quarta-feira, 17 de maio de 2017

Aos domingos

O domingo era o dia do descanso das lides do campo e da confraternização com a família. Era sobretudo religioso: ir à missa era um compromisso a que ninguém se atrevia a faltar. Envergava-se o melhor fato. As mulheres cobriam a cabeça com um véu arrendado. A igreja enchia-se: os homens ao fundo, no coro e nos camarins, as mulheres nos bancos e à frente as crianças, nos primeiros bancos e nos degraus de madeira dos altares, sob o olhar vigilante das catequistas, a Menina Amélia, a Menina Graça a tia Estela Passaraça e a Menina Maria de Jesus. As meninas ficavam todas juntas, com os seus vestidinhos engomados e com o lencinho de assoar bordado, preso na mão. A missa demorava, algumas pessoas adormeciam, no abandono do corpo enfim repousado e aconchegado pelo calor e pelo já longo sermão, previamente elaborado, do pároco.
À saída da missa todas as pessoas se concentravam em redor da igreja, agrupando-se para cumprimentar os familiares e para por a conversa em dia. Lembro-me de ser muito pequena e olhar em redor e ver um mar de saias compridas e já não saber qual era a da minha mãe. Cumprimentavam-se os familiares, reviam-se tios e tias, avós e netos, recebiam-se carinhos e palavras calorosas. Os homens dirigiam-se para a taberna, com os filhos ainda rapazitos a reboque e confraternizavam, acompanhados de um copito de vinho, onde por vezes se perdiam, até tarde.
No muro da praça, alguns agricultores vendiam fruta da época. A mãe comprava-nos um dióspiro ou uma romã a cada um que sabiam a pouco e nos ajudava à subida da quelha, no regresso a casa. E no tempo das melancias, era com cada uma, enormes, vermelhinhas e suculentas. Estas, era o pai que as comprava e carregava ao ombro, quelha acima.
Da parte da tarde, por vezes, íamos visitar os avós maternos à Oriana. Fazenda enorme soalheira e fértil situada na parte sul da vila. A casa ficava situada mesmo junto à estrada nova, pelas traseiras e a frente virada para sul, com uma varanda corrida de madeiras cruzadas em losangos, entrelaçadas por trepadeiras, cravos e cravinas bem cheirosas. As flores preenchiam também parte dos muros que dividiam os leirões e que em certas alturas do ano se enchiam de cores.
Juntávamo-nos aos tios e tias, que ficavam a conversar, enquanto os miúdos se entretinham nas brincadeiras. Às tantas, o avô João Prata pedia à avó para ir ao forro buscar fruta para dar aos netos. A avó Doroteia subia os degraus largos de madeira da escadaria que levava ao forro. Lá em cima no soalho, estendiam-se as maçãs sobre a palha que assim se conservavam nos meses de inverno. Encostadas à parede, arcas enormes de madeira onde eram guardados os cereais. Ao lado, as bilhas de zinco com o azeite. Então a avó descia a escada com uma abada de fruta e distribuía pelos pequenos. Mas estes, rebeldes e ainda insatisfeitos, corriam pelos leirões abaixo que se estendiam desde a casa até ao ribeiro, férteis, salpicados de cores, transformados em pomares onde as laranjeiras, carregadinhas de laranjas, abundavam.
No lameiro, altos arbustos em flor, como o noveleiro, carapeteiro e roseiras, ladeavam a represa que ligava o ribeiro ao tanque a transbordar de água límpida, para a rega. Era ali também que as mulheres da casa lavavam a roupa, por vezes na companhia de amigas mais próximas, tempo também aproveitado para conviverem e trocarem confidências.
Os pequenos assaltavam as laranjeiras e tiravam a barriga de misérias e iam atirando algumas aos mais pequenos, que ficavam em baixo, à espera. A avó Doroteia perseguia-os, gritava com eles e punha-os em fuga.
A avó era uma mulher que vivia no seu mundo silencioso, habituada ao trabalho e à obediência ao marido. O avô era um homem inteligente e trabalhador, mas firme no carácter. Deu o seu melhor aos filhos, trabalho e também a educação possível para a época e permitiu-lhes crescer trabalhando no amanho das terras, que eram o sustento da família, ou aprendendo um ofício.
Noutros domingos íamos visitar os avós paternos, no Casal da Fraga: o avô Francisco e a avó Maria do Rosário. Eram pessoas humildes e com um enorme coração. Havia sempre uma fatia de pão com queijo fresco para os netinhos.
