rês pendurada, ao fumeiro da lareira, um frasco grande de feijão seco, uma cesta de batatas, duas chouriças, um naco de presunto, dois pães, frascos de compota, um pequeno saco com cebolas…Parecia uma loja de adelo!  
    
Tinha tido êxito nas suas últimas idas à cata de provisões por terrenos e casais, se conseguisse iludir os cães e vigilantes. Muitas vezes foi corrido por eles, a toque de caixa, de bofes a sair pela boca, arranhado e ferido nas pedras e silvas, refugiando-se à pressa, na serra, onde eles não ousavam aventurar-se.  

Quanto a beber, conhecia, na serra, várias nascentes. De vez em quando, tinha o grande luxo de beber um pouco de vinho, se calhava a surripiá-lo de alguma adega em terras baixas, nas casas agrícolas.

E Cireneu, com cara mais solene:

— Fiz de você um aliado. Confio na sua boa-fé. A confiança e a lealdade alicerçam as mais firmes amizades. Retribua-me da mesma maneira. Nunca revele a ninguém o meu esconderijo. Olhe que já andou aqui por cima desta lapa a guarda republicana do Fundão. Devem ter tido notícia, ainda que vaga, que eu estaria por estas bandas e meteram-se ao palpite. Mas nunca me pilharam. Esfolei umas ovelhas e espalhei as tripas aí pelos arredores, fazendo crer que foram os lobos que as mataram. Acontece aqui muitas vezes. Quando têm fome descem às pastagens a apanham borregos e ovelhas. Saiba o amigo que comeram as tripas que por aí deixei, mas ficou o cheiro pelo mato e pelos passadiços. E assim iludi dois cães que a tropa trazia. Por isso, peço-lhe apenas que, quando aqui vier, me traga tabaco e papel de mortalhas, que eu lhe pagarei em peças de valor. Ainda posso fazer de você um homem rico.

Assim contava a sua história e declarava os seus propósitos.
  
E desta forma se deu o encontro, inimaginável, do foragido da Gardunha a quem chamavam Cireneu, com um homem da vila. Nenhum deles sabia o nome do outro! E para o caso, bem vistas as coisas, também não era importante.

Continuaram, a encontrar-se na serra, por largo tempo.

Já se viu que o fora da lei saciava a fome, com o que roubava. Precisava de comer. É certo que nas suas fugas e aventuras, podia cometer tropelias, fazer ameaças ou mesmo ferir e até matar, caso alguém se lhe atravessasse no caminho. Tinha que defender o capote e a liberdade.

Mas, como diria S. Francisco de Assis, “Os lobos não são maus, porque são criaturas de Deus. E só matam porque têm fome. É a necessidade.”

Assim era o Cireneu.

Uma vez furtara uma ovelha ao conde da Borralha. Como se fora um lobo, descera a encosta furtivamente e dirigira-se para o local onde as ovelhas costumavam pastar. Mas deu uma volta muito grande pelo terreno em redor, para fugir a olhares indiscretos. Pôs-se à coca e avistou um grande rebanho. Há sempre ovelhas ronhosas.

Rente à noite, à hora de recolher ao redil, com a chocalhada a tilintar, algumas ficaram para trás, mais que o habitual. Os cães estavam lá para a frente e parecia que tinham deixado de as sentir. O pastor não podia pôr a vista em cima de todas elas. Cireneu levava um varapau. Aproximou-se, por trás do rebanho, em sentido contrário ao do vento para que os cães não o farejassem. Ia cosido aos carvalhos novos existentes no cômoro, que dividia os leirões. As sombras adensavam-se com a aproximação da noite.

Saltou repentinamente sobre a mais atrasada que até mancava um pouco. Lançou-lhe uma paulada à cabeça e a ovelha caiu redonda. Agachou-se uns minutos entre a folhagem dos carvalhos, esperou que o rebanho, os cães e o pastor se afastassem, até desaparecerem. Pôs a ovelha às costas e sumiu-se na canada que passava no pinhal, logo em riba. Subiu e foi direito à sua lapa. Tinha que ir a correr. Talvez ainda conseguisse sangrar o animal. Depois esfolou-o, limpou-o, pôs-lhe sal e secou-o ao fogo.

Cortou uma massa traseira que acabou de assar na brasa retirada do lume que crepitava. E enrolou o resto da carcaça em rama de laranjeira, pendurou-a num ponto alto da gruta, por cima da lareira, para que animal algum terrestre lhe chegasse e onde continuava ao fumeiro. Assim tentava conservar as reses. Em todo o caso, convinha comer a carne no espaço de alguns dias para não correr o risco que se deteriorasse.