Em cada família das tias do Casal e na nossa, havia um domingo por ano que era o dia da matação. Toda a família se juntava: logo de manhã, os homens chegavam para matar e pendurar o porco, mais tarde chegavam as mulheres que, após um farto almoço com toda a família, iam lavar as tripas ao ribeiro, cortar as carnes, temperá-las e tratar dos enchidos. Após uns dias era ver o fumeiro junto ao tecto da cozinha por cima da lareira, com as morcelas, as chouriças, os chouriços e as farinheiras, que emanavam um cheirinho de fazer crescer água na boca.
Também havia o domingo de Páscoa, da Ressurreição. As famílias limpavam cuidadosamente as casas e enfeitavam-nas com flores. O padre Branco com as suas vestes brancas levava a água benta. O Sacristão, o sr. António Maria, com a sua batina vermelha, levava a Cruz de Cristo, toda enfeitada com flores. Os donos da casa mais os familiares próximos faziam um círculo à volta da sala e era-lhes dado o Cristo a beijar. A casa era abençoada pelo Padre, com a água benta. Os pequenos corriam de casa em casa a beijar Nosso Senhor e iam comendo e enchendo os bolsos com os doces e tremoços, que cobriam as mesas.
E no domingo da Senhora da Orada? Era uma alegria. Na véspera tratava-se da merenda, onde não faltava o frango frito e os ovos verdes. Na manhã de domingo, todas as veredas, caminhos e estradas, desde São Vicente e povoações dos arredores, se enchiam de peregrinos, carregados com as cestas do almoço, na mão ou à cabeça, cantarolando, em direcção à ermida. Ao aproximarem-se, já se ouvia o padre e os fiéis a rezarem o terço. Toda a zona envolvente se enchia de barraquinhas, onde se vendiam guloseimas e brinquedos para regalo da pequenada. As mães não podiam deixar de comprar aos pequenos a Nossa Senhora de Açúcar, que era pendurada ao pescoço por uma fita e depois comida no regresso a casa. As pessoas enchiam o terreiro da capela, para ouvir a missa, sob a sombra das grandes amoreiras, no chão, um tapete de flores branquinhas. A seguir à procissão, as famílias procuravam-se e juntavam-se para almoçar: estendia-se uma manta de trapos no chão, à sombra de pinheiros ou amieiros, no meio de mato florido ou relva, o barulho da água a cantarolar no ribeiro e dos passarinhos a cantar. Por cima estendia-se a toalha, onde se colocava a merenda. As famílias sentavam-se em redor, comia-se com vontade e convivia-se.
Quando já era mais crescida, nos domingos à tarde e com a difícil e conseguida permissão dos pais e com a promessa de regressar antes de se fazer noite, ia sair com as minhas amigas. As conversas aconteciam na Praça, na Fonte Velha e por vezes no café da beira da estrada, onde bebíamos uma coca-cola, uma Pepsi ou uma Seven-Up, acompanhada com um prato de amendoins. Quantos namoros começaram assim!
Dávamos passeios na estrada nova, por vezes com alguns rapazes no encalço, uns metros atrás. Mandavam olhares comprometedores e piropos. Havia risos entre os grupos, por vezes trocistas. Nas árvores da estrada eram gravados nomes, corações, juras de amor.
Sentávamo-nos na Praça e jogávamos ao anel e ao lenço, com os rapazes. Era o ponto de partida para uma aproximação entre rapazes e raparigas.
À tardinha quase ao por do sol com o tempo bom, havia baile na Praça, no cantinho, ao pé do café da tia Janja. O César montava a aparelhagem que ligava ao café e punha o funil na árvore do canto da Praça que se enchia com músicas e alegria.
As raparigas sentavam-se de um lado e os rapazes do outro, dançávamos Rock and Roll em grupo, slows e corridinhos. Quando a música era para dançar a dois, os rapazes faziam sinal à rapariga ao longe, ou iam busca-la, se se sentissem seguros. Dançáva-se ao som dos ABBA e outras músicas então em voga. Era então o tempo do despertar de novas emoções, de incendiar as paixões, dos encontros e desencontros.
Quando estava muito frio e chuva, o baile fazia-se num salão ao pé da capela de São Sebastião. Este era também utilizado para teatro e projecção de filmes, o cinema ambulante. As bancadas eram feitas com tábuas de madeira corridas, o filme era projectado num grande papel branco ou um pano a cobrir o palco. Lembro-me do filme que me impressionou e vi naquela sala: O Tubarão. Uma delícia e uma saudade enorme daqueles domingos.