Não podia deixar de ser incerta a vida deste homem, a quem chamavam Cireneu. Em determinadas alturas do ano havia fartura, mas podiam seguir-se-lhe outras de fome. Andava muitas vezes debilitado.

E havia-se acabado a carne de uma cabra que lhe tinha servido de refeição por vários dias. Não havia muita fruta pelos campos. Decidiu dar uma volta, a ver no que paravam as modas, que é como quem diz, na procura de qualquer coisa de substancial que pudesse trincar. A fome apertava e arriscou descer cá abaixo até à zona das hortas.

Seguia por uma vereda estreita, com cautela, como era seu hábito. Como conhecia bem o terreno, calculava todos os riscos. Não era costume enganar-se muito porque um erro podia custar-lhe a liberdade. E a prova é que, em tanto tempo de aventura e arrojo, ainda ninguém lhe tinha deitado a mão ao gasganete. Das muitas vezes que lhe deram caça, como se fosse um animal a abater, encontrou sempre uma porta por onde sair da encrenca. De tanto andar pelos matos e pelas serras, furtivo, tinha ganho as manhas do lobo, a sagacidade da raposa, o faro do cão e os olhos do lince. Reunia em si as virtualidades de vários bichos montanheses.

Viu, então, ao fundo da vereda onde caminhava, a uns bons metros de distância, o que lhe pareceu ser uma criança, uma menina. Não teria mais que os seus 9 ou 10 anitos. Trazia uma cesta à cabeça. A avaliar pela altura do sol, seria pela hora do meio-dia velho.

Aproximou-se. A criança tinha já passado muitas vezes naquele carreiro, que levava à horta, onde começara a ir era ainda criança de berço, levada pela mãe embrulhada num pequeno cesto de verga. Não se assustou quando viu o Cireneu. Fosse porque o local lhe era muito familiar, fosse porque as crianças projetam nos outros a sua própria inocência e não avaliam o perigo, se não perscrutarem nos adultos intenção de agressividade. É mais fácil tornarem-se assustadiços se os virem em pânico. E, afinal, aquele era o caminho que levava à horta, ali tão próximo! O Cireneu falou-lhe calma e tranquilamente, o que parece tê-la sossegado:  

— Então, minha menina, o que levas aí nessa cesta?

A miúda que, na sua pequenez, parecia inteligente e era graciosa, deu uma resposta a condizer:
— Vou levar o jantar ao meu pai que anda ali na horta a trabalhar! — disse, despachada.

— Ah! Então, importas-te que eu veja o que levas aí para o jantar do teu pai? — e quase em simultâneo, fez um gesto muito delicado, pegando na cesta que a menina transportava.
— Vá, não tenhas medo, deixa ver.

A miúda não só não ofereceu qualquer resistência ou ficou ansiosa como, por momentos, parece ter intuído, mesmo sendo de tão tenra idade, que se tratava de um pobre que apenas queria matar a fome. Já tinha aprendido na catequese que devemos partilhar os nossos haveres com os pobrezinhos. E deixou que o homem pegasse na cesta. Cireneu ganhara a confiança da petiz.
Tirou a toalha bordada muito limpa que ia por cima, a tapar o jantar. Abriu a lancheira da sopa, serviu-se da colher e comeu metade. Pegou no garfo e fez depois o mesmo com a lancheira das batas cozidas com couve e morcela. Por fim, tirou um naco de broa. Voltou a acondicionar tudo na cesta e tapou novamente com a toalha, delicadamente.

— Como viste, comi metade do jantar do teu pai. Vá, minha menina, agora segue o teu caminho e vai levar a outra metade ao teu pai que, como eu, também deve estar com fome. Anda, vai lá, minha menina. Mas, antes, toma lá.

E pendurou nos lóbulos das orelhas da criança um par brincos de ouro reluzente! Voltou a pôr a cesta do jantar à cabeça da menina que seguiu o seu destino.

Ora, o inverno obrigava a uma grande acalmia nas idas à serra. O frio e os nevões assim o ditavam. A planta que dava a palha para as vassouras, capachos e seiras, ainda verde e raquítica, encontrava-se gelada e não medrava. Mas passado esse período, vendida a maioria dos artefactos, o da vila lá voltava, por várias vezes, na primavera, no verão e mesmo no outono para se abastecer. E continuou ainda a encontrar o Cireneu na sua lapa. Levava sempre tabaco para partilharem, em amena cavaqueira, sem esperar que o outro o compensasse. E, de facto, que se saiba, isso nunca aconteceu.

Certo ano, após uma dessas pausas de inverno, subiu à serra na primavera, como costumava. Já não viu o Cireneu. Tinha desaparecido!

A menina continuou também a ir à horta levar o jantar ao pai. Nunca mais deparou com o foragido. E não consta que alguém tivesse voltado a falar dele pelas bandas da Gardunha.