Tina Teodoro

8 comentários:

Anônimo disse...

De maneiras que era assim...consolei-me com as maçãs do forro, com as morcelas de assar na matança do porco, com a merenda da Sr.ª da Orada e com a tua escrita, não menos saborosa.
Obrigado Tina por este bom momento.
FB

Anônimo disse...

Tal qual como no meu tempo, um bom par de anos antes! A missa ao domingo, os passeios na Estrada Nova, os bailes na Praça ou na Fonte Velha, as promessas de amor escritas nas árvores, as sessões de cinema na tal sala de S. Sebastião, as santinhas de açúcar, a fruta amadurecida na palha. Parece que foi ontem, e já lá vai tanto tempo…
Sobre a casa dos avós Prata, lembro-me de um dia à noite, penso que já estava a dormir, ouvirmos os sinos tocar a rebate. Toda a gente saltou da cama e, em menos de nada, as ruas encheram-se de pessoas com cântaros e baldes na mão a caminho da Oriana. Em pouco tempo o fogo foi apagado e, pelas memórias da Tina, a casa não terá ficado muito afetada e depressa a varanda ficou novamente florida.

M. L. Ferreira

José Teodoro Prata disse...

Só arderam os acrescentos (anexos) em madeira: a cozinha, onde o fogo começou, e a varanda. Na estrutura em pedra, que ainda hoje existe, o fogo não entrou. Graças ao povo que tão prontamente ocorreu. Por precaução, tiraram os meus avós pela janela que dá para a estrada.
A varanda, virada a sul, a todo o comprimento da casa, dava-lhe um ar de casa rural de agricultor remediado.
Por baixo da varanda, ficava o galinheiro, por onde tínhamos de passar para ir para a loja onde estavam o vinho e as laranjas (em cama de palha).
No Casal da Fraga havia uma casa com uma varanda igual (a todo o comprimento da casa e também virada a sul). Esteve muitos anos em ruínas, não sei se ainda está. Situa-se entre os casais da Fraga e dos Ramos, abaixo da estrada.
Na casa dos meus avó paternos, no Casal da Fraga, a singularidade estava na lareira. Era um retângulo um degrau abaixo do nível do chão, acendendo-se o lume no lado junto à parede exterior e sentando-se as pessoas em todo o restante perímetro do retângulo. Não será isto uma herança da arquitetura muçulmana/mediterrânica?
Sempre lamentei não ter feito uma igual na minha casa. Ao adaptarmo-nos aos condicionalismos da vida moderna, deixamos para trás formas ancestrais de viver.
A este propósito, veio-me à lembrança o forno do tio Miguel e da tia Ana, na Barroca (agora do neto João), que visitámos no passeio de há dois anos. É todo forrado em pedra, não em tijolo como habitualmente.

Marco Oliveira disse...

Muito obrigado por esta viagem escrita na nossa Vila em tempos antepassados ao meu. Consegui imaginar.me pelas ruas nesses tempos. Marco Oliveira

Anônimo disse...

Aqui no Casal não conheço (ainda hei de ver melhor), mas na Partida ainda se vêem algumas casas com esse tipo de varandas. São muito bonitas, mas estão já em ruínas.
Sobre as lareiras com um desnível relativamente ao chão, eram comuns naquele tempo. Lembro-me que havia uma assim na casa dos meus avós maternos, na rua de S. Francisco (a casa que pertence agora à Joana e ao João) e na casa do meu avô paterno, na rua da Igreja.
Parece que o comer à mesa é um costume relativamente recente nas classes mais pobres. Até há pouco tempo as famílias só se sentavam à mesa em dias de festa e nas matações. Nos dias comuns comia-se à roda do lume, sentados em bancos ou nesse desnível da lareira. No verão, enquanto se faziam as sementeiras ou as colheitas, comia-se quase sempre no campo, sentados no chão ou numa pedra.
A este propósito, o ti Zé Barata, do Violeiro, contou-me que quando era pequeno se sentavam todos à volta do barranhão (caçolo de barro) e, cada um na sua vez, iam tirando uma colherada de sopa. No fim, quando já não havia couves, pegavam no barranhão e iam-no rodando por todos para beberem o caldo.

M. L. Ferreira

Morgaine disse...

Não contaste a história do chicharro,quando íamos todos para a rua comer peixe com batatas,e ficavam as espinhas na rua para os gatos.
Ass.:Maria de Fátima

José Teodoro Prata disse...

Fátima:
Acho que a Tina é demasiado nova para as cabeças de chicharro...

Anônimo disse...

Eu ainda me lembro do chicharro, mas não aos domingos. Nos domingos eram aqueles estufados deliciosos de galinha com legumed ou coelho.
Luzita