O homem foi, ficou a lenda.   

José Barroso


Observações:

Sabe-se muito pouco sobre a vida deste personagem que varreu a Gardunha, como aventureiro e marginal, a que chamavam Cireneu.

Não se conhecem factos, confundindo-se, por isso, a ficção e a realidade, como aqui temos dito.
Estas figuras, com algo de dramático e romântico, são comuns a essas serras de Portugal. O mais conhecido será o Zé do Telhado, cuja vida já deu em filme — supõe-se que o apelido não tem origem na aldeia do concelho do Fundão, com o mesmo nome.

Esta história, foi-me contada pelo Ti’ Aurélio Moreira que, infelizmente, já não está connosco e, mais recentemente, pelo Ti’ Albino Moreira que, pensava eu, poderia adiantar mais alguma coisa ao caso. Mas os dados são os mesmos nas duas versões e resumem-se a dois pormenores: o primeiro, é que o Ti’ João da Tonina sabia da lapa do Cireneu. Este prometeu-lhe que se ele não revelasse o local e lhe levasse o tabaquito, ainda faria dele um homem rico, visto que poderia obter peças de valor nos assaltos que fazia às casas ricas da vila e arredores. O segundo, é o da menina que ia levar o jantar ao pai. Cireneu comeu metade do jantar e, como paga, pôs-lhe uns brincos de ouro nas orelhas.

Associado a algumas destas personagens — v.g. Zé do Telhado e Cireneu — porque se dizia que roubavam aos ricos e davam aos pobres, está um sentido de justiça que representa a ansiedade de todos nós, no meio das tramoias do mundo. E também porque se opõem sempre ao poder instituído, por norma, opressor. Daí o enorme sucesso das aventuras de Robin dos Bosques, que praticava este tipo de justiça popular, tanto mais que o fazia perante um usurpador. São incontáveis as vezes que foi transposto para o grande ecrã. 

Assim nascem os mitos. 

JB

Notas:

(1)     Cireneu. Simão de Cirene. Homem que, segundo os Evangelhos, os soldados romanos obrigaram a levar a cruz de Jesus, a parir de certo ponto da Via Sacra, até ao Calvário, dada a debilidade física do Condenado. Tanto quanto se percebe, este homem parece não ser muito bem quisto pela Igreja mais tradicional. O nome popularizou-se também com outras grafias, mas sempre com uma certa carga negativa (daí o nome deste fora da lei da Gardunha), como ‘Sarineu’ ou ‘Cerineu’. Mas o nome gentílico correto é como se indica no texto, ‘Cireneu’, porque era originário de Cirene, cidade do norte de África, hoje Líbia (?).

(2)     O almoço, logo pela manhã cedo, tinha que ser substancial para se enfrentar o trabalho pesado. Podia variar mas, normalmente, compunha-se de um prato de miga ou de feijão pequeno cozido com toucinho ou morcela ou batatas fritas com chouriço ou morcela. Também podia ser café com leite e pão ou broa com queijo; ou mesmo só leite, onde se migava a broa, podendo misturar-se um pouco de açúcar amarelo ou mel. Dava energias pelo menos até meio da manhã. Por essa hora, habitualmente, podia comer-se um pedaço de pão com queijo ou azeitonas e beber água apanhada numa mina próxima. O jantar era pelo meio dia, podendo seguir-se ou não a sesta. À noite tinha lugar a ceia.

4 comentários:

José Teodoro Prata disse...

Perdera o rasto ao José Barroso, mas depois soube que se retirara para o Cabeço do Padre Teodoro.
Então tive a certeza de que andava a escrever, só não sabia se o romance que um dia ele vai escrever ou se ainda a treinar.
Mais uma excelente história, para preservar o nosso património imaterial.

Anônimo disse...

…Mas, do Cabeço do Padre Teodoro, teve que subir à Serra! Só ela poderia acrescentar ao talento inato do Zé Barroso a inspiração para escrever esta história que me deixou sem fôlego e, para já, sem mais palavras.
Parabéns, Zé, e obrigada por partilhares connosco o teu sentir e o conhecimento que tens das especificidades da cultura da nossa terra.

M. L. Ferreira

Ernesto Hipólito disse...

Zé Barroso.
Tens aqui um lindo trabalho.
Parabéns rapaz!.

E.H.

Anônimo disse...

Não sei se é pelas histórias do Zé Barroso, se é pelas do João Aguiar, se é por lá ter sido criado, se é por ficarem mais perto do Céu... que as serras exercem em mim um enorme fascínio.
Agradeço ao meu primo, por continuar a alimentar esse fascínio com uma trama e uma linguagem de mestre, num dos locais mais românticos da nossa Beira e que me deixou deveras encantado.
FBarroso